Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA VII                                  




frica sob dominao
colonial,1880-1935
EDITOR ALBERT ADU BOAHEN




UNESCO Representao no BRASIL
Ministrio da Educao do BRASIL
Universidade Federal de So Carlos
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica


HISTRIA GERAL DA FRICA  VII
      frica sob dominao colonial,
                1880-1935
Coleo Histria Geral da frica da UNESCO

Volume I        Metodologia e pr-histria da frica
                (Editor J. Ki-Zerbo)

Volume II       frica antiga
                (Editor G. Mokhtar)

Volume III      frica do sculo VII ao XI
                (Editor M. El Fasi)
                (Editor Assistente I. Hrbek)

Volume IV       frica do sculo XII ao XVI
                (Editor D. T. Niane)

Volume V        frica do sculo XVI ao XVIII
                (Editor B. A. Ogot)

Volume VI       frica do sculo XIX  dcada de 1880
                (Editor J. F. A. Ajayi)

Volume VII      frica sob dominao colonial, 1880-1935
                (Editor A. A. Boahen)

Volume VIII frica desde 1935
            (Editor A. A. Mazrui)
            (Editor Assistente C. Wondji)




Os autores so responsveis pela escolha e apresentao dos fatos contidos neste livro,
bem como pelas opinies nele expressas, que no so necessariamente as da UNESCO,
nem comprometem a Organizao. As indicaes de nomes e apresentao do
material ao longo deste livro no implicam a manifestao de qualquer opinio por parte
da UNESCO a respeito da condio jurdica de qualquer pas, territrio, cidade, regio
ou de suas autoridades, tampouco da delimitao de suas fronteiras ou limites.
Comit Cientfico Internacional da UNESCO para Redao da Histria Geral da frica




HISTRIA GERAL
DA FRICA  VII
frica sob dominao
colonial, 1880-1935
EDITOR AlbERT ADu bOAhEn




                      Organizao
               das Naes Unidas
                  para a Educao,
              a Cincia e a Cultura
Esta verso em portugus  fruto de uma parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil, a
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao do
Brasil (Secad/MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).

Ttulo original: General History of Africa, VII: Africa under colonial domination, 1880-1935. Paris:
UNESCO; Berkley, CA: University of California Press; London: Heinemann Educational
Publishers Ltd., 1985. (Primeira edio publicada em ingls).

 UNESCO 2010 (verso em portugus com reviso ortogrfica e reviso tcnica)

Coordenao geral da edio e atualizao: Valter Roberto Silvrio
Reviso tcnica: Kabengele Munanga
Preparao de texto: Eduardo Roque dos Reis Falco
Reviso e atualizao ortogrfica: M. Corina Rocha
Projeto grfico e diagramao: Marcia Marques / Casa de Ideias; Edson Fogaa e Paulo Selveira /
UNESCO no Brasil




     Histria geral da frica, VII: frica sob dominao colonial, 1880-1935 / editado por
           Albert Adu Boahen.  2.ed. rev.  Braslia : UNESCO, 2010.
           1040 p.

          ISBN: 978-85-7652-129-7

          1. Histria 2. Histria contempornea 3. Histria africana 4. Culturas africanas
     5. Colonialismo 6. Resistncia  opresso 7. Nacionalismo 8. frica I. Adu Boahen, Albert
     II. UNESCO III. Brasil. Ministrio da Educao IV. Universidade Federal de So Carlos


Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura (UNESCO)
Representao no Brasil
SAUS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, 9 andar
70070-912  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2106-3500
Fax: (55 61) 3322-4261
Site: www.unesco.org/brasilia
E-mail: grupoeditorial@unesco.org.br

Ministrio da Educao (MEC)
Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (Secad/MEC)
Esplanada dos Ministrios, Bl. L, 2 andar
70047-900  Braslia  DF  Brasil
Tel.: (55 61) 2022-9217
Fax: (55 61) 2022-9020
Site: http://portal.mec.gov.br/index.html

Universidade Federal de So Carlos (UFSCar)
Rodovia Washington Luis, Km 233  SP 310
Bairro Monjolinho
13565-905  So Carlos  SP  Brasil
Tel.: (55 16) 3351-8111 (PABX)
Fax: (55 16) 3361-2081
Site: http://www2.ufscar.br/home/index.php

Impresso no Brasil
                                         SUMRIO




Apresentao ...............................................................................................VII
Nota dos Tradutores ..................................................................................... IX
Cronologia.................................................................................................... XI
Lista de Figuras ......................................................................................... XIII
Prefcio ...................................................................................................... XIX
Apresentao do Projeto .......................................................................... XXV

Captulo 1 A frica diante do desafio colonial ........................................... 1
Captulo 2 Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral ......... 21
Captulo 3 Iniciativas e resistncia africanas em face da partilha e da
           conquista .................................................................................. 51
Captulo 4 Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica .......... 73
Captulo 5 Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no
           Saara ........................................................................................ 99
Captulo 6 Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental,
           1880-1914 ............................................................................. 129
Captulo 7 Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental,
           1880-1914 ............................................................................. 167
Captulo 8 Iniciativas e resistncia africanas na frica central,
           1880-1914 ............................................................................. 191
VI                                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



Captulo 9 Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional .......... 219
Captulo 10 Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas
               conquista e  dominao coloniais .................................... 251
Captulo 11 Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois
              Estados africanos ................................................................. 281
Captulo 12 A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias .............. 319
Captulo 13 A dominao europeia: mtodos e instituies .................... 353
Captulo 14 A economia colonial ............................................................ 377
Captulo 15 A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas
              e portuguesas (1914-1935) .................................................. 401
Captulo 16 A economia colonial: as antigas zonas britnicas ................. 437
Captulo 17 Economia colonial: a frica do norte .................................. 485
Captulo 18 As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos
              demogrficos ........................................................................ 529
Captulo 19 Repercusses sociais da dominao colonial: novas
              estruturas sociais .................................................................. 567
Captulo 20 A religio na frica durante a poca colonial ...................... 591
Captulo 21 As artes na frica durante a dominao colonial ................ 625
Captulo 22 A poltica e o nacionalismo africanos, 1919-1935 ............... 657
Captulo 23 Poltica e nacionalismo no nordeste da frica,
              1919-1935............................................................................ 675
Captulo 24 Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara,
              1919-1935............................................................................ 703
Captulo 25 Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935 ...... 727
Captulo 26 Poltica e o nacionalismo na frica oriental,
              1919-1935............................................................................ 757
Captulo 27 Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional,
              1919-1935............................................................................ 787
Captulo 28 A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos
              independentes na era colonial .............................................. 833
Captulo 29 A frica e o Novo Mundo .................................................. 875
Captulo 30 O colonialismo na frica: impacto e significao ............... 919
Membros do Comit Cientfico Internacional para a Redao
de uma Histria Geral da frica ............................................................... 951
Dados biogrficos dos autores do volume VII .......................................... 953
Abreviaes e lista de peridicos ............................................................... 957
Referncias bibliogrficas .......................................................................... 961
ndice remissivo ....................................................................................... 1009
APRESENTAO                                                                          VII




                       APRESENTAO



   "Outra exigncia imperativa  de que a histria (e a cultura) da frica devem pelo menos ser
   vistas de dentro, no sendo medidas por rguas de valores estranhos... Mas essas conexes
   tm que ser analisadas nos termos de trocas mtuas, e influncias multilaterais em que algo
   seja ouvido da contribuio africana para o desenvolvimento da espcie humana". J. Ki-Zerbo,
   Histria Geral da frica, vol. I, p. LII.

    A Representao da UNESCO no Brasil e o Ministrio da Educao tm a satis-
fao de disponibilizar em portugus a Coleo da Histria Geral da frica. Em seus
oito volumes, que cobrem desde a pr-histria do continente africano at sua histria
recente, a Coleo apresenta um amplo panorama das civilizaes africanas. Com sua
publicao em lngua portuguesa, cumpre-se o objetivo inicial da obra de colaborar para
uma nova leitura e melhor compreenso das sociedades e culturas africanas, e demons-
trar a importncia das contribuies da frica para a histria do mundo. Cumpre-se,
tambm, o intuito de contribuir para uma disseminao, de forma ampla, e para uma
viso equilibrada e objetiva do importante e valioso papel da frica para a humanidade,
assim como para o estreitamento dos laos histricos existentes entre o Brasil e a frica.
    O acesso aos registros sobre a histria e cultura africanas contidos nesta Coleo se
reveste de significativa importncia. Apesar de passados mais de 26 anos aps o lana-
mento do seu primeiro volume, ainda hoje sua relevncia e singularidade so mundial-
mente reconhecidas, especialmente por ser uma histria escrita ao longo de trinta anos
por mais de 350 especialistas, sob a coordenao de um comit cientfico internacional
constitudo por 39 intelectuais, dos quais dois teros africanos.
    A imensa riqueza cultural, simblica e tecnolgica subtrada da frica para o conti-
nente americano criou condies para o desenvolvimento de sociedades onde elementos
europeus, africanos, das populaes originrias e, posteriormente, de outras regies do
mundo se combinassem de formas distintas e complexas. Apenas recentemente, tem-
se considerado o papel civilizatrio que os negros vindos da frica desempenharam
na formao da sociedade brasileira. Essa compreenso, no entanto, ainda est restrita
aos altos estudos acadmicos e so poucas as fontes de acesso pblico para avaliar este
complexo processo, considerando inclusive o ponto de vista do continente africano.
VIII                                                      frica sob dominao colonial, 1880-1935



    A publicao da Coleo da Histria Geral da frica em portugus  tambm resul-
tado do compromisso de ambas as instituies em combater todas as formas de desigual-
dades, conforme estabelecido na Declarao Universal dos Direitos Humanos (1948),
especialmente no sentido de contribuir para a preveno e eliminao de todas as formas
de manifestao de discriminao tnica e racial, conforme estabelecido na Conveno
Internacional sobre a Eliminao de todas as Formas de Discriminao Racial de 1965.
    Para o Brasil, que vem fortalecendo as relaes diplomticas, a cooperao econ-
mica e o intercmbio cultural com aquele continente, essa iniciativa  mais um passo
importante para a consolidao da nova agenda poltica. A crescente aproximao com
os pases da frica se reflete internamente na crescente valorizao do papel do negro
na sociedade brasileira e na denncia das diversas formas de racismo. O enfrentamento
da desigualdade entre brancos e negros no pas e a educao para as relaes tnicas
e raciais ganhou maior relevncia com a Constituio de 1988. O reconhecimento da
prtica do racismo como crime  uma das expresses da deciso da sociedade brasileira
de superar a herana persistente da escravido. Recentemente, o sistema educacional
recebeu a responsabilidade de promover a valorizao da contribuio africana quando,
por meio da alterao da Lei de Diretrizes e Bases da Educao Nacional (LDB) e
com a aprovao da Lei 10.639 de 2003, tornou-se obrigatrio o ensino da histria e
da cultura africana e afro-brasileira no currculo da educao bsica.
    Essa Lei  um marco histrico para a educao e a sociedade brasileira por criar, via
currculo escolar, um espao de dilogo e de aprendizagem visando estimular o conheci-
mento sobre a histria e cultura da frica e dos africanos, a histria e cultura dos negros
no Brasil e as contribuies na formao da sociedade brasileira nas suas diferentes
reas: social, econmica e poltica. Colabora, nessa direo, para dar acesso a negros e
no negros a novas possibilidades educacionais pautadas nas diferenas socioculturais
presentes na formao do pas. Mais ainda, contribui para o processo de conhecimento,
reconhecimento e valorizao da diversidade tnica e racial brasileira.
    Nessa perspectiva, a UNESCO e o Ministrio da Educao acreditam que esta publica-
o estimular o necessrio avano e aprofundamento de estudos, debates e pesquisas sobre
a temtica, bem como a elaborao de materiais pedaggicos que subsidiem a formao
inicial e continuada de professores e o seu trabalho junto aos alunos. Objetivam assim com
esta edio em portugus da Histria Geral da frica contribuir para uma efetiva educao
das relaes tnicas e raciais no pas, conforme orienta as Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Educao das Relaes tnico-Raciais e para o Ensino da Histria e Cultura Afro-
brasileira e Africana aprovada em 2004 pelo Conselho Nacional de Educao.

Boa leitura e sejam bem-vindos ao Continente Africano.

             Vincent Defourny                              Fernando Haddad
 Representante da UNESCO no Brasil Ministro de Estado da Educao do Brasil
NOTA DOS TRADUTORES                                                        IX




          NOTA DOS TRADUTORES




    A Conferncia de Durban ocorreu em 2001 em um contexto mundial dife-
rente daquele que motivou as duas primeiras conferncias organizadas pela
ONU sobre o tema da discriminao racial e do racismo: em 1978 e 1983 em
Genebra, na Sua, o alvo da condenao era o apartheid.
    A conferncia de Durban em 2001 tratou de um amplo leque de temas, entre
os quais vale destacar a avaliao dos avanos na luta contra o racismo, na luta
contra a discriminao racial e as formas correlatas de discriminao; a avaliao
dos obstculos que impedem esse avano em seus diversos contextos; bem como
a sugesto de medidas de combate s expresses de racismo e intolerncias.
    Aps Durban, no caso brasileiro, um dos aspectos para o equacionamento
da questo social na agenda do governo federal  a implementao de polticas
pblicas para a eliminao das desvantagens raciais, de que o grupo afrodescen-
dente padece, e, ao mesmo tempo, a possibilidade de cumprir parte importante
das recomendaes da conferncia para os Estados Nacionais e organismos
internacionais.
    No que se refere  educao, o diagnstico realizado em novembro de 2007,
a partir de uma parceria entre a UNESCO do Brasil e a Secretaria de Educao
Continuada, Alfabetizao e Diversidade do Ministrio da Educao (SECAD/
MEC), constatou que existia um amplo consenso entre os diferentes participan-
tes, que concordavam, no tocante a Lei 10.639-2003, em relao ao seu baixo
grau de institucionalizao e sua desigual aplicao no territrio nacional. Entre
X                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



os fatores assinalados para a explicao da pouca institucionalizao da lei estava
a falta de materiais de referncia e didticos voltados  Histria de frica.
    Por outra parte, no que diz respeito aos manuais e estudos disponveis sobre
a Histria da frica, havia um certo consenso em afirmar que durante muito
tempo, e ainda hoje, a maior parte deles apresenta uma imagem racializada e
eurocntrica do continente africano, desfigurando e desumanizando especial-
mente sua histria, uma histria quase inexistente para muitos at a chegada
dos europeus e do colonialismo no sculo XIX.
    Rompendo com essa viso, a Histria Geral da frica publicada pela UNESCO
 uma obra coletiva cujo objetivo  a melhor compreenso das sociedades e cul-
turas africanas e demonstrar a importncia das contribuies da frica para a
histria do mundo. Ela nasceu da demanda feita  UNESCO pelas novas naes
africanas recm-independentes, que viam a importncia de contar com uma his-
tria da frica que oferecesse uma viso abrangente e completa do continente,
para alm das leituras e compreenses convencionais. Em 1964, a UNESCO
assumiu o compromisso da preparao e publicao da Histria Geral da frica.
Uma das suas caractersticas mais relevantes  que ela permite compreender
a evoluo histrica dos povos africanos em sua relao com os outros povos.
Contudo, at os dias de hoje, o uso da Histria Geral da frica tem se limitado
sobretudo a um grupo restrito de historiadores e especialistas e tem sido menos
usada pelos professores/as e estudantes. No caso brasileiro, um dos motivos
desta limitao era a ausncia de uma traduo do conjunto dos volumes que
compem a obra em lngua portuguesa.
    A Universidade Federal de So Carlos, por meio do Ncleo de Estudos
Afrobrasileiros (NEAB/UFSCar) e seus parceiros, ao concluir o trabalho de
traduo e atualizao ortogrfica do conjunto dos volumes, agradece o apoio
da Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e Diversidade (SECAD),
do Ministrio da Educao (MEC) e da UNESCO por terem propiciado as
condies para que um conjunto cada vez maior de brasileiros possa conhecer e
ter orgulho de compartilhar com outros povos do continente americano o legado
do continente africano para nossa formao social e cultural.
                      CRONOLOGIA


   Na apresentao das datas da pr-histria convencionou-se adotar dois tipos
de notao, com base nos seguintes critrios:
      Tomando como ponto de partida a poca atual, isto , datas B.P. (before
       present), tendo como referncia o ano de + 1950; nesse caso, as datas so
       todas negativas em relao a + 1950.
      Usando como referencial o incio da Era Crist; nesse caso, as datas
       so simplesmente precedidas dos sinais - ou +. No que diz respeito aos
       sculos, as menes "antes de Cristo" e "depois de Cristo" so substitudas
       por "antes da Era Crist", "da Era Crist".
   Exemplos:
   (i) 2300 B.P. = -350
   (ii) 2900 a.C. = -2900
        1800 d.C. = +1800
   (iii) sculo V a.C. = sculo V antes da Era Crist
         sculo III d.C. = sculo III da Era Crist
Lista de Figuras                                                                                                       XIII




                             LISTA DE FIGURAS




Figura 1.1 A frica em 1880, em vsperas da partilha e da conquista .................................... 2
Figura 1.2 A guerra dos Ashanti, em 1896 (Costa do Ouro).................................................. 9
Figura 2.1 A Conferncia de Berlim sobre a frica Ocidental (1884-1885) ........................ 34
Figuras 2.2a a 2.2f Armas de guerra utilizadas por europeus e africanos entre 1880 e
                    1935 ........................................................................................................ 47
Figura 2.3 A frica de 1914 ................................................................................................. 50
Figura 4.1 O Coronel Ahmad Urabi ..................................................................................... 75
Figura 4.2 Poltica e nacionalismo no nordeste da frica ..................................................... 76
Figura 4.3 Alexandria aps o bombardeamento de julho de 1882 pela frota britnica ......... 78
Figura 4.4 Abbas Hilmi (Abbas II, 1892-1914), quediva do Egito ...................................... 81
Figura 4.5 Muhammad Ahmad ibn Abdallah, o Mahdi (1844-1885) .................................. 84
Figura 4.6 Mamud Ahmad, um dos comandantes dos Ansar (exrcito mahdista)................ 90
Figura 5.1 As grandes regies do Maghreb e do Saara ....................................................... 100
Figura 5.2 As campanhas europeias no Maghreb................................................................ 104
Figura 5.3 A Tripolitnia otomana, Sirte e a Cirenaica....................................................... 109
Figura 5.4 Sayyid Ahmad al-Sharif al-Sanusi, chefe espiritual dos Sanusiyya .................... 110
Figura 5.5 Umar al-Mukhtar, um dos chefes da resistncia Sanusi  colonizao italiana ..... 115
Figura 5.6 Amghar Hassu u Basallam, dos Ilemchan (Ait Atta do Saara), chefe dos
            combatentes da resistncia de Bu Ghafir (Saghru), na Arglia, em 1933 .............. 117
Figura 5.7 Guerra do Rif no Marrocos ............................................................................... 124
Figura 6.1 Estados e povos da frica ocidental nas vsperas da partilha europeia.............. 131
Figura 6.2 Samori Tour (c. 1830-1900), aps a sua captura pelo capito Gouraud ........... 139
XIV                                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



Figura 6.3 Nana Prempeh I (c. 1873-1931) no exlio nas Seychelles, cerca de 1908 .......... 150
Figura 6.4 Jaja (c. 1821-1891), soberano do Estado de Opobo, no delta do Nger ............. 154
Figura 6.5 Bai Bureh (c. 1845-1908), chefe da rebelio provocada pelo imposto de
            palhota, em 1898................................................................................................ 160
Figura 6.6a Levante na Costa do Marfim no incio da dcada de 1900 ............................. 163
Figura 6.6b Costa do Marfim: o tenente Boudet aceita a rendio dos chefes
              tradicionais ............................................................................................ 163
Figura 7.1 Povos e diviso poltica da frica oriental ......................................................... 169
Figura 7.2 Equipe volante de assentadores de dormentes na construo da estrada de
            ferro de Uganda.................................................................................................. 172
Figura 7.3 O chefe Abushiri (c. 1845-1889), lder da resistncia costeira  colonizao
            alem e britnica na frica oriental, 1888-1889................................................. 178
Figura 7.4 Mwanga (c. 1866-1903), ex-rei de Buganda, e Kabarega (c. 1850-1923),
            ex-rei de Bunyoro ............................................................................................... 181
Figura 8.1 Povos e diviso poltica da frica central, c. 1900.............................................. 193
Figura 8.2 Chefe bemba no meio do seu povo, recebendo um europeu, 1883 .................... 197
Figura 8.3 Gungunhana e seus guerreiros ........................................................................... 199
Figura 8.4 Mapondera, chefe rebelde da Rodsia do Sul (atual Zimbbue) ....................... 207
Figura 9.1 Povos e diviso poltica do sul da frica ............................................................ 221
Figura 9.2 Campo de batalha de Isandhlwana, 1879 .......................................................... 228
Figura 9.3 Lobengula (c. 1836-1894), rei dos Ndebele, 1870-1894 .................................... 230
Figura 9.4 Moshoeshoe I, rei dos Basuto (c. 1785-1870).................................................... 236
Figura 10.1 Madagscar em fins do sculo XIX.................................................................. 252
Figura 10.2 Rainilaiarivony, primeiro-ministro de Madagscar (1864-1895), marido
              de Ranavalona II e III ..................................................................................... 253
Figura 10.3 A rainha Ranavalona III (1883-1897) em traje de gala ................................... 253
Figura 10.4 Principais zonas das rebelies Menalamba....................................................... 265
Figura 10.5 Madagscar: trabalhadores empregados na contruo da estrada de ferro de
              Tananarive  Tamatave..................................................................................... 273
Figura 10.6 Resistncia, insurreio e nacionalismo em Madagscar, 1896-1935 ............... 275
Figura 11.1 Libria: territrio anexado pelos amrico-liberianos, 1822-1874..................... 283
Figura 11.2 Expanso do territrio etope no reinado do imperador Menelik II................ 287
Figura 11.3 Menelik, rei de Shoa (1865-1889); imperador da Etipia (1889-1913) ................... 288
Figura 11.4 E. J. Barclay, secretrio de Estado da Libria ................................................... 293
Figura 11.5 Arthur Barclay, presidente da Libria (1904-1911) ......................................... 294
Figura 11.6 Usurpaes britnicas e francesas no territrio reivindicado pela Libria,
             1882-1914 ........................................................................................................ 296
Figura 11.7 A Etipia e a corrida para a frica .................................................................. 300
Figura 11.8 A batalha de Adua ........................................................................................... 306
Figura 11.9 Professores e alunos do colgio da Libria, 1900 ............................................. 312
Figura 12.1(A)  (E) A guerra em solo africano ................................................................. 320
Lista de Figuras                                                                                                                      XV


Figura 12.2    General P. E. Von Lettow-Vorbeck.................................................................. 326
Figura 12.3    A campanha na frica Oriental Alem ........................................................... 329
Figura 12.4    "Voluntrios forados" do Egito embarcando para o estrangeiro ..................... 331
Figura 12.5    frica Oriental Alem: feridos esperam para serem removidos de Nyangao,
                depois da batalha de Mahiwa (15 a 19 de outubro de 1917)........................... 331
Figura 12.6    A campanha na frica Oriental Alem: tropas autctones do exrcito belga
               voltam para a costa depois de os alemes terem cruzado o rio Rovuma ........... 331
Figura 12.7    O desenho da frica depois da Primeira Guerra Mundial .............................. 348
Figura 13.1    Sir Frederick Lugard (1858-1945) ...................................................................... 354
Figura 13.2    Louis-Gabriel Angoulvant, governador da Costa do Marfim, 1908-1916........ 354
Figura 13.3    General Joseph Simon Gallieni (1849-1916), comandante superior do
               Sudo francs, 1886-1888; governador-geral de Madagscar, 1896-1905 ....... 354
Figura 13.4    Albert Heinrich Schnee (1871-1949), governador da frica Oriental
               Alem, 1912-1918 ............................................................................................ 354
Figura 13.5    Louis-Hubert Lyautey (1859-1935), residente-geral francs no Marrocos,
               1912-1925 ........................................................................................................ 363
Figura 13.6    A administrao indireta em ao: o prncipe de Gales recebe chefes em
               Acra .................................................................................................................. 365
Figura 13.7    A campanha na frica Oriental Alem: askaris da frica oriental enviados
               como agentes recrutadores pela administrao civil.......................................... 372
Figura 15.1    Os recursos das colnias francesas, belgas e portuguesas ................................. 402
Figura 15.2    Comrcio exterior colonial das antigas zonas francesas, belgas e
               portuguesas ....................................................................................................... 405
Figura 15.3    Avaliao aproximada das possibilidades monetrias africanas na Guin
               Francesa (1928-1938) ....................................................................................... 421
Figura 16.1    frica oriental: desenvolvimento econmico das antigas zonas britnicas ....... 442
Figura 16.2    frica ocidental: desenvolvimento econmico das antigas zonas
               britnicas .......................................................................................................... 447
Figura 16.3    Colheita de ch na Niassalndia ......................................................................... 450
Figura 16.4    Abrindo cacau na Costa do Ouro .................................................................... 453
Figura 16.5    frica oriental: desenvolvimento econmico das antigas zonas britnicas ....... 459
Figura 16.6    Operrios negros em uma mina na frica do Sul............................................ 476
Figura 16.7    Extenso da rede ferroviria da Repblica da frica do Sul, entre 1900 e
               1953 .................................................................................................................. 478
Figura 17.1    Desenvolvimento econmico durante o perodo colonial no noroeste
               da frica ........................................................................................................... 486
Figura 17.2    Vinhedos europeus na Arglia, por volta de 1930 ............................................ 490
Figura 17.3    A implantao da colonizao agrcola na Tunsia, em 1921 ........................... 491
Figura 17.4    Dficit da balana comercial marroquina, de 1912 a 1938............................... 499
Figura 17.5    Comrcio global da Arglia, de 1915 a 1938 ................................................... 500
Figura 17.6    Parcela referente  Frana no comrcio global da Arglia, de 1920 a 1938 ..... 500
Figura 17.7    Produo e exportao de azeite de oliveira tunisiano de 1931 a 1939 ............ 505
XVI                                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



Figura 17.8 Lbia, Egito e Sudo: desenvolvimento econmico na poca colonial ............. 511
Figura 17.9 Assu: as guas do Nilo na sada da barragem (1937) ..................................... 518
Figura 17.10 Cultura do algodo de Djazra, regio situada ao sul da confluncia do
              Nilo Azul com o Nilo Branco ........................................................................ 526
Figura 18.1 Leprosrio mvel numa pequena aldeia ao norte de Bangui ........................... 558
Figura 19.1 Vista geral de Lagos, Nigria, um dos principais portos da frica
            ocidental na poca colonial .............................................................................. 571
Figura 19.2 Escola secundria CMS de Mengo, Uganda: em busca do saber..................... 578
Figura 19.3 Jogo de crquete na colnia: a formao da nova elite...................................... 580
Figura 19.4 Festa na casa do governador de Lagos: a nova elite e os administradores
            coloniais ........................................................................................................... 582
Figura 20.1 Personagens Makishie durante uma cerimnia de iniciao, em Zmbia ........ 594
Figura 20.2 Membros de uma sociedade secreta em Serra Leoa......................................... 599
Figura 20.3 Fachada de uma mesquita no norte de Gana. .................................................. 605
Figura 20.4 William Wade Harris, o evangelista liberiano da frica ocidental .................. 614
Figura 20.5 O reverendo John Chilembwe (1860/1870-1915), chefe da revolta de 1915
            na Niassalndia, e sua famlia ........................................................................... 617
Figura 20.6 O profeta Simon Kimbangu (c. 1890-1951), fundador da glise-de-Jsus-
            -Christ-sur-la-terre (Igreja de Jesus Cristo sobre a Terra), no Congo Belga ... 619
Figura 20.7 O profeta M. Jehu-Appiah, Akaboha III, neto e sucessor do fundador da
            Igreja Musama Disco Christo (Costa do Ouro, Gana).................................... 622
Figura 21.1 Esttuas de madeira provenientes de um santurio Yoruba dedicado a
            Shango.............................................................................................................. 627
Figura 21.2 Kuduo akan em cobre, de Gana ....................................................................... 630
Figura 21.3 O bispo Samuel Ajayi Crowther (1808-1891) ................................................. 640
Figura 23.1 Nacionalismo no Egito: Zaghll Pacha (c. 1857-1927) ...................................... 678
Figura 23.2 O movimento nacionalista no Egito ( 1918-1923) ......................................... 682
Figura 23.3 O University College de Khartum, em 1953 ................................................... 686
Figura 24.1 Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935 ........................... 704
Figura 24.2 Abdel Karm (1882-1963), cdi de Melilla, chefe da resistncia
            marroquina ao imperialismo espanhol, durante a guerra do Rf , 1921-1926 .. 712
Figura 24.3 Guerra do Rf: soldados espanhis exibem as cabeas decepadas de
            soldados de Abdel Karm ................................................................................. 712
Figura 24.4 Habib Bourguiba (nascido em 1903), lder do Partido Neo-Destour
            (Tunsia) ........................................................................................................... 722
Figura 25.1 Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935 .................................. 728
Figura 25.2 I. T. A. Wallace Jonhson (1894-1965), jornalista de Serra Leoa,
            sindicalista, pan-africanista e poltico nacionalista ........................................... 735
Figura 25.3 A delegao do National Congress of British West Africa que visitou
            Londres em 1921 ............................................................................................. 737
Figura 25.4 Blaise Diagne (1872-1934), primeiro deputado africano eleito para a
            Assembleia Nacional da Frana ....................................................................... 751
Lista de Figuras                                                                                                               XVII


Figura 26.1 Poltica e nacionalismo na frica oriental, 1919-1935..................................... 758
Figura 26.2 O reverendo Alfayo Odongo Mango Ka Konya, fundador da Joroho
            Church entre os Luo em 1932 ......................................................................... 765
Figura 26.3 Jomo Kenyatta (1890-1978), nacionalista queniano e primeiro presidente
            do Qunia independente, 1963-1978............................................................... 773
Figura 26.4 Harry Thuku (1895-1970), um dos fundadores e dirigente da East
            African Association .......................................................................................... 774
Figura 27.1 Isaiah Shembe (1870-1931), fundador dos nazaritas da frica do Sul
            (Igreja Sionista Africana)...................................................................................... 795
Figura 27.2 Poltica e nacionalismo na frica do Sul, 1919-1935 ...................................... 797
Figura 27.3 Poltica e nacionalismo na frica central, 1919-1935 ...................................... 800
Figura 28.1 Didwo Twe, senador Kru da Libria, um dos raros autctones a ascender
            a uma funo pblica de primeiro plano .......................................................... 837
Figura 28.2 Charles Dunbar B. King, presidente da Libria ............................................... 841
Figura 28.3 Hail Selassi I, imperador da Etipia (1930-1974) ........................................ 845
Figura 28.4 A Libria e a borracha. Trabalhadores de uma grande plantao prontos
            para a colheita .................................................................................................. 850
Figura 28.5 Distribuio da malha rodoviria na Libria em 1925..................................... 852
Figura 28.6 Invaso da Etipia pela Itlia fascista .............................................................. 868
Figura 29.1 Marcus Garvey (1887-1940), fundador e chefe da Universal Negro
            Improvement Association ................................................................................ 880
Figura 29.2 Os afro-brasileiros na frica ocidental, nos sculos XVIII e XIX ................... 884
Figura 29.3 J. E. K. Aggrey (1875-1921), educador da Costa do Ouro .............................. 895
Figura 29.4 Nnamdi Azikiwe (nascido em 1904), jornalista nigeriano, pan-africanista
            e poltico........................................................................................................... 898
Figura 29.5 Influncia religiosa dos Yoruba na Bahia, Brasil .............................................. 913
Figura 29.6 Mesquita central de Lagos, um exemplo da influncia brasileira na
            arquitetura da Nigria ...................................................................................... 917
Prefcio                                                               XIX




                           PREFCIO
                   por M. Amadou - Mahtar M'Bow,
                Diretor Geral da UNESCO (1974-1987)




    Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda espcie esconderam do
mundo a real histria da frica. As sociedades africanas passavam por socie-
dades que no podiam ter histria. Apesar de importantes trabalhos efetuados
desde as primeiras dcadas deste sculo por pioneiros como Leo Frobenius,
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande nmero de especialistas no-
africanos, ligados a certos postulados, sustentavam que essas sociedades no
podiam ser objeto de um estudo cientfico, notadamente por falta de fontes e
documentos escritos.
    Se a Ilada e a Odissia podiam ser devidamente consideradas como fontes
essenciais da histria da Grcia antiga, em contrapartida, negava-se todo valor
 tradio oral africana, essa memria dos povos que fornece, em suas vidas, a
trama de tantos acontecimentos marcantes. Ao escrever a histria de grande
parte da frica, recorria-se somente a fontes externas  frica, oferecendo
uma viso no do que poderia ser o percurso dos povos africanos, mas daquilo
que se pensava que ele deveria ser. Tomando freqentemente a "Idade Mdia"
europia como ponto de referncia, os modos de produo, as relaes sociais
tanto quanto as instituies polticas no eram percebidos seno em referncia
ao passado da Europa.
    Com efeito, havia uma recusa a considerar o povo africano como o criador
de culturas originais que floresceram e se perpetuaram, atravs dos sculos, por
XX                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



vias que lhes so prprias e que o historiador s pode apreender renunciando a
certos preconceitos e renovando seu mtodo.
    Da mesma forma, o continente africano quase nunca era considerado como
uma entidade histrica. Em contrrio, enfatizava-se tudo o que pudesse refor-
ar a idia de uma ciso que teria existido, desde sempre, entre uma "frica
branca" e uma "frica negra" que se ignoravam reciprocamente. Apresentava-se
frequentemente o Saara como um espao impenetrvel que tornaria impossveis
misturas entre etnias e povos, bem como trocas de bens, crenas, hbitos e idias
entre as sociedades constitudas de um lado e de outro do deserto. Traavam-se
fronteiras intransponveis entre as civilizaes do antigo Egito e da Nbia e
aquelas dos povos subsaarianos.
    Certamente, a histria da frica norte-saariana esteve antes ligada quela da
bacia mediterrnea, muito mais que a histria da frica subsaariana mas, nos
dias atuais,  amplamente reconhecido que as civilizaes do continente africano,
pela sua variedade lingstica e cultural, formam em graus variados as vertentes
histricas de um conjunto de povos e sociedades, unidos por laos seculares.
    Um outro fenmeno que grandes danos causou ao estudo objetivo do passado
africano foi o aparecimento, com o trfico negreiro e a colonizao, de esteretipos
raciais criadores de desprezo e incompreenso, to profundamente consolidados
que corromperam inclusive os prprios conceitos da historiografia. Desde que
foram empregadas as noes de "brancos" e "negros", para nomear genericamente
os colonizadores, considerados superiores, e os colonizados, os africanos foram
levados a lutar contra uma dupla servido, econmica e psicolgica. Marcado
pela pigmentao de sua pele, transformado em uma mercadoria, entre outras, e
condenado ao trabalho forado, o africano passou a simbolizar, na conscincia de
seus dominadores, uma essncia racial imaginria e ilusoriamente inferior quela
do negro. Este processo de falsa identificao depreciou a histria dos povos afri-
canos, no esprito de muitos, rebaixando-a a uma etno-histria em cuja apreciao
das realidades histricas e culturais no podia ser seno falseada.
    A situao evoluiu muito desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em
particular, desde que os pases da frica, tendo alcanado sua independncia,
comearam a participar ativamente da vida da comunidade internacional e dos
intercmbios a ela inerentes. Historiadores, em nmero crescente, esforaram-
se em abordar o estudo da frica com mais rigor, objetividade e abertura de
esprito, empregando  obviamente com as devidas precaues  fontes africanas
originais. No exerccio de seu direito  iniciativa histrica, os prprios africanos
sentiram profundamente a necessidade de restabelecer, em bases slidas, a his-
toricidade de suas sociedades.
Prefcio                                                                                                       XXI



     nesse contexto que emerge a importncia da Histria Geral da frica, em
oito volumes, cuja publicao a Unesco comeou.
    Os especialistas de numerosos pases que se empenharam nessa obra, pre-
ocuparam-se, primeiramente, em estabelecer-lhe os fundamentos tericos e
metodolgicos. Eles tiveram o cuidado em questionar as simplificaes abusivas
criadas por uma concepo linear e limitativa da histria universal, bem como
em restabelecer a verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel. Eles esfor-
aram-se para extrair os dados histricos que permitissem melhor acompanhar
a evoluo dos diferentes povos africanos em sua especificidade sociocultural.
    Nessa tarefa imensa, complexa e rdua em vista da diversidade de fontes e
da disperso dos documentos, a UNESCO procedeu por etapas. A primeira
fase (1965-1969) consistiu em trabalhos de documentao e de planificao da
obra. Atividades operacionais foram conduzidas in loco, atravs de pesquisas de
campo: campanhas de coleta da tradio oral, criao de centros regionais de
documentao para a tradio oral, coleta de manuscritos inditos em rabe e
ajami (lnguas africanas escritas em caracteres rabes), compilao de inventrios
de arquivos e preparao de um Guia das fontes da histria da frica, publicado
posteriormente, em nove volumes, a partir dos arquivos e bibliotecas dos pases
da Europa. Por outro lado, foram organizados encontros, entre especialistas
africanos e de outros continentes, durante os quais discutiu-se questes meto-
dolgicas e traou-se as grandes linhas do projeto, aps atencioso exame das
fontes disponveis.
    Uma segunda etapa (1969 a 1971) foi consagrada ao detalhamento e  articu-
lao do conjunto da obra. Durante esse perodo, realizaram-se reunies interna-
cionais de especialistas em Paris (1969) e Addis-Abeba (1970), com o propsito
de examinar e detalhar os problemas relativos  redao e  publicao da obra:
apresentao em oito volumes, edio principal em ingls, francs e rabe, assim
como tradues para lnguas africanas, tais como o kiswahili, o hawsa, o peul, o
yoruba ou o lingala. Igualmente esto previstas tradues para o alemo, russo,
portugus, espanhol e chins1, alm de edies resumidas, destinadas a um
pblico mais amplo, tanto africano quanto internacional.
   A terceira e ltima fase constituiu-se na redao e na publicao do trabalho.
Ela comeou pela nomeao de um Comit Cientfico Internacional de trinta e

1    O volume I foi publicado em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano, kiswahili,
     peul e portugus; o volume II em ingls, rabe, chins, coreano, espanhol, francs, hawsa, italiano, kiswahili,
     peul e portugus; o volume III em ingls, rabe, espanhol e francs; o volume IV em ingls, rabe, chins,
     espanhol, francs e portugus; o volume V em ingls e rabe; o volume VI em ingls, rabe e francs; o
     volume VII em ingls, rabe, chins, espanhol, francs e portugus; o VIII em ingls e francs.
XXII                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



nove membros, composto por africanos e no-africanos, na respectiva proporo
de dois teros e um tero, a quem incumbiu-se a responsabilidade intelectual
pela obra.
    Interdisciplinar, o mtodo seguido caracterizou-se tanto pela pluralidade
de abordagens tericas quanto de fontes. Dentre essas ltimas,  preciso citar
primeiramente a arqueologia, detentora de grande parte das chaves da histria
das culturas e das civilizaes africanas. Graas a ela, admite-se, nos dias atuais,
reconhecer que a frica foi, com toda probabilidade, o bero da humanidade,
palco de uma das primeiras revolues tecnolgicas da histria, ocorrida no
perodo Neoltico. A arqueologia igualmente mostrou que, na frica, especifi-
camente no Egito, desenvolveu-se uma das antigas civilizaes mais brilhantes
do mundo. Outra fonte digna de nota  a tradio oral que, at recentemente
desconhecida, aparece hoje como uma preciosa fonte para a reconstituio da
histria da frica, permitindo seguir o percurso de seus diferentes povos no
tempo e no espao, compreender, a partir de seu interior, a viso africana do
mundo, e apreender os traos originais dos valores que fundam as culturas e as
instituies do continente.
    Saber-se- reconhecer o mrito do Comit Cientfico Internacional encarre-
gado dessa Histria geral da frica, de seu relator, bem como de seus coordena-
dores e autores dos diferentes volumes e captulos, por terem lanado uma luz
original sobre o passado da frica, abraado em sua totalidade, evitando todo
dogmatismo no estudo de questes essenciais, tais como: o trfico negreiro, essa
"sangria sem fim", responsvel por umas das deportaes mais cruis da histria
dos povos e que despojou o continente de uma parte de suas foras vivas, no
momento em que esse ltimo desempenhava um papel determinante no pro-
gresso econmico e comercial da Europa; a colonizao, com todas suas conse-
qncias nos mbitos demogrfico, econmico, psicolgico e cultural; as relaes
entre a frica ao sul do Saara e o mundo rabe; o processo de descolonizao e
de construo nacional, mobilizador da razo e da paixo de pessoas ainda vivas
e muitas vezes em plena atividade. Todas essas questes foram abordadas com
grande preocupao quanto  honestidade e ao rigor cientfico, o que constitui
um mrito no desprezvel da presente obra. Ao fazer o balano de nossos
conhecimentos sobre a frica, propondo diversas perspectivas sobre as culturas
africanas e oferecendo uma nova leitura da histria, a Histria geral da frica
tem a indiscutvel vantagem de destacar tanto as luzes quanto as sombras, sem
dissimular as divergncias de opinio entre os estudiosos.
    Ao demonstrar a insuficincia dos enfoques metodolgicas amide utiliza-
dos na pesquisa sobre a frica, essa nova publicao convida  renovao e ao
Prefcio                                                                                                XXIII



aprofundamento de uma dupla problemtica, da historiografia e da identidade
cultural, unidas por laos de reciprocidade. Ela inaugura a via, como todo tra-
balho histrico de valor, a mltiplas novas pesquisas.
     assim que, em estreita colaborao com a UNESCO, o Comit Cient-
fico Internacional decidiu empreender estudos complementares com o intuito
de aprofundar algumas questes que permitiro uma viso mais clara sobre
certos aspectos do passado da frica. Esses trabalhos publicados na coleo
da UNESCO, Histria geral da frica: estudos e documentos, viro a cons-
tituir, de modo til, um suplemento  presente obra2. Igualmente, tal esforo
desdobrar-se- na elaborao de publicaes versando sobre a histria nacional
ou sub-regional.
    Essa Histria geral da frica coloca simultaneamente em foco a unidade his-
trica da frica e suas relaes com os outros continentes, especialmente com as
Amricas e o Caribe. Por muito tempo, as expresses da criatividade dos afro-
descendentes nas Amricas haviam sido isoladas por certos historiadores em um
agregado heterclito de africanismos; essa viso, obviamente, no corresponde
quela dos autores da presente obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
para a Amrica, o fato tocante ao marronage [fuga ou clandestinidade] poltico
e cultural, a participao constante e massiva dos afrodescendentes nas lutas da
primeira independncia americana, bem como nos movimentos nacionais de
libertao, esses fatos so justamente apreciados pelo que eles realmente foram:
vigorosas afirmaes de identidade que contriburam para forjar o conceito
universal de humanidade.  hoje evidente que a herana africana marcou, mais
ou menos segundo as regies, as maneiras de sentir, pensar, sonhar e agir de
certas naes do hemisfrio ocidental. Do sul dos Estados-Unidos ao norte do
Brasil, passando pelo Caribe e pela costa do Pacfico, as contribuies culturais
herdadas da frica so visveis por toda parte; em certos casos, inclusive, elas
constituem os fundamentos essenciais da identidade cultural de alguns dos
elementos mais importantes da populao.




2    Doze nmeros dessa srie foram publicados; eles tratam respectivamente sobre: no 1 - O povoamento
     do Egito antigo e a decodificao da escrita merotica; no 2 - O trfico negreiro do sculo XV ao sculo
     XIX; no 3  Relaes histricas atravs do Oceano ndico; no 4  A historiografia da frica Meridional;
     no 5  A descolonizao da frica: frica Meridional e Chifre da frica [Nordeste da frica]; no 6 
     Etnonmias e toponmias; no 7  As relaes histricas e socioculturais entre a frica e o mundo rabe; no
     8  A metodologia da histria da frica contempornea; no 9  O processo de educao e a historiografia
     na frica; no 10  A frica e a Segunda Guerra Mundial; no 11  Lbya Antiqua; no 12  O papel dos
     movimentos estudantis africanos na evoluo poltica e social da frica de 1900 a 1975.
XXIV                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Igualmente, essa obra faz aparecerem nitidamente as relaes da frica com
o sul da sia atravs do Oceano ndico, alm de evidenciar as contribuies
africanas junto a outras civilizaes em seu jogo de trocas mtuas.
    Estou convencido que os esforos dos povos da frica para conquistar ou
reforar sua independncia, assegurar seu desenvolvimento e consolidar suas
especificidades culturais devem enraizar-se em uma conscincia histrica reno-
vada, intensamente vivida e assumida de gerao em gerao.
    Minha formao pessoal, a experincia adquirida como professor e, desde
os primrdios da independncia, como presidente da primeira comisso criada
com vistas  reforma dos programas de ensino de histria e de geografia de
certos pases da frica Ocidental e Central, ensinaram-me o quanto era neces-
srio, para a educao da juventude e para a informao do pblico, uma obra
de histria elaborada por pesquisadores que conhecessem desde o seu interior
os problemas e as esperanas da frica, pensadores capazes de considerar o
continente em sua totalidade.
    Por todas essas razes, a UNESCO zelar para que essa Histria Geral da
frica seja amplamente difundida, em numerosos idiomas, e constitua base
da elaborao de livros infantis, manuais escolares e emisses televisivas ou
radiofnicas. Dessa forma, jovens, escolares, estudantes e adultos, da frica
e de outras partes, podero ter uma melhor viso do passado do continente
africano e dos fatores que o explicam, alm de lhes oferecer uma compreenso
mais precisa acerca de seu patrimnio cultural e de sua contribuio ao pro-
gresso geral da humanidade. Essa obra deveria ento contribuir para favorecer
a cooperao internacional e reforar a solidariedade entre os povos em suas
aspiraes por justia, progresso e paz. Pelo menos, esse  o voto que manifesto
muito sinceramente.
    Resta-me ainda expressar minha profunda gratido aos membros do Comit
Cientfico Internacional, ao redator, aos coordenadores dos diferentes volu-
mes, aos autores e a todos aqueles que colaboraram para a realizao desta
prodigiosa empreitada. O trabalho por eles efetuado e a contribuio por eles
trazida mostram com clareza o quanto homens vindos de diversos horizontes,
conquanto animados por uma mesma vontade e igual entusiasmo a servio da
verdade de todos os homens, podem fazer, no quadro internacional oferecido
pela UNESCO, para lograr xito em um projeto de tamanho valor cientfico
e cultural. Meu reconhecimento igualmente estende-se s organizaes e aos
governos que, graas a suas generosas doaes, permitiram  UNESCO publi-
car essa obra em diferentes lnguas e assegurar-lhe a difuso universal que ela
merece, em prol da comunidade internacional em sua totalidade.
    APRESENTAO DO PROJETO
                     pelo Professor Bethwell Allan Ogot
             Presidente do Comit Cientfico Internacional
             para a redao de uma Histria Geral da frica




    A Conferncia Geral da UNESCO, em sua dcima sexta sesso, solicitou
ao Diretor-geral que empreendesse a redao de uma Histria Geral da frica.
Esse considervel trabalho foi confiado a um Comit Cientfico Internacional
criado pelo Conselho Executivo em 1970.
    Segundo os termos dos estatutos adotados pelo Conselho Executivo da
UNESCO, em 1971, esse Comit compe-se de trinta e nove membros res-
ponsveis (dentre os quais dois teros africanos e um tero de no-africanos),
nomeados pelo Diretor-geral da UNESCO por um perodo correspondente 
durao do mandato do Comit.
    A primeira tarefa do Comit consistiu em definir as principais caractersticas
da obra. Ele definiu-as em sua primeira sesso, nos seguintes termos:
      Em que pese visar a maior qualidade cientfica possvel, a Histria Geral
       da frica no busca a exausto e se pretende uma obra de sntese que
       evitar o dogmatismo. Sob muitos aspectos, ela constitui uma exposio
       dos problemas indicadores do atual estdio dos conhecimentos e das
       grandes correntes de pensamento e pesquisa, no hesitando em assinalar,
       em tais circunstncias, as divergncias de opinio. Ela assim preparar o
       caminho para posteriores publicaes.
      A frica  aqui considerada como um todo. O objetivo  mostrar as
       relaes histricas entre as diferentes partes do continente, muito amide
XXVI                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



       subdividido, nas obras publicadas at o momento. Os laos histricos
       da frica com os outros continentes recebem a ateno merecida e so
       analisados sob o ngulo dos intercmbios mtuos e das influncias mul-
       tilaterais, de forma a fazer ressurgir, oportunamente, a contribuio da
       frica para o desenvolvimento da humanidade.
      A Histria Geral da frica consiste, antes de tudo, em uma histria das
       idias e das civilizaes, das sociedades e das instituies. Ela funda-
       menta-se sobre uma grande diversidade de fontes, aqui compreendidas
       a tradio oral e a expresso artstica.
      A Histria Geral da frica  aqui essencialmente examinada de seu inte-
       rior. Obra erudita, ela tambm , em larga medida, o fiel reflexo da
       maneira atravs da qual os autores africanos vem sua prpria civilizao.
       Embora elaborada em mbito internacional e recorrendo a todos os
       dados cientficos atuais, a Histria ser igualmente um elemento capital
       para o reconhecimento do patrimnio cultural africano, evidenciando
       os fatores que contribuem  unidade do continente. Essa vontade em
       examinar os fatos de seu interior constitui o ineditismo da obra e poder,
       alm de suas qualidades cientficas, conferir-lhe um grande valor de
       atualidade. Ao evidenciar a verdadeira face da frica, a Histria poderia,
       em uma poca dominada por rivalidades econmicas e tcnicas, propor
       uma concepo particular dos valores humanos.
    O Comit decidiu apresentar a obra, dedicada ao estudo sobre mais de 3
milhes de anos de histria da frica, em oito volumes, cada qual compreen-
dendo aproximadamente oitocentas pginas de texto com ilustraes (fotos,
mapas e desenhos tracejados).
    Para cada volume designou-se um coordenador principal, assistido, quando
necessrio, por um ou dois codiretores assistentes.
    Os coordenadores dos volumes so escolhidos, tanto entre os membros do
Comit quanto fora dele, em meio a especialistas externos ao organismo, todos
eleitos por esse ltimo, pela maioria de dois teros. Eles encarregam-se da ela-
borao dos volumes, em conformidade com as decises e segundo os planos
decididos pelo Comit. So eles os responsveis, no plano cientfico, perante
o Comit ou, entre duas sesses do Comit, perante o Conselho Executivo,
pelo contedo dos volumes, pela redao final dos textos ou ilustraes e, de
uma maneira geral, por todos os aspectos cientficos e tcnicos da Histria. 
o Conselho Executivo quem aprova, em ltima instncia, o original definitivo.
Uma vez considerado pronto para a edio, o texto  remetido ao Diretor-Geral
Apresentao do Projeto                                                       XXVII



da UNESCO. A direo da obra cabe, dessa forma, ao Comit ou ao Conselho
Executivo, nesse caso responsvel no nterim entre duas sesses do Comit.
    Cada volume compreende por volta de 30 captulos. Cada qual redigido por
um autor principal, assistido por um ou dois colaboradores, caso necessrio.
    Os autores so escolhidos pelo Comit em funo de seu curriculum vitae.
A preferncia  concedida aos autores africanos, sob reserva de sua adequao
aos ttulos requeridos. Alm disso, o Comit zela, tanto quanto possvel, para
que todas as regies da frica, bem como outras regies que tenham mantido
relaes histricas ou culturais com o continente, estejam de forma equitativa
representadas no quadro dos autores.
    Aps aprovao pelo coordenador do volume, os textos dos diferentes captu-
los so enviados a todos os membros do Comit para submisso  sua crtica.
    Ademais e finalmente, o texto do coordenador do volume  submetido ao
exame de um comit de leitura, designado no seio do Comit Cientfico Inter-
nacional, em funo de suas competncias; cabe a esse comit realizar uma
profunda anlise tanto do contedo quanto da forma dos captulos.
    Ao Conselho Executivo cabe aprovar, em ltima instncia, os originais.
    Tal procedimento, aparentemente longo e complexo, revelou-se necessrio,
pois permite assegurar o mximo de rigor cientfico  Histria Geral da frica.
Com efeito, houve ocasies nas quais o Conselho Executivo rejeitou origi-
nais, solicitou reestruturaes importantes ou, inclusive, confiou a redao de
um captulo a um novo autor. Eventualmente, especialistas de uma questo ou
perodo especficos da histria foram consultados para a finalizao definitiva
de um volume.
    Primeiramente, uma edio principal da obra em ingls, francs e rabe ser
publicada, posteriormente haver uma edio em forma de brochura, nesses
mesmos idiomas.
    Uma verso resumida em ingls e francs servir como base para a traduo
em lnguas africanas. O Comit Cientfico Internacional determinou quais
os idiomas africanos para os quais sero realizadas as primeiras tradues: o
kiswahili e o haussa.
    Tanto quanto possvel, pretende-se igualmente assegurar a publicao da
Histria Geral da frica em vrios idiomas de grande difuso internacional
(dentre os quais, entre outros: alemo, chins, italiano, japons, portugus, russo,
etc.).
    Trata-se, portanto, como se pode constatar, de uma empreitada gigantesca
que constitui um ingente desafio para os historiadores da frica e para a comu-
nidade cientfica em geral, bem como para a UNESCO que lhe oferece sua
XXVIII                                           frica sob dominao colonial, 1880-1935



chancela. Com efeito, pode-se facilmente imaginar a complexidade de uma
tarefa tal qual a redao de uma histria da frica que cobre no espao, todo
um continente e, no tempo, os quatro ltimos milhes de anos, respeitando,
todavia, as mais elevadas normas cientficas e convocando, como  necessrio,
estudiosos pertencentes a todo um leque de pases, culturas, ideologias e tra-
dies histricas. Trata-se de um empreendimento continental, internacional e
interdisciplinar, de grande envergadura.
    Em concluso, obrigo-me a sublinhar a importncia dessa obra para a frica
e para todo o mundo. No momento em que os povos da frica lutam para se unir
e para, em conjunto, melhor forjar seus respectivos destinos, um conhecimento
adequado sobre o passado da frica, uma tomada de conscincia no tocante aos
elos que unem os Africanos entre si e a frica aos demais continentes, tudo
isso deveria facilitar, em grande medida, a compreenso mtua entre os povos
da Terra e, alm disso, propiciar sobretudo o conhecimento de um patrimnio
cultural cuja riqueza consiste em um bem de toda a Humanidade.


                                                           Bethwell Allan Ogot
                                                       Em 8 de agosto de 1979
                                  Presidente do Comit Cientfico Internacional
                                 para a redao de uma Histria Geral da frica
A frica diante do desafio colonial                                            1



                                      CAPTULO 1


          A frica diante do desafio colonial
                                      Albert Adu Boahen




   Na histria da frica jamais se sucederam tantas e to rpidas mudanas
como durante o perodo entre 1880 e 1935. Na verdade, as mudanas mais
importantes, mais espetaculares  e tambm mais trgicas , ocorreram num lapso
de tempo bem mais curto, de 1880 a 1910, marcado pela conquista e ocupao de
quase todo o continente africano pelas potncias imperialistas e, depois, pela instau-
rao do sistema colonial. A fase posterior a 1910 caracterizou-se essencialmente
pela consolidao e explorao do sistema.
   O desenvolvimento desse drama foi verdadeiramente espantoso, pois at
1880 apenas algumas reas bastante restritas da frica estavam sob a dominao
direta de europeus. Em toda a frica ocidental, essa dominao limitava-se s
zonas costeiras e ilhas do Senegal,  cidade de Freetown e seus arredores (que
hoje fazem parte de Serra Leoa), s regies meridionais da Costa do Ouro (atual
Gana), ao litoral de Abidjan, na Costa do Marfim, e de Porto Novo, no Daom
(atual Benin), e  ilha de Lagos (no que consiste atualmente a Nigria). Na
frica setentrional, em 1880, os franceses tinham colonizado apenas a Arglia.
Da frica oriental, nem um s palmo de terra havia tombado em mos de
qualquer potncia europeia, enquanto, na frica central, o poder exercido pelos
portugueses restringia-se a algumas faixas costeiras de Moambique e Angola.
S na frica meridional  que a dominao estrangeira se achava firmemente
implantada, estendendo-se largamente pelo interior da regio (ver figura 1.1).
2                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 1.1   A frica em 1880, em vsperas da partilha e da conquista.
A frica diante do desafio colonial                                                  3



   At 1880, em cerca de 80% do seu territrio, a frica era governada por
seus prprios reis, rainhas, chefes de cls e de linhagens, em imprios, reinos,
comunidades e unidades polticas de porte e natureza variados.
   No entanto, nos trinta anos seguintes, assiste-se a uma transmutao extra-
ordinria, para no dizer radical, dessa situao. Em 1914, com a nica exce-
o da Etipia e da Libria, a frica inteira v-se submetida  dominao de
potncias europeias e dividida em colnias de dimenses diversas, mas de modo
geral, muito mais extensas do que as formaes polticas preexistentes e, muitas
vezes, com pouca ou nenhuma relao com elas. Nessa poca, alis, a frica no
 assaltada apenas na sua soberania e na sua independncia, mas tambm em
seus valores culturais.
   Como Ferhat `Abbas salientava em 1930, a propsito da colonizao da
Arglia pelos franceses, para a Frana
    a colonizao constitui apenas uma empreitada militar e econmica, posteriormente
    defendida por um regime administrativo apropriado; para os argelinos, contudo, 
    uma verdadeira revoluo, que vem transtornar todo um antigo mundo de crenas
    e ideias, um modo secular de existncia. Coloca todo um povo diante de sbita
    mudana. Uma nao inteira, sem estar preparada para isso, v-se obrigada a se
    adaptar ou, se no, sucumbir. Tal situao conduz necessariamente a um desequil-
    brio moral e material, cuja esterilidade no est longe da desintegrao completa1.
   Essas observaes sobre a natureza do colonialismo valem no s para a
colonizao francesa da Arglia mas para toda a colonizao europeia da frica,
sendo as diferenas de grau e no de gnero, de forma e no de fundo. Em outras
palavras, durante o perodo entre 1880 e 1935, a frica teve de enfrentar um
desafio particularmente ameaador: o desafio do colonialismo.


    Grau de preparao dos africanos
   Qual foi a atitude dos africanos perante a irrupo do colonialismo, que traz
consigo to fundamental mutao na natureza das relaes existentes entre eles
e os europeus nos trs ltimos sculos? Eis uma questo ainda no estudada
em profundidade pelos historiadores, tanto africanos como europeus, que, no
entanto, precisa ser respondida. E a resposta  clara e inequvoca: na sua esma-
gadora maioria, autoridades e dirigentes africanos foram profundamente hostis


1    ABBAS, 1931, p. 9, apud BERQUE, captulo 24 deste volume.
4                                                      frica sob dominao colonial, 1880-1935



a essa mudana e declararam-se decididos a manter o status quo e, sobretudo, a
assegurar sua soberania e independncia, pelas quais praticamente nenhum deles
estava disposto a transigir, por menos que fosse. Tal resposta pode ser encontrada
nas declaraes dos dirigentes africanos da poca.
   Em 1891, quando os britnicos ofereceram proteo a Prempeh I, rei dos
Ashanti, na Costa do Ouro (atual Gana), ele replicou:
    A proposta para o pas Ashanti, na presente situao, colocar-se sob a proteo de
    Sua Majestade, a Rainha e Imperatriz da ndia, foi objeto de exame aprofundado,
    mas me permitam dizer que chegamos  seguinte concluso: meu reino, o Ashanti,
    jamais aderir a uma tal poltica. O pas Ashanti deve continuar a manter, como at
    agora, laos de amizade com todos os brancos. No  por ufanismo que escrevo isto,
    mas tendo clareza do significado das palavras [...]. A causa dos Ashanti progride, e
    nenhum Ashanti tem a menor razo para se preocupar com o futuro ou para acreditar,
    por um s instante, que as hostilidades passadas tenham prejudicado a nossa causa2.
   Em 1895, Wogobo, o Moro Naba, ou rei dos Mossi (na atual Repblica do
Alto Volta), declarou ao oficial francs, capito Destenave:
    Sei que os brancos querem me matar para tomar o meu pas, e, ainda assim, voc
    insiste em que eles me ajudaro a organiz-lo. Por mim, acho que meu pas est
    muito bem como est. No preciso deles. Sei o que me falta e o que desejo: tenho
    meus prprios mercadores; considere-se feliz por no mandar cortar-lhe a cabea.
    Parta agora mesmo e, principalmente, no volte nunca mais3.
    Em 1883, Lat-Dior, o damel de Cayor (no atual Senegal), de quem se voltar a
falar no captulo 6, em 1890, Machemba, chefe dos Yao de Tanganica (atual Tan-
znia), citado mais adiante, no captulo 3, e Hendrik Wittboi, um dos soberanos
da regio que hoje constitui a Nambia, tambm referido no captulo 3, tiveram
a mesma atitude em face do colonizador. Mas um dos ltimos e mais fascinantes
testemunhos que gostaramos de citar aqui  o emocionante apelo lanado em
abril de 1891 por Menelik, imperador da Etipia,  rainha Victoria, da Inglaterra.
A mesma mensagem foi enviada aos dirigentes da Frana, Alemanha, Itlia e
Rssia. Neste apelo Menelik definia primeiramente as fronteiras que eram ento
as da Etipia e  expressando ambies expansionistas pessoais  declarava a
inteno de restabelecer as antigas fronteiras da Etipia at Khartum e o lago
Niza, a includos todos os territrios de Galla, acrescentando:


2   Apud FYNN, 1971, p. 43-4.
3   Apud CROWDER, 1968, p. 97.
A frica diante do desafio colonial                                                                  5



    No tenho a menor inteno de ser um espectador indiferente, caso ocorra a potn-
    cias distantes dividir a frica, pois a Etipia h quatorze sculos tem sido uma ilha
    crist num mar de pagos. Dado que o Todo-Poderoso at agora tem protegido a
    Etipia, tenho a esperana de que continuar a proteg-la e a engrandec-la e no
    penso sequer um instante que Ele permita que a Etipia seja dividida entre outros
    Estados. Antigamente, as fronteiras da Etipia eram o mar. No tendo recorrido 
    fora nem recebido ajuda dos cristos, nossas fronteiras martimas caram em mos
    dos muulmanos. No abrigamos hoje a pretenso de recuper-las pela fora, mas
    esperamos que as potncias crists, inspiradas por nosso Salvador, Jesus Cristo, as
    devolvam a ns ou nos concedam pelo menos alguns pontos de acesso ao mar4.
   Quando, apesar deste apelo, os italianos lanaram sua campanha contra a
Etipia, com a conivncia do Reino Unido e da Frana, Menelik proclamou de
novo, em 17 de setembro de 1895, uma ordem de mobilizao na qual declarava:
    Os inimigos vm agora se apoderar de nosso pas e mudar nossa religio [...]. Nossos
    inimigos comearam a avanar abrindo caminho na terra como toupeiras. Com a
    ajuda de Deus, no lhes entregarei meu pas [...]. Hoje, que os fortes me emprestem
    sua fora e os fracos me ajudem com suas oraes5.
    Essas so as respostas textuais dos homens que tiveram de fazer frente ao colonia-
lismo: elas mostram, incontestavelmente, sua determinao em opor-se aos europeus
e em defender sua soberania, sua religio e seu modo de vida tradicional.
    Tambm deixam claro que esses dirigentes tinham a certeza de estar prepa-
rados para enfrentar os invasores europeus, alis, com razo. No tinham eles
plena confiana em sua magia, nos antepassados e, certamente, em seus deuses
(ou deus), que no deixariam de vir em sua ajuda? Muitos deles, em vsperas
dos confrontos fsicos reais, recorreram s oraes, aos sacrifcios ou s poes
e feitios. Como registrou Elliot P. Skinner:
    Os Mossi de modo geral acreditam que, quando os franceses atacaram Uagadugu, o
    Moro Naba Wogobo, deposto, ofereceu sacrifcios s divindades da terra. Conforme
    a tradio, sacrificou um galo preto, um carneiro preto, um burro preto e um escravo
    negro numa elevada colina, perto do Volta Branco, implorando  deusa da terra que




4    ASMAI, Arquivos do Ministerio degli Affari Esteri (Roma), Ethiopia Poso 36/13-109 Menelik to
     Queen Victoria, Adis Abeba, 14 Miazia, 1883, documento acrescentado a Tarnielli to MAE, Londres, 6
     de agosto de 1891.
5    Apud MARCUS, 1975, p. 160.
6                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



    repelisse os franceses e aniquilasse o traidor Mazi, que eles tinham colocado no
    trono6.
    Como se ver em muitos dos captulos seguintes, a religio foi efetivamente
uma das armas empregadas contra o colonialismo. Alm disso, vrios dirigentes
africanos s tinham conseguido edificar seus imprios, de propores variveis,
poucos decnios antes, e alguns estavam ainda em vias de alargar ou de restaurar
seu reino. Muitos poderiam ter defendido sua soberania, apoiados pelos sditos,
utilizando as armas e as tticas tradicionais. Alguns, como Samori Tour, chefe
do imprio Manden, da frica ocidental, ou Menelik, da Etipia, tinham at
mesmo conseguido modernizar seus exrcitos. Nessas condies, no viam por
que no estariam aptos a preservar sua soberania e pensavam poder desfazer
os planos dos invasores usando a diplomacia. Conforme veremos, em 1889, no
momento em que Cecil Rhodes se aprestava para ocupar o pas dos Ndebele,
o rei destes, Lobengula, enviou uma delegao a Londres para se avistar com a
rainha Victoria; em 1896, quando o exrcito dos invasores britnicos avanava
em direo a Kumasi para prender Prempeh, que, cinco anos antes, rejeitara a
oferta de proteo do Reino Unido, este manda uma misso diplomtica dotada
de amplos poderes junto  rainha Victoria; como vimos, Menelik tinha feito
apelo anlogo a esta mesma soberana, assim como a outros chefes de Estado
europeus.
    Fica tambm evidente, com a leitura de algumas citaes aqui feitas, que nume-
rosos dirigentes africanos, de fato, acolheram muito favoravelmente as inovaes que
com regularidade foram sendo introduzidas depois do primeiro tero do sculo XIX,
pois at ento elas no tinham feito pesar nenhuma ameaa sobre sua soberania e
independncia. Na frica ocidental, por exemplo, os missionrios fundaram, em
Serra Leoa, j em 1826, o Fourah Bay College, assim como escolas primrias e
duas escolas secundrias, uma na Costa do Ouro e a outra na Nigria, nos anos
de 1870. O pan-africanista antilhano Edward Wilmot Blyden chegara mesmo
a lanar um apelo a favor da criao de uma universidade na frica ocidental.
Africanos ricos, em 1887, comeavam a enviar os filhos para a Europa para
prosseguir os estudos e receber uma formao profissional. Podemos citar, a
propsito, o caso de John Mensah Sarbah, que voltou para a Costa do Ouro
com todos os seus diplomas de jurista.
    Mais ainda, aps a abolio do hediondo trfico de escravos, os africanos
tinham se mostrado capazes de se adaptar a um sistema econmico baseado


6   SKINNER, E. P., 1964, p. 133. Ver tb. ISICHEI, 1977, p. 181.
A frica diante do desafio colonial                                           7



na exportao de produtos agrcolas: leo de palma na Nigria, amendoim no
Senegal e na Gmbia, antes de 1880; na Costa do Ouro, o cacau foi reintrodu-
zido em 1879 por Tetteh Quashie, vindo de Fernando P. Todas essas trans-
formaes se produziram sem controle europeu direto, salvo em alguns bolses
costeiros. Quanto aos africanos ocidentais que, em nmero bem reduzido, se
tinham beneficiado de uma educao  europeia, gozavam de situao bastante
invejvel no incio dos anos de 1880. Dominavam a administrao, onde ocu-
pavam os raros postos existentes oferecidos pelas administraes europeias; na
costa, alguns deles dirigiam as prprias empresas de importao e exportao e
exerciam o monoplio sobre a distribuio dos produtos importados. Na frica
oriental  que a influncia europeia era ainda mnima, embora, aps as viagens
memorveis de Livingstone e de Stanley, bem como a subsequente propaganda
das sociedades missionrias, a chegada das igrejas, das escolas e, depois, das
estradas e das ferrovias fosse simples questo de tempo.
    Os africanos no viam, portanto, nenhuma necessidade de modificar radical-
mente suas relaes seculares com a Europa, certos de que, se os europeus qui-
sessem lhes impor mudanas pela fora e avanar em suas terras, conseguiriam
barrar-lhes o caminho, tal como vinham fazendo h dois ou trs sculos. Da
esse tom de confiana, se no de desafio, perceptvel nas palavras j citadas.
    No entanto um fato escapava aos africanos: em 1880, graas ao desenvol-
vimento da revoluo industrial na Europa e ao progresso tecnolgico que
ela acarretara  inveno do navio a vapor, das estradas de ferro, do telgrafo
e sobretudo da primeira metralhadora, a Maxim , os europeus que eles iam
enfrentar tinham novas ambies polticas, novas necessidades econmicas e
tecnologia relativamente avanada. Por outras palavras, os africanos no sabiam
que o tempo do livre-cambismo e do controle poltico oficioso cedera lugar,
conforme diz Basil Davidson,  "era do novo imperialismo e dos monoplios
capitalistas rivais" 7.
    Os europeus j no queriam apenas trocar bens, mas exercer controle poltico
direto sobre a frica. Alm disso, os dirigentes africanos no sabiam que as
espingardas que eles usavam e armazenavam at ento, de carregar pela boca (os
franceses tomaram 21365 espingardas dos Baule da Costa do Marfim, depois
de esmagada a sua ltima revolta, em 1911)8, estavam inteiramente fora de
moda, no podendo ser comparadas aos novos fuzis dos europeus, de carregar
pela culatra, com cadncia de tiro quase dez vezes superior e carga seis vezes

7    DAVIDSON, B., 1978a, p. 19.
8    WEISKEL, 1980, p. 203.
8                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



mais forte, nem s novas metralhadoras Maxim, ultrarrpidas (ver figura 1.2).
O poeta ingls Hilaire Belloc resume bem a situao:
    Acontea o que acontecer, ns temos a metralhadora, e eles no9.
    Foi a que os dirigentes africanos cometeram um erro de clculo, que, em
numerosos casos, teve consequncias trgicas. Como veremos, todos os chefes
citados, com exceo de apenas um, foram vencidos e perderam a soberania.
    Alm disso, Lat-Dior foi morto; Prempeh, Behanzin e Cetshwayo, rei dos
Zulus, foram exilados; Lobengula, chefe dos Ndebele, morreu em fuga. Apenas
Menelik, como veremos em captulo posterior, conseguiu vencer os invasores
italianos, preservando assim sua soberania e independncia.


    Estrutura do volume VII
     evidente, portanto, que as relaes entre africanos e europeus se modi-
ficaram radicalmente e que a frica teve de enfrentar, entre 1880 e 1935, o
grande desafio do colonialismo. Quais foram as origens desse fantstico desafio,
o colonialismo? Em outras palavras, por que e como as relaes existentes havia
trs sculos entre a frica e a Europa sofreram uma reviravolta to drstica e
to fundamental durante esse perodo? Como  que se instalou o sistema colonial
na frica e que medidas  polticas e econmicas, psicolgicas e ideolgicas  foram
adotadas para sustentar esse sistema? At que ponto a frica estava preparada
para enfrentar tal desafio, como  que o enfrentou e com que resultado? Entre as
inovaes, quais as que foram aceitas e quais as rejeitadas? Que  que subsistiu do
antigo sistema e que elementos foram destrudos? Que adaptaes, que arranjos
foram feitos? Quantas instituies foram abaladas e quantas se desintegraram?
Quais os efeitos de todos esses fenmenos sobre a frica, seus povos, suas estru-
turas e instituies polticas, sociais e econmicas? Enfim, qual foi o significado
do colonialismo para a frica e sua histria?  a tais questes que este volume
procurar responder.
    Com esse fim em vista, bem como com o propsito de explicar as iniciativas
e reaes africanas em face do desafio colonial, dividimos este volume,  parte
os dois primeiros captulos, em trs grandes sees. Cada uma  precedida por
um captulo (3, 13, 22), onde apresentamos um apanhado geral do tema da
seo, visto de uma perspectiva africana global; depois, nos captulos seguintes,


9   Apud PERHAN, 1961, p. 32.
                                                                                                                                              A frica diante do desafio colonial
Figura 1.2   A guerra dos Ashanti, em 1896 (Costa do Ouro): o invasor britnico equipado com metralhadora Maxim. (Fonte: Muse de l'Homme).




                                                                                                                                              9
10                                                      frica sob dominao colonial, 1880-1935



abordamos o mesmo tema do ponto de vista regional. A seo introdutria, que
compreende o presente captulo e o que se segue, estuda as atitudes dos africanos
e seu grau de preparao em vsperas da transmutao fundamental que se d
nas relaes entre a frica e os europeus, bem como os motivos da partilha,
da conquista e da ocupao da frica pelas potncias imperialistas europeias.
Convm realar, pois frequentemente se ignora, que a fase da conquista efetiva
foi precedida por anos de negociaes entre essas potncias e os dirigentes
africanos e por colquios que redundaram em tratados. Cumpre insistir nessa
fase de negociaes, pois ela mostra que as potncias europeias originalmente
aceitavam a contraparte africana como igual e reconheciam a soberania e a
independncia das sociedades e dos Estados africanos.
    A segunda seo trata das iniciativas e reaes africanas diante da conquista
e da ocupao do continente, tema grosseiramente deturpado ou inteiramente
ignorado, at os anos de 1960, pela escola colonial da historiografia africana.
Para os membros dessa escola, tais como H. H. Johnston, sir Alan Burns e, mais
recentemente, Margery Perham, Lewis H. Gann e Peter Duignan10, os africanos
teriam de fato acolhido favoravelmente a dominao colonial, j que ela no s
os preservava da anarquia e das guerras civis mas tambm lhes trazia algumas
vantagens concretas. Citemos, a esse respeito, Margery Perham:
     A maioria das tribos aceitou rapidamente a dominao europeia, considerando que
     ela fazia parte de uma ordem irresistvel, da qual podiam extrair numerosas vanta-
     gens, essencialmente a paz, e inovaes apaixonantes: ferrovias e estradas, lmpadas,
     bicicletas, arados, culturas e alimentos novos e tudo o que podia ser adquirido ou
     provado nas cidades. Essa dominao trouxe s classes dirigentes  tradicionais ou
     recm-criadas  maior autoridade e segurana, bem como novas formas de riqueza
     e de poder. Por muito tempo, apesar da extrema perplexidade que estas provocaram,
     as revoltas foram bastante raras, e no parece que a dominao tenha sido sentida
     como uma indignidade11.
   Semelhantes ideias tambm se refletem no uso de termos eurocntricos, tais
como "pacificao", Pax Britannica e Pax Gallica, que descrevem a conquista e
a ocupao da frica entre 1880 e 1914. Os historiadores que dedicaram certo
interesse ao assunto s o mencionaram, por assim dizer, de passagem. Na obra A
short history of Africa, publicada em 1962, uma das primeiras anlises modernas
realmente srias da histria da frica, os historiadores ingleses Roland Oliver e

10   JOHNSTON, H. H., 1899, 1913; BURNS, 1957; PERHAM, 1960a; GANN & DUIGNAN, 1967.
11   PERHAM, 1960a, p. 28.
A frica diante do desafio colonial                                                    11



J. D. Fage consagram apenas um pargrafo ao que eles chamam de "resistncia
tenaz" dos africanos, num captulo de quatorze pginas dedicado ao que depois
se conheceu como "corrida" europeia s colnias africanas.  para corrigir essa
falsa interpretao da escola colonial, para restabelecer os fatos e dar relevo 
perspectiva africana que resolvemos destinar sete captulos ao tema das inicia-
tivas e reaes africanas.
    Ver-se- neles que no h nenhuma evidncia em apoio  tese segundo a qual
os africanos teriam acolhido com entusiasmo os soldados invasores e rapida-
mente aceitado a dominao colonial. Na realidade, as reaes africanas foram
exatamente o inverso. Est bem claro que os africanos s tinham duas opes:
ou renunciar sem resistncia  soberania e  independncia, ou defend-las a
qualquer custo.  muito significativo que a maioria dos dirigentes africanos,
como ser amplamente demonstrado neste volume, tenha optado sem hesitar
pela defesa da sua soberania e independncia, a despeito das estruturas polticas
e socioeconmicas de seus Estados e das mltiplas desvantagens que sofriam.
De um lado, a superioridade do adversrio, de outro, a bravia determinao de
resistir a todo preo esto traduzidas no baixo-relevo reproduzido na sobrecapa
desta obra. Esse baixo-relevo, pintado numa das paredes do palcio dos reis do
Daom, em Abomey, mostra um africano armado de arco e flecha, barrando
desafiadoramente o caminho a um europeu armado com uma pistola.
    John D. Hargreaves coloca esta interessante questo em artigo recente:
     Dadas as diversas atitudes possveis da parte dos invasores europeus, os dirigentes
     africanos podiam escolher entre vrias opes. No nmero das vantagens de curto
     prazo que lhes ofereciam os tratados ou a colaborao com os europeus, estava no
     s o acesso s armas de fogo e aos bens de consumo, mas ainda a possibilidade de
     conquistar para a sua causa aliados poderosos, que os ajudariam em suas disputas
     externas ou internas. Ento, por que motivo tantos Estados africanos rejeitaram essas
     oportunidades, preferindo resistir aos europeus nos campos de batalha?12.
   A resposta pode parecer enigmtica, mas somente para os que encaram o
problema do ponto de vista eurocntrico. Para o africano, o que estava em jogo,
na verdade, no era esta ou aquela vantagem a curto ou a longo prazo, mas
sua terra e sua soberania.  precisamente por essa razo que quase todas as
sociedades africanas  centralizadas ou no  optaram mais cedo ou mais tarde
por manter, defender ou recuperar sua soberania; no podiam aceitar nenhum
compromisso que a pusesse em risco, e, de fato, foram numerosos os chefes que

12   HARGREAVES, 1969, p. 205-6.
12                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



preferiram morrer no campo de batalha, exilar-se voluntariamente ou ser des-
terrados pela fora a renunciar sem combate  soberania de seu pas.
    Assim, os dirigentes africanos, na sua maioria, optaram pela defesa de sua
soberania e independncia, diferindo nas estratgias e nas tticas adotadas para
alcanar esse objetivo comum. A maior parte deles escolheu a estratgia do
confronto, recorrendo s armas diplomticas ou s militares, quando no empre-
gando as duas, como foi o caso de Samori Tour e Kabarega (de Bunyoro),
que veremos mais adiante; j Prempeh e Mwanga (de Buganda) recorreram
exclusivamente  diplomacia. Outros, como Tofa, de Porto Novo (no atual
Benin), adotaram a estratgia da aliana ou da cooperao, mas no a colabo-
rao. Cumpre insistir nesta questo da estratgia, pois ela foi grosseiramente
desfigurada at o presente, de forma que j se classificaram alguns soberanos
africanos como "colaboradores", qualificando sua atividade como "colaborao".
Somos contrrios ao emprego do termo "colaborao", pois, alm de inexato, 
pejorativo e eurocntrico. Conforme j vimos, a soberania era o problema fun-
damental em jogo entre os anos de 1880 e 1900 para os dirigentes africanos e,
quanto a isso, est bem claro que nenhum deles se prestava a fazer acordos. Os
dirigentes africanos qualificados erroneamente como colaboradores eram aque-
les que estimavam que a melhor maneira de preservar sua soberania ou mesmo
de recuperar a soberania acaso perdida em proveito de alguma potncia africana,
antes da chegada dos europeus, no consistia em colaborar, mas antes em se aliar
aos invasores europeus. Por colaborador entende-se seguramente aquele que trai
a causa nacional unindo-se ao inimigo para defender os alvos e objetivos deste
ltimo ao invs dos interesses de seu prprio pas. Ora, como j vimos, todos
os africanos se viam confrontados com o problema de abandonar, conservar ou
recuperar sua soberania. Tal era o objetivo daqueles que ligaram sua sorte  dos
europeus, sendo inteiramente falso qualific-los de colaboradores.
    Seja como for, depois da Segunda Guerra Mundial, o termo "colaborador"
ganhou sentido pejorativo, e  interessante notar que certos historiadores que o
empregam tm conscincia disso. R. Robinson, por exemplo, declara: "Convm
sublinhar que o termo [colaborador] no  utilizado em sentido pejorativo" 13.
    Se h o risco de o termo assumir tal sentido, por que empreg-lo ento, em
especial no caso da frica, em que  particularmente inexato? Por que no usar
a palavra "aliado", bem mais conveniente? Assim, Tofa, rei dos Gun de Porto
Novo,  sempre citado como um exemplo tpico de colaborador. Mas s-lo-ia


13   ROBINSON, R., 1972, p. 120.
A frica diante do desafio colonial                                           13



na verdade? Como Hargreaves claramente mostrou14, Tofa tinha de enfrentar
trs diferentes inimigos no momento da chegada dos franceses: os Yoruba, a
nordeste, os reis Fon do Daom, ao norte, e os britnicos, na costa, de modo
que, com certeza, considerou a chegada dos franceses um presente dos cus, uma
oportunidade no s para preservar sua soberania, mas at para obter algumas
vantagens  custa de seus inimigos. Era, pois, natural que Tofa quisesse aliar-se
aos franceses, e no colaborar com eles. S historiadores sem conscincia dos
problemas que Tofa tinha de enfrentar naquela poca ou que negam ao afri-
cano toda iniciativa ou o conhecimento de seus prprios interesses, ou ainda
aqueles que encaram a matria de uma perspectiva eurocntrica,  que o classi-
ficam como colaborador. Alm do mais, o fato de esses pretensos colaboradores,
amide prontos a se aliar aos europeus, muitas vezes, mais tarde, oporem-lhes
resistncia lutando contra eles  outra prova da inexatido do termo: Wogobo,
rei dos Mossi, Lat-Dior, o damel de Cayor, e o prprio grande Samori Tour
so exemplos do absurdo total do qualificativo.
    Afinal de contas, s historiadores realmente ignorantes da situao poltica
e etnocultural da frica em vsperas da conquista e da partilha europeias ou
que tenham a respeito opinies simplistas usam esse termo. Partem da hiptese
de que, a exemplo de muitos pases europeus, os pases africanos so habitados
pelo mesmo grupo etnocultural ou pela mesma nao e, portanto, todo segmento
da populao que se alie a um invasor justifica a denominao de colaborador;
mas, na frica, nenhum pas, nenhuma colnia, nenhum imprio era povoado
por um s grupo tnico. Todos os pases e imprios contavam numerosas naes
ou grupos etnoculturais to diferentes uns dos outros como os italianos o so,
por exemplo, dos alemes ou dos franceses. Alm disso, antes da chegada dos
invasores europeus, as relaes entre esses diferentes grupos eram muito fre-
quentemente hostis, sendo, alis, possvel que alguns estivessem sob o domnio
de outros. Chamar de colaboradores esses grupos subjugados ou hostis porque
optaram por se juntar aos invasores europeus para lutar contra seus inimigos ou
senhores estranhos  no compreender nada da questo. Na verdade, como se
poder constatar em certos captulos deste volume, a natureza das reaes afri-
canas  colonizao foi determinada no s pela situao poltica e etnocultural
com que se defrontavam os povos africanos, mas tambm pela prpria natureza
das foras socioeconmicas presentes em cada sociedade  poca do confronto,
bem como da sua organizao poltica.


14   HARGREAVES, 1969, p. 214-6.
14                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Muitos historiadores europeus tm condenado os opositores por roman-
tismo e falta de perspiccia, louvando, ao contrrio, o progressismo e a cla-
rividncia dos colaboradores. Segundo os termos empregados por Oliver e
Fage em 1962:
     Se [os dirigentes africanos] fossem perspicazes e bem-informados, mais particular-
     mente, se tivessem acesso a conselheiros estrangeiros, como missionrios ou comer-
     ciantes, poderiam compreender muito bem que nada teriam a ganhar resistindo,
     mas, pelo contrrio, muito ganhariam negociando. Se fossem menos clarividentes,
     tivessem menos sorte ou fossem menos bem aconselhados, perceberiam que seus
     inimigos tradicionais estavam do lado do invasor e adotariam ento uma atitude
     de resistncia que facilmente podia terminar numa derrota militar, na deposio do
     chefe, na perda de territrios em proveito dos aliados autctones da potncia ocu-
     pante, talvez pela fragmentao poltica da sociedade ou do Estado [...] Tal como
     no tempo do trfico de escravos, havia ganhadores e perdedores e encontravam-se
     representantes de ambos nos confins de cada territrio colonial15.
    Ronald E. Robinson e John Gallagher tambm descreveram a oposio ou
a resistncia como "lutas romnticas de reao contra a realidade, protestos
apaixonados de sociedades traumatizadas pela nova era de mudanas e que no
se aquietavam" 16.
    Mas essas opinies so muito discutveis. A dicotomia entre resistncia e o
que se pretende por colaborao no  apenas mecnica, mas pouco convincente.
Certamente que houve ganhadores e perdedores durante o trfico de escravos,
mas, desta vez, no havia ganhadores. Os assim chamados colaboradores, tal
qual os que resistiram, acabaram por perder, e  interessante notar que so os
dirigentes classificados como romnticos e intratveis que ainda so lembrados,
tendo se tornado fonte de inspirao para os nacionalistas de hoje17. Concordo
inteiramente com a concluso de Robert I. Rotberg e Ali A. Mazrui, segundo
a qual
     no se pode dizer que a introduo das normas e do poder dos ocidentais, bem como
     dos controles e coeres de que vinham acompanhados, foi questionada em todas as
     partes da frica pelos povos afetados18.


15   OLIVER & FAGE, 1962, 1970, p. 203.
16   ROBINSON, R. E. & GALLAGHER, J., 1962, p. 639-40.
17   Para um estudo mais detalhado do problema, ver BOAHEN, Towards a new cathegorization and perio-
     dization of Africa responses and reactions to colonialism, em que se baseiam partes deste captulo.
18 ROTBERG & MAZRUI, eds., 1970, p. XVIII.
A frica diante do desafio colonial                                                15



    No entanto, qualquer que tenha sido a estratgia dos pases africanos, nenhum
deles, com exceo da Libria e da Etipia, conseguiu preservar sua soberania,
por motivos que examinaremos em seguida: no incio da Primeira Guerra Mun-
dial, que marca o fim da primeira seo deste volume, a frica havia tombado
sob o jugo colonial. No captulo 11, veremos como e por que os liberianos e os
etopes fizeram frente ao colonialismo.
    Qual foi a ao poltica, social e econmica das potncias coloniais em suas
novas possesses, aps o interldio da Primeira Guerra Mundial? Essa questo
ser respondida na segunda seo do volume. Os diversos mecanismos polticos
criados para administrar as colnias e as ideologias que os embasam foram satis-
fatoriamente estudados em numerosas obras sobre o colonialismo na frica19,
de modo que consagramos a esse tema apenas um captulo. Em compensao,
estudaremos com bastante ateno  para contrabalanar as teorias da escola
colonial  os aspectos socioeconmicos do sistema colonial e sua incidncia sobre
a frica. Ver-se-, nesses captulos, que o perodo que vai do fim da Primeira
Guerra Mundial a 1935  qualificado por certos historiadores contemporneos
como de apogeu do colonialismo  foi marcado pela instalao de uma infraes-
trutura rodoviria e ferroviria, assim como pelo engodo de uma certa evoluo
social, por causa da abertura de escolas primrias e secundrias. No entanto, o
objetivo essencial das autoridades coloniais continuava a ser a explorao dos
recursos africanos, fossem animais, vegetais ou minerais, em benefcio exclu-
sivo das potncias metropolitanas, principalmente de suas empresas comerciais,
mineiras e financeiras. Um captulo dessa seo para o qual gostaramos de pedir
ateno especial  o que trata dos aspectos demogrficos da dominao colonial,
tema em geral ausente das pesquisas consagradas ao colonialismo na frica.
    Quais foram as iniciativas e as reaes dos africanos em face da consoli-
dao do colonialismo e da explorao do seu continente? Essa questo ser
respondida na terceira seo deste volume, alis objeto de reflexo cuidadosa,
em consonncia com o princpio que norteia esta obra: considerar a histria
da frica de um ponto de vista africano e dar nfase s iniciativas e reaes
africanas. Durante esse perodo, os africanos no tiveram absolutamente uma
atitude de indiferena, de passividade ou de resignao. Se  apontado como a
era clssica do colonialismo, nem por isso deixa de ser, igualmente, a era clssica
da estratgia da resistncia ou do protesto dos africanos. Conforme mostraremos
tanto no estudo geral como nos estudos regionais subsequentes, os africanos

19   Ver ROBERTS, S. H., 1929; HAILEY, 1938, 1957; EASTON, 1964; GANN & DUIGNAN, eds.,
     1969, 1970; GIFFORD & LOUIS, eds., 1967, 1971; SURET-CANALE, 1971.
16                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



recorreram a certos mtodos e procedimentos  sua multiplicidade comprova
amplamente a fecundidade dos povos do continente nesse domnio  para resis-
tir ao colonialismo.
    Cumpre sublinhar que nessa poca os africanos  com exceo dos dirigentes
do norte do continente  no tinham como objetivo a derrubada do sistema
colonial, mas antes conseguir melhorias e ajustes no interior do sistema. Seu
grande propsito era torn-lo menos opressivo, menos desumano, de modo
a beneficiar tanto os africanos quanto os europeus. Os dirigentes africanos
esforaram-se para corrigir medidas e abusos especficos, como o trabalho for-
ado, a tributao elevada, as culturas agrcolas obrigatrias, a alienao de
terras, as leis relativas  circulao, os baixos preos dos produtos agrcolas e
o alto custo dos bens importados, a discriminao racial e a segregao, e para
desenvolver melhoramentos como hospitais, gua encanada e escolas. Deve-se
frisar que membros de todas as classes sociais  tanto intelectuais como analfa-
betos, citadinos como rurais  partilhavam esses ressentimentos contra o sistema
colonial, o que fez nascer uma conscincia comum de sua condio de africanos
e negros, em oposio a seus opressores, dirigentes coloniais e brancos. Foi
durante esse perodo que assistimos ao revigoramento do nacionalismo poltico
africano, cujas primeiras manifestaes remontam aos anos de 1910, logo aps
a instaurao do sistema colonial.
    Cabia agora s novas elites intelectuais ou  nova burguesia articular tal
sentimento  direo do movimento, papel at ento exercido, no quadro das
estruturas polticas pr-coloniais, pelas autoridades tradicionais. Esses novos
dirigentes, paradoxalmente, eram produto do prprio sistema colonial, sados de
estruturas escolares, administrativas, industriais, financeiras e comerciais criadas
por ele prprio.
    Estando a direo das atividades nacionalistas e anticolonialistas concentrada
nas mos dos intelectuais africanos, que na sua maior parte viviam nos novos
centros urbanos, passou-se a identificar, incorretamente, o nacionalismo africano
do entreguerras exclusivamente com esta camada social, caracterizando-o como
um fenmeno inicialmente urbano.
    Como se mostrar nos captulos desta seo, as associaes e agrupamen-
tos formados pela articulao das aspiraes nacionalistas foram efetivamente
numerosos, e bastante variadas as estratgias e tticas elaboradas no decurso do
perodo para concretiz-las. B. O. Oloruntimehin e E. S. Atieno-Odhiambo,
nos captulos 22 e 26, adiante, apontam entre esses grupos clubes de jovens,
associaes tnicas, sociedades de antigos alunos, partidos polticos, movimen-
tos polticos abrangendo um ou vrios territrios com atividades tanto internas
A frica diante do desafio colonial                                             17



quanto externas ao continente, sindicatos, clubes literrios, clubes de funcio-
nrios, associaes de socorros mtuos, e ainda vrias seitas ou movimentos
religiosos. Alguns desses grupos tinham se constitudo nos anos precedentes 
Primeira Guerra Mundial, mas no h dvida de que proliferaram durante o
perodo considerado, como se ver nos captulos consagrados a esse tema.
    O envio de peties e delegaes s autoridades metropolitanas e locais, as
greves, os boicotes, sobretudo a imprensa e os congressos internacionais, foram as
armas ou tticas ento adotadas, ao contrrio do que ocorrera no perodo anterior 
Primeira Guerra Mundial, em que as rebelies e os tumultos predominaram como
formas de resistncia. O perodo do entreguerras foi, incontestavelmente, a idade
de ouro do jornalismo na frica, de modo geral, e, em particular, na frica ociden-
tal, enquanto a organizao de congressos pan-africanos tornava-se igualmente
arma caracterstica do movimento anticolonial. O objetivo de tais congressos
era conferir carter internacional aos movimentos nacionalistas e anticoloniais
africanos, mas tambm importava chamar a ateno das potncias metropoli-
tanas para o que se passava em suas colnias. Foi essa a razo de os congressos
pan-africanos organizados pelo dr. W. E. B. Du Bois, negro norte-americano, terem
se realizado em Paris, Londres, Bruxelas e at Lisboa. Este tema  retomado com
mais pormenores no captulo 29 do presente volume, consagrado s interaes, ao
longo de todo o perodo estudado, entre os negros da frica e os negros da dispora
nas Amricas.
    No obstante a diversidade das associaes e a complexidade das tticas
desenvolvidas, no houve um verdadeiro impacto sobre o sistema colonial em
comeos da dcada de 1930, a no ser no caso nico do Egito. Mesmo em 1935,
quando as foras imperialistas do regime fascista italiano de Mussolini invadi-
ram e ocuparam a Etipia, um dos dois ltimos basties da esperana da frica,
o grande smbolo do seu desabrochar, do seu despertar, o continente parecia
condenado a ficar para sempre sob o jugo do colonialismo. Mas isso no ocorreu.
A capacidade de resistncia do povo africano, a prpria ocupao da Etipia, a
intensificao do movimento nacionalista africano e dos sentimentos antico-
lonialistas aps a Segunda Guerra Mundial, ligadas ao aparecimento de novos
partidos polticos de massa e de dirigentes mais engajados, que no procuravam
melhorar o sistema colonial, mas, pelo contrrio, suprimi-lo em bloco, foram
outros tantos fatores que se conjugaram, como ser visto no volume VIII desta
obra, e levaram  liquidao do domnio colonial sobre o continente africano
to rapidamente quanto sua instalao, ou seja, num perodo de cerca de duas
dcadas. No entanto o sistema colonial, entre 1880 e 1935, parecia firmemente
18                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



implantado na frica. Que marcas deixou ele, de fato, no continente? O ltimo
captulo deste volume procurar responder a essa questo.


     Fontes do volume VII
    Falta abordar dois pontos neste captulo introdutrio: as fontes da histria
do colonialismo na frica e a sua periodizao.
    No que respeita s fontes, os autores que trabalharam na redao do presente
volume tiveram ao mesmo tempo vantagens e desvantagens em relao aos dos outros
volumes. Isso tambm vale para todos os que vierem a trabalhar com esse perodo.
    Falando primeiro das desvantagens, tanto este volume como o seguinte tra-
tam de pocas em que, ao contrrio do que ocorreu com os outros volumes, parte
dos documentos de arquivos continua inacessvel aos especialistas. Realmente,
em vrias metrpoles, como a Frana para o perodo que vai at 1930, certos
documentos arquivados no foram postos  disposio dos pesquisadores seno
depois de terminados alguns captulos. Alm disso, com a partilha da frica e
a penetrao de tantas potncias europeias no continente, os pesquisadores se
veem diante de difceis problemas lingusticos.
    Em contrapartida, no decurso do mesmo perodo, aumentou de modo geral
o nmero de revistas e peridicos publicados, bem como de documentos parla-
mentares, debates, relatrios de comisses, exposies anuais, atas de sociedades
e de associaes particulares, textos que podem ser todos consultados. Mais
importante ainda, alguns protagonistas do drama colonial ainda esto vivos,
de modo que j se recolheram os depoimentos de muitos deles. Outros, tanto
africanos como europeus, tambm deram incio  publicao de memrias e
autobiografias, ou evocaram sua vivncia em romances, peas e ensaios. Neste
particular, os autores do presente volume se beneficiaram de certas vantagens
em relao  maior parte dos autores dos outros volumes.
    Finalmente, parece que o colonialismo foi e continua a ser objeto de pesqui-
sas e de publicaes bem mais numerosas que qualquer outro tema da histria
africana. Nesses dez ltimos anos, a Universidade de Cambridge, por exemplo,
publicou uma histria do colonialismo na frica, em cinco volumes, sob a dire-
o de L. H. Gann e Peter Duignan. Tambm nos pases da Europa do Leste
o tema suscita, provavelmente, bem mais interesse do que qualquer outro. Estas
vantagens tornam naturalmente mais fcil o trabalho de sntese dos autores no
que diz respeito ao problema das fontes, mas a massa de documentos que so
obrigados a assimilar tende a dar um carter mais rduo  sua tarefa.
A frica diante do desafio colonial                                                              19



     Periodizao do colonialismo na frica
    Convm examinar aqui brevemente o problema da periodizao da histria
do colonialismo na frica, ignorado por numerosos historiadores, mas levantado
por A. B. Davidson e Michael Crowder na dcada de 1960.
    Certos autores propuseram 1870 como data do incio da "corrida" euro-
peia para a frica e da imposio do domnio colonial. Essa data, no entanto,
parece um pouco recuada. No captulo 2, G. N. Uzoigwe mostra que foram as
atividades dos franceses na regio da Senegmbia, do rei Leopoldo da Blgica,
representado por H. M. Stanley, dos franceses, por Pierre Savorgnan de Brazza
na regio do Congo, e dos portugueses na frica central que desencadearam a
corrida. Ora, est claro que nenhuma dessas atividades comeou antes do final
da dcada de 1870 e do incio da de 1880. Parece, portanto, que 1880  um ponto
de partida mais apropriado do que 187020. De 1880 at a derrocada do colonia-
lismo, nas dcadas de 1960 e 1970, o estudo da dominao colonial, das reaes
e das iniciativas africanas deveria ser dividido em trs perodos. O primeiro iria
de 1880 a 1919 (com duas subdivises: 1880-1900 e 1900-1919, correspondendo
respectivamente  conquista e  ocupao).  aquilo que chamaramos de perodo
da defesa da soberania e da independncia africanas mediante o recurso  estrat-
gia do confronto, da aliana ou da submisso temporria. O segundo iria de 1919
a 1935:  o perodo da adaptao, sendo a estratgia empregada a do protesto ou
a da resistncia. O terceiro, com incio em 1935,  o perodo dos movimentos
de independncia, sendo de ao concreta a estratgia21.
    Nossa tese  a seguinte: o perodo que vai de 1880 at cerca de 1919  dito
de pacificao, segundo certos historiadores  assistiu, sob a perspectiva europeia,
 realizao da partilha em cima de mapas, da distribuio das tropas destinadas
a concretiz-la em campo, depois  ocupao efetiva das regies conquistadas,
representada pela introduo de diversas medidas administrativas e de uma
infra-estrutura rodoviria, ferroviria e telegrfica, voltada para a explorao dos
recursos coloniais. Da perspectiva africana, como j vimos, durante esse per-
odo, os reis, rainhas, chefes de linhagens e de cls acham-se todos dominados
por uma nica e imperiosa considerao: manter ou recuperar a soberania, seu
patrimnio e sua cultura, qualquer que seja a estratgia adotada  confronto,
aliana ou submisso. Em 1919, em quase toda a frica, com a exceo notria
da Lbia, de algumas regies do Saara, da Libria e da Etipia, os confrontos

20   Ver CROWDER, 1968, p. 17-9.
21   Para diferentes periodizaes, ver DAVIDSON, A. B., 1968, p. 177-88, e CROWDER, 1968, p. 17-9.
20                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



terminaram a favor dos europeus, e todos os africanos perderam a soberania,
tanto aqueles que na considerao de certos historiados resistiram como aqueles
que no seu entender colaboraram.
    Na segunda fase, entre 1919 e 1935,  correto incluir as reaes dos africanos
na categoria das manifestaes de resistncia ou, como preferimos, de protestos.
Escolhemos 1919 no s porque essa data sucede a acontecimentos marcantes,
como o fim da Primeira Guerra Mundial, a revoluo de outubro na Rssia
tzarista e a reunio do primeiro congresso pan-africano por Du Bois  que
tiveram um impacto revolucionrio no curso da histria mundial , mas tam-
bm porque naquele momento a oposio  ocupao europeia da frica havia
cessado praticamente em todo o continente.
    Como data de encerramento do perodo estudado neste volume tambm
preferimos 1935 a 1945, pois 1935  o ano da invaso e da ocupao da Etipia
pelas foras fascistas de Mussolini. Essa situao crtica transtorna e indigna
profundamente os africanos, particularmente os intelectuais e, de modo geral,
os negros do mundo inteiro. Ela lhes faz tomar conscincia, igualmente  de
modo ainda mais dramtico e bem mais que a Segunda Guerra Mundial , da
natureza desumana, racista e opressiva do colonialismo. Kwame Nkrumah, que
mais tarde viria a ser presidente de Gana, assim descreve como reagiu ao saber
da invaso: "Tive quase a impresso, naquele momento, de que Londres inteira
me havia declarado pessoalmente guerra"22. E confessa que a crise lhe aumentou
o dio ao colonialismo. Na verdade, a luta pela libertao da frica do jugo
colonialista sobreviria muito provavelmente no final dos anos 1930, no fosse a
irrupo da Segunda Guerra Mundial.
    O ltimo perodo, que vai de 1935 ao desencadeamento das lutas revolucio-
nrias pela independncia, diz respeito mais propriamente ao ltimo volume
da srie, motivo por que nos abstivemos de estud-lo aqui.




22   NKRUMAH, 1957, p. 27.
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                  21



                                          CAPTULO 2


    Partilha europeia e conquista da frica:
                apanhado geral
                                         Godfrey N. Uzoigwe




    Introduo: um perodo de guerras e de
    transformaes revolucionrias
    A gerao de 1880-1914 assistiu a uma das mutaes histricas mais signi-
ficativas dos tempos modernos. Com efeito, foi no decorrer desse perodo que a
frica, um continente com cerca de trinta milhes de quilmetros quadrados, se
viu retalhada, subjugada e efetivamente ocupada pelas naes industrializadas da
Europa. Os historiadores at agora no tm a dimenso real das consequncias
desastrosas, quer para o colonizado quer para o colonizador, desse perodo de
guerras contnuas, embora em geral sublinhem que se tratou de uma poca de
transformaes revolucionrias fundamentais.
    A importncia dessa fase histrica, no entanto, vai muito alm da guerra e
das transformaes que a caracterizaram. No passado, imprios ergueram-se e
desmoronaram, conquistas e usurpaes tambm so to antigas como a prpria
histria, e, desde h muito, diversos modelos de administrao e de integrao
coloniais tm sido experimentados. A frica foi o ltimo continente subjugado
pela Europa. O que h de notvel nesse perodo , do ponto de vista europeu,
a rapidez e a facilidade relativa com que, mediante um esforo coordenado, as
naes ocidentais ocuparam e submeteram um continente assim to vasto. 
um fato sem precedentes na histria.
22                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Como explicar tal fenmeno? Ou, antes, por que a frica foi repartida poli-
ticamente e sistematicamente ocupada naquele exato momento? Por que  que
os africanos foram incapazes de pr cerco a seus adversrios? Tais questes tm
suscitado, entre os historiadores da partilha da frica e do novo imperialismo,
explicaes bastante engenhosas desde os anos de 1880, mas nenhuma delas se
mostrou totalmente aceitvel, tanto assim que a histria da partilha tornou-se
um dos temas mais controversos e apaixonantes do nosso tempo. O especialista
v-se assim perante uma tarefa imensa: encontrar o fio da meada no fantstico
emaranhado de interpretaes to contraditrias.


     A partilha da frica e o novo imperialismo:
     exame das diferentes teorias
    O bom-senso faz-se necessrio, portanto, para que se possa introduzir um
pouco de ordem na confuso de teorias a que essa mutao capital da histria
africana deu origem. Essas teorias podem ser classificadas em: teoria econmica,
teorias psicolgicas, teorias diplomticas e teoria da dimenso africana.

     A teoria econmica
   Essa teoria conheceu vicissitudes de toda sorte. Quando o comunismo
ainda no constitua ameaa ao sistema capitalista ocidental, ningum punha
realmente em dvida a base econmica da expanso imperialista. No , pois,
casual o sucesso da crtica de Schumpeter  noo de imperialismo capitalista1
entre especialistas no marxistas. Os repetidos ataques a essa teoria apresentam
hoje resultados cada vez menos concludentes. Em consequncia, a teoria do
imperialismo econmico, sob forma modificada, volta a encontrar aceitao.
   Que se deve entender por imperialismo econmico? As origens tericas
da noo remontam a 1900, quando os social-democratas alemes colocaram
na ordem do dia do congresso anual do seu partido, realizado naquele ano em
Mainz, a Weltpolitik, ou seja, a poltica de expanso imperialista em escala mun-
dial. Foi l que, pela primeira vez, Rosa Luxemburgo apresentou o imperialismo
como o ltimo estgio do capitalismo. Foi l tambm que George Ledebour
fez observar que



1    SCHUMPETER, 1955.
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                              23



    a essncia da Weltpolitik era o impulso profundo que conduz todos os capitalismos
    a uma poltica de pilhagem, a qual leva o capitalismo europeu e o americano a
    instalarem-se no mundo inteiro2.
   A formulao clssica dessa teoria, no entanto  alis, a mais clara ,  a de
John Atkinson Hobson. Afirma ele que
    a superproduo, os excedentes de capital e o subconsumo dos pases industrializados
    levaram-nos a colocar uma parte crescente de seus recursos econmicos fora de sua
    esfera poltica atual e a aplicar ativamente uma estratgia de expanso poltica com
    vistas a se apossar de novos territrios.
   Para ele, estava a "a raiz econmica do imperialismo". Embora admitindo
que foras de carter no econmico desempenharam certo papel na expanso
imperialista, Hobson estava convicto de que,
    mesmo que um estadista ambicioso, um negociante empreendedor pudessem sugerir
    ou at iniciar uma nova etapa da expanso imperialista, ou contribuir para sensi-
    bilizar a opinio pblica de sua ptria no sentido da urgente necessidade de novas
    conquistas, a deciso final ficaria com o poder financeiro3.
    Adotando livremente as teses centrais dos social-democratas alemes, assim
como as de Hobson, V. I. Lnin salientava que o novo imperialismo caracterizava-
-se pela transio de um capitalismo de orientao "pr-monopolista", "no qual
predomina a livre concorrncia", para o estgio do capitalismo monopolista
"intimamente ligado  intensificao da luta pela partilha do mundo"4.
    Assim como o capitalismo de livre concorrncia prosperava exportando mer-
cadorias, o capitalismo monopolista prosperava exportando capitais, derivados
dos superlucros acumulados pelo cartel dos bancos e da indstria. Segundo
Lnin,  esse o estgio final do capitalismo. Concordando com Rosa Luxem-
burgo, e em contradio com Hobson, Lnin acreditava estar o capitalismo
destinado  autodestruio, pois, tendo finalmente partilhado o mundo entre
si, os capitalistas, convertidos em pessoas que vivem de rendas, parasitas, sus-
tentados pelos lucros de seus investimentos, estariam ameaados pelas naes
jovens, que exigiriam uma nova partilha do mundo. Os capitalistas, sempre
vidos, recusariam. O conflito, portanto, no poderia ser atalhado seno por
uma guerra, no fim da qual os capitalistas seriam obrigatoriamente vencidos.

2    Apud BASSO, 1972, p. 114.
3    HOBSON, 1902, p. 59, 80-1.
4    LNIN, 1916, p. 92 (com destaque no original).
24                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



A guerra, portanto,  a consequncia inevitvel do imperialismo e trar consigo
a morte violenta do capitalismo.
    No surpreende que esta propaganda entusistica tenha sido aceita por nume-
rosos especialistas marxistas. Nacionalistas e revolucionrios do Terceiro Mundo
tambm adotaram, sem sombra de hesitao, as doutrinas de Hobson e de Lnin.
Aliando-se aos intelectuais de esquerda do Ocidente, descreviam o imperialismo
e o colonialismo como resultado de uma explorao econmica descarada5.
    No obstante nem Hobson nem Lnin terem se preocupado diretamente
com a frica, est claro que suas anlises tm implicaes fundamentais no
estudo da partilha do continente. Ainda assim, um enorme exrcito de especia-
listas no marxistas demoliu mais ou menos a teoria marxista do imperialismo
econmico aplicada  frica6.
    Uma reao tpica dos especialistas marxistas a essa aparente vitria consiste
em dizer que, ainda que as crticas a Hobson e a Lnin sejam basicamente
justas, esto mal direcionadas. "O alvo", escreve Bob Sutcliffe, " muitas vezes
uma miragem, e as armas utilizadas no so adequadas", pois o imperialismo,
concebido como fenmeno global, considera o valor do imprio como um todo
e, portanto, "um balano de nvel nacional no faz o menor sentido"7.
    Um argumento mais convincente, no entanto,  o de que, embora a teoria clssica
do imperialismo econmico seja aniquilada, isso no permite necessariamente refu-
tar sua concluso de que o imperialismo, no nvel mais profundo,  essencialmente
econmico. Denegrir as outras teorias econmicas do imperialismo e depois correr
a condenar seus partidrios em funo da simpatia deles pelas opinies de Hobson
e de Lnin nada tem de cientfico.  luz de pesquisas mais aprofundadas sobre a
histria africana desse perodo, parece claro que aqueles que persistem em reduzir a
importncia da dimenso econmica da partilha o fazem por sua conta e risco8.

     As teorias psicolgicas
    Preferimos analisar aqui em termos psicolgicos as teorias que comumente
se classificam como darwinismo social, cristianismo evanglico e atavismo social,
porque seus adeptos acreditam na supremacia da "raa branca".


5    RODNEY, 1972; CHINWEIZU, 1975, mais particularmente o captulo 3.
6    Tais crticas devem-se notadamente a FIELDHOUSE, 1961; BLAUG, 1961; SUTCLIFFE, 1972,
     p. 316-20.
7    SUTCLIFFE, 1972, p. 318; cf. ibid., p. 312-23.
8    Ver, por exemplo, HOPKINS, A. G., 1968, 1973; NEWBURY & KANYA -FORSTNER, 1969;
     STENGERS, 1962.
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                                   25



     O darwinismo social
    A obra de Darwin9, A origem das espcies por meio da seleo natural, ou a con-
servao das raas favorecidas na luta pela vida publicada em ingls em novem-
bro de 1859, parecia fornecer cauo cientfica aos partidrios da supremacia
da raa branca, tema que, depois do sculo XVII, jamais deixou de estar pre-
sente, sob diversas formas, na tradio literria europeia. Os ps-darwinianos
ficaram, portanto, encantados: iam justificar a conquista do que eles chamavam
de "raas sujeitas" , ou "raas no evoludas", pela "raa superior" , invocando
o processo inelutvel da "seleo natural", em que o forte domina o fraco na
luta pela existncia. Pregando que "a fora prima sobre o direito", eles achavam
que a partilha da frica punha em relevo esse processo natural e inevitvel. O
que nos interessa neste caso de flagrante chauvinismo racista  j qualificado,
e com muita razo, de "albinismo"   que ele afirma a responsabilidade das
naes imperialistas10.
    Resta concluir que o darwinismo social, aplicado  conquista da frica, 
mais uma racionalizao tardia que o mvel profundo do fenmeno.

     Cristianismo evanglico
    O cristianismo evanglico, para o qual A origem das espcies era uma heresia
diablica, no tinha, por sua vez, o menor escrpulo em aceitar as implicaes
racistas da obra. As conotaes raciais do cristianismo evanglico eram mode-
radas, todavia, por uma boa dose de zelo humanitrio e filantrpico sentimento
muito disseminado entre os estadistas europeus durante a conquista da frica.
Sustentava-se, assim, que a partilha da frica se devia, em parte no desprez-
vel, a um impulso "missionrio", em sentido lato, e humanitrio, com o objetivo
de "regenerar" os povos africanos11. J se afirmou, alm disso, que foram os
missionrios que prepararam o terreno para a conquista imperialista na frica
oriental e central, assim como em Madagscar12. No entanto, se  verdade que
os missionrios no se opuseram  conquista da frica e que, em certas regies,
dela participaram ativamente, esse fator, por si s, no se sustenta como uma
teoria geral do imperialismo, em razo de seu carter limitado.


9    DARWIN, 1859.
10   Para maiores detalhes sobre estas teorias, ver MAUNIER, 1949; HIMMELFARB, 1960.
11   GALBRAITH, 1961, p. 34-48; BENNETT, ed., 1953; GROVES, 1969, para o fator missionrio na
     expanso imperialista.
12   OUVER, 1965; ROTBERG, 1965; MUTIBWA, 1974.
26                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



     Atavismo social
    Foi Joseph Schumpeter o primeiro a explicar o novo imperialismo em termos
sociolgicos. Para ele, o imperialismo seria a consequncia de certos elemen-
tos psicolgicos imponderveis e no de presses econmicas. Seu raciocnio,
exposto em termos antes humanistas do que da preponderncia racial europeia,
funda-se no que ele considera ser um desejo natural do homem: dominar o
prximo pelo prazer de domin-lo. Essa pulso agressiva inata seria coman-
dada pelo desejo de apropriao, prprio do ser humano. O imperialismo seria,
portanto, um egosmo nacional coletivo: "a disposio, desprovida de objetivos,
que um Estado manifesta de expandir-se ilimitadamente pela fora"13. O novo
imperialismo, por conseguinte, seria de carter atvico14, quer dizer, manifestaria
uma regresso aos instintos polticos e sociais primitivos do homem, que talvez
se justificassem em tempos antigos, mas certamente no no mundo moderno.
Schumpeter demonstra ento como, pela sua prpria natureza, o capitalismo
seria "anti-imperialista" e benevolente. Dirigido por empresrios inovadores,
seria totalmente oposto s motivaes agressivas e imperialistas das antigas
monarquias e classes de guerreiros, cujas ambies no teriam objetivos precisos.
Ao contrrio destas, o capitalista teria objetivos claramente definidos e por isso
seria inteiramente hostil aos comportamentos atvicos prprios de antigos regi-
mes. Assim, conclui Schumpeter, a explicao econmica do novo imperialismo,
baseada no desenvolvimento lgico do capitalismo,  falsa.
    Por mais sedutora que seja, essa tese apresenta um defeito grave:  nebulosa
e a-histrica.
    As teorias psicolgicas, embora possam conter algumas verdades que aju-
dam a compreender a partilha da frica, no conseguem explicar por que essa
partilha se deu num determinado momento histrico. No entanto, fornecem
elementos para explicar por que a partilha foi possvel e considerada desejvel.

     Teorias diplomticas
    Essas teorias oferecem a explicao puramente poltica da partilha, e talvez a
mais comumente aceita. Mas   interessantssimo  fornecem suporte espec-
fico e concreto s teorias psicolgicas. Permitem ver os egosmos nacionais dos
Estados europeus, seja em conflito uns com os outros, seja agindo em acordo
para se defenderem, seja ainda reagindo de maneira decisiva contra as foras

13   SCHUMPETER, 1955, p. 6.
14   Ibid., p. 65.
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                             27



dos nacionalistas africanos radicais. Propomos, assim, tratar essas teorias abor-
dando sucessivamente o prestgio nacional, o equilbrio de foras e a estratgia
global.

     Prestgio nacional
   O principal defensor desta teoria  Carlton Hayes, que, num texto de grande
lucidez, sustenta:
     A Frana procurava uma compensao para as perdas na Europa com ganhos no
     ultramar. O Reino Unido aspirava compensar seu isolamento na Europa engrande-
     cendo e exaltando o imprio britnico. A Rssia, bloqueada nos Blcs, voltava-se
     de novo para a sia. Quanto  Alemanha e  Itlia, queriam mostrar ao mundo
     que tinham o direito de realar seu prestgio, obtido  fora na Europa por faa-
     nhas imperiais em outros continentes. As potncias de menor importncia, que
     no tinham prestgio a defender, l conseguiram viver sem se lanarem na aventura
     imperialista, a no ser Portugal e Holanda, que demonstraram renovado interesse
     pelos imprios que j possuam, esta ltima principalmente, administrando o seu
     com redobrado vigor15.
   Hayes conclui dizendo que, fundamentalmente, "o novo imperialismo era um
fenmeno nacionalista" e que seus defensores tinham sede ardente de prestgio
nacional. Em suma, tendo consolidado e redistribudo as cartas diplomticas no
seu continente, os dirigentes europeus eram propelidos por uma fora obscura,
atvica, que se exprimia por uma "reao psicolgica, um desejo ardente de
manter ou de restaurar o prestgio nacional".
   Conclui Carlton Hayes, portanto, que a partilha da frica no foi um fen-
meno econmico16.

     Equilbrio de foras
    F. H. Hinsley17 sublinha, por sua vez, que o desejo de paz e de estabilidade dos
Estados europeus foi a causa principal da partilha da frica. Segundo diz, a data
decisiva, de verdadeira passagem para a era extraeuropeia  a era do imperialismo
, foi 1878. A partir da, no congresso de Berlim, a rivalidade russo-britnica nos
Blcs e no Imprio Otomano quase levou as naes europeias a um conflito

15   HAYES, 1941, p. 220.
16   Ibid.
17   HINSLEY, 1959a, 1959b.
28                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



generalizado. Mas os estadistas, voltando atrs, souberam evitar essa crise na
poltica de poder. Da em diante, at a crise da Bsnia, em 1908, tal poltica,
banida da Europa, correu livremente na frica e na sia. Quando os conflitos
de interesses na frica ameaaram a paz na Europa, as potncias europeias no
tiveram outra escolha seno retalhar a frica. Era o preo para se salvaguardar
o equilbrio diplomtico europeu, estabilizado nos anos de 1880.

     Estratgia global
    Uma terceira escola sustenta que o interesse da Europa pela frica  o qual
provocou a invaso e a partilha  era de fato ditado por uma estratgia global
e no pela economia. Os grandes defensores dessa teoria, Ronald Robinson e
John Gallagher, que acentuam a importncia estratgica, para o Reino Unido,
do eixo frica-ndia, atribuem a responsabilidade da partilha  influncia dos
movimentos atvicos "protonacionalistas" na frica, que ameaavam os interes-
ses estratgicos globais das naes europeias. Essas "lutas romnticas e reacion-
rias"  galantes anacronismos, na opinio deles  teriam compelido os relutantes
estadistas europeus, at ento contentes com o exerccio de uma discreta hege-
monia e o recurso  persuaso, a partilhar e conquistar a frica contra a vontade.
Portanto a frica teria sido ocupada, no porque tivesse riquezas materiais a
oferecer aos europeus  pois ento no tinham valor do ponto de vista econ-
mico , mas porque ameaava os interesses dos europeus alhures18.
    Um objetivo bsico tanto das teorias psicolgicas como das diplomticas,
a elas aparentadas,  acabar com a ideia de que a partilha da frica se deve a
motivos econmicos. Mas a tese do prestgio nacional mostra-se pouco con-
vincente precisamente quando os fatores econmicos a ele concomitantes so
eliminados ou minimizados demais. Carlton Hayes, por exemplo, documentou
pormenorizadamente a guerra tarifria a que se lanaram as naes europeias
durante o perodo crucial da partilha19. Admite mesmo que
     o que desencadeou, de fato, a corrida econmica para o `Continente Negro' e para as
     ensolaradas ilhas do Pacfico no foi tanto a superproduo de bens manufaturados
     na Europa como uma escassez de matrias-primas"20, e que, em consequncia, "para
     impedir que uma parte demasiadamente grande do mundo fosse [...] monopolizada



18   Ver GALLAGHER & ROBINSON, 1953; ROBINSON & GALLAGHER, 1962, 1961.
19   HAYES, 1941, p. 205-8.
20   Ibid., p. 218.
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                               29



     pela Frana, Alemanha, Itlia ou outra potncia protecionista, a Gr Bretanha inter-
     veio vigorosamente para juntar a parte do leo a seu imprio livrecambista.
    Por outras palavras, uma vez estabelecido, o neomercantilismo teve importan-
tes consequncias para a emergncia das rivalidades imperialistas21. No entanto,
na pgina seguinte, ele contesta com bastante segurana, como j vimos, as bases
econmicas do novo imperialismo!
    H. Brunschwig, propondo uma interpretao no econmica do imperia-
lismo francs, tambm se viu obrigado, diante da inegvel dimenso econmica
do imperialismo, a reconhecer-lhe afinal um papel. Ao mesmo tempo que qua-
lificava o imperialismo anglo-saxo como econmico e filantrpico, o da Frana
lhe parecia motivado pelo prestgio nacional22.
    J a tese da estratgia global suscitou entre os especialistas reaes bastante
negativas, mas atraiu irresistivelmente historiadores no africanistas e o grande
pblico. Sabemos, no entanto, que essa tese, elaborada a partir das hipteses
de Langer23, mais eclticas, e de Hinsley, mais ponderadas,  demasiado cate-
grica e circunstancial para ser admissvel. Na frica ocidental, central, austral
e oriental demonstrou-se falha24. No tocante ao Egito e  frica do norte,
mostrou-se que havia fortes razes para a presena britnica naquela rea
sem ligao com a estratgia imperialista do Reino Unido relativa  ndia25.
 gratificante notar que, por sua vez, Robinson comea a atribuir menos
importncia s exageradas repercusses do bton gyptien nas lutas coloniais
em toda a frica26.

     Teoria da dimenso africana
   As teorias sobre a partilha expostas at agora tratam da frica no quadro
ampliado da histria europeia.  claro que isso  um grave erro. Mesmo a abor-
dagem "protonacionalista" do atavismo feita por Robinson ou Gallagher no foi
totalmente desenvolvida, exatamente por terem eles seu interesse voltado para
a Europa e a sia.


21   Ibid., p. 219.
22   BRUNSCHWIG, 1966, p. 4-13.
23   LANGER, 1935.
24   Ver STENGERS, 1962; NEWBURY & KANYA-FORSTNER, 1969; G. N. UZOIGWE, 1974, 1977;
     LOUIS, ed., 1976.
25 UZOIGWE, 1974.
26   ROBINSON, 1972.
30                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



    , portanto, necessrio, fundamental mesmo, examinar a partilha da frica
da perspectiva histrica africana. Ao contrrio do que comumente se acredita,
esta forma de abordar o tema no  uma inovao engenhosa da "nova" historio-
grafia africana. Em obra notvel, The partition of Africa27, publicada em 1893, J.
S. Keltie assinalava com muita argcia que a corrida dos anos de 1880 foi con-
sequncia lgica da roedura progressiva do continente, iniciada trezentos anos
antes. Admitia, de passagem, os motivos econmicos da partilha  eles no eram
centrais na sua tese. Nos anos de 1930, George Hardy, o prolfico especialista
da histria colonial francesa, tambm demonstrou a importncia dos fatores
africanos locais da partilha, tratando a frica como uma unidade histrica. A
exemplo de Keltie, afirmava que, embora a causa imediata da partilha fossem as
rivalidades econmicas entre os pases industrializados da Europa, ela constitua
ao mesmo tempo uma fase determinante nas relaes de longa data entre a
Europa e a frica. Hardy julgava que a resistncia africana  crescente influncia
europeia precipitou a conquista efetiva, tal como as rivalidades comerciais cada
vez mais exacerbadas das naes industrializadas levaram  partilha28.
    Durante muito tempo, essas anlises no tiveram eco. Mas, com a publicao,
em 1956, da obra clssica de K. Onwuka Dike, Trade and politics in the Niger
Delta29, a dimenso africana da partilha foi retomada. Embora a obra de Dike
trate de um perodo e de uma rea geogrfica limitados, ela encorajou toda
uma gerao de historiadores a abordar o estudo da partilha no contexto de um
longo perodo de contatos entre raas e culturas diferentes. Lamentavelmente,
embora R. Oliver e J. D. Fage demonstrem a antiguidade de tais relaes em
sua conhecida obra A short history of Africa30, mantm-se presos demasiadamente
ainda ao contexto europeu da partilha, em detrimento da dimenso africana. 
encorajador, se bem que trate apenas de uma zona geogrfica limitada, o impor-
tante estudo de A. G. Hopkins31, na medida em que este autor se esfora por
apresentar uma reinterpretao africana do imperialismo na frica ocidental.
Sua concluso merece ser citada:
     Por um lado,  possvel conceber regies onde o abandono do comrcio de escravos se deu
     sem choques nem perda de rendimentos e onde as tenses internas foram contro-



27   KELTIE, 1893.
28   HARDY, 1930, p. 124-37.
29   DIKE, 1956.
30   OLIVER & FAGE, 1962, 1970
31   HOPKINS, A. G., 1973.
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                                        31



     ladas. Em casos tais, a explicao do retalhamento colonial dever salientar os fatores
     externos, como as consideraes mercantis e as rivalidades anglo-francesas. No outro
     extremo,  possvel imaginar casos em que os chefes indgenas adotaram atitudes de
     reao, no hesitando em recorrer a mtodos predatrios, na tentativa de manter os
     rendimentos, e em que os conflitos internos eram pronunciados. Nesses casos peso
     maior deve ser dado, na anlise do imperialismo, s foras de desintegrao ativas no
     seio das sociedades africanas, sem negligenciar, todavia, os fatores externos32.
    O autor do presente captulo concorda com a maior parte dos historiadores
desta escola33. Como eles, explica a partilha levando em considerao tanto os
fatores europeus como os africanos e, assim procedendo, acredita que se com-
pletam dessa forma as teorias eurocntricas examinadas anteriormente com a da
dimenso africana. Rejeita a ideia de que a partilha e a conquista eram inevitveis
para a frica, como dado inscrito na sua histria. Pelo contrrio, considera-as a
consequncia lgica de um processo de devorao da frica pela Europa, iniciado
bem antes do sculo XIX. Admite que foram motivos de ordem essencialmente
econmica que animaram os europeus e que a resistncia africana  invaso cres-
cente da Europa precipitou a conquista militar efetiva. Parece, de fato, que a teoria
da dimenso africana oferece um quadro global e histrico que explana melhor a
partilha do que todas as teorias puramente eurocntricas.


     O incio da corrida
    Malgrado a considervel influncia que, no final do terceiro quartel do sculo
XIX, exerciam as potncias francesa, inglesa, portuguesa e alem, bem como os
interesses comerciais que detinham em diferentes regies da frica, seu controle
poltico direto era muito reduzido. A Alemanha e sobretudo o Reino Unido
exerciam sua influncia como queriam, e nenhum estadista em s conscincia
optaria espontaneamente por incorrer em gastos e se expor aos riscos impre-
vistos de uma anexao formal, podendo extrair as mesmas vantagens de um
controle indireto. "Recusar-se a anexaes no significa relutar ao exerccio do
domnio", j se disse com boa razo34. Isso explica tanto a conduta de Salisbury
e Bismarck como a da maior parte dos protagonistas da partilha.


32   Ibid., p. 165-6.
33   A teoria da dimenso africana vem desenvolvida mais extensamente em HOPKINS, A. G., 1973, bem
     como em UZOIGWE, 1973.
34   GALLAGHER & ROBINSON, 1953, p. 3.
32                                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



   Essa conduta, porm, comea a mudar depois de trs importantes aconteci-
mentos verificados entre 1876 e 1880.
   O primeiro foi o novo interesse que o duque de Brabante, coroado rei dos
belgas em 1865 (sob o nome de Leopoldo I), demonstrava pela frica, o que se
expressou na chamada Conferncia Geogrfica de Bruxelas, por ele convocada
em 1876, a qual redundou na criao da Associao Internacional Africana e
no recrutamento de Henry Morton Stanley, em 1879, para explorar os Congos
em nome da Associao. Essas medidas culminaram na criao do Estado Livre
do Congo, cujo reconhecimento por todas as naes europeias Leopoldo obteve
antes do trmino das deliberaes da Conferncia de Berlim sobre a frica
ocidental35.
   As atividades de Portugal, a partir de 1876, constituram a segunda srie
de acontecimentos importantes. Melindrado por s ter sido convidado para a
conferncia de Bruxelas no ltimo minuto, Portugal deu incio a uma srie de
expedies que levaram a coroa portuguesa a anexar, em 1880, as propriedades
rurais afro-portuguesas de Moambique, at ento quase independentes.
   Assim, para os portugueses e para o rei Leopoldo, a Corrida comeou
em 1876. O terceiro e ltimo acontecimento a rematar a partilha foi, sem
dvida alguma, o carter expansionista da poltica francesa entre 1879 e
1880, manifestado pela participao da Frana junto com o Reino Unido
no controle do Egito (1879), pelo envio de Savorgnan de Brazza ao Congo,
pela ratificao de tratados com Makoko, chefe dos Bateke, bem como pelo
restabelecimento da iniciativa colonial francesa tanto na Tunsia como em
Madagscar36.
   A ao de Portugal e Frana entre 1876 e 1880 indicava claramente que
estavam comprometidos na explorao colonial e na instaurao de um con-
trole formal na frica. Isto obrigou finalmente o Reino Unido e a Alemanha
a abandonar sua preferncia pelo controle informal em favor de um domnio
efetivo, o que os levou a anexar territrios na frica oriental, ocidental e
meridional a partir do final de 188337. A Alemanha, por exemplo, anexou
o Sudoeste Africano, o Togo, Camares e a frica Oriental Alem, contri-
buindo com isso para acelerar o processo da partilha.


35   PRO FO 403/192, "Memorando de sir E. Hertslet sobre as importantes mudanas polticas e territoriais
     ocorridas na frica central e oriental desde de 1883" (com notas adicionais de sir P. Anderson), fevereiro
     de 1893. (Confidencial).
36   MUTIBWA, 1974, captulos 6 e 7.
37   Ver CECIL, 1932, p. 225-6; LUGARD, 1929, p. 13.
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                            33



   No incio da dcada de 1880, no auge da partilha dos territrios, Portugal,
receando ser alijado da frica, props a convocao de uma conferncia inter-
nacional com o fito de resolver os litgios territoriais na frica central. Parece
evidente,  luz do que acabamos de dizer, que no foi a ocupao inglesa do
Egito em 1882 que desencadeou a corrida, como afirmaram Robinson e Galla-
gher38, mas os acontecimentos que se desenrolaram em diferentes partes da
frica entre 1876 e 1880.


     A Conferncia de Berlim sobre a
     frica ocidental (18841885)
    A ideia de uma conferncia internacional que permitisse resolver os conflitos
territoriais engendrados pelas atividades dos pases europeus na regio do Congo
foi lanada por iniciativa de Portugal, mas retomada mais tarde por Bismarck,
que, depois de ter consultado outras potncias, foi encorajado a concretiz-la.
A conferncia realizou-se em Berlim, de 15 de novembro de 1884 a 26 de
novembro de 1885 (fig. 2.1).  notcia de que seria realizada, a corrida  frica
intensificou-se. A conferncia no discutiu a srio o trfico de escravos nem os
grandes ideais humanitrios que se supunha terem-na inspirado. Adotaram-se
resolues vazias de sentido, relativas  abolio do trfico escravo e ao bem-estar
dos africanos.
    A conferncia, que, inicialmente, no tinha por objetivo a partilha da frica,
terminou por distribuir territrios e aprovar resolues sobre a livre navegao
no Nger, no Benue e seus afluentes, e ainda por estabelecer as "regras a serem
observadas no futuro em matria de ocupao de territrios nas costas africa-
nas39. Por fora do artigo 34 do Ato de Berlim, documento assinado pelos par-
ticipantes da conferncia, toda nao europeia que, da em diante, tomasse posse
de um territrio nas costas africanas ou assumisse a um "protetorado", deveria
inform-lo aos membros signatrios do Ato, para que suas pretenses fossem
ratificadas. Era a chamada doutrina das esferas de influncia,  qual est ligado o
absurdo conceito de hinterland. A doutrina foi interpretada da seguinte forma:
a posse de uma parte do litoral acarretava a do hinterland sem limite territorial.
O artigo 35 estipulava que o ocupante de qualquer territrio costeiro devia estar
igualmente em condies de provar que exercia "autoridade" suficiente "para

38   ROBINSON & GALLAGHER, 1961.
39   PRO FO 403/192, "Memorando de sir E. Hertslet..." , fevereiro de 1893, p. 1
                                                                                                                  34
                                                                                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935
figura 2.1   A Conferncia de Berlim sobre a frica Ocidental (1884-1885). (Fonte: Mary Evans Picture Library.)
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                          35



fazer respeitar os direitos adquiridos e, conforme o caso, a liberdade de comrcio
e de trnsito nas condies estabelecidas". Era a doutrina dita de ocupao efetiva,
que transformaria a conquista da frica na aventura criminosa que se ver.
    De fato, reconhecendo o Estado Livre do Congo, permitindo o desenrolar de
negociaes territoriais, estabelecendo as regras e modalidades de apropriao
"legal" do territrio africano, as potncias europeias se arrogavam o direito de
sancionar o princpio da partilha e da conquista de um outro continente. Seme-
lhante situao no tem precedentes na histria: jamais um grupo de Estados de
um continente proclamou, com tal arrogncia, o direito de negociar a partilha
e a ocupao de outro continente. Para a histria da frica, esse foi o principal
resultado da conferncia. Dizer, ao contrrio da opinio geral, que ela no reta-
lhou a frica40 s  verdade no sentido mais puramente tcnico. As apropriaes
de territrios deram-se praticamente no quadro da conferncia, e a questo das
futuras apropriaes foi claramente levantada na sua resoluo final. De fato, em
1885, j estavam traadas as linhas da partilha definitiva da frica.


     Os tratados de 1885 a 1902
    Antes da conferncia de Berlim, as potncias europeias j tinham suas esferas
de influncia na frica por vrias formas: mediante a instalao de colnias, a
explorao, a criao de entrepostos comerciais, de estabelecimentos mission-
rios, a ocupao de zonas estratgicas e os tratados com dirigentes africanos41.
Aps a conferncia, os tratados tornaram-se os instrumentos essenciais da par-
tilha da frica no papel. Eram de dois tipos esses tratados: os celebrados entre
africanos e europeus, e os bilaterais, celebrados entre os prprios europeus.
    Os tratados afro-europeus dividiam-se em duas categorias. Primeiramente
houve aqueles sobre o trfico de escravos e o comrcio, que foram fonte de
conflitos e provocaram a interveno poltica europeia nos assuntos africanos.
Depois, vieram os tratados polticos, mediante os quais os dirigentes africanos
ou eram levados a renunciar a sua soberania em troca de proteo, ou se com-
prometiam a no assinar nenhum tratado com outras naes europeias.
    Esses tratados polticos estiveram muito em voga no perodo considerado.
Eram feitos por representantes de governos europeus ou por certas organiza-
es privadas, que, mais tarde, os cediam a seus respectivos governos. Logo que


40   CROWE, 1942, p. 152-75.
41   UZOIGWE, 1976a, p. 189-93.
36                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935



um governo metropolitano os aceitava, os territrios em apreo eram em geral
anexados ou tidos por protetorados; por outro lado, se um governo duvidasse da
autenticidade dos tratados ou tivesse de agir com prudncia por causa das vicissi-
tudes da Weltpolitik, utilizava ento esses tratados para obter vantagens no quadro
das negociaes bilaterais europeias. Alis, os africanos celebravam esses tratados
por diversas razes, mas principalmente em nome do interesse de seu povo. Em
certos casos, aspiravam a estabelecer relaes com os europeus na esperana de
tirar da vantagens polticas relativamente a seus vizinhos. s vezes, um Estado
africano em posio de fraqueza assinava um tratado com uma potncia europeia
esperando poder assim libertar-se da vassalagem a outro Estado africano que lhe
impunha sua soberania. Este ltimo tambm podia desejar um tratado, contando
utiliz-la para manter em obedincia os sditos recalcitrantes. Por fim, certos
Estados africanos imaginavam que, celebrando um tratado com um pas europeu,
salvaguardariam a independncia ameaada por outras naes europeias42. Fosse
qual fosse o caso, os tratados polticos afro-europeus desempenharam importante
papel na fase final da partilha da frica.
    Os tratados assinados entre a Imperial British East Africa Company (IBEAC)
e Buganda mostram-nos um soberano africano solicitando a ajuda do representante
de uma companhia europeia em virtude dos conflitos que o opunham aos sditos. O
kabaka Mwanga II escrevera  empresa que fosse "suficientemente boa para vir e me
restaurar no meu trono"; em troca, prometeu pagar  empresa com "bastante marfim,
e podeis fazer todo o comrcio em Uganda e tudo o que desejais no pas sob minha
autoridade"43. No tendo recebido resposta, enviou a Zanzibar dois embaixadores,
Samual Mwemba e Victor Senkezi, para solicitar a ajuda dos cnsules ingls, francs
e alemo. Mwanga II recomendou aos embaixadores que inquirissem o seguinte:
     Se eles querem ajudar-nos, que recompensa devemos dar-lhes em troca? Porque,
     com efeito, no pretendo dar-lhes (ou dar-lhe) o meu pas. Desejo que os europeus
     de todas as naes venham para Uganda construir e comerciar  vontade44.
    evidente que, com esse tratado, Mwanga II no pretendia renunciar a sua
soberania, mas descobriria mais tarde,  prpria custa, que os europeus intentavam
o contrrio. Os tratados celebrados pelo capito Lugard com Mwanga em dezem-
bro de 1890 e maro de 1892, que lhe ofereciam "proteo", foram-lhe impostos
e no negociados com ele.  certo que a IBEAC o ajudou a retomar o trono, mas


42   TOUVAL, 1966, p. 286.
43   PRO FO 84/2061, Mwanga a Jackson, 15 de junho de 1889 (grifo nosso).
44   PRO FO 84/2064, Mwanga a Euam-Smith, 25 de abril de 1890.
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                                   37



a vitria dos protestantes de Buganda (graas  metralhadora Maxim de Lugard)
sobre os catlicos na batalha de Mengo (24 de janeiro de 1892) enfraqueceu a
posio do kabaka. Quando a companhia encerrou as atividades em Buganda (31
de maro de 1893), cedeu esses tratados ao governo britnico. O ltimo tratado
do coronel H. E. Colvile com Mwanga (27 de agosto de 1894) confirmava todos
os tratados anteriores, e ia mais longe: Colvile exigia e obteve para seu pas o
     "controle dos negcios estrangeiros, do tesouro pblico e dos impostos", que, das
     mos de Mwanga, passavam s do "governo de Sua Majestade, cujo representante
     tambm fazia as vezes de supremo tribunal de recursos para todas as questes civis"45.
    No mesmo ano, o Reino Unido declarava Buganda um protetorado.  reve-
lador que Lugard tenha escrito, anos mais tarde, em seu dirio, a propsito dos
tratados que ofereciam a proteo da companhia:
     Nenhuma pessoa sensata o assinaria, e pretender que se tenha convencido um chefe
     selvagem a ceder todos os seus direitos  companhia em troca de nada  de uma deso-
     nestidade bvia. Se lhe disseram que a companhia o protegeria contra os inimigos
     e a ele se aliaria nas guerras, mentiram. A companhia jamais teve essas intenes e,
     mesmo que as tivesse, no dispunha de meios para concretiz-las46.
    Lugard estava dizendo, em suma, que seus prprios tratados foram obtidos
fraudulentamente! No cabe aqui discutir os numerosos outros tratados afro-
-europeus, mas mencionemos, de passagem, as solicitaes apresentadas pelo
emir de Nupe (na atual Nigria) ao lugar-tenente L. A. A. Mizon para fazer uma
aliana com ele contra a Royal Niger Company, com a qual se tinha desavindo47,
como exemplo do desejo de um soberano africano de pedir a ajuda de uma potn-
cia europeia contra outra potncia europeia que ameaava sua independncia.

     Os tratados bilaterais europeus de partilha
    Definir uma esfera de influncia por um tratado era, em geral, a etapa pre-
liminar da ocupao de um Estado africano por uma potncia europeia. Se o
tratado no fosse contestado por nenhuma potncia, a nao beneficiria trans-
formava pouco a pouco os direitos que ele lhe reconhecia em direitos de sobe-
rania. Uma zona de influncia, portanto, nascia de uma declarao unilateral,


45   PRO FO 2/72. Colvile a Hardingue, 28 de ago de 1894; contm o texto deste tratado.
46   PERHAM & BULL, eds., 1963. p. 318.
47   Para maiores detalhes, ver ADELEYE, 1971. p. 136-9.
38                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



mas ela s se tornava realidade uma vez aceita, ou pelo menos no contestada
por outras potncias europeias. Frequentemente as esferas de influncia eram
contestadas, mas os problemas de ordem territorial e as disputas de fronteiras
acabavam por se resolver atravs de acordos entre as duas ou mais potncias
imperialistas presentes na mesma regio. Os limites de tais acertos territoriais
eram determinados, com o mximo de exatido possvel, por uma fronteira natu-
ral, ou, na sua ausncia, por referncia s longitudes e latitudes. Ocasionalmente
levavam-se em conta as fronteiras polticas do pas.
    Considera-se que o tratado anglo-alemo de 29 de abril (e de 7 de maio)
de 1885, que definia as "zonas de interveno" da Inglaterra e da Alemanha em
certas regies da frica, talvez seja a primeira aplicao a srio da teoria das
esferas de influncia nos tempos modernos48. Mediante uma srie de tratados,
acordos e convenes anlogos, a partilha da frica nos mapas estava pratica-
mente terminada em fins do sculo XIX. Vamos examinar aqui, brevemente, os
mais importantes.
    O tratado de delimitao anglo-alemo de 10 de novembro de 1886, por
exemplo,  particularmente importante. Por ele, Zanzibar e a maior parte de
suas dependncias caam na esfera de influncia britnica; por outro lado, nele
se reconhecia  Alemanha influncia poltica na frica oriental, o que ps
fim, oficialmente, ao monoplio do Reino Unido na regio49. Dessa forma, o
tratado dividia o imprio Omani. Nos termos do acordo posterior, de 1887,
destinado a precisar esse primeiro tratado, o Reino Unido comprometia-se
a "desencorajar as anexaes britnicas na retaguarda da esfera de influncia
da Alemanha, entendendo que o governo alemo tambm desencorajar as
anexaes alems no interior da esfera britnica". O acordo previa igualmente
que, se um dos dois pases ocupasse o litoral, "o outro no poderia, sem con-
sentimento da outra parte, ocupar as regies no reivindicadas do interior"50.
Esses acordos sobre a ocupao do hinterland na parte oeste das "esferas de
influncia" dos dois pases eram muito vagos e acabaram por tornar necessria
a concluso do clebre tratado de Heligoland, de 1890, que remata a diviso
da frica oriental.  muito importante observar que esse tratado reservava
Uganda ao Reino Unido, mas acabava com a grande esperana britnica de
uma rota Cidade do Cabo-Cairo. Restitua a Heligoland  Alemanha e punha
fim  independncia de Zanzibar.

48   TOUVAL, 1966. p. 286.
49   PRO FO 403/192, "Memorando de sir E. Hertslet..." fevereiro de 1893.
50   PRO FO 403/142, Salisbury a Malet, 14 de junho de 1890.
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                                       39



    Os tratados anglo-alemes de 1890 e de 1893 e o tratado anglo-italiano de
1891 terminaram por colocar oficialmente o alto Nilo na esfera de influncia
britnica. Ao sul, o tratado franco-portugus de 1886, o tratado germano-portugus
de 1886 e o tratado anglo-portugus de 1891 reconheciam a influncia portuguesa
em Angola e Moambique, assim como delimitavam a esfera de influncia britnica
na frica central. O tratado de 1894 entre o Reino Unido e o Estado Livre do
Congo tambm  muito importante, pois fixava os limites do Estado Livre do
Congo de forma a que servisse de tampo entre os territrios franceses e o vale
do Nilo, deixando aos britnicos um corredor no eixo Cabo-Cairo, ligando
Uganda ao lago Tanganica (clusula suprimida em junho, devido aos protestos
da Alemanha). Na frica ocidental, os mais importantes acordos foram a acei-
tao da linha Say-Barruwa (1890) e a Conveno do Nger (1898)51, com o
que o Reino Unido e a Frana encerraram a partilha dessa regio. Finalmente,
a Conveno Anglo-Francesa de 21 de maro de 1899 regulamentava a questo
egpcia, enquanto a Paz de Vereiniging (1902)  que punha fim  guerra com
os beres  confirmava, ao menos por algum tempo, a supremacia britnica na
frica do Sul.
    Em que medida eram vlidos os tratados polticos celebrados com as auto-
ridades africanas e os acordos bilaterais entre naes europeias, base da partilha
e da conquista da frica? Seu estudo leva  concluso de que alguns deles so
juridicamente indefensveis, outros moralmente condenveis, enquanto outros
ainda foram obtidos de forma legal. No entanto, trata-se a de atos essencial-
mente polticos, defensveis somente no contexto do direito positivo europeu,
segundo o qual a fora  a fonte de todo o direito. Mesmo quando os africa-
nos procuravam abertamente celebrar tratados com os europeus, a deciso era
sempre ditada pela fora que eles sentiam no lado europeu. Em certos casos,
os africanos, por suspeitarem das razes apresentadas pelos europeus para a
concluso desses tratados, recusavam-se a participar deles, mas, submetidos a
presses intolerveis, acabavam por aceit-las. Muitas vezes, africanos e euro-
peus divergiam sobre o verdadeiro sentido do acordo a que haviam chegado.
Fosse como fosse, os governantes africanos consideravam, por sua parte, que
esses tratados polticos no os despojavam de sua soberania. Viam neles, antes,
acordos de cooperao, impostos ou no, que deveriam ser vantajosos para as
partes interessadas. As opinies dos europeus quanto  validade dos tratados
variavam. Alguns os achavam legtimos, outros, como Lugard, estavam convenci-

51   A anlise mais detalhada da Conveno do Nger figura em UZOIGWE, 1974, captulos 5 e 6; ver
     OBICHERE, 1971, captulo 8.
40                                                         frica sob dominao colonial, 1880-1935



dos de que quase todos tinham sido obtidos de maneira fraudulenta, sendo uns
inteiramente falsos, outros sem a menor existncia legal e a maior parte deles
aplicada ilegalmente52. Na maioria dos casos, entretanto, esses tratados absurdos
foram avalizados pelo jogo diplomtico europeu, como, por exemplo, os falsos
tratados de Karl Peters, na frica oriental, e os da Imperial British East Africa
Company (IBEAC), que o prprio Lugard chamou de "fraude pura e simples"53.
Raros eram os que resistiam a um exame sem que os diplomatas os declarassem
inaceitveis, como foi o caso dos tratados celebrados por Lugard com Nikki.
    A prpria ideia de que se pudessem considerar legtimos tratados bilaterais
entre naes europeias que decidiam a sorte de territrios africanos em uma
capital da Europa, longe da presena e sem o acordo daqueles com cujo futuro
se jogava, somente se admitia  luz do direito positivo europeu. Os estadistas
europeus estavam perfeitamente cnscios de que a definio de uma esfera
de influncia em um tratado subscrito por duas naes europeias no podia
legitimamente atingir os direitos dos soberanos africanos da regio afetada. Na
medida em que a influncia constitua mais um conceito poltico do que jurdico,
determinada potncia amiga podia optar por respeitar esse conceito, enquanto
outra, inimiga, no o levaria a srio. O mesmo se pode dizer da doutrina do
hinterland, que no hesitava em invocar o princpio do "destino manifesto" e
que permanecer tristemente clebre pelas abusivas reivindicaes apresentadas
em seu nome. De fato, as duas doutrinas no tinham qualquer legitimidade em
direito internacional54. Salisbury declarava em 1896:
     A moderna doutrina do hinterland e suas inevitveis contradies provam a ignorn-
     cia e a instabilidade do direito internacional quando ele  aplicado a reivindicaes
     territoriais fundadas na ocupao ou no controle implcito"55. Em outras palavras,
     "uma reivindicao territorial na frica s pode estar apoiada na real ocupao do
     territrio reivindicado56.
   E, como a noo de ocupao efetiva  princpio muito pouco seguido na
maioria dos Estados africanos  e a ideia que os africanos tinham do verdadeiro
significado dos tratados com os europeus eram essencialmente contraditrias,
a situao de conflito tendia a se agravar. Estavam reunidas todas as condi-


52   Ver LUGARD, 1893, v. 2, p. 580; PERHAM & BULL, eds., 1963, p. 318; GRAY, 1948.
53   PERHAM & BULL, eds., 1963, p. 318.
54   LINDLEY, 1926, p. 234-5.
55   Apud UZOIGWE, 1976, p. 196-7.
56   Apud LUGARD, 1929, p. 13.
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                        41



es, portanto, para a ocupao militar sistemtica do hinterland pelas potncias
europeias.


    A conquista militar (18851902)
    Por diversas razes, foram os franceses os mais ativos na consecuo da
poltica de ocupao militar. Avanando do alto para o baixo Nger, no tar-
daram a vencer o damel de Cayor, Lat-Dior, que lutou at a morte, em 1886.
Derrotaram Mamadou Lamine na batalha de Touba-Kouta, em 1887, pondo
fim dessa forma ao imprio Soninke, por ele fundado na Senegmbia. Conse-
guiram tambm romper a clebre obstinada resistncia do grande Samori Tour,
capturado (1898) e exilado no Gabo (1900). Uma srie de vitrias  Koundian
(1889), Segu (1890) e Youri (1891)  do major Louis Archinard fez desaparecer
o imprio Tukulor de Segu, embora seu chefe, Ahmadu, persistisse em encar-
niada resistncia at sua morte, em Sokoto, em 1898. Na frica ocidental os
franceses conquistaram ainda a Costa do Marfim e a futura Guin Francesa,
onde instalaram colnias em 1893. Iniciadas em 1890, a conquista e a ocupao
do reino do Daom estavam concludas em 1894. No final dos anos de 1890,
os franceses tinham conquistado todo o Gabo, consolidado suas posies na
frica do norte, completado a conquista de Madagscar (exilando a rainha
Ranavalona III em Argel, em 1897) e, na fronteira oriental, entre o Saara e o
Sahel, posto fim  obstinada resistncia de Rabah de Sennar, morto em combate
em 1900.
    A conquista britnica tambm foi espetaculosa e sangrenta e  como vere-
mos mais adiante  encontrou a resistncia decidida e frequentemente difcil
de vencer dos africanos. Utilizando as possesses litorneas na Costa do Ouro
(atual Gana) e na Nigria como base de operaes, o Reino Unido bloqueou a
expanso francesa em direo ao baixo Nger e no interior do reino Ashanti. 
ltima expedio sada de Kumasi (em 1900) seguiu-se a anexao do Ashanti
em 1901 com o exlio de Nana Prempeh nas Seychelles. Os territrios ao norte
do Ashanti foram oficialmente anexados em 1901, depois de terem sido ocu-
pados entre 1896 e 1898. A partir de Lagos, uma de suas colnias, os britni-
cos lanaram-se  conquista da Nigria. Em 1893, a maior parte do territrio
yoruba tinha sido proclamada protetorado. Em 1894, era conquistado o reino
de Itsekiri e exilado em Acra o hbil Nana Olomu, seu "prncipe mercador".
Aparentemente incapaz de enfrentar o rei Jaja, de Opobo, em campo de batalha,
Harry Johnston, o cnsul britnico, resolveu armar-lhe uma cilada. Convidado a
42                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



encontrar-se com ele a bordo de um navio de guerra britnico, o rei foi feito pri-
sioneiro e remetido para as Antilhas, em 1887. Brass e Benin foram conquistadas
no final do sculo. Em 1900, a dominao britnica no sul da Nigria estava
praticamente garantida. A ocupao do Igbo e de certas regies do interior
oriental s se tornou efetiva, entretanto, nas duas primeiras dcadas do sculo
XX. Ao norte, a conquista britnica partiu de Nupe, onde, em 1895, a Royal
Niger Company, de George Goldie, exercia sua influncia de Lokoja  costa.
Ilorin foi ocupado em 1897, e, aps a criao da West African Frontier Force,
em 1898, o sultanato de Sokoto foi conquistado por Frederick Lugard em 1902.
    No norte da frica, o Reino Unido, j em posio de fora no Egito, esperou
at 1896 para autorizar a reconquista do Sudo, a qual deu lugar, em 1898, a um
verdadeiro banho de sangue, intil e cruel. Mais de 20 mil sudaneses, inclusive
seu chefe, o califa Abdallah, morreram em combate. A ocupao de Fachoda
pela Frana  no sul do Sudo  em 1898, claro, no podia ser tolerada por lorde
Salisbury, sendo a Frana obrigada a recuar.
    O Zanzibar foi colocado oficialmente sob protetorado britnico em novem-
bro de 1890. Essa medida, bem como as tentativas de abolio da escravatura da
derivadas, provocaram rebelies facilmente esmagadas. Zanzibar serviu de base
para a conquista do resto da frica Oriental Britnica. O pas mais cobiado
pelo Reino Unido nessa regio era Uganda. A batalha de Mengo (1892) em
Buganda, centro das operaes  acarretou a proclamao do protetorado sobre
Uganda (1894). Estava livre agora a via para a conquista do resto de Uganda,
concretizada quando da captura e exlio nas Seychelles, em 1899, dos reis Kaba-
rega e Mwanga. Todavia, no Qunia, foram precisos quase dez anos para que os
britnicos impusessem efetivamente sua dominao sobre os Nandi.
    Na frica central e austral, a British South Africa Company (BSAC), de
Cecil Rhodes, empreendeu a ocupao da Mashonalndia sem a concordncia
de Lobengula. Em 1893, o rei foi obrigado a fugir da capital, morrendo no ano
seguinte. No entanto, seu reino no foi totalmente subjugado antes da sangrenta
represso da revolta dos Ndebele e dos Mashona, em 1896-1897. A conquista
da atual Zmbia, menos acidentada, terminou em 1901. A derradeira guerra
britnica, no quadro da partilha da frica, foi travada contra os beres, na frica
do Sul. Essa guerra apresenta a interessante particularidade de envolver brancos
contra brancos. Comeou em 1899 e terminou em 1902.
    A ocupao efetiva se revelou difcil para as outras potncias europeias. Os
alemes, por exemplo, conseguiram estabelecer efetivamente sua dominao
no sudoeste da frica no final do sculo XIX, essencialmente em funo
da hostilidade de mais de um sculo que impedia a unio dos Nama e dos
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                     43



Maherero. No Togo, os alemes aliaram-se aos pequenos reinos dos Kotokoli
e dos Chakossi para mais facilmente esmagar a resistncia dos Konkomba
(1897-1898), dispersos, e dos Kabre (1890). Em Camares, foi ao norte que
o comandante alemo major Hans Dominik encontrou mais dificuldades. Em
1902, porm, tinha logrado submeter os principados Peul. Em compensao,
a conquista da frica Oriental Alem foi a mais feroz e a mais demorada
de todas as guerras de ocupao efetiva, prolongando-se de 1888 a 1907. As
expedies mais importantes foram as enviadas contra o clebre Abushiri, o
Indomvel (1888-1889), os Wahehe (1889-1898) e os chefes da revolta Maji
Maji (1905-1907).
    A ocupao militar portuguesa, iniciada na dcada de 1880, s foi comple-
tada no decorrer do sculo XX. Embora um empreendimento bastante rduo
para os portugueses, estes conseguiram afinal consolidar sua dominao em
Moambique, Angola e Guin (atual Guin-Bissau). O Estado Livre do Congo
tambm se viu diante de graves problemas com Portugal antes de a Blgica levar
a cabo a ocupao militar da sua esfera de influncia. Leopoldo II comeou por
se aliar aos rabes do Congo, que na realidade lhe eram particularmente hostis.
Quando a inutilidade da colaborao tornou-se evidente, Leopoldo mandou
uma expedio contra eles. Levou quase trs anos (1892-1895) para submet-
-los. Mas a conquista de Katanga, iniciada em 1891, s foi concluda no incio
do sculo XX.
    A Itlia  que encontrou as maiores dificuldades nas guerras de ocupao
efetiva. Em 1883 teve xito em ocupar uma parte da Eritreia. Tambm j obti-
vera a costa oriental da Somlia, depois da primeira partilha do imprio Omani,
em 1886. Mais tarde, o tratado de Wuchale (ou Uccialli), de 1889, celebrado
com o imperador Menelik II, definiu a fronteira entre a Etipia e a Eritreia.
Depois de estranho contencioso sobre a interpretao das clusulas do tratado,
a Itlia informou s outras potncias europeias que a Etipia era um proteto-
rado italiano. Mas, ao tentar a ocupao desse protetorado fictcio, sofreu uma
derrota ignominiosa em Adowa, em 1896. Conseguiu, no entanto, conservar
seus territrios na Somlia e na Eritreia. Na frica do norte, somente em 1911
 que a Itlia logrou ocupar as zonas costeiras da Cirenaica e da Tripolitnia
(atual Lbia). O Marrocos foi bem-sucedido e manteve sua independncia at
1912, data em que a perdeu em favor da Frana e da Espanha. Assim, em
1914, somente a Libria e a Etipia ainda eram, pelo menos nominalmente,
independentes.
44                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935



     Por que as potncias europeias conseguiram conquistar a frica?
   As potncias europeias puderam conquistar a frica com relativa facilidade
porque a balana pendia a seu favor, sob todos os aspectos.
   Em primeiro lugar, graas s atividades dos missionrios e dos exploradores,
os europeus sabiam mais a respeito da frica e do interior do continente 
aspecto fsico, terreno, economia e recursos, fora e debilidade de seus Estados
e de suas sociedades  do que os africanos a respeito da Europa.
   Em segundo lugar, em funo das transformaes revolucionrias verificadas
no domnio da tecnologia mdica e, em particular, devido  descoberta do uso
profiltico do quinino contra a malria, os europeus temiam menos a frica do
que antes de meados do sculo XIX57.
   Em terceiro lugar, em consequncia da natureza desigual do comrcio entre
a Europa e a frica at os anos de 1870 e mesmo mais tarde, bem como do
ritmo crescente da revoluo industrial, os recursos materiais e financeiros da
Europa eram muitssimo superiores aos da frica. Por isso, se as potncias
europeias podiam gastar milhes de libras nas campanhas ultramarinas, os
Estados africanos no tinham condies de sustentar um conflito armado
com elas.
   Em quarto lugar, enquanto o perodo posterior  guerra russo-turca de
1877-1878 era assinalado, segundo J. H. Rose, por "um estado de equilbrio
poltico que contribuiu para a paz e o imobilismo na Europa"58, o mesmo
perodo, na frica, foi marcado por conflitos e rivalidades interestatais e
intraestatais: Mandinga contra Tukulor, Ashanti contra Fanti, Baganda contra
Banyoro, Batoro contra Banyoro, Mashona contra Ndebele etc. Assim, a Europa
podia concentrar-se militarmente de maneira quase exclusiva nas atividades
imperiais ultramarinas, mas os pases e os Estados africanos tinham suas foras
paralisadas pelas lutas intestinas. Alm disso, as potncias europeias conviviam
pacificamente, conseguindo resolver os problemas coloniais que as dividiam no
decorrer da era da partilha e at 1914 sem recurso  guerra. No obstante uma
intensa rivalidade e numerosas crises na frica, as potncias europeias envol-
vidas na partilha demonstraram notvel esprito de solidariedade, que no s
preveniu qualquer guerra entre elas, como tambm impediu os dirigentes e as
comunidades da frica de jogarem, de modo eficaz, os pases da Europa uns
contra os outros. No decurso do perodo que aqui nos interessa, esses pases


57   CURTIN, FEIERMAN, THOMPSOM, VANSINA, 1978, p. 445; ROSE, 1905, p. 508-72.
58   ROSE, 1905.
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                               45



agrediram de forma combinada os Estados africanos, e nenhum pas da frica
jamais foi ajudado por uma potncia europeia contra outra.
    Ao contrrio, a conduta dos pases africanos foi assinalada no s pela falta
de solidariedade, de unidade e de cooperao, mas tambm pelo fato de alguns
deles no hesitarem em se aliar aos invasores europeus contra seus vizinhos 
apenas para se verem vencidos um pouco depois. Os Baganda aliaram-se aos
ingleses contra os Banyoro, os Barotse aos ingleses contra os Ndebele, e os
Bambara aos franceses contra os Tukulor59. Em consequncia, as lutas heroicas e
memorveis travadas pelos africanos contra os invasores europeus foram  como
veremos nos captulos seguintes60  quase sempre aes isoladas e descoorde-
nadas, mesmo no plano regional. O fator mais decisivo foi, evidentemente, a
esmagadora superioridade logstica e militar da Europa. Enquanto esta empre-
gava exrcitos profissionais bem treinados, poucos Estados africanos possuam
exrcitos permanentes e menos ainda dispunham de tropas profissionais. Na
sua maior parte, faziam recrutamentos e mobilizaes ad hoc para as necessi-
dades de ataque e defesa. Ademais, as potncias europeias  como sustentam
A. Isaacman e J. Vansina , independentemente dos exrcitos prprios, podiam
engajar mercenrios e recrutas africanos, o que lhes dava, quando necessrio,
superioridade numrica61.
    Na verdade, como observa A. Laroui, a maior parte desses exrcitos recrutava
tropas entre os africanos, sendo europeus apenas os oficiais. Antes de mais nada,
nos termos da Conveno de Bruxelas (1890), as potncias imperiais tinham
se comprometido a no vender armas aos africanos, o que significa que estes
dispunham de equipamentos militares obsoletos e muitas vezes fora de uso
 principalmente, espingardas de pederneira e de carregar pela boca  e no
possuam artilharia pesada nem foras navais. Em contraposio, os exrcitos
europeus dispunham de armas modernas: artilharia pesada, carabinas de repe-
tio e sobretudo metralhadoras Gatling e Maxim, alm de contarem com a
artilharia pesada das foras navais. Como Laroui assinala, os europeus chegaram
a empregar, no decorrer das ltimas campanhas, veculos motorizados e avies62
(fig. 2.2).  significativo que os dois chefes africanos que chegaram a infligir
derrotas aos europeus  Samori Tour e Menelik  conseguiram ter acesso a
algumas dessas armas modernas. Mas, por fim, at Samori Tour foi vencido


59   CROWDER, 1968, p. 81, 85; OLIVER & MATHEW, eds., 1971; HARLOW & CHILVER, eds., 1965.
60   Ver cap. 3 a 9 seguintes.
61   Ver cap. 8 seguinte.
62   Ver captulo 5 seguinte.
46                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



pelos franceses. A esmagadora superioridade de que gozava a Europa sobre a
frica foi resumida de forma sucinta pelo famoso dstico de Hilaire Belloc,
citado no captulo 1.
    Em vista das vantagens econmicas, polticas e sobretudo militares e tecno-
lgicas das potncias europeias em relao s sociedades africanas, fica evidente
que a luta foi desigual, e no surpreende que tenham podido vencer a frica
com relativa facilidade. De fato, para a Europa, a conquista no podia sobrevir
em melhor momento; para a frica, o momento no podia ser pior.

     O mapa da frica aps a partilha e a ocupao
    O novo mapa geopoltico da frica, depois de trs dcadas de fracionamento
sistemtico e de ocupao militar,  muito diferente do que era em 1879 (fig.
1.1). As potncias europeias dividiram o continente em cerca de quarenta uni-
dades polticas. Certos especialistas consideram inaceitveis as novas fronteiras,
que julgam arbitrrias, apressadas, artificiais e aleatrias, pois distorcem a ordem
poltica nacional pr-europeia. Outros, como Joseph Anene e Saadia Touval,
acham-nas mais razoveis que as de 187963. H uma parte de verdade nos dois
pontos de vista. Cerca de 30% da extenso total das fronteiras so formadas
por linhas retas, e tanto estas como outras cortam arbitrariamente as fronteiras
tnicas e lingusticas. Por outro lado, os limites que foram mantidos seguiam
traados nacionais e, portanto, no podem ser considerados to arbitrrios ou to
inapropriados como certos crticos querem fazer crer. Alm disso, as unidades
polticas africanas criadas como resultado, por exemplo, do conflito entre Oyo e
Daom, das djihads (guerras santas) dos Peul, dos Mfecane na frica meridional
ou das lutas internas pelo poder na Etipia e em Uganda, durante a segunda
metade do sculo XIX, mostram bem o carter mvel das fronteiras, limites e
encraves africanos anteriores  partilha. O que muitas vezes no se compreende 
como a partilha fixou essas fronteiras mveis, ou que esforos fizeram as comis-
ses de delimitao para retificar, quando politicamente possvel, certas anoma-
lias durante os numerosos trabalhos de fixao das fronteiras. Tudo sopesado,
embora o mapa da frica em 1914 (fig. 2.3), comparado ao que era em 1879,
pudesse parecer muito impreciso, a delimitao no deixou de ser um trabalho
de notvel eficincia, devido aos novos avanos da cartografia. E, ainda que a
partilha tenha de ser condenada do ponto de vista moral e jurdico  e h que se
reconhecer que certas fronteiras so efetivamente artificiais e arbitrrias , seria


63   ANENE, 1970.
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                                            47


Figuras 2.2a. a 2.2f. Armas de guerra utilizadas por europeus e africanos entre 1880 e 1935.




figura 2.2a Guerra dos Ashanti de 1896 figura 2.2b Guerreiros Kavirondo (Qunia) armados com
(Costa do Ouro): hachas e facas de arremesso. lanas e escudos. (Fonte: Royal Commonwealth Society,
Fonte: National Army Museum, Londres.) Londres.)




figura 2.2c Oba yoruba (Nigria) entre dois generais do sculo passado, armados com velhas espingardas
dinamarquesas. (Fonte: Longman.)
48                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 2.2d Soldados dos King's African Rifles com uma metralhadora Maxim. (Foto: Imperial War
Museum, Londres.)




figura 2.2e   Metralhadora Gatling. (Foto: BBC Hulton Picture Library.)
Partilha europeia e conquista da frica: apanhado geral                                             49




figura 2.2f Aeroplanos utilizados nas guerras coloniais dos anos 1920. (Foto: Harlingue-Viollet.)



indesejvel e at perigoso continuar advogando o retorno s fronteiras mveis
do perodo pr-europeu  salvo aps estudo bem aprofundado  pretextando a
"confuso" que a partilha teria criado.
    Em 1902 a conquista estava quase concluda. Foi uma histria particular-
mente sangrenta. O devastador poder de fogo da metralhadora Maxim e a rela-
tiva sofisticao da tecnologia europeia devem ter significado uma experincia
amarga para os africanos. Mas, embora a conquista da frica pela Europa tenha
sido relativamente fcil, o mesmo no se pode dizer da ocupao e instalao da
administrao europeia, conforme veremos nos captulos posteriores.
50                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 2.3   A frica de 1914. (Fonte: OLIVER & FAGE, 1962.)
Iniciativas e resistncia africanas em face da partilha e da conquista     51



                                            CAPTULO 3


   Iniciativas e resistncia africanas em face
           da partilha e da conquista
                                             Terence O. Ranger




    Entre 1880 e 1900, a frica tropical apresentava um estranho e brutal para-
doxo. Se o processo da conquista e da ocupao pelos europeus era claramente
irreversvel, tambm era altamente resistvel. Irreversvel por causa da revoluo
tecnolgica  pela primeira vez, os brancos tinham uma vantagem decisiva nas
armas, e, tambm pela primeira vez, as ferrovias, a telegrafia e o navio a vapor
permitiam-lhes oferecer resposta ao problema das comunicaes no interior
da frica e entre a frica e a Europa. Resistvel devido  fora das popula-
es africanas e porque na ocasio a Europa no empregou na batalha recursos
muito abundantes nem em homens nem em tecnologia. De fato, os brancos
compensavam a escassez de homens recrutando auxiliares africanos. Mas eles
no eram manipuladores diabolicamente inteligentes de negros divididos e atra-
sados. Os europeus estavam apenas retomando o repertrio das estratgias dos
antigos imprios. Quanto a detalhes, muitas vezes sabiam menos das coisas
que os dirigentes africanos. A implementao da estratgia de penetrao foi
muito desordenada e inbil. Os europeus enfrentaram uma enormidade de
movimentos de resistncia que provocaram e at inventaram por ignorncia e
medo. Tinham de "obter a vitria final", e, uma vez obtida, trataram de pr em
ordem o conturbado processo. Escreveram-se livros sobre a chamada "pacificao";
tinha-se a impresso de que, na sua maior parte, os africanos haviam aceito a Pax
Colonica com reconhecimento e fez-se caso omisso de todos os fatos da resistncia
52                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



africana. Mas a vitria dos europeus no significa que a resistncia africana no
tenha tido importncia no seu tempo ou que no merea ser estudada agora. E,
efetivamente, tem sido objeto de muitos estudos nos ltimos vinte anos.
    Em seu conjunto, as pesquisas dessas duas dcadas so srias, detalhadas e
eruditas, no evitando as ambiguidades caractersticas de grande nmero dos
movimentos de resistncia. Mas, na maior parte, apoiam-se ou servem para
demonstrar trs postulados doutrinrios, que, a meu ver, continuam verdadeiros
em essncia, embora recentes trabalhos de pesquisa e anlise os tenham corri-
gido. Em primeiro lugar, afirmou-se que a resistncia africana era importante, j
que provava que os africanos nunca se haviam resignado  "pacificao" europeia.
Em segundo lugar, sugeriu-se que, longe de ser desesperada ou ilgica, essa resis-
tncia era muitas vezes movida por ideologias racionais e inovadoras. Por fim,
em terceiro, argumentou-se que os movimentos de resistncia no eram insig-
nificantes; pelo contrrio, tiveram consequncias importantes em seu tempo, e
tm, ainda hoje, notvel ressonncia.  interessante rever esses trs postulados,
com as correes que lhes foram propostas.


     Generalizao da resistncia
    Em 1965, o historiador sovitico A. B. Davidson fez um apelo aos estudiosos
do assunto para que refutassem "as concepes da historiografia europeia tradi-
cional", segundo as quais "os povos africanos viram na chegada dos colonialistas
um feliz acaso, que os libertava das guerras fratricidas, da tirania das tribos
vizinhas, das epidemias e das fomes peridicas". De acordo com essa tradio,
os povos que no ofereceram resistncia foram considerados "pacficos", e os
que resistiram, "sedentos de sangue". Davidson observa que "os defensores da
dominao colonial recusavam-se a considerar as rebelies fenmenos organi-
zados". Referiam-nas como reaes "primitivas e irracionais", ou atribuam-nas
 agitao da minoria "sedenta de sangue". "Recusavam-se a admitir a nica
interpretao correta  que se tratava de guerras justas de libertao, motivo
pelo qual recebiam o apoio da imensa maioria dos africanos1."
    Davidson sublinhava em 1965: "Muitas rebelies ainda so desconhecidas [...].
Frequentemente faltam informaes precisas sobre essas rebelies, consideradas
fatos estabelecidos". Desde ento, o trabalho de "descoberta" das resistncias cami-
nhou a passo largo. Os historiadores trataram de classificar as revoltas com maior

1    DAVIDSON, A. B., 1968, p. 181-3.
Iniciativas e resistncia africanas em face da partilha e da conquista               53



rigor, distinguindo o "banditismo social" da "rebelio camponesa", e a guerrilha do
choque entre exrcitos. Em certos casos, demonstrou-se que episdios descritos
como rebelies pelos colonizadores haviam sido impostos  populao por
ignorncia e medo da parte dos brancos2. Em casos ainda mais numerosos,
foram resgatados movimentos de resistncia de grande envergadura e de grande
alcance, antes ignorados. Hoje dispomos de estudos detalhados sobre a maior
parte dos levantes "importantes"; em alguns casos, desenvolveu-se uma slida
argumentao sobre a melhor explicao e a melhor interpretao a dar a esses
levantes. Tudo isso vem mostrar que Davidson tinha razo ao pensar que a resis-
tncia foi um "fenmeno organizado".
    Fica claro tambm que as velhas tentativas de distinguir, entre as sociedades
africanas, as naturalmente belicosas e as naturalmente pacficas so fora de
propsito. No meu entender, como vinha sustentando em diversos artigos, na
medida em que se trata de amplos sistemas polticos africanos, no h razo em
distinguir entre Estados ditos belicosos e saqueadores e outros ditos pacficos,
comerciantes e agricultores, j que praticamente todos os Estados africanos se
esforaram para encontrar uma base de colaborao com os europeus; de modo
geral, todos tinham interesses ou valores fundamentais a defender, se necessrio
at com recurso s armas3. Mas me equivoquei ao pretender que as sociedades
mais avanadas entre as que haviam preferido a resistncia ou a colaborao
tinham mais coisas em comum entre si "do que com as sociedades mais fechadas,
que no podiam resistir nem explorar a dominao colonial". Shula Marks, entre
outros, demonstrou, em seu estudo sobre a resistncia dos Khoisan na frica
do Sul, que os povos politicamente no centralizados eram to capazes como
os politicamente centralizados de travar combate com determinao contra o
avano dos brancos4. John Thornton contrastou o potencial de resistncia das
sociedades com e sem Estado e concluiu que a vantagem era destas ltimas:
     comum louvar os Estados por seu papel na resistncia  invaso europeia [...] Na
    realidade [...] esse papel foi ambguo. Se  verdade que alguns resistiram muito bem
    [...] muitas outras sociedades constitudas em Estados, em compensao, entraram
    em colapso no contato com os europeus [...] Por outro lado, a resistncia das socie-




2    MARKS, 1970.
3    RANGER, 1969, p. 293-304.
4    MARKS, 1972, p. 55-80.
54                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



     dades sem Estado foi muitas vezes duradoura e heroica [...] Foram elas  Igbo, Baule,
     Agni etc.  que fizeram a guerra de guerrilha5.
    Em resumo, praticamente todos os tipos de sociedade africana resistiram, e
a resistncia manifestou-se em quase todas as regies de penetrao europeia.
Podemos aceitar isso como um fato que no mais precisa de demonstrao.
Cumpre-nos agora passar da classificao para a interpretao; em vez de nos
restringirmos  tarefa de provar que houve resistncia, cabe-nos determinar e
explicar os diversos graus de intensidade em que ela ocorreu. Historiadores de
certos territrios nacionais tm-se preocupado em comprovar a existncia de
movimentos de resistncia nessas reas, relacionando-os  tradio de oposio
local. Ora, isso  sempre possvel, j que houve resistncia em praticamente
todo lugar. Essa viso parcial, contudo, pode ocultar o fato de que a resistncia
apresenta gritantes diferenas de intensidade de uma regio para outra. Na
Rodsia do Norte (atual Repblica de Zmbia), houve movimentos de resistn-
cia armada, mas em nada comparveis, em amplitude e durao, aos organizados
na Rodsia do Sul (atual Repblica do Zimbbue), os quais, por sua vez, no se
podem comparar, do ponto de vista da "organizao", aos movimentos de resis-
tncia contra os portugueses no vale do Zambeze. Faltam-nos,  certo, estudos
regionais comparativos mais precisos. Os captulos seguintes trazem outros tipos
de contraste com respectivas consequncias e explicaes.


     A ideologia da resistncia
    Os apologistas do colonialismo enfatizaram o carter irracional e desesperado
da resistncia armada, apresentando-o como resultado frequente da "superstio",
e sustentando que as populaes, alis satisfeitas com aceitar a dominao colonial,
teriam sido trabalhadas por "feiticeiros-curandeiros". Vrios crticos europeus do
colonialismo, favorveis  oposio africana, tambm admitiam, no entanto, que
os africanos no tinham muita coisa no seu modo de pensar "tradicional" que
pudesse ajud-los a reagir efetiva ou concretamente s agresses ao seu modo de
vida. As ideologias da revolta foram consideradas "magia do desespero", votadas ao
malogro, sem perspectivas de futuro. Dessa ptica, os movimentos de resistncia,
por mais heroicos que fossem, constituam impasses fatais6.


5    THORNTON, 1973, p. 119-20.
6    GLUCKMAN, 1963, p. 137-45.
Iniciativas e resistncia africanas em face da partilha e da conquista                 55



    Na ltima dcada, os historiadores da resistncia empenharam-se em com-
bater esse tipo de argumentao. Para tanto, adotaram uma ttica dupla: por um
lado, atriburam  revolta ideologias estritamente profanas; por outro, "sanearam"
as ideologias religiosas.
    A principal ideologia profana proposta  o princpio de "soberania". Jacob
Ajayi escreveu que
    o aspecto mais importante do impacto europeu foi a alienao da soberania [...]
    Quando um povo perde sua soberania, ficando submetido a outra cultura, perde pelo
    menos um pouco de sua autoconfiana e dignidade; perde o direito de se autogo-
    vernar, a liberdade de escolher o que mudar em sua prpria cultura ou o que adotar
    ou rejeitar da outra cultura7.
    Walter Rodney sublinha com maior nfase um fenmeno anlogo:
    O carter determinante do breve perodo colonial [...] resulta principalmente do fato
    de a frica ter sido despojada de seu poder [...] Durante os sculos que precederam
    esse perodo, a frica mantinha ainda em suas trocas comerciais certo controle da
    vida econmica, poltica e social, embora com desvantagens no comrcio com os
    europeus. At mesmo esse pequeno controle dos negcios internos se perdeu sob o
    colonialismo [...] O poder de agir com toda a independncia  a garantia de uma
    participao ativa e consciente na histria. Ser colonizado  ser excludo da histria
    [...] De um dia para outro, os Estados polticos africanos perderam o poder, a inde-
    pendncia e a razo de ser8.
   Que Ajayi e Rodney tenham percebido a importncia decisiva da alienao
da soberania est longe de demonstrar, evidentemente, que os resistentes afri-
canos concebessem a soberania da mesma forma. O prprio Rodney deplora
"a parcial e inadequada viso do mundo" que impedia os dirigentes africanos
de compreender perfeitamente os motivos do choque com a Europa. Todavia
Ajayi diz que os dirigentes dos Estados africanos, "enquanto guardies da sobe-
rania do povo", eram "hostis a todos os poderes que desafiassem tal soberania"9.
Os historiadores recuperaram algumas declaraes explcitas de soberania bem
surpreendentes.
   H declaraes de autonomia pura e simples, como a rplica de Machemba,
chefe dos Yao, ao comandante alemo Hermann von Wissmann em 1880:


7    AJAYI, 1968, p. 196-7.
8    RODNEY, 1972, p. 245-6.
9    AJAYI, 1969, p. 506.
56                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



     Prestei ateno  vossa mensagem sem encontrar razo para vos obedecer. Preferiria
     morrer. No caio a vossos ps, pois sois uma criatura de Deus como eu [...] Sou sul-
     to aqui na minha terra. Vs sois sulto l na vossa. No entanto, vede, no vos digo
     que me deveis obedecer, pois sei que sois um homem livre. Quanto a mim, no irei
      vossa presena; se sois bastante forte, vinde vs me procurar10.
   Outras declaraes exprimem o desejo de modernizao, mas no ao custo
da soberania, como a de Hanga, chefe makombe dos Baru, no Moambique
central, que em 1895 disse a um visitante branco:
     Estou vendo como os brancos penetram cada vez mais na frica; em todas as partes
     do meu pas as companhias esto em ao [...]  preciso que meu pas tambm adote
     estas reformas, e estou plenamente disposto a propici-las [...] Tambm gostaria de
     ver boas estradas e boas ferrovias [...] Mas meus antepassados eram makombe e
     makombe quero continuar a ser11.
   E tambm h expresses surpreendentes de uma filosofia mais profunda da
soberania. Algumas das mais dignas de nota vm do Sudoeste Africano. O chefe
nama, Hendrik Wittboi, registrou no seu dirio:
     Pela cor e pelo modo de vida fazemos parte do mesmo todo, e esta frica , de
     maneira geral, a terra dos capites vermelhos [quer dizer, dos africanos]. O fato de
     formarmos diferentes reinos e regies traduz apenas uma subdiviso banal da frica.
     Em 1894, Wittboi dizia ao administrador alemo Theodor Leutwein:
     O Senhor estabeleceu diversos reinos na terra. Por isso sei e creio que no  pecado
     nem crime que eu deseje continuar a ser o chefe independente da minha terra e do
     meu povo12.
    Em todo caso, sejam quais forem os problemas que as pessoas tenham encon-
trado para compreender o choque inicial do avano europeu, no h a mnima dvida
quanto s consequncias da alienao da soberania consecutiva ao estabelecimento
da dominao europeia. O chefe Maherero, promotor do levante herero, velho
inimigo de Wittboi, escrevia a este, em 1904, convidando-o a uma ao comum:




10   Apud DAVIDSON, B., 1964a, p. 357-8.
11   Apud ISAACMAN A., 1976, p. 128-9.
12   A resistncia no sudoeste Africano foi tema de dois estudos, entre outros: DRESCHLER, 1966; BLEY,
     1968 e 1971. A citao  extrada de ILIFFE, 1968.
Iniciativas e resistncia africanas em face da partilha e da conquista                57



     Meu desejo  que ns, naes fracas, nos levantemos contra os alemes [...] Que a
     frica inteira combata os alemes, e antes morrer juntos que em consequncia de
     sevcias, de prises ou de qualquer outra maneira13.
    Os ancies de Matumbi, que no tinha governo central e que braviamente
conquistou sua independncia da Tanganica oriental (atual Repblica Unida da
Tanznia), onde estala em 1905 a revolta Maji Maji, diziam do regime alemo:
"J se tornou um poder absoluto. Destruamo-lo"14.
    A ideia de soberania proporcionou evidentemente a base da ideologia da
resistncia. No obstante convm fazermos algumas correes. Os dirigentes
nem sempre foram, de forma patente, "guardies da soberania do povo". Na
frica do sculo XIX  a oeste, a leste e no sul  haviam surgido novos Estados
"baseados na tecnologia militar europeia"15. Esses Estados resistiram amide 
extenso direta da potncia invasora, mas a resistncia era sabotada pela desafei-
o de boa parte dos sditos. Thornton fala-nos de Estados da frica ocidental,
como os de Samori Tour e do seku Ahmadu, que
     se viam oprimidos por constantes revoltas, causadas principalmente por sua estrutura
     estatal arbitrria e exploradora [...] De modo geral, os dirigentes desses Estados,
     exploradores e tirnicos como eram, no detinham a necessria legitimidade para
     exortar o pas a continuar as guerras16.
   Allen Isaacman diz a respeito dos "Estados secundrios" do vale do Zambeze
que
     "a imposio da dominao estrangeira dos mestios gerou a oposio africana, bem
     como a mobilizao forada de mo de obra"; sua histria "foi marcada por nume-
     rosas revoltas [...] resistncia a essa forma de dominao estrangeira assim como s
     operaes de captura em massa de escravos. Evidentemente semelhante situao, por
     si mesma, no se prestava a um esforo permanente e unificado" contra os brancos17.
   A esses Estados podemos opor as formaes polticas estabelecidas h mais
tempo, cujos dirigentes haviam adquirido "legitimidade". Mas, ainda assim,
seria excesso de romantismo supor que todas as aristocracias antigas gozavam
da confiana e do apoio populares. Entre certos povos mais remotamente


13   ILIFFE, 1968.
14   MZEE NDUNDULE MANGAYA, apud GWASSA & ILIFFE, eds., 1968, p. 5.
15   BOHANNAN & CURTIN, 1971, p. 271.
16   THORNTON, 1973, p. 120-1.
17   ISAACMAN, A., 1976, p. 103-4.
58                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



estabelecidos, os grupos no poder aproveitaram-se da situao oferecida pelas
armas e pelo comrcio do sculo XIX para instaurar regimes arbitrrios, pelo
que j no podiam contar com o apoio popular no confronto com os brancos.
Isso explica em parte o revs da resistncia na Rodsia do Norte, onde os
chefes bemba se depararam com o que Henry S. Meebelo chamou de "rea-
o popular contra a classe dirigente" e onde a aristocracia do pas Barotse
receava um levante de escravos caso tentasse opor-se  extenso da influncia
britnica18.
   De fato, muitos historiadores tm salientado a importncia de distinguir
entre movimentos de resistncia provocados pelo desejo de um grupo dirigente
de conservar seu poder de explorao e movimentos de muito maior escala, fre-
quentemente dirigidos contra o autoritarismo dos dirigentes africanos e contra
a opresso colonial. Edward Steinhart insiste que
     a oposio e a resistncia podem ser dirigidas  e o so de fato  [...] contra formas
     internas de opresso [...] H que se ver na oposio alguma coisa alm da expresso
     de aspiraes nacionais [...] Ao enfocar as lideranas, temos de aceitar a interpretao
     do anticolonialismo como `nacionalismo africano', um movimento para expulsar os
     estrangeiros e restaurar a independncia `nacional'. Se, em vez disso, examinarmos
     mais de perto os movimentos de oposio [...] verificaremos que os movimentos que
     os lderes organizam e representam tm antes carter profundamente antiautoritrio
     e revolucionrio que xenfobo e `nacionalista'.19
    Mesmo no caso de formaes polticas estabelecidas h longa data com
dirigentes cuja legitimidade fosse reconhecida, e capazes de mobilizar a maio-
ria da populao na resistncia, os novos historiadores tendem mais a criticar
"a concepo estreita da lealdade primordial" e o esprito de campanrio, que
nada mais faziam alm de enfocar a soberania tal como era entendida antes. Em
vez disso, esses historiadores emprestam nfase aos movimentos de resistncia
em que o conceito de soberania foi redefinido. Isaacman sustenta que a revolta
desencadeada em 1917 no vale do Zambeze era diferente dos movimentos de
resistncia que ali tinham irrompido anteriormente, "com o fim de reconquis-
tar a independncia de uma formao poltica histrica ou de um grupo de
povos aparentados". A revolta de 1917 destinava-se a "libertar todos os povos
do Zambeze da opresso colonial", apelando especialmente aos camponeses
oprimidos, independente de sua filiao tnica. "A evoluo da lealdade original

18   MEEBELO, 1971, p. 68.
19   STEINHART, (?).
Iniciativas e resistncia africanas em face da partilha e da conquista               59



representava um novo nvel de conscincia poltica, no qual os portugueses eram
percebidos pela primeira vez como o opressor comum."20


     O papel das ideias religiosas
    Entrementes os historiadores procederam a um novo estudo do papel das
ideias religiosas nos movimentos de resistncia. Suas concluses pouco tm em
comum com os "fanticos feiticeiros-curandeiros" dos relatrios coloniais ou com
a "magia do desespero". Descobriram que as doutrinas e os smbolos religiosos,
regra geral, apoiavam-se diretamente nas questes da soberania e da legitimi-
dade. A legitimidade dos dirigentes era consagrada por uma investidura ritual e,
quando um dirigente e seu povo decidiam defender sua soberania, apoiavam-se
muito naturalmente nos smbolos e conceitos religiosos. Em um artigo sobre a
resistncia dos Ovimbundu em Angola, Walter Rodney observa que
     se dedicou muita ateno  resistncia espiritual num estgio mais avanado da luta
     africana, notadamente em casos como as guerras Maji Maji". Mas, "para os `movi-
     mentos de resistncia primrios', h uma tendncia a subestimar o fato de que os
     povos africanos resistiram espontaneamente em toda parte, no s em termos fsicos,
     mas empregando igualmente suas prprias armas religiosas e metafsicas21.
    Em outro artigo, dessa vez sobre a resistncia oposta pelo Estado de Gaza aos
portugueses, no sul de Moambique, Rodney escreve as possveis consequncias
traumticas da mobilizao de recursos espirituais na luta: "Os Ngoni de Gaza
sofreram no s a destruio de sua capital poltica, mas tambm a profanao
de seu principal santurio." Aps a derrota militar de 1895, os objetos rituais
reais desapareceram; os adivinhos jogaram fora os ossos divinatrios depois da
incompreensvel derrota; a "grande sacerdotisa" foi destituda e executada, e "se
tornou bastante generalizado o sentimento de uma profunda crise espiritual"22.
    Foi amide dessas crises de legitimidade que nasceram os grandes movimen-
tos para tentar redefinir a soberania. De modo quase invarivel, tais movimentos
tinham, a seu favor, chefes espirituais para exprimir a mensagem de uma unidade
mais ampla. Esse fenmeno ora se verificava no contexto do Isl  as ideologias
islmicas do milenarismo e da resistncia espalharam-se pelo cinturo sudans


20   ISAACMAN, A., 1976, p. 343, 345, 370.
21   RODNEY, 1971b.
22   RODNEY, 1971a.
60                                                          frica sob dominao colonial, 1880-1935



de leste a oeste , ora derivava da influncia das ideias crists  Hendrik Wittboi
inspirou-se no cristianismo protestante para elaborar sua doutrina da soberania,
enquanto um profeta africano cristo independente intervinha ativamente entre
os Nama no momento do seu levante contra os alemes. Muitas e muitas vezes,
o fenmeno se dava no contexto da religio africana.
    Minha tese  que o fenmeno se verificou na Rodsia do Sul e que as insur-
reies de 1896 foram inspiradas e coordenadas por chefes religiosos. Isaacman
afirma que o levante de 1917 do vale do Zambeze hauria foras morais dos
ensinamentos da mdium Mbuya, que, no entanto, no pregava a restaurao
do Estado Baru, que era o dela, mas o evangelho da fraternidade de todos os
africanos oprimidos, lembrando o interesse do grande deus Mwari pela salvao
deles e remisso de seus pecados23. No caso do levante Maji Maji de 1905, a
ideologia da revolta encontrava base num entusiasmo milenar, ao mesmo tempo
islmico e africano. Os grandes movimentos de resistncia ocorridos de 1888 a
1891 na costa do Tanganica tinham  sua frente membros da elite comerciante
e urbana swahili. Nenhuma ideologia religiosa de protesto  islmica ou "tra-
dicional"  havia sido elaborada; a resistncia baseava-se no princpio da defesa
das soberanias estabelecidas24. Mas, aps a derrota dessa oposio costeira e da
cooptao, para servio dos alemes, de numerosos membros da elite swahili, a
base da oposio se modificou e se ampliou. Maji Maji inspirava-se numa nova
mensagem proftica, vinda ao mesmo tempo dos centros de culto africanos do
interior do continente e de um Isl entusistico e populista25.
    A doutrina proftica que estava na base de alguns dos grandes movimentos
de independncia vem sendo pouco a pouco resgatada dos relatos deturpados
de seus adversrios. A forma como Gilbert Gwassa descreve a evoluo e o
carter da ideologia Maji Maji de Kinjikitile  o exemplo clssico de um esforo
de recuperao dos fatos. Mongameli Mabona procedeu a outra reconstituio
surpreendente, ainda indita, dos ensinamentos do grande profeta militante
xhosa Makana, cuja mensagem, enunciada em comeos do sculo XIX, "s
perdeu o vigor em 1890, quando a resistncia nacional xhosa entrou finalmente
em colapso". Conforme salienta Mabona, seu ensinamento  habitualmente
descrito como uma "miscelnea de conceitos religiosos incompatveis ou incoe-
rentes". Mabona demonstra que, pelo contrrio, era "um conjunto de elementos



23   RANGER, 1967; ISAACMAN, A., 1976, p. 304-5, 307, 310, 313, 316, 326.
24   JACKSON, R. O., 1970.
25   GWASSA, 1972.
Iniciativas e resistncia africanas em face da partilha e da conquista          61



khoisan, xhosa e cristos habilmente estruturados", reunidos com imaginao
bastante criadora.
    Makana cunhou termos brilhantes para expressar seus conceitos de divin-
dade  o conceito de espao e de difuso da luz. "Seu poderoso esprito e seu
gnio religioso [...] elaboraram um corpo de doutrina que iria servir de base
ideolgica  nao xhosa." De certa maneira, o ensinamento de Makana era uma
verso africana da ideologia crist protestante de soberania, que, mais tarde, deu
a Wittboi a f no direito divino dos "capites vermelhos". Makana explorou as
diferenas fundamentais entre brancos e negros  diferena de costumes, de
divindades, de destinos. O criador era Dali'dephu, grande ancestral dos Xhosa,
que tinha feito Uthixo para ser o deus dos homens brancos. Uthixo era inferior a
Dali'dephu, e os brancos eram moralmente inferiores aos Xhosa  continuamente
atormentados pela ideia do pecado. Mas essas diferenas no tinham importn-
cia at o momento em que os dois universos morais entraram em contato e em
conflito; ento, Dali'dephu imps-se para garantir que seus filhos, os Xhosa, e seu
modo particular e superior de vida triunfassem sobre os poderes superficiais dos
brancos. Makana apelava  unidade pan-xhosa,  confiana em seu universo
moral. Dali'dephu iria varrer os brancos; os Xhosa defuntos regressariam. "Uma
nova era se anunciava."26
    Inovaes como a de Makana em matria de conceitos e de smbolos
sobreviveram por muito tempo ao respectivo movimento de resistncia a que
estavam associadas na origem. Longe de serem extravagncias do desespero,
esse gnero de mensagens profticas constitua um esforo sistemtico para
ampliar e redefinir a ideia de deidade e sua relao com a ordem moral, impli-
cando grandes alteraes nos conceitos e nas relaes internas dos Xhosa e
oferecendo, ao mesmo tempo, "alicerce  ideologia da resistncia". Peter Rigby
combateu vigorosamente a tese segundo a qual o profetismo africano seria um
"mero produto de foras exgenas de destruio durante o perodo colonial"
ou consequncia da "derrocada das religies africanas". Na sua opinio, o pro-
fetismo era muito mais uma questo de protesto e havia desempenhado um
"papel preponderante na maior parte dos movimentos de oposio africanos",
embora o profeta no surgisse "simplesmente como uma reao s foras
exgenas, mas por razes de viabilidade e de adaptabilidade das religies
africanas"27. Com esta concepo dos sistemas religiosos africanos, capazes, a
partir de suas prprias tenses e potencialidades, de secretar periodicamente

26   MABONA, 1974.
27   RIGBY, 1974.
62                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



uma inspirao proftica, bem como chefes profticos capazes de criar novas
snteses que revalidavam o antigo ao mesmo tempo que abriam caminho ao
novo, j nos afastamos bastante da ideia das ideologias profticas de resistncia
como a "magia do desespero".
    Apesar de todo o valor desse trabalho, a importncia dada  ideologia reli-
giosa na resistncia foi atacada por dois lados. Certos especialistas julgavam que
o papel da religio na resistncia foi superestimado; em contraposio, outros
afirmavam que se exagerou o papel da resistncia na religio.
    Assim, os escritores coloniais dizem que era uma "feiticeira" que estava 
frente do levante dos Giriama, no interior da costa do Qunia; historiadores
mais recentes querem-na "profetisa". Cynthia Brantley Smith, em seu admirvel
e exaustivo estudo dos Giriama, demonstra, no entanto, que essa mulher nada
tinha de chefe religioso; era simplesmente uma mulher respeitada e impositiva28.
Eis um caso em que uma nova traduo dos vocbulos colonialistas, como "fei-
ticeiro" e "feiticeiro-curandeiro", no basta para corrigir as distores dos relatos
oficiais. Dois novos especialistas da histria ndebele e shona sugeriram recen-
temente que o mesmo se pode dizer da minha prpria verso dos levantes de
1896 da Rodsia do Sul. Segundo a British South Africa Company, os levantes
teriam sido insuflados por "feiticeiros-curandeiros"; argumentei que os movia
uma profunda ideologia proftica; Julian Cobbin e David Beach retrucaram
dizendo que os mdiuns exerciam influncia bem menor do que eu pensava e
que os sacerdotes de Mwari no tomaram parte nos levantes29. Talvez no cause
surpresa eu no me dispor a fazer to drsticas revises, mas  verdade que pes-
quisas recentes sobre a religio africana na Rodsia do Sul mostram que seus
laos com a resistncia no podem ter sido assim to diretos como eu supunha.
 evidente que nem o culto mwari nem o sistema dos mdiuns eram capazes
de se consagrar totalmente  resistncia ou a qualquer outra coisa; ambos se
baseavam numa constante e intensa competio entre santurios e dentro de
cada santurio; a surpreendente sobrevivncia dos cultos devia-se ao fato de os
sacerdotes ou mdiuns que houvessem sustentado uma causa errada ou perdida
poderem ser rapidamente substitudos por rivais que ficavam na espreita, e de
certos centros importantes de culto adotarem sempre uma posio diferente da
dos outros. Alguns santurios mwari estavam a favor do levante, outros no,
e, nos primeiros, as famlias responsveis por eles foram substitudas depois
da represso. Estava enganado ao supor que todos os dirigentes religiosos dos

28   SMITH, C. B., 1973.
29   COBBING, 1974, 1977; BEACH, 1971, 1979.
Iniciativas e resistncia africanas em face da partilha e da conquista      63



Shona se comprometeram sem reservas nos levantes; estes eram certamente
importantssimos, mas no a ponto de poder  ou dever  destruir o carter
tradicional de permanncia e de eficcia dos cultos30.
    Tudo isso conta a favor da tese segundo a qual a oposio estava no centro
dos movimentos profticos. Um profeta emerge quando a opinio pblica sente
necessidade de uma ao radical e inovadora, mas no so apenas as ameaas
externas que despertam esse sentimento popular. Um profeta pode surgir em
razo de profundas angstias causadas por tenses ou transformaes internas,
ou pelo desejo geral de acelerar o ritmo da mudana e de aproveitar novas opor-
tunidades. Assim, um lder proftico frequentemente orienta seu ensinamento
para a moral das sociedades africanas, encabeando por vezes movimentos de
oposio ao autoritarismo interno, outras vezes "protestando" mais contra os
fatos da natureza humana. Fica evidente pelos trabalhos em curso sobre a mul-
tido de lderes profticos da frica do sculo XIX que muitos deles no se
preocupavam com a resistncia aos brancos e at que os brancos no os preo-
cupavam de maneira alguma.
    Mesmo aqueles lderes profticos que ansiavam por encontrar uma nova fr-
mula que definisse as relaes de seus seguidores com os europeus no eram de
forma alguma unnimes para recomendar a rejeio ou resistncia. Como nota
Mabona, o profetismo xhosa elaborou ao mesmo tempo uma "ideologia para a
resistncia" e uma ideologia para um processo de "acomodao controlada". O
profeta da resistncia era Makana, e Ntsikana, o da "acomodao controlada".
Este ltimo era um gnio religioso criador, do mesmo estofo que Makana. As
discusses que travaram sobre a natureza da divindade tiveram consequncias
prticas muito imediatas e dividiram os Xhosa em resistentes e colaboradores,
mas se mantiveram num nvel teolgico elevado. E, de fato, no era a preocu-
pao principal de Ntsikana a "colaborao"; sua inteno era antes reformar a
sociedade xhosa, aceitando certas dinmicas do pensamento cristo e rejeitando,
ao mesmo tempo, grande nmero dos axiomas culturais dos brancos. Como nos
diz O. P. Raum, para muitos Xhosa "a implantao do cristianismo no deve
ser creditada aos missionrios, mas antes a um precursor cristo na pessoa de
Nitsikana"31.
    Embora no haja outro exemplo de choque to espetaculoso e direto entre
profetas quanto a polmica estabelecida entre Makana e Ntsikana, a mesma
gama de possibilidades profticas se observa nitidamente, mesmo nas zonas

30   SCHOFFELEERS, (?).
31   RAUM, 1965, p. 47-70.
64                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



de resistncia encarniada, como as dos Maji Maji ou dos Shona na Rodsia.
Aps a derrota dos Maji Maji, o conjunto dos smbolos e pretenses ao poder
espiritual de que se havia servido Kinjikitile foi retomado por uma srie de
figuras profticas, ligadas  purificao interna das sociedades africanas, que
encabearam a chamada "caa aos feiticeiros".
   No que se refere aos Shona, Elleck Mashingaidze publicou um artigo fas-
cinante sobre a srie de exortaes profticas dirigidas aos Shona da regio
do vale do Mazoe. Os mdiuns mais influentes, no incio, aconselharam seus
adeptos a prestar bastante ateno aos ensinamentos dos missionrios; depois,
aconselharam-nos a participar dos levantes para expulsar os brancos, e de novo
os exortaram a enviar os filhos s escolas das misses para que adquirissem tudo
quanto pudessem da sabedoria dos brancos. Para Mashingaidze no se trata de
uma sequncia de desordem e traio. Diz ele:
     A derrota militar de 1897 [...] no provocou a renncia ao mundo tradicional, ao
     contrrio do que ingenuamente previam os brancos [...] Os Shona procuravam
     compreender os brancos [...] A religio tradicional, representada por Nehanda e
     outros mdiuns, no se opunha  f crist como tal. Seu papel, desde o incio do
     encontro dos dois sistemas, consistia em moderar as mudanas [...] Fazia recordar
     s pessoas que, apesar dos resultados militares [...] elas no deviam abdicar de sua
     identidade cultural. De fato, a religio tradicional continuou a inspirar aos Shona o
     comportamento construtivo e criador que tiveram frente ao cristianismo e  cultura
     ocidental como um todo. Lembrava  populao que ainda havia lugar para aceitar
     ou rejeitar certos aspectos da nova ordem32.
    Poder-se-ia dizer que os profetas shona procuravam atenuar os efeitos da
alienao da soberania poltica preservando certa autonomia espiritual. No
entanto as potencialidades do profetismo shona de elaborar uma ideologia de
resistncia no se esgotaram, e nos anos de 1970 certos mdiuns estiveram
profundamente envolvidos na luta nacionalista e de guerrilhas. Na perspectiva
da histria da resistncia, as formas interiores de que se reveste em grande
parte o profetismo, segundo o qual o mal tem fonte no pecado interior, mais
do que na opresso externa, poderiam dar a impresso de "falsa conscincia".
Na perspectiva da histria da religio africana, esses movimentos apresentam
interesse justamente na medida em que oferecem resposta s angstias ntimas
das sociedades africanas. Assim, o professor Bethwell Ogot segue um caminho
diametralmente oposto ao daqueles que interpretam os movimentos profticos

32   MASHINGAIDZE, 1974.
Iniciativas e resistncia africanas em face da partilha e da conquista              65



como essencialmente anticoloniais. Ele diz de um dos profetas, Simeo Ondeto,
que era verdadeiramente "revolucionrio", mas que a sua revoluo no se situ-
ava de forma alguma na esfera poltica, e sim na esfera moral, e que ocorreria
dentro do indivduo. A essncia dos movimentos profticos, escreve Ogot, consiste
em que eles so "agentes de mudana espiritual e social, criadores de comunidades
novas capazes de enfrentar os desafios do mundo moderno"33. As grandes ideologias
profticas na resistncia inscrevem-se assim numa tentativa mais vasta de definio
de uma nova base moral para a sociedade.


     Consequncias e relevncia da resistncia africana
    H mais de vinte anos, os movimentos de resistncia eram tidos simplesmente
como impasses que a nada levaram. Na ltima dcada, porm, tem-se vigorosa-
mente defendido que, por todos os ngulos, esses movimentos se voltavam para
o futuro. Do ponto de vista da soberania, pode-se afirmar que eles anteciparam
sua reconquista e o triunfo do nacionalismo africano. Na medida em que so
depositrios de ideologias profticas, pode-se considerar que tenham contribudo
para novos grupamentos em torno de ideias. Alguns trouxeram consigo a melhora
da situao dos povos revoltados. Outros instituram lideranas alternativas s
oficialmente reconhecidas. Eu prprio j afirmei que esses movimentos estavam
"ligados" ao nacionalismo das massas por terem sido movimentos de mobiliza-
o de massas, levando em conta a continuidade da atmosfera e dos smbolos
veiculados por outros movimentos de massa do perodo intermedirio e, enfim,
porque os movimentos nacionalistas manifestamente se inspiraram nas lem-
branas de um passado heroico34.
    Estes argumentos foram desenvolvidos por outros historiadores e, hoje em
dia, o carter precursor dos movimentos de resistncia tornou-se um axioma
para os tericos dos movimentos nacionalistas e das guerrilhas. Assim, na con-
cluso de seu estudo sobre a resistncia ovimbundu aos portugueses, escreve
Walter Rodney:
     A resistncia armada no planalto de Benguela reapareceu nos ltimos anos. As
     circunstncias em que se verificou este fenmeno e suas relaes com pocas ante-
     riores so questes to fundamentais que no procuraremos dar-lhes resposta, pois



33   OGOT, 1974a.
34   RANGER, 1968a.
66                                                      frica sob dominao colonial, 1880-1935



     esta seria forosamente incompleta. Basta notar que os angolanos que lutam pela
     liberdade afirmam haver conexo entre suas guerras de libertao nacional e os
     movimentos de resistncia anteriores e que [com sua autoridade] as massas popu-
     lares relembram distintamente o esprito de tais acontecimentos, como a guerra dos
     Bailundu. Acadmicos estreis no se encontram  vontade para refutar isto35.
    Acadmicos, estreis ou no, contestaram, no entanto, a postulada conexo
entre os movimentos de resistncia e a subsequente luta em prol da liberdade.
As refutaes provm tanto da "direita" como da "esquerda".
    Alinhando-se  "direita", Henri Brunschwig nega qualquer filiao evidente
entre os movimentos de resistncia e os movimentos nacionalistas modernos.
Segundo ele, houve durante sculos na frica um conflito entre adaptao e resistn-
cia s ideias transmitidas do exterior. Os partidrios da adaptao criaram os grandes
imprios sudaneses, e os da resistncia procuraram repudi-los. Os primeiros apli-
cavam os princpios liberais do Isl e do cristianismo, os segundos apoiavam-se
no que Brunschwig chama de "animismo" e "etnicidade". Bem antes do perodo
colonial, houve "inumerveis revoltas" contra os inovadores africanos; a resis-
tncia ao colonialismo brotou em grande parte das mesmas fontes animistas e
tnicas. Por outro lado, o nacionalismo africano moderno e o pan-africanismo
so manifestaes da tendncia ao centralismo da inovao e  adoo de gran-
des projetos, o que significa que pertencem a uma tradio diametralmente
oposta  da resistncia36.
    Certos historiadores situados " esquerda" contestam que seja possvel estabe-
lecer uma conexo entre a resistncia e o nacionalismo, argumentando tratar-se
de um artifcio intelectual que permitia s minorias dirigentes dos novos Esta-
dos, por vezes interesseiras, reivindicar legitimidade revolucionria. Steinhart
foi categrico nessa contestao:
     Em vez de examinar a resistncia ao colonialismo pelo prisma deformante da mitolo-
     gia nacionalista, devemos criar um `mito' melhor, que explique melhor a realidade da
     oposio africana [...] O `mito' da insurreio revolucionria pode nos proporcionar
     um conhecimento mais vasto e mais profundo dos movimentos de oposio e de
     libertao do sculo XX do que o depauperante `mito do nacionalismo'.




35   RODNEY, 1971b, p. 9.
36   BRUNSCHWIG, 1974, p. 63-4.
Iniciativas e resistncia africanas em face da partilha e da conquista               67



   Desta maneira, Steinhart procura reivindicar a herana das resistncias para
a oposio radical ao autoritarismo nos novos Estados nacionais da frica37.
   Um extenso e mais recente estudo da resistncia  a obra de Isaacman sobre
a revolta africana no vale do Zambeze  procura atacar, de maneira implcita,
tanto as objees de Brunschwig como as de Steinhart. Isaacman responde a
Brunschwig dando nfase no ao "esprito de campanrio" das revoltas tnicas,
mas s novas definies de soberania que, segundo ele, caracterizaram a revolta
de 1917. Responde a Steinhart ligando esse tipo de resistncia generalizada
no a um nacionalismo de elite, mas ao movimento radical de libertao de
Moambique, a Frelimo (Frente de Libertao de Moambique). A existncia
de conexo entre a resistncia anterior e os movimentos contemporneos em
prol da liberdade  assim formulada por Isaacman:
     A natureza do apelo, que foi feito em termos anticoloniais vagos, e o alcance da
     aliana que o apelo tornou possvel do a entender que a rebelio de 1917 ocupa um
     lugar intermedirio entre as formas de resistncia africana do passado e as guerras
     de libertao de meados do sculo xx [...] A rebelio de 1917  ao mesmo tempo
     o ponto culminante da longa tradio de resistncia zambeziana e a precursora do
     combate de libertao em curso.
   Em 1917, como na luta travada pela Frelimo, "era a opresso que estava em
causa e no a raa". Mais ainda, "as conexes com a Frelimo superam o enga-
jamento ideolgico comum", pois a tradio de resistncia "serviu ao mesmo
tempo de motivo de orgulho e de modelo para a ao futura"38.


     A cronologia da resistncia: interpretao econmica
    Iniciei este captulo com uma descrio da situao que caracterizava os vinte
ltimos anos do sculo XIX. De fato, tem-se mostrado muito difcil analisar a
resistncia dentro desses limites cronolgicos. Num extremo, comentei Makana,
o profeta xhosa de comeos do sculo XIX; no outro, comentei o levante zam-
bezano de 1917 e suas conexes com a Frelimo. Mas, pelo menos, limitei o
comentrio  resistncia contra a invaso dos brancos ou aos levantes armados
contra a dominao colonial quando ela comeou a "morder"; as extenses
cronolgicas devem-se ao fato de a penetrao dos brancos na frica ter sido


37   STEINHART, (?).
38   ISAACMAN, 1976, p. 344, 345, 375.
68                                                         frica sob dominao colonial, 1880-1935



irregular e ainda mais irregular a efetiva dominao colonial. Se se adotar esta
definio essencialmente poltica, o perodo 1880-1900 emerge como um perodo
capital para a resistncia, embora muitos dos grandes esforos de redefinio da
soberania pela oposio se tenham manifestado mais tarde.
    Concluindo, se considerarmos a importncia crescente atribuda  resistncia
econmica, os limites cronolgicos ficam ainda menos definidos. A reinterpre-
tao mais radical talvez seja a de Samir Amin. Para ele, foi no final do sculo
XVII e durante o XVIII que se desencadearam, na frica ocidental, os movi-
mentos de resistncia verdadeiramente cruciais contra a Europa; Amin sumaria-
mente trata as resistncias do perodo da corrida propriamente dito como aes
sem entusiasmo, de retaguarda de uma classe dirigente j comprometida. Aos
olhos dele, o que estava essencialmente em jogo na confrontao entre a frica
e a Europa no era a dominao poltica oficial, mas as tentativas europeias de
manipulao econmica. A resistncia africana verdadeiramente significativa era
dirigida contra essa manipulao econmica.
    Amin afirma que o comrcio atravs do Saara tinha "reforado a centraliza-
o estatal e favorecido o progresso". Por outro lado, o trfico atlntico, que os
europeus dominavam,
     no deu origem a foras produtivas; pelo contrrio, provocou a desintegrao da sociedade
     [...] Sociedades africanas evidentemente se opuseram a essa degradao da sua situao,
     e o islamismo servia-lhes de base para a resistncia [...] Os sacerdotes muulmanos ten-
     taram organizar um movimento de resistncia, visando pr fim ao trfico de escravos, ou
     seja,  exportao de mo de obra, mas no  escravido interna [...] O islamismo mudou
     de carter: religio de um grupo minoritrio de comerciantes, tornou-se um movimento
     popular de resistncia.
   Amin distingue trs importantes movimentos de resistncia no gnero: as
guerras de 1673 a 1677; a revoluo dos Torodo de 1776, que "derrubou a aris-
tocracia militar e ps fim ao trfico de escravos"; o movimento de 1830, dirigido
pelo profeta Diile, no reino de Waalo, que fracassou "diante da interveno
militar francesa". Amin aqui descreve movimentos de resistncia que, voltados
contra uma aristocracia africana, tambm constituam resposta  agresso eco-
nmica francesa.
    medida que se avana pelo sculo XIX, continua Amin, a demanda fran-
cesa de escravos  substituda pela demanda de matrias-primas e produtos
agrcolas. Em Waalo os franceses tentaram fazer experincias de plantao
agrcola, mas no conseguiram, devido  resistncia das comunidades de aldeos.
Tambm no lograram vencer a resistncia  proletarizao enquanto no ocupa-
Iniciativas e resistncia africanas em face da partilha e da conquista                    69



ram toda a regio, tendo de recorrer  fora permanente. A conquista colonial,
porm, progrediu to lentamente que a resistncia a ela no foi muito eficaz.
Por essa poca, o islamismo tinha deixado de ser uma ideologia da resistncia
para se tornar o consolo espiritual da aristocracia vencida, que o empregava para
disciplinar os aldeos agricultores e conseguir que produzissem tudo o que os
franceses deles exigiam39.
    Se Amin afirma que os movimentos de resistncia verdadeiramente impor-
tantes so anteriores  corrida, outros historiadores, adeptos da perspectiva eco-
nmica, parecem alegar que os movimentos verdadeiramente importantes de
resistncia  dominao econmica oficial datam apenas do sculo XX. Certa-
mente houve, na poca da corrida, vrios movimentos de resistncia econmica.
Mais precisamente, os europeus, rompendo a velha aliana com os mercadores e
intermedirios africanos, recorreram  fora para instaurar o monoplio comer-
cial. O resultado foi uma resistncia feroz da parte dos mercadores africanos,
conduzida pelo chefe Nana Olomu, de Itsekiri, no delta do Nger (Nigria), que
Anthony G. Hopkins descreve como o prottipo do homo economicus, ou pelos
chefes swahili, que dominavam o comrcio de escravos no norte de Moambi-
que, ou ainda pelo grande mercador Rumaliza, que lutou na frica oriental ao
mesmo tempo contra os belgas e contra os alemes.
    Immanuel Wallerstein via nessa guerra dos mercadores um dos acontecimen-
tos decisivos do comeo do colonialismo:
     Muitas regies da frica ao sul do Saara tinham [...] entrado num processo de
     desenvolvimento relativamente autnomo, ligadas ao mundo europeu de forma
     limitada mas importante, por intermdio de mercadores ou de agentes estatais de
     comrcio de um e de outro lado [...] No entanto, em 1879 toda essa estrutura entrou
     em desagregao e em 1900 tinha deixado de existir.
     Com a dominao colonial,
     as relaes entre africanos e europeus deixaram de ser relaes de parceiros comerciais.
     O efeito mais imediato da dominao colonial foi seu impacto sobre os mercadores
     africanos [...] Ao fim da Primeira Guerra Mundial, o declnio radical da importncia
     relativa da classe de mercadores africanos e rabes era j um fato consumado40.
    No conjunto, porm, a nova gerao de historiadores  indiferente  resistn-
cia dos mercadores. Hopkins adverte-nos contra a ideia de que mercadores do


39   AMIN, 1972.
40   WALLERSTEIN, 1970b, p. 402-7.
70                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935



delta do Nger, como Nana Olomu, pudessem ser precursores do nacionalismo
ou porta-vozes dos descontentamentos populares, salientando que "a viso que
eles tinham de justia social no comportava a emancipao de seus prprios
escravos". Nancy Hafkin destaca os interesses puramente egostas dos chefes
da resistncia do norte de Moambique: "De forma alguma", conclui ela, "a
resistncia deles era popular ou progressista"41.
    A capacidade de resistncia dos grandes mercadores, tal como a dos dirigen-
tes dos Estados secundrios, foi minada pelo fato de terem suscitado demasiados
agravos entre os africanos. Pretendendo quebrar o poderio dos mercadores
rabes, swahili e africanos, a Imperial British East Africa Company conseguiu
estabelecer uma nova rota comercial de Malindi para o interior, "reforada por
estacadas construdas por comunidades de escravos fugidos das plantations cos-
teiras de seus senhores rabes"42.
    Os "importantes empresrios" do hinterland de Lagos tiveram dificuldades
em oferecer resistncia  penetrao dos britnicos, devido  agitao de sua
"abundante mo de obra, constituda principalmente de escravos e de servos"43.
A situao do comrcio internacional, que favorecera a ascenso de poderosos
mercadores africanos, fizera tambm com que o xito deles fosse obtido ao preo
de grandes tenses e ressentimentos internos. Havia excees a essa situao de
tenso entre os poderosos mercadores e as massas populares. Por exemplo, no
reino Bailundu, em Angola, "todo mundo comerciava"; na dcada de 1870, "os
empresrios umbundu descobriram e exploraram um novo tipo de seringueira"
e, "nos dez anos seguintes, um nmero sem precedentes de Bailundu dedicava-se
ao comrcio privado". A queda do preo da borracha, entre 1899 e 1902, ps
fim a essa prosperidade comercial generalizada.
     O problema agravou-se depois de 1899 no reino Bailundu, devido  intruso de
     comerciantes europeus [...] Com a queda do preo da borracha comerciantes por-
     tugueses e uma nova vaga de brancos pobres [...] chegaram para se estabelecer no
     comrcio.
   Segundo o ltimo estudo da guerra dos Bailundu, de 1902, o ressentimento
contra essa agresso comercial dos europeus contribuiu muito para o levante
popular em massa que irrompeu contra os portugueses44.


41   HOPKINS, A. G., 1973, p. 147; HAFKIN, 1971.
42   SMITH, C. B., 1973, p. 112-3.
43   HOPKINS, A. G., 1966a, p. 141.
44   WHEELER & CHRISTENSEN, 1973, p. 54-92.
Iniciativas e resistncia africanas em face da partilha e da conquista                  71



   Em compensao, os historiadores da resistncia que se colocam na perspectiva
econmica associam habitualmente a revolta popular no ao ressentimento contra
a agresso comercial dos europeus, mas ao fato de as populaes africanas irem
compreendendo, pouco a pouco, que os brancos estavam decididos a conseguir
mo de obra a baixo preo. A princpio, muitos africanos talvez tenham acolhido
os europeus como protetores contra chefes demasiado exigentes, ou mercadores
swahili rapaces ou ainda proprietrios de escravos; mas no tardaram a perceber
que as exigncias dos europeus eram igualmente ou mais intolerveis. No comeo,
o comportamento de boa parte dos proprietrios de escravos, de chefes e de
mercadores africanos relativamente aos europeus talvez fosse ditado pelo medo
e pelo dio, mas muitos deles descobriram que, a longo prazo, os interesses dos
detentores do poder, negros e brancos, frequentemente coincidiam. Dessa forma,
o carter da resistncia passou por uma profunda transformao.
   Donald Denoon coloca o problema com clareza:
     Quando falamos da corrida para a frica, geralmente pensamos na diviso do ter-
     ritrio e da soberania africana entre europeus. O fenmeno comporta um terceiro
     aspecto, o da corrida aos recursos africanos. Os diamantes e o ouro figuram entre tais
     recursos,  certo, mas talvez o mais precioso, aquele para o qual as autoridades colo-
     niais se lanaram com paixo, fosse a mo de obra africana. Assim como outrora os
     comerciantes europeus e rabes compravam escravos em toda parte da frica, agora
     novas agncias de recrutamento se abriam para obter mo de obra no especializada
     para trabalhar nas minas [...] Em Angola, no Zambeze e em Katanga, na virada do
     sculo, os agentes de recrutamento para as minas do sul concorriam com os agentes
     das plantaes portuguesas de trabalho forado no golfo do Benin45.
    Tal como a primeira corrida ao territrio e  soberania, a segunda corrida
 mo de obra tambm encontrou resistncia. Foi uma resistncia armada, e o
apoio dado s grandes revoltas que no comeo do sculo XX tentaram redefinir
a soberania veio, em grande parte, de homens que execravam o trabalho forado.
A resistncia tomou, portanto, a forma de deseres e de greves, de recusa ao
trabalho debaixo da terra, de mltiplos tumultos. Os trabalhos de pesquisa-
dores como Charles van Onselen abrem novas perspectivas para o estudo da
resistncia, que j no  apenas a perspectiva da "resistncia do Zambeze" ou
da "resistncia de Bemba", mas a perspectiva da resistncia ao longo de toda a
rede interterritorial de migrao de mo de obra do incio da poca colonial46.

45   DENOON, 1972, p. 74.
46   VAN ONSELEN, 1973.
72                                                      frica sob dominao colonial, 1880-1935



     Concluso
    Como se v, a historiografia da resistncia  dinmica e crtica. Todavia as
modificaes e as novas perspectivas ampliam, ao invs de contradizer, os trs
postulados bsicos por mim analisados. A "organizao" e a "generalizao" da
resistncia aparecem ainda mais ntidas se acrescentamos  lista de oposies
e revoltas armadas, durante a corrida, os movimentos de resistncia indireta
anteriores  agresso econmica europeia. A pesquisa sobre a base ideolgica
da resistncia se enriquece se juntamos um elemento novo, as primeiras mani-
festaes de "conscincia" nos operrios e camponeses,  ideia de soberania e 
busca de uma nova ordem moral. E a pesquisa das conexes entre a resistncia
e a atual situao da frica ganha nova ressonncia com a ideia de resistncia
econmica. A ltima palavra talvez caiba no a um historiador, mas a um espe-
cialista em cincias polticas, Colin Leys, que preconiza uma teoria do "subde-
senvolvimento" mais dinmica e historicamente fundamentada:
     Num aspecto crtico, a teoria do subdesenvolvimento tende a assemelhar-se  do
     desenvolvimento  ela se concentra no que acontece aos pases subdesenvolvidos
     nas mos do imperialismo e do colonialismo e no no processo histrico correspon-
     dente, incluindo as diversas formas de luta contra o imperialismo e o colonialismo
     nascidas das condies do subdesenvolvimento [...] O que falta no  uma teoria do
     subdesenvolvimento, mas do subdesenvolvimento e da sua liquidao [...] Semelhante
     teoria implica nada menos que uma teoria da histria mundial vista pelos pases sub-
     desenvolvidos, uma teoria da opresso e da libertao desses pases, a qual ainda se
     acha em estgio bastante rudimentar, embora se sinta vivamente a necessidade dela47.
   O estudo dos movimentos de resistncia no  uma exaltao ftil das glrias
do passado, mas algo que pode contribuir para a elaborao de uma teoria da
opresso e da libertao.




47   LEYS, 1975, p. 20-1.
Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica                  73



                                           CAPTULO 4


              Iniciativas e resistncia africanas
                    no nordeste da frica
                           Hassan Ahmed Ibrahim
               (Com base numa contribuio de Abbas Ibrahim Ali)




Em nenhuma parte da frica as iniciativas e a resistncia dos africanos  partilha
e  ocupao europeia foram to determinadas e contnuas quanto nos modernos
Estados do Egito, do Sudo e da Somlia. As reaes comearam em 1881 com
o levante militar no Egito e continuaram em algumas partes da regio at os
anos de 1920. Jamais, na histria da frica, um povo lutou to aguerridamente
para defender sua liberdade, soberania, e sobretudo religio e cultura. Veremos
neste captulo quais foram essas iniciativas e reaes, a comear pelo Egito, em
seguida o Sudo e por fim a Somlia.


    Egito
    A revoluo urabista
   A m administrao financeira do quediva Ismail (1863-1879) e os enormes
emprstimos que ele contraiu na Europa colocaram o Egito  beira da falncia.
Enquanto a metade da receita do pas era estritamente consagrada ao servio da
dvida, pesados impostos eram exigidos do povo, e os fellahin, que na sua maioria
no podiam pag-los, eram impiedosamente castigados. Esta situao de penria
e de humilhao provocou vivo descontentamento e acerba oposio ao quediva
Tawfik (1879-1892) e seu governo corrupto. Tawfik tambm era desprezado
74                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



por sua total subservincia s potncias europeias, que se aproveitavam de sua
fraqueza e do endividamento do Egito para controlar as finanas e o governo
do pas. Logo se tornaria impossvel s autoridades egpcias proceder a reformas
administrativas ou econmicas sem a prvia e unnime autorizao de catorze
paises europeus. Enquanto os egpcios sofriam toda esta misria, os residentes
estrangeiros viviam confortavelmente. Estes sequer estavam sujeitos  lei egpcia,
pois tinham leis e tribunais prprios. Aproveitando-se desta posio privilegiada,
enriqueciam  custa das massas autctones, muitas vezes por meios corruptos e
imorais. O desejo de erradicar essa humilhante e odiosa dominao estrangeira
viria a ser o principal motivo da irrupo da revoluo urabista, movimento de
resistncia dirigido pelo coronel Ahmad Urabi1.
    Um outro motivo seria o amadurecimento de ideias polticas liberais entre os
egpcios como consequncia do desenvolvimento da educao e da imprensa no
sculo XIX. Esse amadurecimento poltico foi responsvel, em grande parte, pelo
movimento constitucional que irrompeu no pas nos anos de 1860, sobretudo
entre os egpcios de educao ocidental, que se opunham  dominao estran-
geira e ao despotismo do quediva. Esse movimento encontrou importantssimo
apoio nas ideias revolucionrias dos reformadores muulmanos Djamal al-Din
al-Afghani e Muhammad Abduh. Dirigidos por Muhammad Sharif Pasha,
cognominado Abu al-Dastur (o pai da constituio), aqueles nacionalistas cons-
titucionais exigiam a promulgao de uma constituio liberal e a formao de
um governo parlamentar2. Alguns deles talvez at ansiassem pela derrubada da
dinastia de Muhammad Ali, que reinava no pas desde o comeo do sculo.
    A principal causa direta do desencadeamento da revoluo, todavia, foi o
descontentamento e o sentimento de frustrao experimentados pelos mili-
tares egpcios. No s as tropas recebiam um soldo muito baixo (20 piastras
por ms)3, como os oficiais egpcios no podiam aceder a patentes elevadas, na
realidade monopolizadas pelos oficiais turco-circassianos, que menosprezavam
e maltratavam os subordinados egpcios. Para pr fim a essa posio de inferio-
ridade e responder s exigncias da populao, os militares egpcios interferiram
ativamente na arena poltica pela primeira vez na histria contempornea do
pas, desencadeando em comeos de fevereiro de 1881 uma revoluo contra o
colonialismo europeu e o quediva Tawfik.



1    AL-RAFI, 1966, p. 82-5
2    VATIKIOTIS, 1969, p. 126-30.
3    PRO (Public Record Office), Kew, FO 141/168, Relatrio de Dufferin, p. 4.
                                                                                                     Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica
                                                                                                     75
figura 4.1   O Coronel Ahmad Urabi ("Arabi Paxa", 1839-1911). (Fonte: Mary Evans Picture Library.)
76                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 4.2   Poltica e nacionalismo no nordeste da frica.
Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica                         77



    O lder dessa revoluo, coronel Ahmad Urabi (1839-1911), era uma perso-
nalidade sedutora, de origem fellah (ver fig. 4.1). Embora "simples, desprovido,
de sutileza e de refinamento poltico4", Urabi era homem corajoso e um orador
eloquente que muitas vezes intercalava em seus discursos passagens do Alco-
ro, "o que o tornava popular junto s massas". Essas qualidades de lder logo o
tornaram o dirigente inconteste da revoluo, tendo desempenhado importante
papel na formao do al-Hizb al-Watani, o Partido Nacionalista, cujos membros
eram um misto de homens de origem fellah e alguns notveis turcos, unidos
todos na oposio  autocracia quediva.
    No comeo, a revoluo obteve grande sucesso. Uthman Rifki, o famoso minis-
tro da Guerra, circassiano inspirador da poltica de discriminao praticada no
exrcito, foi demitido e substitudo por um poltico revolucionrio e distinto poeta,
Mahmud Sami al-Barudi. Formou-se um gabinete inteiramente urabista, e o
prprio Urabi veio a tornar-se ministro da Guerra5. Tawfik ficou to assustado
que ordenou a formao de uma assembleia popular e promulgou a 7 de fevereiro
de 1882 uma constituio relativamente liberal. Sabendo que esse passo em dire-
o ao constitucionalismo nada tinha de sincero, os urabistas estavam dispostos
a derrubar Tawfik e at pensavam em declarar o Egito uma repblica. Como
esta situao ameaasse os privilgios e interesses estrangeiros, a revoluo viu-se
diretamente confrontada com as potncias europeias (ver fig. 4.2).
    Entretanto, o quediva conspirava em segredo para esmagar a revoluo. A fim
de provocar uma interveno estrangeira, afirmam certos historiadores egpcios,
o quediva e os ingleses organizaram o massacre de Alexandria de 12 de junho
de 1882, em que numerosos estrangeiros foram mortos, e muitas propriedades
danificadas6. Verdadeira ou no, a acusao no importa: de fato, o quediva tinha
solicitado a interveno dos ingleses, e estes responderam com grande rapidez
e entusiasmo. O gabinete egpcio, por unanimidade, decidiu repelir a invaso
e rejeitou o ultimato ingls para desistir da fortificao das defesas costeiras e
desmantelar as posies de artilharia em torno de Alexandria. Isso deu  esqua-
dra inglesa o pretexto para bombardear a cidade em 11 de julho de 1882 (ver
fig. 4.3). O exrcito e o povo do Egito, embora oferecessem corajosa resistncia
aos invasores, foram vencidos por foras superiores. Cerca de 2 mil egpcios
encontraram a morte nessa batalha.



4    AL-SAYYID, 1968, p. 9.
5    SHIBAYKA, 1965, p. 604.
6    AL-MURSHIDI, 1958, p. 58.
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figura 4.3   Alexandria aps o bombardeamento de julho de 1882 pela frota britnica. (Fonte: Royal Commonwealth Society.)
Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica                       79



    Aps a queda de Alexandria, o exrcito egpcio recuou para Kafr al-Dawar,
a alguns quilmetros da cidade. Urabi declarou a djihad contra os ingleses,
numa proclamao que foi distribuda ao povo. Vrios combates se travaram
perto de Kafr al-Dawar em agosto de 1882. A firme resistncia do exrcito e
da populao tornava muito difcil aos invasores a ocupao do Cairo a partir
de l. Os ingleses decidiram ento ocupar o canal de Suez e lanar em seguida
uma grande ofensiva contra a capital.
    As massas egpcias prestaram apoio financeiro ao exrcito, e milhares de
jovens ofereceram-se como voluntrios. Mas todas as probabilidades estavam
contra a causa nacionalista. Urabi s dispunha de 16 mil soldados treinados
e mesmo esse pequeno efetivo estava disperso em torno de Kafr al-Dawar,
Dimyat (Damietta) e a zona do canal. Alm disso, faltavam ao exrcito egpcio
treinamento, armas modernas, munies e meios eficientes de transporte. Com
um exrcito de 20 mil homens, comandados por sir Garnet Wolseley, os ingleses
transpuseram rapidamente o canal, ocuparam Ismailia, esmagaram o grosso das
foras revolucionrias na batalha de Tell al-Kebir em 13 de setembro de 18827
e ocuparam o pas. Embora os britnicos tivessem prometido rpida evacuao,
na verdade ocuparam o Egito por 72 anos.
    O malogro da revoluo urbanista, que no conseguiu libertar o pas da
influncia europeia e da dominao dos turcos, tem explicao fcil. Muito
embora a revoluo tivesse recebido o apoio da massa do povo, no teve tempo
suficiente para mobiliz-lo. Ademais, uma grave ciso verificou-se na frente
nacionalista, devido ao crescente conflito que opunha os militares e os civis cons-
titucionalistas. Estes ltimos recusavam por princpio a interveno do exrcito
no domnio poltico, enquanto os militares afirmavam que a revoluo estaria
melhor salvaguardada se eles controlassem o governo. O movimento sofria com
as intrigas do quediva e de seus adeptos circassianos, que traram a revoluo e
facilitaram a ocupao britnica.
    O prprio Urabi cometeu vrios erros. No quis depor o quediva desde o
incio da revoluo, pois receava que a medida provocasse a interveno estran-
geira e mergulhasse o pas no caos  o que deu tempo ao quediva para conspirar
contra a revoluo. Urabi cometeu outro erro fatal: apesar dos avisos de alguns
de seus conselheiros militares, recusou-se a bloquear o canal, na esperana  que
se mostraria v  de que a Frana no permitisse que a Inglaterra o utilizasse




7    AL-RAFI, 1966, p. 487-96.
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para invadir o Egito. Em ltima anlise, porm, a derrota da revoluo urabista
deveu-se  superioridade militar britnica.

     Reao e formas de resistncia do Egito 
     ocupao inglesa, 18821914
    A derrota militar da revoluo urabista quebrou o moral do pas, criando
uma atmosfera de desespero e desiluso, durante o primeiro decnio da ocupao
(1882-1892). No houve resistncia real dentro do prprio pas, e as nicas vozes
nacionalistas que se ergueram durante esse perodo foram as de personalidades
no exlio. Djamal al-Din al-Afghani e Muhammad Abduh comearam em 1883
a publicar uma revista pan-islmica, Al-Urwa al-Wuthqa ("O Elo Indissolvel"),
cujo objetivo era libertar o Egito da ocupao inglesa agitando a opinio pblica
egpcia. A revista foi proibida no nmero 18, mas exerceu profunda influncia
no pequeno grupo de egpcios que sabiam ler  estudantes, ulama (sbios muul-
manos) e intelectuais. Al-Urwa encorajou a oposio aos britnicos e manteve
vivo o esprito de autodeterminao8. Sua mensagem antibritnica foi retomada
na dcada de 1890 por um grupo de escritores pan-islamistas, dos quais o mais
importante era o xeque Ali Yusuf, que publicou em 1900 um jornal, Al-Mu `ayyad,
e formou em 1907 a Hizb al-lslah al-Dusturi (Os Reformadores Constitucionais),
organizao que atacava vigorosamente a presena inglesa no Egito.
    O movimento nacionalista egpcio comeou a sair dessa fase de torpor em
1893, quando algumas personalidades egpcias comearam a se opor  ocupao
britnica. Das primeiras entre elas, merece citao o novo e ambicioso quediva
Abbas Hilmi (Abbas II, 1892-1914), que encorajou o desenvolvimento de um
movimento nacionalista exigindo a imediata evacuao do pas pelos ingleses. A
ajuda financeira  imprensa, que permitiu que o movimento se articulasse, foi de
particular importncia. Durante os trs primeiros anos do seu reinado, o prprio
Abbas se ps  frente do movimento, desafiando abertamente a autoridade de
lorde Cromer, agente britnico e cnsul-geral, e obrigou o primeiro-ministro
pr-britnico a demitir-se em 15 de janeiro de 1893. Na impossibilidade de
continuar agindo de forma to aberta, devido  presso dos britnicos, Abbas
encontrou, no entanto, adeptos desejosos de conduzir a luta contra a ocupao
do pas. Tratava-se de um grupo de jovens intelectuais familiarizados com as
ideias da Revoluo Francesa e as teorias sociais e polticas modernas9. A velha


8    AL-SAYYID, 1968, p. 87-90 .
9    Ibid., p. 99-136.
Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica                                           81




figura 4.4    Abbas Hilmi (Abbas II, 1892-1914), quediva do Egito. (Fonte: BBC Hulton Picture Library.)
82                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



sociedade egpcia, com seu cdigo rgido e suas restries religiosas, dissolvia-se
gradativamente, processo que despertava considervel instabilidade. Os egpcios
instrudos estavam particularmente preocupados com o controle britnico sobre
a administrao pblica, nico domnio aberto a eles onde podiam esperar
algum progresso. Em 1905, 42% dos cargos mais elevados eram ocupados por
ingleses, 30% por armnios e srios e somente 28% por egpcios10.
    Mas os adversrios mais encarniados da presena inglesa eram nessa poca
Mustapha Kamil, chefe carismtico e orador eloquente, e seu Partido Naciona-
lista. Kamil procurou de incio conquistar a Europa para a causa da indepen-
dncia do Egito. Pensava que outros pases europeus, que viam com maus olhos
a ocupao de seu pas pelos britnicos, apoiariam ativamente toda tentativa
para expuls-los do Egito. Graas aos fundos generosamente fornecidos pelo
quediva, Kamil visitou diversas capitais europeias entre 1895 e 1898, mantendo
reunies, dando entrevistas aos jornais, escrevendo artigos e panfletos11. Tais ati-
vidades despertaram bastante interesse na Europa, mas nada mais. O otimismo
de Kamil em esperar que a Europa e particularmente a Frana apoiassem a
causa do Egito no se justificava. Possuindo, ela prpria, colnias no norte da
frica, no admira que a Frana no se deixasse convencer pelos argumentos
de Kamil a favor da autodeterminao do Egito. Tampouco estava interessada
em travar guerra contra a Inglaterra pelo Egito, como o incidente de Fachoda
o demonstrara em 1898.
    A tarefa mais urgente dos jovens nacionalistas era refutar a afirmao de
Cromer de que os egpcios eram incapazes de se governar de acordo com prin-
cpios civilizados, assim como convencer o povo de que formava uma nao
capaz e merecedora de autonomia. Kamil se entregou ativamente a essa tarefa
desde 1898. At 1906, difundiu suas opinies em numerosos discursos e artigos
nos jornais da poca, especialmente al-Liwa ("A Bandeira"), que ele fundou em
1900. Destacava o passado do Egito para combater o derrotismo e mostrar que
os egpcios eram capazes de grandes feitos. Cunhou lemas deste gnero: "Se eu
no fosse egpcio, queria s-lo" e "a vida no faz sentido quando ela se casa com
o desespero e o desespero no faz sentido enquanto h vida"12. Seus discursos e
artigos visavam eliminar as rivalidades locais e reunir toda a populao em uma
frente nacionalista, assim como desenvolver a educao nacional para reforar os
sentimentos patriticos. Os esforos polticos desenvolvidos por Kamil comea-

10   MILNER, lorde, 1921, p. 30.
11   P. M. HOLT, ed., 1968, p. 308-19.
12   AL-SAYYID, 1968, p. 161.
Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica                        83



ram a dar frutos quando lhe foi possvel organizar uma greve de estudantes de
Direito, em fevereiro de 1906.
    A campanha do lder intensificou-se profundamente depois do incidente de
Dinshaway, ocorrido em maio de 1906. Um grupo de oficiais ingleses foi  aldeia
de Dinshaway para uma caada aos pombos, mas os aldeos se opuseram, j que
os pombos eram um de seus meios de subsistncia. Houve um choque e um dos
oficiais foi ferido de morte. As autoridades britnicas reagiram com violncia
e os aldeos foram condenados a severssimas penas. Quatro foram enforcados
e outros sentenciados a longos anos de cadeia. Embora as execues pblicas
tivessem sido suprimidas dois anos antes, a sentena foi realizada em pblico
e toda a aldeia de Dinshaway teve de assistir aos enforcamentos13. Na opinio
de Kamil, essa conduta brbara fez mais para despertar os sentimentos antibri-
tnicos do povo do que dez anos de ocupao14. E o incidente de Dinshaway
provocou a irrupo do nacionalismo egpcio: pela primeira vez desde 1882 os
ingleses tomaram conscincia da insegurana de sua posio no Egito e tiveram
de reconsiderar a sua poltica de dominao. Na verdade, anunciaram a inteno
de preparar o pas para a autonomia. Cromer deixou o Egito em 1907 e novo
cnsul-geral, Eldon Gorst, foi nomeado para implementar a nova poltica. A
nova situao constitua uma grande vitria para Kamil e seu Partido Naciona-
lista, que adquiriu existncia legal em 1907.
    Depois da morte prematura de Kamil, em fevereiro de 1908, Muhammad
Farid tornou-se o chefe do Partido Nacionalista. Farid no tinha as qualidades de
liderana de Kamil, mas continuou todavia a escrever e a participar de reunies
pblicas, reclamando a evacuao das tropas britnicas. Suas atividades nacionalis-
tas lhe valeram seis meses de priso em 1911, aps o que partiu para o exlio15.
    Em 1907, certas personalidades intelectuais egpcias chegaram  concluso
de que o Reino Unido era poderoso demais para ser expulso do pas por via
revolucionria. Alm disso, julgavam que havia indcios reais de mudana na
poltica britnica aps o incidente de Dinshaway. Em consequncia, considera-
vam possvel a cooperao com o ocupante a fim de obter dele o mximo at o
momento da independncia total. Em outubro de 1907 esse grupo formou um
novo partido poltico, chamado Partido Umma ("do Povo"), que tinha jornal
prprio, al-Djarida. Dirigido por um jornalista e educador de renome, Ahmad
Lutfi al-Sayyid, a quem os egpcios cultos se referiam como Faylasuf al-Djil ("o

13   AL-MASADA, 1974, p. 84-91.
14   HAYKAL, s.d., p. 148.
15   SABRI, 1969, p. 81-109.
84                                                          frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 4.5 Muhammad Ahmad ibn Abdallah, o Mahdi (1844-1885). (Fonte: BBC Hulton Picture Library.)
Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica                                      85



filsofo da gerao"), o grupo Djarida-Umma instava com os egpcios para que
modernizassem a tradio islmica, adotando as ideias e as instituies euro-
peias, que julgava necessrias ao progresso do pas16. O programa do Partido
Umma preconizava a criao de uma identidade nacional egpcia, sem a qual
 imaginava  o Egito no poderia conseguir a verdadeira independncia. Mas o
Umma no era muito popular junto aos nacionalistas egpcios, pelo fato de cola-
borar com o ocupante. Por outro lado, o seu liberalismo laico o impedia de lanar
razes nas massas populares, instintivamente ligadas  tradio islmica17.
    Antes da Primeira Guerra Mundial, o movimento nacionalista egpcio estava
assim desunido e era essencialmente elitista, sem apoio popular. Era, portanto,
muito fraco para obter concesses importantes das autoridades britnicas e
pouco fez o pas avanar no caminho da autonomia. Os nacionalistas tiveram
de esperar por 1913 para que estourasse uma revolta aberta contra a ocupao
britnica.


     Sudo
     A revoluo mahdista
    O Sudo era desde 1821 administrado pelo governo turco do Egito. Por volta
de 1880, os povos egpcio e sudans lutavam para se libertar da tutela de uma
aristocracia estrangeira. A ideia da djihad e da resistncia islmica  dominao
estrangeira, propagada no Egito por Urabi, encontrou igualmente um poderoso
eco junto ao movimento revolucionrio militante dirigido por Muhammad
Ahmad al-Mahdi no Sudo (fig. 4.5). Seu movimento, o Mahdiyya, era essen-
cialmente uma djihad  uma guerra santa  e, como tal, reclamava o apoio de
todos os muulmanos. Seu objetivo fundamental, como atestam repetidamente
as cartas e proclamaes do Mahdi18, era reviver a f pura e primitiva do Isl,
"expurgada das heresias e das excrescncias"19, e propag-la no mundo inteiro, se
necessrio pela fora. O autntico fervor espiritual da revoluo mahdista estava
expresso no bay'a (juramento de obedincia) que os adeptos do Mahdi (a quem
ele prprio chamava os Ansar20, seguindo assim o exemplo do Profeta) deviam

16   VATIKIOTIS, 1969, p. 229-30.
17   Ibid., p. 234.
18   Para uma boa compilao dessas cartas e proclamaes, ver ABU SALIM, 1969.
19   HOLT, 1970, p. 19.
20   ANSAR ("ajudantes") era o nome originariamente dado aos adeptos do Profeta Maom em Medina.
86                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



fazer ao chefe ou a seu representante, antes de serem admitidos no Mahdiyya.
No bay'a, os Ansar juravam fidelidade ao Mahdi "renunciando a este mundo
e abandonando-o, contentando-se com o que est com Deus, desejando o que
est com Deus e o mundo futuro". E acrescentavam: "Ns no fugiremos 
djihad"21.
    Afirmar que a revoluo mahdista era religiosa no significa que a religio
tenha sido a nica causa da sua origem. Havia outros fatores, secundrios, todos
derivados das faltas cometidas pela administrao turco-egpcia, totalmente
corrupta, faltas que tinham provocado o descontentamento geral no Sudo. As
violncias consequentes  ocupao do pas, em 1820-1821, tinham criado um
forte desejo de vingana, e os elevados impostos que os turcos arrancavam pela
fora s faziam agravar a situao. Alm disso, as tentativas feitas pelo governo
para eliminar o comrcio de escravos tinham descontentado certos sudaneses
do norte, pois ameaavam uma importante fonte de riqueza e at a base da
economia agrcola interna do pas. Por fim, os favores que os turcos concediam
ao povo Shaykiyya e  seita Khatmiyya parecem ter suscitado a inveja dos outros
grupos locais e religiosos, estimulando-os a apoiar o Mahdi22.
    O chefe da revoluo, Muhammad Ahmad ibn Abdallah, era um homem pio,
cujo ideal era o Profeta Maom [Muhammad] em pessoa. Como este ltimo,
Muhammad assumiu o papel de Mahdi aos 40 anos de idade, comunicou isso
em segredo a um grupo de adeptos fiis e depois fez o anncio pblico e oficial.
Com isso, entrou em confronto militar direto com o governo anglo-egpcio
durante quatro anos (1881-1885). Este o subestimou no incio, considerando-o
um simples darwish (mendigo), conforme o prova a fraca e desorganizada expe-
dio que foi enviada contra ele  ilha de Aba. Seguiu-se breve escaramua, na
qual os Ansar obtiveram uma vitria fcil e rpida, ficando a administrao
numa confuso completa. O Mahdi e seus adeptos consideraram a vitria mira-
culosa23. A clarividncia poltica e o gnio militar do Mahdi se refletem na sua
deciso de "emigrar", depois do combate de Aba, para Djabal Kadir, nas mon-
tanhas da Nbia. Independentemente do fato de apresentar um paralelo com a
vida do Profeta, esta hidjra (hgira) marcou de fato uma reviravolta na histria
do Mahdiyya. Ao afastar a revoluo da regio do Nilo, estabelecendo-a no oeste
do Sudo, os sudaneses desta rea tornaram-se a coluna vertebral  militar e



21   HOLT, 1970, p. 117.
22   SHOUQAIR, 1967, p. 631-6.
23   SHIBAYKA, 1978, p. 39-44.
Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica                    87



civil  da revoluo, enquanto declinava o papel das populaes que viviam s
margens do Nilo24.
    A batalha de Shaykan, travada a 5 de novembro de 1883, marcou outra
reviravolta da revoluo mahdista. Nessa poca, o quediva Tawfik e seu governo
estavam dispostos a esmagar o Mahdi, que controlava ento as principais cida-
des da provncia de Kordofan. Os egpcios enviaram um corpo expedicionrio,
formado pelos remanescentes do exrcito de Urabi e comandado por um oficial
ingls, Hicks Pasha. Os Ansar aniquilaram totalmente o adversrio na floresta
de Shaykan, perto de al-`Obeid25. A vitria encheu de orgulho o Mahdi e seu
movimento. Enquanto numerosos sudaneses aderiam  revoluo, delegados de
vrios pases muulmanos vieram felicitar o Mahdi por sua vitria contra os
"infiis". A consequncia imediata de Shaykan foi o colapso total da adminis-
trao turco-egpcia no oeste do Sudo. Os mahdistas assumiram o controle das
provncias de Kordofan, Darfur e Bahr al-Ghazal. O Mahdi estava, entretanto,
prestes a passar  segunda fase das operaes: tomar Khartum e pr fim  domi-
nao turco-egpcia sobre o Sudo26.
    Os mahdistas atacaram em seguida a regio oriental do Sudo, sob o hbil
comando de Osman Digna. Digna obteve numerosas vitrias sobre as foras
governamentais e no tardou a ameaar os portos do Mar Vermelho, defendidos
pelos britnicos, do que resultou uma interveno militar destes, de resto pouco
eficaz. Com a exceo de Souakin, os Ansar controlavam a totalidade do Sudo
oriental e impediam o transporte de reforos e de munies para Khartum pela
estrada Souakin-Berbere.
    Aps a batalha de Shaykan, a poltica britnica relativamente ao Sudo
sofreu importante mudana. Antes, o Reino Unido dizia tratar-se de um pro-
blema puramente egpcio, mas, depois da batalha, concluiu que seus interesses
imperiais exigiam que o Egito se retirasse imediatamente do Sudo27. Ordenou
ento que o governo egpcio evacuasse o pas e encarregou o general Charles
Gordon de fazer cumprir a ordem. Entrementes, o Mahdi avanava sobre a capi-
tal, colocando o general Gordon numa situao muito perigosa. Aps demorado
cerco, as foras mahdistas atacaram a cidade, mataram Gordon a 26 de janeiro
de 1885 e puseram fim  dominao turco-egpcia no Sudo28.


24   ABU SALIM, 1970, p. 21-2.
25   ZULFU, 1976, p. 203-29.
26   AL-HASAN, 1964, p. 4.
27   SHIBEIKA, 1952, p. 107-9.
28   HAMZA, 1972, p. 159-83.
88                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



    No espao de quatro anos (1881-1885), o movimento Mahdiyya de revolta reli-
giosa transformara-se em poderoso Estado militante, que iria dominar o Sudo por
catorze anos. Suas instituies administrativas, financeiras e jurdicas, assim como
a legislao, estavam estritamente baseadas no Coro e na Sunna, muito embora o
Mahdi ocasionalmente promulgasse novas formas de legislao acerca de problemas
prementes, como a situao das mulheres e da propriedade de terras29.
    As relaes do Estado mahdista com o mundo exterior eram rigorosamente
governadas pela djihad. O Mahdi e seu califa, Abdullah ibn al-Sayyid Muham-
mad, escreveram cartas de advertncia (indharat)  virtualmente, ultimatos  a
certos dirigentes, como o quediva do Egito, o imperador da Turquia e o da
Abissnia, para que aceitassem a misso do Mahdi, ameaando-os com uma
djihad imediata se no respondessem afirmativamente30.
    O Mahdi no viveu tempo bastante para dar prosseguimento a sua poltica
(morreu em junho de 1885), mas a djihad tornou-se o alvo de toda a poltica
externa do califa Abdullah, sucessor dele. No obstante os pesados problemas
administrativos e financeiros que tinha de enfrentar, Abdullah prosseguiu com
a djihad em duas frentes: contra o Egito e a Etipia. Sob o comando de Abd
al-Rahman al-Nudjumi, as foras mahdistas invadiram o Egito, mas foram bati-
das em Tushki no ano de 1889. O avano mahdista na frente oriental tambm
foi detido, e os Ansar perderam Tokar em 1891 e Kassala em 1894. O engaja-
mento ideolgico do califa na djihad havia arruinado os esforos do imperador
da Etipia para concluir uma aliana africana entre o Sudo e a Etipia contra
o imperialismo europeu. De fato, para concluir a aliana, o califa exigia que o
imperador aderisse ao mahdismo e ao Islo. O resultado dessa atitude dogmtica
foi uma srie de embates armados, que enfraqueceram os dois Estados, fazendo
deles presas fceis para o imperialismo europeu31.
    Em maro de 1896, o governo imperial britnico decidiu invadir o Sudo e
constituiu-se para tanto um exrcito, comandado pelo general H. H. Kitchener.
Durante a primeira fase da invaso, de maro a setembro de 1896, as foras
inimigas ocuparam toda a provncia de Dongola, sem encontrar resistncia sria
da parte dos sudaneses. Isso se devia a sua superioridade tcnica e ao fato de o
califa ter sido surpreendido pela ofensiva.
    Como o califa tinha suposto, a ocupao de Dongola no era seno o preldio
para um ataque generalizado ao Estado mahdista. Enquanto Kitchener avan-

29   HOLT, 1970, p. 128.
30   SHOUQAIR, 1967, p. 921-9.
31   AL-KADDAL, 1973, p. 105-7.
Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica                                               89



ava para o sul, o califa mobilizava as suas tropas, decidido a resistir ao invasor.
Comandados pelo emir Mahmud Ahmad (ver fig. 4.6), os Ansar tentaram
rechaar, sem xito, o inimigo perto do rio Atbara, em 8 de abril de 189832. Trs
mil sudaneses foram mortos e mais de quatro mil feridos. O prprio Mahmud
foi capturado e encarcerado em Roseta, no Egito, onde morreu alguns anos
depois. Aps a derrota de Atbara, o califa decidiu enfrentar o inimigo perto
da capital, Omdurman, pois era evidente que os problemas de suprimento e
de transporte lhe proibiam qualquer deslocamento importante de tropas. Os
sudaneses combateram o inimigo com admirvel coragem na batalha de Karari,
a 2 de setembro de 189833. Mais uma vez o armamento superior do adversrio
os derrotou. Quase 11 mil sudaneses foram mortos e perto de 16 mil feridos.
Ao compreender que a batalha estava perdida, o califa retirou-se para leste da
provncia de Kordofan, onde esperava reunir seus partidrios e atacar o ini-
migo na capital. Sua resistncia foi um problema para a nova administrao
durante um ano, mas foi finalmente vencido na batalha de Umm Diwaykrat, a
24 de novembro de 1899. Aps a batalha, o califa foi encontrado morto sobre
o seu tapete de oraes de pele de carneiro34; todos os demais chefes e generais
mahdistas tinham sido mortos ou capturados. O Estado mahdista desmoronou
mas, enquanto realidade religiosa e poltica, o Mahdiyya sobreviveu.

     Os levantes mahdistas
    Embora as autoridades britnicas tivessem proibido a seita mahdista, impor-
tante parte da populao ficou-lhe fiel. A maioria dos sudaneses traduzia sua
hostilidade continuando a ler o ratib (livro de oraes mahdista) e a praticar
diversos rituais mahdistas. Somente um punhado de adeptos do Mahdi tentou
vrias vezes repelir pela fora os "infiis". No houve ano, entre 1900 e 1914,
sem levantes mahdistas no norte do Sudo. A principal fonte de inspirao de
tais revoltas era a doutrina muulmana do nabi `Isa (Profeta Jesus). Os muul-
manos em geral acreditavam que o Mahdi voltaria para restaurar a justia na
Terra depois que ela tivesse conhecido o reino da injustia. Sua misso seria
temporariamente freada pelo al-masih al-dadjdjal (o Anti-Cristo). O nabi `Isa,
no entanto, logo viria para garantir a permanncia do glorioso Mahdiyya. Os



32   IBRAHIM, 1969, p. 196-237.
33   Para maiores informaes sobre os emires mahdistas feitos prisioneiros, ver IBRAHIM, 1974, p. 33-45.
34   HOLT, 1970, p. 243.
                                                                                                                                                       90
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figura 4.6   Mamud Ahmad, um dos comandantes dos Ansar (exrcito mahdista), aps sua captura pelas foras anglo-egpcias. (Fonte: Royal Commonwealth
Society.)
Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica                            91



Ansar consideravam os ingleses como a encarnao do al-dadjdjal e muitos deles
pensavam que `Isa os expulsaria do pas35.
    Houve levantes mahdistas em fevereiro de 1900, em 1902-1903 e em 1904. O
mais importante foi organizado e dirigido em 1908 por um renomado mahdista,
Abd al-Kadir Muhammad Imam, geralmente chamado Wad Habuba.
    Wad Habuba pregava o mahdismo em Djazira e desafiou o governo na aldeia
de Tukur, perto de Kamlin. Foram despachadas tropas para captur-lo, mas ele
resistiu e dois funcionrios foram mortos. Enquanto as autoridades ainda se
sentiam confusas com o incidente, Wad Habuba lanava em maio um ataque de
surpresa contra o inimigo na aldeia de Katfiya. Os mahdistas combateram bra-
vamente, mas dentro de alguns dias estava quebrada a espinha dorsal da revolta.
Exatamente  imagem do Mahdi, Wad Habuba "emigrou", provavelmente em
busca de asilo em Omdurman, onde esperava continuar na clandestinidade a
propagao da causa mahdista. Mas foi detido no caminho e publicamente
executado em 17 de maio de 1908, enquanto grande quantidade de partidrios
seus eram condenados  morte ou a longas penas de crcere36. Submetido a um
julgamento pouco equitativo, Wad Habuba desafiou os imperialistas britnicos
declarando ao tribunal:
     "Minha aspirao  que o Sudo seja governado por muulmanos, conforme a lei de
     Maom, as doutrinas e os preceitos do Mahdi. Conheo melhor o povo sudans do
     que o governo. No hesito em dizer que a amabilidade e as lisonjas dele no passam
     de hipocrisia e de mentira. Estou pronto a jurar que o povo prefere o mahdismo ao
     atual governo"37.
   Apesar da falta de coordenao e da incapacidade de levantar as massas, essas
numerosas revoltas messinicas instauraram uma continuidade com o perodo
do governo mahdista e mostraram que o mahdismo persistia como fora reli-
giosa e poltica vital no Sudo. Por outro lado, elas provavam que a resistncia 
dominao colonial era bastante viva entre muitos sudaneses do norte.

     Movimentos de oposio nas montanhas da Nbia e no sul do Sudo
   A oposio manifestada pelas populaes nas montanhas da Nbia e no sul
do Sudo constitua o desafio mais srio que os colonialistas ingleses tiveram


35   IBRAHIM, 1979, p. 440.
36   Ibid., p. 448.
37   "Sudan Intelligence Report'", maio de 1908.
92                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



de enfrentar antes da Primeira Guerra Mundial. Os numerosos levantes ocor-
ridos nessas regies do pas, no entanto, tinham carter essencialmente local.
Tratava-se de reaes diretas s transformaes introduzidas pelo colonialismo
na estrutura de diversas comunidades  transformaes caracterizadas como um
atentado s instituies sociais e polticas destas ltimas, substitudas por outras
implantadas pelos britnicos.
    Apesar da crueldade do domnio colonial, diversas comunidades nbias mani-
festaram ativamente a sua oposio. Enquanto Ahmad al-Numan, mek de Kitra,
declarava sua aberta hostilidade, a populao de Talodi se revoltava, em 1906, com
a morte de alguns funcionrios e de soldados. A rebelio dirigida pelo mek Faki Ali
na regio de Miri foi ainda mais sria. Ali molestou durante dois anos as foras
governamentais, mas foi detido em 1916 e encarcerado em Wadi Halfa38.
    No sul do Sudo, a resistncia foi conduzida e mantida pelo povo Nuer, que
vivia nas terras adjacentes ao rio Sobat e ao Nilo Branco. Habituados a governar
seus prprios assuntos nas administraes anteriores, que no exerciam sobre
eles nenhum controle efetivo, os Nuer recusaram-se a reconhecer a autoridade
do novo governo e continuaram a hostiliz-lo. Dois de seus chefes, Dengkur e
Diu, se mostraram particularmente ativos a tal respeito. Apesar da morte deles,
respectivamente em 1906 e 1907, os Nuer no cessaram suas operaes e, em
1914, outro chefe Nuer, Dowl Diu, atacou um posto governamental. No obs-
tante as medidas punitivas indiscriminadas, a resistncia dos Nuer continuou se
fortalecendo, at a grande revolta popular de 1927.
    Comandados por seu chefe Yambio, os Azande estavam decididos a interditar
o acesso de seu territrio a qualquer tropa estrangeira. Eles estavam ameaados de
invaso tanto pelos belgas como pelo governo do Condomnio. Os belgas se mos-
travam particularmente ativos na fronteira meridional do territrio azande. Parece
que Yambio receava mais uma invaso belga do que britnica e, portanto, imaginou
neutralizar os britnicos com sinais de amizade, o que lhe deixaria as mos livres
para fazer frente ao perigo belga, mais iminente. Convidou ento os ingleses a esta-
belecer um entreposto comercial no seu reino, esperando que eles no conseguissem
vir  mas, se viessem, iria combat-los. No fundo, parece que ele procurava jogar os
britnicos contra os belgas, aparentemente convencido de que os interesses ingleses
no seu pas levariam os belgas a pensar duas vezes antes de o atacar39.
    Os britnicos, porm, aceitaram o convite e, em janeiro de 1903, uma patrulha
saiu de Wau para o pas de Yambio. Ainda em marcha, foi atacada pelos Azande e

38   CUDSI, 1969, p. 112-6.
39   Ibid., p. 220.
Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica                      93



se refugiou em Rumbek. Em janeiro de 1904, o governo de Khartum enviou outra
patrulha, que foi igualmente atacada pelos Azande e teve de se retirar para Tonj.
    Ento os belgas se prepararam para atacar e Yambio mobilizou uma fora
de 10 mil homens, que lanou, em audacioso ataque, contra o posto belga
de Mayawa. Apesar da coragem, os Azande, armados apenas de lanas, nada
podiam contra as carabinas dos belgas. A derrota minou o moral e o poderio
militar dos Azande. No obstante o enfraquecimento de suas foras, Yambio
teve de fazer frente a uma expedio governamental em janeiro de 1905. Foi
finalmente vencido e preso, mas morreu pouco depois, em 10 de fevereiro de
1905. Seu povo, no entanto, continuou a luta. Em 1908, alguns guerreiros de
Yambio tentaram organizar um levante e outros molestaram os ingleses durante
a Primeira Guerra Mundial40.


     Somlia
     Reao dos somalis  partilha, 18841897
    Na segunda metade do sculo XIX, a Somlia foi teatro das rivalidades
coloniais entre a Itlia, o Reino Unido e a Frana. Com os olhos voltados para
a ndia e outras regies da sia, o Reino Unido e a Frana trataram, no incio
da dcada de 1880, de se implantar na costa da Somlia, tendo em vista sua
importncia estratgica e comercial. Com a entrada em cena da Itlia, as trs
potncias estenderam finalmente sua influncia pelo interior e cada uma delas
estabeleceu um protetorado no pas somali. Em 1885, os franceses j o tinham
instaurado, mas o governo britnico s fez a mesma coisa dois anos mais tarde,
na costa dos somalis, a leste de Djibouti, incluindo a o Bender Ziadeh. Graas
 intermediao da East Africa Company e do governo ingls, a Itlia tambm
conseguiu adquirir o controle das cidades de Brava, Merca, Mogadscio e War-
sheik, em novembro de 1888. O governo italiano declarou protetorado as partes
do litoral que ligavam as cidades; Obbia e o Midjurtayn somali, ao norte, foram
posteriormente includos nessa zona (ver fig. 4.2).
    Tambm a Etipia se expandiu nos territrios somalis  nas zonas habita-
das  e procurava controlar Ogaden e Houd. Uma das vrias interpretaes da
histria desta regio sugere que, enquanto a invaso europeia era motivada por
consideraes imperialistas e capitalistas, a expanso da Etipia era essencial-


40   Ibid., p. 238-54.
94                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



mente "uma reao defensiva, devida ao estabelecimento de colnias europeias
nas vizinhanas do pas". Segundo a mesma interpretao, como a Itlia, o
Reino Unido e a Frana avanavam para o interior a partir de suas respectivas
posies no litoral, o imperador etope, Menelik, "tentava mant-los o mais
longe possvel do centro do seu imprio, no planalto, ampliando as suas prprias
fronteiras41. Cumpre todavia notar que a expanso para Shoan sob o reino de
Menelik comeara antes da chegada dos europeus  rea, primeiro contra os
Oromo, depois contra os somalis.
    A partilha do pas somali, praticamente terminada em 1897, desprezou os
interesses legtimos das populaes e as privou da liberdade e da independncia.
Tinha, pois, de despertar extrema desconfiana nos somalis, estimulando-os a
resistir  aventura estrangeira. Os chefes e os sultes somalis estavam particu-
larmente inquietos com tantas usurpaes, que tinham efeito desastroso sobre
seu poder poltico. Eles jamais cederam de boa graa a sua soberania e, de fato,
encabearam numerosos levantes contra as foras europeias e etopes durante
o perodo da partilha.
    Conscientes das rivalidades existentes entre as potncias europeias, os che-
fes somalis tentaram jogar umas contra as outras. Assinaram tratados com
esta e aquela potncia colonial, na esperana de que a prtica diplomtica
lhes resguardasse a independncia. Por exemplo, assinaram numerosos trata-
dos com os ingleses, nos quais lhes concediam pouca coisa. O prembulo de
cada tratado explicava que, do ponto de vista somali, tratava-se de "proteger
a independncia, manter a ordem e outras boas e suficientes razes". Os cls
no se comprometiam a ceder os seus territrios, mas prometiam explicita-
mente "jamais ceder, vender, hipotecar ou dar a no ser por ocupao, salvo ao
governo britnico, todo ou parte do territrio atualmente ocupado por eles ou
que se ache sob o seu controle"42. Mas os tratados no preencheram o objetivo,
pois as potncias europeias e a Etipia acabaram por acertar pacificamente o
seu litgio na regio.
    Alm desse esforo diplomtico, certos cls somalis pegaram em armas para
salvaguardar a soberania. Os ingleses tiveram de enviar quatro expedies: em
1886 e 1890, contra os Issa; em 1893, contra os Habar Guerhajis; e em 1895,
contra os Habar Awal43. Os italianos tambm sofreram pesadas perdas: em 1887,
um destacamento de soldados italianos foi massacrado em Harar e, em 1896, uma

41   TOUVAL, 1963, p. 74.
42   LEWIS, I. M., 1965, p. 46-7.
43   HAMILTON, 1911, p. 47.
Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica                    95



coluna de 14 homens foi aniquilada pelos Bimal. Os frequentes choques entre
os etopes e os cls somalis no permitiram que aqueles ocupassem totalmente
Ogaden nem estendessem a sua autoridade alm dos postos militares estabele-
cidos de longe em longe na regio44.
   Cumpre todavia lembrar que os somalis, no obstante a sua unidade cultural,
no constituam uma entidade poltica nica. A agresso estrangeira, portanto,
no encontrou pela frente uma nao unida, mas um mosaico de cls isolados e,
muitas vezes, inimigos45. Por outro lado, os somalis estavam armados apenas de
lanas, arcos e flechas e, na poca, no tinham condies de importar armas de
fogo e munies. No entanto, a resistncia deles durante o perodo da partilha
manteve vivo o esprito nacionalista e, posteriormente, estimulou a djihad de
Sayyid Muhammad Abdille Hasan contra a ocupao europeia e etope, que
vamos examinar agora.

     A luta dos somalis pela liberdade, 18971914
    Sayyid Muhammad nasceu em 1864. Aos sete anos conhecia a fundo o
Alcoro. Aos 19, deixou a casa paterna para ir estudar nos principais centros de
cultura islmica da frica oriental, Harar e Mogadscio. Tambm se acredita
que ele se aventurou at as praas-fortes mahdistas de Kordofan, no Sudo46.
Em 1895, Sayyid partiu em peregrinao a Meca e passou um ano na Arbia,
visitando igualmente o Hedjaz e a Palestina. Em Meca estudou com o xeque
Muhammad Salih e entrou para a sua seita, a Ordem de Salihiyya.  provvel
que essas diferentes estadas no mundo muulmano o tenham posto em con-
tato com as ideias preconizadas pelo renascimento islmico47. No seu regresso,
instalou-se por algum tempo em Berbera, onde lecionou e pregou, estimulando
seus compatriotas a seguir o caminho da estrita f muulmana.
    Sayyid Muhammad estava cnscio de que as incurses crists (europeia e
etope) tinham ameaado os fundamentos sociais e econmicos da sociedade
somali. J em julho de 1899 ele escrevia a um cl somali para lhe lanar esta
advertncia: "No vem que os infiis destruram a nossa religio e tratam nos-
sos filhos como se lhes pertencessem?". Estava fazendo referncia ao estabe-
lecimento de escolas crists na Somlia, que lhe pareciam ameaar as escolas


44   TOUVAL, 1963, p. 74.
45   LEWIS, I. M., 1965, p. 43.
46   SHEIKH-ABDI, 1978, p. 61-2.
47   ABD AL-HALIM, 1975, p. 339.
96                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



cornicas. Sayyid achava que a eficcia do proselitismo cristo podia ser medida
pelo fato de a populao estar adotando nomes cristos, como "Joo Abdallah".
Tudo isto lhe fazia crer que a colonizao crist procurava destruir a religio
islmica.
    O movimento mahdista sudans teve fortes repercusses no pas somali.
Sayyid, bem como outros chefes religiosos, inspirava-se na brilhante carreira
do Mahdi. Os somalis sabiam do que se passava no Sudo e simpatizavam
com seus correligionrios, o que facilitou a empresa de Sayyid Muhammad48.
Em um de seus discursos, Sayyid acusou as autoridades militares britnicas de
exportar animais para a guerra contra o Mahdi  o santo homem do Sudo , a
quem Deus tinha dado a vitria49. Resta ver, porm, em que medida ele situava
sua djihad no quadro geral do renascimento islmico e at que ponto ele era
inspirado e influenciado pela revoluo mahdista do Sudo. J se disse que ele
se encontrou com o emir mahdista do Sudo oriental, Digna, quando visitou
aquele pas. O fato no est contudo provado, embora certas tradies orais dos
somalis digam que a ttica de guerrilha deles no curso da djihad era copiada da
ttica dos mahdistas do Sudo oriental50.
    Um dos fatores mais srios a impedir a unificao dos somalis nmades era
o sistema de linhagem tradicional com suas vassalagens "tribais". Graas ao
seu carisma pessoal e s suas qualidades de chefe, Sayyid chegou a assumir o
comando de uma tropa heterognea, recrutada em vrios cls somalis, e a criar
um exrcito regular de cerca de 12 mil homens51. Para mobilizar os diferentes
grupos contra a administrao colonial, apelou para os sentimentos religiosos
deles, fosse qual fosse o cl. Comps, alm disso, grande nmero de poemas,
dos quais muitos ainda conhecidos na Somlia, e assim "uniu uma multido de
cls inimigos sob a dupla bandeira do Isl e da ptria"52.
    Sayyid lanou a djihad em Berbera, onde tentou, de 1895 a 1897, sublevar
a populao contra os imperialistas. Mas seu primeiro ato revolucionrio foi a
ocupao de Burao, no centro da Somlia britnica, em agosto de 1899. Os bri-
tnicos, inquietos com isso, enviaram quatro expedies entre 1900 e 1904 para
repelir os ataques de Sayyid. Muito embora os ingleses fossem apoiados pelos
italianos, a excepcional capacidade militar do lder e o xito com que empregou


48   LEWIS, I. M., 1965, p. 69.
49   SILBERMAN, s.d., p. 47.
50   ABD AL-HALIM, 1975, p. 369-70.
51   JARDINE, 1923, p. 69.
52   SHEIKH-ABDI, 1978, p. 62.
Iniciativas e resistncia africanas no nordeste da frica                      97



a cavalaria e a ttica de guerrilhas valeram a seus guerreiros um certo nmero
de vitrias. Uma delas foi conquistada na colina de Gumburu, em abril de 1903,
onde nove oficiais britnicos foram mortos.
    No final de 1904, no entanto, as foras de Sayyid se encontravam muito
debilitadas. Retirou-se ento para o protetorado italiano de Midjurtayn, onde a
5 de maro de 1905 assinou o tratado de Illing, no qual imps suas condies
aos italianos. Em 1908, Sayyid mobilizou suas tropas para um novo ataque,
que obrigou os ingleses a desocupar o interior do pas em novembro de 1909,
concentrando-se no litoral. Mas Sayyid ameaava igualmente atacar as cidades
litorneas. Em agosto de 1913 obteve importante vitria, ao aniquilar a fora
policial montada em camelos que havia sido recentemente criada. O desastre
obrigou os ingleses a se aliarem com o governador etope de Harar e a montar
com ele expedies contra Sayyid at a morte dele em Imi, na Etipia, em
novembro de 1920.
    Sob o comando de Sayyid Muhammad, o povo somali havia conseguido fus-
tigar os imperialistas europeus e os etopes durante vinte anos, obtendo vitrias
militares, polticas e mesmo diplomticas. Evidentemente, a djihad somali no
logrou expulsar os estrangeiros, mas estimulou um forte sentimento nacionalista.
Os somalis sentiram-se unidos na luta contra a invaso europeia. Por outro
lado, o combate de Sayyid Muhammad deixou na conscincia nacional somali
um ideal de patriotismo que jamais se apagou e que viria a inspirar as geraes
seguintes53.


     Concluso
    Talvez nenhuma regio da frica tenha resistido to valentemente  con-
quista e ocupao europeias nos anos de 1880 a 1914 como os pases do nordeste
do continente. A prova disso est nos milhares de egpcios, sudaneses e somalis
que perderam a vida em batalhas e escaramuas com as tropas coloniais. A fora
dessa resistncia se devia ao fato de o sentimento patritico que a inspirava se
fortalecer com um sentimento religioso ainda mais profundo. As populaes do
Egito, do Sudo e da Somlia no lutavam apenas por seus territrios, mas tam-
bm por sua f. Os muulmanos desses pases, tal como os do resto do mundo
islmico, estavam conscientes dos problemas sociais e religiosos acarretados pela
invaso estrangeira. Por outro lado, era inadmissvel  doutrina islmica que

53   LEWIS, I. M., 1965, p. 91.
98                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935


 uma populao muulmana aceitasse a submisso poltica a uma potncia crist.
 Os movimentos revolucionrios de Urabi, do Mahdi e de Sayyid Muhammad
 devem, pois, ser interpretados no contexto dos numerosos movimentos refor-
 mistas que se disseminaram pelo mundo muulmano nos sculos XVIII e XIX
 e que to profundamente o marcaram.
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara                99



                                           CAPTULO 5


          Iniciativas e resistncia africanas no
               norte da frica e no Saara
                                             Abdallah Laroui




    O tema deste captulo  altamente complexo, no tanto por causa dos fatos,
que no conjunto so bem conhecidos, mas pelo que se refere  sua interpretao.
Cabe-nos estudar as iniciativas tomadas pelos habitantes do Maghreb e do Saara
para se contraporem  investida colonial, bem como as reaes deles  conquista
em andamento. Para dar uma primeira ideia da complexidade da situao que
nos ocupa, vejamos o panorama em 1907 (ver figura 5.1).
    A oeste, o Marrocos estava passando por uma revoluo que destronou o
sulto Abd al-Aziz (1894-1908), em vista de ele ter ratificado a conquista da
provncia de Tuat pelos franceses e aceito as reformas impostas pelas potncias
europeias aps a Conferncia de Algeciras, de abril de 1906. Os protagonistas
dessa revoluo so membros do Makhzen1, ligados aos zawaya (singular zwiyai,
centros locais das confrarias religiosas Sufi (tariqa), e s chefias locais.
    A leste, a Tunsia via nascer um movimento nacionalista no verdadeiro sentido
da palavra. As associaes de primeiros diplomados do ensino moderno estavam
sendo criadas, ao mesmo tempo que surge uma imprensa reivindicativa, escrita na
lngua do colonizador. Uma nova elite se distingue pelas iniciativas inditas.
    Ao sul, as zonas ocidentais do Saara servem de teatro a uma operao fran-
cesa de envergadura, cujo objetivo era cercar  antes de estrangular  o Marrocos


1    Governo do Marrocos e, em sentido lato, elite poltico-religiosa do pas.
                                                         100
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figura 5.1   As grandes regies do Maghreb e do Saara.
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara                                          101



independente. O exemplo no tardar a ser seguido pela Espanha no prprio
Marrocos, bem como pela Itlia na Tripolitnia, mas, desta vez,  custa do sulto
de Constantinopla.
   Assim, durante o perodo que nos interessa e na regio que nos ocupa, h
que distinguir trs nveis:
               o nvel do Estado constitudo2, marroquino a oeste e otomano a leste da
                frica do norte.  l que temos de procurar a iniciativa na verdadeira acep-
                o da palavra;
               o nvel das confrarias Sufi, cuja inspirao  sem dvida religiosa, mas cuja
                funo  inegavelmente poltica. Elas sempre foram, no Maghreb e no Saara,
                uma organizao defensiva contra a ameaa externa. Quando o Estado 
                forte, as confrarias so uma parte do seu mecanismo; quando enfraquece
                ou se dissolve, elas se autonomizam e tomam a iniciativa. Assim, logo que
                Constantinopla renuncia  sua suserania, a confraria dos sanusi torna-se a
                alma da resistncia contra os italianos na Cirenaica, e logo que o Estado
                marroquino torna-se incapaz de agir, a confraria dos Kettanis junta as foras
                antifrancesas em Shinkit e na Shawiya;
               o nvel da djema'a3, que s aparece  luz do dia quando os nveis preceden-
                tes foram postos fora de ao pela fora das armas. A djema'a comea por
                recusar todo contato com as autoridades coloniais, apesar de suas aliciantes
                ofertas. Quando ela cede, enfim, fica com uma iniciativa muito limitada:
                no pode seno reagir  poltica colonial, que em certo sentido a institua
                como fora autnoma.
   A historiografia colonial deforma conscientemente os fatos, ao negligenciar o
nvel do Estado organizado, ao reduzir a confraria a uma espcie de supertribo
e ao ver na sociedade maghrebiana apenas o nvel tribal, que alis interpreta
segundo modelos antropolgicos de preeminncia mais terica do que real.
Com este vis, a resistncia dissolve-se em uma srie descontnua de reaes
desordenadas diante de uma poltica de conquista que, por contraste, parece
eminentemente racional.
   Quando nos colocarmos ao nvel do Estado ou da confraria, falaremos de
"iniciativas"; quando ficarmos ao nvel local, falaremos de "reaes". Embora as
duas noes coexistam na histria maghrebiana, cada uma delas pode no obstante


2    No se deve interpretar a estrutura deste Estado a partir da do Estado liberal europeu, pois seria cair na
     armadilha da ideologia colonialista.
3    Assembleia representativa de um dos vrios nveis da diviso tribal.
102                                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



servir para caracterizar uma poca determinada  antes e depois de 1912, no
Marrocos, e depois de 1922, na Lbia.
    A documentao que nos permite conhecer as iniciativas maghrebianas para
contrariar as ambies coloniais  de natureza poltica e diplomtica.  uma
documentao bem conhecida e o problema dos historiadores atuais reside em
reuni-la e conserv-la.
    Qual  a que trata das reaes ao nvel local? Essencialmente, so teste-
munhos escritos e narrativas orais.  necessrio registrar, bem entendido, as
narrativas e reunir os testemunhos escritos, antes que se percam, mas o grave
problema que sobrevm  o da sua avaliao, isto , o de saber o que legitima-
mente podemos esperar deles.
    Duas observaes se impem nesta altura.
    Quanto aos testemunhos escritos por gente urbana letrada, h que ter em
mente que a conquista militar foi precedida por uma longa preparao psico-
lgica e poltica. A elite urbana, entrementes, havia perdido todo o ardor opo-
sicionista. Os seus membros que deixaram memrias no eram resistentes na
poca, diga-se o que se disser deles hoje em dia.
    Quanto s narrativas orais, no se deve esquecer que os testemunhos sofre-
ram necessariamente dois tipos de influncias. Acima de tudo, europeias. Efe-
tivamente, a narrativa dos combates, feita do ponto de vista colonial, recebia
publicao quase instantnea na imprensa especializada4; por outro lado, a pol-
tica colonial consistia em mandar os filhos dos chefes submetidos para as escolas
francesas, na esperana de fazer deles aliados fiis. Pouco mais de dez anos aps
o fato, por exemplo, o filho era capaz de dar, a respeito dos combates do pai,
detalhes que este desconhecia e que ele passava a integrar de boa-f  sua nar-
rativa. Ora, a verso colonial, embora contempornea dos fatos, no  inocente:
traz a marca da hostilidade que opunha, no exrcito das potncias europeias,
regimentos metropolitanos e colonizadores. Os oficiais destes regimentos no
hesitavam em comparar suas campanhas na frica s batalhas que aqueles
haviam travado na Europa5.
    Depois, influncias nacionalistas. As operaes de conquista eram conco-
mitantes com a ao reformista ou nacionalista das cidades. Mesmo que elas


4     A crnica da pacificao era feita mensalmente, desde 1898, na revista Afrique franaise, boletim do
      Comit da frica Francesa.
5     O general Guillaume escreveu, a propsito da conquista do Atlas Central: "Sua originalidade, no entanto,
      no chegava ao ponto de escapar aos grandes princpios da arte da guerra"; GUILLAUME, 1946, p.
      457.
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara                                         103



se desenrolassem longe das zonas urbanas, os habitantes citadinos seguiam avi-
damente as peripcias, para us-las imediatamente com objetivos ideolgicos.
Muitas vezes,  o militante citadino que incita o velho guerreiro das montanhas
a contar suas memrias.
    Pelas duas razes indicadas, os testemunhos que atualmente possumos no
podem revolucionar a narrativa colonial ou a verso nacionalista. Em compensa-
o, podem esclarec-las de maneira diferente, desde que ultrapassem o quadro
estritamente local.


    Os Estados do Maghreb e os europeus
    O surto colonialista do sculo XIX no Maghreb apresenta a particularidade
de ser uma continuao das cruzadas anteriores (ver figura 5.2).
    Havia quatro sculos que o governo marroquino se opunha aos espanhis
instalados em Ceuta e Melilla. Sempre proibiu  populao o menor contato
com eles. Foi para romper esse bloqueio que a Espanha desencadeou a guerra
de 1859-1860, to desastrosa para o Marrocos. Com efeito, este foi obrigado a
pagar forte indenizao, a concordar com a ampliao do entorno de Melilla,
a ceder na costa atlntica um porto que serviria de abrigo aos pescadores das
Canrias6. Com a aquisio da baa de Rio de Ouro, cuja ocupao foi notificada
em 26 de dezembro de 1884 s potncias signatrias do Ato de Berlim sobre a
partilha da frica em zonas de influncia, a Espanha possui no final do sculo
trs pontos de apoio no litoral do norte da frica.
    Em 1880 e 1881, quando se rene em duas sesses a conferncia de Madri
sobre a proteo individual ao Marrocos, o Makhzen fez uma ltima tentativa para
impor no plano internacional a sua independncia e soberania sobre um territrio
claramente delimitado. Apesar do apoio da Inglaterra, a tentativa malogrou, em face
da coalizo interessada da Frana, da Espanha e da Itlia. A Frana, que por um
momento acreditou ter perdido tudo no Marrocos, colocou imediatamente aps o
final daquela conferncia o problema de Tuat. Com efeito, falava-se em Paris, por
essa poca, do projeto de uma estrada de ferro transsaariana, que abriria ao comrcio
francs o centro da frica. Mas o projeto encontrou um grave obstculo: os osis do
Saara central dependiam politicamente do Marrocos. A Frana tentou conquistar



6    O acordo foi feito aps anos de discusso sobre o porto de Sidi Ifni, que entretanto somente ser ocupado
     em 1934.
                                                  104
                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935
figura 5.2   As campanhas europeias no Maghreb.
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara             105



a simpatia do sulto. Este, fortalecido com o apoio ingls, rejeitou o pedido dos
franceses, enquanto reforava a sua presena administrativa e poltica no Tuat.
    A leste do Maghreb, os tunisianos vinham combatendo h sculos os ita-
lianos como os marroquinos combatiam os espanhis. A Itlia unificada tinha
evidentes intenes sobre a regncia de Tnis: mandava para l imigrantes,
investia capitais e difundia a sua cultura. Mas o verdadeiro perigo que rondava
a Tunsia vinha da Frana, instalada na Arglia havia j meio sculo.
    O sulto de Constantinopla tinha aproveitado as suas desventuras na Arglia
para colocar a Tripolitnia e a Cirenaica sob a sua administrao direta e para
reconquistar a influncia poltica na Tunsia7. No h a menor dvida de que
havia um importante sentimento pr-otomano entre a elite da regncia de Tnis.
O bei, que via nisso um perigo para suas prerrogativas, julgou do seu interesse
apoiar-se alternadamente na Itlia e na Frana. Essa linha de conduta, mais
ou menos voluntria, foi-lhe fatal. Logo que o governo francs encontrou uma
situao diplomtica favorvel para atacar o pas, o bei se viu isolado tanto no
plano interno como no externo e foi coagido a subscrever, a 12 de maio de 1881,
um tratado que o punha sob o protetorado da Frana. Entretanto, as popula-
es do Sahel e da capital religiosa, Kairuan, revoltaram-se imediatamente, na
esperana de pronta interveno otomana. Foi ento organizada uma segunda
expedio francesa, que encontraria forte oposio nas regies montanhosas do
noroeste, do centro e do sul. Sfax e Gabes foram bombardeadas por unidades da
Marinha; Kairuan sustentou demorado cerco no outono de 1881; os territrios
do sul, prximos da Tripolitnia, conservaram-se por muito tempo como zona
de insegurana.
    A Itlia mantinha suas pretenses sobre o pas, mas os tunisianos no esta-
vam em condies de jogar essa cartada. Em compensao, permaneceram fiis
 soberania islmica, pois os laos com Constantinopla nunca foram totalmente
rompidos, o que constituiria um dos fundamentos do precoce nacionalismo
tunisiano.
    No cabe falar aqui da intensa atividade diplomtica que permitiu aos dife-
rentes Estados europeus determinar suas respectivas esferas de influncia. Esse
perodo preparatrio chegou ao fim com o acordo geral de abril de 1904 entre
a Frana e a Inglaterra. At essa data, cada potncia interessada no Maghreb
contentava-se com a apresentao de suas reivindicaes e, quando a ocasio se
oferecia, tomava caues territoriais.


7    Ver KURAN, 1970.
106                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Foi assim que o Marrocos sofreu, no final do reinado de Hasan I, a derrota
na guerra de 1893, que permitiu  Espanha consolidar suas conquistas de 1860
nas vizinhanas de Melilla. Sete anos depois, no final da regncia do vizir Ba
Ahmad, a Frana julgou ser o momento favorvel para acertar definitivamente
em seu benefcio o problema de Tuat. A pretexto de uma explorao cientfica,
forte expedio aproximou-se pouco a pouco dos cobiados osis e, em dezem-
bro de 1899, ela aparece diante de In Salah, exigindo a rendio imediata. O
alcaide do lugar, nomeado pelo sulto do Marrocos, cercado de soldados do
Makhzen e ajudado pelos xerifes locais, ops tenaz resistncia. Aps sangrentas
batalhas, como a de In Ghar, a 27 de dezembro de 1899, em que o desfecho no
deixava margem a dvidas dada a desproporo das foras em conflito, toda a
regio dos osis foi conquistada, travando-se o ltimo combate em Talmine, no
ms de maro de 1901. A Inglaterra e a Alemanha, alertadas pelo jovem sulto
Abd al-Aziz, aconselharam-no a aceitar o fato como consumado, o que ele fez
assinando, coagido, o protocolo de 20 de abril de 1902. No obstante, ele pro-
curou, em troca dessa grande concesso, determinar a linha de demarcao a sul
e a leste, entre o Marrocos, de um lado, e as possesses francesas, do outro; mas
sem resultado, pois  Frana convinha a impreciso, que lhe abria a perspectiva
de outras conquistas.
    A perda de Tuat foi uma das principais razes da desagregao da autoridade
do sulto, que foi aumentando at 1911. Os membros do Makhzen sabiam que a
Frana visava cercar o Marrocos para isol-lo e submet-lo; tambm sabiam que
a Inglaterra no se opunha mais aos desgnios da Frana. As reformas internas
que o Makhzen havia introduzido, para reforar o exrcito e a administrao,
no tinham surtido os resultados desejados. J no contava seno com a ajuda
diplomtica da Alemanha, que efetivamente sustentou a independncia marro-
quina at novembro de 1911, data em que assinou com a Frana um acordo pelo
qual deixava os franceses de mos livres no Marrocos, em troca de compensaes
na frica equatorial.
    De 1905 em diante, a Frana decidiu precipitar as coisas e ocupar o que se
chamava o bilad al-siba8. Tratava-se de regies desrticas, pobres e subpovoadas,
que o sulto, por esse motivo, fazia administrar pelos chefes locais, sem abandonar,
contudo, o direito de soberania. Ele era regularmente informado das tramoias
colonialistas e, quando a ameaa francesa se concretizou, enviou um represen-



8     A ideologia colonialista apresentava os bilad al-siba como territrios autnomos, onde a soberania do
      sulto era puramente nominal, no passando de uma influncia religiosa.
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara             107



tante oficialmente encarregado de dirigir a resistncia. Foi o que se passou na
regio de Kenadza e em Shinkit.
    Tendo-se recusado sempre a delimitar a fronteira com o Marrocos alm de
Figuig, a Frana perseguia uma poltica de abocanhar lentamente os territrios.
Remontando o vale do Saura, suas foras ocuparam pouco a pouco o territrio
entre os cursos de gua Gir e Zusfana, a pretexto de pr fim  desordem e 
insegurana e de permitir a expanso do comrcio fronteirio. O governo francs
props alis ao Makhzen dividir com ele a renda da alfndega e obteve satisfao
disso em maro de 1910.
    Mais ao sul, a Frana tinha imposto o seu protetorado aos emires de Trarza
e Brakna. Depois, em 1905, um especialista em assuntos muulmanos, Xavier
Coppolani, veio de Argel para inaugurar a sua poltica de "penetrao pacfica",
que consistia em entrar em contato direto com os chefes de "tribo" e de confraria
religiosa a fim de conquist-los para a influncia francesa. Encontrou pela frente
um adversrio  altura, o xeque Ma al-Aynayn, que por mais de trinta anos figu-
rou como representante do sulto do Marrocos. Alertado, Mulay Abd al-Aziz
enviou para l seu tio Mulay Idris, que deu nova vida s foras de resistncia.
Entretanto, o acampamento de Coppolani, instalado em Tidjikdja,  atacado
em abril de 1905, morrendo ali o apstolo da penetrao pacfica. A Frana,
aproveitando a crise interna que sacode o Marrocos, exige a retirada de Mulay
Idris e a obtm em janeiro de 1907, mas nem por isso cessa a resistncia. Uma
forte expedio comandada pelo coronel Gouraud dirige-se para o norte, mas
sofre grave revs em al-Muynam, a 16 de junho de 1908; no entanto, consegue
apoderar-se de Atar a 9 de janeiro de 1909. O xeque Ma al-Aynayn retira-se
com seus adeptos para al-Hamra, de onde as suas foras continuaram a perseguir
franceses e espanhis at 1933.
    Na mesma poca, a Espanha avana  sombra da Frana. Quando os fran-
ceses ocuparam Shinkit, os espanhis partiram da sua colnia de Rio de Ouro,
organizando em 1906 as tropas de interveno saarianas que penetraram trinta
quilmetros terra adentro. Ao norte, os espanhis esperam que os franceses
entrem em Wadjda, em 1907, para montar uma expedio de 45 mil homens,
a qual parte em setembro de 1909  conquista do Rif. Mas a populao local,
reanimada pelo chamado do xeque Ameriyan  djihad, oferece tenaz resistncia,
que s se extinguiu em 1926.
    Na outra extremidade do norte da frica, a Tripolitnia otomana sofreu um
ataque da Itlia em 1911 (ver figura 5.3). A revoluo dos Jovens Turcos tinha
enfraquecido muito o Estado otomano; a Itlia, entrementes, recebera sinal livre
da Inglaterra e da Frana e, em 28 de setembro de 1911, apresenta um ultimato
108                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



a Constantinopla, levantando a questo da incria otomana e da anarquia que
reina no pas; depois, sem prestar ateno  resposta conciliadora do governo
turco, desembarca tropas no ms de outubro em Trpoli, Benghazi, Homs e
Tobruk. As cidades so facilmente tomadas. Mas, logo que os italianos saem
delas, enfrentam encarniada resistncia. Vrias batalhas foram travadas nas
imediaes das cidades, sobretudo no dia 23 de outubro de 1911, em al-Hani,
perto de Trpoli. Os italianos sofreram l uma derrota humilhante, que os levou
a cometer atrocidades contra a populao de Trpoli9. Diante de Benghazi,
viram-se em dificuldades em Djuliana, al-Kuwayfiya e al-Hawwari, no dia 28
de novembro de 1911. Batidos, tiveram de recuar para a cidade. Em al-Khums,
para garantir o controle da posio estratgica de al-Markib, as foras italianas
e turco-rabes combateram cruentamente desde 23 de outubro de 1911 at 2
de maio de 1912, data em que os italianos conseguiram expulsar os defensores10.
    Em Derna, a pequena guarnio turca retirou-se para as montanhas que
dominam a cidade, de onde passou a fustigar os italianos com a ajuda da popula-
o autctone. A resistncia de Derna viria a ser reforada com a chegada de um
grupo de oficiais turcos, comandado por Anwar Pax (Enver) e Mustafa Kamal
(o futuro Kamal Ataturk). Com a ajuda de Ahmad al-Sharif, chefe espiritual
dos Sanusiyya (ver figura 5.4), Anwar e suas tropas conseguiram mobilizar os
rabes do interior e reunir um exrcito considervel.
    Anwar lanou este exrcito por duas vezes contra os italianos, em al-Karkaf
e em Sidi Abdallah, nos dias 8 de outubro de 1912 e 3 de maro de 191211. Em
Tobruk, rabes e italianos se enfrentaram por duas vezes, a 3 de maro de 1912,
em al-Nadura, e a 17 de julho do mesmo ano, em al-Mudawwar, onde o general
Salsa, comandante das tropas italianas, encontrou a morte12.  difcil enumerar
em resumo to sucinto todas as batalhas disputadas na Lbia contra os italianos;
basta indicar que houve confrontos em todas as cidades e aglomeraes, nas
periferias urbanas e em todos os vales. Essa brava resistncia explica o fato de
os italianos pouco terem progredido fora das cinco cidades que tomaram nos
seis primeiros meses da guerra.
    Desde o final de 1911, verificava-se entre numerosos italianos uma certa
decepo com o prolongamento da guerra na Lbia. Para obrigar a Turquia a


9     MALTESE, 1968, p. 210-24.
10    AL-TILLISI, 1973, p. 463-7. As passagens deste captulo relativas  atual Jamahiriya rabe-Lbia Popu-
      lar e Socialista esto inspiradas nos trabalhos de I. El-Hareir e Jan Vansina (N. do coord. do vol.).
11    Ibid., p. 27.
12    Ibid., p. 344-6.
                                                                                           Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara
                                                                                           109
figura 5.3   A Tripolitnia otomana, Sirte e a Cirenaica. (Fonte: Wright, 1969, p. 180.)
110                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 5.4 Sayyid Ahmad al-Sharif al-Sanusi, chefe espiritual dos Sanusiyya. (Fonte: Biblioteca Central da
Universidade de Kar Yunis, Benghazi  Jamahiriya rabe-Lbia Popular e Socialista.)
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara                             111



sair da Lbia, o governo italiano atacou os Estreitos, as ilhas do Dodecaneso e os
Dardanelos. A nova ofensiva italiana dentro do corao do Imprio Turco acar-
retava uma ameaa para a paz mundial e o despertar da "questo do Oriente",
coisa que nenhuma potncia desejava em razo das complicaes previsveis.
As principais potncias europeias fizeram ento presso sobre a Turquia e a
Itlia para que ambas chegassem a uma soluo pacfica, incitando  para no
dizer forando  a Turquia a assinar com a Itlia o acordo de Lausanne, de 18
de outubro de 1912. Nos termos desse tratado, a Turquia declarava conceder
a independncia ao povo lbio, o que lhe permitia salvar a face aos olhos do
mundo islmico, e a Itlia se comprometia por sua vez a desocupar as guas
territoriais turcas13.
    As reaes dos lbios  notcia do tratado, sobre o qual no tinham sido con-
sultados, foram brandas. Houve quem quisesse negociar com a Itlia, enquanto
outros queriam combater at o fim. A populao da Cirenaica, arrastada por seu
chefe espiritual Ahmad al-Sharif, pendia mais para a negociao.
    Aproveitando a evacuao da Lbia pelos turcos, os italianos lanaram um
ataque contra as foras de Ahmad al-Sharif ao sul de Derna, mas sofreram uma
derrota estrondosa em Yawn al-Djuma no dia 16 de maio de 191314. Esta data
 importante, pois foi o primeiro embate de envergadura entre os rabes e os
italianos aps a remoo das tropas turcas. Apoiado no decreto do sulto turco
que deferia a independncia aos lbios, Ahmad al-Sharif proclamou a forma-
o de um governo denominado "Al-Hukuma al-Sanusiyya", ou seja, governo
Sanusi15.
    Na Tripolitnia, os italianos lanaram uma ofensiva anloga contra as prin-
cipais foras das montanhas orientais e bateram os lbios em Djanduba a 23 de
maro de 1913, abrindo desse modo o acesso a Fezzan. Um corpo expedicion-
rio italiano, comandado pelo coronel Miani, conseguiu bater os lbios em trs
ocasies sucessivas e ocupar Sabha em fevereiro de 193616.
    At as vsperas da Primeira Guerra Mundial, a resistncia no norte da
frica17  obra de um Estado organizado. Fazendo frente s foras invasoras,
levantam-se contingentes de soldados regulares, ainda que em nmero inferior


13   AL-ZAWI, 1973, p. 140-56.
14   AL-TILLISI, 1973, p. 321-2.
15   Documentos de Ahmad al-Sharif, da Universidade de Kar Yunis, Benghazi, Jamahiriya rabe-Lbia
     Popular e Socialista.
16 AL-TILLISI, 1973, p. 46-7.
17   Sobre a resistncia dos lbios durante a Primeira Guerra Mundial, ver o captulo 12.
112                                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



ao dos combatentes das tribos. Quando o Estado se v obrigado a curvar-se
ante o "fato consumado", em vista da desigualdade das foras, delega implici-
tamente a obrigao da resistncia a um chefe de confraria, que jamais rompe
relaes com o chefe poltico da comunidade muulmana18. Nesta primeira fase,
portanto, trata-se de uma guerra poltica travada explicitamente em nome da
soberania islmica.
    Em 1914, a resistncia organizada por uma autoridade poltica autctone cen-
tralizada chegara ao fim, salvo na Lbia; mas a situao originada pela Primeira
Guerra Mundial impediu as potncias coloniais de passar  fase de ocupao
efetiva. Franceses, espanhis e italianos queriam apenas manter as conquistas.
No obstante, sofreram graves reveses, o que levou o general Lyautey, residente
da Frana no Marrocos, a afirmar: "quem no avanar, recua". Alemes e turcos
apelavam aos habitantes do Maghreb para que sacudissem o jugo colonial; lde-
res pan-islamistas, como o tunisiano Bach Hamba e o marroquino al-Attabi,
foram recebidos em Berlim e participaram de viagens de propaganda aos pases
neutros; emissrios foram enviados ao Rif e  regio do Uadi Nun; pelo porto
de Misurata, armas foram encaminhadas aos resistentes tripolitanos. No h
dvida alguma de que parte da populao achava que os colonizadores podiam
ser lanados ao mar. A fragilidade da ocupao nos territrios conquistados logo
antes da guerra est demonstrada pelo extremo nervosismo dos procnsules da
poca e pelo "liberalismo" que se viram obrigados a ostentar. Lyautey chegou a
se comportar como um simples ministro das Relaes Exteriores do sulto do
Marrocos.
    Este perodo de expectativa terminou em 1921. Na Tripolitnia, o novo
cnsul, Volpi, arrastado pela vaga nacionalista que levaria Mussolini  marcha
sobre Roma, ps fim a uma poltica pretensamente liberal, denunciando todos os
acordos anteriores, concludos durante e depois da Primeira Guerra Mundial. A
esta iniciativa seguiram-se vrias incurses com vistas a uma "reconquista". Um
exrcito importante, comandado pelo general Graziani, marchou sobre Gharyan,
capital da Tripolitnia, que caiu a 7 de novembro de 1922. Outro exrcito ata-
cou Misurata, que foi tomada em 20 de fevereiro de 192319. O Comit Central
da Repblica Unida, criado em janeiro de 192220, dilacerado pelas dissenses


18    Note-se que a situao dos dois sultes, marroquino e otomano, s  comparvel at 1919, data em que o
      sulto de Constantinopla renuncia  soberania sobre vrios territrios rabes. Alis, o califado otomano
      foi abolido em 1925.
19    AL-TILLISI, 1973, p. 63-76; ver igualmente GRAZIANI, p. 98-104, 161-71 e 339-67.
20    Ver o captulo 12.
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara             113



internas e pela guerra civil entre Misurata e Warfallah, de um lado, e os rabes
e berberes das montanhas ocidentais, de outro, no chegou a mobilizar foras
suficientes para deter os italianos. Acabou por se dissolver e seus membros
fugiram do pas para o Egito, o Sudo e a Tunsia.
    Para agravar mais a situao, em 21 de dezembro de 1922 Amir Idris
al-Sanusi, chefe espiritual e comandante supremo da Unio, partiu para um
exlio voluntrio no Egito. Esta brusca e inexplicvel deciso, que ainda hoje
divide os historiadores, desmoralizou completamente a populao e levou mui-
tos combatentes a abandonar o pas ou a se entregar aos italianos. Antes da
partida, contudo, al-Sanusi havia designado seu irmo al-Rida para represent-lo
e confiado a Umar al-Mukhtar o comando das foras nacionais das Montanhas
Verdes. Foi sob a direo deste e graas  eficcia da sua guerrilha que a resis-
tncia pde prosseguir at 1931. Umar al-Mukhtar, tendo dividido suas foras
em trs colunas mveis (adwar), instalou-se na regio montanhosa ao sul de
al-Mardj, em Jardas. Todos os ataques lanados contra ele no vero de 1923
foram repelidos, e o exrcito enviado contra o seu acampamento, no ms de
maro, acabou destroado.
    A Tripolitnia foi a primeira a cair. Desde junho de 1924, todas as terras
de cultura estavam ocupadas. Mas os italianos, cnscios de que a posio deles
continuaria precria enquanto no dominassem o deserto, lanaram-se a uma
longa campanha, decididos a obter o controle do deserto e, afinal, de Fezzan.
A campanha no teve sucesso, apesar do emprego de avies bombardeiros e de
gases venenosos. Vrios ataques italianos foram detidos. Em 1928, os lbios ainda
bloqueavam o grosso das foras italianas em Faqhrift, ao sul de Surt. Mas, entre
o fim de 1929 e comeos de 1930, Fezzan foi finalmente ocupada e a resistncia
lbia entrou em colapso a oeste e no sul.
    Entrementes, a resistncia continuava ativa na Cirenaica, infligindo srios
reveses aos italianos. Quando os fascistas se mostraram incapazes de pr termo
 ao revolucionria de Umar al-Mukhtar (ver figura 5.5) na Cirenaica, com
ofensivas militares diretas, recorreram a certas medidas sem precedentes na
histria das guerras coloniais africanas. Comearam por construir uma cerca
de arame com 300 quilmetros de comprimento ao longo da fronteira entre
Trpoli e o Egito, para impedir qualquer ajuda proveniente do territrio egp-
cio. Em seguida, recebendo cada vez mais reforos, ocuparam os osis de Djalo,
Djaghabub e Kufra, a fim de cercar e isolar os combatentes da Cirenaica. Por
fim, evacuaram todas as populaes rurais da Cirenaica e as deportaram para o
deserto de Sirt, onde foram encerradas em campos de concentrao. Esta ltima
medida visava privar as foras de al-Mukhtar de toda ajuda da populao local.
114                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935



Outras prises de massa e outros campos de concentrao foram instalados em
al-Makrun, Suluk, al-Aghayla e al-Barayka. As condies da recluso eram to
ms que se calcula em mais de 100 mil o nmero de pessoas que a morreram
de fome e doenas, sem falar dos rebanhos confiscados. Somente no campo
de al-Barayka teria havido, segundo estatsticas dos prprios italianos, 30 mil
mortos entre 1930 e 1932, para um total de 80 mil prisioneiros21.
    Essas medidas repressivas no conseguiram abafar a revolta e os combatentes
adotaram a ttica da flagelao. Mais uma vez os italianos propuseram negocia-
es com al-Mukhtar. Decorreu ento uma srie de encontros, principalmente
nas imediaes de al-Mardj, a 19 de julho de 1929, na presena do governador
Badoglio. Nessa ocasio, os italianos tentaram em vo subornar al-Mukhtar, que
reafirmou a inteno de libertar o seu pas22. Mais tarde, quando al-Mukhtar
percebeu que os italianos estavam procurando suscitar a diviso entre os seus
seguidores para chegar aonde queriam, rompeu as negociaes e retomou as
atividades de guerrilha, multiplicando obstculos, ataques de surpresa, embos-
cadas e incurses em todo o territrio. Nos 21 meses que precederam a sua
captura, houve 277 entrechoques com os italianos, como o prprio Graziani
reconheceu23. Mas, em setembro de 1931, al-Mukhtar foi capturado e remetido
para Benghazi. Julgado por um tribunal militar, foi executado na presena de
milhares de lbios, em Suluq, a 16 de setembro de 1931.
    Depois da priso de al-Mukhtar, seus fiis elegeram chefe o adjunto dele,
Yusuf Abu Rahil, que prosseguiu a luta por mais seis meses, decidindo ento
depor as armas e refugiar-se no Egito. Morreu, porm, ao tentar a travessia da
fronteira. Em 24 de janeiro de 1932, Badoglio anuncia que a Lbia estava con-
quistada e ocupada, chegando, pois, a uma concluso mais ou menos inevitvel
a mais prolongada guerra de resistncia ao imperialismo europeu. Relembremos
somente que, no mesmo momento, o norte do Marrocos era teatro de uma
guerra tambm feroz e de uma resistncia igualmente heroica24.
    At 1931, vastas regies do Atlas e do Saara, consideradas desinteressantes
do ponto de vista econmico, viviam livres de todo controle colonial. L se
refugiava quem no queria se entregar ao exrcito francs ou espanhol. Nem
por isso os habitantes viviam totalmente isolados, pois mantinham contato com
as reas subjugadas, cujos mercados e dispensrios frequentavam. Era a poca


21    AL-ASHHAB, 1947, p. 482.
22    EL-HAREIR, 1981.
23    GRAZIANI, 1980, p. 296.
24    A guerra do Rif  tratada no captulo 24 deste volume.
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara                                     115




figura 5.5 Umar al-Mukhtar, um dos chefes da resistncia Sanusi  colonizao italiana, at a sua execuo
em 1931. (Fonte: Biblioteca Central da Universidade de Kar Yunis, Benghazi, Jamahiriya rabe-Lbia Popular
e Socialista.)
116                                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



da penetrao pacfica, da poltica de contatos, poca ambgua da qual devemos
abster-nos de extrair concluses gerais.
    Em 1931 ocorreu uma alterao na poltica colonial francesa. Preocupado
ao ver a Alemanha reconstituir as suas foras, o ministro francs da Guerra,
Messimy, imps o ano de 1935 como data-limite para terminar as operaes de
conquista e ocupao. O exrcito da frica recebe todos os meios necessrios
e tomam-se todas as medidas para coordenar as operaes com os espanhis,
coisa facilitada com a instaurao da repblica em Madri. E, assim, todos os
anos, na primavera, montava-se uma expedio para subjugar um dos "pontos
de dissidncia" .
    Para melhor compreender o que se ia passar, cumpre ter presente que: a con-
quista se realiza em nome do sulto25, o exrcito de pacificao  na sua maioria
autctone, o contrabando acabou h muito tempo, a poltica de contatos permi-
tiu s autoridades coloniais conhecer as contradies das comunidades cercadas
desde muito, cada comunidade compreendia indgenas e refugiados, vindos s
vezes de muito longe; e, sobretudo, h que indagar: em nome de quem se deve
lutar at a morte? Em nome de costumes que o colonizador estava manifesta-
mente disposto a manter e a consolidar?
    Apesar disso, no entanto, a conquista no foi fcil em parte alguma26. O
Mdio Atlas foi submetido em duas campanhas, em 1931 e 1932; de 12 de
julho a 16 de setembro deste ltimo ano, desenrola-se a sangrenta batalha de
Tazikzaut. O exrcito francs logrou cercar 3 mil famlias que fugiam do invasor
desde 1922. A batalha durou de 22 de agosto a 11 de setembro. Nem os inten-
sos bombardeios nem o bloqueio conseguiram extinguir a resistncia animada
por al-Wakki Amhouch e irmos. Era preciso limpar os abrigos com granadas.
Depois da batalha, foram contadas 500 vtimas entre os marroquinos. Essa
batalha tornou evidentes os limites da poltica de contatos com as tribos. Em
1933, outra batalha sangrenta se travou em torno de Djabal Saghru: a de Bu
Ghafir, que durou de 13 de fevereiro a 25 de maro (ver figura 5.6). Em 1934,
os ltimos resistentes foram cercados no Anti-Atlas. Depois disso, os franceses
entraram finalmente em Tinduf, no ms de maro. Uma semana mais tarde, a 6
de abril de 1934, os espanhis tomaram enfim posse de Sidi Ifni.
    Nos anos de 1930 e 1931, quando as potncias colonialistas podiam razoavel-
mente pensar que a conquista chegava ao fim, os chefes italianos falavam de Pax


25    "Foram assim necessrios 22 anos de esforos contnuos para penetrar no corao da montanha berbere,
      submeter  obedincia do soberano marroquino os ltimos rebeldes"; GUILLAUME, 1946, p. 456.
26    "Nenhuma tribo veio at ns sem ter sido antes vencida"; ibid., p. 9.
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara                                     117




figura 5.6 Amghar Hassu u Basallam, dos Ilemchan (Ait Atta do Saara), chefe dos combatentes da resistncia
de Bu Ghafir (Saghru), na Arglia, em 1933. (Fonte: SPILLMAN, 1968.)
118                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



Romana e os franceses celebravam com pompa o centenrio da tomada de Argel
e o cinquentenrio do protetorado sobre a Tunsia. As ideologias da colonizao
viam no fato a vingana de Roma sobre o Isl, do Ocidente sobre o Oriente.
Mas, nessa data, o nacionalismo, j implantado nas cidades, preparava-se para
alcanar as zonas rurais. Para os interessados, as ltimas batalhas marcavam menos
o fim de uma poca do que o sinal da rejeio de toda submisso voluntria27.


      Etapas da resistncia
    Desta forma,  possvel distinguir duas fases dentro da resistncia maghrebiana
ao avano colonial: a primeira de 1880 a cerca de 1912, a segunda de 1921 a 1935
 o perodo intermedirio correspondendo  situao ambgua da Primeira Guerra
Mundial. Consideremos agora, alm da crnica militar e dos testemunhos sub-
jetivos, algumas questes capazes de abrir caminho  reflexo e  pesquisa.
    No decurso da primeira fase, as campanhas seguiam sempre um cenrio
que a Frana desenvolveu na conquista da Arglia e que a Espanha e a Itlia
retomaram. Antes da invaso do territrio cobiado, a potncia colonialista
procurava cuidadosamente obter a concordncia dos concorrentes, quer por uma
conveno bilateral, quer  margem de uma conferncia internacional28. Obtida
a concordncia, a conquista obedecia s seguintes etapas:
          1.   Cria-se um incidente que justifique a interveno: da o tema clssico das razias
               e dos grupos de pilhagem (o caso dos Krumirs na fronteira tunsio-argelina ficou
               famoso). Assim o Tidikelt foi anexado, a pretexto de que servia de refgio a
               Bu Chucha, que combateu os franceses de 1869 a 1874; o Gurara porque
               Kaddur b. Hamza encontrou a ajuda e assistncia durante a sua luta, de
               1872 a 1879; e Shinkit porque os mouros atravessavam muitas vezes o rio
               Senegal29.
          2.   As objees das potncias e do sulto, soberano do territrio cobiado, eram
               anuladas sublinhando a incria administrativa e a insegurana reinantes no
               territrio em questo.


27     um ponto fundamental do Isl modernista. A submisso total a Deus, que  o significado da palavra
      isl em rabe, implica a no submisso a qualquer outro exceto a Deus.
28    A Frana recebeu carta branca na Tunsia nos corredores do Congresso de Berlim, em 1878, e no Marrocos
      depois da Conferncia de Algeciras, em 1906.
29    No sudoeste do Marrocos, os franceses se queixavam incesssantemente das depredaes dos Ulad Dzarir
      e Dawi Maniya. Foi o pretexto para a tomada de Bechar, a que foi dado o nome, para enganar a prpria
      opinio pblica francesa, de Colomb.
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara                                        119



         3.     Na primeira oportunidade, tomam-se como garantia certos territrios; por
                exemplo, durante um perodo de tenso internacional ou de mudana de
                reinado [...] Foi assim que a Frana ocupou de maneira imprevista In Salah,
                em janeiro de 1900. A populao pede ajuda, o sulto do Marrocos protesta,
                a Frana se recusa a discutir, argumentando que a incapacidade de manter
                a ordem e a segurana equivale  perda da soberania30. Quando a sobera-
                nia  incontestvel, como em Wudjida e Casablanca, ocupadas respectiva-
                mente em maro e agosto de 1907, os franceses subordinam a evacuao
                de suas foras  restaurao da ordem, que a sua prpria presena tornava
                impossvel.
         4.     Atravs de uma srie de presses e de promessas, obtm-se uma delegao
                de soberania (tafwid), a qual legaliza a ocupao. Tal  o sentido dos tratados
                de protetorado.
         5.     A etapa seguinte era a verdadeira conquista, conhecida de maneira tipica-
                mente eurocentrista como pacificao. O seu ritmo dependia somente da
                ordem de prioridades estabelecida pelo Estado colonialista.
   Conforme j salientamos, a primeira fase se caracteriza por uma atividade
poltica e diplomtica que a torna parte integrante da histria internacional, pelo
que no coloca ao historiador problemas inditos.
   No  esse o caso da segunda etapa, a da conquista total ou da pretensa
pacificao. A resistncia das cidades e das plancies, por razes evidentes, era
sempre breve. As montanhas, julgadas de comeo improdutivas31, so cercadas
por um cinturo de segurana destinado a ser apertado cada vez mais com o
passar dos anos; as zonas desrticas so vigiadas a partir de pontos de apoio na
costa atlntica32.  uma poltica imposta  autoridade colonialista pela fora das
coisas, j que exprime uma realidade ecolgica e sociopoltica33.  importante
abarcar a realidade desta situao, que at agora foi ocultada pelas deformaes
ideolgicas da historiografia colonialista. No atual estado da pesquisa, tudo o que
podemos fazer  levantar algumas questes que nos parecem pertinentes:


30   A Frana, entretanto, insistia em que o sulto reconhecesse o fato como consumado.
31   Antes que a se descobrissem os indcios de uma riqueza mineral, como no Rif. Foi essa a razo que levou
     os espanhis a apressar as operaes de conquista.
32   Da o papel delegado ao Rakibat pelos franceses e pelos espanhis, porque a vida nmade deles os levava
     de Adrar ao Anti-Atlas e a Hammada Dar`a.
33 Os chefes coloniais estavam conscientes do fato e faziam questo de parecer que eram os continuadores
   de quem os tinha antecedido. O general Guillaume, depois de ter descrito as operaes de pacificao
   no Mdio Atlas Central, d em anexo a narrativa das batalhas do grande soberano marroquino Mulay
   Ismail (1672-1727) na mesma regio.
120                                                         frica sob dominao colonial, 1880-1935



         1.   Por que motivo era necessrio obter um tratado formal do sulto do Marrocos
              ou de Constantinopla para legalizar a conquista e transform-la em simples
              "pacificao"?
         2.   Por que as populaes foram tomadas de surpresa a cada ataque
              colonialista?
         3.   Por que estava o exrcito magherebinizado a tal ponto que se pode dizer
              que era europeu de comando e indgena de recrutamento?
         4.   Por que havia diviso no movimento de resistncia, impossvel de superar
              mesmo nos momentos de maior perigo?
   Essas questes, alm de outras, ajudam a compreender a reao das popula-
es durante a fase dita de pacificao.

      Malogro das iniciativas e da resistncia africanas
    Em 1935, todo o Maghreb havia portanto cado sob o poder do imperialismo
francs, do espanhol e do italiano, apesar da firme vontade que a populao
tinha de defender seu territrio e sua maneira de viver e apesar da encarniada
resistncia. Resta saber por que malogrou essa resistncia.
    Ao contrrio do que seria de acreditar, as condies demogrficas, ecolgicas e
econmicas foram quase sempre desfavorveis aos resistentes do norte da frica.
    Sabe-se hoje que no sculo XIX se superestimava a populao do norte da
frica. Os homens com idade de pegar em armas eram poucos e s estavam
disponveis por breves perodos, devido s exigncias da agricultura e da criao
de gado  o que deixava as iniciativas em mos do adversrio. O Tidikelt foi
conquistado por uma coluna de mil homens e a sua populao no passava de
20 mil. No entrechoque de Tit, a 7 de maio de 1902, que consagrou a derrota
dos Tawarik do Ahaggar, estes eram 300 contra 130, mas era o mximo que
podiam reunir e a morte de 93 deles foi uma sangria da qual no se recuperaram
com facilidade. As regies montanhosas, que se diziam superpovoadas, estavam
em pouco melhores condies: em todos os recontros decisivos, o nmero dos
assaltantes sobrepujava o de assaltados. Os rifenhos foram atacados por 300
mil soldados franceses  sem contar os espanhis , quantidade equivalente
 populao total do norte do Marrocos; os resistentes do Mdio Atlas, cujo
nmero nunca foi alm de 10 mil, mulheres e crianas includas, fizeram frente
a um exrcito de 80 mil homens; no Djabal Saghuru, 7 mil combatentes sofrem
o assalto de 34 mil homens apetrechados com o mais moderno armamento34.


34    GAUTIER, 1910, p. 12 e 129; GUILLAUME, 1946, p. 114 e 414; AYACHE, 1956, p. 332.
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara             121



As tropas colonialistas, claro, no so todas combatentes, mas  inegvel que a
vantagem, no simples plano quantitativo, est sempre do lado do exrcito colo-
nial, que quer infundir "nos indgenas terror e desencorajamento"35.
    Fala-se muito da mobilidade dos combatentes autctones e do seu conheci-
mento do terreno, mas isso eram vantagens tticas, que valiam cada vez menos
 medida que a guerra prosseguia. A faanha de Tidjikdja, em junho de 1905
 em que o apstolo da penetrao pacfica, Xavier Coppolani, foi morto , que
retardou a conquista de Adrar at 1909; a batalha de Kasiba, que durou de 8
a 10 de junho de 1913, em que as tropas francesas tiveram 100 mortos e 140
feridos; aquela ainda mais sangrenta, de al-Hari, travada em 13 de novembro
de 1914, em que elas deixam no terreno 510 mortos e 176 feridos; a de Anual,
que decorreu de 22 a 26 de julho de 1921, em que os espanhis contaram 15
mil mortos e 700 prisioneiros, perdendo 20 mil carabinas, 400 metralhadoras e
150 canhes  todos esses heroicos feitos de armas, que demonstram um admi-
rvel conhecimento do terreno e em que a mobilidade e a rudeza do combate
jogaram papel decisivo, detiveram o avano colonial durante alguns anos, mas
no conseguiram reconquistar os territrios perdidos. De fato, nem saarianos
nem montanheses tm possibilidade de abandonar por muito tempo o trabalho
de agricultura e de pecuria, permitindo ao invasor lanar contra eles uma ver-
dadeira guerra econmica. Durante a campanha de Adrar, em 1909, os soldados
franceses ocuparam o osis na poca da colheita das tmaras e esperaram que
a fome obrigasse os homens a vir submeter-se, embora momentaneamente.
Nas reas de transumncia, fecharam o acesso s pastagens de inverno e con-
taram com o frio e a fome para obrigar os habitantes a um acordo. Quando
comeam as operaes,  imposto um bloqueio geral, como foi o caso contra
os Zayyan em 1917-1918 e contra os rifenhos em 1925-1926; em 1928-1929,
como ficou demonstrado antes, os italianos deportaram para o norte a populao
da Cirenaica, concentrando-a em campos cercados de arame farpado. Uma das
consequncias da fome lancinante provocada por esta poltica, mais difcil de
suportar para o gado do que para os homens, foi o fato de o exrcito colonialista
ter encontrado voluntrios imediatamente aps o fim das operaes.
    O grande trunfo dos combatentes  a mobilidade  logo se torna coisa muito
relativa. A partir de 1901, o exrcito francs comeou a usar camelos de corrida,
a tal ponto que j se disse que a conquista do Saara foi obra dos cameleiros
Sha'amba36. Por outro lado, a estrada de ferro precede a conquista quase por toda

35   BERNARD e LACROIX, 1921, p. 332.
36   Os Sha'amba so nmades do Tell argelino.
122                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



parte: atinge Ayn Sifra em 1887, Bechar em 1905, Ziz em 1930. Em 1915, come-
am a circular os primeiros veculos automotores, e os caminhes Epinat37 rasgam
as estradas do Atlas antecipando as campanhas de 1931-1933. Finalmente, o avio
passou a ser empregado desde 1920 para fotografias areas, durante a preparao
das campanhas e as operaes, para desmoralizar os habitantes38 (ver figura 5.7).
    Chegamos assim ao problema do armamento que, no sendo fabricado no
local, tinha de ser capturado ao inimigo. A Frana sempre fez do contrabando de
armas no Maghreb um problema internacional, acusando a Alemanha e a Turquia
de alimentar  bem como a Espanha e a Inglaterra de tolerar  o trfico de armas
nas costas do Rif e do Saara atlntico, no que se refere ao Marrocos, e, atravs dos
osis da Lbia, na Tunsia e no Saara central.  certo que o trfico sempre existiu,
mas tambm no resta a menor dvida de que as prprias autoridades francesas
reconheciam no ter praticamente encontrado armas alems no Mdio Atlas
nem no Anti-Atlas. Cada "tribo" importante obrigada a submeter-se entregava
seus fuzis aos vizinhos ainda livres, de tal maneira que s no final das operaes,
em maro de 1934, os franceses recuperaram grande quantidade de fuzis  25
mil. Convm lembrar que estas armas se tornam inteis com a falta de munies
e, sobretudo, que elas so de duvidosa eficcia contra avies, artilharia pesada de
longo alcance e blindados, que os exrcitos invasores possuem desde a Primeira
Guerra Mundial  o que leva os generais franceses a comentar que as campanhas
de pacificao de 1931-1934 so "manobras reais em que o inimigo est vivo"39.
    Outro elemento desfavorvel  de ordem poltica e ideolgica. Os habitantes
do Maghreb e do Saara so todos muulmanos e o Isl dita regras estritas para as
guerras populares. Ao contrrio da ideia que corre no Ocidente, a djihad, tal como
 entendida nos ltimos sculos,  defensiva, isto , o servio militar e as contribui-
es da decorrentes s so obrigatrios para todos se o pas  vtima de agresso;
se se trata de uma guerra ofensiva, coisa que h sculos no ocorre na frica do
norte, as contribuies e o servio so apenas voluntrios. Nas condies do sculo
XIX, isso deixa a iniciativa militar ao invasor. A defesa do territrio fazia tradicio-
nalmente parte das clusulas da bay'a (contrato de investidura do soberano). Em
caso de ataque, os muulmanos devem tratar de se organizar imediatamente ou
esperar as instrues do sulto? A questo foi longamente debatida pelos doutores


37    Nome de uma autoridade francesa estabelecida em Marrakech e interessado nas minas.
38    De fato, a Itlia foi a primeira a empregar a aviao em uma guerra colonial, em 1911. Nas campanhas
      de 1921-1926, a aviao, sob o comando do futuro marechal Badoglio, desempenhou papel decisivo nas
      derrotas dos resistentes na Tripolitnia e no Fezzan.
39    GUILLAUME, 1946, p. 398.
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara                                   123



da lei e a opinio prevalecente foi a de deixar a responsabilidade ao soberano, para
impedir a demagogia e a corrupo poltica. Foi por isso que, quando os soldados
franceses ou espanhis apareciam numa rea, como em Tuat em 1864 e 1890, ou
em Tarfaya em 1885, os habitantes enviavam uma delegao ao sulto e depois
aguardavam suas ordens. A responsabilidade era, portanto, deixada ao soberano,
que se encontrava num dilema: se se desinteressasse pelo caso, punha em risco
a legitimidade de sua autoridade e, se respondesse favoravelmente ao memorial,
as potncias o considerariam responsvel por todos os incidentes que sobrevies-
sem. Regra geral, aconselhava calma, delegava um alcaide para a manuteno da
ordem e fazia os interessados esperarem, alegando que o problema estava em vias
de soluo diplomtica, no que muitos do local queriam justamente acreditar40.
Tocamos aqui o n do problema. Quando o sulto falhava41 e um chefe religioso
ou profano achava que lhe cabia hastear a bandeira da djihad em seu lugar, mas
sem a sua bno, era certo no conseguir unanimidade  sua volta. Nesse caso, a
potncia colonial podia jogar com todo o tipo de rivalidades e de oposies.
    No contexto de uma sociedade que efetivamente se tornara acfala, o exr-
cito colonialista facilmente tirava proveito das "oposies segmentares". Para
compreender bem o mecanismo, deve-se lembrar que a administrao do sulto
era normalmente indireta, confiada aos chefes locais  telogos muulmanos,
xeques. Quando o sulto era incapaz de comandar ele mesmo a resistncia, cada
qual pensava em resguardar seus privilgios, em "pegar o trem", como diz um
especialista dos assuntos indgenas42. A Frana encontrou facilmente ajuda para
conquistar Tuat junto do xerife de Wazzan, que s podia fazer ziyara (coletas)
entre os seus adeptos da Arglia com a autorizao do governador francs; em
Shinkit junto dos xeques Sidiya e Sa'd Buh; em Tafilalet junto do chefe da
zawiya nasiriyya; enfim, no Rif junto do chefe dos Darkawa. Na Tripolitnia, os
italianos ganharam para a sua causa os Ibaditas do Djabal Nafusa, que se opu-
nham  maioria sunita do pas. Onde quer que um grande alcaide tenha consti-
tudo um principado, as autoridades coloniais esperam que haja concorrncia na
sucesso e ento propem apoio alternativamente a cada pretendente. Foi o que
se passou com os Trarza entre 1901 e 1904 e com os Zayyan entre 1917 e 1919.
No se deve exagerar, porm, o impacto dessa "poltica indgena". Cada vez que
um chefe se inclina para o lado dos franceses, perde imediatamente o prestgio


40   A situao do sulto de Constantinopla no sculo XIX era pouco diferente.
41   Por vezes conseguiu retardar a conquista, como em Tuat em 1890, ou recuperar uma rea como Tarfaya,
     que os ingleses abandonaram em 1898.
42   ]USTINARD, 1951, p. 105.
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figura 5.7   Guerra do Rif no Marrocos: avio de observao deixa instrues para ajustes de artilharia. (Fonte: Harlingue-Viollet.)
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara                                    125



e j no tem a menor utilidade, de tal forma que, com o tempo, as autoridades
j no procuravam as submisses pblicas.
    A tendncia dos chefes de zawiya e dos grandes alcaides para o acordo e o
jogo duplo, portanto, no decorria tanto das divises e oposies tribais como do
desaparecimento do poder poltico supremo, cujas sucessivas derrotas puseram
a nu a fraqueza militar.
    A crnica nos guardou os nomes de umas trs dezenas de chefes que dirigiram
a resistncia contra franceses, espanhis e italianos durante o perodo 1900-1935.
Deixamos de lado Muhammad Ibn Abd al-Karim e Abd al-Malik43. Quanto aos
outros, a anlise os divide em dois grupos bem distintos, independentemente do
seu xito ou do seu malogro.
    Uns esto em contato constante com o sulto, servindo-o e apelando para ele
quando o perigo colonial se delineia; os outros agem sob a influncia da djema'a
local. Os primeiros tm um horizonte mais largo, mas so prejudicados pela
fraqueza militar do sulto; os segundos mostram mais tenacidade na ao, mas
a influncia deles no passa dos estreitos limites do seu comando.
    O xeque Ma al-Aynayn e seus filhos Hassana e al-Akda, que dirigiam a resis-
tncia em Shinkit; seus outros filhos, al-Hiba, Murabbih Rabbuh e al-Ni mat,
que recuaram perante o avano francs de Marrakech em 1912, em Tiznit em
1917, depois em Kerdus e Widjdjan em 1934; os grandes chefes Azaghar Muha
U Sa'id e Muha U Hammu, que bloquearam a passagem dos franceses para o
Atlas at 1922, foram os principais apoios de Mulay Abd al-Hafiz quando este
se sublevou contra seu irmo Mulay Abd al-Aziz, tentando restaurar a soberania
do Marrocos em todo o territrio que lhe era reconhecido no final do sculo XIX.
Quando a tentativa fracassou, por motivos que tm a ver essencialmente com o
seu isolamento geogrfico, eles no se submeteram como outros chefes do sul de
longo contato com os franceses. Privados contudo do apoio do sulto, no podiam
agir com eficcia. Al-Hiba se proclamou sulto em 1912 sem encontrar eco nas
cidades nem entre os grandes alcaides; os outros se fecharam nos seus comandos,
defendendo-se de tudo e de todos, na esperana de morrer sem ter visto "a cara
dos franceses", como to bem o disse o alcaide al-Madani, dos Akhsas44.
    Em face destes encontramos os chefes locais, quer improvisados  como
Muhammad al-Hadjdjami, nas redondezas de Fez, em 1911, ou Nafrutan


43   No falamos de Abd al-Karim porque a sua epopeia ser tratada em outra parte. Quanto a Abd al-Malik,
     neto do emir Abd al-Kader, da Arglia, e oficial do exrcito otomano, parece ter sido um aventureiro
     que servia alternadamente aos interesses da Turquia, da Espanha e da Frana.
44 AL-SUSI, 1961, t. 20, p. 202.
126                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



al-Samladi e seu discpulo al-Nakkadi no Tafilalet de 1919 a 1934 , quer
tradicionalmente reconhecidos, como Ali Amhaush, seus filhos al-Makki e
al-Murtada, seus discpulos Ibn al-Tayyibi e Muhand U al-Hadjdj, que diri-
giram sucessivamente a luta no Mdio Atlas de 1919 a 1934, ou ainda Hassu
U Basallam, chefe da resistncia em Bu Ghafir em fevereiro e maro de 1933.
Estes recusam acordos; derrotados, vo para outro lugar, at que sejam cercados
nos redutos das montanhas ou do deserto e sujeitos a um dilvio de fogo. Como
dar conta de tanta tenacidade em plena solido?
   Devemos ter presente que ao longo do sculo XIX se desenha um movi-
mento popular pregando a guerra radical, movimento que foi desacreditado
pelos ulama e pelos membros do Makhzen, porque vinha acompanhado de um
apelo ao sobrenatural e de uma f milenarista. H uma descrio de al-Hiba e
seu irmo Murabbih Rabbuh clamando aos anjos para ajudar os combatentes
em vsperas da batalha de Bu Uthman, em 6 de setembro de 1912. Quando da
batalha de 26 de junho de 1922, foi citado o kerkur de Tafesaset, rocha ao p da
qual devia parar o avano colonial, sob pena de um cataclisrna csmico45. Esta
era a crena natural dos xerifes e dos telogos que encabeavam populaes
em grande parte incultas, mas tambm uma atitude que a elite das cidades s
podia julgar perigosa, por ser arcaica e irrealista. Abu Shu ayb al-Dukkali, um
dos pioneiros do movimento reformista, exprime bem essa atitude negativa em
face daquela espcie de resistncia dizendo, a propsito da ao de al-Hiba: "Sou
contra os resistentes, que do pretexto aos europeus para ocupar os territrios
dos muulmanos, como Bu Amama, os chefes da Shawiya, dos Bani Matir e
muitos outros ainda, cujo nmero  incontvel tanto a leste como a oeste"46.
   s duas fases da poltica colonial e aos dois tipos de resistncia, correspon-
dem dois grupos bem distintos de chefes resistentes. Concentrando a ateno na
fase de conquista e de ocupao, bem como na de resistncia obstinada e esparsa,
conduzida por alcaides e telogos muulmanos de esprito milenarista, pouco
apreciado pela elite urbana, podemos descobrir a as seguintes caractersticas: a)
ruptura com a elite histrica, que compreendia a relao real de foras entre o
exrcito colonialista e os combatentes autctones; b) espera de um milagre para


45    GUILLAUME, 1946, p. 219-20. Sobre al-Hiba, ver IBN IBRAHIM, Al-Hamla al-Faransiyya `ala
      Marrakush, manuscrito k. 320, Arquivos de Rabat, p. 16.
46    IBN IBRAHIM, Al-Hamla, p. 13 e 30-5. Bu Amama combateu os franceses nos arredores de Figuig entre
      1880 e 1885; Bu Himara sublevou-se contra o sulto Mulay Abd al-Aziz, acusado de ser pr-europeu, e
      dirigiu uma revolta que durou de 1902 at 1909; em Shawiya, Muhammad Bu Azzawi era quem estava
       frente dos resistentes entre 1907 e 1909, e, entre os Bani Matir, foi Akka Bu Bidmani quem se lanou
      contra o exrcito invasor de 1911 a 1913.
Iniciativas e resistncia africanas no norte da frica e no Saara                                   127



conjurar a conquista; c) diviso e disperso devido ao exlio,  fome e  descon-
fiana; d) recusa a aceitar o que a posteriori parecer inevitvel.
    Estas caractersticas distinguem fundamentalmente esta fase da resistncia daquela
primeira, isto , da guerra poltica travada por um Estado constitudo, cuja lgica ser
retomada pelos nacionalistas. De onde o difcil problema de saber se se pode con-
siderar esta resistncia esparsa e localizada como um protonacionalismo.
    De fato, julgada arcaica e ineficaz, foi deixada  sua sorte pelos chefes his-
tricos. Todavia, imediatamente aps o seu malogro definitivo, ela foi retomada
a bem da causa de maneira seletiva. Com efeito, os nacionalistas comemoram
os ataques bem-sucedidos, guardam o nome dos chefes que morreram sem se
render e, em compensao, esquecem os que sobreviveram para se tornar alcai-
des controlados por oficiais europeus, mesmo que tambm tenham oposto uma
resistncia feroz antes de se entregarem.
    Esta resistncia servia, ao menos em parte, de mito mobilizador. As batalhas
de Tazikzaut, de Bu Ghafir, os personagens de Muha U Hammu, de al-Nakkadi
etc., permitiram aos nacionalistas levantar esta embaraosa questo: uma ren-
dio obtida por fora esmagadora ser uma verdadeira rendio? Os generais
colonialistas, que falavam de penetrao pacfica quando a conquista prosseguia
com facilidade, retomaram de 1926 em diante s teses de Bugeaud, que pregava
a destruio do adversrio e afirmava que no Maghreb eram necessrios tantos
soldados para mant-lo como para conquist-lo47. Isto significa dizer que jamais
se deu a "conquista das almas".




47   G. Spillman conta que Lyautey dizia em fins de 1924: "Alguns at ousam sustentar, parece, que uma
     tribo s est submetida na medida em que for batida de maneira sangrenta". SPILLMAN, 1968, p. 60.
     A atitude espanhola, por sua vez, sempre teve um ressaibo de cruzada, mistura de dio e de medo. Na
     Tripolitnia, Volpi falava em 1921 de uma poltica de sangue.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914      129



                                           CAPTULO 6


              Iniciativas e resistncia africanas
               na frica ocidental, 1880-1914
                              M'Baye Gueye e Albert Adu Boahen




    De 1880 a 1914, toda a frica ocidental se acha colonizada, com exceo
da Libria (ver captulo 2). Esse fenmeno, que para os africanos se traduziu
essencialmente na perda da sua soberania, de sua independncia e de suas ter-
ras, desenrolou-se em duas fases. A primeira vai de 1880 aos primeiros anos do
sculo XX, a segunda at a irrupo da Primeira Guerra Mundial, em 1914.
    A natureza das atividades dos europeus variava segundo essas etapas, susci-
tando paralelamente nos africanos vrias iniciativas e reaes. Convm salientar
que estas ocorreram largamente em funo de certas condies locais, como a
natureza da sociedade (centralizada ou no, gozando de autonomia ou com a
autonomia perdida para outro poder africano, em expanso, estagnada ou em
declnio)1, a natureza da autoridade que a encabea, o grau de penetrao da
influncia poltica, religiosa e econmica dos europeus na dcada de 1870 e as
lies que ela da retirou. Outro fator igualmente importante  o mtodo que
os imperialismos europeus adotaram para a expanso do seu domnio sobre a
rea, entre 1880 e 1914.
    No decorrer da primeira etapa, os europeus recorreram ora  diplomacia ora
 invaso militar, seno s duas. Em toda a frica ocidental, praticamente,  o
grande perodo da corrida aos tratados, seguidos, na maior parte dos casos, de


1    KANYA FORSTNER, 1971, p. 75.
130                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



invases, conquistas e ocupao por exrcitos mais ou menos importantes e dis-
ciplinados. A conquista e a ocupao europeias na frica ocidental alcanaram
o apogeu no perodo 1880-1900. Jamais o Continente havia conhecido tantas
intervenes militares, tantas invases e campanhas organizadas contra Estados
e sociedades da frica. Memorveis, entre outras, foram as campanhas francesas
no Sudo ocidental, na Costa do Marfim e no Daom (atual Benin), entre 1880
e 1898, bem como as dos britnicos no Ashanti (atual Gana), na regio do delta
do Nger (Nigria) e no norte da Nigria, entre 1895 e 1903 (ver fig. 6.1).
    Durante essa primeira fase, praticamente todos os africanos visavam o
mesmo objetivo: salvaguardar a independncia e seu estilo tradicional de vida.
Para conseguir isso, tinham de optar entre trs solues: o confronto, a aliana
ou a aceitao e a submisso. A estratgia do confronto implicava a guerra
aberta, cercos, operaes de guerrilha e a poltica de terra queimada, assim como
o recurso  diplomacia. Como se ver, as trs solues foram adotadas. Embora
a conquista e a ocupao da frica ocidental tenham sido obra de trs grandes
potncias europeias, vamos limitar-nos aqui a examinar o comportamento das
duas principais, o Reino Unido e a Frana.


      Conquista e reao na frica Ocidental
      Francesa, 18801900
   Os documentos disponveis demonstram claramente que, a partir de 1880,
os franceses adotaram uma poltica de ampliao de sua zona de influncia
sobre toda a regio, do Senegal ao Nger e da ao Chade, unindo os territrios
conquistados graas aos postos avanados do golfo da Guin, na Costa do
Marfim e no Daom. A aplicao dessa poltica foi confiada aos oficiais da
marinha que, de 1881 em diante, tornaram-se responsveis pela administra-
o da rea do Senegal. No surpreeende, portanto, que para estender o seu
domnio sobre a regio os franceses tenham escolhido quase exclusivamente
a conquista militar, em vez de concluir tratados de protetorado, como fizeram
os britnicos. No tocante s reaes dos africanos, eles no negligenciaram
nenhuma das possibilidades que se lhes ofereciam: a submisso, a aliana e
o confronto. Todavia, como veremos mais adiante, na sua grande maioria os
dirigentes preferiram a estratgia da resistncia ativa  submisso e  aliana.
Resistncia que se revelou bem mais violenta do que nas outras regies da
frica ocidental, por duas razes principais. A primeira, j mencionada,  que
os franceses optaram no mais das vezes por ampliar o seu domnio pela fora,
                                                                                                           Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914
                                                                                                           131
figura 6.1   Estados e povos da frica ocidental nas vsperas da partilha europeia. (Fonte: Fage, 1978.)
132                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



o que s podia suscitar reaes violentas. A segunda razo  que a islamizao
era a muito mais forte do que no resto da frica ocidental e, conforme salien-
tou Michael Crowder, "para as sociedades muulmanas da frica ocidental, a
imposio de um domnio branco significava a submisso ao infiel, situao
intolervel para todo bom muulmano2, pelo que os habitantes da regio ten-
diam a se opor aos europeus com ardor e tenacidade pouco comuns aos no
muulmanos. Para ilustrar estas consideraes de ordem geral, vamos estudar
os acontecimentos na Senegmbia, nos imprios Tukulor e Mandinga, no pas
Baule da Costa do Marfim e, finalmente, no Daom.

      Senegmbia
    No Senegal, onde a conquista teve incio em 1854, a Frana dispunha em
1880 de slidos pontos de apoio, com a anexao de Walo, da parte setentrional
de Cayor e de Jander. O protetorado francs tinha sido imposto aos Estados do
Alto Senegal desde 1860. Por magros que fossem, estes resultados no haviam
sido alcanados sem dificuldades. Embora expulso em 1864 pela Frana, o damel
de Cayor, Lat-Dior, nem por isso deixou de optar pela estratgia do confronto,
prosseguindo na luta contra os franceses. Em 1871, com a derrota deles pela
Prssia, o governador do Senegal renunciou  anexao de Cayor e reconheceu
novamente Lat-Dior como damel. Desde ento, estabeleceram-se entre Lat-Dior
e a administrao francesa do Senegal relaes cordiais.
    Em 1879, o governador Briere de l'Isle obteve do damel autorizao para
construir uma estrada ligando Dakar a Saint-Louis. Mas, em 1881, ao saber
que de fato se tratava de uma estrada de ferro, Lat-Dior declarou-se contrrio
ao projeto. No desconhecia que a estrada de ferro punha fim  indepen-
dncia de Cayor. Nesse mesmo ano, informado de que a obra ia comear
imediatamente, tomou providncias para impedir isso. Foram dadas ordens
a todos os chefes para punir severamente todos os sditos de Cayor que for-
necessem fosse o que fosse aos trabalhadores franceses3. Em seguida, foram
enviados emissrios a Ely, emir de Trarza, a Abdul Bokar Kan, de Futa Toro,
e a Albury Ndiaye, de Jolof. Lat-Dior os convidava a organizar uma santa
aliana e a sincronizar a luta para facilitar a expulso dos franceses da terra
dos ancestrais4.


2     CROWDER, 1968, p. 72; ver igualmente KANYA-FORSTNER, 1971, p. 53-4.
3     Ansom, Governador Lanneau ao ministro. Senegal I, 46b, 24 maio 1881.
4     Ansom, Governador Vallon ao ministro. Senegal I, 67b, 23 jul. 1882.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914                   133



   A 17 de novembro de 1882, enviou uma carta ao governador Servatius
proibindo-lhe o incio da obra, mesmo nos subrbios do territrio que era parte
integrante de Cayor. Dizia ele:
    Enquanto eu for vivo, fica certo, vou me opor com todas as minhas foras  constru-
    o da estrada de ferro [...] A vista das espadas e das lanas  agradvel aos nossos
    olhos.  por isso que, cada vez que eu receba de ti uma carta relativa  estrada de
    ferro, responderei sempre no, no, e jamais te darei outra resposta. Mesmo quando
    eu for dormir o ltimo sono, meu cavalo Malaw te dar a mesma resposta5.
    Nada melhor para refutar aqueles que julgam a posio de Lat-Dior neste
caso como o simples capricho de um chefete feudal sem nenhum interesse pelo
bem-estar do seu povo. Seja como for, notando a persistncia do governador na
realizao do projeto, Lat-Dior proibiu que seus sditos cultivassem o amen-
doim. Estava convencido de que, sem o amendoim, os franceses voltariam para
casa. Obrigou ainda as populaes que viviam perto dos postos franceses a
mudar para o interior de Cayor. As aldeias dos recalcitrantes foram incendiadas
e seus bens confiscados.
    Em dezembro de 1882, o coronel Wendling penetrou em Cayor,  frente
de uma coluna expedicionria composta principalmente de atiradores africa-
nos e de auxiliares dos territrios anexados. J tendo combatido os franceses
desde 1861, Lat-Dior sabia que tinha poucas possibilidades de venc-los em
combate clssico. Recuou  chegada de Wendling e foi se instalar em Jolof. Em
Cayor, Wendling entregou o poder a Samba Yaba Fall, primo de Lat-Dior. Em
agosto de 1883, foi destitudo e substitudo por Samba Laobe Fall, sobrinho de
Lat-Dior. O governador estava persuadido de que Lat-Dior jamais faria guerra
contra o sobrinho. No se enganou. Lat-Dior fez um acordo com o sobrinho, que
o autorizou a voltar para Cayor, em 1885.
    Em outubro de 1886, Samba Laobe Fall foi morto em Tivaouane por um
destacamento de spahis. Ento, o governador Genouille decidiu suprimir o ttulo
de damel e dividiu Cayor em seis provncias, confiadas a ex-cativos da Coroa6.
Foi tambm promulgado um decreto expulsando Lat-Dior de Cayor. Logo
que lhe comunicaram tal medida, Lat-Dior ficou furioso. Mobilizou 300 adep-
tos que lhe tinham permanecido fiis, apesar das vicissitudes da fortuna, mas
libertou do juramento quem no estivesse decidido a morrer com ele. Entrou
ento em campanha contra os franceses e seus aliados, sditos dele pouco antes.

5    Ansom, Lat-Dior ao governador. Senegal I, 68b, 8 jan. 1883.
6    Ansom, Genouille ao ministro. Senegal I, 86a, l3 nov. 1886.
134                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



Lat-Dior tinha a firme inteno de vender caro a vida. Para tanto, fingiu que
se conformava com a medida de expulso, tomando o caminho para Jolof. Com
uma das suas audaciosas contramarchas, conseguiu colocar-se, sem ningum
perceber, entre os inimigos e a via frrea. No dia 27 de outubro de 1886, por
volta das 11 horas, surpreendeu os franceses e seus aliados no poo de Dekle,
causando-lhes pesadas perdas. Mas tambm morreu a, juntamente com seus
dois filhos e 80 de seus partidrios7. A morte de Lat-Dior ps naturalmente
fim  independncia de Cayor e viria facilitar o domnio dos franceses sobre o
resto do pas.

      O imprio Tukulor
    Tal como a maior parte dos chefes africanos, Ahmadu, filho e sucessor de
Al Hadj Umar, fundador do imprio Tukulor (ver fig. 6.1), estava decidido a
defender o seu imprio e a preservar a sua independncia e soberania. Para atin-
gir esses objetivos, optou por uma estratgia de aliana e de confronto militar.
No entanto, ao contrrio da maior parte dos chefes da regio, apoiava-se mais
na aliana do que na resistncia. De fato, veremos que, desde a sua ascenso ao
poder at 1890, persistiu em procurar a aliana e a cooperao com os franceses
e s nos dois anos subsequentes  que se decidiu ao confronto armado.
    Dito isto, no surpreende que Ahmadu tenha adotado esta estratgia em
particular, pois as realidades polticas e econmicas com que se defrontava
poucas alternativas lhe deixavam. Desde o incio do seu reinado, Ahmadu
teve de se bater em trs frentes polticas: contra seus irmos, que lhe contes-
tavam a autoridade, contra os sditos (Bambara, Mandingas, Peul e outros),
que detestavam profundamente seu novo senhor tukulor e queriam recuperar
a independncia pela fora, e contra os franceses. Para agravar as coisas, seu
exrcito era numericamente mais fraco do que o exrcito que permitira a seu
pai a criao do imprio, pois no contava mais de 4 mil talibes (estudantes de
religio que formavam a ossatura do exrcito de Umar) e 11 mil sofas (infan-
taria) em 18668 e, ademais, no exercia sobre a tropa a mesma autoridade que
o pai nem era capaz de motiv-la com a mesma fora. Como era de esperar,
Ahmadu deu portanto prioridade ao reforo de sua prpria posio, fazendo
um acordo com os irmos  na verdade, alguns tentaram derrub-lo em 1872
 e, depois, para garantir a sobrevivncia do seu imprio, pondo fim s ativas


7     Ibid.
8     KANYA-FORSTNER, 1971, p. 61.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914             135



rebelies dos diversos grupos avassalados, particularmente os Bambara. Para
tanto, precisava de armas e munies, assim como dos recursos financeiros que
lhe proporcionava o comrcio, o que o obrigava a manter relaes amistosas com
os franceses. Alm disso, a maior parte dos talibes se recrutava no Futa Toro,
ptria de seu pai, e, como essa regio estava sob a dominao francesa, tinha de
obter a colaborao deles. Em face destes problemas de poltica interna, ainda
surpreende que ele tenha aceito, pouco aps a sua elevao ao poder, negociar
com os franceses? Essas negociaes decorreram entre Ahmadu e o tenente
Mage, representante da Frana. Convencionou-se que, em troca do forneci-
mento de canhes e do reconhecimento da sua autoridade, Ahmadu autorizaria
os comerciantes franceses a operar no seu imprio9.
    Embora este tratado no tenha sido ratificado pelo governo francs, Ahmadu
no tenha recebido nenhum canho e os franceses no tenham cessado de ajudar
os rebeldes (chegando at a atacar Sabusire, fortaleza tukulor de Kuasso, em 1878),
Ahmadu no deixou de manter uma atitude amistosa com os franceses. Isso lhe
foi muito til, pois assim conseguiu sufocar as tentativas de rebelio dos irmos
em 1874, bem como as dos territrios de Segu e Kaarta no final da dcada de
1870. Por isso, concordou prontamente quando os franceses, que precisavam da
sua cooperao para preparar a conquista da regio situada entre o Senegal e
o Nger, solicitaram a reabertura de negociaes, em 1880. Essas negociaes,
conduzidas pelo capito Gallini, redundaram no tratado de Mango, pelo qual
Ahmadu se comprometia a autorizar os franceses a construir e a manter vias
comerciais no seu imprio e lhes deferia o privilgio de construir e fazer circular
embarcaes a vapor no Nger. Em troca, os franceses reconheciam a existncia
do seu imprio como Estado soberano, concediam-lhe liberdade de acesso a
Futa, comprometiam-se a no invadir o seu territrio nem a levantar qualquer
fortificao. Acima de tudo, os franceses concordavam em pagar um tributo de
quatro peas de artilharia de campanha e de mil fuzis, mais uma renda anual de
200 fuzis, 200 barris de plvora, 200 obuses de artilharia e 50 mil espoletas10.
    O tratado era, manifestamente, uma grande vitria diplomtica para
Ahmadu; se os franceses o tivessem ratificado e respeitado com sinceridade,
no h dvida de que o imprio de Ahmadu teria sobrevivido. Mas,  claro, nem
o prprio Gallini tinha a inteno de cumpri-lo; alis, o governo francs no
o ratificou. Com o novo comandante militar do Alto Senegal, tenente-coronel
Borgnis-Desbordes, os franceses comearam desde 1881 a invadir o imprio.

9    Ibid., p. 63-4.
10   Ibid., p. 65.
136                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



Em fevereiro de 1883, ocuparam Bamako sem oposio, para em 1884 lanarem
canhoneiras no rio Nger, sem que os Tukulor oferecessem resistncia. A nica
reao de Ahmadu foi proibir todo comrcio com os franceses11. Em 1884,
Ahmadu tentou remontar o Nger em direo a Bamako,  frente de imponente
exrcito. Mas, ao contrrio de tudo o que se podia prever, ele no quis atacar nem
ameaar as frgeis linhas de comunicao dos franceses para ir cercar Nioro,
capital de Kaarta, a fim de depor o rei Muntaga, seu irmo, que ele achava muito
independente em relao  autoridade central12.
    Que Ahmadu tenha preferido atacar o irmo em vez dos franceses demons-
tra bem que ele ainda no dominava plenamente a situao dentro do seu imp-
rio e precisava do apoio dos franceses, sobretudo se levarmos em conta que os
Bambara do distrito de Beledugu, prximo de Bamako, tambm estavam em
dissidncia.  isso, com certeza, que explica a reao de Ahmadu s invases
francesas entre 1881 e 1883. A cooperao francesa era tanto mais necessria
quanto  certo que o cerco de Nioro enfraquecera ainda mais o seu potencial
militar. Por sua parte, os franceses tambm tinham necessidade urgente de se aliar
a Ahmadu. Entre 1885 e 1888, combateram a rebelio do chefe Soninke Mama-
dou Lamine e estavam preocupados em evitar que ele se aliasse a Ahmadu. Dessa
forma, embora ciente de que os franceses continuavam a ajudar os rebeldes
Bambara, Ahmadu aceitou celebrar com eles o tratado de Gori, a 12 de maio de
1887. Nos termos do tratado, Ahmadu concordava em colocar seu imprio sob
a proteo nominal dos franceses, que em troca se comprometiam a no invadir
seus territrios e a revogar a proibio da venda de armas a Ahmadu.
    Em 1888, porm, os franceses, sufocada a rebelio de Lamine e celebrado
outro tratado com Samori Tour, como veremos adiante, j no precisavam da
aliana com Ahmadu. Esta evoluo do quadro e a agressividade do comando
militar francs explicam a irrupo de novas hostilidades contra Ahmadu, cujo
sinal foi o ataque, em fevereiro de 1889, contra a fortaleza tukulor de Kundian,
"esse molesto obstculo na estrada de Siguiri e de Dinguiray"13. A operao no
correu to depressa como se esperava. O tata estava solidamente construdo,
com paredes duplas de pedra, e a guarnio tinha retirado o telhado de colmo,
a fim de impedir a rpida propagao de um incndio. Para abrir uma brecha,
Archinard foi obrigado a fazer um bombardeio intensivo de oito horas contra a
muralha, com suas peas de artilharia de montanha de 80 mm. Os Tukulor, que

11    SAINT-MARTIN, 1972, p. 301.
12    Ibid., p. 316.
13    Ibid., p. 379.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914           137



tinham aguentado esse dilvio de ferro e fogo, opuseram tenaz resistncia aos
franceses, ripostando aos bombardeios com salvas ininterruptas de mosqueto
e defendendo o terreno casa por casa. Muitos defensores morreram de armas
na mo14.
    Ahmadu, s voltas com as dificuldades internas, transps ento o conflito
para o plano religioso, convidando todos os muulmanos do imprio a pegar em
armas para a defesa da lei. Remeteram-se cartas para Jolof, na Mauritnia, bem
como para Futa, pedindo socorro15. Tais diligncias no deram resultado satis-
fatrio e Archinard, depois de preparativos minuciosos e de obter armamento
adequado  que compreendia "duas peas de artilharia de campanha de 95 mm
com 100 granadas de melinita, recentemente inventada"16 , tomou a capital
do imprio em abril de 1890. De l, marchou contra a fortaleza de Wesebugu,
defendida por Bambaras fiis a Ahmadu, que se deixaram todos matar, no sem
ter infligido pesadas perdas aos assaltantes. Dos 27 europeus, dois foram mortos
e oito ficaram feridos; dos soldados africanos, 13 foram mortos e 876 ficaram
feridos. Prosseguindo na ofensiva, Archinard tomou Koniakary, aps ter esma-
gado a resistncia dos Tukulor. Diante da obstinada resistncia das guarnies
tukulor, Archinard parou por algum tempo e incitou Ahmadu a capitular e a
fixar residncia numa aldeia de Dinguiray como simples indivduo.
    Foi ento que Ahmadu decidiu renunciar  diplomacia para recorrer aos
meios militares. Em junho de 1890, seus soldados atacaram a via frrea em
Talaari e se envolveram com os franceses em diversas escaramuas entre Kayes
e Bafulabe. Em uma delas, os franceses sofreram 43 baixas, entre mortos e feri-
dos, numa fora de 125 homens. Em setembro, aproveitando o isolamento de
Koniakary pela cheia, procuraram conquist-la, mas no conseguiram17.
    Entretanto, Ahmadu tambm se preparava para defender Nioro. Dividiu as
suas tropas em quatro grupos. O grosso delas estava concentrado em volta de
Nioro, sob o comando do general Bambara Bafi e do ex-rei de Jolof, Albury
Ndiay18. A 23 de dezembro de 1890, o exrcito de Bassiru foi disperso pelos
franceses, equipados com canhes de 80 e 95 mm, e, em 10 de janeiro de 1891,
Archinard entrava em Nioro. A tentativa que Albury fez de retomar Nioro, em
3 de janeiro, resultou em fracasso e na derrota do exrcito Tukulor. O sulto


14   Ibid., p. 38l.
15   Ibid., p. 390.
16   KANYA-FORSTNER, 1971, p. 69.
17   Ibid., p. 70.
18   Ibid., p. 73.
138                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



teve mais de 3 mil homens mortos ou capturados. Retirou-se para Macina,
que deixou aps o rude combate de Kori-Kori. Mesmo no exlio, no territ-
rio dos Haussa, mantinha em relao aos franceses "uma independncia sem
compromisso"19.

      Samori Tour e os franceses
   Ao contrrio de Ahmadu, Samori Tour optou por uma estratgia de con-
fronto e no de aliana. Embora recorresse igualmente  diplomacia, deu acima
de tudo destaque  resistncia armada. Em 1881 j tinha feito da "parte meri-
dional das savanas sudanesas, ao longo de toda a grande floresta do oeste da
frica", entre o norte da atual Serra Leoa e o rio Sassandra, na Costa do Mar-
fim, um imprio unificado sob a sua incontestada autoridade20 (ver fig. 6.3).
Ao contrrio do imprio Tukulor, o imprio Mandinga estava ainda numa fase
ascendente em 1882, quando se deu o primeiro embate entre Samori Tour e
os franceses. A conquista desta regio tambm havia permitido a Tour criar
um poderoso exrcito, relativamente bem equipado  europeia. Estava dividido
em dois corpos: infantaria (ou sofa), que em 1887 contava com 30 mil a 35 mil
homens, e cavalaria, que na mesma poca no tinha mais que 3 mil homens.
A infantaria estava dividida em unidades permanentes de 10 a 20 homens,
conhecidas como s (ps) ou kulu (turmas), comandadas por um kuntigi (chefe).
Dez s formavam um bolo (brao), colocado sob o comando de um bolokuntigi21.
A cavalaria estava dividida em colunas de 50 homens, chamadas sere. Os bolo,
principal fora ofensiva, deslocavam-se escoltados pelos sere. Como se tratava
de unidades permanentes, estabeleciam-se laos de amizade entre os soldados e
de lealdade para com o chefe local e Samori Tour. Este exrcito, portanto, no
demorou a assumir "um carter quase nacional, em vista da sua notabilssima
homogeneidade22. Mas o que sobretudo distinguia o exrcito de Samori era seu
armamento e seu treinamento. Ao contrrio da maior parte dos exrcitos da
frica ocidental, o de Samori era praticamente constitudo por profissionais
armados  custa de seu chefe. At 1876, as tropas de Samori Tour estavam equi-
padas com velhas espingardas, que os ferreiros locais eram capazes de consertar.
Mas, a partir de 1876, Samori Tour tratou de procurar armas europeias mais


19    SAINT-MARTIN, 1972, p. 427.
20    Para um estudo detalhado da vida e das atividades de Samori Tour, ver PERSON, 1968-1975.
21    PERSON, 1971, p. 121-6.
22    Ibid., p. 121-2.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914                                  139




figura 6.2 Samori Tour (c. 1830-1900), aps a sua captura pelo capito Gouraud ( direita), em setembro
de 1898. (Foto: Harlingue-Viollet.)
140                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



modernas, essencialmente por intermdio de Serra Leoa, para examin-las com
ateno e decidir quais as que se adaptavam melhor s suas necessidades. Foi
assim que, a partir de 1885, ele resolveu substituir as espingardas, cujos cartu-
chos, por demais volumosos, estragavam depressa com a umidade da regio, por
fuzis Gras, mais bem adaptados ao clima local, com seus cartuchos mais leves,
e por Kropatscheks (fuzis Gras de repetio). Ficaria fiel a esses dois modelos
durante toda a dcada de 1880, de tal forma que acabou dispondo de turmas
de ferreiros capazes de copi-los nos menores detalhes. De 1888 em diante,
tambm adquiriu alguns fuzis de tiro rpido e, em 1893, dispunha de cerca de
6 mil dessas armas, que empregou at a sua derrota, em 1898. Em compensao,
nunca disps de peas de artilharia, o que constitua grave desvantagem nas suas
campanhas contra os franceses. Essas armas foram adquiridas graas  venda de
marfim e de ouro extrado dos velhos campos aurferos de Bure, ao sul do pas,
j explorados na poca medieval, bem como  troca de escravos e de cavalos na
regio do Sahel e do Mosi. Bem equipado, o exrcito de Samori Tour estava
igualmente bem treinado e disciplinado e caracterizava-se pelo esprit de corps e
pela homogeneidade.
     evidente, ento, que Samori Tour estava no pice do seu poderio quando
pela primeira vez entrou em contato com os franceses, em 1882. Em fevereiro
desse ano, recebeu a visita do tenente Alakamesa, que lhe comunicou a ordem
do comando supremo do Alto Senegal-Nger para que se retirasse de Kenyeran,
importante mercado que barrava a Samori Tour o caminho das reas mandinga.
Como era de esperar, Samori Tour recusou. Isso provocou um ataque de sur-
presa de Borghis-Desbordes, que teve de bater precipitadamente em retirada.
O irmo de Samori, Keme Brema, atacou os franceses em Wenyarko, perto de
Bamako, em abril. Embora vencedor a 2 de abril, Keme Brema foi batido dez
dias mais tarde por tropas francesas bem menos importantes. Desde ento,
Samori Tour evitou o confronto com os franceses e dirigiu a sua ao para
Kenedugu.
    Em 1885, quando Combes ocupa Bure, cujas minas de ouro eram importan-
tes para a economia do seu imprio, Samori Tour compreendeu a amplitude da
ameaa e resolveu desalojar os franceses pela fora. Trs exrcitos, o de Keme
Brema, o de Masara Mamadi e o dele prprio, foram encarregados da execu-
o da tarefa. Graas a um vasto movimento de tenazes, Bure foi facilmente
retomado e os franceses tiveram de sair precipitadamente para no se verem
cercados. Samori Tour decidiu ento cultivar relaes com os britnicos de
Serra Leoa. Depois de ocupar Falaba em 1884, enviou emissrios a Freetown,
propondo ao governador colocar todo o pas sob a proteo do governo britnico.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914            141



Tal oferta era apenas uma manobra de Samori Tour, que no pensava de forma
alguma em alienar a sua soberania, mas em obrigar os franceses a respeit-la,
aliando-se a um governo poderoso23.
    Falhando a manobra, Samori Tour assinou com os franceses, em 28 de
maro de 1886, um tratado em virtude do qual aceitava recuar as suas tropas
para a margem direita do Nger, embora mantendo seus direitos sobre Bure e
os Mandingas de Kangaba24. Em outro tratado com os franceses, assinado em
25 de maro de 1887, que alterava o do ano anterior, Samori cedia a margem
esquerda do rio e at aceitava colocar seu pas sob o protetorado francs.
    Samori Tour talvez tenha assinado este novo documento pensando que os
franceses o ajudariam contra Tieba, o faama (rei) de Sikasso, que atacou em abril
de 1887, com um exrcito de 12 mil homens. Ora, os franceses imaginavam
apenas impedir qualquer aliana entre Samori Tour e Mainadou Lamine, seu
adversrio na ocasio. Quando Samori percebeu que, em vez de se comportarem
como aliados e ajud-lo, os franceses encorajavam a dissidncia e a rebelio nas
regies recentemente subjugadas, procurando ainda impedir que ele se reabaste-
cesse de armas em Serra Leoa, levantou o cerco em agosto de 1888 e preparou-se
para o combate contra o invasor25. Reorganizou o exrcito, concluiu em maio de
1890 com os britnicos, em Serra Leoa, um tratado que o autorizava a comprar
armas modernas em quantidades cada vez maiores durante os trs anos seguin-
tes, e treinou suas tropas  moda europeia. Foram criadas sees e companhias.
No plano da ttica militar resolveu optar pela defensiva. Claro, no se tratava de
se pr ao abrigo das muralhas dos tatas, pois a artilharia no lhe daria a menor
possibilidade de xito. A estratgia dele consistia em imprimir grande mobili-
dade s suas tropas, para melhor surpreender o inimigo, infligindo-lhe pesadas
perdas antes de desaparecer26.
    Archinard, que tomara Segu em maro de 1890, atacou Samori em maro de
1891, na esperana de o derrotar antes de entregar o comando do Alto Senegal-Nger
a Humbert. Achava que, ao primeiro choque, o imprio de Samori Tour viria abaixo.
Mas, embora a sua ofensiva resultasse na tomada de Kankan em 7 de abril e no
incndio de Bisandugu, teve efeito contrrio, pois constituiu para Samori Tour
um aviso salutar que o incitou a prosseguir nas ofensivas contra os franceses



23   HARGREAVES, 1969, p. 207-8.
24   Ibid., p. 208.
25   Ibid., p. 209.
26   PERSON, 1971, p. 134.
142                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



em Kankan, o que lhe permitiu derrot-los na batalha de Dabadugu, em 3 de
setembro de 1891.
    O principal confronto entre os franceses e Samori Tour se deu em 1892.
No desejo de pr fim  questo, Humbert invadiu a parte central do imprio
em janeiro de 1892,  frente de um exrcito de 1300 atiradores de elite e 3
mil carregadores. Samori Tour comandava em pessoa um exrcito de 2500
homens escolhidos para enfrentar o invasor. Embora seus homens "se bates-
sem como diabos, defendendo p a p cada milmetro do terreno com feroz
energia", para repetir as palavras de Person27, Samori foi batido e Humbert
tomou Bisandugu, Sanankoro e Kerwane. Salientemos, porm, que o prprio
Humbert devia achar o resultado bem magro, em vista das pesadas perdas que
sofreu. Alm disso, Samori ordenara  populao civil que abandonasse o local
 chegada dos franceses.
    No entanto, Samori Tour j no alimentava iluses. Os violentos combates
travados contra a coluna do coronel Humbert, que lhe haviam custado um
milhar de combatentes de elite, enquanto os franceses no perderam mais que
cem homens, tinham-no convencido do absurdo de outro confronto. Portanto,
no lhe restava seno render-se ou retirar-se. Recusando capitular, decidiu aban-
donar a ptria e refugiar-se a leste, para criar a um novo imprio, fora do alcance
dos europeus. Prosseguindo na poltica de terra queimada, iniciou a marcha para
leste em direo aos rios Bandama e Comoe. Se bem tivesse perdido em 1894,
com a estrada de Monrvia, a ltima via de acesso ao fornecimento de armas
modernas, nem por isso abandonou o combate. No comeo de 1895, encontrou
e rechaou uma coluna francesa vinda do pas Baule, sob o comando de Monteil,
e, entre julho de 1895 e janeiro de 1896, ocupou o pas Abron (Gyaman) e a
parte ocidental de Gondja. Por essa poca, j lograra formar um novo imprio
no hinterland da Costa do Marfim e do Ashanti (ver fig. 6.2)28. Em maro de
1897, seu filho Sarankenyi-Mori encontrou e bateu, perto de Wa, uma coluna
britnica comandada por Henderson, enquanto o prprio Samori Tour atacava
e destrua Kong em maio de 1897 e prosseguia avanando at Bobo, onde se
deparou com uma coluna francesa comandada por Caudrelier.
    Entalado entre os britnicos e os franceses, depois de tentar em vo mal-
quistar uns com os outros, cedendo a estes o territrio de Bouna, cobiado por
aqueles, Samori Tour resolver regressar  Libria, para junto de seus aliados
Toma. J a caminho, foi atacado de surpresa por Gouraud em Gelemu, no dia

27    Ibid., p. 135.
28    Ibid., p. 138.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914           143



28 de setembro de 1898. Capturado, foi deportado para o Gabo, onde morreu
em 1900. Sua captura ps termo quilo que um historiador moderno chamou de
"a mais longa srie de campanhas contra o mesmo adversrio em toda a histria
da conquista do Sudo pelos franceses"29.

     Daom
    Behanzin, o rei do Daom (Abomey), tal qual Samori, decidiu recorrer a
uma estratgia de confronto para defender a soberania e a independncia do seu
reino30. Na ltima dcada do sculo XIX, o Daom entrou em conflito aberto
com a Frana, que havia imposto seu protetorado a Porto Novo, vassalo de Abo-
mey (ver fig. 6.1). Era um srio golpe nos interesses econmicos de Abomey. Em
1889, o herdeiro do trono, prncipe Kondo, informou ao governador das Rivieras
do Sul, Bayol, que o povo Fon jamais aceitaria semelhante situao. Em fevereiro
de 1890, Bayol ordenou a ocupao de Cotonou e a deteno dos Fon notveis
que l se encontrassem. O prncipe Kondo, que tomara o poder em 1889 com
o nome de Behanzin, reagiu mobilizando as suas tropas. Abomey possua ento
um exrcito permanente de 4 mil homens e mulheres, em tempo de paz. Em
tempo de guerra, todos os homens tinham de cumprir o servio militar, apoiados
pelas Amazonas, guerreiras muito temidas.
    A guarnio francesa foi atacada ao crepsculo, ao mesmo tempo que uma
parte do exrcito fora destacada para a regio de Porto Novo, para destruir as
palmeiras. Segundo Behanzin, estas represlias econmicas levariam os fran-
ceses a pedir logo a paz. Em 3 de outubro, o padre Dorgere apresentava-se
em Abomey com propostas de paz. Os franceses comprometiam-se a pagar
a Behanzin uma renda anual de 20 mil francos, em troca do reconhecimento
de seus direitos sobre Cotonou, onde poderiam arrecadar impostos e estabe-
lecer uma guarnio. O rei aceitou as condies e o tratado foi assinado em 3
de outubro de 1890. No entanto, preocupado com a defesa do restante de seu
reino, tratou de modernizar o exrcito, adquirindo de empresas alems de Lom,
entre janeiro de 1891 e agosto de 1892, "1700 fuzis de tiro rpido, seis canhes
Krupp de diversos calibres, cinco metralhadoras, 400 mil cartuchos sortidos e
uma grande quantidade de granadas"31.



29   WEISKEL, 1980, p. 99-102.
30   Ross, 1971, p. 144.
31   Ibid., p. 158.
144                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Mas os franceses, decididos a conquistar o Daom, aproveitaram o pretexto
de um incidente ocorrido em 27 de maro de 1892; nesse dia, com efeito, sol-
dados Fon abriram fogo contra a canhoneira Topaz, que descia o Weme com o
residente francs de Porto Novo a bordo. A misso da conquista foi confiada a
um mulato senegals, o coronel Dodds, que chegou a Cotonou em maio de 1892.
Porto Novo, onde os franceses concentravam 2 mil homens, tornou-se o centro
dos preparativos. Dodds fez os seus homens remontarem o rio Weme e, a 4 de
outubro, tratou de marchar contra Abomey. Reunindo as trs divises do seu
exrcito, com um efetivo de 12 mil homens, os Fon cuidaram de cortar o cami-
nho ao invasor entre o rio e Abomey. No pouparam esforos, lanando mo de
seus recursos tradicionais (ataques de surpresa ao amanhecer, emboscadas, defesa
em linha, ttica de fustigamento e outras formas de guerrilha); mas, apesar das
grossas perdas, no conseguiram deter os franceses e muito menos faz-los recuar.
Calcula-se que os Fon tiveram 2 mil mortos (entre eles quase todas as Amazonas)
e 3 mil feridos, enquanto os franceses s perderam 10 oficiais e 67 homens32. Mas
o que mais prejudicou o plano militar dos Fon foi a destruio das colheitas pelos
escravos Ioruba, libertados pelo exrcito de Dodds. Abomey teve de enfrentar um
agudo problema de provises. Alguns soldados, para no morrer de fome, tiveram
de correr para seus lares em busca de alimento e em defesa de suas aldeias, que
estavam sendo pilhadas pelos escravos Ioruba libertados.
    Com a desintegrao do exrcito Fon, a nica soluo, claro est, era a paz.
Dodds, que se achava acampado em Cana, aceitou as propostas de Behanzin,
mas exigiu o pagamento de pesada indenizao de guerra e a entrega de todo
armamento. As condies de Dodds eram evidentemente inaceitveis para a
prpria dignidade do povo Fon. Em novembro de 1892, Dodds, que prosseguia
na sua marcha inexorvel, fazia entrada em Abomey, que Behanzin mandara
incendiar antes de seguir para a parte setentrional do seu reino, onde se fixou.
Em vez de submeter-se ou de ser deposto por seu povo, como os franceses
esperavam, ele cuidou imediatamente de reorganizar o exrcito, com irrestrito
apoio popular. Em maro de 1893, conseguira reagrupar 2 mil homens, que
realizaram vrios ataques de surpresa contra as zonas mantidas pelos franceses.
Em abril de 1893, os notveis fizeram novas propostas de paz. Estavam prontos
a ceder  Frana a parte meridional do reino, mas no aceitavam a deposio
de Behanzin, encarnao dos valores de seu povo e smbolo da existncia de
seu Estado independente. Os franceses lanaram ento, em setembro, outro


32    Ibid., p. 160.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914            145



corpo expedicionrio, sempre sob o comando de Dodds, promovido a general;
a expedio acabou por conquistar o norte do Daom. Goutchilli foi nomeado
e coroado rei em 15 de janeiro de 1894 e, quanto a Behanzin, foi preso em
consequncia de uma traio no dia 29 de janeiro de 189433.

     Os Baule e os franceses
    Era costume pensar que a oposio aos franceses, nas regies florestais da
Guin e da Costa do Marfim, s se manifestou depois de 190034. Pesquisas
recentes, no entanto, realizadas em particular entre os povos da Laguna e os
Baule da Costa do Marfim, demonstram que essa concepo estava errada: a
penetrao francesa a partir do litoral provocou desde o incio reaes hostis
entre os povos do interior35. As primeiras misses francesas no pas Baule foram
lanadas por duas expedies: uma, militar, comandada pelos tenentes Armand
e Tavernost, em fevereiro de 1881; a outra, comercial, dirigida por Voituret e
Papillon, em maro de 1891. Decidido a deter a penetrao, Etien Komenan,
chefe dos Baule de Tiassal, recusou-se a fornecer a Armand e a Tavernost
um intrprete para acompanh-los ao norte. Tiveram de regressar pelo litoral,
enquanto Komenan mandava matar Voituret e Papillon, antes mesmo que eles
tivessem alcanado Tiassal36 (ver fig. 6.2). Para castigar os Baule, os franceses
enviaram uma expedio militar comandada pelo tenente Staup. A expedio foi
atacada pelas foras de Etien Komenan em 11 de maio de 1891 e teve de bater
em retirada, ignominiosamente, para a costa. Malogrando pela fora, os france-
ses recorreram  diplomacia e conseguiram celebrar um tratado com os Baule de
Tiassal e de Niamw em 29 de dezembro de 1892, nos termos do qual aceita-
vam pagar um tributo de 100 onas de ouro em troca da liberdade de comrcio
com os africanos e os europeus do litoral. Graas  concluso do tratado, os
franceses puderam enviar uma segunda misso exploradora ao pas Baule em
maro de 1893, comandada por Jean-Baptiste Marchand, bem conhecido pelas
suas aventuras militares no Sudo ocidental. A meio caminho de Tiassal, junto
do Bandama, Marchand se defrontou com Etien Komenan, que resolvera que
"nenhum branco entraria em Tiassal"37. Marchand, portanto, retornou a Grand


33   Ibid., p. 166.
34   CROWDER, 1968, p. 95; BONY, 1980, 14-5.
35   WEISKEL, 1980, p. 33-141; KOFFI, 1976, p. 120-189.
36   WEISKEL, 1980, p. 38-9.
37   Ibid., p. 44.
146                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



Lahou e, depois, reunindo cerca de 120 homens, embarcou no dia 18 de maio
de 1893 para invadir Tiassal, que ele ocupou uma semana depois da fuga de
Etien Komenan. De l, retomou a marcha para o norte e, em novembro de 1893,
penetrou em Gbuekkro, que os franceses rebatizaram mais tarde com o nome de
Bouak. Teve a de fazer frente ao chefe da povoao, Kouassi Gbuek, ento aliado
a Samori Tour. Marchand se viu obrigado a marchar s pressas para Kong, de
onde remeteu um apelo premente a Paris, para que se enviasse uma expedio
destinada a ocupar esta cidade, ultrapassar Samori Tour e os ingleses e assinar
um tratado com os jula de Kong. Em resposta ao apelo, os franceses organizaram
uma expedio em setembro de 1894, a qual, comandada por Monteil, penetrou
em Tiassal em dezembro do mesmo ano.
    A expedio de Monteil encontrou uma oposio ainda mais viva dos Baule,
que se revoltaram e atacaram em Ouossou, a norte de Tiassal, bem como em
Ahuakro e em Moronou, entre 25 e 28 de dezembro. Essa obstinada resistncia
obrigou Monteil a recuar para a costa em fevereiro de 1895.
    Entre 1895 e 1898, o pas Baule viveu em paz. Mas, depois de ter batido e
capturado Samori Tour em setembro de 1898, os franceses decidiram ocupar
a regio e instalar um posto militar permanente em Bouak, sem consultar os
Baule. Tambm comearam a libertar os escravos, capturando e executando depois
Katia Sofi, chefe de Katiakofikro, por ter fomentado sentimentos antifranceses
na regio. Em grande parte por causa dessas provocaes, os grupos Baule desta
zona sublevaram-se de novo e, em 22 de dezembro de 1898, lanaram um ataque
generalizado contra as guarnies francesas. Eram comandados por Kuadio Oku,
chefe de Lomo, Yao Gie, chefe Ngban, Kaso, irmo do chefe de Katiakofikro
assassinado, Akafu Bulare, outro chefe Ngban, bem como Kwame Die, o grande
chefe dos Baule Warebo. Em resposta, os franceses, depois de declarar o pas Baule
territrio militar, lanaram uma srie de campanhas que redundaram na tomada
de Kokumbo, centro onde os Baule exploravam ouro, defendido por 1500 a 2
mil homens, em junho de 1901; em fevereiro de 1902, capturaram e fuzilaram o
grande Kwame Die; em seguida, capturaram Akafu Bulare (Akafu: o homem de
ferro), que morreu de sevcias no crcere, em julho de 1902. Todavia, empregando
uma ttica de guerrilha, os Baule continuaram a fustigar as foras francesas, e a paz
somente foi restaurada quando Franois-Joseph Clozel, que se tornou governador
interino da colnia em novembro de 1902, compreendeu que o emprego da fora
era intil e ordenou a paralisao das operaes militares38.

38    Para maiores detalhes sobre todas estas campanhas, a guerrilha e outros mtodos empregados pelos Baule,
      ver WEISKEL, 1980, p. 98-141.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914                         147



     Conquista e reao na frica ocidental inglesa, 18801900
    Ao contrrio dos franceses, cuja ocupao na frica ocidental, entre 1880
e 1900, foi resultado principalmente da fora, os britnicos no hesitaram em
recorrer igualmente  negociao pacfica, concluindo tratados de proteo com
os Estados africanos, por exemplo, no norte de Serra Leoa e da Costa do Ouro
(atual Gana), bem como em diversos pontos do pas Ioruba. Em outras reas,
como no pas Ashanti, no territrio dos Ijebu na Iorubalndia, no delta do Nger
e, particularmente, no norte da Nigria, empregaram sobretudo a fora. Tal
como na frica Ocidental Francesa, os povos da regio reagiram das maneiras
mais diversas  ocupao, optando por uma poltica de confronto, de aliana, de
submisso ou pela combinao das diferentes opes. Vamos examinar mais de
perto o que se passou no pas Ashanti no sul e norte da Nigria.

     O pas Ashanti (Costa do Ouro)
    Em nenhuma outra parte da frica ocidental houve to longa tradio de
luta entre os africanos e os europeus como entre os Ashanti e os britnicos na
Costa do Ouro. Os conflitos surgiram por volta de 1760 e culminaram com um
choque militar em 1824: os Ashanti bateram as foras britnicas e seus alia-
dos, matando-lhes o comandante, sir Charles MacCarthy, ento governador da
Costa do Ouro39. Dois anos mais tarde, os ingleses foram  desforra na batalha
de Dodowa. Em 1850 e 1863, a guerra foi evitada por pouco, mas entre 1869
e 1872 os Ashanti lanaram um ataque triplo que redundou na ocupao de
praticamente todos os Estados costeiros e meridionais da Costa do Ouro. Para
rechaar os Ashanti, o governo britnico lanou por sua vez uma das campa-
nhas mais bem organizadas da poca, sob o comando de um dos mais clebres
oficiais ingleses do seu tempo, o general Garnet Wolseley. Equipados com as
armas mais modernas, seus soldados conseguiram fazer recuar o exrcito dos
Ashanti para a outra margem do rio Pra, ocupar e saquear Kumasi em fevereiro
de 1874, aps uma derradeira tentativa de resistncia desesperada do exrcito
Ashanti em Amoafo, perto de Bekwai (ver fig. 6.1)40.
    A derrota decisiva dos Ashanti pelos britnicos, em 1874, haveria de ter gra-
ves consequncias para eles, condicionando em grande medida as suas reaes


39   Para maiores detalhes sobre o levante dos Ashanti, ver FYNN, 1971, p. 19-33; BOAHEN, 1966;
     BOAHEN, 1974.
40   FYNN, 1971, p. 36-42.
148                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



entre 1880 e 1920. A primeira consequncia, evidentemente, foi a desintegrao
do imprio Ashanti. Pelo tratado de Fomena, os Ashanti reconheciam a inde-
pendncia de todos os Estados vassalos localizados ao sul do Pra. Aproveitando
a debilitao do poderio militar dos Ashanti, os Estados vassalos do norte do
Volta tambm se separaram. At o que ainda restava do imprio comeava agora
a esboroar. No desejo de impedir a sua restaurao, os britnicos incitaram alguns
dos Estados membros da Unio Ashanti a proclamar a sua independncia, pelo
que Dwaben, Kokofu, Bekwai e Nsuta comearam a desafiar o asantehene41. O
conflito entre Kumasi e Dwaben redundou de fato numa guerra civil, a qual ter-
minou com a derrota de Kumasi e provocou a emigrao em massa da populao
para o protetorado e a colnia da Costa do Ouro, que os britnicos acabavam
de constituir. Alm disso, o asantehene foi destitudo, principalmente em funo
dos resultados da guerra de 1874. Com a morte de seu sucessor, ocorrida uns
sete anos depois, a sucesso desencadeou uma guerra civil e somente em 1888
 que Prempeh I conseguiu impor-se como novo asantehene.
    Felizmente, Prempeh se mostrou  altura da crise que o esperava. Em trs
anos chegou a reconstituir a Unio (ou Confederao Ashanti) e at conven-
ceu o Dwaben a reintegr-la. Alarmados por sua vez com o renascimento dos
Ashanti e a concorrncia francesa e alem na regio, os britnicos propuseram
a eles que se colocassem sob o seu protetorado. A recusa, categrica mas polida,
que Prempeh ops  oferta vem citada em outra parte42. Prempeh, em seguida,
atacou e derrotou os Nkoransa, os Mo e os Abeas em 1892. Os britnicos rea-
giram propondo a instalao de um residente em Kumasi, em troca do paga-
mento de uma renda anual ao asantehene e aos principais reis dele dependentes.
O asantehene no s rejeitou a proposta como enviou uma misso  rainha da
Inglaterra, dotada de vastos poderes "para expor  (Sua) Majestade diversos
problemas referentes ao bom estado do (seu) reino"43. Essa misso diplomtica
deixou Kumasi em novembro de 1894 com um squito de mais de 300 pessoas.
Chegou a Cape Coast em 10 de dezembro e partiu para a Inglaterra em 3 de
abril de 1895.
    As autoridades britnicas no quiseram receb-la e, antes mesmo da sua
partida, instruram o governador da costa a intimar o asantehene a que acei-
tasse um residente e pagasse a indenizao de guerra de 50 mil onas de ouro
imposta aos Ashanti em 1874. Naturalmente, o asantehene recusou dobrar-se

41    Ibid., p. 43.
42    Ver o captulo 1.
43    WILKS, 1975, p. 637-41.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914                  149



ao ultimato, mesmo porque ainda no sabia dos resultados da misso enviada
a Londres.
   Os britnicos, aproveitando o pretexto da recusa, organizaram uma grande
expedio contra os Ashanti, sob o comando de sir Francis Scott. Este tomou
Kumasi em janeiro de 1896 sem disparar um nico tiro, j que Prempeh e seus
conselheiros tinham resolvido no entrar em luta com os britnicos e aceitar o
seu protetorado. Prempeh, a rainha-me, seus tios e alguns chefes militares, no
obstante, foram detidos e deportados, primeiro para Serra Leoa e depois para
as Seychelles (ver fig. 6.4)44.
   Por que os Ashanti decidiram no se opor, ento, aos britnicos? Felizmente,
dispomos da resposta do prprio Prempeh, dada por ele durante o exlio, nas
Seychelles. Pressionado a combater pelos seus chefes, Prempeh comeou por
lhes lembrar a guerra civil em Kumasi e o papel pacificador que os britnicos
tinham desempenhado na poca, bem como a interveno deles no seu acesso
ao trono; depois, acrescentou:
     "Depois deste favor que as autoridades britnicas me fizeram, no me decido a
     combater as suas tropas, mesmo que me torne prisioneiro delas. Alm disso, prefiro
     me render, se for esse o preo da vida e da tranquilidade do meu povo e dos meus
     compatriotas"45.
    O desventurado Prempeh pensava que podia romper com a tradio e recor-
rer  diplomacia em vez das armas, naquela poca de spera concorrncia impe-
rialista. Mas, levando em conta o que se tinha passado em 1874 e a incontestvel
superioridade militar dos britnicos, sua deciso se revelaria a mais realista, a
mais sensata e a mais digna.

     Sul da Nigria
    As iniciativas e reaes dos nigerianos em face dos britnicos foram to mul-
tiformes como os ardis e os meios empregados por estes ltimos para estender
a sua dominao ao conjunto da Nigria atual. O pas Ioruba foi conquistado
pelos missionrios e pelas autoridades de Lagos, os Oil Rivers pelos missionrios
e pelos cnsules, e o norte da Nigria ao mesmo tempo pela National African
Cornpany (que se transformaria, em 1886, na Royal Niger Company  RNC)
e pelas autoridades britnicas. As principais armas utilizadas pelos britnicos


44   BOAHEN, 1977.
45   Ibid.
                                                                                                                                                                   150
                                                                                                                                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935
figura 6.3 Nana Prempeh I (c. 1873-1931) no exlio nas Seychelles, cerca de 1908. A mulher sentada  sua direita  a famosa Nana Yaa Asantewaa, rainha de
Edweso e alma da rebelio Ashanti de 1900;  esquerda de Nana Prempeh esto seus pais. (Chapa fotogrfica batida em torno de 1908 por S. S. Ohashi e reproduzida
em 1924 pela firma McCorquodale de Londres, para a exposio de Wembley. Foto: Susan Hopson)
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914            151



foram a diplomacia e a interveno militar. As reaes dos nigerianos, por con-
sequncia, vo da luta aberta s alianas e submisso temporrias.
    Foi graas aos missionrios, essencialmente, que a influncia e o comrcio
britnicos, limitados de incio a Lagos (ocupada desde 1851), alcanavam a
maior parte do pas Ioruba. Desde 1884 os britnicos assinaram tratados com
numerosos chefes Ioruba sobre a abolio do trfico de escravos, o desenvol-
vimento das trocas e a instaurao do protetorado. Em 1886, a administrao
britnica conseguiu igualmente convencer Ibad e a coalizo Ekitiparapo (com-
preendendo os Ekiti, os Ijesha e os Egba) a assinar um tratado de paz que punha
fim  guerra em que estavam envolvidos desde 1879. Que os britnicos tenham
sido to influentes no pas Ioruba desde 1886 no nos deve surpreender. Alm
da atividade dos comerciantes e dos missionrios europeus anterior s guerras,
os Ioruba, devastados por lutas intestinas desde os anos de 1850, estavam fati-
gados de embates e aspiravam  paz, o que explica o fato de eles terem aceito a
interveno dos britnicos. At ento, Ijebu era o nico Estado do pas Ioruba
que havia efetivamente resistido aos missionrios, aos comerciantes britnicos e
 administrao de Lagos. Ansiosos por conquistar o pas Ioruba desde comeos
da dcada de 1890, os britnicos resolveram dar-lhe uma lio e, dessa forma,
mostrar aos outros Estados Ioruba que toda resistncia era intil46. A pretexto de
uma "afronta" que teria sido feita ao governador Denton em 1892, os britnicos
lanaram contra os Ijebu uma expedio cuidadosamente preparada, com mil
homens armados de fuzis, metralhadoras e um canho Maxim. Os Ijebu no se
acovardaram, levantando um exrcito entre 7 mil e 10 mil homens. Apesar da
sua enorme superioridade numrica e do fato de alguns deles terem armas de
fogo, os Ijebu foram batidos47. Parecia que todos os restantes Estados Ioruba
tinham extrado uma lio desta invaso e j no surpreende que, entre 1893
e 1899, Abeokuta, Ibad, Ekiti-Ijesa e Oyo aceitassem assinar um tratado e
receber residentes ingleses (ver fig. 6.1); se os britnicos bombardearam Oyo em
1895, foi somente para rematar a submisso do alafin. Abeokuta permaneceu
nominalmente independente at 1914.
    Se os Ioruba, regra geral, adotaram a submisso como estratgia, no sucedeu
o mesmo com os chefes do reino de Benin e com certos chefes dos Estados
do delta do Nger. No obstante a assinatura de um tratado de protetorado, em
1892, Benin guardava a sua soberania com determinao. Semelhante atitude
no podia, evidentemente, ser tolerada na poca. Por isso, aproveitando como

46   CROWDER, 1968, p. 126-7.
47   SMITH, 1971, p. 180.
152                                                      frica sob dominao colonial, 1880-1935



motivo de interveno a morte do seu cnsul-geral interino e de outros cinco
ingleses que viajavam para Benin, os britnicos mandaram uma expedio puni-
tiva de 1500 homens contra o pas, em 1897. Malgrado o desejo do Oba de se
submeter, a maioria dos chefes levantou um exrcito para rechaar os invasores.
Mas foi derrotado e a capital se viu incendiada, depois da pilhagem de seus
bronzes preciosos48.
    No delta do Nger, assim como em muitas outras regies da Nigria, os
britnicos assinaram em 1884 tratados de protetorado com a maior parte dos
chefes. Mas, embora alguns deles, como Calabar e Bonny, tenham autorizado
os missionrios a operar em seus Estados, outros no deram essa permisso.
Alm disso, todos insistiam no direito de regulamentar o comrcio e de taxar
os mercadores britnicos. Os novos cnsules ingleses, como Hewett e Johnston,
no podiam admitir isso. Jaja de Opobo  o exemplo do chefe que fez frente
aos cnsules e aos missionrios britnicos (ver fig. 6.5). Obrigou os mercadores
desta nacionalidade a pagar impostos e ordenou a paralisao total do comrcio
no rio, at que determinada firma britnica cumprisse o pagamento. O cnsul,
Johnston, mandou-o parar com a exigncia de tributos aos seus compatriotas,
mas Jaja de Opobo, em vez disso, enviou uma misso junto do Foreign Office
para protestar contra essa ordem. Como Jaja no queria ceder, apesar de o cnsul
ter ameaado bombardear a sua cidade com as canhoneiras britnicas, em 1887
Johnston atraiu-o a bordo de um navio, portando um salvo-conduto, e o deteve,
expedindo-o para Acra49, onde foi julgado e deportado para as Antilhas. Estu-
pefatos com esta forma de tratar um dos chefes mais poderosos e mais ricos da
regio, e sofrendo j de dissenses internas, os outros Estados do delta  Velho
Calabar, Novo Calabar, Brass e Bonny  renderam-se e aceitaram as comisses
administrativas impostas por Johnston.
    Outro chefe que tambm desafiou os britnicos foi Nana, governador do rio
no reino de Itsekiri. A exemplo de Jaja, quis regulamentar o comrcio no rio
Benin, o que levou os britnicos a formar um exrcito para lhe tomar a capital.
A primeira tentativa, que se deu em abril de 1894, foi rechaada, mas a segunda,
em setembro, teve xito. Nana fugiu para Lagos, onde se rendeu em pessoa
ao governador britnico, que prontamente o julgou e deportou, primeiro para
Calabar e depois para a Costa do Ouro50.



48    WEBSTER e BOAHEN, 1967, p. 247-9.
49    CROWDER, 1968, p. 119-23; O. IKIME, 1973, p. 10.
50    IKIME, 1971, p. 227-8.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914               153



     Conquista e reaes no norte da Nigria
    Se a conquista e ocupao do sul da Nigria foi obra do governo britnico,
ajudado pelos comerciantes e pelos missionrios, no norte da Nigria isso foi
realizado pela National African Company (Royal Niger Company  RNC 
desde 1886) e pelo governo. No norte, o principal mtodo empregado foi, como
fizeram os franceses no Sudo ocidental, a interveno armada. No entanto, ela
foi precedida por uma srie de tratados subscritos pelos chefes do norte da Nig-
ria e pela RNC. Para ela, era uma forma de reservar a regio para os britnicos
e de contrariar os apetites franceses e alemes, que avanavam, respectivamente,
do oeste e do leste.
    Tendo sido o princpio da ocupao efetiva estabelecido pela Conferncia de
Berlim, a RNC foi obrigada a intervir, para se antecipar aos franceses e alemes. O
caminho para o norte atravessava Ilorin e Nupe, ambos determinados a defender
a sua independncia e soberania. Nupe foi invadido, portanto, em 1897. Segundo
D. J. M. Muffett, os efetivos da coluna "compunham-se do major A. R. Arnold,
comandando51 europeus, oficiais ou no incluindo sir George Goldie em pessoa  e
507 soldados agrupados em sete companhias, apoiados por 565 carregadores. O
armamento pesado compreendia dois canhes Whitworth de carregar pela culatra,
um para granadas de 12 libras e o outro de nove libras, cinco peas de carregar
pela boca para granadas de sete libras e seis metralhadoras Maxim".
    A coluna era escoltada por uma flotilha de 11 embarcaes. O etsu de Nupe
e seu importante exrcito, calculado entre 25 mil e 30 mil cavaleiros e infantes,
equipados sobretudo com armas tradicionais (arcos e flechas, lanas e espadas),
defenderam-se corajosamente, mas os britnicos acabaram vencendo; o etsu
foi destronado e substitudo por uma personalidade mais dcil. Nupe perdeu a
batalha porque no tinha compreendido, como salientou Crowder, que
     uma carga de cavalaria atacando de frente um inimigo armado de fuzis de tiro
     rpido, de canhes e de metralhadoras Maxim constitui a pior estratgia militar
     possvel52.
   Depois, foi a vez de Ilorin, ainda no mesmo ano. Aps se bater valentemente,
o Estado teve de submeter-se  RNC.
   Estas vitrias, no entanto, no impressionaram os chefes dos outros Estados
do norte. Pelo contrrio, todos os emires, salvo o de Zaria, impelidos pelo dio


51   MUFFETT, 1971, p. 283-4.
52   CROWDER, 1968, p. 131.
154                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 6.4   Jaja (c. 1821-1891), soberano do Estado de Opobo, no delta do Nger. (Foto: Longman.)
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914                                    155



implacvel ao infiel, estavam antes decididos a morrer do que a entregar seu
pas e a renunciar a sua f. Conforme diria o sulto de Sokoto a Lugard, em
maio de 1902,
     entre ns e vs no pode haver outra relao que no seja aquela entre muulmanos
     e incrus [...] a guerra, como o Todo-Poderoso nos mandou53.
   Os britnicos tiveram, portanto, de organizar uma srie de campanhas 
contra os Kontangora em 1900, os Adamawa em 1901, os Bauchi em 1902, os
Kano, Sokoto e Burwuri em 190354. Todos estes emires se mostraram  altura
da situao, mas, sendo a luta muito desigual, contra um inimigo equipado com
metralhadoras Maxim e canhes estriados de sete libras, de carregar pela boca,
tinham de se declarar vencidos.


     Reaes dos africanos na frica ocidental, 19001914
    Conforme vimos, em 1900 todos os esforos envidados pelos africanos para
salvaguardar a sua soberania e independncia foram inteis. No decurso do
perodo estudado, compreendido entre 1900 e o comeo da Primeira Guerra
Mundial, diversos sistemas e mtodos seriam empregados para administrar
e sobretudo explorar as novas possesses. Como diria Angoulvant, nomeado
governador da Costa do Marfim em agosto de 1908:
     O que tem de ser colocado antes de tudo  o princpio indiscutvel da nossa autori-
     dade [...] Da parte dos indgenas, a aceitao de tal princpio deve se traduzir pela
     deferncia na acolhida, pelo respeito absoluto aos nossos representantes, sejam eles
     quais forem, pelo pagamento integral do imposto  taxa uniforme de 2,50 francos,
     pela boa cooperao dada  construo de caminhos e de estradas, pela aceitao do
     pedgio pago, pela observao de nossos conselhos [sic] relativos  necessidade do
     trabalho, pelo recurso  nossa justia [...] As manifestaes de impacincia ou de
     falta de respeito para com a nossa autoridade, as faltas deliberadas de boa-vontade,
     tm de ser reprimidas sem demora55.




53   MUFFETT, 1971, p. 284-7.
54   As campanhas britnicas no norte da Nigria e a corajosa resistncia dos dirigentes so perfeitamente
     conhecidas para serem aqui discutidas. Para maiores detalhes, ver MUFFETT, 1971; ADELEYE, 1971;
     LAST, 1967.
55   Apud SURET-CANALE, 1971, p. 97-8.
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    Em todas as novas colnias, os objetivos acima definidos foram levados
a cabo mediante os mtodos que acabam de ser expostos. Foram nomeados
administradores de distrito e administradores itinerantes, promulgados novos
cdigos e novas leis, chefes confirmados ou depostos e outros designados, bai-
xados impostos diretos e indiretos e exigido o trabalho forado para a abertura
de estradas e vias frreas. Todas essas medidas, naturalmente, suscitaram as mais
variadas reaes.
    No decurso do segundo perodo, se os fins no eram sempre os mesmos,
em compensao os meios utilizados pelos africanos da costa ocidental para os
atingirem eram idnticos. Os objetivos essenciais configuravam trs tipos: recu-
perar a independncia e a soberania perdidas, o que implicava a plena rejeio
da dominao colonial; procurar corrigir ou retificar certos abusos ou certos
aspectos opressivos do colonialismo; procurar acomodar-se. A estratgia utili-
zada neste perodo no foi a submisso nem a aliana, mas antes a resistncia
por vrias formas: revoltas e rebelies, migraes, greves, boicotes, peties, envio
de delegaes e, finalmente, contestao ideolgica. Durante esta fase, o poder
permaneceu praticamente o mesmo da fase entre 1880 e 1900, ou seja, ficou nas
mos dos chefes tradicionais. Vamos fazer um breve exame de tais estratgias.
    O mtodo mais comum na frica ocidental, durante este perodo, foi a
rebelio ou a revolta. Citemos, a ttulo de exemplo, a de Mamadou Lamine
no Senegal, entre 1885 e 1887; a de Fode Silla, o rei marabuto de Kombo, e a
de Fode Kabba, chefe muulmano de Niamina e dos distritos de Casamance,
na Gmbia, entre 1898 e 1901; a rebelio provocada em 1898 pelo imposto de
palhota na Serra Leoa, encabeada por Bai Bureh; a dos Ashanti na Costa do Ouro
em 1900, chefiada pela rainha de Edweso, Nana Yaa Asantewaa; a de Ekumeku, de
1898 a 1900, e o levante dos Aro, de 1898 a 1902, na Nigria oriental; a rebelio
dos Bariba de Borgu e dos Somba de Atakora, no Daom, entre 1913 e 1914;
as dos Mossi em Koudougou e Fada N'Gurma, no Alto Volta, de 1908 a 1909;
o levante de Porto Novo no Daom e as revoltas dos Baule, Akusse, Sassandra
e dos Guro na Costa do Marfim, entre 1900 e 1914, assim como os numerosos
levantes verificados em diversos lugares da Guin, entre 1908 e 1914.  inte-
ressante notar que estas rebelies redobraram de intensidade durante a Primeira
Guerra Mundial56.


56    Para informaes mais amplas sobre todas estas revoltas, ver IKIME, 1973; AFIGBO, 1973; OLO-
      RUNTIMEHIN, 1973b; OSUNTOKUN, 1977; CROWDER, 1977c; SURET-CANALE, 1971,
      p. 93-107; CROWDER, 1968; 1971; DUPERRAY, 1978; KIMBA, 1979; YAP, 1977; MICHEL,
      1982; WEISKEL, 1980; KOFFI, 1976. Ver tambm o captulo 12 desta obra.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914            157



  Para conhecer a natureza e as razes dessas revoltas,  necessrio examinar
um pouco mais de perto trs exemplos tpicos: o da rebelio encabeada por
Mamadou Lamine, a do imposto de palhota e a de Nana Yaa Asantewaa.

     A rebelio de Mamadou Lamine
     A rebelio de Mamadou Lamine estava dirigida contra a dominao estran-
geira. Em 1880, os Soninke, disseminados pelos diversos Estados que formavam
o Alto Senegal, viviam em parte sob a autoridade dos franceses e em parte sob
a de Ahmadu. As obras de construo da linha telegrfica e da estrada de ferro
ligando Kayes ao Nger exigiam bastante mo de obra, recrutada principalmente
em meio dos Soninke. O trabalho esgotante e a precariedade das condies de
vida acarretavam elevada taxa de mortalidade. Foi essa a origem de um movi-
mento de protesto voltado no s contra as humilhaes dirias mas, em particu-
lar, contra a presena de estrangeiros57. Mamadou Lamine desempenhou o papel
de catalisador do movimento, reunindo  sua volta todas as vtimas passadas e
presentes da nova ordem social e poltica. Ele estava aureolado pelo prestgio de
uma peregrinao a Meca ao retomar ao pas, abalado por uma crise ao mesmo
tempo econmica, poltica e social. Desde seus primeiros sermes em pblico,
procurou transferir a crise para o plano religioso, pregando a estrita doutrina
Sanusiyya, que proibia aos muulmanos viver sob uma autoridade no islmica,
o que foi o suficiente para garantir a espontnea adeso dos Soninke ao seu pro-
grama. Suas viagens a Khasso, Guoy, Bambuk e Bondu suscitavam diariamente
novas adeses de compatriotas  sua causa (ver fig. 6.1) e, desde fins de 1885,
ele dispunha de importantes foras, dispostas a combater pela liberdade.
     A morte do almamy de Bondu, Boubacar Saada, protegido pela Frana, foi
para ele a ocasio de passar  ofensiva. Omar Penda, que o governo francs tinha
imposto como sucessor do falecido almamy, recusou a Mamadou Lamine auto-
rizao para atravessar o seu territrio a fim de chegar a Gmbia. Este, ento,
invadiu Bondu em 1886. Frey, que se encontrava s margens do Nger, enviou
contingentes a Kayes e a Bakel para garantir a retaguarda. Foi a que Mamadou
Lamine tratou de radicalizar o seu movimento, emprestando aos seus sermes
um nico tema: a guerra total contra os cristos58. Os Soninke condenavam os
franceses e seus aliados africanos, como Omar Penda, de Bondu, Sambala, de
Medina, bem como os fazendeiros instalados em Bakel, Medina e Kayes. Alguns


57   TANDIA, 1973, p. 83.
58   Ibid., p. 89.
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Soninke a servio dos franceses aderiram ao campo de Mamadou Lamine,
enquanto outros, instalados nos postos franceses, transmitiam-lhe informaes
sobre os movimentos de tropas do adversrio.
   Em face de um inimigo dotado de armamento superior, Mamadou Lamine
contava com a superioridade numrica e o fanatismo das suas tropas, convencidas
de que estavam lutando por Deus e pela ptria. Sua derrota em Bakel o levou a
adotar a ttica da guerrilha. Em maro de 1886, Mamadou Lamine decidiu ata-
car Bakel, smbolo da presena francesa na regio e da humilhao dos Soninke.
Organizou ento o bloqueio da cidade, ocupando todas as vias de acesso com suas
tropas. O capito Jolly, que procurava desatar o n atacando os Soninke com base
em Koungani, teve de bater precipitadamente em retirada, deixando dez mortos
e um canho atrs de si. Mamadou se lanou ento ao assalto da cidade,  frente
de 10 mil homens, mas o ataque fracassou. Parecia certa a vitria dos atacantes,
quando o seu quartel-general foi destrudo por uma granada. Na confuso que se
seguiu, os guerreiros de Mamadou Lamine fugiram59, mas depois de ter cortado,
por ordem dele, a linha telegrfica entre Bakel e Kayes.
   A experincia de Bakel tinha ensinado a Lamine que, com as armas de
que dispunha, jamais poderia tomar os postos fortificados franceses. Portanto
voltou-se para a guerra de guerrilhas. Regressado do Nger, Frey aterrorizava as
populaes de Guidimakha, para for-las a abandonar a causa de Mamadou
Lamine, incendiando as aldeias, confiscando as colheitas e o gado. Semelhante
poltica s podia reforar os Soninke na sua resoluo de desembaraar o pas
dos franceses. Mamadou Lamine aproveitou a estao das chuvas de 1886
para reorganizar as suas foras. Instalou o quartel-general em Diana, na Alta
Gmbia, onde construiu uma fortaleza que se tornou centro de propaganda e
base de operaes. Em julho, os Soninke atacaram Senoudebou, reconquistaram
Boulebane e executaram Omar Penda, protegido francs de Bondu60. Depois de
1887, a aliana entre Gallini e Ahmadu contra os Soninke precipitou o fracasso
da revolta. Atacado pelo exrcito de Ahmadu, o filho de Mamadou, Souaibou,
viu-se obrigado a abandonar Diafounou e Guidimakha nas mos do filho de Al
Hadj Umar. Foi feito prisioneiro e executado quando se esforava para alcanar
o pai. Em dezembro de 1887, Lamine era finalmente batido em Touba-Kouta
pelos franceses, com a ajuda de auxiliares de Alta Casamance, fornecidos por
Moussa Molo.


59    Ibid., p. 92.
60    Ibid., p. 95.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914                  159



     A rebelio provocada pelo imposto de palhota
    A rebelio provocada pelo imposto de palhota, em 1898, foi uma reao dos
Temne e dos Mende de Serra Leoa, diante do reforo do domnio britnico pela
nomeao de administradores de distrito, pelo desenvolvimento da fora armada,
pela abolio do trfico e da escravido, pela promulgao da lei do protetorado
de 1896, que habilitava as autoridades a dispor dos terrenos baldios e, final-
mente, pela imposio no protetorado de uma taxa anual de cinco xelins sobre
as habitaes de duas peas e de 10 xelins sobre as de maiores dimenses61.
    Decidindo por unanimidade no pagar o imposto, os chefes Temne
revoltaram-se contra as ordens de um deles, Bai Bureh (ver fig. 6.6). Junto com
os Mende, que vieram engrossar as suas fileiras, eles representavam perto de
trs quartos do protetorado. Os rebeldes atacaram e pilharam feitorias, matando
funcionrios e soldados britnicos, bem como todos os suspeitos de colaborar
com a administrao colonial. Como informa um administrador de distrito em
abril de 1898,
     o objetivo parece ser o massacre de todos os serra-leoneses (isto , os crioulos de
     Freetown) e todos os europeus, e  o que est acontecendo. No existe mais comr-
     cio no pas  pois vrios comerciantes foram mortos e seus depsitos queimados62.
   Em maio de 1898, os exrcitos rebeldes chegaram a cerca de 40 km de Freetown,
e Lagos teve de despachar s pressas duas companhias de soldados para defender a
cidade.
   Qual era a exata natureza dessa revolta? O governador britnico de Serra
Leoa, que foi inteiramente colhido de surpresa, atribua a revolta  assim como
a resistncia geral ao colonialismo, ento em plena expanso  " crescente
conscincia poltica do africano,  confiana cada vez maior no seu valor e na
sua autonomia". Segundo ele,
     o indgena comea a compreender a fora que representa, ao ver a importncia que o
     homem branco d aos produtos do seu pas e ao seu trabalho, de modo que o branco
     no poder mais, no futuro, aproveitar-se tanto como antes da sua simplicidade e da
     sua ignorncia do mundo63.




61   Estas informaes foram extradas de LANGLEY, s.d.
62   Ibid.
63   Ibid.
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figura 6.5 Bai Bureh (c. 1845-1908), chefe da rebelio provocada pelo imposto de palhota, em 1898.
(Desenho ao vivo executado pelo tenente H. E. Green, do 10 Regimento da frica ocidental. (Fonte: BBC
Hulton Picture Library.)
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    A anlise do governador Cardew  justa e se aplica igualmente  maior parte
das rebelies e das operaes de guerrilha que a frica ocidental conheceu entre
fins da dcada de 1890 e 1914.

     A revolta chefiada por Nana Yaa Asantewaa
     A exemplo da rebelio contra o imposto de palhota, em 1898, o levante dos
Ashanti, em 1890, foi provocado pela vontade dos britnicos de consolidar o seu
domnio sobre aquele povo graas  destituio de vrios chefes que lhes eram hos-
tis,  nomeao de indivduos que, conforme a tradio, no estavam qualificados
para substitu-los e  imposio de uma taxa de quatro xelins por cabea, a ttulo
de indenizao da guerra de 1897. A insatisfao irrompeu quando o governador
britnico, Arnold Hodgson, exigiu o Tamborete de Ouro para se sentar. Ora, o
Tamborete de Ouro era para os Ashanti o que de mais sagrado possuam no
mundo, pois o consideravam o smbolo de sua alma e de sua sobrevivncia como
nao. Semelhante exigncia tinha, portanto, de desencadear a revolta instant-
nea de praticamente todos os Estados importantes, os quais se sublevaram sob o
comando da rainha de Edweso, Nana Yaa Asantewaa64 (ver fig. 6.4).
     As foras Ashanti atacaram o governador e seu squito, que tiveram de se
refugiar no forte de Kumasi, imediatamente cercado. Depois que o governador e
seu pessoal conseguiram sair do forte, os Ashanti enfrentaram por muitas vezes
os britnicos em batalhas campais de abril at novembro de 1900, data em que
Nana Yaa Asantewaa foi presa e deportada para as Seychelles, em companhia
de vrios generais Ashanti.
     Revoltas do mesmo gnero, acompanhadas de severos combates e de opera-
es de guerrilha, multiplicaram-se na Costa do Marfim, em razo dos mtodos
brutais (sobretudo o trabalho forado e a tributao exagerada) do governador
Angoulvant, que chegava  crueldade para consolidar o domnio dos france-
ses no pas e facilitar a explorao da colnia. A resistncia dos Baule, que se
manifestou em 1908 e continuou at 1910, foi reprimida com uma brutalidade
e uma crueldade sem precedentes nos anais da resistncia africana (ver fig. 6.7).
No final do conflito, a populao Baule tinha decado de 1 500 000 em 1900
para 260 mil em 191165. Os vizinhos dos Baule  os Guro, os Dan e os Bete
 resistiram at 1919.


64   Para maiores detalhes, ver FYNN, 1971, p. 46-9.
65   SURET-CANALE, 1971, p. 95-103. Para maiores detalhes sobre a fase final da resistncia dos Baule,
     ver WEISKEL, 1980, p. 172-210; BONY, 1980, v. 1, p. 17-29.
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      Migrao em massa
    Mas as revoltas e insurreies no foram as nicas formas de resistncia
adotadas pelos povos da frica ocidental, entre 1900 e 1914. Um dos mtodos
mais generalizados consistia em emigrar em massa, em protesto contra a dureza
do regime colonial; foi empregado principalmente nas colnias francesas, onde,
incapazes de se sublevar, dada a presena de unidades militares aquarteladas
nas partes controladas, os africanos preferiam fugir a sofrer medidas que eles
julgavam opressivas e humilhantes. Foi assim que, entre 1882 e 1889, grande
parte da populao Peul dos subrbios de Saint-Louis emigrou para o imprio
de Ahmadu. Dos 30 mil Peul que a cidade contava em 1882, no restavam mais
que 10 mil em 1889. Em 1916 e 1917, mais de 12 mil pessoas deixaram a Costa
do Marfim pela Costa do Ouro. No decurso do mesmo perodo, tambm se deu
importante emigrao do Senegal para a Gmbia, do Alto Volta para a Costa
do Ouro e do Daom para a Nigria66.
    Cumpre salientar que estas rebelies e migraes eram essencialmente obra
de rurcolas, cujos contatos diretos com europeus remontavam apenas s dca-
das de 1880 e 1890. Nas regies costeiras e nos novos centros urbanos, onde
vivia a elite instruda e onde comeava a surgir uma classe operria, as reaes
pareciam menos violentas. Tratava-se de greves, boicotes, protestos ideolgicos,
artigos nos jornais e, sobretudo, envio de peties e de delegaes aos admi-
nistradores coloniais da localidade e do governo central, por diversos grupos e
movimentos.

      Greves
    A greve tornou-se uma forma de protesto, essencialmente utilizada aps
a Primeira Guerra Mundial, mas o perodo anterior j registra diversas: a dos
ferrovirios da linha Dakar-Saint-Louis em 1890, a das mulheres daomeanas
que trabalhavam no Camares em 1891, a dos serventes de pedreiro de Lagos
que reclamavam aumento de salrio em 1887, que Basil Davidson qualificou
como "a primeira greve colonial importante"67.
    Em 1918-1919, teve lugar a greve dos remadores de Cotonou e de Grand
Popo, no Daom, e em 1919 a primeira greve dos estivadores no porto de
Conakry, na Guin68.

66    ASIWAJU, 1976b.
67    DAVIDSON, 1978b; HOPKINS, 1966b.
68 SURET-CANALE, 1977, p. 46-50.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914                              163




figura 6.6a Levante na Costa do Marfim no incio da dcada de 1900: a cabea decepada de um africano
exposta para exemplo. (Foto: Harlingue-Viollet.)




Figura 6.6b Costa do Marfim: o tenente Boudet aceita a rendio dos chefes tradicionais. (Foto:
Harlingue-Viollet.)
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      Protesto ideolgico
    A contestao ideolgica surgiu neste perodo, principalmente no plano
religioso: entre os cristos, os muulmanos e os adeptos da religio tradicional.
Como demonstrou B. O. Oloruntimehin, os adeptos da religio tradicional, entre
os Mossi do Alto Volta, os Lobi e os Bambara do Sudo francs, uniram-se para
combater quer as religies crist e muulmana quer a difuso da cultura francesa.
Os muulmanos, mais particularmente os do Sudo ocidental, reativaram o
Mahdismo ou fundaram movimentos como o Mouridismo, sob a direo do
xeque Ahmadu Bamba, ou o Hamalhismo do xeque Hamallah, para protestar
contra a presena francesa69. Os cristos africanos, principalmente os das col-
nias britnicas da frica ocidental, tambm se revoltaram contra a dominao
dos europeus nas igrejas e contra a imposio da cultura e da liturgia europeias.
Da resultaram cises que trouxeram consigo a criao de igrejas messinicas,
milenaristas ou etopes, dotadas de liturgias prprias e de dogmas de carter
nitidamente africano. Foi assim, por exemplo, que em abril de 1888 apareceu a
Nature Baptist Church, primeira igreja africana da Nigria70.

      Associaes de elite
   Um pouco por toda parte, os africanos instrudos fundaram, sobretudo nos
centros urbanos, numerosos clubes e associaes, que lhes serviam de plataforma
para protestar contra os abusos e as injustias do colonialismo durante este
perodo. Tais associaes recorriam principalmente a meios como jornais, peas
de teatro, folhetos e panfletos71. A ttulo de exemplo de grupos que agiam como
"comisses de vigilncia do colonialismo", citaremos a Aborigines Rights Protec-
tion Society (ARPS), formada na Costa do Ouro em 1897, o Clube dos Jovens
Senegaleses, fundado em 1910, a Peoples Union e a Anti-Slavery and Abori-
gines Protection Society, criadas na Nigria em 1908 e 1912, respectivamente.
A mais ativa foi, de longe, a ARPS. Tinha sido criada para protestar contra o
projeto de lei fundiria de 1896, que visava permitir o domnio da administrao
colonial sobre todas as terras pretensamente baldias ou desocupadas. Depois de
enviar uma delegao a Londres, em 1898,  presena do secretrio de Estado
das Colnias, esse projeto de lei celerada foi retirado. A sociedade apresentou
em seguida uma srie de peties  administrao local, bem como ao Colonial

69    OLORUNTIMEHIN, 1973b, p. 32-3.
70    AYANDELE, 1966, p. 194-8.
71    OMU, 1978.
Iniciativas e resistncia africanas na frica ocidental, 1880-1914            165



Office, protestando contra diversos projetos de lei em elaborao. Enviou outras
duas delegaes  Inglaterra: uma em 1906, exigindo a revogao do decreto
sobre as cidades de 1894, e a segunda em 1911, para denunciar o projeto de
lei sobre as florestas de 1910. Foi, certamente, na frica ocidental, o porta-voz
mais eficaz da elite e dos dirigentes tradicionais, bem como o maior adversrio
do colonialismo antes do surgimento do National Congress of British West
Africa, depois da Primeira Guerra Mundial. Na frica Ocidental Francesa, o
Clube dos Jovens Senegaleses, criado em 1910, tambm reclamava ativamente
a igualdade de direitos.
    Fica evidente, a partir do que vimos, que os povos da frica ocidental mobi-
lizaram todo um arsenal de estratgias e de tticas para combater, primeiro a
instaurao do regime colonial, depois  ante o malogro das primeiras tentativas
 certas medidas ou instituies do sistema. Em conjunto, as diversas estratgias
e medidas se revelaram inoperantes e, no final do perodo estudado, o colonia-
lismo estava solidamente implantado em toda a frica ocidental.


    As causas do insucesso
    Todas as tentativas de resistncia e de insurreio armada fracassaram, por-
tanto, ao menos se considerarmos apenas os resultados imediatos. Embora no
faltassem aos habitantes da frica ocidental coragem nem cincia militar, esta-
vam em grave desvantagem relativamente aos invasores e no dispunham de
nenhuma compensao para a inferioridade tcnica de seu armamento. Claro,
conheciam melhor o pas, e a dureza do clima, que obrigava os europeus a
interromper operaes em certos perodos do ano, s vezes lhes proporcionava
um pouco de descanso. Mas o grosso das tropas conquistadoras, comandado por
oficiais europeus, era composto de fuzileiros africanos, que no estavam portanto
fora do seu elemento. Alm disso, era frequente, seja na frica ocidental seja
no Maghreb (ver captulo 5), que os defensores no contassem com a vanta-
gem da superioridade numrica. Efetivamente, o exrcito regular do invasor
era muitas vezes seguido de milhares de auxiliares africanos, originrios de
territrios anexados ou de protetorados, cujo papel principal consistia em pilhar
sistematicamente o pas em conflito com o protetor deles, a fim de abalar a sua
organizao interna. Por outro lado, os Estados da frica ocidental nunca che-
garam a estabelecer uma aliana orgnica, que obrigasse os inimigos a combater
em vrias frentes ao mesmo tempo. Certos Estados perceberam claramente a
necessidade dessa aliana, mas as tentativas em tal sentido no deram resultado.
166                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



Os resistentes, na sua maioria, recorreram tarde demais  ttica da guerrilha,
depois que a derrota lhes ensinara que a guerra clssica e o sistema defensivo das
tatas no funcionavam diante de um inimigo dotado de superior capacidade de
fogo. Cabe ainda lembrar que, nos termos da Conveno de Bruxelas de 1890,
os imperialistas se puseram de acordo para no vender armas aos africanos. Por
isso eles se defrontaram com graves problemas logsticos. Enfim, como no resto
do continente africano, todos os combatentes da frica ocidental, com a exceo
de Samori Tour, tiveram de lanar mo de armas obsoletas, como espingardas
velhas, arcos e flechas, contra os canhes e a metralhadora Maxim. A conjugao
de todos esses fatores  que explica a derrota dos africanos.
    Se lanarmos uma vista de olhos a este perodo pico da histria africana, a
questo que naturalmente acode ao esprito  a de saber se a resistncia no foi
uma "loucura herica", ou seja, uma atitude criminosa. No  essa a opinio dos
autores do presente captulo. Pouco importa, com efeito, que os exrcitos africa-
nos tenham sucumbido diante de inimigos mais bem equipados, se a causa pela
qual os resistentes se imolaram resta viva no esprito de seus descendentes.
Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental, 1880-1914        167



                                           CAPTULO 7


              Iniciativas e resistncia africanas
               na frica oriental, 1880-1914
                                            Henry A. Mwanzi




    Muitas pginas j se escreveram sobre as reaes africanas  penetrao e 
dominao coloniais no final do sculo XIX e comeos do sculo XX. Na sua
maioria, se no na totalidade, esses trabalhos concentram-se na dicotomia entre
"resistentes", tachados obviamente de heris, e "colaboradores", tachados no
menos evidentemente de traidores. Essa classificao  resultado das lutas nacio-
nalistas pela independncia na frica e no resto do mundo. Os envolvidos nessas
lutas tendiam a considerar-se herdeiros de uma longa tradio de combate, que
remontava aos comeos do sculo atual, se no a antes. Afirmava-se que a inde-
pendncia era uma coisa boa e que lutar por ela era natural. Em consequncia,
todos quantos se haviam oposto  penetrao europeia na frica, em defesa de
sua independncia, eram heris a serem tomados como exemplo e aos quais se
devia reservar um lugar de honra na histria do pas que tivesse ganho a inde-
pendncia atravs da resistncia  dominao colonial. Posto nestes termos, este
ponto de vista  uma tentativa de utilizar critrios do presente  de utiliz-los
retroativamente  na interpretao dos acontecimentos do passado. No perodo
colonial, as autoridades referiam-se aos que resistiam como pouco atilados, e
aos que colaboravam, como inteligentes. Os atuais historiadores nacionalistas da
frica oriental condenam os pretensos colaboradores, especialmente os chefes,
e louvam os resistentes1.

1    MURIUKI, 1974, p. 233.
168                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Estes ltimos tambm eram divididos entre os que pegavam em armas con-
tra os intrusos  resistncia ativa  e os que, embora no pegassem em armas,
recusavam-se a cooperar com os invasores  a chamada resistncia passiva. No
se fazem distines entre os ditos colaboradores. So considerados, de modo
geral, como um s grupo indiferenciado.
    Todavia o professor Adu Boahen observou, com justa razo, que  deformar
a histria da frica fazer dela um conflito de "heris" e "viles". Semelhante
concepo ignora por completo as circunstncias em que agiam os grupos e as
pessoas. As opes que se lhes ofereciam e a interpretao que eles lhes davam
podem ter sido diferentes das que lhes impuseram os polticos e intelectuais.
Parece justo, como prope Boahen, considerar os acontecimentos da poca e seus
principais protagonistas em termos de diplomacia  uma diplomacia desenvol-
vida de maneira independente ou apoiada na fora. No que diz respeito  frica
oriental da dcada de 1890, o exame de tais fatores permite abordar correta-
mente os acontecimentos que sobrevieram. Mas, como declaram R. I. Rotberg
e Ali Mazrui: "Ningum jamais ps em dvida que a introduo das normas e
da dominao ocidentais, assim como os controles que as acompanharam, foi
questionada em toda parte pelos africanos afetados"2.
    Esse questionamento, entretanto, assumiu diferentes formas. "A reao 
invaso foi determinada pela estrutura de cada sociedade  poca; embora
todas estivessem decididas a preservar sua soberania, a reao  invaso no foi
uniforme"3. A diversidade das reaes ocorria segundo o grau de coeso social,
ou outros aspectos de cada sociedade.
    Na dcada de 1890  perodo que precedeu a ocupao europeia da frica
oriental  as sociedades da regio haviam atingido diferentes etapas de organiza-
o social4. Algumas delas, como a dos Baganda e a dos Banyoro, em Uganda, a
dos Banyambo, em Tanganica (atual Tanznia), e a dos Wanga, no Qunia, tinham
elevado grau de centralizao poltica (ver fig. 7.1). Nessas sociedades, as reaes
 penetrao estrangeira foram em geral decididas pelo rei ou pelos dirigentes.
O que na Europa vigorou em certa poca, "a religio do rei  a minha religio",
resume bem essa atitude. Outros grupos, como os Nyamwezi, na Tanznia, ou os
Nandi, no Qunia, estavam em vias de constituir governos centralizados.  cos-
tume definir esse processo como de formao do Estado. A grande maioria das
sociedades dessa regio no tinha governo centralizado, mas ausncia de governo

2     ROTBERG & MAZRUI, (eds.) 1970, p. XVIII.
3     M. H. KANIKI, em M. H. Y. KANIKI (eds.), 1980, p. 6.
4     Para um estudo detalhado das sociedades tanzanianas antes da corrida colonialista, ver SHERIFF, 1980.
Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental, 1880-1914                                      169




figura 7.1    Povos e diviso poltica da frica oriental. O mapa mostra as zonas da rebelio Maji Maji.
170                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935



central no significa ausncia de governo  erro que alguns estrangeiros cometeram
por vezes ao falar das sociedades africanas no passado.
   Alm disso, as diversas sociedades haviam tido diferentes nveis de contato com
os europeus ou com os rabes, duas foras externas que nessa poca se defronta-
vam na frica oriental. De modo geral, as zonas costeiras tinham contato mais
profundo com os europeus e os rabes do que as do interior. Quanto aos povos
interioranos, trs ou quatro grupos tinham mais contato com os rabes do que os
outros. Os Akamba, no Qunia, e os Nyamwezi, na Tanznia, ocupavam-se com
o comrcio de caravanas, circulando entre o interior e a costa  fenmeno amide
designado pelo nome de comrcio de longa distncia5. Os Baganda e os Wanga do
Qunia tambm haviam tido, antes da dcada de 1890, contato com mercadores
rabes de marfim e de escravos. Aqui, igualmente, o grau de abertura s influncias
externas determinou o tipo e a extenso da resistncia de tais sociedades.
   Independentemente das influncias humanas, h ainda que ter em vista as
transformaes ecolgicas verificadas ento na frica oriental, as quais tambm
interferiram nas reaes  penetrao estrangeira. As condies atmosfricas de
toda a regio provocaram secas e consequente escassez de alimentos. Houve
ainda epidemias de peste bovina6. Neste caso tambm, algumas sociedades foram
mais atingidas do que outras pelas catstrofes naturais. As sociedades pastoris,
como os Massai do Qunia, parecem ter sofrido mais com os problemas eco-
lgicos. Algumas famlias Massai, como os Waiyaki e os Njonjo, refugiaram-se
junto de seus vizinhos Gikuyu, onde iriam desempenhar um papel diferente,
em relao tanto  penetrao colonial como ao sistema colonial que se instalou
em seguida; seu papel foi igualmente importante na sociedade ps-colonial7.
Outras refugiaram-se entre os Nandi8. Outras, ainda, ofereceram seus prstimos
ao rei dos Wanga, Mumia, no pas dos Abaluyia, como mercenrios e, depois,
aos agentes do imprio britnico, tendo feito parte do corpo expedicionrio
enviado para conquistar a regio atualmente designada por Qunia. Serviram
muito especialmente contra os Nandi9. O exemplo dos Massai mostra bem que
tipo de desagregao se produzira nas economias das vrias sociedades da rea.
Portanto, o colonialismo penetrou numa regio que j experimentava uma crise
econmica com todos os seus efeitos negativos.


5     Ver KIMAMBO, 1970.
6     RODNEY, s.d., p. 4.
7     MUNGEAM, 1970, p. 137; ver KING, K. J., 1971a.
8     MWANZI, 1977.
9     KING, K. J., 1971a.
Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental, 1880-1914             171



     Rivalidades europeias e resistncia
     africana na frica oriental
    As lutas coloniais na frica oriental envolviam trs potncias rivais: o sul-
tanato de Zanzibar, a Alemanha e a Inglaterra. Os primeiros em cena foram os
rabes de Zanzibar, que tinham interesses essencialmente comerciais na costa e
no interior relacionados com o marfim e o trfico de escravos. Antes da dcada
de 1880-1890, os negociantes rabes e swahilis contentavam-se com as ope-
raes no litoral. Mas, no final do sculo, os interesses rabes no interior da
frica oriental comearam a ser ameaados pelos interesses dos alemes e dos
britnicos, que haviam penetrado pouco a pouco na regio. Em vista dessa
ameaa, os rabes tentaram garantir para si o controle poltico de certas reas,
a fim de proteger suas concesses comerciais. Instalaram ento uma colnia
em Ujiji, s margens do lago Tanganica, e em Buganda prepararam um golpe
contra os cristos, depois de terem colaborado com eles para afastar Mwanga do
trono10. Os europeus do interior, comerciantes e missionrios, desejavam que seu
governo ocupasse a frica oriental, para lhes garantir segurana e lhes permitir
o desenvolvimento de seus empreendimentos sem problemas.
    Os mtodos de conquista europeia no foram os mesmos em todo lugar.
    De maneira geral, caracterizaram-se pelo emprego da fora, em combina-
o, quando possvel, com alianas diplomticas com um grupo contra outro.
O recurso  fora tomou a forma de invases, que tambm eram espetculos
de pilhagem. Para facilitar o avano terra adentro, foram construdas estradas
de ferro. A via frrea de Uganda (fig. 7.2), que ligava o interior do Qunia e de
Uganda ao litoral, chegou  bacia do lago Vitria em 1901.
    Os alemes tambm construram estradas e ferrovias. A primeira estrada
de ferro partiu de Tanga em 1891 e alcanou o sop dos montes Usambara em
1905.

     A reao no Qunia
   A reao africana a todos esses empreendimentos, como j ficou dito, foi ao
mesmo tempo militar e diplomtica. Mas, s vezes, caracterizou-se pelo recuo,
no cooperao ou passividade. Os Nandi do Qunia, por exemplo, opuseram-se
militarmente  construo da estrada de ferro em seu territrio. De todos os povos
do Qunia, foram eles que apresentaram a resistncia mais viva e prolongada ao

10   KING, K. J., 1971a.
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figura 7.2   Equipe volante de assentadores de dormentes na construo da estrada de ferro de Uganda. (Fonte: Royal Commonwealth Society.)
Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental, 1880-1914               173



imperialismo britnico. Essa resistncia, iniciada na dcada de 1890, s terminou
quando seu chefe foi morto, em 1905, a caminho de negociaes traioeiramente
arranjadas. O crime enfraqueceu a resistncia dos Nandi, o que possibilitou a
ocupao do territrio pelos britnicos.
    O fato de os Nandi terem conseguido resistir mais de sete anos aos ingleses
devia-se  natureza de sua sociedade. A sociedade nandi dividia-se em unidades
territoriais, chamadas pororiat. Os guerreiros de cada unidade eram responsveis
pela defesa do territrio e dormiam numa cubata comum. Esta organizao se
aproximava muito da de um exrcito regular. As tropas territoriais reuniam-se
sob o comando de um chefe tradicional, chamado orgoiyot. Era ele quem decidia
os ataques. As tropas relacionavam-se com ele atravs de um representante pes-
soal, com assento em cada conselho territorial. Sendo o territrio, mais do que o
cl, o centro da vida social nandi, no havia rivalidades entre cls. A sociedade,
por consequncia, era muito unida, coeso que lhe conferia superioridade militar
sobre seus vizinhos. Diz Matson a respeito: " surpreendente que uma tribo to
pequena como a dos Nandi tenha conseguido aterrorizar populaes muito mais
numerosas, quase impunemente, durante vrias dcadas"11.
    A coeso social e a confiana dos guerreiros tanto em si mesmos como em
seu chefe fizeram dos Nandi uma fora militar com a qual era preciso contar.
As vitrias acumuladas levaram-nos a pensar serem superiores aos outros povos,
entre os quais, os brancos. Como observa G. W. B. Huntingford: "Os Nandi se
consideravam pelo menos iguais, se no superiores, aos homens brancos; toda
estimativa das mudanas introduzidas pelo impacto de nossa civilizao deve ser
feita  luz desse fato"12. Os Nandi, portanto, resistiram com xito por mais de sete
anos  ocupao estrangeira por causa da fora combativa da sua sociedade.
    Essa atitude contrasta vivamente com a de outras comunidades do Qunia.
No centro do pas, por exemplo, cada chefe, grupo ou cl reagiu em separado
 invaso estrangeira13. A reao de Waiyaki, do grupo dos Gikuyu, constitui
um exemplo tpico disso. Seus pais, originariamente Massai, viram-se obriga-
dos, por problemas verificados no pas Massai no sculo XIX, a migrar para o
sul do pas Gikuyu. Waiyaki exercia l certa influncia, devido em parte a seus
contatos com os comerciantes das caravanas. A Imperial British East Africa
Company tinha-o como o chefe supremo dos Gikuyu. Mas seu comportamento,
conforme aponta Muriuki, "demonstrou desde o incio ter ele sincero interesse

11   MATSON, 1970, p. 72.
12   Apud ARAP NG'ENY, 1970, p. 109.
13   Ver MURIUKI (?) e MUNGEAM, 1970.
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em manter relaes amistosas com os brancos"14. Cuidou de que a expedio do
conde Teleki atravessasse sem problemas o sul do pas Gikuyu e fez um tratado
de fraternidade de sangue com Frederick Lugard, ento agente da companhia
britnica. A cerimnia da fraternidade de sangue era a mais alta expresso de
confiana entre os Gikuyu. Depois desse tratado, Waiyaki autorizou Lugard a
construir um forte em seu territrio. Mais tarde, porm, quando viu rejeitadas
por esses agentes do imperialismo britnico suas reivindicaes como a posse
de armas de fogo, Waiyaki virou-se contra eles e tomou o posto da compa-
nhia em Dagoretti. Posteriormente, mudou outra vez de ttica, aliando-se aos
estrangeiros para manter sua posio, mas foi deportado por eles. A conduta de
Waiyaki ilustra bem o fato  por vezes mal conhecido  de que ningum era
ali "colaborador" ou "resistente" a vida inteira. As pessoas mudavam de ttica
conforme as circunstncias e, provavelmente,  medida que se aprofundava sua
compreenso das foras atuantes. A situao colonial no tinha nada de esttico:
era dinmica, assim como as reaes dos africanos.
    Lenana, um Massai, tambm se aliou aos ingleses por oposio a outro setor
da sociedade Massai que queria expulsar os estrangeiros. Muitas vezes, quem se
aliava aos britnicos saa recompensado com a nomeao de chefe no sistema
colonial. Lenana, como muitos outros, foi nomeado chefe supremo dos Massai
no Qunia. A resistncia africana variava segundo a natureza das comunidades
e a maneira como cada uma percebia a ameaa  sua soberania15. Mudavam a
extenso e as formas da resistncia. Como diz Ochieng, "praticamente em todo
o Qunia houve oposio ao domnio colonial. Mais bem armados e empre-
gando grupos de mercenrios, os britnicos s impuseram sua autoridade pela
fora"16.
    No litoral, a famlia Mazrui resistiu aos artifcios da Ibeac. A resistncia foi
encabeada por Mbaruk Bin Rashid, que organizou uma guerra de flagelao
contra as foras britnicas, superiormente equipadas. Foi preciso mandar vir
tropas indianas para venc-la. Mbaruk Bin Rashid fugiu para o Tanganica e caiu
nas mos dos alemes. A resistncia dos Mazrui devia-se s tentativas britnicas
de interferncia nos assuntos internos das sociedades do litoral. Instalada em
Takarungu, no litoral do Qunia, a famlia Mazrui foi estendendo progressiva-
mente sua influncia a numerosas regies da costa. Obtendo o monoplio da
compra de cereais entre os Mijikenda, passou a controlar a venda das colheitas

14    MURIUKI, p. 152 (?).
15    ROTBERG & MAZRUI, eds., 1970, p. XVIII.
16    OCHIENG, 1977, p. 89.
Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental, 1880-1914             175



do litoral. Entre 1877 e 1883, os Giriama opuseram-se a tal controle, e estalou a
guerra entre os dois grupos. Os Mazrui foram batidos. Posteriormente, as duas
comunidades reconciliaram-se e tornaram-se scias no comrcio. A chegada dos
britnicos ameaava o acordo e a organizao interna da sociedade Mazrui, o
que motivou sua resistncia  dominao britnica.
    Em 1895, morto o vli de Takarungu, a companhia escolheu um aliado local
para suceder-lhe, em lugar de Mbaruk, cujos direitos ao trono eram mais fun-
damentados, mas que sabia-se no favorecer a presena britnica17. Foi por essa
razo que Mbaruk tentou expulsar pela fora os ingleses da costa.
    Mais para o interior, os Akamba no apreciavam nada a interferncia dos
britnicos nos seus assuntos. A fundao do posto de Machakos pela compa-
nhia, em 1898, provocou hostilidades com a comunidade local. Os agentes da
companhia pilharam as reas vizinhas, apossaram-se dos alimentos e dos bens
dos Akamba  essencialmente, cabras e bovinos. Tomaram igualmente imagens
religiosas consideradas sagradas. Em resposta, a populao local, conduzida
por Mziba Mwea, organizou o boicote ao posto em 189018, recusando-se a
fornecer-lhe alimentos. A paz s foi estabelecida quando F. D. Lugard, agente
da companhia, chegou para concluir com os Akamba um acordo, que inclua a
"fraternidade de sangue".
    No norte do Qunia, nos confins do interior do pas Kisimayu, os Ogdens
Somalis, a famlia Mazrui e os Akamba combateram a intruso inglesa. Nova-
mente foi preciso mandar vir tropas indianas para venc-los (1899). Os Taita,
que se haviam recusado a fornecer carregadores e tinham resistido  interveno
dos comerciantes de caravanas em seu pas, foram cercados, em 1897, pelas
tropas da companhia, comandadas pelo capito Nelson, que relata: "Atacaram
decididos [...] avanando contra nossos fuzis. O combate durou cerca de 20
minutos. Por fim, o inimigo fugiu em todas as direes, deixando grande nmero
de mortos, inclusive Mwangeka"19.
    O prprio capito Nelson, bem como 11 de seus homens, foi ferido pelas
flechas envenenadas dos Taita.
    Alhures, no Qunia ocidental, entre os Abaluyia, o tipo de reao foi o
mesmo: confrontos militares e alianas diplomticas. O rei dos Wanga, Mumia,
determinara-se pela diplomacia. Via nos britnicos possveis aliados no seu
intento de ampliar sua influncia a todo o Qunia ocidental, na luta contra seus

17   Ibid., p. 90.
18   Ibid., p. 91.
19   Apud ibid., p. 24.
176                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



adversrios, como os Iteso e os Luo, com os quais estava desavindo h muito
tempo. Os reis wanga tradicionalmente empregavam mercenrios. No entender
de Mumia, os britnicos no passavam de um grupo de mercenrios que podiam
ser utilizados. Paralelamente, os ingleses viam nele um agente dcil, que os
ajudaria a ampliar seu controle a toda a regio. E, de fato, a ocupao britnica
deveu-se em grande parte a Mumia.  uma dvida abertamente reconhecida por
funcionrios ingleses, entre eles, sir Harry Johnston, que escreveu:
      Desde o incio, ele [Mumia] via com bons olhos os oficiais britnicos e a ideia de
      um protetorado. Sua influncia, numa poca de muitos problemas em Uganda,
      foi importante para garantir a segurana das comunicaes britnicas com a costa
      oriental20.
   Da mesma forma se expressou um outro funcionrio colonial quando da
morte de Mumia, em 1949. O ento comissrio do distrito assistiu aos funerais
com outras autoridades do governo e terminou sua alocuo dizendo: "Assim
desaparece uma grande figura do incio da histria da frica oriental"21.

      A reao no Tanganica
   No Tanganica, o tipo de reao foi semelhante ao do Qunia: emprego da
fora e alianas diplomticas22. Mbunga entrou em choque com as foras alems
em 1891 e em 1893, enquanto o interior adiante de Kilwa lutava de armas na
mo sob o comando de Hasan Bin Omari. Os Maconde combateram a invaso
alem at 189923. Os Hehe, sob o comando de Mkwawa, bateram os alemes
em 1891, matando cerca de 29024. Os alemes trataram ento de se vingar da
derrota. Em 1894 atacaram a regio dos Hehe, tomando sua capital. Mkwawa,
porm, conseguiu escapar. Perseguido durante quatro anos por seus inimigos,
suicidou-se para no ser capturado.
   Os povos do litoral de Tanganica organizaram sua resistncia em torno da
pessoa de Abushiri25. Do ponto de vista social, a costa de Tanganica, assim
como a do Qunia, foi dominada durante sculos pelas culturas rabe e swahili.


20    Apud EGGELING, 1948, p. 199. Acrescenta Eggeling: "Uganda tem muito que agradecer a Mumia".
21    Apud EGGELING, 1950, p. 105.
22    Para um estudo detalhado das reaes das sociedades tanzanianas  invaso colonial, ver TEMU, 1980.
23    ILIFFE, 1967, p. 499.
24    ILIFFE, 1969, p. 17; ver tambm GWASSA, 1972a.
25    TEMU, 1980, p. 92-9. Para uma discusso mais aprofundada sobre a resistncia de Abushiri, ver JACKSON,
      R. D., 1970.
Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental, 1880-1914               177



A populao, mestia de africanos e rabes (os casamentos inter-raciais eram
comuns), ocupava-se do comrcio local. No sculo XIX, os rabes do litoral
intensificaram as atividades no interior,  procura de marfim e de escravos. Esse
florescente comrcio favoreceu o estabelecimento de numerosas novas cidades ao
longo da costa. A chegada dos alemes ameaava os negcios dos rabes, pois os
recm-chegados procuravam suplant-los comercialmente. As populaes locais,
em especial os rabes, trataram ento de organizar a resistncia.
    Abushiri, o chefe da resistncia (fig. 7.3), nascera em 1845, de pai rabe e me
oromo ("galla"). Era descendente de um dos primeiros colonos rabes do lito-
ral  colonos que acabaram por se considerar autctones. A exemplo de muitos
outros, opunha-se  influncia do sultanato de Zanzibar na costa e at defendia
a independncia. Na juventude, organizara expedies ao interior do pas, em
busca de marfim. Com os lucros obtidos, comprou uma fazenda e cultivava
cana-de-acar. Lanou-se tambm numa campanha contra os Nyamwezi, o que
lhe permitiu arregimentar guerreiros, mais tarde empregados contra os alemes.
Sob seu comando, os povos do litoral incendiaram um navio de guerra alemo
em Tanga, no ms de setembro de 1888, dando dois dias aos alemes para
evacuarem a costa. Depois, atacaram Kilwa, matando os dois alemes que ali
se encontravam; em 22 de setembro, assaltaram Bagamoyo com 8 mil homens.
Mas os alemes, que deram  guerra o nome de "revolta rabe", despacharam
Hermann von Wissmann, que chegou a Zanzibar em abril de 1889 e atacou
Abushiri na sua fortaleza, prximo de Bagamoyo, obrigando-o a retirar-se.
Abushiri refugiou-se no norte, em Uzigua, onde, trado, foi entregue ao inimigo
e enforcado em Pangani, no dia 15 de dezembro de 1889. A resistncia no litoral
desmoronou, por fim, quando Kilwa foi bombardeada e tomada de assalto pelos
alemes, em maio de 189026.
    No faltou quem pegasse em armas, no Tanganica, para defender a inde-
pendncia. Mas os alemes, tal como os ingleses no Qunia, tinham se tornado
mestres na arte de dividir para reinar, aliando-se a um grupo contra outro. E
encontraram bastantes aliados. Os Marealle e os Kibanga, que viviam perto do
Kilimandjaro e dos montes de Usambara  para citar apenas dois exemplos ,
estavam entre aqueles que viam nos alemes um meio de fazer amigos para ven-
cer os inimigos. Esses povos, como os Wanga do Qunia, achavam que podiam
manipular os alemes, quando, afinal, o contrrio se dava. No entanto, os rabes
da costa colocaram-se sem cerimnia ao lado dos alemes (assim como ao lado


26   ILIFFE, 1979, p. 92-7.
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figura 7.3 O chefe Abushiri (c. 1845-1889), lder da resistncia costeira  colonizao alem e britnica na
frica oriental, 1888-1889, segundo foto deixada por um viajante. (Fonte: East African Publishing House Ltd.)
Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental, 1880-1914                      179



dos ingleses, no Qunia), fornecendo o primeiro pessoal autctone para servir
ao imperialismo.

     A reao em Uganda
   O mesmo tipo de reao ao colonialismo britnico verificou-se em Uganda
(ver fig. 7.1). Entre 1891 e 1899, houve choques entre as foras de Kabarega, rei
de Bunyoro, e as de Lugard e de outros agentes britnicos. Aps vrios combates
em que suas tropas foram vencidas, Kabarega recorreu  diplomacia. Por duas
vezes tentou um entendimento com Lugard, mas este se esquivou27. Mwanga, o
kabaka de Buganda, por mais de uma vez tentou interceder pelo rei de Bunyoro,
mas em vo. Afinal, Kabarega recorreu  guerrilha  provavelmente, a primeira
do gnero na frica oriental. Evacuou Bunyoro e refugiou-se ao norte, no pas
Lango, de onde fustigou as foras britnicas em vrias ocasies. Thurston, oficial
ingls que l se encontrava na poca, assim comentou a situao:
     Kabarega emprega suas velhas artimanhas: provocar todo gnero de problemas mas
     jamais aceitar a luta aberta, preferindo recorrer aos seus mtodos favoritos de assas-
     snio. Mandou dar veneno a um chefe nosso amigo, que morreu, mas mandei matar
     o envenenador28.
    A descrio de Thurston constitui perfeito exemplo da guerrilha que se retrai
para um pas vizinho para acossar as foras de ocupao de sua ptria. Mwanga
juntou-se mais tarde a Kabarega, mas o esconderijo deles foi destrudo em 1899
e ambos os reis capturados e levados para Kisimayu, onde Mwanga morreu em
1903 (fig. 7.4). Como vemos, Kabarega e Mwanga recorreram tanto ao con-
fronto armado como  iniciativa diplomtica.
     provvel que o maior diplomata, de entre todos os chefes que enfrentaram
o avano do imperialismo na frica oriental durante a ltima dcada do sculo
XIX, tenha sido Mwanga, kabaka de Buganda  regio declarada protetorado
britnico em 1894. To logo subiu ao trono, em 1894, parecia desconfiar dos
europeus (os missionrios, na poca) e procurou restringir o contato de seu
povo com eles. Os Baganda que abraaram a f crist e se recusaram a obedecer
a suas ordens foram declarados traidores e condenados  morte29. Os cristos
atuais consideram-nos mrtires. No entanto Mwanga se ops violentamente s


27   DUNBAR, 1965, p. 82.
28   Apud ibid., p. 93.
29   OLIVER, 1951, p. 54; ver tambm ASHE, 1894, p. 55-82.
180                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



tentativas dos agentes britnicos de assumir o controle do pas, mesmo disfar-
ados de missionrios. Mas sua habilidade diplomtica tambm se manifestava
na maneira como se comportou com diversas seitas religiosas, muitas vezes em
conflito umas com as outras. Ora se aliava s duas seitas crists  protestantes
e catlicos  contra os muulmanos, por imaginar que estes se haviam tornado
muito poderosos e ameaavam seu poder no pas; ora se aliava aos muulmanos
contra catlicos e protestantes; segundo pensava, uns e outros eram perigosos
para ele. Mwanga, portanto, era adepto da regra "dividir para reinar"  regra
que as potncias coloniais to eficazmente empregaram para controlar a frica.
Quando preciso, recorria a algumas velhas tradies para expulsar todos os
estrangeiros. Tal foi o caso em 188830, quando procurou atrair todos os estran-
geiros e seus partidrios baganda para uma parada naval numa ilha do lago Vit-
ria, na ideia de os deixar a morrer de fome. Parece que havia sido uma tradio
dos reis baganda fazer manobras navais no lago. Mwanga pensava que assim se
desembaraaria dos estrangeiros. Mas o plano foi descoberto, e estes ltimos
montaram um golpe, depuseram o rei e instalaram no trono o irmo dele  que
da em diante desempenhou o papel de governante fantoche. Mwanga tentou
mais tarde, em 1889, recuperar o trono, mas, como j vimos, foi exilado em 1899
em Kisimayu, onde morreu em 1903.
    Mas tambm havia entre os Baganda os que celebraram estreita aliana com
o imperialismo britnico  era o chamado subimperialismo baganda relativa-
mente ao resto de Uganda. Agentes baganda, principalmente depois do acordo
de 1900, encarregaram-se de disseminar o colonialismo ingls por todo o pas.
Entre eles, contava-se Kakunguru, general muganda que contribuiu largamente
para a extenso do poder britnico para o norte e leste de Uganda. Foi ele, por
exemplo, quem capturou Kabarega, quando os britnicos decidiram tomar seu
esconderijo no pas Lango31. O acordo de 1900 fazia dos Baganda scios dos
ingleses na penetrao do imperialismo britnico na rea. Buganda virou um
centro de estgio, a tal ponto que grande nmero de administradores coloniais
de Uganda, no incio, era baganda. O dio ao colonialismo, por conseguinte,
voltou-se mais contra eles do que contra os prprios senhores brancos. E bom
nmero dos problemas polticos que depois afetaram o pas provm dessa velha
aliana entre os ingleses e os Baganda.




30    R. OLIVER, 1951, p. 55.
31    DUNBAR, 1965, p. 96.
Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental, 1880-1914                               181




figura 7.4 Mwanga (c. 1866-1903), ex-rei de Buganda, e Kabarega (c. 1850-1923), ex-rei de Bunyoro, a
caminho do litoral e do exlio nas Seychelles. (Fonte: Royal Commonwealth Society.)
182                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



      A frica oriental sob o domnio colonial
   Tendo acabado enfim com toda oposio e toda resistncia da parte dos afri-
canos do leste e estabelecido rigoroso controle sobre suas esferas de influncia, as
potncias coloniais resolveram transformar a regio tanto no nvel poltico como
 o que  mais importante  no nvel econmico. Uma das primeiras atividades
econmicas, conforme vimos, foi a construo de ferrovias, ligando, no Tanganica,
as montanhas de Usambara s regies de Kilimandjaro, e, no Qunia, o litoral 
bacia do lago Vitria. Com as estradas de ferro, chegaram os colonos europeus. O
objetivo era dirigir as economias da frica oriental para a exportao, tornando a
regio dependente dos arranjos econmicos feitos na Europa. O territrio deveria
transformar-se em fonte de matrias-primas e no em rea de industrializao.
   Na opinio de certos funcionrios coloniais e de colonos brancos, aquela era
uma rea  disposio. Dizia sir Charles Eliot, comissrio britnico do proteto-
rado da frica oriental:
      Temos na frica oriental a rara oportunidade de fazer dela tabula rasa, pas quase
      virgem e escassamente povoado, onde poderamos fazer o que quisssemos, regula-
      mentar a imigrao, abrir ou fechar a porta como bem nos aprouvesse32.
   No surpreende, portanto, que na qualidade de comissrio tenha encorajado
os colonos brancos a ocuparem o mximo possvel as terras altas do Qunia.
Ukambani foi a primeira rea do Qunia ocupada por eles em fins da dcada
de 1890. Mas, de todos os povos da regio, foram os Massai a perder maior
quantidade de terras devido a essa colonizao. As terras lhes foram arrancadas
duas vezes33: em 1904, quando foram transferidos para uma reserva em Laikipia,
e em 1911, quando foram novamente deslocados para ceder lugar aos colonos.
Em ambos os casos, as autoridades coloniais afirmaram que os Massai haviam
cedido aquelas terras com base num acordo. Mas, em 1911, os Massai contesta-
ram a operao e apelaram a um tribunal ingls, que, obviamente, se pronunciou
contra eles. Esses pretensos acordos desconheciam a natureza da autoridade no
pas Massai, baseada nos grupos etrios reinantes. Dado que estes no estavam
envolvidos nas negociaes, os acordos no eram aceitveis para os Massai.
Na mesma poca, colonos brancos tambm se instalaram no Tanganica. Em
1905, somavam 28434, na sua maior parte vivendo nas regies das montanhas
de Usambara e do Kilimandjaro.

32    ELIOT, 1905, p. 103.
33    SORRENSON, 1968, p. 276.
34    RODNEY, s.d., p. 5.
Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental, 1880-1914            183



    Esses imigrantes procuraram desde o incio dominar as colnias. No Qunia,
por exemplo, formaram, em 1902, uma associao de plantadores e agriculto-
res com o fim de apoiar as suas reivindicaes: queriam que as terras altas do
Qunia lhes fossem reservadas35. Embora os hindus tenham sido empregados
na construo da estrada de ferro de Uganda, foram excludos dessa rea. Eliot,
favorvel  reivindicao, confinou os hindus s terras que margeavam a linha
frrea. A poltica de excluso dos hindus das terras altas foi adotada por todos
os comissrios do protetorado e governadores coloniais posteriores a Eliot. Os
hindus reagiram constituindo associaes prprias para pressionar as autorida-
des a dividirem as terras altas. Em 1907 apresentaram um memorial ao secret-
rio de Estado das Colnias, Winston Churchill, quando de sua visita  frica
oriental. O conflito entre os dois grupos, porm, no se resolveu antes da dcada
de 1920. No incio da Primeira Guerra Mundial, as culturas de exportao (as
plantations) eram monopolizadas pelos colonos brancos, que delas excluam
tanto os africanos como os hindus. Isso veio a influenciar as reaes africanas 
presena europeia no Qunia.
    A situao era diferente no Tanganica e em Uganda. No Tanganica, para
comear pela parte meridional do pas, os africanos foram estimulados pelos
brancos  a princpio, os missionrios, depois, as autoridades coloniais  a se
dedicar s culturas de exportao, basicamente algodo e caf. Alm disso, foram
criadas fazendas coletivas para a cultura algodoeira. Em 1908, os africanos pro-
duziam dois teros das exportaes de algodo do Tanganica e, em 1912, mais
de 70% do total dessas exportaes36. A essa poca, a produo de caf afri-
cano na rea ao redor do Kilimandjaro alcanou a dos colonos. A extenso das
mudanas ocorridas no Tanganica pode ser aferida pelo volume de mo de obra
assalariada. Calcula-se que em 1931 a populao africana assalariada do pas era
de 172 mil pessoas37, ou seja, um quinto da populao masculina em idade de
trabalhar. No conjunto, "a atividade econmica da frica Oriental Alem atingia
nvel superior ao da frica Oriental Inglesa, em vsperas da Primeira Guerra
Mundial. Tambm estava mais diversificada, com um setor mineiro e diversos
setores industriais que produziam bens de consumo"38. Assim, em 1914 a orga-
nizao e o emprego da mo de obra no Tanganica haviam sido reorientados
para a produo de excedentes, que eram expropriados pelo Estado colonial e


35   TANGRI, 1967.
36   RODNEY, s.d., p. 9.
37   Ibid., p. 10.
38   Ibid., p. 14.
184                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



o comrcio europeu. Como no Qunia, os colonos do Tanganica procuravam
controlar o pas, assumindo papel dominante no decurso do perodo.
     provvel que a reorganizao econmica mais importante  em compa-
rao com o Qunia e o Tanganica  tenha ocorrido em Uganda. O acordo
de 1900 procedeu  distribuio de terras em Buganda com vistas a criar uma
classe de proprietrios fiis ao sistema colonial. Essa distribuio conduziu 
formao de diversas relaes de classe e de propriedade, desde o aparecimento
dos rendeiros e dos proprietrios de terras. Por outro lado, o acordo afirmava
que Uganda devia ser um pas onde predominaria a produo agrcola africana.
Estava a um dos fatores que serviram de barreira ao povoamento branco em
grande escala, como se v no Qunia e no Tanganica. Ao contrrio do Qunia,
mas no diferente do Tanganica, o regime colonial procurava deixar a economia
de exportao nas mos dos autctones. A produo de culturas de exporta-
o tornar-se-ia o esteio da economia ugandense. O que havia comeado em
Buganda estendeu-se finalmente a outras regies da colnia, sobretudo a oeste,
onde o clima, como o de Buganda, era favorvel. Em 1907, o algodo produzido
dessa maneira representava 35% das exportaes do pas39. De modo geral, em
vsperas da Primeira Guerra Mundial, as transaes monetrias estavam bem
desenvolvidas em Uganda, bem como no resto da frica oriental. Os campo-
neses vendiam seus produtos a comerciantes asiticos e europeus. A economia
monetria achava-se firmemente implantada na regio, estando lanadas as
bases da futura integrao ao sistema capitalista.
    As exigncias do sistema fizeram com que os africanos se defrontassem com
os processos em curso e com a maneira como eles os afetavam: a introduo
do imposto de palhota (hut tax), as requisies de mo de obra, a perda de suas
terras, a falta de liberdades polticas e a corroso de sua cultura. Os africanos
elaboraram vrios tipos de reao  positivos ou negativos , segundo a forma
como cada uma dessas medidas era vivenciada.
    A introduo de impostos no tinha tanto o objetivo  pelo menos, no
unicamente  de aumentar a receita das colnias, mas de obrigar os africanos
a deixar suas terras para se integrarem no mercado de trabalho e na economia
monetria. A mo de obra era empregada nas fazendas dos colonos e em obras
pblicas, como a construo de estradas. As condies de trabalho dos africanos
costumavam ser duras. Havia outras influncias, introduzidas por agentes mais
sutis do imperialismo, como os missionrios e os comerciantes.


39    EHRLICH, 1957, p. 169.
Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental, 1880-1914                    185



     Movimentos anticolonialistas na frica oriental at 1914
   No decurso desse primeiro perodo colonial, cada localidade reagia de forma
diferente, exceto nos raros casos de aes coordenadas  escala de uma rea
maior. No Qunia, como em outras regies da frica oriental, as primeiras
reaes de povos como os Mazrui e os Nandi tinham por finalidade proteger
sua independncia em face das ameaas estrangeiras. As reaes ulteriores, no
interior do pas, visavam livrar o povo da opresso e da dominao coloniais.
Embora no se tratasse de um perodo de lutas nacionalistas, na moderna acep-
o da palavra, certos sinais indicavam o comeo de tal combate. Entre os Lua,
no Qunia ocidental, a oposio ao domnio das misses levou  criao de
uma igreja independente, em 1910, sob a direo de John Owalo40. Catlico
romano de incio, Owalo aderiu  misso escocesa de Kikuyu e depois passou
para a Sociedade Missionria da Igreja Anglicana, em Maseno. Foi durante sua
permanncia em Maseno que ele afirma ter sido chamado por Deus a criar sua
prpria religio. Conforme diz B. A. Ogot:
     Aps muitas controvrsias, o distrito de Nianza o autorizou a criar sua prpria
     misso, desde que sua pregao no fosse subversiva da boa ordem e da moralidade.
     Assim, em 1910, Owalo fundou sua misso, Nomia Luo, proclamou-se profeta e
     negou a divindade de Cristo. Alguns anos depois, tinha mais de 10 mil adeptos no
     distrito, havendo construdo suas prprias escolas primrias e exigido uma escola
     secundria livre de toda a influncia ilegtima dos missionrios41.
   Em 1913 apareceu ento o culto Mumbo, movimento contra o domnio
branco, mas que utilizava a religio como ideologia. Do pas Lua, expandiu-se
para os Gusii, mostrando assim que era capaz de conquistar outras regies do
Qunia. O contedo poltico do movimento no era dissimulado. Conforme
explicava seu fundador, Onyango Dande,
     a religio crist est podre e  por isso que ela pede aos crentes que vistam roupa.
     Meus adeptos devem deixar crescer o cabelo. Todos os europeus so vossos inimigos,
     mas est prximo o tempo em que desaparecero do vosso pas42.
  As autoridades coloniais reagiram interditando o movimento, como faziam
com todos quantos ameaavam sua dominao.


40   SORRENSON, 1968, p. 280.
41   Ver captulo 26, adiante; ver tambm OGOT, 1963, p. 256.
42   Apud SORRENSON, 1968, p. 280. Para um estudo detalhado do culto Mumbo, ver OGOT &
     OCHIENG, 1972.
186                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Movimento semelhante apareceu entre os Akamba, no Qunia oriental.
Tambm a a religio serviu como instrumento. O movimento teve incio em
1911, impulsionado por uma mulher, chamada Sistume, que se dizia possuda
pelo Esprito. Mas logo assumiu sua direo um jovem, Kiamba, que o transfor-
mou em oposio poltica ao colonialismo no Qunia43. Constituiu uma espcie
de poltica para ajud-la a concretizar suas ameaas, mas foi preso e banido. Era
uma forma de protesto contra o modo como os colonos de Ukambani tratavam
a mo de obra africana.
    De modo geral, os primeiros movimentos anticolonialistas do Qunia, no
perodo anterior  Primeira Guerra Mundial, surgiram nas regies ocidentais e
orientais do pas. Os Giriama da regio costeira aproveitaram o conflito para se
revoltarem contra a administrao colonial (1914), recusando-se a abandonar
suas terras para permitir o assentamento de colonos europeus. Eles vrias vezes
j haviam entrado em conflito com os ingleses. Por ocasio da resistncia dos
Mazrui contra os britnicos, estes procuraram aliados no meio dos Giriama 
seus antigos parceiros comerciais , que lhes forneceram alimentos. No final do
sculo XIX, os Giriama entraram em conflito com eles, por lhes terem proibido
o trfico de marfim44. Em 1913, opuseram-se  requisio de seus jovens para
trabalhar em fazendas europeias e tambm  substituio de seu tradicional
conselho de ancios por chefes coloniais. O levante de 1914 foi, portanto, o
ponto culminante de uma srie de confrontos com o ocupante. Os britnicos
reagiram incendiando as casas e confiscando as propriedades. Os Giriama, tal
como os Mazrui e outras comunidades, lanaram-se numa espcie de guerrilha,
mas afinal foram vencidos.
    Comparada ao Qunia, Uganda era bem mais tranquila. Ainda assim, em
1911, os Acholi, na parte setentrional do pas, revoltaram-se contra o domnio
colonial ingls45. Tratava-se de uma reao ao recrutamento de mo de obra
e s tentativas de desarm-los. Uma das grandes preocupaes dos colonia-
listas era garantir que os povos sob seu domnio no tivessem condies de
resistncia  cruel explorao a eles imposta. Por isso era importante que no
possussem armas de fogo, o que alis explica a campanha desencadeada para
recuperar as armas e para desarmar a populao local. Os Acholi recusaram-se
a entregar voluntariamente seus fuzis, mas foram vencidos no conflito que se
seguiu.

43    SORRENSON, 1968, p. 281.
44    SMITH, C. B., 1973, p. 118.
45    ADIMOLA, 1954.
Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental, 1880-1914                   187



   O mais grave desafio ao colonialismo na frica oriental, nesse perodo,
o levante dos Maji Maji, veio do Tanganica, com o emprego da religio e da
magia como meios de revolta (ver fig. 7.1). O dr. Townsend resumiu com muita
exatido a situao que caracterizava a histria colonial alem:
     Durante os primeiros 20 anos da histria colonial alem [...] os autctones foram
     tratados com muita crueldade e injustamente explorados [...] Desapossados de suas
     terras, de seus lares, de sua liberdade e de sua vontade, desapossados brutalmente
     da vida por aventureiros, funcionrios coloniais ou companhias de comrcio, suas
     corajosas e incessantes revoltas no foram seno o testemunho trgico de sua impo-
     tncia e de seu infortnio46.
    Essa situao no era exclusiva das colnias alems, mas tpica do colonialismo
em todo o perodo de sua dominao na frica. Trabalho forado, impostos,
maus-tratos e ms condies de trabalho, tudo concorria para explicar o levante
Maji Maji. A causa imediata da revolta, contudo, foi a introduo de uma cul-
tura comunitria de algodo. A populao era obrigada a trabalhar nessa cultura
28 dias por ano, mas o produto desse labor no resultava em seu benefcio. Os
trabalhadores recebiam paga to irrisria que alguns se recusavam a aceit-la. A
reao no se deu contra a cultura do algodo em si, que eles j praticavam com
vistas  exportao, mas ao tipo de cultura a eles imposto, que no s explorava seu
trabalho como constitua uma ameaa  economia africana, pois eram forados a
deixar suas prprias fazendas para trabalhar nas empresas agrcolas pblicas.
    Para unir os povos do Tanganica contra os alemes, o chefe do movimento,
Kinjikitile Ngwale, que vivia em Ngarambe, apelou para suas crenas religiosas.
Falou-lhes que a unidade e a liberdade de todos os africanos era um princpio
fundamental, portanto deviam unir-se e combater pela liberdade contra os ale-
mes. Disse-lhes que a guerra era ordenada por Deus e que seus ancestrais reto-
mariam  vida para ajud-los. Para sublinhar e dar expresso concreta  unidade
do povo africano, Kinjikitile Ngwale edificou enorme altar, a que deu o nome
de "Casa de Deus", e preparou gua medicinal (mafi), a qual, dizia, tornaria
invulnerveis s balas europeias os adeptos que a bebessem. O movimento, que
durou de julho de 1905 a agosto de 1907, alastrou-se por uma rea de quase 26
mil quilmetros quadrados, no sul do Tanganica. Segundo G. C. K. Gwassa,
     [o Maji Maji] englobava mais de 20 grupos tnicos diferentes. Na sua variedade
     tnica e nvel de organizao, o Maji Maji era um movimento ao mesmo tempo


46   Apud ILIFFE, 1969, p. 3.
188                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935



      diferente e mais complexo do que as reaes anteriores e as formas de resistncia
      opostas  dominao colonial. Estas ltimas de modo geral ficaram restritas s
      fronteiras tnicas. Por comparao com o passado, o Maji Maji foi um movimento
      revolucionrio que operou transformaes fundamentais  escala da organizao
      tradicional47.
    A guerra estalou na ltima semana de julho de 1905, e as primeiras vtimas
foram o fundador do movimento e seu assistente, enforcados no dia 4 de agosto
do mesmo ano. O pai de Kinjikitile reergueu sua bandeira, assumindo o ttulo
de Nyamguni, uma das trs divindades da regio, e continuou a ministrar o maji,
mas em vo. Os ancestrais no retomaram conforme a promessa, e o movimento
foi brutalmente suprimido pelas autoridades coloniais alems.
    O levante Maji Maji foi o primeiro movimento de grande escala da frica
oriental. Nas palavras de John Iliffe, foi "a derradeira tentativa das antigas socie-
dades do Tanganica de destruir a ordem colonial pela fora"48. Tratava-se efeti-
vamente de um movimento campons de massa contra a explorao colonial. O
regime alemo no Tanganica ficou abalado, e sua reao no se limitou a esmagar
o movimento: a poltica comunitria de cultura do algodo foi abandonada.
Houve igualmente algumas reformas na estrutura colonial  especialmente no
que concerne ao recrutamento e  utilizao de mo de obra , destinadas a
tornar o colonialismo mais atraente. Mas a revolta malogrou, e o malogro tornou
inevitvel "a extino das sociedades tradicionais"49.
    Entre 1890 e 1914 mutaes dramticas verificaram-se na frica oriental.
O colonialismo foi imposto ao povo, de modo violento na maior parte dos
casos, ainda que s vezes a violncia afivelasse a mscara da lei e do direito. As
reaes africanas ao primeiro impacto foram uma mescla de confronto militar
e tentativas diplomticas, no vo esforo de preservar a independncia. Onde os
africanos no reagiram de uma ou outra dessas maneiras, aceitaram a invaso
ou permaneceram indiferentes, salvo quando lhes impunham exigncias diretas.
O estabelecimento do colonialismo significou a reorganizao da vida poltica
e econmica das populaes. Tributos foram impostos. O trabalho forado e a
privao geral dos direitos polticos tornaram-se a regra. Alguns africanos rea-
giram de modo violento a tais mudanas. Outros aquiesceram. No Tanganica e
em Uganda, houve africanos que se dedicaram s culturas de exportao (mais


47    GWASSA, 1972, p. 202.
48    ILIFFE, 1979, p. 168.
49    Ibid.
Iniciativas e resistncia africanas na frica oriental, 1880-1914                189



particularmente, algodo e caf), a eles proibidas no Qunia, onde predominava
a atividade econmica dos colonos.
   Referimos aqui diversas reaes africanas a esta situao. No perodo subsequente
 Primeira Guerra Mundial, elas se tornariam ainda mais intensas e diversificadas.
Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914          191



                                           CAPTULO 8


              Iniciativas e resistncia africanas
                na frica central, 1880-1914
                                   Allen Isaacman e Jan Vansina




    O tema do presente captulo1 ser a evoluo do carter da resistncia oposta
 dominao europeia na frica central, de 1880 a 1914. Englobamos na frica
central os territrios que formam os Estados do Congo Belga (atual Zaire), da
Rodsia do Norte (atual Zmbia), da Niassalndia (atual Malavi), de Angola
e de Moambique. Como a maioria das regies africanas, a frica central, em
vsperas da "corrida", era ocupada por uma infinidade de populaes, organi-
zadas quer em Estados, ou seja, em sistemas polticos centralizados, quer em
pequenas unidades polticas2. Na primeira categoria classificam-se os reinos
Lunda e Luba, no Congo Belga, os Estados Humbe e Chokwe, em Angola, o
reino de Monomotapa, em Moambique, o reino Undi, da Niassalndia, e os
numerosos Estados fundados pelos Nguni e os Cololo nas bacias do Zambeze e
do Limpopo; na segunda categoria, os Yao e os Tonga do lago Niassa, na Nias-
salndia, os Bisa e os Laia, na Rodsia do Norte, os Sena, Tonga e Chopi, em
Moambique, os Quisama, Bacongo e Loango, em Angola, bem como os Loga,
Mongo, Ngombe, Budga e Bowa, no Congo Belga (ver figura 8.1). Se  possvel
que os historiadores tenham superestimado o grau de turbulncia e tenso dessas
sociedades, no resta dvida de que as divises polticas, o particularismo tnico


1    Este captulo foi encomendado em 1975 e concludo em 1976.
2    Para maiores detalhes, ver o volume 6 da Histria geral da frica.
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e regional, as dissenses internas entre camadas3 rivais, limitaram seriamente a
possibilidade de oposio aos europeus dessas populaes da frica central. A
despeito das tendncias  diviso, pode-se dizer que a oposio e a resistncia
foram as principais reaes  conquista e  ocupao do imperialismo europeu.
    Em vez de proceder  mera descrio da atividade anticolonial de cada pas,
preferimos focalizar os tipos de oposio que caracterizaram o conjunto da rea.
Analisando as reaes africanas em termos dos objetivos dos participantes, trs
categorias se identificam em geral:
          1.   oposio ou confronto na tentativa de manter a soberania das sociedades
               autctones;
          2.   resistncia localizada na tentativa de atenuar abusos especficos do regime
               colonial;
          3.   rebelies destinadas  destruio do sistema estrangeiro que havia gerado
               tais abusos.
   Embora a resistncia e as rebelies localizadas sejam tratadas como cate-
gorias analticas distintas,  importante salientar que os resistentes tendiam a
ajustar seus objetivos s realidades militares e polticas coevas.


      A luta para manter a independncia:
      era de confronto e aliana
   No perodo posterior a 1880, a intensificao da concorrncia imperialista
entre as naes europeias precipitou uma invaso sem precedentes na frica. A
nfase dada  conquista e  ocupao foi perfeitamente articulada no congresso
de Berlim, no qual o domnio efetivo se tornou o pr-requisito por todos aceito
para o reconhecimento internacional da possesso de territrios pelos europeus.
Confrontados com essa nova ameaa a sua soberania, os povos da frica
central reagiram por vrias formas. Alguns, como os Lozi, entabularam uma

3     Usando a expresso "camadas rivais", pretendemos destacar a diferena socioeconmica que reinava na
      maior parte das sociedades pr-coloniais da frica central. A falta de anlises concretas e aprofundadas
      da organizao das economias pr-capitalistas e do processo de constituio das classes da decorrente
      no permite, o mais das vezes, determinar com certeza o verdadeiro grau de estratificao naquelas socie-
      dades. No h dvida de que, em meados do sculo XIX, a noo de classe social j era dominante, tendo
      substitudo a de parentesco em certo nmero de sociedades que praticavam o intercmbio comercial,
      mas em muitos outros casos no temos dados suficientes para demonstrar essa evoluo. Os trabalhos
      de Catherine Coquery-Vidrovitch, de Claude Meillassoux, de Emmanuel Terray e de Maurice Godelier
      representam, embora com pontos de vista no totalmente idnticos, um importante progresso terico na
      anlise da formao das classes nas sociedades da frica pr-capitalista.
Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914     193
                                                                   Povos e diviso poltica da frica central, c. 1900.
                                                                   figura 8.1
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ao diplomtica dilatria, enquanto outros, como os Tonga e Sena, de Inhambane,
aliaram-se aos europeus no esforo de se libertarem da opresso de uma aristocracia
africana aliengena. Muitos Estados e at pequenas circunscries da frica
central, por sua vez, pegaram em armas em defesa de sua autonomia. Embora
compartilhassem um mesmo objetivo, os opositores diferiam substancialmente
na estratgia de curto prazo, na composio tnica, na escala e no grau de xito
que alcanavam.
    As estratgias de luta adotadas pelas populaes da regio tinham a mesma
raison d'tre  repelir os europeus e proteger a ptria, bem como os modos
e meios de existncia. Conquanto a independncia poltica fosse o objetivo
supremo, muitos Estados africanos estavam prontos a mobilizar suas foras
para impedir qualquer violao de sua autonomia cultural ou soberania eco-
nmica. Por exemplo, na Niassalndia, em 1896, os Nguni de Gomani atacaram
postos de missionrios, em parte como protesto contra o efeito debilitante do
cristianismo, ao passo que em Moambique os Baru frustraram os esforos de
Lisboa para incorpor-los em seu imprio embrionrio, utilizando a Igreja cat-
lica para converter a famlia real4. As ingerncias econmicas tambm levaram
certas comunidades a adotar atitude hostil aos imperialistas europeus. Uma das
grandes causas de atrito foi a tentativa dos governos europeus e respectivos agen-
tes  negociantes e missionrios  de enfraquecer a posio de intermedirios
de diversos Estados interioranos e de pr fim ao trfico de escravos, j no mais
compatvel com o desejo das potncias capitalistas de dispor de mercados "estveis"
e matrias-primas. Durante as duas ltimas dcadas do sculo, os Yao, os Macua,
os Yeke, os Chikunda, os Ovimbundo e os Chokwe, principalmente, resistiram
tenazmente s presses estrangeiras. Ao mesmo tempo, numerosos camponeses e
agricultores batiam-se para manter o domnio de seus meios de produo e para
evitar que no se apropriassem de suas terras, gado, trabalho e mulheres.
    Os chefes africanos sabiam que precisavam neutralizar a vantagem dos euro-
peus no plano do armamento: sua sobrevivncia dependia disso. Numerosas
sociedades, j envolvidas no comrcio internacional, tinham acesso ao mercado
de armas, tendo constitudo um vasto arsenal em troca de cativos. Os Chokwe,
os Ovimbundo e os Chikunda haviam tido tanto xito nisso que no raro suas
foras apresentavam-se mais bem armadas do que as tropas do Estado Livre do
Congo e os exrcitos portugueses, que procuravam submet-las. Outras popu-


4     Para um estudo sobre os esforos envidados pelos portugueses para fazer do catolicismo um meio de con-
      trole social, ver ISAACMAN, A., 1973. A obra recorre  informao oral para reinterpretar o significado
      do que se pretendia fosse um ritual catlico.
Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914                                          195



laes da frica central, at ento pouco enfronhadas nas grandes operaes
comerciais, aumentaram suas exportaes para obter fuzis modernos e munies.
No ltimo quartel do sculo, por exemplo, os Ovambo, os Shangaan e mesmo
vrios ramos conservadores dos Nguni adquiriram fuzis modernos prevendo
um confronto com os europeus5. Sempre que possvel, aumentavam o estoque
de armas empregando hbeis meios diplomticos. Os chefes dos Gaza jogaram
os britnicos contra os portugueses e assim obtiveram armas com os primei-
ros, enquanto os militantes bemba (ver figura 8.2), inquietos com a crescente
presena do Reino Unido, adquiriam-nas junto aos rabes6. Outros grupos, os
Quitangona do norte de Moambique e os Chikunda do vale do Zambeze,
chegaram at a reconhecer a dominao nominal de Portugal em troca de supri-
mentos militares importantes, que afinal utilizaram contra as foras de Lisboa7.
   Algumas sociedades africanas tambm ampliaram sua capacidade de defesa
com inovaes militares internas. Os Baru criaram fbricas de munies, que
produziam plvora, fuzis e at mesmo peas de reposio para a artilharia8.
Novas e custosas construes de defesa, como as cidades fortificadas de Jumbe,
entre os Kota, e as aringas do Zambeze e do vale do Luangwa, foram edificadas
para resistir a eventuais cercos dos europeus9. Outros grupos, como os Macua, os
Lunda e diversos bandos que operavam na regio de Gambo, no sul de Angola,
aperfeioaram tcnicas de guerrilha que lhes permitiram repelir as primeiras
incurses imperialistas. Por volta de 1900, os svikiro (feiticeiros que invocavam
os espritos) baru, tawara, tonga e de outros grupos shona preparavam poes
divinas para neutralizar as armas europeias e transformar suas balas em gua10
(ver figura 8.1).

5    CLARENCE-SMITH & MOORSOM, 1975, p. 372-3: estudam a incidncia do colonialismo portu-
     gus e sul-africano sobre as populaes ovambo e sua reao; LINDEN, 1972, p. 246-7: d informaes
     interessantes sobre as formas iniciais de interao entre os Maseko Nguni e os britnicos; WHEELER,
     1968: analisa os esforos infrutferos de Gungunhana para preservar por meios diplomticos a indepen-
     dncia dos Shangaan.
6    WHEELER, 1968, p. 591; ROBERTS, A. D., 1974, p. 202-3: o melhor estudo sobre os Bemba publicado
     at hoje.
7    HAFKIN, 1973, p. 375-7: anlise importante do trfico de escravos e da resistncia de grupos conservadores
     aos portugueses; ISAACMAN, A., 1976, p. 22-49: anlise dos diversos tipos de movimentos de resistncia,
     com destaque especial para o desenvolvimento da conscincia poltica das foras anticoloniais.
8    COUTINHO, 1904, p. 46-7: descrio das guerras travadas pelos portugueses contra os Baru por volta
     de 1900.
9    NEWITT, 1973, p. 226-9: importante estudo sobre as poderosas famlias de prazeiros e suas relaes com
     Lisboa. O autor tambm publicou vrios artigos sobre questes prximas em Race e Journal of African
     History,
10   VANSINA, 1969, p. 21-2. Ver tambm ISAACMAN, A., 1976, p. 49-74, 126-56: o emprego de poes
     pelos Shona para neutralizar as armas europeias.
196                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Malgrado a vontade comum a vrios pases africanos de opor-se  dominao
estrangeira e adquirir armas modernas, na prtica as tticas empregadas foram
sensivelmente diferentes. Em muitos casos, os Estados africanos reagiram com
violncia contra as primeiras incurses europeias, apesar da esmagadora supe-
rioridade militar do inimigo. Foi o caso do chefe dos Chewa, Mwase Kasungu,
que se colocou  frente de seu povo na v luta contra os britnicos e acabou por
se suicidar em 1896 para no capitular11. Aproximadamente na mesma poca, os
Bi de Angola organizaram uma emboscada contra um destacamento colonial
encarregado de estabelecer postos no interior, justamente em seus territrios,
e os Humbe, mais ao sul, atacaram uma coluna portuguesa porque Lisboa se
recusara a pagar-lhes pelo direito de ocupar um fortim situado em suas terras12.
    Outros chefes africanos procuraram evitar os primeiros choques, na espe-
rana de vir a aumentar seu potencial militar ou de negociar um tratado "equi-
tativo", em que se reconhecesse a soberania de seu Estado. Durante quase 10
anos, Gungunhana (ver figura 8.3) negociou ora com os britnicos ora com os
portugueses, disposto a fazer toda uma srie de concesses, menos renunciar 
independncia de Shangaan13. A famlia real baru desenvolveu poltica seme-
lhante, tentando conquistar o apoio de Karl Peters, aventureiro alemo que ela
imaginava estreitamente ligado ao governo de Bismarck. Quanto aos Bemba, s
se engajaram numa resistncia espordica no fim do sculo, aps 15 anos de ten-
tativas de negociao com o Reino Unido14. Nos casos extremos, Estados como
o dos Quintangona do norte de Moambique ou os imprios Chikunda do vale
do Zambeze at chegaram a reconhecer de bom grado a autoridade nominal
dos portugueses, desde que estes no se esforassem a srio para impor-lhes a
dominao colonial15. No entanto, como o congresso de Berlim exigia explici-
tamente que o controle efetivo precedesse todo reconhecimento internacional
dos direitos de uma nao sobre possesses coloniais, esta estratgia redundava
invariavelmente em confronto.


11    TANGRI, 1968, p. 2-4: relao sucinta das primeiras formas de lutas travadas pelas populaes do
      Malavi.
12    PLISSIER, 1969, p. 67: relatrio bem documentado das numerosas guerras que se desenrolaram no sul
      de Angola. O autor est terminando uma histria militar geral de Angola. WHEELER, 1963, p. 334:
      estudo aprofundado da poltica colonial portuguesa no sculo XIX.
13    BOTELHO, 1934, v. 2, p. 419-33: um clssico da histria militar de Moambique. O volume 2  de
      importncia particular no que se refere aos conflitos do final do sculo XIX. WHEELER, 1968.
14    ISAACMAN, A., 1976, p. 49-74; ROBERTS, A. D., 1974, p. 229-92; para um relato fascinante de
      um contemporneo sobre os esforos envidados pelos Baru para conseguir auxlio dos alemes, ver
      PETERS, 1902, p. 116.
15    HAFKIN, 1973, p. 375-7; ISAACMAN, A., 1976, p. 22-48; NEWITT, 1973, p. 295-311.
                                                                                                         Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914
                                                                                                         197
figura 8.2   Chefe bemba no meio do seu povo, recebendo um europeu, 1883. (Ilustrao: Victor Giraud.)
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    Numerosas sociedades da frica central, incapazes de opor resistncia eficaz
aos colonizadores ou de compreender as decorrncias da tutela colonial, come-
aram por submeter-se pacificamente, mas no demoraram a juntar foras para
a reconquista da independncia. Esse tipo de conflito retardatrio ocorreu com
muita frequncia no Congo, onde a populao autctone, de incio, considerava
os agentes do Estado Livre do Congo parceiros comerciais e aliados contra os
traficantes de escravos estrangeiros. S quando os funcionrios do Estado Livre
comearam a baixar impostos e a recrutar mo de obra  que as sociedades locais
perceberam que, por inadvertncia, tinham alienado sua autonomia. Entre 1885
e 1905, mais de uma dzia de grupos teoricamente "subjugados" do baixo Congo
e do Congo central se revoltou16. Entre eles, os mais bem-sucedidos foram os
Yaka, que combateram eficazmente os europeus durante mais de dez anos, antes
de serem vencidos em 1906, os Buja e os Boa, que se revoltaram no fim do sculo
contra o trabalho forado nas plantations de borracha. No apogeu das lutas, os
rebeldes chegaram a mobilizar mais de 5 mil trabalhadores, que empreenderam
demorada guerrilha com bases profundamente entranhadas na floresta17.
    Alm da diversidade das reaes iniciais, havia diferenas quanto ao grau
de provincianismo e particularismo tnico. Algumas sociedades, importantes
ou no, enfrentaram o invasor sem se dar ao trabalho de procurar alianas mais
amplas. Em Angola, os Bi, Humbe e Ganguela comearam por combater o
estrangeiro sem apelar aos seus vizinhos, que, no entanto, detestavam igualmente
os portuguses18, enquanto em Moambique, Lisboa pde tirar proveito da pro-
funda rivalidade entre os Estados Chikunda, que tentava submeter, rivalidade
que impedia qualquer verdadeira aliana. Mesmo os Estados Nguni, embora
aparentados, foram incapazes ou no quiseram se entender para resistir  expan-
so britnica na Niassalndia. Por volta da dcada de 1890, os Maseko, Gomani e
Mpeseni, todos Nguni, lutaram isoladamente contra as foras coloniais britnicas,
numericamente menores, e foram esmagados, o que permitiu ao Reino Unido
a criao da colnia da Niassalndia19. Num mesmo Estado, a impotncia das
faces rivais para se unirem a fim de resistir s incurses europeias era a con-


16    YOUNG, 1965, p. 283 (carta 5); FLAMENT et al., 1952, p. 106-531; LEJEUNE-CHOQUET, 1906:
      traz pormenores de algumas insurreies de pequena envergadura e se estende um pouco mais sobre os
      primeiros atos de resistncia. Ver tambm HARMS, 1975.
17 FLAMENT et al., 1952, p. 162-4,499. O territrio ficou sob ocupao militar at 1908. Cf. PLANCQUAERT,
   1932, p. 134, 138.
18    PLISSIER, 1969, p. 67-72; WHEELER, 1963, p. 334.
19    McCRACKEN, 1972: estuda a maneira como os diversos grupos nguni reagiram  penetrao europeia.
      LINDEN, 1972, p. 241-4
                                                                                 Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914
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figura 8.3   Gungunhana e seus guerreiros. (Ilustrao: J. R. Baptista, 1892.)
200                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



sequncia lgica de seu particularismo mope. Vrios exemplos comprovam
que grupos rivais realmente emprestaram mo forte s potncias imperialistas
na esperana de consolidar suas prprias posies. Essas tendncias  diviso
paralisaram os esforos dos Luba e Baru para preservar sua autonomia20. No
tocante a estes ltimos, Lisboa, por intermdio de seu agente, a Companhia de
Moambique, constrangeu Chipitura, membro dissidente da aristocracia baru,
a uma aliana secreta. Nos termos dessa aliana, consignada em carta, Chipitura
reconhecia a soberania de Portugal, que em troca deveria ajud-lo a vencer seu
rival, Hanga.
    Outros grupos sociais africanos, para compensar a insuficincia de seu poten-
cial militar, fizeram alianas anticoloniais multitnicas bem amplas. O poderoso
chefe dos Gaza, Gungunhana, convidou os Swazi a juntarem-se  luta contra os
portugueses; j os Baru estabeleceram uma rede multitnica, compreendendo
os Tonga, os Tawara e diversas populaes shona da Rodsia do Sul (atual
Zimbbue)21. Como demonstra o exemplo dos Baru, essas alianas tempor-
rias eram mais comuns quando a economia, o parentesco e a religio j uniam
de antemo as populaes em causa. Estes trs elementos estiveram na origem
da constituio da confederao Yao, sob a chefia de Makanjira, e da aliana
Macua-Swahili. Mas foram elementos de ordem financeira que estiveram na
base dos esforos  que redundariam em malogro  envidados em comum pelos
Bemba e os rabes no final do sculo XIX22. De vez em quando, rivais de longa
data punham de lado sua animosidade na tentativa de sobreviver, o que explica
a aliana entre os Lunda, da regio central, e os Chokwe contra as tropas do
Estado Livre do Congo, apesar da mtua inimizade, que remontava a mais
de uma gerao. Razes anlogas tambm levaram os Mburuma Nsenga e os
Tawara a auxiliar os Chikunda na virada do sculo e  aliana dos Cuanhama-
Cuamato no sul de Angola.
    No surpreende verificar que a extenso dos movimentos de resistncia era
altamente proporcional ao grau de particularismo tnico das populaes africa-
nas. Quando uma sociedade africana combatia sozinha, o vulto de seu exrcito
e seu potencial de resistncia eram geralmente limitados. A rpida derrota dos
Estados Nguni e dos Chewa de Mwase Kasungu mostra desvantagem bsica
dos grupos isolados. As grandes alianas muitas vezes conseguiam alinhar exr-


20    VANSINA, 1966, p. 242-4: estudo abrangente da frica central pr-colonial, com destaque para o Zaire.
      ISAACMAN, A., 1976. p. 49-74.
21    WARHURST, 1962, p. 59.
22    ROBERTS, A. D., 1974, p. 242, 271.
Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914                                       201



citos importantes, bem equipados, e, de modo geral, opor uma resistncia mais
prolongada ao inimigo. Estima-se que as foras yao de Makanjira somavam 25
mil homens, ou seja, um exrcito comparvel ao dos Cuanhama-Cuamato e
dos Baru23.
    Como os movimentos de resistncia no atingiram seus objetivos polticos
maiores, tende-se a minimizar e mesmo a ignorar vitrias militares localizadas,
considerando-as, no conjunto, como fracassos. Na realidade, dependendo das
dimenses dos grupos africanos, da posse ou no de armas modernas, da extenso
e do preparo das foras imperialistas, as situaes variavam consideravelmente.
No h dvida, numerosos grupos africanos foram rapidamente derrotados, mas
tambm muitos conseguiram deter as primeiras incurses europeias e infligir
pesadas perdas ao inimigo. No sul de Angola, os Humbe e os Cuamato repeli-
ram vrios ataques dos portugueses e, quando dos combates de 1904, mataram
mais de 300 homens dos 500 que se lhes opunham24. Os Estados Chikunda
bateram diversas vezes o desorganizado exrcito de Lisboa no decurso da ltima
dcada do sculo XIX, ao passo que, no norte da Niassalndia, os Yao acuaram
o exrcito colonial britnico durante quase cinco anos25. Sucedeu o mesmo no
Congo, onde os Chokwe infligiram pesadas perdas  Force Publique por 20
anos, antes de sucumbir26. Indubitavelmente, os casos mais estrondosos foram
o da aliana dos Swahili com os Macua, que lograram escapar  dominao
portuguesa at 1910, e o dos Cuamato aliados aos Cuanhama, cuja derrota s
se tornou definitiva em 191527.
    Apesar de to custosas vitrias, todas as guerras de independncia na frica
central acabaram por redundar em fracassos. A interveno de mltiplos fatores,
na sua maior parte anteriores  "corrida", permite explicar por que os africanos
no conseguiram sustar o avano dos europeus: o fato de grande parte dos
Estados mais poderosos serem obra de conquistas, o particularismo tnico e
as divises internas entre as camadas ou classes dirigentes, ou entre estas e as
populaes que dominavam. Tais fatores, em consequncia, limitaram as possi-


23   STOKES, 1966a, p. 267-8: estudo sobre a estratgia de sobrevivncia empregada pelos Lozi sob Lewa-
     nika; PLISSIER, 1969, p. 103; COUTINHO, 1904, p. 43.
24   PLISSIER, 1969, p. 79.
25   ISAACMAN, A., 1976, p. 22-48; STOKES, 1966b, p. 366-8: estuda a estratgia dos britnicos e a reao
     das diversas populaes do Malavi.
26 VANSINA, 1966, p. 226-7.
27 HAFKIN, 1973, p. 384; NEWITT, 1972b, p. 670-1: estudo sobre os interesses conflitantes dos portu-
   gueses e da elite africana comerciante de escravos, e sobre a conquista definitiva da regio de Angoche.
   PELISSIER, 1969, p. 102-8.
202                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



bilidades de organizar em bases suficientemente amplas o esforo anticolonial
coordenado, indispensvel para disputar aos europeus a indiscutvel vantagem
de que gozavam as foras imperialistas no plano das armas e da tcnica militar.
    Alm disso, as rivalidades africanas permitiram aos administradores coloniais,
como Harry Johnston, "dividir para reinar", estratgia em que davam mostras
de consumada arte. Os anais do combate pela preservao da independncia e
da soberania africanas esto repletos de exemplos de africanos que, no con-
tentes por se terem submetido, ainda ajudaram as potncias coloniais, a fim de
se vingar de abusos cometidos outrora por vizinhos. Os Tonga, de Inhambane,
bem como os Sena, ajudaram os portugueses a combater os Shangaan e os Baru,
seus suseranos respectivamente, ao passo que, no Congo, populaes avassaladas
cooperaram com os belgas para se libertar da tutela dos Yeke e dos rabes, ou para
eliminar os traficantes de escravos. Alm disso, muitos chefes africanos tinham a
impresso de que, aliando-se aos europeus, poderiam satisfazer suas aspiraes
expansionistas, para reforo da sua posio interna. Foi o que, por exemplo, levou
Tippu Tib e os filhos de Msiri a ajudar o Estado Livre do Congo28. Outras
sociedades africanas, algumas das quais se tinham oposto ao invasor desde a
primeira hora, juntaram-se mais tarde a ele29, em troca de benefcios materiais
e de promessas de melhoria de sua situao no quadro da nova ordem colonial.
Os Yao, uma vez vencidos, ajudaram a abater os Nguni Mpeseni, que, por sua
vez, ajudaram os portugueses, em seguida, a derrotar os Baru.
    Sem aliados nem mercenrios africanos, os europeus no poderiam ter
imposto sua dominao, com to escasso contingente de homens no conti-
nente. Os exrcitos portugueses que selaram a "conquista" definitiva do vale do
Zambeze em 1902, por exemplo, eram compostos por mais de 90% de recrutas
africanos30. Em menor grau, era idntica a situao dos exrcitos portugueses em
Angola. Mais ao norte, o exrcito do Estado Livre do Congo era formado por
recrutas africanos, aos quais se juntavam alguns mercenrios haussa ou zanzibari.




28    FARRANT, 1975, p. 108-11; SLADE, 1962, p. 94-102. Sobre Mukunda Bantu, filho de Msiri, ver
      MUNONGO, 1948, p. 199-229 e 231-44; BITTREMIEUX, 1936, p. 69-83. Mukunda Bantu estava
      a ponto de ser completamente posto de lado pelos Sanga.
29    McCRACKEN, 1972, p. 227; DACHS, 1972, p. 288-9; ISAACMAN, A., 1976, p. 49-74. Um dos raros
      artigos onde as motivaes e o impacto da colaborao so estudados.
30 Em vez de "aliana", certos historiadores preferem o termo "colaborao". Para uma anlise terica da
   colaborao, ver ISAACMAN, A. & ISAACMAN, B., 1977, p. 55-61. As razes que levaram o diretor
   do volume a rejeitar esse termo vm expostas no primeiro captulo.
Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914                             203



   Somente os oficiais eram europeus. A grande quantidade de africanos que
participaram da ocupao britnica da Niassalndia e da Rodsia do Norte
comprova a habilidade com que Harry Johnston soube dividir para reinar.


     Primeiros bolses de resistncia contra a
     dominao colonial e o capitalismo
    Ao contrrio da resistncia pr-colonial, cujo objetivo fundamental era a
preservao da independncia, a resistncia oferecida pelos camponeses e oper-
rios em comeos do sculo XX decorria diretamente dos esforos desenvolvidos
pelos regimes coloniais para reforar sua hegemonia e impor relaes capita-
listas, a fim de explorar os recursos humanos e naturais da frica central. No
cabe neste estudo examinar em pormenores e comparar os sistemas coloniais
portugus, britnico e belga. No obstante, convm estudar como, devido aos
abusos de que eram inegavelmente culpados, eles provocaram a formao de
bolses de resistncia localizada, incessantemente renovados31.
    A primeira preocupao dos administradores coloniais consistia em instaurar
um sistema administrativo que controlasse as atividades das populaes subme-
tidas. Para tal fim, depuseram um grande nmero de chefes tradicionais, cuja
cooperao deixava a desejar, violando assim o carter sagrado, no plano religioso
e cultural, da realeza. Para reforar sua precria dominao, despacharam poli-
ciais africanos, recrutados entre mercenrios e seus aliados. Esperavam assim
controlar as atividades dos "chefes coloniais" e intimidar a populao local. Em
vista de sua ambio de poder sem limites, no surpreende que os membros da
Force Publique do Congo, os Guerras Pretas de Angola, os Sipais e a polcia
nativa da Rodsia do Norte e da Niassalndia tenham praticado concusses e
abusado de sua autoridade.
    A fim de colocar mo de obra barata  disposio do governo e dos capita-
listas europeus, as potncias coloniais implantaram o trabalho forado, que veio
se somar a uma tributao sufocante. No Congo, os africanos eram obrigados a
fazer a coleta da borracha e trabalhar nas ferrovias e minas. Em Moambique,
eram fundamentalmente as diversas companhias concessionrias multinacionais
que se beneficiavam com o trabalho forado. Moambicanos eram exportados


31   Sobre a poltica de cada uma das potncias coloniais, ver RANGER, 1969; STENGERS, 1969; HAM-
     MOND, 1969; BENDER, 1978; MONDLANE, 1969, p. 23-58; MEEBELO, 1971, p. 71-90; KRISH-
     NAMURTY, 1972; BOAVIDA, 1967: amplo apanhado da explorao de Angola pelos portugueses.
204                                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



para a Rodsia do Sul, frica do Sul e So Tom, onde se somavam, nas planta-
tions de cacau, a milhares de angolanos. Com diferena de detalhes, repetiu-se o
mesmo tipo de coero e intimidao no recrutamento da mo de obra africana
para as plantations europeias da Niassalndia e, posteriormente, para as minas
da Rodsia do Norte32.
    Os camponeses que ficavam em suas terras no estavam livres de coaes. Entre
a populao rural eram muitos aqueles que a lei constrangia a trabalhar vrias sema-
nas sem remunerao nos canteiros de obras pblicas, sob pena de priso imediata.
Tambm se viam submetidos s exigncias e aos caprichos das autoridades locais, e
frequentemente compelidos a vender seus produtos abaixo da cotao.
    Em resumo, submetidos ao sistema colonial capitalista, os africanos foram
sobrecarregados com nus econmicos e sociais esmagadores. As famlias viram-se
dispersas momentnea ou permanentemente. O campesinato local vivia aterro-
rizado com os excessos dos mercenrios europeus ou africanos. No plano eco-
nmico, a exportao de grande parte da mo de obra intensificava, em vrias
regies, as penrias locais, da resultando a estagnao e o subdesenvolvimento
dos campos.
    Esses abusos geraram incessantes protestos dos operrios e camponeses.
Evidentemente, o que se reclamava era mais a correo de algumas situaes
intolerveis do que a supresso do sistema repressivo que as provocava. Seu car-
ter espordico fez com que boa parte dessa oposio local fosse ignorada tanto
por seus contemporneos como pelos historiadores. No obstante, a "resistncia
cotidiana", a insubmisso, o "banditismo social"33 e as insurreies camponesas
constituram importante captulo dos anais anticolonialistas da frica central.
    Como os escravos do sul dos Estados Unidos, muitos camponeses africanos
vingavam-se dissimuladamente do sistema repressivo.  falta do necessrio
poder, no caso de uns e de outros, o confronto direto era quase sempre uma
ttica que no se podia empregar. Portanto, era pela fraude fiscal, a "cera" no
trabalho e a destruio furtiva de bens que eles manifestavam sua hostilidade.
Tal como nos Estados Unidos, a populao europeia dominante entendeu essas
manifestaes de "resistncia cotidiana" como evidncias da falta de carter e
ignorncia de seus subordinados e no como expresso de descontentamento34.

32    Para um estudo do trabalho forado, ver DUFFY, 1967; NEVINSON, 1906; COQUERY-VIDROVITCH,
      1972.
33    Esta expresso  mantida por insistncia dos autores. O diretor do volume teria preferido "ao de
      pequenos grupos armados".
34    Um ponto de vista novo sobre a questo vem exposto em BAUER, R. A. & BAUER, A. H., 1942. Mais
      recentemente, o tema foi discutido por autores como John W. Blasingame, Eugne Genovese e Peter Kolchin.
Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914                                      205



    Escapar aos impostos era coisa frequente em toda a frica central. Justamente
antes da chegada do coletor de impostos, todos ou quase todos os habitantes
de uma aldeia fugiam para lugares inacessveis, at a partida do funcionrio
da administrao. Na Rodsia do Norte, os Tonga Gwamba tinham fama de
grandes fraudadores do fisco; o mesmo constava de seus vizinhos Bisa e Unga,
que se escondiam nos pntanos de Bagwelu35. Em Moambique, o costume
estava to solidamente estabelecido que um funcionrio observou, desanimado:
"Nunca se sabe quantas vezes meia dzia ou mais de adultos abandonaro seu
kraal, deixando atrs de si apenas um cego, um doente ou um velho, isentos
de impostos"36. Os africanos que tinham o privilgio de viver perto de uma
fronteira internacional passavam de um lado para outro da divisa para fugir aos
coletores de impostos das duas colnias. Periodicamente, os Yaka atravessavam
o rio Cuango, que separa Angola do Congo, enquanto seus compatriotas apro-
veitavam a falta de vigilncia na fronteira para passar ao Congo francs, onde
se deixavam ficar at que fossem de novo perseguidos pelos agentes locais do
fisco37. Ttica anloga foi empregada por populaes rurais da regio de Milanje,
ao longo da fronteira entre a Niassalndia e Moambique, e do vale do Gaerezi,
que separa Moambique da Rodsia.
    Os camponeses tambm desenvolveram artimanhas para evitar ou minimi-
zar os dissabores do trabalho forado. No pior dos casos, como sucedia com os
Namwhana e os Lungu da Rodsia do Norte, pegaram em armas para expulsar
os recrutadores de seu territrio38. Os conflitos do trabalho foram, em 1893-
-1894, causa de movimentos de insurreio dos Manjanga no baixo Congo e de
incontveis levantes nas regies de cultura da borracha39. Tticas menos perigosas
 doenas simuladas, ritmo lento de trabalho, greves, fugas  tambm eram empre-
gadas. Na Rodsia do Norte, no distrito de Abercorn, os funcionrios coloniais no
cessavam de se queixar dos africanos, que "mandriavam e tinham de ser constante-


35   ROTBERG, 1965, p. 75: uma histria poltica dos dois pases, acrescentando algumas informaes sobre
     os primeiros bolses de resistncia ao colonialismo. MEEBELO, 1971, p. 97-8: estudo importante dos
     movimentos de resistncia, abrangendo certas formas localizadas raramente estudadas.
36 XAVIER, 1889, p. 25-6: obra importante, de um contemporneo da implantao da tutela portuguesa.
37   MOULAERT, 1945, p. 28-43: conta como, em 1885 e 1893, a populao de Manyanga se ops  deli-
     mitao da fronteira com o Congo francs a fim de poder escapar ao pedgio. Em 1902, novo incidente
     levou a um confronto diplomtico, e a fronteira acabou por ser traada em 1908. Em todas as zonas
     fronteirias, os habitantes escapavam dos coletores de impostos e do recrutamento forado de mo de
     obra passando de um lado para outro. So abundantes as observaes a respeito, quer por escrito, quer
     na tradio.
38   MEEBELO, 1971, p. 90-1.
39   FLAMENT et al., 1952, p. 498-9.
206                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



mente empurrados para o servio". Os operrios acabaram por paralisar o trabalho
at que lhes garantissem um salrio40. A falta de cooperao e a elevada taxa de
absentesmo convenceram os funcionrios europeus da indolncia congnita dos
africanos. Certo administrador portugus notava, na poca:
      Nenhum fugiu por causa de maus-tratos nem por outra razo justificvel [...] Por-
      tanto sou levado a concluir que a grande repugnncia que quase todos eles mostram
      pelo trabalho  a nica explicao para a fuga das tarefas em questo41.
    Havia tambm casos de trabalhadores que, descontentes, sabotavam o
equipamento agrcola, queimavam os entrepostos, roubavam os armazns das
companhias concessionrias e dos negociantes locais e destruam os meios de
transporte e as linhas de comunicao.
    Atravessar as fronteiras tambm constitua frequente manifestao de des-
contentamento. Embora a natureza clandestina do xodo impea qualquer exati-
do nas avaliaes, tudo sugere haver atingido grandes propores. Documentos
oficiais britnicos indicam que, de 1895 a 1907, mais de 50 mil africanos estabe-
lecidos no vale do Zambeze fugiram para a Rodsia do Sul e para a Niassalndia,
na v esperana de que o colonialismo ingls se mostrasse mais clemente42. A
identidade ou o parentesco tnico dos grupos que viviam de um lado e de outro
da fronteira ajudou os Ovambo e os Bacongo a deixar Angola, bem como os
Shona e os Cewa a fugir de Moambique (ver figura 8.1). Na Niassalndia,
grandes contingentes de Tonga e de Tumbuka, das margens do lago, deixaram
a regio da bacia do Rukuru para fugir da zona sob controle britnico e escapar
ao pagamento de impostos43.
    A constituio de comunidades de refugiados nas zonas desabitadas era
uma variante da ttica de insubmisso. Mais do que atravessar fronteiras
internacionais, os camponeses, que em muitos casos tinham recusado aten-
der s suas obrigaes "legais", criaram enclaves autnomos. Essa ttica foi
regularmente empregada pelos Bemba dissidentes, que se refugiavam no
serto. "Fora de alcance, os habitantes das mitanda obtinham uma espcie
de independncia, que defendiam ciosa e encarniadamente44." Fenmeno


40    MEEBELO, 1971, p. 95-7.
41    Arquivo Histrico de Moambique, Fundo do Sculo XX, Cx. 4-185, m. 37: Antnio Gomes ao Subintendente
      do Governo em Macequece, 18 de novembro de 1916.
42 WIESE, 1891, p. 241.
43 McCRACKEN, 1972, p. 227-8.
44    MEEBELO, 1971, p. 102-3.
Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914                              207




figura 8.4 Mapondera, chefe rebelde da Rodsia do Sul (atual Zimbbue). (Fonte: Arquivos Nacionais
do Zimbbue.)
208                                                      frica sob dominao colonial, 1880-1935



semelhante verificou-se no sul de Angola, na regio de Gambo, que se tor-
nou um refgio para os fora da lei e os insatisfeitos. O mesmo ocorria nas
ridas montanhas de Gaerezi, que separam Moambique da Rodsia do Sul,
assim como nas florestas e regies montanhosas do Congo45. Embora pouco
se saiba sobre a organizao interna dessas comunidades, a vontade de pre-
servar sua liberdade e o xodo para reas remotas e inspitas impressionam
pela semelhana com o comportamento das comunidades de quilombolas
das Amricas46.
    No contentes com ficar fora da esfera de influncia europeia, outras comu-
nidades de fugitivos adotaram atitude hostil para com os regimes coloniais,
atacando certos smbolos da opresso rural  plantations, recrutadores de pes-
soal, coletores de impostos e polcia africana , na preocupao de proteger suas
aldeias e parentes contra os contnuos tormentos e contra a explorao. Embora
tivessem violado as leis do sistema colonial, os chefes de tais bandos, como os
"bandidos de honra" da Siclia ou do nordeste do Brasil, que Eric Hobsbawm47
estudou, no eram considerados malfeitores pelos seus. O mais conhecido des-
ses "bandidos sociais" foi sem dvida Mapondera, que enfrentou com sucesso
as tropas coloniais portuguesas e da Rodsia do Sul de 1892 a 1903, enquanto
protegia o campesinato local contra os coletores de impostos, os recrutadores
de mo de obra, a explorao pelos agentes das companhias e os excessos dos
administradores (ver figura 8.4). Mapondera e seus partidrios atacaram repeti-
damente os entrepostos da Companhia da Zambzia e as lojas dos mercadores
rurais, smbolos da explorao econmica. Os rebeldes conseguiram vencer as
esmagadoras dificuldades com que se defrontavam graas ao apoio permanente
da populao rural, que os supria regularmente de alimentos e de munies e
lhes comunicava informaes estratgicas48. Outros "bandidos sociais" operavam
em Moambique, nomeadamente o sucessor de Mapondera, Dambakushamba,
Moave e Samakundu, bem como nas terras altas de Huila, no sul de Angola, o
que sugere que esta forma de resistncia no era incomum e deve ser pesquisada
em outras partes da frica central49. Estudos preliminares apontam a ocorrn-
cia bastante regular de aes anlogas no Congo. As de Kasongo Niembo, na
provncia de Shaba, os ataques de Kiamfu e de seus partidrios yaka, bem como


45    PLISSIER, 1969, p. 76.
46    Ver PRICE, 1973, p. 1-30.
47    HOBSBAWM, 1969.
48    ISAACMAN, A., 1977.
49    ISAACMAN, A., 1976, p. 97-125; CLARENCE-SMITH, 1979, p. 82-8.
Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914                                       209



o apoio dado pelos Luba aos rebeldes kiwilu, todos parecem pertencer a este
tipo de rebelio.
    De vez em quando, africanos recrutados para esmagar dissidentes locais
tambm se revoltavam em protesto contra os abusos coloniais, de que no esta-
vam inteiramente livres. Insurgiam-se contra os salrios miserveis, a severidade
das punies e o comportamento caprichoso de seus oficiais europeus. Foi no
Estado Livre do Congo que irromperam os motins mais violentos: em 1895,
toda a guarnio de Luluabourg se revoltou, e, sob o comando de suboficiais
amotinados, os soldados massacraram o chefe do posto para se vingar de sua
intolervel tirania. Durante mais de seis meses, os rebeldes controlaram quase
toda a provncia de Kasai, mas acabaram sendo vencidos pelas tropas que perma-
neceram leais50. Dois anos depois, o grosso do exrcito se revoltava51. Por pobres
que sejam as informaes disponveis sobre a desero de africanos do exrcito
colonial portugus, vrios casos de adeso s foras anticolonialistas e o motim
de Tete, em 1917, sugerem, no mnimo, uma hostilidade latente52.
    Nos primeiros tempos da era colonial, ocorreram numerosas revoltas de campo-
neses, embora limitadas no espao e no tempo. Era raro os camponeses procurarem
consolidar conquistas iniciais ou passar do ataque aos smbolos de sua opresso 
luta contra o sistema colonial em seu conjunto. De modo geral, os levantes tinham
origem no aumento ou na cobrana mais rigorosa de impostos, ou nas reivindica-
es dos trabalhadores. No vale do Zambeze contaram-se, entre 1890 e 1905, nada
menos do que 16 sublevaes. Essas revoltas, em sua maioria, voltavam-se contra a
Companhia de Moambique e a Companhia da Zambzia, s quais Lisboa tinha
cedido quase todo o Moambique central. As duas sociedades, que no dispunham
de capitais suficientes, procuravam maximizar os lucros impondo pesados tributos
sobre as habitaes e exportando mo de obra constrangida ao trabalho forado,
causa direta dos levantes53. No decorrer desse perodo, ocorreram tambm alguns
levantes menores em Angola. O furor dos camponeses ila, tonga gwemba e lunda
ocidentais inquietou os funcionrios britnicos na primeira dcada do sculo XX.
No Congo, clculos moderados estimam o nmero das revoltas rurais localizadas


50   O melhor relato , at agora, o de Storme, 1961, que no  mais que a primeira parte de um estudo mais
     amplo. Elementos participantes desse motim combateram at 1908.
51   FLAMENT et al., 1952, p. 383-460. Ver tese de doutoramento de Bimanyu (?) sobre o tema.
52   RHODESIAN NATIONAL ARCHIVES, N3/26/2/2, R. N. L. B: Kanyemba ao Diretor Superinten-
     dente, R. N. L. B., 12 de maio de 1917.
53   ISAACMAN, A., 1976, p. 97-125.
210                                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



em mais de uma dezena por ano54. Embora estes movimentos, em sua maior parte,
fossem desorganizados, mutveis e circunscritos, nem por isso deixaram de elevar
a conscincia poltica dos camponeses a um nvel que lhes permitiu, mais tarde,
participar de levantes anticolonialistas de maior envergadura. Foi o caso no sul de
Moambique, onde os Tonga se juntaram a Gungunhana (ver figura 8.3), depois
de reprimida a revolta contra os impostos, de 1894; e no vale do Zambeze, onde,
por ocasio da revolta de 1898, camponeses sena e tonga juntaram-se a Cam-
buemba55. Vinte anos depois, Tulante lvaro Buta, que, convertido ao cristianismo,
o abandonara, conseguiu organizar um movimento de massas entre os Bacongo
resistentes, hostis  vontade dos portugueses de aumentar o recrutamento de mo
de obra. Acabou por alinhar no s os camponeses catlicos do norte, mas ainda
os Bacongo do sul, ento recm-convertidos ao protestantismo56.
    Os esforos de Buta esto ligados  onda de agitaes que comeava a nascer
no meio dos africanos convertidos, decepcionados com o cristianismo. Onde
se vissem incapazes de expressar a hostilidade ao colonialismo, ou se ressen-
tissem das discriminaes existentes no seio das igrejas protestantes, domina-
das pelos europeus, os africanos criavam igrejas independentes ou separatistas,
para remediar a situao. Essas formaes religiosas autnomas proliferaram na
Niassalndia e na Rodsia do Norte durante a primeira dcada do sculo XX.
A mais clebre talvez tenha sido a igreja etope, fundada por Willie Mokalapa.
Mokalapa e seus discpulos no cessavam de protestar contra a discriminao
exercida pelos missionrios europeus e a existncia de uma verdadeira barreira
que negava aos africanos qualificados a possibilidade de subir na escala social. A
longo prazo, eles queriam provar que os africanos eram capazes de dirigir suas
prprias atividades religiosas e seculares, independentemente dos europeus57.
Outras igrejas  o movimento Watchtower, na Rodsia do Norte, e a AME, em
Moambique  visavam objetivos anlogos.
    Alm dessa resistncia, prpria dos meios rurais, a agitao reformista comeava
a propagar-se aos centros urbanos, onde africanos e mulatos instrudos depressa


54    Le mouvement gografique e La Belgique coloniale contm indicaes relativas ao perodo anterior a 1909.
      Para o perodo de 1909 a 1959, h dados mais precisos numa obra que figura na bibliografia da Chambre
      des Rpresentants: Rapport annuel sur l`activit de la colonie au Congo belge. Flament, 1952, p. 530, menciona
      12 operaes importantes somente em Kasai, entre 1893 e 1911. Todavia Kasai era a regio onde, graas s
      armas recebidas de Angola, a resistncia tomou maior vulto. O relatrio d o nmero anual das operaes
      policiais. Ver tambm ROTBERG, 1965, p. 73-5, e MEEBELO, 1971, p. 97-8.
55    COUTINHO, 1904, p. 28-30; ISAACMAN, A., 1976, p. 126-56.
56    WHEELER & PLISSIER, 1971, p. 89-90; MARCUM, 1969, p. 53-4.
57    RANGER, 1965; ROTBERG, 1966, p. 58-60.
Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914                                           211



entenderam que seu preparo e as doutrinas igualitrias ensinadas pelos mission-
rios no eram incompatveis com a discriminao social, econmica e poltica. Os
intelectuais mulatos de Angola, entre os quais Jos de Fontes Pereira, foram dos
primeiros a dar livre curso a seu sentimento de frustrao e sua hostilidade. Tendo
adotado a cultura portuguesa in toto, ficaram espantados com a onda de racismo
que acompanhou a chegada de imigrantes no final do sculo XIX. Na tentativa de
salvaguardar sua situao privilegiada, publicaram extensos editoriais e ensaios em
que deploravam o declnio de suas prerrogativas, ao mesmo tempo que pressionavam
Lisboa para lhes garantir seus direitos e pr fim  flagrante explorao dos africanos.
Como esses sinais de descontentamento logo se revelassem inteis, fundaram, em
1906, a primeira associao de mulatos, com a finalidade de fazer valer seus direitos.
Quatro anos depois, era constituda uma organizao dos intelectuais mulatos para
o conjunto das colnias portuguesas58. Por essa mesma poca, um pequeno nmero
de organizaes intelectuais reformistas foi criado em Moambique. Citam-se entre
as mais importantes a Associao Africana, que editava o jornal Brado Africano,
primeiro rgo contestatrio de Moambique. A exemplo de seus homlogos ango-
lanos, os autores dos artigos publicados neste jornal faziam parte de uma burguesia
mulata e africana nascente, que procurava proteger os poucos privilgios econmicos
de que se beneficiava e reafirmar sua igualdade no plano racial e cultural59.
    Quase na mesma poca, nos territrios vizinhos da Niassalndia e da Rodsia
do Norte, funcionrios, professores e outros profissionais africanos qualificados
criavam associaes destinadas  defesa de sua posio de classe relativamente
privilegiada e  reivindicao de reformas no quadro colonial existente. De 1912
a 1918, foram fundadas algumas dessas organizaes, inclusive a North Nyasa
Native Association e a West Nyasa Association60. Entre as duas guerras, esses
grupos iriam assumir importncia considervel na poltica da frica central.


     Insurreies coloniais at 1918
    pelos objetivos e pela envergadura que se podem distinguir as insurrei-
es coloniais das formas localizadas de resistncia. Ao contrrio da agitao


58   WHEELER & PLISSIER, 1971, p. 84-6, 93-8; WHEELER, 1972, p. 67-87; MARCUM, 1969, p.
     16-22.
59   MONDLANE, 1969, p. 104-6: a obra do desaparecido fundador da Frelimo tenta situar as recentes
     lutas de libertao num quadro histrico mais amplo.
60   TANGRI, 1968, p. 5; VAN VELSEN, 1966, p. 376-7: estudo sobre a formao das associaes destinadas
     a defender a posio da elite subalterna e sobre os esforos dela para obter reformas no sistema colonial.
212                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



espordica, que tendia ao particularismo exacerbado e  atomizao, as rebelies
apoiavam-se na mobilizao de massa e no pluralismo tnico. O crescente enga-
jamento, ao menos em certos levantes, de um campesinato oprimido sugere que
as consideraes de classe tambm se tornavam fator importante. A redefinio
e o desenvolvimento dos objetivos dos levantes teriam de ser a decorrncia
inevitvel do apoio mais amplo que eles recebiam. Os protestos contra esta ou
aquela forma de injustia foram postos de lado, em favor de uma estratgia com
vistas a destruir o sistema repressivo que as engendrara.
    Se as insurreies coloniais refletem a elevao do nvel de conscincia pol-
tica e a intensificao da hostilidade de seus participantes, tambm apresentam
numerosos pontos em comum com os movimentos de oposio isolados, em
geral anteriores. Tal como as comunidades de fugitivos, elas rejeitavam a reforma
interna, aspirando antes  independncia que aos melhoramentos. s revoltas
camponesas e atividades dos "bandidos de honra", assemelhava-se pela estratgia
ofensiva ou de confronto direto. Alm disso, muitas vezes a participao em
movimentos localizados de protesto elevava o nvel de conscincia poltica de
numerosos africanos, preparando-os assim para o engajamento em atividades
anticoloniais mais progressistas.
    De 1885  data das primeiras conquistas de territrios na frica central 
at 1918, assinalam-se mais de 20 insurreies61. Nenhuma das cinco colnias
 Angola, Moambique, Niassalndia, Rodsia do Norte e Congo  escapou a
elas. No entanto, foi nas colnias portuguesas e no Congo  onde a dominao
extremamente opressiva, de um lado, e a fraqueza da estrutura administrativa e
militar, de outro, facultavam ondas sucessivas de agitao revolucionria  que
se deu a grande maioria das insurreies.
    Embora diferentes nos pormenores, todas as insurreies conheceram os
mesmos problemas de organizao, os quais, por sua vez, geraram caractersti-
cas comuns e limitaram gravemente a possibilidade de xito. Cumpria resolver
problemas fundamentais: encontrar um chefe de prestgio, com o devotamento e
a experincia necessrios para suscitar e dirigir um movimento de massa; deter-
minar os princpios orientadores de um vasto movimento anticolonial; enfim,
encontrar uma fonte de armas e munies.
    Pouco antes da imposio da tutela colonial, as primeiras lutas pela pre-
servao da independncia haviam acarretado a morte ou a deposio de bom
nmero dos chefes e militantes mais respeitados. Entre os mortos, figuram o

61    Trata-se a de um nmero mnimo, que, sem dvida, ser modificado  medida que forem prosseguindo
      as pesquisas sobre o tema.
Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914                      213



lder dos Chewa, Mwase Kasungu, e o dos Yeke, Msiri. Entre os exilados, Gun-
gunhana, Monomotapa Chioco e a famlia real dos Baru. Houve ainda os que
foram substitudos por membros mais maleveis da famlia real, como o chefe
dos Humbe, Tehuango, e o dos Quitangona, o xeque Mahmud. Destrudas ou
substitudas as lideranas histricas, os administradores coloniais ficaram con-
vencidos de haverem efetivamente "ocupado" os respectivos territrios e, por-
tanto, eliminado praticamente toda possibilidade de levantes posteriores. No
se davam conta de que as instituies polticas indgenas no haviam perdido
sua legitimidade e ainda eram viveis, que havia outras fontes de liderana e que
muitos povos da frica central estavam decididos a se libertar.
    O eminente papel assumido por certas famlias reais nas insurreies des-
mente a opinio geralmente admitida de que os srios reveses militares sofridos
quando da "corrida" tinham enfraquecido a posio dos chefes indgenas. O car-
ter sagrado do poder real e a violncia dos sentimentos antiportugueses no meio
das massas permitiram a Chioco, dirigente exilado de Monomotapa, organizar a
rebelio de 1897, exemplo retomado 20 anos depois, quando Nongwe-Nongwe
regressou da Rodsia do Sul para encabear os Baru e seus vizinhos do vale do
Zambeze na insurreio de 191762. Do mesmo modo, apesar de ter aceitado pro
forma a dominao portuguesa, Muta-ya-Kavela, chefe dos Bailundu, reuniu os
elementos de uma coalizo anticolonial durante a rebelio de 1902, e, em 1908,
o monarca dos Dembo, Cazuangonongo, revoltou-se com seus partidrios63.
No sul de Angola, Sihetekela, chefe (soba) exilado dos Cuamato, reafirmou sua
autoridade e levou seu povo a concluir uma aliana com os Cuanhama contra
Portugal, abrindo, assim, caminho para a guerra de 191564. Os funcionrios do
Estado Livre do Congo ficaram estupefatos ao ver Mushidi, rei dos Lunda, que
acreditavam seu sdito, organizar uma rebelio de grande envergadura, a qual
durou de 1905 a 190965.
    As autoridades coloniais que no haviam compreendido que a realeza ainda
tinha meios de ao superestimavam, alm disso, a aptido dos novos dirigen-
tes, designados por elas  os chefes coloniais , para impor aos administradores
obrigaes que iam contra seus interesses e seu sistema de valores. Assim, em
1904, a rebelio de Quitangona foi dirigida ao mesmo tempo contra os portu-


62   RANGER, 1963, p. 1-2; ISAACMAN, A., 1976, p. 156-85.
63   WHEELER & CHRISTENSEN, 1973, p. 75-6; MARCUM, 1969, p. 16. Obra muito importante, que
     aponta antecedentes j no incio do sculo XX da recente guerra de libertao.
64 PLISSIER, 1969, p. 100-1.
65   BUSTIN, 1975, p. 48.
214                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



gueses e contra seu rgulo fantoche, Said Bin Amissi, deposto em favor do xeque
Mahmud, o chefe legtimo66. Semelhantemente, a usurpao do poder por um
membro cooptado da famlia real provocou, em 1891, a rebelio dos Humbe67.
Houve casos, como o de Makanga, em que o conselho dos ancios, exprimindo
o sentimento geral da populao, exigiu que o chefe colonial Chinsinga rejeitasse
a dominao portuguesa ou fosse deposto. Contra a sua vontade, Chinsinga
consentiu em proclamar a independncia de Makanga, do que resultou violento
confronto com as foras de Lisboa68.
    Mesmo onde o chefe legtimo tivesse sido efetivamente deposto ou cooptado,
outros lderes em potencial surgiam com o apoio do povo. Frequentemente, esses
homens desempenharam papel preponderante nas guerras de independncia.
O primeiro lugar-tenente e chefe de guerra de Gungunhana, Maguiguana, foi
quem organizou a insurreio de Shangaan, em 189769. Cambuemba, o famoso
guerreiro mestio, cujas proezas contra os portugueses se tornaram lendrias,
desempenhou papel anlogo durante a rebelio de Sena-Tonga, que, dois anos
mais tarde, incendiou todo o vale do baixo Zambeze70. No Congo, vrias insur-
reies tiveram como chefes pessoas comuns, que souberam mobilizar as massas.
Em 1897, um sargento descontente da Force Publique, Kandolo, desencadeou
uma revolta militar cujo objetivo, ao contrrio de outros motins, era a expulso
dos europeus e a libertao do Estado Livre do Congo71.
    Sacerdotes e mdiuns organizaram e abenoaram numerosas insurreies.
Esta participao nas lutas, que j vinha desde antes do perodo colonial, decor-
ria logicamente de seu papel ancestral de guardies espirituais da terra natal.
Em 1909, Maluma, sacerdote dos Tonga, apelou para a expulso imediata dos
todo-poderosos colonizadores da Niassalndia. " chegada a hora de combater
os homens brancos. Comecemos hoje mesmo e combatamos durante toda a
estao das chuvas. Que os homens negros se levantem! E que expulsem os
brancos deste territrio"72. Foi Maluma quem, em seguida, conduziu os Tonga
ao combate. Do mesmo modo, em 1884 os sacerdotes mbona tiveram papel


66    HAFKIN, 1973, p. 378.
67    PLISSIER, 1969, p. 73.
68    ISAACMAN, A., 1972, p. 132-3: estudo sobre o funcionamento dos prazos do Zambeze e da resistncia
      dos prazeiros afro-portugueses  dominao portuguesa.
69    COELHO, 1898, p. 83; BOTELHO, 1934, v. 2, p. 533-47.
70    COUTINHO, 1904, p. 26-8; BOTELHO, 1934, v. 2, p. 549-57.
71    FLAMENT et al., 1954, p. 411. O grupo tentou ocupar pelo menos a antiga zona rabe, ou seja, quase
      a metade do Estado.
72    Apud ROTBERG, 1966, p. 75-6.
Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914                               215



importante na chefia da rebelio de Massingire, e certos indcios permitem pen-
sar que os sacerdotes dos Kandudu estiveram ativamente envolvidos na rebelio
dos Bailundu de 190473. No Congo, a sacerdotisa Maria Nkoie predizia que
as armas europeias seriam impotentes contra seus talisms guerreiros. Seguros
disso, seus adeptos desencadearam uma campanha de cinco anos, que terminou
em 1921. Em seu apogeu, a rebelio de Ikaya  do nome dos conhecidos talis-
ms de guerra  espalhara-se por toda a regio do Congo74. Em parte alguma as
responsabilidades assumidas pelos chefes religiosos foram to marcantes como
no vale do Zambeze. Os mdiuns shona incitaram as populaes a apoiar as
abortadas rebelies de 1897, 1901 e 1904, proclamando por diversas vezes que
a seca, a fome e as doenas do gado que o cu lhes enviava e que ameaavam
sua sobrevivncia teriam fim quando os invasores estrangeiros fossem expulsos.
Em 1917, o mdium Mbuyu ameaou retirar a consagrao divina do chefe dos
Baru, Nongwe-Nongwe, se ele no abandonasse sua atitude impopular e no
aceitasse fazer parte de uma rebelio anticolonial. Relutante, ele concordou75.
     medida que a influncia dos missionrios protestantes se ampliava, alguns
africanos, convertidos mas refratrios, tentaram criar movimentos anticolonialis-
tas com base numa doutrina revolucionria milenria. Entre os primeiros chefes,
os mais clebres foram Kamwana e John Chilembwe, ambos da Niassalndia.
O primeiro, membro da seita Watchtower, predizia que uma nova ordem de
Estados africanos, beneficirios da aprovao divina, seria estabelecida em 1914.
Enquanto esperava, Kamwana compeliu seus 10 mil discpulos a purificarem-
-se e a absterem-se de qualquer resistncia violenta  autoridade britnica76. O
objetivo ltimo de Chilembwe no  fcil perceber: ele tambm entrevia um
Estado africano de inspirao divina, mas, ao contrrio de Kamwana, em 1915
incitou seus discpulos a uma insurreio, talvez simblica, que durou pouco77.
Com a morte, tornou-se mrtir do anticolonialismo, cujo significado excede sua
obra terrestre.
    Como Chilembwe, quase todos esses lderes reconheciam a necessidade de
celebrar alianas que lhes permitissem ampliar sua base de apoio. As malsuce-
didas guerras do comeo da resistncia mostravam que, isoladas, as sociedades


73   MONTAGU-KERR, 1886, p. 275-6; WHEELER & CHRISTENSEN, 1973, p. 75.
74   MOULAERT, 1945, p. 187-8.
75   ISAACMAN, A., 1976, p. 126-85.
76   SHEPPERSON & PRICE, 1958, p. 156.
77   Sobre Chilembwe, ver SHEPPERSON & PRICE, 1958, obra fundamental de referncia. A se encontram
     importantes informaes sobre Kamwana.
216                                                           frica sob dominao colonial, 1880-1935



africanas no dispunham de recursos para resistir  penetrao europeia. Esse fato
foi previsto com muita clareza pelo chefe do Estado moambicano de Makanga,
pouco antes da revolta de 1899: " preciso que os africanos de todas as tribos se
unam, dando prova de boa-f, num esforo coordenado para conseguir grandes
quantidades de armas e munies. Feito isso, expulsaremos todos os portugueses"78.
    As tentativas de criao de movimentos revolucionrios de amplas bases
foram de trs gneros. No primeiro caso, tratava-se de reativar laos ancestrais
com povos de cultura aparentada, a fim de atrair sociedades inteiras para o
campo dos insurretos. Noutro caso, os rebeldes procuravam o apoio de grupos
poderosos que, por causa do parentesco distante ou de antigas querelas, no eram
at ento considerados aliados. Por fim, os chefes apelavam diretamente  ajuda
econmica dos camponeses insubmissos. Estes trs princpios de organizao
foram utilizados por vrias vezes e de modo mais ou menos associado, para dar
 rebelio maior envergadura e garantir o apoio das populaes na luta contra
o opressor comum.
    Para ampliar as bases de apoio, era costume invocar laos ancestrais comuns.
Em Angola, em 1904, quando da revolta dos Bailundu, Muta-ya-Kavela obteve
o apoio de vrios reinos Umbumdu aparentados. Trs anos depois, numero-
sas circunscries ovambo tomaram parte na insurreio dos Cuamato79. Em
Moambique, o prestgio de que gozava o monomotapa Chioco, como des-
cendente por patrilinearidade de Mtota, primeiro rei dos Tawara, permitiu-lhe
receber a ajuda de certo nmero de sociedades tawara independentes. Por sua
parte, os Baru foram beneficiados pelo fato de se casarem tradicionalmente
com Tongas80. Uma linhagem comum, simbolizada por toda uma hierarquia de laos
entre mdiuns, permitiu s diversas circunscries shona unirem-se em seus levantes
de 1901, 1904 e 191781; j a rebelio ikaya, no Congo, propagou-se graas ao fato de
que, compartilhando das mesmas crenas, as populaes esparsas da curva do Zaire
tiveram maior facilidade para se incorporarem82.
    Na busca de novos aliados, os chefes das diversas insurreies apelavam fre-
quentemente para antigos adversrios, que partilhavam de seu dio ao sistema
colonial. Os Bailundu conseguiram o auxlio de alguns povos ex-vassalos  os
Kasongi, os Civanda e os Ngalanga; por sua vez, os Shangaan ganharam o apoio


78    FERNANDES JNIOR, 1955, p. 50.
79    WHEELER & CHRISTENSEN, 1973, p. 76; PLISSIER, 1969, p. 85-7.
80    RANGER, 1963, p. 1-2; ISAACMAN, A., 1973, p. 395-400.
81    ISAACMAN, A., 1976, p. 126-85.
82    FLAMENT et al., 1952, p. 411.
Iniciativas e resistncia africanas na frica central, 1880-1914                                 217



de chefarias cujas simpatias tinham perdido durante sua fase expansionista, ante-
rior  "corrida" europeia83. Em certos casos, a reconciliao s se deu depois que
os chefes deste ou daquele grupo pr-europeu tomaram conscincia de todas as
implicaes de sua atitude. Os Lunda, sob Mushidi, que comearam por ajudar
o Estado Livre do Congo contra os Chokwe, em 1905, aps uma reviravolta
espetacular, fizeram causa comum com os antigos inimigos, encetando uma luta
que s foi esmagada por causa da carestia de alimentos de 1910-1284 (ver figura
8.1). Em Moambique, os Sena, que, ocupando posio estratgica, se haviam batido,
em 1901, ao lado dos portugueses contra os Baru, 16 anos depois aliaram-se com
entusiasmo aos mesmos Baru, tomando parte em um movimento pan-zambeziano
para destruir o sistema colonial repressivo85.
    Os revoltosos tambm procuravam engrossar fileiras com os aldees e os
trabalhadores rurais que se recusavam individualmente a aceitar as exigncias
das autoridades coloniais e de seus aliados capitalistas. Neste caso o apelo no
era nem tnico nem cultural, nem dirigido necessariamente aos chefes, dos
quais muitos tinham sido nomeados pelo colonizador. Instava-se simplesmente
com todos quantos sofressem a opresso econmica a juntarem-se  insurreio,
para suprimir de uma s vez os impostos, o trabalho e o sistema que os engen-
drara. Na Niassalndia, o movimento kamwana, inicialmente sustentado pelos
Tonga das margens do lago, logo se expandiu englobando os at ento hostis
camponeses nguni, senga e tumbuka86. O apelo de Chilembwe s massas rurais
tambm no aludia  solidariedade tnica. Salientava, em vez disso, a necessidade
de acabar com a explorao e criar uma nao africana beneficiria da sano
divina87. Os Bailundu recrutaram adeptos entre camponeses no umbundu,
vtimas do trabalho forado e da explorao econmica. No vale do Zambeze,
foram numerosos os camponeses, cuja hostilidade j se manifestara por aes
localizadas de resistncia, que se juntaram s insurreies, em irrupo cons-
tante88. O mesmo ocorreu no Congo, onde pequenos plantadores de borracha
explorados estiveram na origem da rebelio Kuba, em 190489.


83   WHEELER & CHRISTENSEN, 1973, p. 76; BOTELHO, 1934, v. 2, p. 433-67.
84   BUSTIN, 1975, p. 48.
85   Numerosos documentos conservados nos Arquivos da Companhia de Moambique, caixa 1633, tratam
     dessas inverses de aliana.
86   SHEPPERSON & PRICE, 1958, p. 156.
87   Ver SHEPPERSON & PRICE, 1958; MWASE, 1967.
88   WHEELER & CHRISTENSEN, 1973, p. 76-7; ISAACMAN, A., 1976, p. 126-85.
89   Os plantadores de seringueiras  que desencadearam essa rebelio. VANSINA, 1969, p. 21-2.
218                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Seria ocioso estendermo-nos aqui sobre a questo da aquisio de armas.
Basta dizer que os rebeldes procuravam armas modernas de vrias formas: em
transaes comerciais clandestinas com traficantes europeus, asiticos e africa-
nos, em assaltos a depsitos europeus de armas, comprando-as a policiais ou
mercenrios africanos, fazendo aliana com povos vizinhos ainda independentes
e, em certos casos, construindo fbricas de armas e munies. Se  verdade que
certos rebeldes, como os Baru e os Cuamato, lograram criar arsenais relativa-
mente grandes, foram raras as vezes em que os insurretos tiveram o poder de
fogo dos primeiros resistentes.
    Dados o desequilbrio do potencial militar, o desenvolvimento da polcia e
das foras mercenrias africanas, no surpreende que todas as revoltas acabassem
por malograr. No obstante, algumas registraram xitos marcantes, embora bre-
ves, que desmentem a ideia comum da passividade africana. A ttulo de exemplo,
em 1904, os Bailundu expulsaram os portugueses das montanhas ovimbundu.
Trs anos mais tarde, os mesmos portugueses sofriam derrota anloga, desta vez
infligida pelos Cuamato, no sul de Angola.  provvel que maior feito militar
tenha sido o dos Baru e seus aliados: durante a revolta de 1917, consegui-
ram libertar todo o vale do Zambeze, ainda que por curto tempo. No fosse a
interveno de 30 mil mercenrios nguni, talvez a rebelio se tivesse alastrado
a outras regies de Moambique.


      Concluso
    Analisamos aqui as primeiras manifestaes das iniciativas e da resistncia
africanas diante da dominao europeia. Ao longo de todo o captulo, procu-
ramos documentar a frequncia e o vigor da atividade anticolonial. O desejo
de liberdade da maior parte dos africanos teve de enfrentar as ambies de
uma minoria de mercenrios e aliados dos europeus, sem os quais estes jamais
teriam conseguido impor seu jugo por completo. A tradio de confronto e de
resistncia, portanto, coexistiu com uma tradio de colaborao. Embora o con-
texto poltico tivesse mudado, a luta entre essas duas foras rivais permaneceria
um fator operante na frica central e meridional nas dcadas de 1960 e 1970,
perodo da luta pela independncia.
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                  219



                                           CAPTULO 9


              Iniciativas e resistncia africanas
                    na frica meridional
                                            David Chanaiwa




    O sul da frica em vsperas da conquista colonial
    Para estudar a resistncia africana  colonizao no sul do continente no
sculo XIX,  importante compreender bem o ambiente cultural e social em que
ela se verificou. As principais foras histricas eram o expansionismo colonial, a
cristianizao e o ensino dos missionrios, a revoluo Zulu e seus corolrios: o
Mfecane e as migraes dos Nguni. Na poca da Conferncia de Berlim sobre
a frica ocidental (1884-1885), que se caracterizou por uma concorrncia febril
entre as naes europeias, vidas de ampliar as possesses coloniais africanas,
havia mais de 70 anos que os britnicos e afrikaners j disputavam os territrios
da frica meridional. Termos tais como "tratado", "esfera de influncia", "ocu-
pao efetiva", "anexao" e "fora de fronteira", cujo uso se propagou a toda
a frica aps aquela conferncia, pertenciam a um vocabulrio j corrente na
frica austral desde 1815. Os colonos europeus do sul da frica, ao contrrio
dos do resto do continente, projetavam, desde o incio, fundar estabelecimentos
permanentes nessa regio nova que os atraa pelo clima temperado, pela fertili-
dade das terras arveis, pela mo de obra barata e, enfim, pela riqueza mineral.
    Por volta de 1880, havia na frica meridional quatro entidades polticas
brancas: de um lado, a Colnia do Cabo e Natal, com maioria de populao
branca e de lngua inglesa (respectivamente, 185 mil e 20 mil almas), e, de outro,
220                                                           frica sob dominao colonial, 1880-1935



a Repblica Sul-Africana e o Estado Livre de Orange, que, juntos, contavam
mais de 50 mil brancos de lngua holandesa. Posteriormente, outra colnia
inglesa foi fundada: Mashonalndia (12 de setembro de 1890). Nessas cinco
colnias de povoamento, a grande massa de autctones africanos era dominada
por minorias brancas. Para as populaes San e Khoi-khoi, a submisso remon-
tava a mais de dois sculos; para outras, como os Xhosa, os Mfengu, os Tembu e
os Mpondo, a dominao colonial, sob diferentes formas, perdurava havia quase
cem anos1 (ver figura 9.1).
    Nos termos da Conveno de Sand River (1852), britnicos e afrikaners
tinham acordado no vender armas de fogo s populaes autctones da frica
meridional. O acordo privava os africanos de um meio de que necessitavam para
sua autodefesa e para uma resistncia eficaz.
    Assim, na poca em que os pases europeus aderiram ao Ato Geral da Con-
ferncia de Bruxelas (antiescravagista), de 1890, que proibia a venda de armas de
fogo aos africanos, os brancos da frica meridional j praticavam, havia algum
tempo, uma poltica de desarmamento das populaes locais, se bem que, nas
dcadas de 1870 e 1880, alguns grupos tenham conseguido comprar armas de
fogo com o dinheiro ganho nas minas de diamantes. Alm disso, os afrikaners,
os colonos ingleses e o prprio governo britnico mantinham uma mstica de
identidade racial que prevalecia sobre as divergncias de seus interesses polticos
ou econmicos particulares. Sentiam que era de seu interesse comum conquistar,
governar e explorar os africanos. Por isso no s se opuseram ao fornecimento
de armas aos africanos, como tambm evitaram utilizar tropas africanas como
aliadas quando combatiam uns contra os outros. Tudo isso condicionou subs-
tancialmente as iniciativas e reaes dos africanos, limitando suas possibilidades
de ao.


      A revoluo Zulu e suas consequncias
   A situao ainda era agravada pelos acontecimentos decisivos que se tinham
desencadeado no sul da frica no incio do sculo XIX. So de citar a revo-
luo Zulu e o Mfecane na frica do Sul, as migraes dos Nguni (Ndebele)
para a Rodsia do Sul (atual Zimbbue), a dos Kololo para a Rodsia do Norte
(atual Zmbia), a dos Nguni para a Niassalndia (atual Malavi) e Tanganica


1     Para as reaes africanas anteriores  dcada de 1880, ver MACMILLAN, 1963; DE KIEWIET, 1965;
      PHILLIP, 1928; MARAIS, 1957.
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                                          221




figura 9.1 Povos e diviso poltica do sul da frica. O mapa mostra as migraes dos Nguni e a rea do
Chimurenga.
222                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935



(atual Repblica Unida da Tanznia), as atividades dos Bemba na Rodsia do
Norte, a aliana Yao-Swahili e, por fim, o trfico de escravos na Niassalndia
(ver figura 9.1). Alguns desses acontecimentos se propagaram com rapidez
explosiva, provocando bruscas perturbaes nos sistemas poltico, econmico,
social e militar de numerosas sociedades indgenas de toda a frica meridio-
nal. Para os africanos, foi um perodo de edificao nacional e de expanso
poltica, em que Estados mais fortes e centralizados estabeleceram seu domnio
ou sua esfera de influncia sobre outros mais fracos e mais divididos. Inmeros
polticos e observadores europeus da poca viam essas transformaes cruciais
como simples episdios de barbrie, sede de sangue e paganismo; no obstante,
tratava-se de manifestaes de fora construtiva, de criatividade poltica, que
levaram  formao de instituies e de alianas intertnicas, cuja herana ainda
hoje  perceptvel.
    Embora fecundas, essas transformaes to fundamentais causaram perdas
imensas em recursos humanos e naturais. Calamidades como a seca, epidemias
e fome acompanharam a violncia e agravaram profundamente os efeitos das
destruies provocadas por aqueles acontecimentos. Essa situao de conflitos
e de desastres contnuos gerou um sentimento permanente de insegurana e
de desespero no seio das pequenas comunidades tributrias, fracas e pacficas,
muitas das quais se viram obrigadas a refugiar-se em cavernas ou a fugir para
montanhas inspitas, evitando sofrer novos golpes de seus agressores. Surgiram
ento aristocracias dirigentes, distines de classes e tributaes sem representa-
o ou consulta poltica. Por fim, logo se estabeleceu a diviso entre governantes
e governados, entre opressores e oprimidos, entre proprietrios e deserdados.


      O fator missionrio
    A cristianizao e o ensino levados a cabo pelos missionrios tambm cons-
tituram fatores importantes da evoluo e da natureza da resistncia africana
 conquista colonial. Os missionrios tinham criado uma classe de pequenos
burgueses africanos (catequistas, professores, jornalistas, homens de negcios,
advogados e empregados de escritrio), que reconheciam a pretensa inferiori-
dade cultural dos africanos, aceitando a colonizao branca como fato consu-
mado, e que admiravam os brancos por seu poderio, riqueza e tcnica2. Podemos
citar, entre os representantes de tal elite, Tiyo Soga (1829-1871), primeiro missionrio

2     Para detalhes, ver CHANAIWA, 1980.
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                      223



africano ordenado pela Igreja Presbiteriana da Inglaterra, fundador da misso de
Mgwali, em que pregava tanto aos africanos como aos europeus; traduziu o Pilgrim's
progress, de John Bunyan, para o xhosa, com o ttulo de U-Hambo Lom-Hambi,
primeira obra de um africano a ser publicada pela Lovedale Press, em 1867; alm
dele, John Langalibalele Dube, pastor metodista e ardente partidrio de Booker T.
Washington  educador negro norte-americano , presidente fundador da Zulu
Christian Industrial School e da Natal Bantu Business League e primeiro pre-
sidente do African National Congress; e ainda John Tengo Jabavu (1859-1921),
metodista fervoroso, fundador e editor do Imvo Zabantsundu, semanrio biln-
gue ingls-xhosa; e Walter Rubusana, pastor congregacionalista e nico africano
eleito para a assembleia provincial do Cabo.
    No plano ideolgico, esses africanos formados pelos missionrios acredita-
vam no universalismo, utopismo e no racismo de seus mestres e da Aborigines'
Protection Society. Eram adeptos convictos do constitucionalismo, das reformas
progressivas e da assimilao cultural, ideias tambm defendidas por alguns
colonos brancos liberais. Mas eram ao mesmo tempo discpulos da doutrina
de Booker T. Washington de autodeterminao econmica dos negros, de sua
conservadora poltica de compromisso.
    Tal como os missionrios, classificavam as massas africanas como "nobres
selvagens, mergulhados nas trevas da ignorncia" e se acreditavam destinados
a promover o progresso da frica tradicional pela introduo do cristianismo,
da educao, do capitalismo, da industrializao e da tica protestante do tra-
balho. Em geral, aprovavam o expansionismo e as conquistas coloniais, por um
lado porque assimilavam o colonialismo  cristianizao e  "civilizao" e, por
outro, por reconhecer a "superioridade esmagadora" das armas e dos exrcitos
europeus.
    Assim, para Tiyo Soga, o episdio do abate do gado, em 1857, pelos Xhosa
era um suicdio nacional cometido por aqueles "pobres compatriotas perdidos",
que se tinham deixado "enganar por impostores". Mas ele esperava que essa
"infelicidade servisse  com a grande bondade de Deus  para o progresso
espiritual dos Cafres". E clamava que "as calamidades s vezes fazem parte dos
desgnios de Deus. No seu atual infortnio, creio ver a futura salvao de meu
povo, tanto no plano fsico como no plano moral"3. Dube condenou a revolta de
Bambata (1906-1908) no seu jornal Ilanga lase Natal e aconselhou os Zulus a
aceitarem o cristianismo e a educao, em vez de se rebelarem. Jabavu boicotou


3    CHALMERS, 1877, p. 140.
224                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



o African National Congress, em parte por julgar que as elites ainda tinham
necessidade da tutela dos liberais brancos.
    As elites estavam divididas entre o mundo utpico dos missionrios, filantro-
pos e liberais brancos, o mundo da tradio das massas africanas, que elas por vezes
desprezavam, e o mundo colonialista, alicerado no racismo, na explorao e na
opresso, que lhes dominava a vida e determinava seu real status. Criaram para si
um mundo moralizador, para o qual procuraram atrair africanos e colonos. Come-
teram o erro de assimilar a conquista colonial  cristianizao e  difuso da cultura
e da tcnica, rejeitando a resistncia africana como manifestao de paganismo e
barbrie. Ao condenarem a frica tradicional, no fizeram mais do que sustentar
e reforar a ideologia colonialista, que procuravam combater. Ademais, com suas
prdicas, seu estilo de vida e suas crenas, ajudaram a minar psicologicamente a
capacidade de resistncia dos africanos  propaganda dos missionrios e dos colo-
nos e, de certa forma, impediram o desenvolvimento de uma conscincia racial e
histrica autenticamente africana, que conduzisse  libertao. Sua atitude, assim
como a dos africanos convertidos que os seguiam, era ou isolar-se no papel de
observadores ou refugiar-se nas misses, em vez de cerrar fileiras com a resistncia
armada contra a conquista e a ocupao coloniais.


      Tipos de iniciativas e de resistncias africanas
    Os fatores a que aludimos influenciaram consideravelmente a natureza e a
intensidade das reaes africanas diante do avano da colonizao e do imperia-
lismo europeu. De modo geral, houve trs tipos bem distintos de iniciativas e de
reaes: a) o conflito armado, levado pelos Zulu, Ndebele, Changanana, Bemba,
Yao e Nguni, assim como pelas chefias dos Mangwende, Makoni e Mutasa; b) o
protetorado ou a tutela, escolhidos pelos Sotho, Swazi, Ngwato, Tswana e Lozi,
que possuam todos eles Estados independentes, no tributrios, e procuraram
a proteo dos britnicos contra os beres e os Zulu, Ndebele, Bemba e Nguni;
c) alianas, pelas quais optaram numerosas comunidades pequenas e tributrias,
vtimas de assaltos e que viviam refugiadas, como os Khoi-khoi, os Xhosa, os
Mpondo, os Tembu, os Mfengu e os Hlubi na frica do Sul, os Bisa, os Lungu,
os Iwa e os Senga na Rodsia do Norte, e os Cewa, os Njanja, os Nkonde e os
Tonga na Niassalndia, que esperavam assim obter "proteo, paz e segurana".
Havia rivalidades histricas entre reinos novos e expansionistas, bem como con-
flitos de interesses que opunham diferentes grupos culturais e dinastias dentro
desses mesmos reinos. Cada dirigente, cada sociedade e mesmo cada indivduo
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                       225



reagia s crescentes usurpaes dos europeus em funo do contexto de relaes
e realidades inter-regionais existente antes da chegada dos brancos.
    Os colonizadores europeus no deixaram de explorar essa situao. Estuda-
ram os sistemas polticos da frica daquela poca, o que muitas vezes lhes per-
mitiu prever as formas de reao e de resistncia africanas. Descobriram assim
que o expansionismo dos Zulu, dos Ndebele, dos Yao e dos Nguni s podia
funcionar sem choques se as aristocracias fossem poderosas, os chefes locais
fracos e divididos, ou, pelo menos, se estes sentissem necessidade de proteo
militar e confiassem na aristocracia dirigente para lhes assegurar tal proteo.
    Cansados da guerra e de viver em insegurana, foram muitos os grupos ou
indivduos que preferiram aceitar a tutela ou reconhecer a aliana dos britnicos;
os ingleses inventaram pretextos para interferir nos negcios internos africanos
oferecendo "libertao" ou "proteo" aos oprimidos, "aliana" aos reinos menos
poderosos e invadindo os imprios militares. Aplicaram sistematicamente a
ttica destrutiva de "dividir para reinar". Dessa forma, souberam explorar as
rivalidades, medos e fraquezas dos africanos em seu pleno favor.


    Os Zulu, Ndebele, Bemba, Yao: a poltica de confronto
   Violentos confrontos, conquistas e destruies eram praticamente inevitveis
para os Zulu, os Ndebele, os Bemba e os Yao, j que eles procuravam submeter
os mesmos territrios e povos que os colonizadores europeus. Em conjunto, esses
reinos ocupavam ou dominavam as terras da frica meridional menos povo-
adas, mais frteis e mais ricas em recursos minerais. Seus interesses tornavam
impossvel qualquer acordo ou coexistncia com os europeus. Somente o mais
forte poderia vencer e sobreviver.
   Os Zulu constituam a maior potncia africana estabelecida ao sul do rio
Limpopo; os Ndebele viviam entre o Limpopo e o Zambeze; os Bemba ocu-
pavam a Rodsia do Norte; e os reinos Yao estendiam-se respectivamente pelo
norte e pelo sul da Niassalndia. Mas, no incio, os reinos Zulu, Ndebele, Kololo,
Changana e Nguni estavam cercados por vizinhos hostis e poderosos. Para os
Zulu, eram os beres, os ingleses, os Sotho e os Swazi. Os Ndebele, por sua vez,
viam-se ameaados pelos beres, pelos portugueses, pelos Lozi, pelos Changana
e pelos Ngwato  e cada um desses povos, instalados s suas portas, represen-
tava um inimigo capaz de venc-los e elimin-los. Os beres e os portugueses
mostravam-se brutais na conduta de seus negcios externos, praticando uma
poltica de ataques e conquistas.
226                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



    At o comeo da dcada de 1870, os Zulu, os Ndebele, os Bemba e os
Yao conseguiram manter sua soberania, independncia e segurana. Tambm
haviam resistido com xito  intruso dos missionrios, dos comerciantes, dos
concessionrios e dos recrutadores de mo de obra europeus, que, alis, tinham
concludo que a conquista e o desmembramento dos Estados africanos refra-
trios tornavam-se indispensveis. Alimentavam a iluso de que os africanos
aspiravam ao cristianismo, ao comrcio e  cultura europeia, mas os ataques, a
tirania e o paganismo dos monarcas, administradores e guerreiros reprimiam
implacavelmente "a ambio, o esforo e o desejo de salvao dos autctones".
Por consequncia, os brancos recorreram  conquista, antes da cristianizao e
do comrcio.

      Os Zulu
    Cetshwayo, rei dos Zulu, e Lobengula, rei dos Ndebele, resolveram, portanto,
adotar uma estratgia de confronto, a princpio usando a ttica da diplomacia e,
depois, a da resistncia armada. De acordo com essa estratgia, Cetshwayo deu
andamento, de incio,  poltica externa pacifista e isolacionista de seu antecessor,
Mpande. Em face da inveterada hostilidade dos beres do Transvaal, manti-
nha slida aliana com os colonos ingleses de Natal e relaes amistosas com
Theophilus Shepstone, o clebre secretrio dos Negcios Indgenas de Natal.
Mas, quando os britnicos anexaram o Transvaal, em 1877, e nomearam Sheps-
tone administrador, o sistema da aliana montado por Cetshwayo desmoronou
rapidamente. Desde a, Shepstone passou a apoiar os afrikaners que haviam
cruzado o rio Buffalo, penetrado em territrio zulu, ocupado fazendas e que
ento reclamavam ttulos de posse das terras. O novo alto-comissrio britnico
para a frica do Sul, sir Bartle Frere, s tinha como preocupao concretizar a
federao das colnias brancas4. Shepstone persuadiu-o de que tal federao s
seria realizvel na frica austral com o desmantelamento da potncia militar
zulu, j que a simples existncia dessa nao africana ameaava a segurana e o
desenvolvimento econmico de Natal. Alm disso, argumentava Shepstone, a
destruio dos Zulu demonstraria aos afrikaners que o governo britnico sabia
conduzir uma poltica racial eficaz e era suficientemente poderoso para fazer
executar suas decises.
    Nesse meio-tempo, Cetshwayo apelara a sir Henry Bulwer, vice-governador
de Natal, para arbitrar o conflito fronteirio que opunha os Zulu aos afrikaners.


4     GOODFELLOW, 1966.
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                        227



Sir Henry nomeou uma comisso para exame do litgio, a qual declarou serem
ilegais as pretenses dos afrikaners, recomendando que cruzassem de novo o rio
para o lado do Transvaal. Frere, porm, estava decidido a desmantelar a nao
zulu a fim de realizar seu projeto de federao. Por isso escondeu o relatrio e
as concluses da comisso at que estivesse assegurado o pretexto justificativo
da invaso e tivessem chegado os reforos que pedira. A ocasio apresentou-se
em 28 de julho de 1878, quando Mehlokazulu, Kuzulu e Tshekwana, filhos do
chefe Sirayo, bem como seu tio Zuluhlenga, atravessaram o rio Buffalo trazendo
consigo as mulheres do chefe, que tinha emigrado para Natal. Frere e Shepstone
exploraram ao mximo o incidente. Logo se espalhou pela frica e pelo Minis-
trio das Colnias, em Londres, que era iminente uma invaso de Natal pelos
Zulu. Os missionrios foram aconselhados a sair da Zululndia. A esta altura,
Shepstone e Frere passaram a se referir ao exrcito Zulu como uma fora de
ataque ameaadora e a Cetshwayo como um tirano sedento de sangue.
    Frere intimou ento Cetshwayo a entregar o irmo e os filhos de Sirayo a sir
Henry Bulwer para julgamento, embora os Zulu jamais tivessem sido conquista-
dos e submetidos  dominao britnica. Em resposta, Cetshwayo props pagar
50 libras esterlinas por perdas e danos e pedir desculpas pelo incidente. Em 11
de dezembro de 1878, Frere enviou um ultimato a Cetshwayo. Entre as suas exi-
gncias figuravam a entrega dos acusados, com 500 cabeas de gado, a disperso
do exrcito Zulu no prazo de um ms, a admisso de missionrios e a instalao
de um residente britnico na Zululndia. Frere sabia que nenhum dirigente
poltico independente e digno dessa funo se submeteria a tais condies.
    No dia 11 de janeiro de 1879, um exrcito britnico, sob o comando de lorde
Chelmsford, com mais de 7 mil soldados, uns mil voluntrios brancos e 7 mil
auxiliares africanos, invadiu trs pontos do territrio Zulu. No dia 22 de janeiro,
o exrcito Zulu obteve uma vitria memorvel na batalha de Isandhlwana, durante
a qual 1600 atacantes foram mortos, e a invaso, repelida (figura 9.2). Mas, em 4 de
julho, as tropas britnicas voltaram e esmagaram a nao Zulu. Cetshwayo foi
para o exlio, no Cabo, e a Zululndia foi dividida em l3 circunscries dife-
rentes, colocadas sob a direo de fantoches. Entre eles figuravam um rival de
Cetshwayo, chamado Zibhebhu, seu primo Hamu, que tinha desertado e aderido
s foras inglesas no curso da guerra, mais um branco, John Dunn. A partilha
da Zululndia representava um caso clssico de destruio premeditada de uma
nao, levada a cabo pela poltica de "dividir para reinar". Para sustentar essa
poltica, os novos chefes receberam ordens de dissolver todas as organizaes
militares existentes, proibir a importao de armas e aceitar a arbitragem de um
residente britnico.
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figura 9.2   Campo de batalha de Isandhlwana, 1879: vitria dos Zulu sobre as tropas britnicas. (Fonte: The National Army Museum.)
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                      229



    Contudo, as rivalidades entre os chefes chegaram a tal ponto e a ameaa da
anarquia desenvolveu-se to depressa que, para restaurar a ordem nas zonas mais
instveis da nao Zulu, Cetshwayo teve de ser trazido de volta. Zibhebhu foi
mantido  frente da sua circunscrio. Mas logo a guerra civil estalava entre as
foras deste e as de Cetshwayo, que morreu em fuga, no auge das hostilidades,
em 1884. A nao Zulu, debilitada, foi ento colocada sob a chefia de Dinzulu,
filho de Cetshwayo, de 15 anos de idade, cujos poder e autoridade dependiam
do apoio dos brancos. Assim os Zulu sucumbiram definitivamente  colonizao
britnica.

    Os Ndebele
    De 1870 a 1890, Lobengula, tal como Cetshwayo, na Zululndia, seguiu com
xito uma estratgia diplomtica bem concebida, para proteger os interesses
vitais da nao Ndebele. Regulamentou a imigrao e informou aos estrangeiros
brancos que no desejava abrir-lhes o pas para a prospeco mineira ou para
a caa. Alm disso, desenvolveu diversas tticas, como a de se deslocar cons-
tantemente de uma capital para outra e de jogar dois pases, duas empresas ou
dois europeus um contra o outro. Adiava as decises para frustrar os confusos e
impacientes concessionrios. Sua estratgia, a longo prazo, consistia em procurar
uma aliana militar e o estatuto de protetorado junto do governo britnico, a fim
de se opor aos alemes, aos portugueses e aos afrikaners, freando a descontrolada
expanso colonial da frica do Sul.
    Essas formas de resistncia diplomtica parecem ter sido eficazes at 1888,
quando o financista sul-africano Cecil John Rhodes persuadiu o alto-comissrio
sir Hercules Robinson, bem como sir Sidney Shippard, comissrio delegado para
a Bechuanalndia, a apoiar os esforos do reverendo John Smith Moffat. Este
deixara a Matabelelndia em 1865, tendo fracassado completamente na tentativa
de converter os Ndebele. Por fim, tornou-se comissrio-adjunto de Shippard.
Moffat ambicionava ardentemente ter xito na colonizao dos Ndebele, para
apagar seus desastres pessoais anteriores. Alm disso, guardava vivo rancor de
Mzilikazi, de Lobengula e do conjunto dos chefes polticos que to vitorio-
samente haviam resistido ao cristianismo (figura 9.3). Assim, impulsionado
por sentimentos mesclados de vingana, orgulho e racismo, Moffat tornou-se
advogado convicto da destruio do Estado Ndebele5.



5    MOFFAT, 1969, p. 233.
230                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 9.3   Lobengula (c. 1836-1894), rei dos Ndebele, 1870-1894. (Foto: Longman.)
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                        231



    Moffat optou por dar apoio a Rhodes e  Chartered Company porque, con-
forme observou, a companhia provocaria necessariamente a conquista e o desman-
telamento da nao Ndebele, "a menos que a histria aqui fosse diferente do que
era em toda a frica do Sul". De incio, Moffat fingiu-se de conselheiro espiritual,
interessado no por dinheiro, manobras ou conquistas, mas em dar "conselhos amis-
tosos" a um "velho amigo". "Aconselhou" Lobengula a aliar-se antes aos britnicos
do que aos afrikaners, portugueses ou alemes. Tambm fez crer a Lobengula que
se tratava apenas de renovar simplesmente o antigo tratado anglo-ndebele concludo
em 1836 entre seu pai, Mzilikazi, e sir Benjamin d'Urban, antigo governador ingls
da frica do Sul. Desse modo, no dia 11 de fevereiro de 1888, Lobengula assinou
a conveno desde ento conhecida pelo nome de "tratado Moffat". Nos termos
desse acordo, o rei prometia abster-se de toda correspondncia ou concluso de
tratado com qualquer potncia estrangeira com vistas a vender, alienar, ceder,
permitir ou ratificar alguma venda, alienao ou cesso de todo ou de parte do
territrio por ele controlado, sem haver antecipadamente solicitado e recebido a
autorizao do alto-comissrio de Sua Majestade na frica do Sul6. Por fora
desse tratado, comeou a ocupao britnica da Rodsia. Moffat colocara a Mata-
belelndia e a Mashonalndia sob influncia inglesa direta.
    Aos olhos do direito internacional europeu de final do sculo XIX, Loben-
gula tinha se submetido ao colonialismo britnico. Portanto, os Ndebele da em
diante s podiam tratar com os ingleses. Agora j no lhes era possvel continuar
fazendo seu jogo diplomtico, colocando as naes europeias umas contra as
outras. Depressa, hordas de concessionrios e de associaes britnicas irrom-
peram junto a Lobengula, reclamando direitos territoriais ou minerais sobre
a Matabelelndia e a Mashonalndia. Tal qual mercenrios, esses insaciveis
especuladores prontamente ofereceram-lhe grande quantidade de carabinas,
munies, dinheiro, roupas, utenslios e enfeites, e a prestao de todo tipo de
servio para lhe ganhar as boas graas.
    Notando isso, Rhodes despachou Rudd, Thompson e Maguire7 para tentar
um acordo de monoplio com Lobengula. Tratava-se de obter o equivalente a
uma carta real que expulsasse todos os outros concessionrios e sindicatos brit-
nicos. Rhodes queria "no somente garantir para si os direitos locais, iguais aos
de qualquer aventureiro, mas tambm obter exclusividade sobre todos os recursos
minerais do pas". Nos termos da Conveno Rudd, nome que o acordo recebeu,
a companhia de Rhodes ocupou a Mashonalndia a 12 de setembro de 1890.

6    Ibid., p. 370.
7    Para maiores detalhes, ver MASON, 1958; PALLEY, 1966; SAMKANGE, 1967.
232                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    A concesso Rudd, objeto de muita controvrsia, foi essencialmente obtida
graas a uma trapaa deliberadamente organizada contra Lobengula por fun-
cionrios coloniais britnicos e missionrios. Moffat tinha sido novamente
enviado  Matabelelndia para preparar Lobengula para a chegada dos agentes
de Rhodes. Fingindo amizade e neutralidade, na qualidade de ministro de Deus,
apresentou Rudd, Thompson e Maguire como homens honrados e ntegros e
deu todo apoio a Shippard. Advogou vigorosamente a causa deles nas quatro
semanas de negociaes que se seguiram. Foi ento que Shippard chegou, com
o major Guild Adams e 16 policiais montados. Ao fim de nove dias de negocia-
es com Lobengula, partiu, seis dias antes da assinatura da concesso. A crer,
a essa altura, no dirio de Rudd, "[...] quase todos os aspectos polticos tinham
sido discutidos numa atmosfera muito amistosa".
    A concesso Rudd tinha duas espcies de disposies, distintas mas conexas:
o texto escrito, to importante quanto vantajoso para os concessionrios, e as
clusulas verbais, a favor de Lobengula. Segundo as clusulas escritas, isto , o
projeto original submetido a Lobengula, o rei garantiria aos concessionrios
direito integral e exclusivo sobre todos os recursos minerais e metlicos de
seus reinos, principados e domnios, bem como plenos poderes para fazer tudo
quanto julgassem necessrio para a explorao de tais recursos. O acordo tam-
bm previa para os concessionrios o poder de "tomar toda medida legal neces-
sria" para excluir da concorrncia qualquer pessoa que reclamasse direitos sobre
terras, minerais ou prospeco mineral. Lobengula concordou alm disso em no
fazer nenhuma concesso territorial ou de minerao a nenhuma outra pessoa
ou interesse sem o consentimento prvio e a participao dos concessionrios.
Em contrapartida, os concessionrios comprometiam-se a pagar a Lobengula e
seus herdeiros uma renda perptua de 100 libras esterlinas por ms. Alm disso,
forneceram-lhe mil fuzis de guerra tipo Martini-Henry, de carregar pela culatra,
mais 100 mil cartuchos, que lhe seriam entregues antes do incio das pesquisas
minerais no seu territrio. Os concessionrios tambm prometiam "colocar no
rio Zambeze um barco a vapor armado com canhes de potncia apropriada aos
objetivos de defesa no dito rio".
    No decorrer das negociaes, o rei colocou  verbalmente, no entanto  certas
condies que ele, aparentemente, considerava prima facie, como fazendo parte
integral do acordo. Segundo Helm, Lobengula estipulou o seguinte, com a con-
cordncia dos concessionrios: a) os beneficirios da concesso no empregariam
mais de dez brancos de uma vez em trabalhos de minerao no territrio; b)
os mineiros no deveriam fazer perfuraes nos limites ou nas proximidades
das cidades; c) os brancos ficariam sujeitos  lei do pas e seriam considerados
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                       233



"sditos do rei"; d) os mineiros contribuiriam, caso necessrio, para a defesa do
territrio, sob o comando dos Ndebele. Os concessionrios tambm deixaram
claro, verbalmente, que entendiam por "plenos poderes para fazer tudo quanto
julgassem necessrio para a explorao de tais recursos" a construo de casas
para abrigar seus agentes, trazer e instalar diversas mquinas e o uso de madeira e
gua. Infelizmente, estas condies verbais no foram includas no texto defini-
tivo do tratado e, em virtude da legislao europeia dos contratos, as disposies
no escritas no tinham fora para aplicao legal.
    Concessionrios rivais prejudicados e, mais particularmente, dois africanos
com instruo, John Kumalo e John Makunga, que por simpatia decifraram
o texto da concesso a Lobengula e seus induna (conselheiros), informaram a
estes que tinham sido logrados, que a concesso havia sido publicada nos jornais
europeus e que Rhodes j formara a companhia para ocupar a Matabelelndia
e a Mashonalndia. A notcia semeou pnico e confuso no seio da nao Nde-
bele, pois o povo logo se conscientizou do significado e das consequncias da
concesso e, sobretudo, do carter absolutamente inevitvel da catstrofe que ia
absorver um grande monarca e uma grande nao. Vrios induna e guerreiros
manifestaram sua clera, e Lobengula, bastante embaraado, viu-se na ameaa
de perder o poder.
    Lobengula publicou uma nota repudiando a concesso no Bechuanaland News
de fevereiro de 1889. Por ordens suas, o induna pr-ingls Lotshe foi morto pelo
regimento de Mbesu, bem como suas mulheres, filhos e gado. Sabendo existirem
choques entre Rhodes, os missionrios e os representantes do poder imperial
na frica do Sul, Lobengula decidiu apelar diretamente ao governo britnico
na metrpole. Por meio de cartas e de uma delegao, pediu  rainha Victoria
que anulasse o tratado ou desse  Matabelelndia e  Mashonalndia o estatuto
de protetorado. Em janeiro de 1889, enviou a Londres uma delegao oficial,
composta pelos induna Motshede e Babiyance, que foi recebida pela rainha
Victoria e por vrios dirigentes da Aborigines' Protection Society. Estes induna
voltaram a sua ptria com os cumprimentos da rainha, mas sem a anulao do
tratado. Em compensao, Rhodes obteve uma carta real que lhe dava o mono-
plio da colonizao na rea. Em comeos de 1890, seus pioneiros marcharam
da frica do Sul atravs da Matabelelndia para a Mashonalndia, hasteando
a Union Jack em Salisbury no dia 12 de setembro de 1890.
    De setembro de 1890 a outubro de 1893, a nao Ndebele e os colonos da
Mashonalndia no cessaram de se espreitar. Da mesma forma que entre colo-
nos e Xhosa, no Cabo, e entre colonos e Zulu, em Natal, o confronto armado era
inevitvel.
234                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    A guerra anglo-Ndebele de 1893 foi uma reproduo quase exata da guerra
anglo-zulu de 1879, com Rhodes fazendo o papel de sir Henry Frere, o dr. Leander
Starr Jameson (administrador da companhia na Mashonalndia), o de Shepstone,
e o incidente de Vitria (agosto de 1893) substituindo o de Sirayo. Tal como, antes
dele, Cetshwayo, Lobengula tentou, em vo, impedir a guerra. Apelou a Jameson, a
Rhodes e ao governo britnico. Mas j no contava ento com nenhum apoio, nem
entre os brancos nem entre os africanos. As foras que invadiram a Matabelelndia,
vindas da Mashonalndia e da frica do Sul, compreendiam 1200 soldados bran-
cos (incluindo 200 soldados imperiais da polcia de fronteiras da Bechuanalndia).
Contavam com mil auxiliares africanos, shona, mfengu, khoi-khoi, mestios e 600
cavaleiros ngwato, comandados por Kgama.
    Em vez de lanar seu exrcito, estimado em 20 mil homens, num com-
bate suicida contra os colonos, fortemente armados, e seus auxiliares africa-
nos, Lobengula preferiu evacuar a Matabelelndia e fugir com seu povo para a
Rodsia do Norte. Como Cetshwayo, morreu durante a fuga, no se sabe se de
varola ou de problema cardaco. Sem seu chefe, a nao Ndebele se decomps.
Um aps outro, os induna renderam-se a Jameson ao p da rvore dos indaba
(de reunio do conselho). Os colonos cuidaram imediatamente de delimitar e
registrar suas novas exploraes e concesses mineiras. A companhia confiscou
280 mil cabeas de gado dos Ndebele, guardando 240 mil e distribuindo o resto
aos soldados brancos e a alguns "bons" africanos.
    Aps a conquista da Matabelelndia, o governo ingls promulgou o decreto
de 18 de julho de 1894 relativo aos Matabele, que autorizava a companhia a
baixar o imposto de palhota e criava um "Native Department" para contro-
lar todo o territrio da Rodsia do Sul. Em fins de 1895, a companhia tinha
estabelecido uma administrao africana calcada nas da Colnia do Cabo e de
Natal, incluindo o imposto de palhota, as reservas e os passes, com o propsito
de desapossar os africanos de suas terras, de seu gado e de seus recursos minerais
e coagi-los a trabalhar para os brancos.


      Iniciativas e resistncia dos Ngwato, Lozi, Sotho,
      Tswana e Swazi: protetorado ou tutela
   Ao contrrio dos Zulu e dos Ndebele, os Ngwato, Lozi, Sotho, Tswana e
Swazi tinham em comum suas alianas com os poderosos missionrios huma-
nitrios imperialistas, para os quais a autoridade do governo de Londres devia
prevalecer. Esses clrigos opunham-se em particular  poltica de "agresso brutal
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                        235



adotada por certas categorias de polticos colonialistas  conquista, espoliao
e incessante degradao de todos os povos negros"8. Entre esses missionrios
citemos Mackenzie em Kgama, Setshele e Caseitsiwe, Casalis em Moshoeshoe
e Coillard em Lewanika. Embora humanitrios, opunham-se apenas  expanso
descontrolada dos colonos brancos da frica do Sul, especialmente dos beres
e de Rhodes, e  violncia e explorao, que acompanhavam os incidentes de
fronteira comprometendo seu trabalho zeloso e eficaz. Acreditavam na indiscu-
tvel superioridade da raa branca, da sua cultura e da sua religio, considerando
a colonizao, o comrcio e o apostolado elementos inseparveis e correlatos.
Ao mesmo tempo, enfatizavam a necessidade de o imprio britnico assumir
a responsabilidade pelos africanos, instaurando uma poltica de tutela pater-
nalista. Empenhavam-se em harmonizar os contatos culturais entre colonos e
colonizados, e em "proteger" e "civilizar" o africano, para fazer dele um membro
mais til da nova comunidade colonial. Atravs de cartas, delegaes e da ao
pessoal, estavam sempre intervindo junto ao alto-comissrio, ao Ministrio das
Colnias e s sociedades filantrpicas da Inglaterra, para garantir essa "proteo".
Se a Niassalndia se tornou um protetorado britnico, foi graas, largamente,
 ao eficaz dos missionrios escoceses, os quais envidaram todos os esforos
para defender seus fiis africanos e as misses instaladas em Blantyre, Bandawe
e Ibanda contra a invaso das fronteiras pelos pioneiros s ordens de Rhodes.
    A caracterstica dominante dos governantes autctones pr-missionrios era
a fraqueza poltica e militar crnica. Esses monarcas reinavam principalmente
em virtude de "golpes de Estado". Em 1875, Kgama deps Sekgoma, pai dele,
e Kgamane, seu irmo, e proclamou-se rei. Kgamane fugiu com seus adeptos e
estabeleceu um reino na margem transvaaliana do Limpopo. As faces lega-
listas e conservadoras dos Ngwato, contudo, ficaram fiis ao monarca deposto,
Sekgoma. Mais tarde, em 1884, Lewanika foi igualmente deposto e exilado
na capital de Kgama. Voltou em 1885 e deps por sua vez o usurpador Tatila
Akufuna. Assim, os reis favorveis aos missionrios ocupavam posies frgeis,
e viviam sob constante ameaa de distrbios e guerras civis.
    Alm disso, os Estados deles mal tinham sobrevivido  revoluo zulu e
 conquista nguni. De qualquer forma, os Sotho e os Swazi continuavam a
ser alvo dos ataques incessantes dos Zulu, ao passo que os Ngwato, Tswana,
Kwena e Lozi sofriam os ataques e as invases dos Ndebele. Eram igualmente
vtimas dos "flibusteiros" Beres, vidos de terras e provocadores, que lanavam


8    HOWITT, 1969, p. 501.
236                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 9.4   Moshoeshoe I, rei dos Basuto (c. 1785-1870). (Fonte: Royal Commonwealth Society.)
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                           237



ataques-surpresa contra as aldeias, capturando o gado e escravizando homens,
que fechavam constantes "tratados de amizade" com os chefes locais e, depois,
reclamavam direitos sobre as terras e esferas de influncia. Em consequncia de
tais exaes, os Zulu, os Ndebele e os Beres acabaram por se tornar inimigos
mortais.
    Ainda que esses reis, na sua maior parte, detestassem os princpios do colo-
nialismo e da ocidentalizao, sentiam a desesperada necessidade da ajuda
estrangeira para lhes garantir a sobrevivncia. Por isso, no final das contas,
adotaram a aliana dos missionrios e a proteo britnica (metropolitana)
como instrumentos essenciais de poltica. Por razes semelhantes, voltaram-se
para os missionrios a fim de receber conselhos e orientao espiritual sobre a
maneira de tratar com os europeus, e procuraram utiliz-los para reforar sua
frgil situao interna. Coillard, Mackenzie e Casalis eram os mais chegados
amigos europeus, confidentes e ministros das relaes exteriores de Lewanika,
Kgama e Moshoeshoe, respectivamente.
    Sem necessidade, tais monarcas adotaram rapidamente a religio crist e
aceitaram a condio de protetorado. Kgama e Lewanika tornaram-se cristos
praticantes e, como a maior parte dos novos proslitos, superaram em zelo e em
sectarismo os prprios missionrios.
    No s abandonaram as tradies, crenas e cerimnias ancestrais, como
tambm lanaram mo de seu poder poltico para impor os princpios da civili-
zao "crist" ocidental a seu povo. O puritanismo com que buscavam suprimir
o consumo pblico de bebidas alcolicas beirava a obsesso. Impuseram estritas
leis sobre substncias lquidas, que incluam a proibio do fabrico da cerveja
africana. Quanto mais alienavam seu povo com a aplicao de tais medidas, mais
precisavam do apoio dos missionrios.
    De fato, as relaes que esses reis mantinham com os missionrios constituam
uma forma de resistncia pela diplomacia a quantos procuravam desaposs-los de
suas terras. Fazendo alianas com os missionrios antiberes, antizulu e antindebele,
os monarcas africanos conseguiram manter uma existncia independente at as
vsperas da partilha, e, depois, tirar proveito da proteo imperial inglesa, em detri-
mento dos colonialistas locais. Procuravam ativamente a condio de protetorado,
ainda que isso implicasse uma certa reduo de sua soberania, das liberdades civis e
dos direitos territoriais. Graas ao regime de protetorado, conservavam certo grau
de autonomia e de poder nominal e beneficiavam-se da proteo das foras policiais
inglesas estacionadas em seu pas, enquanto seus sditos mantinham o direito de
possuir armas de fogo, desde que devidamente registradas. Dessa forma, os pequenos
reinos africanos, incapazes de se opor  invaso dos brancos e ao desenvolvimento
238                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



econmico, em vista de sua situao geogrfica e de seu modo de vida, tornaram-se
protetorados, condio que lhes permitiu sobreviver, enquanto os grandes Estados,
que estavam poltica e militarmente mais preparados para resistir s ameaas de
colonizao, foram invadidos, conquistados e retalhados.

      Os Tswana
    O exemplo dos Tswana e dos Swazi  bem representativo desta evoluo. Na
luta pela posse da Bechuanalndia (atual Botswana), trs foras se defrontaram:
os quatro governantes da Bechuanalndia (que comandavam, respectivamente,
os Kwena, os Ngwato, os Ngwaketse e os Tswana), com seus aliados missio-
nrios, que desejavam a proteo e a tutela do governo imperial britnico; os
Beres do Transvaal, que consideravam a Bechuanalndia como seu patrimnio
natural de terras, gado, riquezas minerais e mo de obra; e os colonos do Cabo,
representados por Rhodes, que tentavam impedir a expanso dos Beres e a
aliana deles com os alemes no Sudoeste Africano (atual Nambia). Os dirigen-
tes africanos, a exemplo de Moshoeshoe, solicitavam o estatuto de protetorado
para se proteger da dominao dos colonos brancos. Em 1876, alarmado com
as intenes de uma seita dissidente da Igreja Reformada holandesa do Trans-
vaal, os Doppers, que queriam atravessar os territrios tswana para atingir a
Damaralndia, Kgama, rei dos Ngwato, escreveu  "grande rainha dos ingleses"
pedindo proteo. Queria conhecer as condies dessa proteo e insistia no fato
de que as relaes estariam fundadas na "moral crist". Alm disso, seu irmo e
rival, Kgamane, instalara-se no Transvaal com seus adeptos e combatia ao lado
dos Beres na esperana de reconquistar o trono dos Ngwato (ver figura 9.1).
    Os ingleses estavam profundamente divididos quanto  Bechuanalndia. O
grupo Rhodes-Robinson queria eliminar o fator imperial para que os colonos se
apoderassem do pas e previa a anexao conjunta da Bechuanalndia pelo Cabo
e pelo Transvaal, projeto que s malograria em consequncia da recusa do Trans-
vaal. Mas os grupos imperialistas humanitrios Mackenzie-Warren, tal como os
dirigentes africanos, procuravam impedir a instalao dos colonos, aos quais se
opunham em vista da sua brutalidade e das devastaes que provocavam entre os
Tswana convertidos e nas escolas das misses. Mackenzie, em particular, desenca-
deou uma campanha vigorosa e bem acolhida na frica do Sul e na Inglaterra9.
    Por outro lado, o Transvaal praticava uma poltica de expanso por meio
de infiltraes e anexaes, como a implementada por Moshoeshoe entre os


9     MACKENZIE, 1887.
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                        239



Sotho do sul. Aventureiros beres tinham assinado tratados sem valor com os
Tlhaping e os Rolong do sul da Bechuanalndia e depois proclamaram as "rep-
blicas" de Stellalndia (capital, Vryburg), presidida por William Van Niekerk,
e de Goshen (capital, Rooigrand), presidida por Gey Van Pitius. A estratgia
do Transvaal consistia em criar no papel "repblicas irms", antes de anex-las.
As divergncias de interpretao dos pretensos tratados exacerbaram as velhas
rivalidades entre africanos e acarretaram guerras entre os chefes Mankurwane
e Mashauw (Tlhaping) e Montshiwa e Moshette (Rolong), aos quais os beres
serviam como mercenrios e conselheiros. A Bechuanalndia do sul era, como
a descreveu Mackenzie, "o reino da anarquia, da pirataria e da violncia".
    Em 1884, o governo britnico enviou sir Charles Warren para a misso
de restabelecer a ordem. Warren declarou o sul da Bechuanalndia colnia
britnica, e sir Hercules Robinson, alto-comissrio ingls na frica do Sul e
governador da Colnia do Cabo, designou Mackenzie como novo comissrio
delegado, embora logo fosse substitudo por Rhodes sob a presso da opinio
pblica do Cabo, hostil  sua "poltica pr-indgena e antiber". Aps negocia-
es com alguns dirigentes tswana, o Reino Unido declarou protetorado o norte
da Bechuanalndia (1885). A carta outorgada  British South Africa Company,
de Cecil Rhodes, previa a anexao do protetorado da Bechuanalndia pela
Rodsia do Sul, mas os dirigentes tswana e seus aliados missionrios desman-
charam a manobra. Em 1895, esses dirigentes, Kgama e Sebele, que haviam
sucedido a Sechele em 1892, bem como Bathoen (Ngwaketse), viajaram para a
Inglaterra em companhia do reverendo W. C. Willoughby e, em audincias com
a rainha Victoria, o ministro das Colnias e os dirigentes de vrias sociedades
filantrpicas conseguiram conservar o estatuto de protetorado.

    Os Swazi
    Os Swazi no tiveram de enfrentar os colonos brancos antes do Grande Trek e da
fundao das repblicas de Natal e do Transvaal. Na ocasio, o reino era governado
por Mswati. A sociedade estava dividida entre um grupo dominante, composto por
imigrantes nguni, ao qual pertencia a dinastia real dos Nkosi-Dlamini, e a populao
autctone, os Sotho. Os Nguni haviam estabelecido seu domnio sobre os Sotho
por conquista e alianas matrimoniais, instaurando um reino centralizado e
unificado, fundado na lealdade de todos  Coroa, nas relaes de amizade e em
casamentos mistos. Tal como os Tswana e os Sotho do sul, tinham sobrevivido
s devastaes da revoluo zulu, mas ainda sofriam ataques ocasionais des-
tes. Sua poltica externa consistia em obter alianas defensivas contra os Zulu.
240                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



Portanto, no incio, Mswati via os colonos de Natal e do Transvaal, bem como
o governo britnico, como aliados potenciais contra seus tradicionais inimigos
africanos10.
    Por sua vez, os colonos somente ambicionavam, como de hbito, o gado, a
mo de obra e os recursos minerais dos Swazi. O Transvaal estava particular-
mente interessado na anexao da Suazilndia, para ter acesso ao mar pela baa
de Kosi. Ao mesmo tempo, Natal e Inglaterra receavam uma associao entre
Alemanha e Transvaal para a construo de uma via frrea para a baa de Kosi.
Mas nenhuma das partes desejava assumir a responsabilidade direta pela Suazi-
lndia, pequeno territrio isolado das grandes colnias e das linhas de comuni-
cao, onde no tinham sido descobertos recursos minerais importantes. Mswati
via-se entalado entre os ingleses e os beres. Ademais, alguns Beres e colonos
ingleses, comerciantes e prospectores, comearam a pression-lo, reclamando
todo tipo de concesses: aquisio ou locao de terras, monoplios comerciais,
explorao de recursos minerais e mesmo o direito de arrecadar impostos e taxas
aduaneiras. Mswati outorgou-lhes vrias concesses antes de sua morte, em
1868. A Suazilndia passou ento por uma crise sucessria, na qual os ingleses
e os beres intervieram, para colocar no trono, cada qual, o fantoche da sua
preferncia. Os beres enviaram tropas para esmagar os outros pretendentes
e instalaram o filho mais novo da segunda mulher de Mswati, Mbandzeni, rei
fraco e com um pronunciado gosto pelas bebidas alcolicas dos europeus. Sem se
dar conta, Mbandzeni foi coagido a todo tipo de concesses, "das mais confusas,
diversas e intrincadas"; chegou at, certas vezes, a conceder a vrios indivduos
o monoplio das terras, do comrcio e da explorao das minas de uma mesma
rea. Em 1890, registravam-se 364 concesses, as quais cobriam praticamente
cada metro quadrado do pequeno territrio Swazi, que tinha menos de 25 mil
quilmetros quadrados. Naquela data, o rendimento das concesses proporcio-
nava  famlia real cerca de 12 mil libras esterlinas por ano.
    As concesses, no entanto, deram aos britnicos e aos beres o pretexto
necessrio para minar a soberania Swazi. Desde a dcada de 1880, Mbandzeni
estava assoberbado com o problema da manuteno da ordem, dos contenciosos
que eclodiam entre ele e os concessionrios brancos ou entre os prprios con-
cessionrios. Solicitou primeiramente a proteo dos britnicos e a nomeao
de um residente ingls, mas a solicitao no foi aprovada. Voltou-se ento para
Theophilus Shepstone, secretrio dos Negcios Indgenas de Natal, que designou


10    MATSEBULA, 1972; STEVENS, 1967.
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                      241



seu prprio filho, tambm chamado Theophilus, como conselheiro-residente
junto a Mbandzeni para os assuntos referentes aos brancos. Inconscientemente,
o rei autorizou Shepstone a encabear uma comisso formada por 15 brancos
eleitos e cinco nomeados e, em 1888, outorgou  comisso uma carta que lhe
dava estatuto de autonomia. Na sua maior parte, as concesses foram feitas
durante o mandato de Shepstone como conselheiro-residente (1886-1889). No
entanto a comisso de brancos tambm se demonstrou incapaz de apaziguar
os conflitos entre os concessionrios, at a morte de Mbandzeni, em 1889, e o
estabelecimento de uma administrao conjunta anglo-ber. A Conveno da
Suazilndia, de 1890, estabeleceu uma comisso mista provisria, encarregada
de governar o pas, bem como um tribunal de justia para apurar a validade das
concesses, que alis confirmou 352, entre as 364. A comisso colocou no trono
o filho de Mbandzeni, Ngwane, de 16 anos de idade, nomeando a me dele,
Gwamile Mduli, regente do reino.
    A administrao mista teve dificuldades devido  crescente rivalidade entre
os ingleses e os beres na frica do Sul. Nos termos da conveno de 1894, a
Inglaterra confiou a Suazilndia ao Transvaal, conferindo-lhe "todos os direitos
em matria de proteo, de legislao, de jurisdio e de administrao relativos
 Suazilndia", sob a condio de no anexar o territrio. A regente e seu conse-
lho protestaram violentamente e at enviaram uma delegao  Inglaterra, sem
sucesso. O Transvaal designou um comissrio-residente especial em 1895, e a
soberania da Suazilndia viu-se assim suplantada pelo colonialismo. Nos termos
do tratado de Unio (1902), que encerrou a guerra anglo-ber (1898-1902), a
Suazilndia foi recuperada pela Inglaterra. A lei que fazia da Suazilndia um
protetorado foi promulgada a 25 de junho de 1903, e a lei sobre a constituio
da frica do Sul, de 1909, estipulava as condies em que se efetuaria a trans-
ferncia  Unio Sul-Africana da Suazilndia, da Basutolndia (atual Lesotho)
e da Bechuanalndia, territrios do alto-comissariado britnico. A transferncia
jamais se deu, devido  oposio dos africanos.


    Iniciativas e reaes dos Hlubi, Mpondomise, Bhaca,
    Senga, Njanja, Shona, Tonga, Tawara etc.:
    a poltica de aliana
   No plano interno, nenhum desses grupos possua a unidade poltica e a
fora militar necessrias para resistir  mar montante do colonialismo branco.
242                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



Nenhum deles tambm celebrara alianas diplomticas ou militares com seus
vizinhos. Pelo contrrio, muitas vezes se atacavam e desconfiavam uns dos
outros. Compunham-se tanto de circunscries autnomas como de bandos
de refugiados nmades, de prisioneiros reduzidos  condio de escravos e de
grupos sob a tutela de colonialistas ou de missionrios. Na sua maioria, eram
tributrios dos Zulu, dos Ndebele, dos Bemba, dos Yao e dos Nguni, ou vtimas
de suas incurses.
    Alguns desses pequenos grupos, como as soberanias baru, mangwende,
makoni e mutasa, a exemplo dos Xhosa, optaram pela resistncia armada
contra a ameaa capitalista, mas muitos outros, como os Hlubi, os Mpondo-
mise, os Bhaca, os Senga e os Njanja, aliaram-se aos brancos, na equivocada
esperana de obter proteo e segurana. Em seu conjunto, essas pequenas
sociedades tinham o costume, em matria diplomtica, de oscilar segundo
as vicissitudes do poder ou de fingir neutralidade enquanto manipulavam o
poder dominante a favor delas. Os Shona, os Tonga, os Tawara, os Venda e
os Ndau recorreram muitas vezes a tais estratgias, nos sculos XVIII e XIX,
para explorar a rivalidade das dinastias Changamire e Monomotapa; os Sotho,
os Mpondo, os Mfengu, os Tembu e os Tonga agiram dessa mesma forma em
face das rivalidades entre as confederaes Mtetwa e Ndwande. Assim, muitos
deles no hesitaram em alinhar fileiras com os britnicos contra os Zulu, os
Ndebele, os Bemba, os Nguni e os Yao. Acrescente-se que inmeros pequenos
grupos, como os Mfengu, os Tembu, os Njanja, os Cewa e os Tawara, viviam h
algum tempo sob forte influncia militar. Por isso havia entre eles numerosos
elementos cristianizados, quer dizer, instrudos, que no s rejeitavam a cultura
tradicional como tambm contestavam o poder tradicional, em benefcio do
colonizador.
    Desta maneira, prometendo aliana, proteo e/ou libertao, os britnicos
no tiveram a menor dificuldade para dividir esses grupos e subjug-los. Depois,
foi s instalar colonos brancos naquelas reas.


      Iniciativas e reaes africanas, 18951914
   No final da dcada de 1890, praticamente todos os povos da frica meri-
dional tinham sido total ou parcialmente colonizados e em toda a parte sofriam
diversas formas de opresso  econmica, poltica e religiosa. Os europeus no
tardaram a introduzir o imposto de palhota, o trabalho forado, a rigorosa proi-
bio dos costumes e das crenas tradicionais e, principalmente, o confisco das
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                                                243



terras. A interveno tornava-se cada vez mais pesada devido  necessidade
crescente dos colonos de mo de obra autctone barata para suas fazendas e
minas e  tentativa da administrao de cobrir com o imposto, se no a totali-
dade, ao menos parte de suas despesas. Os africanos eram constrangidos a deixar
sua ptria para ceder lugar aos colonos brancos e servir como "voluntrios" do
exrcito. Na Rodsia do Norte e do Sul, na Niassalndia, os administradores da
companhia copiaram pura e simplesmente as leis indgenas da frica do Sul. Na
Rodsia, onde a colonizao branca era mais densa, a administrao no tolerava
nada que obstasse seus projetos econmicos, ainda que o obstculo fossem a vida
e os direitos dos Shona. Tratou logo de confiscar as terras, o gado, as colheitas e
as reservas de alimentos dos Shona e de submet-los ao trabalho forado, aten-
dendo aos interesses dos colonos atrados  Mashonalndia pela promessa de
encontrar fortuna e levar uma vida melhor e mais fcil. Alm de tudo, a justia
colonial introduzida caracterizava-se pelas irregularidades e arbitrariedades. A
isso se juntou uma srie de catstrofes naturais: epidemias de varola e de peste
bovina, secas e at uma praga de gafanhotos11.
    Os africanos, evidentemente, no ficaram indiferentes a tais acontecimentos.
Sob os golpes conjugados do colonialismo, da expropriao, da misria, da opres-
so e da ocidentalizao, muitos deles, como os Xhosa, chegaram  concluso de
que o homem branco era a causa de todas as suas infelicidades. Na dcada de
1890 e comeos do sculo XX, o dio contra a dominao estrangeira gerou a
intensificao da resistncia contra os brancos, enquanto um verdadeiro esprito
de unidade aproximava os chefes polticos, seus adeptos, os sacerdotes e at certos
grupos outrora inimigos. Citaremos trs exemplos representativos dessas reaes,
que objetivavam a derrubada do sistema colonial para pr fim a uma opresso e
a uma explorao intolerveis: o Chimurenga dos Ndebele-Shona, de 1896-1897;
a revolta dos Herero, em 1904; e a revolta dos Bambata ou dos Zulu, em 1906.

     O Chimurenga dos NdebeleShona
   O Chimurenga, nome que os Shona deram a sua resistncia armada, comeou
em maro de 1896 na Matabelelndia e em junho do mesmo ano na Masho-
nalndia. O primeiro morto foi um policial africano, empregado da companhia,
no dia 20 de maro12. O primeiro ataque contra europeus ocorreu em 22 de


11   CHANAIWA, 1974; MARTIN, R. E. R., 1897; RANGER, 1967.
12   Para relatos de testemunhas do Chimurenga (essencialmente colonos, soldados e jornalistas brancos), ver
     BADEN-POWELL, 1897; SELOUS, 1896; MARTIN, R. E. R., 1897.
244                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



maro, na cidade de Essexvale, e causou a morte de sete brancos e dois africanos.
Depois, o Chimurenga se propagou como rastilho de plvora a todo o territrio
da Matabelelndia e da Mashonalndia (ver figura 9.1). Em menos de uma
semana, 130 brancos encontraram a morte na Matabelelndia.
   Os africanos estavam armados com carabinas Martini-Henry, Lee Metfords,
fuzis para elefantes, mosquetes e bacamartes, alm das tradicionais azagaias,
hachas, clavas, arcos e flechas. Ademais, o Chimurenga eclodiu no momento
em que a maior parte das tropas da companhia se encontrava na frica do Sul,
envolvida na ofensiva Jameson contra os beres. Oportunidade adicional para os
revoltosos, os policias africanos desertaram com seus fuzis e munies e fizeram
causa comum com seus irmos em tal quantidade que houve que desarmar, por
medida de precauo, os que tinham ficado "leais".
   A companhia mobilizou a toda a pressa os europeus para formar a Relief
Force (coluna de socorro da Matabelelndia), composta de tropas regulares, de
Voluntrios da Rodsia (colonos a cavalo) e de africanos. No apogeu, a fora
compreendia 2 mil europeus, 250 Ngwato enviados por Kgama, 200 "indgenas
das colnias" (frica do Sul) e cerca de 150 africanos da Rodsia, sob o comando
supremo de sir Frederick Carrington, veterano das guerras entre Xhosa e colo-
nos. Se o Chimurenga foi essencialmente uma guerrilha, a estratgia empregada
pela tropa estava baseada no cerco e no emprego de dinamite. Os soldados
destruam igualmente as colheitas dos africanos e roubavam-lhes a maior parte
do gado, as cabras, os carneiros, as galinhas e as reservas de cereais, para privar
os rebeldes de alimentos e para se enriquecerem.
   Na Matabelelndia, o Chimurenga perdurou de maro a dezembro de 1896
e causou perdas considerveis  companhia. A 15 de julho esta se viu forada
a proclamar que os africanos que concordassem em se render com suas armas
no seriam perseguidos. Depois da batalha de Ntaba zika Mambo (5 de julho),
Cecil Rhodes afirmou "a deciso de aproveitar a primeira ocasio de negociar
que se apresentasse, ou de suscitar uma se ela no aparecesse". J renunciara a
toda esperana de chegar a uma "vitria total e incondicional", pois o prolonga-
mento do Chimurenga ou a estagnao das hostilidades significavam a falncia
da companhia e/ou a interveno do governo britnico, que transformaria a
colnia em protetorado. Em agosto, os Ndebele estavam cercados nas colinas
de Matapo e, como a batalha se eternizasse e Rhodes fizesse generosas ofertas
de paz, aceitaram finalmente negociar. A se seguiram vrias conversaes entre
Rhodes e os induna ndebele, que se prolongaram de agosto de 1896 at janeiro de
1898, data em que Rhodes nomeia seis chefes do Chimurenga (os induna Dhliso,
Somabulana, Mlugulu, Sikombo, Khomo e Nyamanda) entre as dez autoridades
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                                                     245



africanas apontadas pela companhia. Atribuiu-lhes terras, ofereceu-lhes 2300
toneladas de cereais e prometeu fazer justia a suas queixas contra a companhia.
    Obtida a vitria e restabelecida a paz na Matabelelndia, a companhia con-
centrou ento seus esforos sobre o Chimurenga shona, que veio causando gran-
des perturbaes, ao mesmo tempo que o dos Ndebele, desde junho de 1896,
e prosseguiu, de forma intermitente, at 1903. Os principais centros de Chi-
murenga eram as soberanias de Mashayamombe, de Makoni e de Magwende,
situadas respectivamente no oeste, centro e nordeste da Mashonalndia. Mas
vrias soberanias de menor importncia (Nyandoro, Seke, Whata, Chiota, Chi-
kmakwa, Swoswe, Zwinma, Mashanganyika) tomaram igualmente a iniciativa
de se revoltar individualmente ou de se aliar com seus vizinhos.
    O Chimurenga, tal como o massacre do gado pelos Xhosa, tem sido qualifi-
cado por historiadores eurocentristas como um movimento atvico e milenarista,
por causa do importante papel desempenhado pelos sacerdotes e profetas tradi-
cionais conhecidos pelo nome de svikiro13. Os principais svikiro eram Mukwati,
na Matabelelndia, Kagubi, no oeste da Mashonalndia, bem como Nehanda
(mulher), no centro e norte da Mashonalndia, a quem se juntava uma infini-
dade de profetas locais de menor importncia. Os svikiro afirmavam aos Ndebele
e aos Shona que os brancos eram a causa de seus sofrimentos  o trabalho for-
ado, o imposto, os castigos corporais (chicote)  e at dos flagelos da natureza
 pragas de gafanhotos, peste bovina, secas. Convenceram grande nmero de
africanos de que o deus dos Shona, Mwari (Mlimo, em sindebele), comovido
com os sofrimentos de seu povo, decretara que os brancos deviam ser expulsos
do pas e que os africanos nada tinham a recear, pois Mwari estava a seu lado,
e tornaria as balas do homem branco inofensivas como gua. Ao todo, foram
muitos os africanos a acreditar que os svikiro falavam em nome de Mwari e
que recusar-lhes obedincia acarretaria mais infortnios para sua terra e novos
sofrimentos para os indivduos.
    Os svikiro eram, antes de tudo, profetas revolucionrios que articulavam as
causas fundamentais do Chimurenga e a opinio geral da populao, sem a qual
teriam pouca credibilidade e pouca influncia. Alm disso, enquanto guardies


13   A palavra deriva do verbo kusvika, que significa chegar ou alcanar um ponto. Significa literalmente a
     pessoa, o veculo, o instrumento ou o meio por intermdio do qual os deuses e os espritos se comunicam
     com a populao. Assim, um sacerdote, rabino ou profeta, na cultura ocidental, um califa ou mollah, na
     cultura muulmana, poderiam ser svikiro na sociedade shona. No se deve confundir o svikiro com o
     curandeiro, o nganga (feiticeiro para os europeus) nem com o adivinho. O svikiro reunia as funes de
     sacerdote, intelectual, professor e dirigente. Em nosso texto, traduzimos svikiro por profeta para facilitar
     a compreenso dos leitores no shona.
246                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



das tradies shona e autoridades reconhecidas no tocante a numerosos aspec-
tos da vida comunitria, temiam ser suplantados pelos missionrios europeus.
Mais importantes, os svikiro s apareciam como dirigentes do movimento
em razo da diviso dos Ndebele e, em particular, dos Shona, tanto no plano
poltico como no militar. Efetivamente, os svikiro eram as nicas autoridades
cuja influncia transcendia os limites das circunscries. Os feudos espiritu-
ais de Mukwati, Nehanda e Kagubi englobavam mais de uma circunscrio.
Diferente dos chefes dessas soberanias, os svikiro dispunham de uma rede
extensa, mas secreta, de comunicaes, que lhes permitia transmitir contnuas
mensagens e coordenar eficazmente sua ao. Chegaram at a ressuscitar
a antiga confederao rosvy e sua dinastia, entronizando nela um novo rei,
Mudzinganyama Jiri Muteveri, bisneto de um antigo soberano rosvy. Muitos
africanos, aceitando essa designao, prestaram juramento a Mudzinganyama,
mas a confederao foi efmera, pois o rei logo se viu detido e encarcerado
pelos colonos. Simultaneamente, Mukwati era assassinado, presumivelmente
por um de seus seguidores decepcionado.
    A influncia de Kagubi e de Nehanda era mais forte entre os prncipes
mais jovens e mais ativos das circunscries, como Muchemwa de Mangwende,
Mhiripiri de Makoni e Panashe de Nyandoro. Porm Kagubi foi capturado em
outubro de 1897, e Nehanda, dois meses mais tarde. A 2 de maro de 1898
foram acusados de homicdio e condenados  forca. O lugar onde os enter-
raram foi mantido em sigilo, "para que nenhum indgena venha a retirar seus
corpos e proclamar que seu esprito se incorporou em outra profetisa ou outro
feiticeiro".
    Privados de direo poltico-militar centralizada, sem carabinas nem muni-
es e, principalmente, sem o apoio dos svikiro , os chefes shona foram batidos
um aps outro em 1897. No dia 4 de setembro, Makoni, de mos amarradas e
olhos vendados, foi fuzilado na presena das tropas, de seus aliados africanos e
de seus prprios sditos. Segundo o relato de uma testemunha ocular, o corres-
pondente do Times de Londres, Makoni enfrentou a morte "com uma coragem
e uma dignidade que despertaram a admirao de todos os espectadores". Por
sua vez, Mashayamombe, que esteve perto de cortar as comunicaes entre Salis-
bury e Bulawayo, foi derrotado e morto a 25 de julho. Entre julho e setembro,
os colonos cercaram e esmagaram as circunscries da Mashonalndia central.
Mangwende foi batido em setembro, mas seu filho, Muchemwa, com a ajuda
de alguns conselheiros, prosseguiu na luta at 1903, data em que o Chimurenga
foi finalmente dominado.
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                     247



    As perdas causadas pelo Chimurenga so calculadas em 450 mortos e 188
feridos do lado europeu e em 8 mil mortos do lado africano. Desses 450 euro-
peus, 372 eram colonos residentes, o que representava um dcimo da populao
branca da colnia. Os outros eram soldados das tropas regulares e mercenrios.
Mas alguns Shona, dos mais intransigentes, continuaram o Chimurenga e at
celebraram alianas com certas populaes de Moambique, igualmente em luta
contra o colonialismo portugus. A resistncia mais clebre ps-Chimurenga foi
a dirigida por Kadungure Mapondera, dirigente da circunscrio dos Rosvy da
regio de Mazoe, que, atacado pelos Ndebele e pelos portugueses, logrou conser-
var a independncia. Mapondera no tomou parte no Chimurenga porque, tendo
recusado pagar o imposto de palhota, emigrou, em 1894, com seus seguidores
mais fiis para o norte de Moambique, onde se aliou aos Baru na luta contra
os portugueses. Voltou para a Rodsia em 1900 e recrutou um exrcito shona
composto pelos Korekore, Tawara e vrios jovens militantes vindos de circuns-
cries do nordeste e da regio central da Mashonalndia, principalmente as
de Mangwende e de Makoni. Aliou-se com o motapa titular, Chioco, o que lhe
assegurou o apoio dos svikiro de Mwari. At junho de 1902, dirigiu a guerrilha
contra os colonos e as circunscries leais do norte da Mashonalndia. Depois,
emigrou novamente para Moambique, para se juntar  guerra de resistncia
dos Baru, mas as foras conjugadas deles no tardaram a ser esmagadas pelos
portugueses, que se beneficiavam de um armamento superior. Mapondera voltou
para a Rodsia e rendeu-se em 30 de agosto de 1903. Foi condenado a sete anos de
trabalhos forados por rebelio e homicdio e morreu na priso em consequncia
de uma greve de fome.

    Os Herero
   Em 1904, os Herero, sofrendo os efeitos negativos da dominao colonial
no Sudoeste Africano, aproveitaram a retirada das tropas alems, que haviam
partido em janeiro daquele ano, para subjugar os Bondelswarts, tendo matado
100 alemes, destrudo vrias fazendas e capturado o gado. O general Von
Trotha, nomeado em substituio a Theodor Leutwein, comandante alemo,
decidiu travar a guerra at a vitria militar total e a completa destruio do
povo Herero, mediante uma srie de impiedosos massacres: entre 75% e 80%
da populao, estimada entre 60 mil e 80 mil almas, foi morta; 14 mil foram
encerrados em campos de concentrao e 2 mil fugiram para a frica do Sul.
Acompanhado por um milhar de partidrios, Samuel Maherero atravessou o
deserto de Kalahari e chegou  Bechuanalndia.
248                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Todas as terras e rebanhos foram confiscados, e os africanos foram proibidos
de formar instituies tnicas e praticar cerimnias tradicionais. Privados de
todos os meios de sobrevivncia, viram-se coagidos a trabalhar para os colonos
brancos. Com seus deuses e sacerdotes vencidos, o que provava sua inferioridade,
converteram-se em massa ao cristianismo. Em 1915, as tropas britnicas da
frica do Sul ocuparam o Sudoeste Africano e impuseram o estado de stio at
1921. Nessa data, 10673 sul-africanos brancos j se tinham unido aos colonos
alemes que no haviam sido repatriados. Os africanos foram autorizados a
praticar uma agricultura de subsistncia em reservas estreis, o que os obrigava
a ser trabalhadores migrantes para sobreviver.
    Apesar de tal destino, os Herero deixaram em germe um legado de luta con-
tra a dominao colonial, de superao das fronteiras tnicas e de conscincia
cultural, histrica, racial e nacionalista, cuja tradio seria transmitida s futuras
geraes de combatentes pela liberdade em toda a frica meridional.


      Concluso
    No decurso da primeira dcada do sculo XX, os Estados autctones soberanos
tinham praticamente desaparecido da frica meridional. A grande maioria dos
africanos havia ento entrado na terceira fase da resistncia, caracterizada pela luta
em prol de um modus vivendi favorvel sob a dominao poltica, econmica e
cultural dos colonos. De fato, tratava-se de um novo tipo de reao s lutas contra
a conquista e a ocupao coloniais, o qual pertence a outro captulo da histria
africana. Por essa ocasio, as autoridades polticas e religiosas das sociedades tra-
dicionais haviam sido vencidas, colonizadas e humilhadas. Os monarcas tradicio-
nais tinham sido suplantados por secretrios dos Negcios Indgenas, tais como
Theophilus Shepstone em Natal, ou pelos chamados "comissrios de assuntos
indgenas", ou pelos "departamentos de assuntos indgenas" em outros lugares. As
massas africanas s se definiam como "o problema negro" e, conforme a descrio
de Jabavu, compunham-se de gente "sem terra, sem voto, servos, prias, marginais
da sociedade em sua prpria ptria e sem nenhum futuro na vida"14. Alm disso,
eram os primeiros africanos a conhecer a crise de identidade15 provocada pelo
traado de fronteiras coloniais artificiais, que separaram antigas unidades culturais,
lingusticas e histricas, mas tambm devida aos traumatismos culturais sofridos


14    JABAVU, 1920, p. 16.
15    BETTS, ed., 1972.
Iniciativas e resistncia africanas na frica meridional                      249



nos dormitrios das minas e das fazendas, nas casas dos brancos, nas igrejas e
escolas crists, em um mundo dominado pelos colonos.
    Todos os pensamentos e todas as aes dos africanos se voltavam ento para
a aquisio individual de conhecimentos, tcnicas e bens materiais do mundo
branco, bem como para a denncia das "incapacidades dos indgenas"16, na espe-
rana de chegar a corrigi-las, sem sair do quadro da dominao colonial. Foi
assim que comeou o movimento de protesto no violento por direitos civis,
cujos artfices foram, como veremos depois, o South African Native National
Congress, criado em 1912, a Native Welfare Association, na Rodsia do Sul, o
sindicalismo de Clement Kadalie e, no plano religioso, as igrejas dissidentes e
o "etiopianismo". O vcuo deixado pelo desaparecimento das autoridades tra-
dicionais foi preenchido pelos discpulos dos missionrios, comprometidos no
apenas com o universalismo, o antirracismo e o capitalismo materialista, mas
tambm com a luta contra as diferenas tnicas. Por isso foram dos primeiros
a minar a cooperao tnica e particularista de certos chefes, grupos e indivi-
duos africanos. Ao contrrio da luta contra a conquista colonial, a resistncia 
dominao dos colonos tomou, portanto, rumo diferente e recrutou suas tropas
principalmente nas massas urbanas, sob a direo das elites cultas. As massas
rurais viviam da agricultura de subsistncia, quando no caam sob o jugo da
economia capitalista de mercado, como assalariados malpagos nas minas, nos
campos, nas cozinhas e nas fbricas dos europeus.




16   Ver, entre outros, PLAATJE, 1916; MOLEMA, 1920.
Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   251



                                         CAPTULO 10


    Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e
       reaes africanas  conquista e 
             dominao coloniais
                                    Manass Esoavelomandroso




    O tratado Anglo-Merina1, assinado em 23 de outubro de 1817 e ratificado
em 1820, conferiu a Radama I o ttulo de "rei de Madagscar". A 14 de feve-
reiro de 1822, o prprio Radama proclamava sua soberania sobre a ilha (figura
10.1). Reino que contava com o apoio da primeira potncia mundial da poca,
Madagscar surgia, assim, no cenrio diplomtico. No incio, contudo, sua sobe-
rania foi contestada, negada e combatida pela Frana. Somente em 1862  que o
governo de Napoleo III subscreveu com Radama um tratado reconhecendo-o
como rei de Madagscar, o que, aos olhos das autoridades de Tananarive, san-
cionava a existncia do reino e o abandono das pretenses territoriais francesas,
ainda que em seu prembulo o tratado mantivesse "os direitos da Frana", quer
dizer, os direitos particulares sobre seus antigos entrepostos e estabelecimentos
comerciais e sobre os protetorados de Sakalava e Antakarana.
    O assassinato de Radama II, em 1863, pela oligarquia dirigente, que o jul-
gava demasiado liberal e muito favorvel aos europeus, criou uma situao nova.
Rainilaiarivony, primeiro-ministro de 1864 a 1895, adotou uma poltica bastante
flexvel para assegurar o respeito  independncia do reino (figs. 10.2 e 10.3).
Assim, incapaz de completar a unificao territorial, esforou-se por organizar


1    Os Merina so os habitantes de Imerina, regio dos planaltos centrais de Madagscar, cuja capital era
     Tananarive, que depois se chamaria Antananarivo. O reino merina tinha por objetivo a unificao de
     Madagscar.
252                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 10.1   Madagscar em fins do sculo XIX.
   Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais    253




Figura 10.2 Rainilaiarivony, primeiro-ministro de         Figura 10.3 A rainha Ranavalona III (1883-1897)
Madagscar (1864-1895), marido de Ranavalona II           em traje de gala. (Foto: Harlingue-Viollet.)
e III. (Foto: Lapi Viollet.)



o governo, a administrao e o exrcito. Conseguiu com certo xito consolidar
seu poder e manter as regies conquistadas, apesar das conspiraes de seus rivais, e
do descontentamento e por vezes revolta das massas populares. Ao mesmo tempo,
contudo, expandia-se na Europa o imperialismo colonial, e a Frana procuraria de
novo dominar Madagscar. Os esforos diplomticos de Rainilaiarivony para afastar
esse perigo foram vos, e as duas guerras (1883-1885 e 1894-1895) impostas pela
Frana terminaram com a exonerao do primeiro-ministro e o desmantelamento
do governo real. Senhores de Tananarive, os franceses no tardaram a encontrar
resistncia armada em algumas reas rurais de Imerina e suas provncias subme-
tidas. Nas regies independentes, acharam-se tendo de enfrentar reis e chefes
militares que contra eles se opunham obstinadamente. Mas a superioridade
tcnica dos franceses acabou por encerrar esses focos descoordenados de resis-
tncia. No entanto, por toda a ilha, homens se levantavam e se organizavam, a
princpio para combater os abusos do regime colonial, depois para recuperar a
independncia nacional.
254                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



      Um pas dividido ante a ameaa imperialista
    No ltimo quartel do sculo XIX, a Frana retomou a poltica de expanso
colonial. Numa primeira fase, entre 1870 e 1880, esse pas, depois da derrota
diante da Prssia, atravessou um perodo de recolhimento, recuperando foras
dentro de suas fronteiras. Entre 1880 e 1890, alguns lderes republicanos, como
Lon Gambetta e Jules Ferry, acenando com a possibilidade de as conquistas
coloniais reconduzirem sua ptria ao lugar de grande potncia, encontraram a
hostilidade da opinio pblica, o que os obrigou a adotar a chamada poltica de
"pequenas doses". Ainda assim, conseguiram impor um protetorado  Tunsia
em 1881 e enviar expedies, muito embora sem plano de conjunto e com
recursos reduzidos, ao continente africano, a Tonkin e a Madagscar. De 1890
em diante, finalmente, as ambies francesas tomaram corpo. A maior parte da
opinio pblica comeava a aceitar as ideias imperialistas, e os meios empre-
sariais passaram a demonstrar interesse crescente pelas conquistas coloniais2.
Assim, Madagscar, apresentada pela propaganda colonialista como um grande
mercado consumidor, um pas de riquezas incontveis, uma ilha desejada pelos
ingleses, tornou-se alvo de ambies e de cobia. O governo da rainha Rana-
valona viu-se, dessa forma, tendo de afastar as ameaas externas, alm de, ao
mesmo tempo, tentar reduzir as frequentes tenses, latentes ou declaradas, no
s em Imerina, como tambm em toda a ilha.

      A situao em vsperas da primeira guerra francomerina3
    O novo interesse que Madagscar suscitou na Frana era resultado de uma
propaganda sabiamente orquestrada pelos parlamentares da ilha de Reunio,
sustentada pela direita catlica e apoiada mais tarde pela faco colonial. Essas
diferentes foras juntaram-se para invocar e defender os "direitos histricos" da
Frana sobre Madagscar. O argumento, com razes na lembrana da anexao
proclamada no reinado de Lus XIV e das vs tentativas, no sculo XVIII, de
organizar uma Frana oriental prspera, com base nos entrepostos comerciais
estabelecidos naquele mesmo sculo XVIII e sob a Restaurao, foi desenvolvido
ao longo do sculo XIX em numerosos escritos antes de ser exposto oficialmente
pelo Parlamento francs em 1884. O lobby de Reunio reclamava a conquista
total da ilha com o intuito de enviar para l o excesso da populao crioula local


2     JACOB, 1966, p. 2-3.
3     AGERON, 1978a, p. 114-8.
    Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   255



e reservar para uso prprio os abundantes recursos que os ingleses ameaavam
explorar. Por sua vez, os missionrios catlicos franceses de Madagscar, vendo
seu trabalho de evangelizao reduzido s camadas sociais mais baixas, j que a
maioria das famlias nobres e dos plebeus ricos e poderosos tinha se convertido
ao protestantismo, reclamavam o apoio oficial da Frana para enfrentar a con-
corrncia dos protestantes, que eles apresentavam como produto das inmeras
"intrigas" dos britnicos. Essa teoria da "prfida Albion" encontrava eco junto
a certos meios financeiros, que, para conquistar o mercado malgaxe, em detri-
mento dos ingleses e dos norte-americanos, pensavam afast-los com a anexao
e no atravs da reduo do preo de venda de seus produtos. A propaganda
colonial apelava para o chauvinismo, bem como para a misso humanitria e
civilizadora da Frana. A fim de preparar a opinio pblica para a conquista,
apresentava-se o "Reino de Madagscar", com evidente m f, como um "Estado
brbaro", dirigido por uma "tribo estrangeira", que erigira a "tirania em sistema
de governo" e continuava a praticar o trfico de escravos.
    Todos esses argumentos desenvolvidos pelos adeptos da colonizao da ilha
tinham escasso fundamento. O governo real, acusado de ser pr-ingls, teve em
relao s potncias estrangeiras uma atitude sutil, ditada pela determinao de
defender a independncia do reino. Tratou de obter de cada uma o apoio que
pudesse dar s suas ambies4. Madagscar no era vassala do Reino Unido;
se o entendimento entre os dois pases era slido, tal se devia unicamente ao
fato de os britnicos, ao contrrio dos franceses, no procurarem colonizar a
ilha. Esse reino reputado "brbaro", onde predominaria o "obscurantismo", era,
na realidade, dirigido por uma rainha e um primeiro-ministro convertidos ao
cristianismo desde 21 de fevereiro de 1869. Receberam o batismo protestante, 
verdade, seguindo o seu exemplo a maioria dos dirigentes e da populao. Mas
no impediram os malgaxes de abraar o catolicismo nem se opuseram  ao
dos missionrios franceses. Esse liberalismo prova a separao entre as Igrejas e
o Estado, ainda que "em torno da capela do palcio da rainha o primeiro-minis-
tro talvez tenha tentado criar uma igreja nacional, a Igreja do Palcio, formada
por pastores e evangelistas malgaxes de sua confiana"5. Essa tentativa gerou um
medo persistente no meio dos jesutas e uma "invencvel desconfiana" entre os
representantes da London Missionary Society (LMS).
    Em 1877, o governo real libertou os escravos masombika trazidos do conti-
nente, prevendo sua instalao em terras para eles alocadas. Em 1878, reorganizou

4    ESOAVELOMANDROSO, F., 1979.
5    VIDAL, 1970, p. 6, nota 20.
256                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



a justia, da em diante confiada a trs tribunais, que procederiam  instru-
o dos processos, ficando a deciso com o primeiro-ministro. Em 1881 foi
promulgado "o Cdigo dos 305 artigos, legislao inovadora que abrange ao
mesmo tempo o direito civil, o direito penal e o processo"6. Todas essas medidas,
alm de outras, mostram a vontade de Rainilaiarivony de "modernizar" seu pas,
transformando-o num "Estado civilizado"  face da Europa. Eram esforos que
teriam desarmado os homens movidos pelo desejo de civilizar Madagscar e de
pregar l o Evangelho. Contudo os parlamentares de Reunio, apoiados pelos
deputados catlicos e pelo grupo colonial, reclamavam com insistncia a con-
quista da ilha. Aproveitaram-se de trs pretextos para obrigar o governo francs
a intervir militarmente em Madagscar, em 1882.
    Jean Laborde, que inicialmente fora scio de altos dignitrios de Madags-
car, sob o reinado de Ranavalona I, na produo de armamentos e munies
e na explorao agrcola, e que no reinado de Radama II se tornou cnsul
da Frana, morreu em 1878, deixando bens imobilirios, que seus sobrinhos
Edouard e Campan Laborde em vo reclamavam. As reivindicaes de Paris
sobre essa herana tinham base no tratado de 1868, que autorizava os cidados
franceses a adquirir bens imveis em Madagscar; a recusa das autoridades de
Tananarive em concordar com as ditas reivindicaes repousava na lei segundo
a qual a terra pertencia unicamente  soberana. A "herana Laborde" colocava
de fato um problema do "direito de propriedade", que interessava aos colonos
e negociantes instalados na ilha: "Poderiam eles ser proprietrios dos domnios
que exploravam, ou pelo menos esperar obter contratos de arrendamento de
longo prazo?"7.
    Em abril de 1881, a questo do Toal envenenou as relaes franco-malgaxes.
O patro do veleiro  rabe com cidadania francesa  e outros trs muulmanos,
membros da tripulao, foram assassinados por homens do rei sakalava, Bakary,
na baa de Marambitsy, regio fora do controle das autoridades merina. Trafi-
cantes de armas, intimados a entregar a carga, abriram fogo sobre os Sakalava,
que, em reao, os mataram. Por esse caso de contrabando, a Frana reclamou
uma indenizao  rainha de Madagscar8.
    No mesmo ano, dois missionrios ingleses, em excurso pela costa de Sambi-
rano, no noroeste, persuadiram os chefes sakalava da regio a hastear o pavilho
merina. A Frana protestou, invocando os tratados de protetorado assinados em

6     DESCHAMPS, 1960, p. 181.
7     JACOB, 1966, p. 5.
8     BOITEAU, 1958, p. 172.
    Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   257



1840 e 1841 com os soberanos da regio. Rainilaiarivony respondeu lembrando
o tratado de 1868, que o governo de Napoleo III assinara com a "rainha de
Madagscar".
    A falta de sinceridade nessas conversaes convenceu Rainilaiarivony da m
f dos franceses e o levou a adotar, para pagar as indenizaes e adquirir armas
e munies, uma poltica impopular, pelos pesados impostos que recaram sobre
o povo. As dificuldades com a Frana no lhe deixavam tempo para assimilar as
conquistas feitas por Radama II e obter a adeso definitiva das populaes sub-
metidas, e menos ainda para prosseguir na unificao do pas. , portanto, um
primeiro-ministro acossado por problemas de ordem interna, que ir negociar
com o cnsul francs Baudais, que rompera bruscamente as relaes diplom-
ticas e abandonara Tananarive a 21 de maio de 1882.

     O isolamento dos dirigentes malgaxes, 18821894
    Em junho de 1882, o capito de mar e guerra Le Timbre mandou recolher
os pavilhes merina da baa de Ampasindava, sem qualquer resistncia. Raini-
laiarivony pensava poder evitar ainda um conflito e chegar a um acordo pacfico
sobre os contenciosos. Por isso enviou  Europa e aos Estados Unidos (outubro
de 1882-agosto de 1883) uma embaixada dirigida por seu sobrinho Ravoni-
nahitriniarivo, ministro dos Negcios Estrangeiros, para buscar um acerto com
Paris e obter o apoio das outras potncias9. Mas, alm dos tratados de comrcio
assinados com Londres, Washington e Berlim, e da renncia da Inglaterra
ao direito de propriedade para os seus cidados, substitudo por contratos de
arrendamento de prazo a ser fixado pela vontade das partes, os plenipotencirios
malgaxes nada conseguiram de substancial. A Frana, tratada com prudncia
pelos ingleses, que desejavam ter as mos livres no Egito, recusou-se a qual-
quer acordo, embora os enviados de Ranavalona II concordassem em retirar os
pavilhes e guarnies da baa de Ampasindava e aceitassem arrendamentos
por longos prazos para os estrangeiros. A embaixada ainda estava na Europa
quando a marinha francesa bombardeou Majunga, em maio de 1883, fazendo
assim eclodir a primeira guerra franco-merina (1883-1885). Ou seja, a atividade
diplomtica no conseguiu impedir a guerra. As autoridades de Tananarive
descobriram, com amargura, que as grandes potncias, preocupadas antes de
tudo com seus interesses, s vezes, se no frequentemente, faziam acordos 
custa dos pequenos pases. A atitude do Reino Unido, tido como fiel aliado, foi


9    MUTIBWA, 1974, p. 218-46.
258                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



decepcionante, e diz-se ter levado o primeiro-ministro, desiludido, a cunhar a
expresso "fingir que se briga, como os franceses e os ingleses".
    A marinha francesa atacou, portanto, um reino que se achava isolado no
plano diplomtico. Uma esquadrilha, comandada pelo almirante Pierre, bom-
bardeou os portos do noroeste e do leste da ilha, ocupando Tamatave. Paris
exigiu de Rainilaiarivony a cesso da parte de Madagscar situada ao norte do
paralelo 16 e o reconhecimento do direito de propriedade dos franceses insta-
lados na ilha. O primeiro-ministro aguentou firme as presses, deixando a porta
aberta a negociaes. No decorrer dessa "falsa" guerra, onde as negociaes eram
conduzidas com mais diligncia do que as operaes militares, as reivindicaes
francesas mudaram de rumo: j no se tratava do reconhecimento de seus direi-
tos histricos sobre o noroeste de Madagscar, mas da imposio de um pro-
tetorado a toda a ilha. Quanto a Rainilaiarivony, ateve-se a sua posio inicial,
recusando-se a sacrificar a independncia de seu pas. No entanto, ao mesmo
tempo que os dirigentes franceses e malgaxes adotavam atitudes  primeira vista
irreconciliveis, os sditos, de um lado e de outro, comeavam a ceder  lassido.
Do lado malgaxe, o bloqueio e o esforo de guerra tinham provocado uma crise
econmica e um mal-estar poltico bastante graves. Do lado francs, a expedio
a Tonkih no permitira o reforo das tropas em combate em Madagscar; de
resto, a opinio do ministro Freycinet, inclinado  conciliao, prevaleceu sobre
a dos adeptos de uma marcha sobre Tananarive. Os acontecimentos levaram os
dois governos a assinar a paz, quer dizer, a contentar-se com um acordo.
    O obscuro tratado de 17 de dezembro de 1885 ps fim a uma guerra em que
no houve vencedor nem vencido. Era to vago e ambguo que cada uma das
partes o interpretaria a seu modo. O tratado dava  Frana o direito de repre-
sentar Madagscar "em todas as suas relaes exteriores" e de manter em Tana-
narive um residente-geral, com escolta militar. Garantia aos cidados franceses
o direito de obter contratos de arrendamento de longo prazo (mximo de 99
anos),  marinha francesa o de ocupar Diego Surez e ao governo francs uma
indenizao de 10 milhes de francos. Este tratado, onde a palavra "protetorado"
no aparece, reconhecia a rainha Ranavalona como soberana de toda a ilha e
nica proprietria do solo malgaxe. O "Apndice", ou carta explicativa que o
primeiro-ministro solicitou e obteve em 9 de janeiro de 1886 dos negociadores
franceses antes de ratificar a conveno, definia os poderes do residente-geral,
fixava a dimenso da sua escolta militar em 50 homens e descrevia os limites do
territrio de Diego Surez em uma milha nutica ao sul e a oeste e em quatro
milhas ao norte. Entendia-se que tais disposies limitavam o alcance do tra-
tado. Por seu lado, o governo francs no reconhecia nenhum valor ao "Apn-
     Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   259



dice" e interpretava o acordo de 17 de dezembro de 1885 como um tratado de
protetorado. J o governo malgaxe, dominado por Rainilaiarivony, recusava-se
a ver no documento um tratado que estabelecia o protetorado sobre a ilha
e opunha s pretenses francesas uma interpretao bem diferente do texto,
com base nas referncias constantes do "Apndice" que limitavam o mbito das
clusulas consideradas prejudiciais  independncia do reino. Os dirigentes de
Tananarive esforavam-se para evitar a efetividade do protetorado jogando com
as diferenas entre o texto francs e o malgaxe e os esclarecimentos aduzidos
pelo protocolo adicional10.
    Assim, entre o primeiro-ministro e os sucessivos residentes-gerais, travou-se
uma guerra de atritos, e multiplicaram-se os mal-entendidos. Sem esperar os
resultados das interminveis negociaes sobre a delimitao da zona francesa
em torno de Diego Surez, a marinha francesa ocupou larga faixa de territrio
ao sul do porto. Outro conflito, o do exequatur ("documento oficial pelo qual
dado governo reconhece um agente consular e o autoriza a desempenhar suas
funes no pas"), dominou os dez anos do "protetorado fantasma" (1885-1895).
O residente-geral exigia que fosse ele a conceder o exequatur, para provar que
Madagscar era um protetorado, ao que Rainilaiarivony se opunha, para afir-
mar a independncia do reino. At a assinatura do acordo anglo-francs de
1890, pelo qual a Frana reconhecia o protetorado ingls sobre Zanzibar e, em
troca, a Inglaterra aceitava "o protetorado francs sobre Madagscar, com suas
consequncias", o primeiro-ministro conseguiu manter sua posio. Mas as
dificuldades diplomticas foram agravadas pelos problemas econmicos que o
reino experimentava.
    Para pagar a indenizao devida  Frana, o governo malgaxe contraiu, junto
ao Comptoir National d'Escompte de Paris (CNEP), um emprstimo com o
penhor das receitas alfandegrias dos seis maiores portos da ilha (Tamatave,
Majunga, Fenerive, Vohemar, Vatomandry e Mananjary). Agentes designados
pelo banco francs mas pagos pelas autoridades reais fiscalizavam o recebimento
das tarifas. O Estado malgaxe privava-se assim de uma fonte substancial de
receita.
    A necessidade de dinheiro e as presses de Le Myre de Vilers, primeiro
residente-geral francs em Tananarive, levaram o primeiro-ministro a fazer
imensas concesses aos europeus para a explorao tanto de minrios (cobre em
Betsileu, ouro em Boina) como de florestas. A concesso aurfera de Suberbie, na


10    ESOAVELOMANDROSO, F., 1977b.
260                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



regio de Maevatanana, notria pelo uso do trabalho forado nas minas ("corveia
do ouro"), pouco rendeu ao governo. Por outro lado, contribuiu para o enfraque-
cimento do poder, devido  fuga dos trabalhadores, que iam engrossar as fileiras
dos fahavalo (irregulares), que faziam reinar a insegurana no noroeste da ilha.
No mesmo perodo, outorgaram-se 12 concesses florestais situadas na costa
oriental do pas a estrangeiros. Os recursos limitados dos concessionrios e a
atitude do primeiro-ministro, pouco decidido a facilitar-lhes a tarefa, a despeito
das aparncias, fizeram com que as tentativas de explorao das florestas malga-
xes no fossem bem-sucedidas. As concesses no enriqueceram o governo real,
no foram proveitosas para as populaes locais nem renderam aos capitalistas
estrangeiros tanto quanto imaginavam11.
    O produto das tarifas aduaneiras no era suficiente para pagar as prestaes
semestrais devidas ao CNEP e, dado que as concesses feitas aos estrangeiros
no alcanaram os resultados esperados, o governo real, para encher os cofres
do Estado, multiplicou os impostos e aumentou o trabalho forado (corveia).
Alm dos impostos habituais, o povo tinha de pagar um outro, de uma piastra
por cabea, e o fitia tsy mba hetra, uma espcie de contribuio geral, teorica-
mente "voluntria". Algumas pessoas recusaram-se a desempenhar as tarefas
exigidas pelo fanompoana, ou sistema de trabalho forado, outras entregaram-se
ao banditismo, e grupos de salteadores no hesitaram em atacar a cidade santa
de Ambohimanga, em 1888, e at a capital, em 189012.
    Esses distrbios, que ameaavam os interesses das classes privilegiadas e dos
estrangeiros, alarmaram o residente-geral, revelando uma grave crise de poder
no "Reino de Madagscar". O Parlamento francs aproveitou-se da situao e
enviou a Tananarive Le Myre de Vilers, que j fora residente-geral de 1886 a
1889, com um plano para estabelecer um verdadeiro protetorado. Tendo Raini-
laiarivony recusado esse plano, o Parlamento francs votou, por enorme maioria,
pela guerra, que o governo merina, para manter sua independncia, no pde
recusar. As autoridades reais, contudo, entraram nessa guerra, em 1894, em
condies desfavorveis.

      O reino de Madagscar em 1894: debilidade e desorganizao
  Em vsperas da conquista francesa, graves tenses internas abalavam o reino.
Ao menos no plano oficial, o batismo de Ranavalona II marcou o incio do


11    ESOAVELOMANDROSO, M., 1979, p. 186-93.
12    ESOAVELOMANDROSO, F., 1977b, p. 50.
     Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   261



declnio do culto dos antepassados e o desaparecimento dos sampy (santurios)
reais ou mesmo locais, que constituam a base poltica e religiosa da Imerina tra-
dicional, e foi responsvel pela converso, em muitos casos forada, de milhares
de sditos, pela destruio de certas hierarquias antigas em razo da demisso
dos guardies de sampy e pela ascenso de uma elite cristianizada. O poltico,
o econmico e o religioso se imbricavam. Os homens da Igreja do Palcio no
s se ocupavam dos negcios do Estado, como recenseamento, ensino, recruta-
mento para o exrcito e para o trabalho forado, mas ainda se aproveitavam de
sua posio e do sistema econmico para enriquecer com o comrcio e a usura.
Guardies de sampy e dignitrios locais, desapossados dos poderes e privilgios
tradicionais, opuseram-se aos governantes da ilha fugindo, negando-se a cons-
truir igrejas e incendiando-as13. Alm disso, a Igreja oficial no reunia a unani-
midade dos Merina cristianizados. Os que nela no se integraram, praticando
uma espcie de cristianismo popular, com inspirao na Bblia e na histria e
folclore locais, formavam uma elite instruda que podia figurar como liderana
poltica. Dedicaram-se ao comrcio e adquiriram o hbito de propagar suas
ideias nos dias de feira. Outros cristos, reagindo contra a opressiva tutela da
Igreja oficial, voltaram-se para o catolicismo ou colocaram-se sob a proteo de
um nobre. Outros ainda decidiram-se a lutar pela autonomia e pela liberdade de
sua vida religiosa, como os dissidentes do templo de Ambatonakanga, que, em
1893, criaram uma igreja prpria, com o nome de Tranozozoro (casa ou templo
de juncos)14. A dissidncia, que se produziu em pleno centro da capital, bastio
do cristianismo, comprova o mal-estar que uma parte dos fiis sentia.
    Estas tenses contriburam para o declnio de lmerina, agravado ainda pelas
presses estrangeiras, sobretudo francesas, e pelo carter arcaico da dominao
econmica exercida pelos grandes de Tananarive, o que lhes impossibilitou
concretizar a ambio de criar um Estado nacional. Os oficiais mercadores
compensavam as perdas explorando ao mximo o sistema de corveia, agora que
ele perdera o carter de obrigao ritual, investindo na terra e entregando-se 
usura. Aos magnatas da capital, fiis da Igreja do Palcio, opunha-se a multido
de seus devedores, pequenos agricultores e jornaleiros, sobre os quais pesava
mais o fanompoana.
    Tudo isso punha a nu a "decomposio do corpo social e do aparelho de
Estado"15 e revelava a existncia de uma crise profunda no mago do "Reino de

13    ESOAVELOMANDROSO, F., 1980.
14    AYACHE, S. & RICHARD, C. , 1978, p. 133-82.
15    JACOB, 1977, p. 213.
262                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



Madagscar", ento incapaz de resistir  expedio francesa. Madagscar, con-
tudo, no se reduzia ao aparelho de Estado. As massas populares merina, que
no se identificavam com seus dirigentes, as populaes vassalas, que buscavam
com mais ou menos sorte escapar  opresso da oligarquia, bem como os reinos
independentes de Tananarive, vo, uns aps os outros, resistir  penetrao e 
conquista francesas.


      Um pas que ope resistncia
      descoordenada  conquista colonial
    A desestruturao da sociedade no "Reino de Madagscar", a runa da ordem
antiga, a dominao da oligarquia, a crise econmica e as ameaas imperialis-
tas provocaram uma confuso moral e espiritual na massa da populao, que
comeou a idealizar o passado e a defender a volta s tradies. No demorou
muito, os dirigentes tiveram de enfrentar uma artilharia de crticas. A conquista
colonial (1894-1895) deu aos opositores do regime oportunidade de se exprimir,
precipitando a queda do governo, j muito contestado em Imerina e nas provn-
cias conquistadas e ignorado ou combatido pelas populaes independentes.

      A falncia dos dirigentes
    Enquanto, do lado francs, a opinio pblica e o Parlamento estavam decididos
a apoiar a expedio  o exrcito dispunha de amplos recursos e de grande nmero
de efetivos, sendo o terreno muito bem conhecido, depois de estudado por explo-
radores e militares , do lado malgaxe o Estado estava bem mais enfraquecido
do que em 1883. Rainilaiarivony, velho e autoritrio, tornara-se impopular. Alvo
de numerosas conspiraes, algumas envolvendo seus aliados mais prximos e
at mesmo seus filhos, no podia contar nem com os altos dignitrios do regime,
que lhe invejavam o cargo esperando substitu-lo algum dia, nem com o exrcito,
ento desorganizado com nmero crescente de desertores e desmoralizado pela
corrupo e ganncia desmedidas. De resto, a estratgia de Rainilaiarivony era
arcaica. Malgrado seus esforos, alis improvisados e desordenados, para comprar
armas e munies, e as tentativas de proceder a uma verdadeira mobilizao das
foras do reino, os nicos aliados em que ele realmente confiava eram os "generais
Tazo (febre) e Ala (floresta)". Esperava que, tal como em 1883, a falta de estradas
para atravessar a floresta, quase impenetrvel, bem como o clima inspito para o
europeu, impedissem um corpo expedicionrio de marchar sobre Tananarive.
     Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   263



    Efetivamente, a campanha causou muitas baixas entre os franceses, mas isso
se deveu  incria de certos servios do Ministrio da Guerra. As tropas desem-
barcadas em Majunga deviam marchar sobre a capital utilizando as famosas
carroas Lefebvre, o que as obrigou a abrir uma estrada. Os trabalhos de aterro
nos pntanos provocaram febres e disenterias, transformando o corpo expedi-
cionrio em uma "coluna esparsa interminvel, embaraada com seus comboios,
seus mortos e moribundos"16.
    O exrcito real no lanou nenhuma guerrilha contra os francos ou a reta-
guarda daquelas tropas extenuadas. Os soldados de Ranavalona estavam dispersos
pelos vrios portos. Os que foram enviados ao encontro dos franceses ergueram
fortificaes que abandonaram to logo foram bombardeadas ou cercadas. Nem
os soldados nem os oficiais tinham recebido verdadeira formao militar e no se
achavam nada motivados  pior, estavam desnorteados. Recordando as dissenses
e a discrdia no seio do exrcito, escrevia Rajestera, oficial da linha de frente:
      O desencorajamento era geral, tanto no meio dos soldados como entre os chefes,
      ainda mais sabendo-se que os parentes e amigos do primeiro-ministro, em particular
      seu neto Ratsimanisa, que prudentemente permanecera em Imerina, dividiam entre
      si as honras que em boa justia deveriam caber queles que tinham de aguentar as
      fadigas e os perigos da guerra.
    O anncio de que Ratsimanisa  "um rapazelho que mal acorda e j volta a
dormir, que s serve para assar batata-doce", como diziam em tom de mofa os
oficiais  fora promovido ao grau das "Quinze Honras", um dos mais elevados
na hierarquia, foi o derradeiro golpe no moral das tropas e acabou debilitando
a resistncia17.
    Em face dessa situao, o general Duchesne, comandante-chefe do corpo
expedicionrio francs, destacou do corpo do exrcito, atravancado com seus
doentes, carroas e equipamentos, uma coluna ligeira, que desbaratou e ps em
fuga as tropas regulares da rainha, antes de tomar Tananarive, em 30 de setembro
de 1895. O foloalindahy (exrcito real), a partir dessa data, no conseguiu ser mais
do que uma sombra plida do antigo exrcito de Radama. Se Rainilaiarivony
logrou humilhar os mainty e excluir os andriana, espinha dorsal dos exrcitos
do sculo XVIII e de comeos do XIX, no chegou, porm, a criar um grande
exrcito, bem treinado e comandado por homens que lhe fossem fiis, homens
respeitosos dos bens do Estado e ciosos da independncia da sua ptria. O

16    DESCHAMPS, 1960, p. 230; BROWN, 1978, p. 236-56.
17    Apud ESOAVELOMANDROSO, M., 1975, p. 62, nota 67.
264                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



primeiro-ministro cercou-se de um bando de cortesos aduladores, ansiosos
por encher seus bolsos quaisquer que fossem os meios, incapazes de lhe dar o
menor conselho til para a conduo dos assuntos do Estado e decididos a servir
quem detivesse o poder. Essas pessoas, que no foram capazes de defender a
independncia do reino, tornaram-se, na sua maior parte, zelosos aliados dos
colonizadores, renegando e chegando mesmo a combater as massas populares,
que, ante a ignominiosa debandada do exrcito real e a "traio" dos dirigentes
da ilha, se levantaram para enfrentar os franceses.

      Os movimentos Menalamba em lmerina
    O comportamento da populao merina ante a conquista explica-se por suas
relaes com o governo, monopolizado pelos andafiavaratra, isto , a famlia e
a clientela de Rainilaiarivony, o primeiro-ministro18.
    Os seis toko (distritos) de Imerina mantinham diferentes relaes com a
oligarquia no poder. Por exemplo, o Vakinisisaony, terra ancestral dos reis de
Imerina e primeira regio de adoo de sampy, tal como Ikelimalaza, detinha o
privilgio de conferir legitimidade ao soberano. No entanto, ao longo do sculo
XIX, os habitantes de Vakinisisaony, conhecidos como resistentes, sofreram a
opresso do trabalho forado e o duro peso do poder dos Avaradrano, povo que
sustentou Andrianampoinimerina. Os andriana (nobres) de Vakinisisaony foram
eliminados, caso dos guardies de Ikelimalaza, que foi primeiro confiscado por
Andrianampoinimerina e depois queimado em 1869. A partir dessa data, no
sul de Vakinisisaony, a oposio ao governo cristo se cristalizou em torno do
culto deste sampy. Na parte norte dos toko, grupos que continuavam respeitando
a religio tradicional conviviam com cristos. Mas houve cises entre os cristos
das aldeias, como em Ambohimalaza, onde nobres e escravos eram predominan-
temente catlicos, e os plebeus, protestantes. A mesma oposio ocorreu entre
adeptos dos cultos tradicionais e do cristianismo em outros distritos. No de
Ambodirano, em Ramainandro, localidade com uma populao crist bastante
numerosa e aliada a um foko (comuna) de Avaradrano, ficava junto de Amboa-
nana, que permanecera fiel ao culto do sampy.
    A queda de Tananarive, que significava a falncia do mundo urbano cristo,
provocou a mobilizao do mundo rural em defesa da herana ancestral. O
levante de Amboanana, que irrompeu em novembro de 1895, dia do Fandroana
(figura 10.4), aniversrio da rainha e festa nacional, marca o incio da oposio


18    ELLIS, 1980a, 1980b.
   Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   265




figura 10.4   Principais zonas das rebelies Menalamba.
266                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



popular  conquista francesa. Essa grande rebelio  conhecida pelo nome de
Menalamba (literalmente, "mantos vermelhos"), pois os rebeldes "coloriam as
vestes com a terra vermelha dos campos, para no serem facilmente reconhecidos
de longe". Os insurretos tomaram Arivonimamo, assassinaram o governador,
bem como um missionrio ingls e respectiva famlia, reclamando a supresso
do culto cristo, das escolas, do servio militar e da corveia. Em maro de 1896,
eclodem no norte e no sul de Imerina outros movimentos, que reclamam o
regresso s antigas crenas, a depurao da classe dirigente e que tm como
objetivo forar a partida dos franceses.
    Os Menalamba haviam tomado as armas dos desertores do foloalindahy e
comprado outras dos comerciantes hindus e crioulos  o que denota relaes
relativamente fceis com a costa. Estavam organizados  semelhana das tropas
reais, com uma hierarquia de honras e diviso em regimentos. Atacaram os
representantes do poder oligrquico  para eles, ilegtimo e responsvel pela
derrota , os missionrios estrangeiros e evangelistas malgaxes  propagadores
do cristianismo e, portanto, inimigos dos cultos tradicionais. Queimaram igrejas
e escolas e restauraram a religio ancestral; o culto do sampy Ravololona cresceu,
e ritos antigos, como o valirano e o sotrovokaka, dois tipos de juramento, passa-
ram a ser novamente praticados.
    No entanto, certos atos dos Menalamba afastaram deles uma parte da popu-
lao. Na sua estratgia, atacaram as feiras para causar impresso, criar pnico,
lanar-se contra uma instituio que simbolizava a opresso e a ordem impostas
pela oligarquia. Mas esses ataques permitiam-lhes tambm abastecer-se. Os
assaltos s feiras, as razias que faziam para tomar as colheitas s aldeias que no
estavam a seu favor, semeavam confuso entre as populaes sedentrias, que
no conseguiam distinguir os Menalamba dos jirika (salteadores, bandidos).
E os colonizadores e seus aliados locais aproveitavam-se disso para isolar os
rebeldes.
    Os movimentos menalamba ocorreram nas reas fronteirias de Imerina,
onde a insegurana era permanente. Com efeito, estando longe de Tananarive,
tornaram-se refgio de irregulares e desertores. Alm disso, o contato com os
Sakalava, a noroeste, e com os Betsimisaraka, a sudeste, facilitava o suprimento
de armas. E, ademais, eram reas de acesso difcil, rodeadas pela cadeia das
Tampoketsa, nua e desolada, a noroeste, e pela floresta, a leste. Habitavam-nas
pastores a servio dos dirigentes da capital, os quais gozavam de certa liberdade
em relao ao poder central. E eram fornecedoras de mo de obra para o traba-
lho forado na minerao de ouro, de onde o descontentamento da populao
com Tananarive.
  Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   267



    Por isso dignitrios locais e governadores de pequenos postos administra-
tivos como Rabazavana e Rabozaka, no norte de Imerina, no tiveram muita
dificuldade para lanar esses irregulares e descontentes contra os estrangeiros e
seus aliados, responsveis pela reviravolta econmica, social, poltica e religiosa
que abalou o tanindrazana (terra dos ancestrais). Na realidade, o comporta-
mento dos escravos emancipados variava de uma regio para outra e at numa
mesma regio. Na Imerina central, onde a percentagem da populao servil era
grande, frequentemente se reagia com entusiasmo  conquista,  converso ao
catolicismo, tida como um ato de vassalagem  Frana, e ao regresso s regies
de origem. Em compensao, no litoral de Imerina, pouco povoado, os escravos
libertos tinham de enfrentar problemas materiais e juntavam-se aos rebeldes.
    Os Menalamba eram compostos por grupos heterclitos, cuja atitude em
relao a certos problemas parecia ambgua. Odiavam e ao mesmo tempo vene-
ravam a capital. Bastio do cristianismo e sede de autoridades contestadas, a
capital simbolizava, no entanto, o reino e continuava sendo, para o povo, a capital
de Andrianampoinimerina. Sua queda era o prenncio do caos, que devia ser
evitado. Quando os Menalamba ameaaram Tananarive, foi simultaneamente
para manifestar seu desacordo com o mundo urbano e sua ansiedade de perma-
necer em contato com a "capital do reino". Sua atitude ainda foi mais ambgua
ao procurarem distinguir Ranavalona  rainha legtima, segundo eles  de Rai-
nilaiarivony  primeiro-ministro e usurpador , quando, na realidade, a primeira
fora escolhida e designada pelo segundo. O mesmo se pode dizer de sua tentativa
de separar alguns dirigentes do resto da oligarquia. Assim, se a oposio entre
os Menalamba e os estrangeiros era clara e definida, seu antagonismo com a
oligarquia era menos pronunciado, j que bastante matizado.
    A severidade da represso e, sobretudo, a falta de coordenao entre os dife-
rentes movimentos, bem como a autonomia deles em relao s revoltas desen-
cadeadas em outras regies de Madagscar, explicam o malogro da resistncia
popular em Imerina.

   Oposio popular nas regies submetidas  autoridade real
    Em certas regies, a reao popular  conquista francesa foi resultante da
influncia dos Menalamba. No noroeste (regio de Mampikony), em 1896,
Rainitavy, antigo governador merina, recrutou uma tropa heterognea de deser-
tores merina e pastores sakalava e supriu de armas adquiridas no noroeste os
Menalamba de Rabozaka. A insurreio por ele organizada foi o nico movi-
mento menalamba em que os objetivos comerciais tiveram maior peso. De fato,
268                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



o objetivo era o controle do comrcio da regio, sobre o qual os crioulos e os
hindus exerciam verdadeiro monoplio, o que explica os ataques contra eles.
    Nas regies vizinhas de Imerina, as relaes mantidas pelos lderes mena-
lamba com os reis e os dignitrios locais ajudaram a difundir algumas de suas
ideias. O Tanala Rainimangoro, por exemplo, declarou ter recebido ordens de
Tananarive para expulsar os franceses19. Fora da, no havia relaes. Nas pro-
vncias mais firmemente controladas e, portanto, mais exploradas, a queda de
Tananarive, em setembro de 1895, foi o sinal para o ataque aos manamboni-
nahitra (oficiais mercadores, na sua maior parte), aos imigrantes merina e aos
estrangeiros. Na provncia do leste, por exemplo20, a revolta dos Vorimo, cl
que vivia no Baixo Mangoro, deu incio, em dezembro de 1895, a uma srie de
levantes, que, durante o ano de 1896, criaram um clima de insegurana na regio.
Essas revoltas, a princpio, eram dirigidas contra a oligarquia merina. At outu-
bro de 1895, quando o governador-geral da provncia, Rainandriamampandry,
foi chamado a Tananarive, membros dos Betsimisaraka cuidavam de devastar os
arrozais dos soldados, recusavam-se a abastecer as tropas reais, ou simplesmente
desertavam. A partir de dezembro daquele ano, passaram a atacar abertamente
os postos militares e tomaram a iniciativa dos assaltos de surpresa e das opera-
es dirigidas contra plantaes merina. Os revoltosos poupavam os estrangei-
ros, erradamente convencidos de que os franceses tinham vindo libert-los dos
opressores. Mas a severssima represso efetuada por destacamentos do exrcito
de ocupao, e que de incio surpreendeu os Betsimisaraka, levou-os depois a
crer que os franceses no eram seus amigos mas aliados dos Merina. A partir
da, os insurretos intensificaram sua ofensiva, atacando tanto os Merina como
os franceses. A revolta s abrandou em dezembro de 1896, para em seguida
desaparecer, com as medidas tomadas pelo general Gallini, que substituiu os
representantes da oligarquia por chefes locais.
    A oposio das populaes sujeitas  conquista francesa expressou-se, assim,
de diversas formas.

      A resistncia das populaes independentes
   A princpio, os franceses pensavam que, tomando Tananarive, controlariam
a grande ilha. Ora, depois de frustrados os movimentos menalamba e de con-
sequentemente ocupada Imerina, descobriram que ainda tinham de conquistar


19    ELLIS, 1980b, p. 212.
20    ESOAVELOMANDROSO, M., 1979, p. 346-52.
     Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   269



as regies independentes. As populaes que no se haviam submetido  auto-
ridade real repeliram, de armas na mo, a penetrao francesa.
    No Ambongo  exemplo de regio caracterizada pela diviso poltica em
grande nmero de pequenas unidades  os franceses usaram vrios estratagemas
para conseguir o controle. Enquanto tentavam entendimentos com os principais
chefes ou reis do litoral e do interior, instalaram desde 1897 postos militares nas
grandes povoaes a fim de manter a ordem na regio21. Contudo, no incio de
1899, ressurgem as agitaes, devidas  mesma vontade de repelir a dominao
colonial, de defender a independncia, sob o comando dos principais chefes.
Esses movimentos enfrentam, no em ordem, mas um a um, a infantaria recru-
tada no local e comandada pelos franceses, que em nenhum momento tiveram
de combater dois inimigos de uma vez. Pelo contrrio, estavam  vontade para
bater quem e onde quisessem. Os grupos de resistentes estavam isolados uns dos
outros, incapazes de se unir perante o inimigo comum. Os principais respons-
veis por essa situao eram os chefes, os quais, na sua incria e no seu egosmo,
no souberam promover o desenvolvimento das lutas populares em defesa da
independncia sakalava.
    A conquista de Menabe, reino de grandes dimenses e bem organizado,
comeou em 1897 e deveria ser a demonstrao prtica da poltica elaborada
por Gallini e que respondia a um
      triplo objetivo: isolar e reduzir o inimigo principal, o poder centralizado dos Merina;
      promover contra ele a autonomia poltica das grandes regies da ilha, segundo o
      princpio de `dividir para reinar'; aproveitar-se de tal autonomia para efetuar a colo-
      nizao aos menores custos22.
    O rei Toera e seus principais chefes, reunidos em Ambiky, estariam prontos
a largar as armas, mas o major Grard, que comandava as operaes, em vez
de aceitar a submisso, preferiu investir contra a capital e "massacrar todos os
Sakalava que no conseguissem fugir, inclusive o rei Toera". Esse ato de cruel-
dade e deslealdade endureceu a vontade de resistncia dos Sakalava. Assim, uma
resistncia bem organizada, sob o comando de Ingereza  irmo e sucessor de
Toera , irrompeu em todo o Menabe e perdurou at 1902. As populaes do sul,
Antandroy e Mahafale, tambm se opuseram  penetrao francesa e somente
se submeteram em 1904.



21    ESOAVELOMANDROSO, M., 1981.
22    SCHLEMMER, 1980, p. 109.
270                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



   Graas  sua poltica de lenta expanso, ao fim de longo perodo, Gallini,
em 1904, podia dizer que a unificao territorial da ilha estava concluda. Com
efeito, nenhuma parte dela escapava  autoridade de Tananarive: todas as regies
reconheciam a autoridade dos colonizadores. Mas tal unidade na submisso
comum  Frana gerou uma situao nova, a qual explica as diferentes formas
de ao que os malgaxes empreenderam para melhorar a sua sorte, ou seja, para
recuperar a independncia.


      Um pas unido pela submisso  Frana e
      pela oposio  dominao colonial
    O ano de 1904 encerrou o perodo dito de "pacificao" da ilha. As reaes
dos malgaxes  conquista e  penetrao redundaram todas em reveses naquele
ano. Oficialmente, as operaes militares estavam terminadas, e os diferentes
mecanismos da colonizao  mecanismos administrativos, econmicos e cultu-
rais  criados por Gallini tornaram-se aptos a funcionar, permitindo  Frana
estabelecer sua ascendncia de maneira definitiva. Todavia, o mesmo ano de
1904 tambm assinala o incio de um novo perodo, marcado pelas lutas das
populaes malgaxes contra a opresso colonial.

      Da colonizao ao despertar do movimento nacional
    Para o povo Malgaxe, a situao colonial significava a perda da liberdade
e da dignidade. Mesmo que s vezes encontrasse um pouco de continuidade
entre os sculos XIX e XX, sentia uma tenso perptua no seu dia a dia devida
 presena do estrangeiro que o explorava e oprimia, depois de lhe arrebatar o
poder e de o subjugar. A Frana decidiu "civilizar" o povo Malgaxe, "assimil-lo",
ou seja, transform-lo em outro povo  em suma, alien-lo. Essa tentativa de
destruio de sua personalidade e a transformao de suas condies de vida
provocaram diversas reaes.
    No plano administrativo, a aventura colonial trouxe consigo a ruptura das
antigas estruturas polticas. Em Imerina, Gallini aboliu a monarquia a 28 de
fevereiro de 1897 e os privilgios da aristocracia a 17 de abril, mas em outros locais
no suprimiu as diferentes dinastias, pelo menos no plano jurdico. Ao contrrio,
comeou por tentar, conforme as instrues do ministrio, combater a hegemonia
merina, adotando a politique des races, j experimentada no Sudo (frica Ociden-
tal Francesa) e na Indochina. Antigos soberanos ou seus filhos foram integrados
     Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   271



na administrao na qualidade de "governadores indgenas", enquanto se criavam
"protetorados interiores" nos extensos reinos do oeste e do sudoeste. Mas o sistema
no se demonstrou satisfatrio e, de 1905 em diante, aumentou desmesurada-
mente o nmero de auxiliares merina, julgados mais aptos do que as outras popu-
laes "ao progresso e  adaptao". Por fim, Gallini mandou vir colonos franceses
e trabalhadores asiticos para a ilha, o que alienou profundamente a populao
indgena. A "sntese franco-merina" de Gallini estendeu-se  ilha inteira, com
suas peas mestras, o fokonolona, comunidades aldes, consideradas coletivamente
responsveis por seus interesses, e a corveia ou trabalho forado, codificada como
"prestao de servios" em 1907 e generalizada entre 1908 e 191523. Isso acarreta
o abandono de facto da politique des races, a supresso em 1909 das duas escolas
regionais do litoral, uma em Analalava, na costa noroeste, a outra em Mahanoro,
na costa leste (a terceira estava instalada em Tananarive), criadas por Gallini
como campos de treinamento de possveis funcionrios pblicos, bem como a
liquidao dos "protetorados interiores". Os toques finais da unificao territorial
de Madagscar foram aplicados com trs medidas. A primeira foi a uniformizao
da administrao (entre 1927 e 1932, trs tentativas foram feitas para delimitar
os distritos administrativos). A segunda foi a generalizao do fokonolona como
correia de transmisso do poder. A terceira foi o estabelecimento de um sistema
legal restritivo, com a instituio do "cdigo do indigenato", em 1901  base da
justia administrativa, em que se fundem o poder judicirio e o poder executivo.
Se no caso de Imerina essas medidas descendiam em linha reta das reformas de
Rainilaiarivony, revelando mesmo uma certa continuidade entre os sculos XIX
e XX, nas demais regies representavam outras tantas rupturas com o passado,
acarretando profundas transformaes, nem sempre compreendidas pelos malga-
xes e, portanto, combatidas por eles.
    Para o malgaxe, a colonizao significava tambm a explorao econmica de
Madagscar pela minoria estrangeira. O pretenso "desenvolvimento" da colnia
enfrentou desde cedo o problema da mo de obra. Aps a reimplantaco do
fanompoana real merina e sua generalizao, decididas por Gallini em 1896 e
1897, que obrigava todo malgaxe de sexo masculino, sadio, com idade entre 16 e
60 anos, a 50 dias de trabalho gratuito por ano, foi criado em 1900 o Office Cen-
tral du Travail, para facilitar o recrutamento de trabalhadores para as empresas
privadas. Diante da resistncia dos malgaxes ao recrutamento, a administrao
interveio, instituindo em 1926 o Service de la Main-d'Oeuvre pour les Travaux


23    FREMIGACCI, 1980, p. 2.
272                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



d'Intrt Gnral (Smotig), que obrigava os conscritos, no aproveitados pelo
servio militar, a trabalhar durante trs anos (prazo depois reduzido para dois
anos) nos canteiros de obras da colnia (figura 10.5). O Smotig, que para os
malgaxes era "escravido disfarada", provocou profunda indignao no s nos
recrutas, mas tambm nos trabalhadores "voluntrios", que perderam o emprego
por isso.
    A opresso colonial ainda era agravada pela espoliao das terras, distribu-
das aos colonos. Por um decreto de 1926, o Estado se declarava proprietrio de
todos os terrenos "vagos e sem dono, sem construo, nem cercados nem con-
cedidos no dia da promulgao do decreto"24. Dessa forma, as boas terras foram
monopolizadas pela administrao, os colonos invadiram as reservas indgenas,
e os malgaxes perderam o direito de propriedade sobre suas terras ancestrais. A
costa noroeste e a costa leste foram as mais atingidas pela usurpao de terras,
que provocou o ressentimento dos malgaxes.
    Essas mudanas econmicas e as reviravoltas polticas no deixaram de acar-
retar transformaes socioculturais. Atacadas na sua essncia, as sociedades
fundadas em cls das regies costeiras viram-se ameaadas de decomposio
ou de desestruturao. O confisco das melhores terras, a carga tributria, que
obrigava populaes inteiras  como os Antandroy em 1921  a emigrar para
as plantaes da ilha de Reunio e do noroeste, as deslocaes foradas de tra-
balhadores, a difuso da instruo e do cristianismo, a partida para a Frana de
soldados malgaxes a fim de participar da Primeira Guerra Mundial, a abolio
da escravatura e o rebaixamento dos grupos nobres, todos esses fatores subverte-
ram as estruturas sociais, causaram a dissoluo de vrios cls e abalaram valores
e prticas ancestrais. Em Imerina, a multiplicao das escolas e o recrutamento
em massa de funcionrios locais para a administrao subalterna provocaram
decepes nos quadros da antiga oligarquia, privada do poder pela conquista,
bem como entre a nova elite, formada nas escolas coloniais, mas que tinha "a
impresso de ser deliberadamente afastada dos postos de responsabilidade pelo
sistema colonial"25.
    Assim, a opresso colonial, mesmo tendo se manifestado de forma variada
de uma regio para outra, atingiu indistintamente as diferentes camadas da
sociedade malgaxe, provocando reaes tambm variadas.




24    RABEARIMANANA, 1980, p. 58.
25    SPACENSKY, 1970, p. 24.
                                                                                                                                           Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais
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figura 10.5   Madagscar: trabalhadores empregados na contruo da estrada de ferro de Tananarive  Tamatave. (Foto: Harlingue-Viollet.)
274                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



      As primeiras reaes de oposio ao sistema colonial
    Em 1904, no momento em que julgam encerrada a ocupao, os colonizadores
tm conscincia da precariedade da situao. O temor deles viu-se confirmado
naquele mesmo ano, com a insurreio de 1904-1905 no sudeste. O levante,
irrompido em novembro de 1904 na provncia de Farafangana, logo se espalhou
para oeste, graas a contatos tradicionais, histricos, entre as populaes do leste
e os Bara (figura 10.6). Se a solidariedade dos cls diante do inimigo comum
justifica a rpida expanso do movimento, as condies geogrficas (florestas,
falsias) explicam as dificuldades encontradas pelas foras de represso. Os
revoltosos, conduzidos por chefes pertencentes aos cls Bara (como Befanoha)
e aos do sudeste (como Mahavelo e o grupo de Masianaka, alm de Resohiry, da
regio de Vangaindrano), ou por milicianos dissidentes (como o cabo Kotavy),
atacaram postos militares em Amparihy, Begogo e Esira e concesses, como a
meraude, onde assassinaram o proprietrio, o tenente Conchon. Soldados de
infantaria recrutados localmente desertaram de seus postos em Tsivory e Bekitro,
ou juntaram-se aos rebeldes, como em Antanimora.
    Gallini explicou a insurreio como resultado da mentalidade da populao
local, de "humor belicoso" e "uma concepo sedutora de desordem e rapina".
Seu sucessor, Victor Augagneur, atribuiu-a a "excessos da administrao" (eleva-
o dos impostos, abusos na arrecadao, tirania dos chefes de postos militares
ou dos colonos isolados). Tais explicaes so insuficientes, j que ignoram
um aspecto essencial da insurreio  a luta pela recuperao da liberdade  e
a capacidade de organizao dos insurretos, que atacaram todos aqueles que
representavam a administrao colonial, tanto o ocupante francs como o fun-
cionrio ou professor malgaxe. Ao concluir seu estudo sobre o movimento de
1904, diz G. Jacob que "ele tem, incontestavelmente, duplo significado: combate
pela independncia e luta contra a explorao colonial"26. A represso dessa
primeira revolta contra a opresso administrativa obriga os malgaxes a adotar
outras formas de luta.
    Uma das formas mais disseminadas de contestao foi a resistncia passiva:
recusa ao cumprimento de ordens, rejeio de tudo que fosse considerado como
sinal de "civilizao", mas mais estreitamente ligado  colonizao,  presena
estrangeira; no deixar as crianas irem para a escola, vista em certos meios como
uma forma meramente de "corveia colonial"; e abandono das aldeias criadas ao
longo das estradas para reagrupar as populaes no sul. Essas recusas  cooperao


26    JACOB, 1979, p. 17.
   Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   275




figura 10.6   Resistncia, insurreio e nacionalismo em Madagscar, 1896-1935.
276                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



no representavam perigo aos olhos do colonizador, que, desde 1905, pensava
estar a paz finalmente estabelecida em Madagscar. Mas eis que em 1915 a
revolta dos Sadiavahe (nome dado aos insurretos) eclode no sudoeste, e a polcia
descobre em Tananarive a existncia de uma sociedade secreta, conhecida como
Vy Vato Sakelika, ou VVS = Ferro, Pedra, Ramificao (figura 10.6).
    O movimento Sadiavahe (1915-1917) foi uma revolta camponesa armada
que irrompeu em Ampotaka, na margem esquerda do rio Menarandra, em
comeos de fevereiro de 1915, e se espalhou rapidamente aos distritos de Ampa-
rihy e de Tsihombe27. Os Sadiavahe roubavam bois, atacavam aldeias, cortavam
os fios telegrficos e viviam em esconderijos bem longe dos postos controlados
pela administrao. Estavam organizados em bandos de 10 a 40 membros, no
mximo, extremamente mveis, percorrendo grande parte do sul. A pobreza
quase crnica em que vivia a populao por causa das raras mas violentas chuvas,
o imposto sobre o gado, a repercusso da Primeira Grande Guerra (mobilizao
de reservistas, aumento dos impostos, dificuldades de abastecimento, insuficin-
cia de numerrio para pagamento dos impostos), tudo explica por que aldeias
inteiras ajudavam, aberta ou clandestinamente, os Sadiavahe.
    Em Tananarive, sete estudantes da Escola de Medicina, nico estabele-
cimento de ensino superior acessvel aos malgaxes, criaram a VVS em julho
de 1913, justamente aps a publicao de uma srie de artigos escritos pelo
pastor Ravelojaona, sob o ttulo de "O Japo e os japoneses"28. A elite malgaxe
tomou por modelo esse Japo onde se casavam to bem o modernismo e a
tradio. Empregados do comrcio e professores juntaram-se aos estudantes.
O anticlericalismo de Augagneur (governador-geral de 1905 a 1910) e a luta
travada contra as misses emprestaram vida nova  Tranozozoro, cujos pastores
reclamavam, tanto nos sermes como no que escreviam, "uma igreja livre num
pas livre29. Contra o atesmo francs, contra o "falso afrancesamento", a "intelli-
gentsia afirmava como tradio nacional um protestantismo cujas estruturas
democrticas poderiam transformar-se em refgio da resistncia"30. Tambm
chamava a ateno e incentivava o nacionalismo cultural malgaxe, atravs de
um renascimento literrio, a restaurao de certos perodos do passado nacio-
nal, o restabelecimento de antigos ritos de iniciao para entrar na sociedade
secreta. Embora clandestina, a VVS expressava abertamente seus pontos de


27    ESOAVELOMANDROSO, F., 1975, p. 139-69.
28    ESOAVELOMANDROSO, F., 1981, p. 100-11.
29    AYACHE, S., & RICHARD, 1978, p. 176.
30    FREMIGACCI, 1980, p. 11.
  Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   277



vista em jornais, apelando aos malgaxes para que se sacrificassem pela ptria,
a fim de que seu povo pudesse avanar, progredir e viver livre e dignamente.
Essa sociedade secreta, detentora de um projeto nacional, no podia ser tole-
rada pela administrao, sobretudo em poca de guerra. A represso, durssima
(condenao a trabalhos forados, deportao para o campo de Nosy Lava,
interdio dos jornais cujos redatores estivessem implicados no caso, demisso
da funo pblica, remanejamento dos programas escolares com a supresso da
histria  disciplina que transmitia ideias de liberdade e igualdade como objeto
de especulao , maior destaque  lngua francesa, revalorizao dos dialetos
locais para diminuir a influncia do dialeto merina, imposto poucos anos antes
como lngua nacional), mostra como os colonizadores tomaram conscincia
do despertar do nacionalismo e como temiam suas consequncias. A represso
teve como resultado induzir os malgaxes a renunciar  ao clandestina. Da em
diante, passaram abertamente  reivindicao poltica atravs de campanhas de
imprensa e da formao de sindicatos.

   Lutas para recuperar a dignidade
    Os dez anos que se seguiram  Primeira Guerra Mundial foram impor-
tantes para a evoluo de uma conscincia ao nvel de todo o pas da prepara-
o e consolidao de um movimento nacional. O regresso a Madagscar dos
ex-combatentes estimulou essa virada decisiva na histria malgaxe.
    Os combatentes, cobertos de glria e convencidos de terem servido a Frana
da mesma forma que os franceses, reivindicavam os mesmos direitos que estes
gozavam, no que eram apoiados por boa parte de seus compatriotas. Diante da
atitude dos jornais e da Cmara de Comrcio, contrrios  naturalizao em
massa, eles acabaram por distinguir duas imagens da Frana, uma longnqua e
generosa, e outra presente e injusta. Sob a direo de Ralaimongo, deram ento
incio a uma longa luta pela obteno da nacionalidade francesa.
    Ralaimongo (1884-1942), sucessivamente professor primrio de religio
protestante, comercirio, estudante em Paris, ex-combatente, socialista e maom,
foi o verdadeiro fundador do movimento nacional. Os meios que frequentou em
Paris (pacifistas, socialistas, radicais e, sobretudo, adeptos da Liga dos Direitos
do Homem) exerceram sobre ele profunda influncia. De volta a Madagscar,
em 1922, instalou-se em Diego Surez, terreno ideal para propaganda devido
 presena dos operrios do arsenal naval e  complexidade dos problemas de
terras na plancie de Mahavavy e na regio de Antalaha. At maio de 1929, foi
Diego Surez e no Tananarive o polo de impulso do movimento nacional,
278                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



que, alm da luta pela igualdade de direitos, denunciava os intolerveis abusos
do regime colonial: "roubo de terras" no noroeste e em torno do lago de Alaotra,
ausncia de liberdade, despotismo e arbitrariedade administrativa, segregao
racial na luta contra a peste surgida em Tamatave e no plat, em 1921. A ori-
ginalidade da ao de Ralaimongo estava na novidade de seus mtodos. A luta
aberta contra o sistema colonial foi colocada sob o signo da legalidade e da legi-
timidade, com o argumento de que em Madagscar, declarada colnia francesa
pela lei de anexao de 6 de agosto de 1896, deveriam ser aplicadas todas as leis
francesas. A ao junto do comrcio, mais dinmico do que o meio dos funcio-
nrios, que temiam a represso administrativa, rendeu frutos: os comerciantes,
principalmente os da capital, financiaram o movimento.
    O grupo de Ralaimongo, reforado por Ravoahangy, ex-membro da VVS,
Emmanuel Razafindrakoto, Abraham Razafy, secretrio da seo da organiza-
o francesa SFIO em Tananarive, e Jules Ranaivo, recebeu a adeso de vrios
europeus de esquerda, como o advogado Albertini, Dussac, Planque e Vittori.
Para apresentar e defender os temas de suas reivindicaes, passaram a publi-
car, de 1927 em diante, dois jornais: L `Opinion, em Diego Surez, e L `Aurore
Malgache, em Tananarive, que tiveram de lutar com represlias administrativas
de todo gnero. No plano poltico, o grupo reclamava "a gesto dos interesses
gerais do pas por um Conselho Geral dotado de amplos poderes", a supresso
do governo-geral e a representao de Madagscar no governo francs31.
    Paralelamente  ao do grupo de Ralaimongo, irrompe outra vez a agitao
religiosa do culto Tranozozoro. As novas controvrsias entre os fiis malgaxes
e os pastores protestantes europeus s terminariam em 1929, com uma sen-
tena do Conselho do Contencioso reconhecendo o Tranozozoro como misso
indgena. Desde ento, sob a capa de movimento de independncia religiosa, a
seita se entrega  pregao da autonomia, tendo entre seus principais dirigentes
adeptos de Ralaimongo e de Dussac.
    Tendo elaborado com Ralaimongo e Ravoahangy a "Ptition des Indigenes
de Madagscar", reclamando a cidadania francesa, a supresso do regime judicial
do indigenato e a aplicao dos benefcios sociais e culturais da III Repblica,
Dussac chegou a Tananarive em maio de 1929 para explicar os objetivos da
petio. Uma conferncia prevista para 19 daquele ms, mas interdita aos "sdi-
tos malgaxes", redunda num desfile pelas ruas de Tananarive, onde milhares de
participantes entoam slogans de insubordinao: "Viva a Liberdade!" "Direito de


31    SPACENSKY, 1970, p. 30.
     Madagscar de 1880 a 1939: iniciativas e reaes africanas  conquista e  dominao coloniais   279



reunio!" "Abaixo o indigenato!". Essa primeira manifestao de massa marcou
uma etapa decisiva na evoluo do movimento nacionalista (figura 10.6). O dia
19 de maio de 1929 representa ao mesmo tempo o ponto culminante da luta
pela igualdade e o ponto inicial da reivindicao da independncia. Marca igual-
mente o comeo de um verdadeiro militantismo poltico (campanhas de propa-
ganda, criao de clulas e de partidos polticos, imprensa abundante e variada).
Ralaimongo, exilado em Port-Berg, incita os camponeses a uma resistncia de
tipo gandhista. Em 1931, formulou abertamente a ideia da independncia, em
resposta ao discurso de Paul Reynaud, ministro das Colnias, que rejeitava a tese
da naturalizao em massa. Em L `Opinion de 20 de julho de 1934, Ravoahangy
evocava o "direito natural e imprescritvel de constituir uma nao livre e inde-
pendente". Novos jornais, de confessado nacionalismo, aparecem de 1935 em
diante: Ni Firenena malagasy ("A Nao Malgaxe"), Ny Rariny ("A Justia"). Eles
no cessam de clamar que Madagscar deve ser livre. O movimento, contudo,
comea a perder impulso. Com efeito,
      os comerciantes atingidos pela crise econmica retiraram seu apoio [ ... ] Os funcio-
      nrios pblicos tm medo de se comprometer e de perder o emprego. Os pastores
      protestantes, preocupados com a evoluo poltica, refugiam-se em seus templos.
      Quanto  classe mdia malgaxe, essa est terrivelmente disposta a esperar para ver
      e prefere o benefcio direto e individual da cidadania francesa32.
      Era preciso a Frente Popular para dar novo mpeto ao movimento.


      Concluso
    A resistncia armada, dispersa e descoordenada, das populaes malgaxes 
conquista francesa no impediu o estabelecimento do sistema colonial. Mas a
lgica do colonialismo e o choque traumtico sofrido pelos malgaxes, ameaados
com a perda de sua identidade, levaram-nos a recorrer a mltiplas formas de luta
para recuperar sua dignidade. Os combates contra a opresso colonial favoreceram
a ecloso e a consolidao do movimento nacional, ainda que, tanto em 1935
como em 1940, muitas dissenses (regionais, religiosas e sociais) impedissem a
clara conscincia de tudo o que o colonialismo implicava, explicando a posio
aparentemente slida da administrao.



32    KOERNER, 1968, p. 18.
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos                           281



                                        CAPTULO 11


          Libria e Etipia, 1880-1914:
    a sobrevivncia de dois Estados africanos
                             Monday B. Akpan
    (a partir das contribuies de Abeodu B. Jones e Richard Pankhurst)




    "A Etipia estender as mos para Deus! Bno, promessa de glria! Ns deposi-
    tamos confiana no Senhor e no na fora dos carros e dos cavalos. E, certamente,
    ao verificar na histria do nosso povo como ele foi preservado em seu pas de exlio
    e como a nossa ptria foi preservada de invases, somos forados a exclamar: sim,
    at agora o Senhor nos socorreu1." Edward W. Blyden, historiador liberiano, 1862.

    "A Etipia no precisa de ningum: ela estende as mos para Deus2." Menelik II,
    imperador da Etipia, 1893.

    "Nunca antes se fez to evidente que vivemos numa poca de uma nova diplomacia,
    a diplomacia que no leva em conta princpios fundamentais do direito internacional,
    do direito natural e da equidade quando se trata de pequenas naes. As grandes
    potncias renem-se e partilham os pequenos Estados sem os consultar; e estes ficam
    sem defesa, j que no possuem exrcito nem marinha que possam responder  fora
    com a fora3." Arthur Barclay, presidente da Libria, 1907.



1    BLYDEN, 1864, p. 358.
2    PANKHURST, 1976.
3    BARCLAY, A., JOHNSON, F. E. R., e STEWART, T. M., "Report of Liberian Commission to Europe
     in re Franco-Liberian Frontier", in Liberian National Archives (LNA), ficha intitulada Executive Presi-
     dent: Presidential Commission (EPPC).
282                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Estas citaes mostram que h um lao, mesmo que tnue, entre a Libria e a
Etipia, pois nos fazem lembrar que os dois pases tm em comum o fato de have-
rem sofrido a agresso das potncias europeias na poca da corrida pela partilha
da frica (1880-1914).  por isso que vamos comparar, neste captulo, a histria
dos dois pases, sobretudo naquela poca crucial, em que as potncias europeias
impuseram o jugo colonial  quase totalidade da frica. Depois de apresentarmos
os territrios, os povos e os governos da Libria e da Etipia, veremos que efeito a
dominao europeia da frica teve nos dois pases e que alteraes significativas
eles experimentaram nos domnios poltico, econmico e social.


      A Libria e a Etipia em vsperas da partilha
      Libria
    Tecnicamente, a Libria era uma colnia da American Colonization Society
(Sociedade Americana de Colonizao  SAC), que a fundara em 1822 com
o auxlio do governo norte-americano, para nela estabelecer afro-americanos
"livres", desejosos de fugir da escravatura e do racismo dos brancos, bem como
africanos (recapturados) que a marinha norte-americana salvara das mos dos
negreiros que cruzavam o Atlntico.
    Monrvia, fundada em 1822 pelos primeiros emigrantes afro-americanos, foi
o ncleo em torno do qual se desenvolveu a Libria. At 1906 aproximadamente,
mais de 18 mil africanos do Novo Mundo, na maioria dos casos com a ajuda da
SAC, emigraram anualmente para a Libria, fixando-se em umas trs dezenas de
povoaes prximas da costa do Atlntico, em terras que aquela sociedade ou o
governo liberiano tinham obtido dos chefes africanos da regio. Quase todos os
colonos eram afro-americanos, mas 400 deles, pelo menos, eram afro-antilhanos
originrios de Barbados, que emigraram em 1865 e se instalaram em conjunto
em Crozierville, 13 km adentro de Monrvia. Mais de 5 mil escravos libertos
(recapturados), originrios na sua maior parte da regio do Congo, tambm
se fixaram na Libria, principalmente entre 1844 e 1863, de incio confiados
aos amrico-liberianos, designao dada aos colonos africanos vindos do Novo
Mundo e a seus descendentes4.
    Os amrico-liberianos, que necessitavam de terras para a agricultura, o
comrcio e a construo de uma nao forte, e que enfrentavam a concorrncia


4     AKPAN, 1973b, p. 217-23.
                                                                                                               Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos
                                                                                                               283
figura 11.1   Libria: territrio anexado pelos amrico-liberianos, 1822-1874. (Fonte: Morgan & Pugh, 1969.)
284                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



do Reino Unido e da Frana, tambm  procura de terras para o estabelecimento
de entrepostos comerciais e postos militares, ampliaram consideravelmente o
territrio da Libria a partir de alguns pontos isolados da costa que os chefes
africanos inicialmente lhes haviam arrendado. Em dezembro de 1875, quando
tal expanso praticamente cessara, o territrio da Libria, segundo o governo,
estendia-se por cerca de 960 km ao longo da costa do Atlntico, com uma largura
de 320 a 400 km, alcanando teoricamente o Nger (ver figura 11.1). A populao
compunha-se de colonos de origem norte-americana (os amrico-liberianos) e
africana (os recapturados), alm das etnias autctones. Tais etnias compreendiam
os Vai, os Dei, os Basa, os Kru e os Grebo, perto da costa, alm dos Gola, Kissi,
Bandi, Kpele, Loma e Mandinga, no interior5.
    Os amrico-liberianos adotaram uma cultura essencialmente ocidental em
seu estilo de vida, instituies polticas, pelo uso da lngua inglesa, do regime
da propriedade individual e definitiva do solo, do cristianismo e da monogamia.
Os autctones eram tradicionalistas ou muulmanos, falavam lnguas prprias e
possuam o solo em comum. Suas aldeias eram governadas por chefes e ancios
assistidos por organizaes sociopolticas ou fundadas na diviso em grupos et-
rios, como os poro (sociedades de homens) e os sande (sociedades de mulheres).
Embora apreciassem a educao ocidental trazida pelos amrico-liberianos e
missionrios brancos, alguns de seus ancios se opunham  difuso do cristia-
nismo e das prticas que interferiam em suas leis e costumes.
    Como no dispunha de verdadeiro poderio militar e lhe faltavam funcion-
rios qualificados e fundos, o governo no podia executar o projeto de ocupao
efetiva do territrio nacional. Para tanto lhe seria necessrio construir estradas
e linhas ferrovirias, postos administrativos e militares, colnias de povoamento
amrico-liberianas em todo o pas, ou assegurar a cooperao dos chefes do inte-
rior pagando-lhes regularmente um estipndio e convidando-os a "representar"
seu povo na qualidade de "juzes". Por outro lado, em comeos da dcada de
1880, quando teve incio a corrida para a frica (cujo ponto culminante foi a
conferncia de Berlim, em 1884-1885), tornava-se provvel que as potncias
europeias se apossassem de grande parte do territrio que a Libria reivindi-
cava6. A principal preocupao da Libria, portanto, era defender o territrio
que havia adquirido.


5     AKPAN, 1976, p. 72-5.
6     SHUFELDT, World Cruise: Liberia and the Liberian Boundary Dispute, Naval Historical Foundation Col-
      lection, Manuscripts Division, Library of Congress, Washington, DC, Shufeldt a Coppinger, Fernando
      P, 8 de maio de 1879.
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos                             285



    Em vsperas da corrida a situao no mudara muito na Libria desde
1847, data em que se tornou independente da American Colonization Society.
Tal como nos Estados Unidos da Amrica, o Parlamento se compunha de
Cmara de Representantes e Senado. O poder executivo pertencia ao presidente,
vice-presidente, eleitos pelo povo de dois em dois anos, e ministros, nomeados
pelo presidente com a anuncia do Senado. O poder executivo representava-se
em cada condado  unidade de administrao local  por um superintendente
que dirigia a administrao. A autoridade do presidente, em teoria, era muito
ampla; mas, como no tinha meios para imp-la fora de Monrvia, certas fam-
lias amrico-liberianas detiveram, em alguns casos por vrias geraes, sob o
governo dos republicanos e dos True Whigs, um poder poltico considervel
 escala dos condados. Entre tais famlias, que um crtico liberiano chamou
ironicamente de "lordes e nobres" da Libria, citam-se os Hoff, os Sherman e
os Watson, do condado de Cape Mount; os Barclay, os Coleman, os Cooper, os
Dennis, os Grimes, os Howard, os Johnson, os King e os Morris, do condado de
Montserrado; os Harmon e os Horace, do condado de Grand Bassa; os Birch, os
Greene, os Grigsby, os Ross e os Witherspoon, do condado de Sinoe; os Brewer,
os Dossen, os Gibson, os Tubman e os Yancy, do condado de Maryland; todos
formavam a elite poltica (e sempre, invariavelmente, a elite econmica)7.
    No entanto, a unidade nacional estava minada por graves divises sociais.
Existiam dois partidos polticos desde 1847, data da independncia: o Partido
Republicano, dominado pelos colonos mulatos, e o Partido dos True Whigs,
dominado pelos colonos negros, congoleses e autctones instrudos. No havia
diferenas fundamentais entre eles, tanto no plano ideolgico como no pol-
tico. Ambos se enfrentavam de dois em dois anos, por ocasio das eleies, em
speras disputas tanto mais estreis quanto  certo que eles no se opunham
em nenhuma questo de fundo: tratava-se era de conquistar o poder, para se
apoderar de todo o sistema de clientela da Repblica. Os republicanos dirigiram
a Libria desde a independncia at 1870, ano em que foram derrotados pelos
True Whigs. Voltaram ao poder em 1871, que lhes escapou de novo em 1877.
Os True Whigs governaram ento o pas sem interrupo at 1980, quando um
golpe de Estado desfechado pelo sargento-chefe (hoje general) Samuel Doe os
derrubou.


7    LNA, Executive Department: Correspondence General, 1887-1899, Roos a Cheeseman, Greenville, 12 de
     julho de 1892 (daqui em diante, EDCG); Liberian Letters, 15, Dennis a Coppinger, Monrvia, 22 de
     agosto de 1871; Sierra Leone Weekly News, 3 de junho de 1899; LNA, Liberian Legislature, Minutes of
     the Senate, 1848-1900.
286                                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



    A diviso era bem mais profunda entre os amrico-liberianos e os africanos
autctones. Durante todo o sculo XIX, a poltica dos amrico-liberianos tinha
como objetivo a assimilao cultural e poltica dos autctones, tratando de "civili-
z-los", convert-los ao cristianismo e dar-lhes direitos idnticos aos dos colonos.
Em certa medida, tiveram xito na assimilao dos recapturados (escravos libertos),
bem menos numerosos que os colonos, mas, ciosos de seus privilgios, no deixa-
ram de exercer um rgido controle poltico sobre a Libria, limitando a participao
dos autctones, mesmo os instrudos, nos negcios pblicos. Pouqussimos entre
os autctones instrudos obtiveram o direito de voto, em p de igualdade com os
amrico-liberianos, mesmo sendo estes pobres e analfabetos. Os representantes dos
autctones (representantes, principalmente, dos africanos da costa) com cadeiras no
Parlamento de 1875 em diante eram principalmente chefes designados "juzes" (ou
"delegados"). Suas circunscries, para que fossem delegados, tinham de pagar ao
governo uma taxa (delega te fee) de 100 dlares. Como os delegados s falavam por
meio de um intrprete sobre questes tnicas e no tinham direito de voto, sua influ-
ncia sobre a poltica do governo era muito reduzida8. Por isso africanos instrudos
e chefes viviam descontentes com a sua limitada participao na vida pblica.
    Por outro lado, o governo procurava aumentar ao mximo o que constitua
suas principais fontes de renda: os direitos de importao e exportao e outras
taxas sobre o comrcio e o transporte martimo. Para facilitar a arrecadao e o
controle do comrcio externo pelos comerciantes amrico-liberianos, o governo
vedou aos estrangeiros, em 1839, o comrcio na Libria fora de seis portos de
desembarque amrico-liberianos. As limitaes e os impostos provocaram des-
contentamento nos negociantes estrangeiros e nos chefes africanos autctones,
que, at ento, controlavam o comrcio externo e recebiam os direitos adua-
neiros. Uns e outros se aliaram muitas vezes para lutar contra as medidas do
governo ou para solicitar aos Estados europeus que interviessem a seu favor. Foi
assim que, por vrias vezes, no decurso do sculo XIX, os Vai, os Kru e os Grebo,
da costa da Libria, pegaram em armas e se revoltaram contra os impostos que
o governo queria receber sobre o seu comrcio9.


8     Somente na presidncia de William Vacanarat Shadrach Tubman (1944-1971) foram introduzidas as
      reformas que deram aos africanos quase os mesmos direitos que aos amrico-liberianos e  elite africana
      autctone (assimilada ao estilo de vida dos amrico-liberianos). Assim, em 1944, foi concedido o direito
      de voto a todos os africanos autctones adultos do sexo masculino que pagassem o imposto de palhota
      (hut tax), de dois dlares por pessoa, o que acabou com o sistema de delegao. A diviso em condados,
      caracterstica do territrio habitado pelos amrico-liberianos, foi estendida a todo o pas, abolindo o
      sistema colonial da administrao indireta.
9     HARGREAVES, 1963, p. 243.
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos                             287




figura 11.2    Expanso do territrio etope no reinado do imperador Menelik II (segundo Fage, 1978).
288                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935




Figura 11.3 Menelik, rei de Shoa (1865-1889); imperador da Etipia (1889-1913). (Foto: Harlingue-Viollet.)
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos       289



     Etipia
    O imperador Tewodros, ou Teodoro, II (1855-1868), restaurou o antigo
imprio da Etipia, dividido havia mais de um sculo. Nos primeiros anos do
seu reinado, Tewodros II refez a unidade do imprio reduzindo duramente 
obedincia os poderosos e belicosos feudatrios (ras) das provncias de Tigre,
Begemdir, Gojam, Simien, Wollo e Shoa, sobre os quais os imperadores fanto-
ches de Gondar quase no tinham poder10 (ver figura 11.2). Nessas provncias,
quase todas situadas no planalto etope, entre a Eritria e o vale do Awash, os
Agaw, os Amhara e os Tigrina constituam a maioria da populao. Estes povos
pertenciam  cultura amrico-tigrina, preponderante na Etipia, cujas principais
caractersticas eram o cristianismo monofisista da Igreja Ortodoxa Etope, o
amrico e o tigrino, lnguas estreitamente ligadas, uma estrutura sociopol-
tica "hierarquizada e mantida por pessoas investidas de grande autoridade" e a
economia baseada na agricultura. Os camponeses estavam vinculados  terra e
presos a uma malha  que se pode qualificar de feudal  de direitos e de servios
determinados pela propriedade do solo11.
    Reunidos sob Tewodros, os Amhara e os Tigrina foram, a exemplo de Mon-
rvia e dos outros estabelecimentos amrico-liberianos na Libria, o ponto de
partida de uma expanso que englobou, na segunda metade do sculo XIX, as
plancies circundantes habitadas por populaes sobre as quais o governo impe-
rial, por vrias vezes, tinha exercido uma jurisdio "intermitente e normalmente
difcil"12. O ncleo formado pelos Amhara e os Tigrina, longe de ser monoltico,
estava dividido politicamente por rivalidades regionais e fisicamente por mon-
tanhas e ravinas que dificultavam as comunicaes e os transportes.
    Tewodros esmagara os ras graas  superioridade de seu armamento, de origem
estrangeira, mas foi por sua vez derrotado por uma expedio punitiva dos ingleses
em abril de 1867. Tais acontecimentos chocaram os dirigentes da Etipia, fazen-
do-os compreender que necessitavam de armas modernas para dominar o imprio,
para se defender dos adversrios polticos e dos ataques dos estrangeiros.
    O sucessor de Tewodros, imperador Yohannes, ou Joo, IV (1871-1889),
como veremos, foi obrigado a repelir os ataques dos egpcios e dos mahdistas do
Sudo. Sob o reinado de Menelik II (1889-1913) (ver figura 11.3), que coincidiu
com a corrida dos europeus para a frica, a expanso da Etipia continuou 


10   GREENFIELD, 1965, p. 70; GILKES, 1975, p. 9-10.
11   CLAPHAM, 1977, p. 36-7.
12   MARCUS, 1975, p. 140.
290                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



com a recuperao das chamadas "regies histricas", sua superfcie mais que
duplicou13.
    O sistema poltico etope estava ento j fixado. Compreendia, essencial-
mente, trs nveis: os distritos ou "senhorios", as provncias e a nao; e trs eixos
separados: o econmico, o poltico e o religioso. Os senhores, os governadores e o
imperador exerciam o poder no nvel, respectivamente, dos distritos, das provn-
cias e do imprio. Unidos por uma rede de relaes hierrquicas, constituam os
pilares do sistema, j que cada um era "ao mesmo tempo chefe da administrao,
chefe militar, juiz e corteso". Regra geral, o imperador nomeava os governado-
res, que, por sua vez, nomeavam os senhores ou subgovernadores.
    O senhor tinha certos direitos, conhecidos como gult: podia exigir um tributo
em espcie de cada famlia do distrito e obrigar os sditos a trabalharem nas
suas terras e impor-lhes outras tarefas. Guardando para si uma parte do tributo,
remetia o resto a seu suserano, o governador. Adjudicava casos e contendas no
distrito, convocava e comandava a milcia local e dirigia os trabalhos pblicos
teis para o seu distrito; alm disso, zelava para que sua "parquia", cujos limi-
tes costumavam coincidir com os do distrito, cumprisse suas obrigaes com
a Igreja Ortodoxa Etope14. As contribuies e os servios que os camponeses,
vinculados  terra, base de sua subsistncia, deviam aos senhores e  Igreja eram
comparativamente mais leves nas provncias dos Amhara e Tigrina. Com efeito,
l as terras estavam submetidas ao sistema de rist: quase todas eram propriedade
praticamente inalienvel das famlias. O imperador e os governadores, portanto,
no podiam distribu-las a seus protegidos. Em compensao, as obrigaes
eram pesadas nas regies do sul e do oeste conquistadas por Menelik, onde os
senhores e os naftanya (literalmente, "carabineiros", colonos do planalto da Abis-
snia) exploravam duramente o povo atravs dos direitos e obrigaes gult15.
    O governador tinha funes anlogas s do senhor, mas no nvel da provncia.
No ncleo Amhara-Tigre, os governadores, na sua maioria, eram escolhidos
entre os parentes prximos do imperador ou no meio dos nobres reputados por
sua fidelidade. Nas regies recentemente conquistadas do sul e do oeste, onde
as terras eram inalienveis, os governadores eram predominantemente nobres
ou chefes militares de Amhara, Shoa, Tigre e de outras provncias do norte, que
recebiam pelos servios prestados ao imperador terras de gult (os que no eram
nomeados governadores recebiam terras de rist gult). A lealdade ao governador,

13    GREENFIELD, 1965, p. 96.
14    LEVINE, 1974, p. 114-20; GILKES, 1975, p. 13-4.
15    Ibid.
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos         291



ou ao imperador, dependia grandemente de sua disponibilidade de terras de gult
para recompensa e de um exrcito bastante forte para manter sua autoridade16.
    O imperador era o elemento mais importante do sistema imperial. Exercia
funes executivas, legislativas e judicirias, classificadas por Christopher Cla-
pham em funes de "proteo", "distribuio", "direo" e "simblicas". Coman-
dava em pessoa o seu exrcito, administrava os negcios do imprio, prestava
justia e protegia os seus vassalos. Por fim  e talvez fosse essa a funo mais
importante  era o smbolo da unidade e da independncia nacionais, j que se
presumia descender do rei Salomo, pelo que recebia a coroa e a uno imperial
do abuna, chefe egpcio da Igreja Ortodoxa Etope17.
    Faltava ao sistema imperial herdado por Tewodros um verdadeiro "corpo
de funcionrios"18. Com a exceo de alguns cargos de funes bem definidas,
como o de tsahafe t'ezaz (secretrio imperial), ou de afa-negus (chefe da magis-
tratura), eram o imperador e seus representantes regionais, os governadores e os
senhores, que encarnavam a administrao imperial19. Tewodros desejava criar
uma administrao em que os governadores nobres fossem substitudos por
generais do exrcito, de origem humilde, pagos pelo Estado, fiis e submissos ao
imperador; mas, governando sempre com rigidez, provocou revoltas em vrias
provncias, nas quais os novos governadores foram depostos, retomando o poder
as famlias nobres20.
    As semelhanas entre os sistemas polticos da Libria e da Etipia nesta anlise
so demasiado evidentes para que seja necessrio insistir nelas. Nos dois pases
se encontravam, de um lado, um ncleo poltico e um governo central e, de outro
lado, uma zona perifrica com subsistemas polticos centrados em circunscries
locais, ou aldeias, como a circunscrio de Gola, na Libria, ou a de Oromo
("Galla"), na Etipia, de que no tratamos neste captulo, com subsistemas que
diferiam mais ou menos do sistema central dominante. Para manter o seu dom-
nio, ambos os sistemas concediam privilgios s regies centrais, alimentavam
relaes de clientela e assimilavam as regies perifricas. No obstante, enquanto
o regime poltico da Etipia era em grande parte um regime "africano", pois
no havia partidos polticos nem parlamento  Tewodros, Yohannes e Menelik
subiram ao trono graas  sua superioridade militar e no atravs de eleies , o


16   CLAPHAM, 1977, p. 43; GILKES, 1975, p. 28-9; LEVINE, 1974, p. 120-1.
17   CLAPHAM, 1977, p. 44-5.
18   CRUMMEY, 1969, p. 465.
19   PANKHURST, 1967, p. 12.
20   CLAPHAM, 1977, p. 47.
292                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



governo central da Libria era, de todos os pontos de vista, de tipo ocidental. Seja
como for, ambos possuam ou desenvolveram meios de resistir s agresses dos
europeus na poca da corrida e da partilha da frica.


      A agresso europeia na Libria e na Etipia, 18801914
   At 1879, a Libria e a Etipia mantinham relaes bastante boas com as
potncias europeias. A partir de 1880, no perodo da corrida, essas relaes
comearam a mudar, e os dois pases passaram a sofrer, com consequncias
diferentes nos dois casos, as presses e agresses do imperialismo europeu.

      Libria
    A Libria, que no foi convidada nem se fez representar na conferncia de
Berlim, de incio recusou todo compromisso com as suas decises, nomeadamente
com o princpio da "ocupao efetiva". Como declarou o secretrio de Estado da
Libria, Edwin J. Barclay (ver figura 11.4), em junho de 1887, do ponto de vista
liberiano, as decises de Berlim aplicavam-se "aos territrios que os europeus
viessem a adquirir futuramente na frica e no aos que os Estados africanos j
possuam ou viessem a adquirir no futuro21. A Libria insistia, a justo ttulo, no
fato de que no tinha necessidade de "ocupar efetivamente" seu territrio, pois
era um Estado africano e todos os habitantes do seu territrio eram liberianos.
    No final, para no perder todo o interior do pas, o governo liberiano come-
ou, aproximadamente no final da dcada de 1890, a tomar medidas para a sua
ocupao efetiva.
    Arthur Barclay, presidente da Libria de 1904 a 1911 (ver figura 11.5), defi-
niu perfeitamente a situao em dezembro de 1906:
      A Libria era um Estado oficialmente reconhecido bem antes da Conferncia de
      Berlim [...] e talvez tivesse fundamentos para colocar em dvida certas afirmaes
      que se fizeram na dita conferncia. Mas o fato  que so as grandes potncias que
      impem os princpios do direito internacional, e os pequenos Estados tm de se
      conformar com eles. Em consequncia, somos obrigados a guarnecer nossas fron-
      teiras de guardas, a mandar para l os funcionrios indispensveis e a dotar a zona
      fronteiria de uma administrao digna desse nome22.


21    Citado em AKPAN, 1973b, p. 223.
22    BARCLAY, A., "Annual Message", 11 de dezembro de 1906, Liberia Bulletin, n. 30, fevereiro de 1907,
      p. 69 (daqui em diante, Bulletin).
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos                            293




figura 11.4    E. J. Barclay, secretrio de Estado da Libria. (Fonte: Johnston, H., sir, 1906.)
294                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935




Figura 11.5   Arthur Barclay, presidente da Libria (1904-1911). (Fonte: Johnston, H., sir, 1906.)
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos                          295



    Na poca da corrida e da partilha da frica, o imperialismo europeu assumiu
na Libria trs formas fundamentais: a) expropriao do territrio liberiano pelas
potncias europeias; b) graves ingerncias nos assuntos internos da Libria; c)
controle da economia por negociantes, financistas, concessionrios e empresrios
europeus, protegidos por essas potncias e senhores da sua confiana. O imperia-
lismo europeu contribuiu para enfraquecer mais e desestabilizar a Libria.
    Em resposta ao apelo de negociantes de Serra Leoa, de negociantes ingle-
ses instalados na regio noroeste da Libria, na costa vai, e dos prprios Vai, o
Reino Unido, preocupado com a defesa do comrcio e da receita de Serra Leoa,
interveio, a partir de 1860, a pretexto de proteger os Vai e os negociantes das
exigncias fiscais da Libria. Aps infrutferas discusses, amide interrompidas,
entre os representantes do Reino Unido, da Libria e dos Vai, o Reino Unido
anexou a maior parte das circunscries vai a Serra Leoa em maro de 1882,
ainda que os chefes vai jamais esperassem a dominao de Londres, mas apenas
a sua interveno23. Os liberianos, estupefatos mas impotentes, protestaram,
embora inutilmente, indignados, contra a anexao num memorando que envia-
ram a todos os pases com os quais mantinham tratados. Nele imploravam que
ajudassem a Libria e servissem como mediadores na tentativa de "pr fim a uma
situao que a ameaava de destruio". Um dos poucos governos a responder
foi o dos Estados Unidos, com cuja interveno a Libria esperava garantir "uma
soluo justa" para a questo das fronteiras, em particular. Mas os Estados Uni-
dos foram pressurosos em aconselhar a Libria a aceitar como fato consumado
a ao britnica, o que lhe frustrou todas as esperanas. Os outros pases aos
quais se dirigira eram, na maioria, do continente europeu, e se preparavam para
invadir a frica ou ampliar suas possesses em territrio africano. Por isso no
receberam com simpatia ou fizeram ouvidos moucos ao apelo da Libria24. Em
novembro de 1885, a Libria assinou com o Reino Unido um acordo que fixava,
em detrimento de seu territrio, o rio Mano como fronteira com Serra Leoa.
    De forma semelhante, os franceses anexaram em maio de 1891 o sudeste da
Libria, entre os rios Cavalla e So Pedro, aproveitando o fato de a Libria no
ocupar efetivamente a regio e de sua poltica comercial causar descontentamento
 populao local25 (ver figura 11.6). A Libria mais uma vez apelou s "naes


23   Public Record Office Kew, (PRO), FO 84/1699, Derby a Havelock, 2 de maro de 1883; Granville a
     Lowell, 10 de maro de 1883.
24   GIBSON e RUSSELL, 1883.
25   African Colonization Society, Seventy-Seventh Annual Report, janeiro de 1894, p. 9-10; HERTSLET,
     1909, v. 3, p. 1132-3.
                                                                                                                               296
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figura 11.6   Usurpaes britnicas e francesas no territrio reivindicado pela Libria, 1882-1914. (Fonte: Anderson, 1952.)
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos                                 297



crists e civilizadas" que intercedessem a seu favor, mas em vo26. Indefesa, teve de
assinar com a Frana, em dezembro de 1892, um acordo segundo o qual o Cavalla
passava a demarcar sua fronteira com a Costa do Marfim. A Frana obtinha assim
a regio de Cavalla-So Pedro e uma vasta parcela do interior liberiano, cujos
limites ainda no estavam determinados. Em troca, declarava renunciar a vagas
pretenses sobre Garraway, Buchanan e Butaw, na costa liberiana27.
    Para prevenir novas anexaes, o governo liberiano enviou representantes aos
Estados Unidos da Amrica, em 1890, e ao Reino Unido, em 1892, na tentativa
de obter o compromisso de preservao da integridade territorial da Libria,
mas tambm sem xito28.
    Entre 1892 e 1914, o Reino Unido e sua rival, a Frana, ao estender suas pos-
sesses at o centro da frica, usurparam ainda mais o territrio da Libria.
    O Reino Unido, que at ento ocupava a costa de Serra Leoa, anexou o
interior em 1896 e o submeteu a uma administrao colonial ou "indgena". O
territrio anexado compreendia Kanre-Lahun, principal cidade da circunscri-
o Luawa, com cujo chefe, Kai Lundu, T. J. Alldridge conclua, em 1890, um
tratado em nome do governo do Reino Unido. Por volta de 1902, em seguida a
algumas agitaes populares, o exrcito ingls ocupou Kanre-Lahun.
    Para se antecipar ao Reino Unido nessa regio, alm de tropas o governo libe-
riano colocou l, em fevereiro de 1907, funcionrios aduaneiros e administrativos
para estabelecer uma" administrao indgena". O governador de Serra Leoa, G.
B. Haddon-Smith, que naquele ms visitou Kanre-Lahun escoltado por soldados
liberianos, reconheceu que a regio pertencia  Libria e que o Reino Unido somente
a ocupava em carter "temporrio", por conta da Libria29; Londres, contudo, recu-
sou-se a retirar suas tropas do territrio. O cnsul-geral da Libria em Londres,
Henry Hayman, chegou mesmo a advertir o presidente Barclay, em junho de 1907,


26   Maryland County, "Frana contra Libria: documento adotado pelos cidados do condado de Maryland
     contra o tratado franco-liberiano  atualmente examinado pelo Senado , exortando o Senado a rejeit-lo
     e solicitando que a Frana se abstenha; afirmando, com referncia s aes da Libria, o direito deste
     pas  regio de So Pedro" (fevereiro de 1893), em LNA, Executive, Department of State, Domestic
     Correspondence (EDSDC), 1855-1898. Ver tambm United States National Archives (USNA), Des-
     patches of United States Ministers at Monrovia (DUSM) 11/70, McCoy a Gresham, Monrvia, 27 de
     abril de 1893.
27 Archives Nationales, Paris: "Franco-Liberian Boundary Agreement", 1892, M. 12.8972; USNA, DUSM:
   11/52, McCoy a Foster, Monrvia, 1 de fevereiro de 1893.
28   LYNCH, 1967, p. 185.
29   BARCLAY, A., "Annual Message", dezembro de 1908; US Department of State, Report of the Commis-
     sion of the United States of America to the Republic of Liberia, Washington DC, outubro de 1909; PRO,
     FO 267/65, JOHNSTON, H. H., "Memo respecting the Americo-Liberian occupation of North-West
     Liberia", 19 de abril de 1907; FO 267/75, Haddon-Smith a Elgin, Freetown, 28 de maro de 1907.
298                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



de que, se as fronteiras da Libria com as possesses francesas da Costa do Marfim e
da Guin no fossem fixadas, os governos francs e ingls "poderiam tomar medidas
gravssimas" que poriam em risco a independncia da Libria30.
    Alertado, em setembro de 1907 o presidente Barclay viajou para Londres
e Paris a fim de obter garantias quanto  soberania e  integridade territorial
da Libria. No s encontrou recusa por parte de ambos os governos, como o
governo francs redigiu quase unilateralmente um "acordo" pelo qual a Libria
cedia  Frana nova parcela do seu territrio, a saber, as terras situadas na outra
margem do rio Makona, com o compromisso de estabelecer postos militares
nessa nova fronteira, que "poderia ser ocupada [temporariamente] pelos fran-
ceses, caso os recursos do governo liberiano no lhe permitissem, de momento,
estabelecer ali guarnies"31. Evidentemente, num primeiro momento Barclay
recusou-se a assinar tal "acordo", mas depois teve de ceder a conselho do governo
norte-americano, a quem havia solicitado urgentemente uma interveno e que
o preveniu de que, "se a Libria rejeitasse o `acordo', os franceses provavelmente
continuariam com suas incurses e acabariam por tomar um territrio ainda
mais vasto"32 . Esse tratado unilateral assentou em parte a questo das fronteiras
entre a Libria e as colnias francesas. Os acertos finais tiveram incio em julho
de 1908, quando uma comisso franco-liberiana comeou o trabalho de deli-
mitao das fronteiras33. At meados da dcada de 1920, no entanto, a Frana
ainda algumas vezes ameaou anexar outros territrios da Libria.
    Aparentemente com inveja dos xitos obtidos pela Frana em 1907, o Reino
Unido passou a exercer presses sobre a Libria para que lhe cedesse a regio
de Kanre-Lahun, Em setembro de 1908, o major Le Mesurier, comandante
da guarnio britnica de Kanre-Lahun, proibiu os funcionrios liberianos a
ele subordinados de executar outras funes administrativas alm dos servios
alfandegrios. E um ms depois o mesmo Le Mesurier ordenou-lhes que aban-
donassem igualmente os servios alfandegrios e sassem de Kanre-Lahun, j
que, segundo ele, a nova fronteira entre a Libria e Serra Leoa deveria coincidir
com a fronteira natural formada pelos rios Moa e Mafissa34.


30    Barclay a Lyon, Monrvia, 9 de agosto de 1907, USNA, DUSM: 326/202, Lyon ao Secretrio, Monrvia,
      9 de agosto de 1907; LNA, EPGC, 1905-1912, Barclay a Lyon, 9 de agosto de 1907.
31    HERTSLET, 1909, v. 3, p. 1140-1; BUELL, 1928, v. 2, p. 790.
32    BARCLAY, A., JOHNSON, F. E. R. e STEWART, T. M., "Report of Liberia Commission to Europe
      in re Franco-Liberian Matters, September 1907", in LNA, EPCEPG; USNA, DUSM (NF), 326/345,
      Ellis ao Secretrio, Monrvia, 12 de janeiro de 1910.
33    Cabinet Minutes, 6 de agosto de 1909.
34    USNA, DUSM (NF) 326, Lemadine a Barclay, 30 de setembro de 1908; PRO, FO, 367/209; Cooper a
      Le Mesurier, Gbonibu, 25 de novembro de 1909.
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos                                         299



    De novembro de 1909 at o incio de 1910, o governo liberiano tentou inutil-
mente persuadir o Reino Unido a renunciar  regio de Kanre-Lahun35. A questo
foi afinal resolvida por um tratado, firmado em janeiro de 1911, pelo qual a Libria
cedia a Londres aquela regio em troca do territrio, muito menos interessante,
situado entre os rios Morro e Mano. A ttulo de "compensao", a Libria recebeu 4
mil libras para promover o desenvolvimento do territrio (ver figura 11.6) e obteve
o direito de livre navegao no Mano. A delimitao final dessa nova fronteira entre
a Libria e Serra Leoa s se efetivou em 1915. A Libria sobreviveu, sim,  agresso
britnica, mas ao preo da amputao de seu territrio e de cruis inquietaes36.

     Etipia
    Os desgnios do imperialismo europeu para com a integridade territorial e a
independncia da Etipia no eram menos diablicos do que aqueles que viti-
maram a Libria (ver figura 11.7). Seu incio remonta a 1869, ano em que um
lazarista italiano, Giuseppe Sapeto, comprou a um sulto local o porto de Assab,
no Mar Vermelho, pela soma de 6 mil tleres de Maria Teresa. O porto tornou-
se propriedade de uma companhia de navegao italiana, a Societ Rubattino,
e, em 1882, foi declarado colnia italiana37.
    Malgrado o patriotismo e a inabalvel fidelidade  Igreja Ortodoxa Etope, o
imperador Yohannes, de incio, interessou-se menos pela chegada dos italianos
do que pela partida dos egpcios38. Estes dominavam ento a maior parte das
margens africanas do Mar Vermelho e do golfo de den, bem como o interior
imediato, inclusive o porto de Massawa e a cidade de Harar. Mas o Egito, ocu-
pado pelos ingleses em 1882, estava s voltas com a rebelio do Mahd Muham-
mad Ahmad, irrompida no Sudo, que obrigou o Reino Unido a retirar dali, em
1883, as tropas egpcias e inglesas que l se encontravam. Dessa forma, a domi-
nao egpcia entrou em colapso em toda a regio costeira do Mar Vermelho e
do golfo de den, limtrofes  Etipia. O Reino Unido pediu ajuda a Yohannes
para evacuar tropas egpcias e europeus que se encontravam em vrias cidades
sudanesas sitiadas pelos mahdistas. Ao contra-almirante William Hewett, oficial


35   BUELL, 1928, v. 2, p. 784-9; USNA, DUSM (NF) 326/339, Ellis ao Secretrio, Monrvia, 6 de janeiro
     de 1910.
36   PRO, FO, 367/233, BALDWIN, "Annual Report", 30 de setembro de 1911; BARCLAY, A., "Annual
     Message", 12 de dezembro de 1911.
37   Itlia, Ministero degli Affari Esteri, Trattati, convenzioni, protocolli ed altri documenti relativi all'Africa,
     Roma, 1906, 1-25-6.
38   Para uma breve crnica etope do reinado de Yohannes, ver CHAINE, 1913.
300                                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 11.7      A Etipia e a corrida para a frica. (Fonte: Greenfield, 1965.)




ingls incumbido das negociaes com o imperador, Yohannes prometeu ajuda,
com a condio de que os territrios recentemente ocupados pelos egpcios na
fronteira sudanesa fossem devolvidos  Etipia, bem como o porto de Massawa.
A primeira condio foi aceita, mas, quanto a Massawa, os ingleses prometeram
 Etipia apenas o direito ao trnsito livre de mercadorias, inclusive armas e
munies, "sob proteo britnica"39. O acordo foi consignado em um tratado
concludo a 3 de junho de 1884, depois do que o extraordinrio cabo de guerra
etope ras Alula foi libertar seis guarnies sitiadas no Sudo40.
    O acordo, no entanto, no durou muito. Efetivamente, a 3 de fevereiro de
1885, os italianos tomavam Massawa, sob aprovao dos ingleses. Estes favore-

39    WYLDE, 1901, p. 472-4.
40    Ibid., p. 35.
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos                                   301



ciam a expanso italiana, na esperana de que ela prejudicasse a dos franceses,
ento seus principais rivais na corrida para a frica. O contra-almirante italiano
Caimi, no comando da ocupao de Massawa, declarou aos habitantes que ela se
dava com o consentimento da Inglaterra e do Egito e prometeu "no s respeitar
a liberdade de comrcio, mas fazer todo o possvel para facilit-la"41.
    Logo se veria que tais promessas no tinham valor algum. Os italianos impe-
diram que armas destinadas a Yohannes fossem a ele entregues e deslocaram-se
interior adentro, at as aldeias de Sahati e Wia. O ras Alula protestou contra
a invaso, mas a nica resposta dos italianos foi erguer fortificaes nas zonas
disputadas e enviar para l reforos, os quais foram porm interceptados por
Alula em Dogali, no ms de janeiro de 1887. Os invasores evacuaram ento
Sahati e Wia, mas, como vingana ao "massacre" de Dogali, bloquearam a costa
etope42.
    A guerra parecia iminente. A Itlia, no entanto, receando as dificuldades de
uma expedio militar em um pas montanhoso como a Etipia, apelou para a
mediao do Reino Unido. Um diplomata ingls, sir Gerald Portal, foi enviado
para solicitar ao imperador que concordasse com a ocupao de Sahati e Wia
pelos italianos e tambm de Senahit ou Bagos, regio que os egpcios tinham
abandonado em 1884. O imperador Yohannes respondeu sem rodeios:
     No farei nada disso. Pelo tratado celebrado com o almirante Hewett, toda a regio
     que os egpcios evacuaram prxima a nossas fronteiras me foi cedida por instigao
     do Reino Unido. E agora deseja que eu renuncie a ela?
    Irritado pelo fato de o Reino Unido mudar de posio a respeito do tratado
Yohannes escreveu  rainha Victoria declarando que, se ela queria a paz, era
preciso antes de tudo que os italianos ficassem no pas deles e os etopes no seu43.
    Em face da iminncia da guerra com a Itlia, para reforar a defesa Yohannes
convocou as tropas que guarneciam a fronteira sudanesa, deixando-a desprotegida.
Os mahdistas ento atacaram por esse lado. O imperador acorreu a Matamma para
det-las mas, ao final de uma vitoriosa batalha travada em 10 de maro de 1889, foi
mortalmente atingido por uma bala perdida. A morte do imperador determinou o
esfacelamento de seu exrcito. Houve grande confuso, especialmente no norte da




41   HERTSLET, 1909, v. 1, p. 8.
42   Para conhecer as reaes dos italianos  batalha de Dogali e a outros episdios da expanso italiana, ver
     DEJACO, 1972.
43   PORTAL, 1892, p. 158.
302                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



Etipia, pelo fato de vrios flagelos abaterem-se ao mesmo tempo sobre o pas: a
peste bovina e a carestia, seguidas de epidemias de varola e de clera44.
    Durante esse perodo de dificuldades, os italianos avanaram rapidamente
pelo interior do pas. No final de 1889, ocupavam parte do planalto do norte,
onde estabeleceram a colnia da Eritria, com capital em Asmara45.
    Durante a brava resistncia do imperador Yohannes  agresso italiana e egp-
cia, o governador de Shoa, Menelik, embora por princpio devesse obedincia ao
imperador, mantinha relaes cordiais com a Itlia (ver figura 11.1). E emprestava
grande valor a essas relaes porque, por intermdio do conde Antonelli, represen-
tante italiano numa corte onde no havia outros diplomatas estrangeiros, obtinha
acesso  tcnica europeia. Alm disso, a Itlia remeteu a Shoa vrios mdicos e
grande quantidade de armas de fogo. A amizade com a Itlia tambm permitiu a
Menelik conquistar, na qualidade de rei de Shoa (1865-1889), as ricas regies de
Arussi, Harar, Kulo e Konta, a sul e a sudeste, e Gurage e Wallaga, a sudoeste46.
J para os italianos o apoio de Menelik era til, mas no indispensvel  a longo
prazo  a seus planos de expanso. A 2 de maio de 1889, menos de dois meses
aps a morte de Yohannes, um tratado de paz e de amizade marcava o apogeu das
boas relaes entre Menelik e a Itlia. Foi assinado na aldeia etope de Wuchale.
    O tratado de Wuchale (Uccialli, em italiano), que devia marcar o ponto deci-
sivo nas relaes entre os dois pases, continha dispositivos favorveis a ambas as
partes. Menelik reconhecia a soberania da Itlia sobre a maior parte do planalto
da Eritria, abrangendo Asmara, e a Itlia reconhecia Menelik como imperador
 tratava-se do primeiro pas a faz-la , prometendo-lhe o direito de importar,
atravs da Eritria, armas e munies. O mais importante trecho do tratado, no
entanto, o artigo 17, se prestaria a contestaes. Havia duas verses do tratado,
uma em amrico e outra em italiano, e o artigo 17 apresentava sentido diferente
em cada verso. De acordo com o texto em amrico, a Etipia poderia recorrer
 intermediao das autoridades italianas se quisesse estabelecer relaes com
outros pases; o texto italiano tornava esse recurso obrigatrio47.
    Embora, de acordo com a verso italiana do tratado, a Itlia pretendesse
estabelecer um protetorado na Etipia, as relaes entre os dois pases perma-
neceram boas por vrios meses48. Em julho de 1889, Menelik enviou  Itlia

44    PANKHURST, 1966.
45    WYLDE, 1901, p. 49.
46    MARCUS, 1969, p. 422-4; GREENFIELD, 1965, p. 98-9.
47    ROSSETTI, 1910, p. 41-4; WORK, 1936, p. 84-6; RUBENSON, 1964; GIGLIO, 1968.
48    A respeito das relaes da Etipia com a Itlia entre o tratado de Wuchale e a batalha de Adowa, ver
      ROSSINI, 1935; NIEGE, 1968.
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos          303



seu primo, o ras Makonnen, governador de Harar, para discutir a aplicao do
tratado. Enquanto isso, sob o comando do general Baldissera, os italianos con-
tinuavam seu avano pelo planalto da Eritria, j pondo em prtica os termos
do tratado. Em 2 de agosto, Baldissera proclamou a ocupao de Asmara.
    No dia 2 de outubro, em Roma, Makonnen assinou um acordo adicional: a Itlia
reconhecia mais uma vez o ttulo de imperador de Menelik, enquanto este reconhe-
cia a soberania italiana sobre a colnia do Mar Vermelho, nos limites das fronteiras
que ela j possua. Alm disso, a Itlia emprestaria  Etipia 4 milhes de liras49.
    Quase imediatamente, porm, todo o projeto de cooperao teve de ser aban-
donado, pois no dia 11 de outubro o ministro das Relaes Exteriores da Itlia,
Crispi, declarou que, "conforme o artigo 34 do tratado perptuo [...] S. M. o rei
da Etipia aceita os bons ofcios de S. M. o rei da Itlia para tudo quanto diz
respeito s relaes da Etipia com outras potncias ou governos"50.
    Embora a declarao de Crispi estivesse formulada em termos indiretos, era
inequvoco que a Itlia afirmava seu protetorado sobre a Etipia. Como era de
esperar, a pretenso italiana logo foi reconhecida pelas potncias europeias: da por
diante, as cartas geogrficas impressas na Europa passaram a designar a Etipia
pelo nome de "Abissnia italiana". Quando, a 3 de novembro de 1889, Menelik
anunciou s potncias europeias que seria coroado imperador, deram-lhe a mor-
tificante resposta de que, sendo a Etipia um protetorado, no podiam estabelecer
relaes com ela a no ser por intermdio da Itlia. Em 24 de maro e 14 de abril
de 1891, e em 5 de maio de 1894, o Reino Unido assinou com a Itlia trs protoco-
los que fixavam as fronteiras do pretenso protetorado com as colnias inglesas51.
    Enquanto isso, para apoio de suas pretenses, os italianos avanavam pelo
norte da Etipia, da Eritria ao Tigre. Ultrapassaram os limites anteriormente
convencionados, cruzaram o rio Mareb e ocuparam a cidade de Adowa em
janeiro de 1890. Comunicaram depois ao ras Mangacha, governador da provn-
cia de Tigre e filho de Yohannes, que ocupariam Adowa enquanto Menelik no
aceitasse a interpretao por eles dada ao tratado de Wuchale52.
    Menelik recusou-se a ceder. Em 27 de setembro de 1890, escreveu ao rei
Humberto I da Itlia haver descoberto que as duas verses do artigo 17 possu-
am sentidos diferentes.



49   ROSSETTI, 1910, p. 45-7.
50   HERTSLET, 1909, v. 1, p. 1 e 17.
51   WORK, 1936, p. 128-33, 138-9.
52   WYLDE, 1901, p. 51.
304                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



      Quando assinei esse tratado de amizade com a Itlia", dizia ele, "declarei que, como
      ramos amigos, nossos assuntos na Europa poderiam ser resolvidos com a ajuda do
      rei da Itlia; mas disse isso para guardar nossos segredos e preservar nosso bom enten-
      dimento; no celebrei tratado algum que a isso me obrigue e, hoje em dia, no sou
      homem que o aceite. Vossa Majestade compreender perfeitamente que um Estado
      soberano no precisa da ajuda de outro Estado para dirigir os seus negcios53.
   Decidido a no depender mais do emprstimo da Itlia, Menelik comeou,
ento, a resgat-lo. As relaes entre os dois pases estavam num beco sem sada.
No decorrer dos debates que se seguiram, o representante da Itlia, Antonelli,
informou a Menelik que "a Itlia no podia, sem quebra de sua dignidade,
informar s outras potncias que se havia enganado a propsito do artigo 17".
Ao que a imperatriz Taytu, mulher de Menelik, respondeu:
      Ns informaremos s outras potncias que esse artigo, tal qual est redigido em nossa
      lngua, no tem o mesmo sentido que em italiano. Ns tambm temos de pensar
      em nossa dignidade. Desejais fazer passar a Etipia como vosso protetorado, mas
      jamais ser assim54.
    Ao fim de vrios anos de tergiversaes, durante os quais Menelik comprou,
principalmente na Frana e na Rssia, grandes quantidades de armas de fogo e
anexou, o mais das vezes pela fora, Kaffa, Wolamo, Sidamo, Bale, parte de Oga-
den, Gofa, Beni, Changul e terras a leste e a oeste de Boran Oromo ("Galla"),
a Etipia finalmente denunciou o tratado de Wuchale, a 12 de fevereiro de
1893. No dia 27 do mesmo ms, Menelik anunciou o fato s potncias europeias e,
a respeito das pretenses da Itlia, em aluso a uma passagem bblica declarou: "A
Etipia no precisa de ningum: ela estende as mos para Deus". Podia permitir-se
tal linguagem, j que possua, na ocasio, 82 mil fuzis e 28 canhes55.
    A guerra entre italianos e etopes eclodiu em dezembro de 1894, quando o chefe
eritreu Batha Hagos se revoltou contra o domnio italiano. No incio de janeiro
de 1895, os italianos atacaram oras Mangacha, ocupando a maior parte de Tigre.
Menelik ordenou a mobilizao a 17 de setembro, marchou para o norte com
numeroso exrcito e conquistou importantes vitrias, a 7 de dezembro em Amba
Alagi e no fim do ano em Makalle. Os italianos retiraram-se para Adowa, local
onde, aps alguns meses de trgua, travou-se o combate decisivo (ver figura 11.8).




53    WORK, 1936, p. 107.
54    Citado em ibid., p. 118.
55    Citado em ibid., p. 134-5.
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos                       305



    A situao de Menelik era bastante boa. Podia contar com o apoio dos
eritreus, cujo patriotismo fora exacerbado pelo fato de os italianos terem expro-
priado terras da Eritria para instalar colonos56.
    Os eritreus prontificavam-se a guiar os grupos do imperador e a inform-lo
sobre os movimentos do inimigo. Os italianos, em contrapartida, enfrentavam a
hostilidade da populao e no dispunham sequer de mapas precisos, razo por
que andavam constantemente perdidos numa regio que lhes era praticamente
desconhecida. No bastasse isso, o exrcito de Menelik contava com efetivos
bem maiores: mais de 100 mil homens armados de fuzis modernos, sem contar
os que portavam armas de fogo antigas ou lanas. O inimigo contava apenas
com 17 mil homens, sendo 10596 italianos e os demais eritreus. Sua artilharia
era ligeiramente superior  de Menelik: 56 canhes contra 40, o que entretanto
no constitua vantagem decisiva.
    A batalha de Adowa terminou com a estrondosa vitria de Menelik e a
derrota total de seus inimigos. Durante os combates morreram 261 oficiais e
2918 suboficiais italianos, e aproximadamente 2 mil askari (soldados eritreus).
Foram dados como desaparecidos 954 soldados italianos; os feridos somavam
470, sem contar 958 askari. No total, mais de 40070 do efetivo italiano foram
mortos ou feridos, com perda de 11 mil fuzis e de todos os canhes. A derrota
foi praticamente completa57.
    Como resultado da vitria de Menelik, em 26 de outubro de 1896, os ita-
lianos assinaram o tratado de paz de Adis Abeba, que anulava o tratado de
Wuchale e reconhecia a completa independncia da Etipia58. E no se sabe
por que motivos Menelik no exigiu que os italianos se retirassem da Eritria,
embora houvesse por vrias vezes manifestado o desejo de que a Etipia tivesse
acesso ao mar. A fronteira meridional da colnia italiana foi fixada sobre a
margem do rio Mareb.
    A campanha de Adowa conferiu muito prestgio a Menelik. A Frana e o
Reino Unido enviaram misses diplomticas para celebrar tratados com ele; os
mahdistas do Sudo, o sulto do imprio otomano e o tzar da Rssia tambm
mandaram embaixadas59.



56   PANKHURST, 1964, p. 119-56.
57   BERKELEY, 1902, p. 345.
58   ROSSETTI, 1910, p. 181-3.
59   A respeito das misses diplomticas que Menelik recebeu na ocasio, ver GLEICHEN, 1898; RODD,
     1923; d'ORLEANS, 1898; SKINNER, R. P., 1906; ROSEN, 1907.
                                                                                                                 306
                                                                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935
figura 11.8   A batalha de Adua. Desenho executado segundo pintura que se encontra na faculdade de Adis Abeba.
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos       307



    O resultado dessa batalha, a maior vitria de um africano contra um exr-
cito europeu desde a poca de Anbal, teve profunda influncia na histria das
relaes entre a Europa e a frica. A Etipia ganhou prestgio em toda a regio
do Mar Vermelho, como observou um viajante polons, o conde Potocki, para
quem os Somali mostravam-se "orgulhosos de serem da mesma raa que seus
vizinhos, vitoriosos contra uma grande potncia europeia"60.
    Intelectuais negros do Novo Mundo tambm manifestaram crescente interesse
pela Etipia, ltimo Estado autctone independente da frica negra. O haitiano
Benito Sylvain, um dos primeiros apstolos do pan-africanismo, fez quatro viagens
 Etipia entre 1889 e 1906, na qualidade de mensageiro do presidente Alexis do
Haiti61. E um negro norte-americano de origem cubana, William H. Ellis, esteve
l duas vezes, em 1903 e 1904, para expor diversos projetos de desenvolvimento
econmico e de assentamento de negros norte-americanos62.
    A influncia da Etipia chegou tambm  frica do Sul, onde, alguns anos
antes, a parfrase da profecia bblica de que a Etipia estenderia as mos para
Deus tinha suscitado interesse. Em 1900 foi fundada a uma Igreja Etope 63.
Em 1911, o escritor J. E. Casely Hayford, da Costa do Ouro, deu testemunho
do crescente valor da independncia da Etipia ao publicar o livro Ethiopia
Unbound (Etipia Desacorrentada) com a dedicatria "aos filhos da Etipia do
mundo inteiro".


     Desenvolvimento econmico e social da Libria
     e da Etipia e interveno europeia nos assuntos
     internos dos dois pases (18801914)
     Libria
   Concomitantemente  ocupao de parte do seu territrio pelos europeus,
a Libria enfrentava graves problemas internos, de ordem econmica e social.
A corrida e a partilha da frica obrigaram o governo a estender seu domnio
aos grupos tnicos autctones do interior, submetendo-os a uma administrao



60   POTOCKI, 1900, p. 88.
61   BERVIN, 1969.
62   PANKHURST, 1972.
63   SHEPPERSON, 1968, p. 251-3.
308                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



"indireta" de tipo colonial64. Cada diviso administrativa ou distrito era governada
pelo principal chefe, em colaborao com um comissrio nomeado pelo governo.
At 1914, a maior parte dos comissrios era constituda por amrico-liberianos
ou autctones instrudos, oficiais das foras armadas liberianas. A administrao
dos distritos, no seu conjunto, era tirnica e venal. Os comissrios, respectivos
subalternos e militares, mal pagos e mal fiscalizados pelo governo central, viviam
quase sempre  custa da populao. Os habitantes tinham de trabalhar no s
na construo de edifcios pblicos e de estradas, conforme rezava a lei, mas
tambm nas terras dos funcionrios. Funcionrios que, alis, tomavam para si
parte das colheitas do povo e o obrigavam a pagar multas e impostos excessivos
(o imposto legal era um dlar por adulto do sexo masculino)65.
    No surpreende, pois, que os africanos autctones no s resistissem ao
governo que queria submet-los pela fora das armas  exatamente como outros
africanos resistiam alhures a europeus que pretendiam impor-lhes a sua lei mas
tambm se levantassem contra os abusos da administrao. At serem reduzidos
 obedincia pelas milcias liberianas, pela fora liberiana de fronteiras e pela
marinha americana, os Kru revoltaram-se vrias vezes, sobretudo entre 1915
e 1916; os Grebo em 1910; os Kissi em 1913; os Kpele e os Bandi de 1911 a
1914; os Gio e os Mano de 1913 a 1918; os Gbolobo Grebo de 1916 a 1918; os
Gola e os Bandi de 1918 a 1919; os Joquelle Kpele de 1916 a 1920; os Sikon em
1921. Essas revoltas, que estalavam em diversos pontos do territrio e s vezes
duravam anos, o elevado custo da "administrao indgena" e a sua inoperncia
incitavam os estrangeiros a intervir na Libria e esgotavam os recursos humanos
e materiais do governo66.
    As receitas do governo nunca eram suficientes. A ajuda estrangeira, limitada.
A maioria dos amrico-liberianos preferia o comrcio  agricultura, o que os
afetou duramente na poca da depresso mundial, em fins do sculo XIX. Em
1890, o comrcio exterior da Libria estava totalmente em mos de negocian-
tes alemes, ingleses e holandeses residentes no pas. O caf, desde os anos de
1860 principal produto de exportao, era produzido sobretudo por plantadores
e empreiteiros amrico-liberianos que empregavam recapturados ou africanos


64    Pelo menos dois presidentes da Libria reconheceram abertamente que a administrao imposta aos
      autctones era de tipo colonial: Arthur Barclay (1904-12) e William Vacanarat Shadrach Tubman
      (1944-71). Ver TUBMAN, W. V. S., "Annual Message to the Liberian Legislature", novembro de 1960,
      The Liberian Age, 25 de novembro de 1960, p. 9.
65    Liberian Department of the Treasury, Report of the Secretary of the Treasury to the Senate and House of
      Representatives of the Republic of Liberia, December 1921, Monrvia, dezembro de 1921, p. 13-4.
66    AKPAN, (?).
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos       309



autctones como mo de obra. Devido  depresso mundial e  concorrncia
feita pelo caf brasileiro, de melhor qualidade, o preo do produto liberiano veio
abaixo a partir de 189867. Em consequncia da queda na produo e na expor-
tao do caf, houve diminuio do volume e do valor do comrcio exterior em
seu conjunto. O governo perdeu grande parte de sua renda, que, conforme vimos,
provinha essencialmente de direitos aduaneiros e de impostos sobre o comrcio
e o transporte martimo. De resto, ele no dispunha de meios nem para coagir
negociantes liberianos ou estrangeiros que se recusassem a pagar tais impostos,
nem para impedir o contrabando.
    Como forma de evitar a falncia e continuar a "exercer suas funes mais
comezinhas", o governo tomava constantes emprstimos junto a negociantes
liberianos e estrangeiros residentes no pas: em novembro de 1896, 10 mil dla-
res a juros de 9% com a empresa alem A. Woermann & Company, "para fazer
face s despesas correntes do governo68; em fevereiro de 1898, 15 mil dlares
com a empresa holandesa Oost Afrikaansche Cie., para cobrir despesas do legis-
lativo liberiano69; em junho de 1900, uma soma no declarada com a empresa
alem Wiechers & Helm, "para pagar as despesas trimestrais da lista civil"70 _
s para mencionar alguns exemplos. Alm disso, o governo fazia emprstimos
junto de financistas europeus, principalmente ingleses, a taxas muito elevadas:
100 mil libras esterlinas em 1871, outras 100 mil em 1906 e 1700 mil dlares
em 1912. Para resgatar essas dvidas, hipotecou as receitas aduaneiras, que pas-
saram a ser administradas por funcionrios ingleses a partir de 1906 e por uma
comisso internacional de 1912 em diante, para garantir e facilitar o reembolso
dos credores71.
    Pagas as dvidas, no restavam  Libria fundos suficientes para investir
em recursos humanos e naturais, nem para lanar as bases de seu desenvolvi-
mento econmico. Faltava a ela tambm mo de obra qualificada. Sociedades
filantrpicas e misses norte-americanas desempenharam papel essencial na
fundao da maior parte dos estabelecimentos de ensino primrio e secundrio,
bem como da Universidade da Libria, criada em Monrvia, em 1862. E foram
elas tambm que subvencionaram a maior parte das atividades missionrias,



67   AKPAN, 1975, p. 136-7.
68   LNA, Cabinet Minutes, reunio de 19 de novembro de 1896.
69   LNA, Cabinet Minutes, reunio de 11 de fevereiro de 1898.
70   LNA, Cabinet Minutes, reunio de 13 de junho de 1900.
71   AKPAN, 1975, p. 159.
310                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



desenvolvidas principalmente por missionrios e professores, tanto liberianos
como americanos brancos.
    Em fins do sculo XIX, o declnio do comrcio e da agricultura e a dimi-
nuio da ajuda externa levaram o governo liberiano a explorar ainda mais os
autctones, aumentando as corveias e os impostos. Os empregos e, de modo
geral, a parte da riqueza nacional em mos do governo eram objeto de crescente
rivalidade entre particulares, partidos polticos e grupos de presso como os "pais
fundadores" (amrico-liberianos estabelecidos na Libria antes da independn-
cia) e os "filhos da terra" (amrico-liberianos nascidos na Libria).
    Porm houve certa evoluo social e econmica, apesar de tudo. Em 1900 o
governo reabriu o Colgio da Libria (ver figura 11.9), que havia sido fechado
em 1895 por falta de fundos e de progresso, e passou a sustentar sua atividade
com subvenes mais ou menos regulares. Uma estao telegrfica construda
em Monrvia por uma firma alem e inaugurada em 1900 ps a Libria em
comunicao com o mundo exterior. No ano seguinte, o engenheiro norte-
-americano T. J. R. Faulkner instalou as primeiras linhas de telefone que liga-
vam Monrvia a diversas povoaes liberianas vizinhas72. Entre 1906 e 1907,
a empresa britnica Liberia Development Company construiu, com parte do
dinheiro emprestado em 1906, vrias rodovias ligando Monrvia ao interior.
Alm disso, diversas empresas estrangeiras obtiveram do governo concesses
para explorar seringais, minas e outros recursos do pas73.

      Etipia
   Importantes mudanas econmicas verificaram-se tambm na Etipia, a
contar dos ltimos anos do sculo XIX.
   Desejoso de modernizar seu pas milenar, Menelik mostrava vivo interesse
por todo gnero de inovaes. A ponto de o mdico italiano De Castro descre-
v-lo como "um soberano verdadeiramente amigo do progresso", acrescentando
com humor que, se um aventureiro lhe propussesse elevar at a Lua uma escada
mecnica, o imperador teria aceito, "nem que fosse para ver se era possvel74. O
reinado de Menelik assistiu a numerosas inovaes, sem precedentes na histria
da Etipia. A primeira e uma das mais importantes foi, em meados dos anos


72    GIBSON, "Annual Message", 10 de dezembro de 1901.
73    BARCLAY, A., "Annual Message", 11 de dezembro de 1911; HOWARD, "Annual Message", 12 de
      dezembro de 1912; Cabinet Minutes, reunio de 18 de julho de 1912.
74    DE CASTRO, 1915, v. 1, p. 162.
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos               311



1880, a fundao da nova capital, Adis Abeba, nome que significa literalmente
"Flor Nova", cuja populao atingia 100 mil habitantes em 191075. As primei-
ras pontes modernas, construdas na mesma poca, tornaram as comunicaes
menos difceis. O sistema fiscal foi reorganizado em 1892, com a instituio de
um dzimo para pagamento do exrcito, o que aparentemente ps fim s pilha-
gens que os soldados costumavam fazer nos campos. Em 1894, foi emitida pela
primeira vez uma moeda nacional, "para maior honra da Etipia e prosperidade
do seu comrcio". Tambm na dcada de 1890 foi organizado um sistema postal.
Os selos, encomendados  Frana tal como as moedas, foram postos  venda
em 1893, e j em 1894 um decreto estabelecia postos dos correios. Consultores
franceses foram chamados para desenvolver o servio, e o ingresso na Unio
Postal Internacional efetivou-se em 1908. Em 1894 foi autorizada a construo
de uma linha de estrada de ferro entre Adis Abeba e Djibouti, porto da costa
francesa dos Somali, mas os problemas tcnicos, financeiros e polticos foram
tantos que a linha, financiada em grande parte por capital francs, chegou a
Dire Dawa somente em 1902 e a Akaki  a 23 km da capital  em 1915. Foram
instaladas duas linhas telegrficas por volta de 1900: uma, construda pelos
engenheiros franceses que trabalhavam na ferrovia, acompanhava os trilhos; a
outra, construda por tcnicos italianos, ligava Adis Abeba  Eritria, bem como
ao sul e ao oeste do pas. No incio do sculo, engenheiros italianos auxiliaram
na construo de uma estrada de rodagem moderna ligando Adis Abeba a Adis
Alem, enquanto engenheiros franceses trabalhavam em outra, entre Harar e
Dire Dawa. Nessa mesma poca, a capital Adis Abeba foi arborizada, com a
introduo de eucaliptos originrios da Austrlia no pas, provavelmente ini-
ciativa de um francs.
    Os ltimos anos do reinado assistiram  introduo de diversas instituies
modernas. O Banco da Abissnia foi fundado em 1905, como filial do Banco
Nacional do Egito, que pertencia a ingleses. Em 1907, a imperatriz Taytu fun-
dou, na capital, o primeiro hotel moderno, o Etege. Em 1908, foi organizada
a Escola Menelik II, com a ajuda de professores coptas vindos do Egito, pois
o imperador j demonstrara interesse pela educao moderna ao enviar vrios
estudantes  Sua e  Rssia. O Hospital Menelik II foi edificado em 1910
para substituir o da Cruz Vermelha Russa, que datava da campanha da Eritria.
Em 1916,  fundada a imprensa oficial76. A declinante sade, que j no permi-
tia ao imperador tomar conta sozinho dos negcios cada vez mais complexos

75   Ibid., p. 189-246; MRAB, 1921-9, v. 2, p. 13-193; PANKHURST, 1962a, p. 33-61.
76   SELLASSIE, 1930-2, v. 2, p. 527-8.
                                                                                                    312
                                                                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935
figura 11.9   Professores e alunos do colgio da Libria, 1900. (Fonte: Johnston, H., sir, 1906.)
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos         313



do Estado, e o desejo de, segundo Gabre Sellassie, historiador do seu reinado,
"implantar na Etipia os costumes europeus" levaram Menelik a formar um
gabinete em 1907, o primeiro do seu pas. No final do seu reinado, a Etipia
estava bem encaminhada no rumo da modernizao77.


     Consequncias da corrida e da partilha
     para Libria e Etipia
    A corrida e a partilha da frica tiveram consequncias interessantes e bas-
tante diferentes para a Libria e para a Etipia. Foram os nicos pases em toda
a frica a conservar a soberania e a independncia, apesar dos assaltos do impe-
rialismo. Mas, enquanto a Etipia expandia consideravelmente suas fronteiras
a sul e a leste, a Libria cedia grande parte do seu territrio ao Reino Unido e
 Frana. Por que  que os dois Estados sobreviveram ao imperialismo, embora
de forma to diferente?
    Sobreviveram ao imperialismo principalmente por trs razes comuns:
ambos estavam decididos a conservar a independncia; os respectivos diri-
gentes deram mostras de grande habilidade diplomtica; a rivalidade entre
as potncias imperialistas fez com que nenhuma delas pudesse apoderar-se
da Libria ou da Etipia. Outra razo essencial, no caso etope, foi o poderio
militar. E se a Etipia expandiu seu territrio, enquanto a Libria perdia
parte do seu, foi porque a situao poltica, econmica e militar no era a
mesma nos dois pases e tambm, evidentemente, porque as ingerncias dos
europeus em assuntos internos foram menos numerosas na Etipia do que
na Libria.
    Uma razo decisiva para a sobrevivncia da Libria e da Etipia foi a firme
crena que tinham os povos de ambos os pases de estarem destinados por Deus
a sobreviver. Essa crena pesou muito para lev-los a resistir a todas as agresses
e usurpaes dos europeus. Pelo fato essencial de haverem conhecido  contra
a sua vontade  a escravido no Novo Mundo, os liberianos acreditavam que
Deus dirigia seu destino. Muitos presidentes da Libria foram ministros do
Evangelho. Sempre acreditaram que os grandes acontecimentos de sua histria
eram produto da interveno divina. Crena anloga inspirava a frase escrita
por Menelik em 1893, to frequentemente citada: "A Etipia no precisa de


77   DE CASTRO, 1915, v. 1, p. 162.
314                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



ningum; ela estende as mos para Deus". Inspirava igualmente passagens de
sua carta  rainha Victoria, em abril de 1891, bem como a proclamao feita
em setembro de 1895, s vsperas da batalha de Adowa, que ns citamos no
primeiro captulo deste volume. Semelhante convico estava certamente na
base da determinao que explica por que os povos da Libria e da Etipia
conseguiram resistir aos ataques dos europeus.
   A segunda grande razo pela qual os dois Estados sobreviveram  de ordem
diplomtica. Foi-lhes possvel opor as potncias europeias umas contra as outras
e resistir pela via diplomtica a suas presses indiretas. Assim, Menelik ops
com xito a Itlia, a Frana e o Reino Unido: utilizou armas francesas para se
defender dos italianos em 1896 e apelou para os ingleses em 1902, quando os
franceses queriam exercer controle abusivo sobre a linha ferroviria de Djibouti.
De Castro afirma que Menelik procurava simplesmente tirar partido da tcnica
dos europeus sem que a Etipia tivesse por isso de sofrer qualquer dominao
poltica.
      "Se os europeus", teria dito o imperador, "vierem at ns para nos trazer a civilizao,
      ns lhes ficamos muito reconhecidos, mas eles devem faz-lo sem atentar contra a
      nossa soberania. Sabemos tirar proveito de tudo quanto, na civilizao deles, nos
      pode ser til" 78.
    Tambm a Libria nunca deixou de opor a Frana ao Reino Unido e o
Reino Unido  Alemanha, assim como no hesitou, quando a situao era grave,
em solicitar a interveno dos Estados Unidos da Amrica para intimidar as
potncias europeias.
    H, ainda, outra razo muito importante que explica a sobrevivncia da Lib-
ria e da Etipia: a determinao das potncias imperialistas em no permitir que
uma delas se apoderasse de um ou de outro pas. Nem Alemanha, nem Frana,
nem Reino Unido aceitariam que qualquer de seus rivais tomasse inteiramente
posse da Libria, uma vez que todos mantinham relaes econmicas com esse
pas. E razes sentimentais levaram os Estados Unidos da Amrica a garantir a
sobrevivncia da Libria. Assim, de outubro de 1862 em diante, data em que foi
assinado um tratado de navegao e comrcio, depois ratificado pelo congresso
norte-americano, canhoneiras das foras armadas dos Estados Unidos da Am-
rica comearam a aparecer periodicamente em guas liberianas, para submeter
 dominao do governo liberiano os autctones revoltados e para impedir que
Frana e Reino Unido partilhassem a Libria, com o pretexto de que o governo

78    ROSSETTI, 1910, p. 319-25.
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos      315



no conseguia manter a ordem nas fronteiras79. Houve ocasies em que os
Estados Unidos da Amrica advertiram, por via diplomtica, a Frana e o Reino
Unido de que a histria os condenaria se tentassem pr fim  independncia da
Libria. Desaconselharam em 1879 a Frana e em 1898 a Alemanha de anexar
a Libria ou de estabelecer l um protetorado80. Do mesmo modo, principal-
mente por motivos estratgicos, nem o Reino Unido, nem a Frana ou a Itlia
abandonariam a Etipia a seus rivais. Fato significativo: quando, em 1906, vendo
Menelik doente, as trs potncias acreditaram que o imprio dele no tardaria a
desintegrar-se, dividiram a Etipia entre si durante uma conveno secreta, que
o prprio Menelik teve tempo de revelar antes de sua morte81.
    No caso da Etipia, uma quarta razo  e crucial  explica a sua sobrevivn-
cia e mesmo a expanso de seu territrio: o poderio militar. Se Menelik tivesse
perdido a batalha de Adowa, em 1896, a Etipia estaria indubitavelmente con-
vertida numa colnia italiana; mas como os etopes tinham grande superioridade
militar sobre os italianos, venceram a batalha e o pas continuou independente.
Mesmo depois da vitria de Adowa, Menelik continuou a juntar armas, fato
confirmado por um viajante ingls, John Boyes, que observou, ainda em comeos
do sculo, serem "os autcones mais bem armados da frica" e que "nenhuma
potncia estrangeira poderia submet-los com facilidade"82. Aproximadamente
600 mil soldados desfilaram em Adis Abeba, no ano de 1902, para comemorar a
vitria de Adowa; havia 700 mil em todo o imprio, dos quais 90 mil no exrcito
imperial permanente83. Todas as tropas estavam armadas com fuzis modernos,
metralhadoras, canhes etc. Os arsenais de canhes e de armas de tiro rpido
estavam localizados em Adis Abeba na sua maior parte, o que aumentava con-
sideravelmente o poderio do imperador perante os governadores de provncias84.
Foi esse exrcito que possibilitou a Menelik estender as fronteiras da Etipia
no final dos anos 1880 e em toda a dcada de 1890.
    O Estado liberiano tambm sobreviveu, mas amputado em seu territrio e
despojado de parte das suas riquezas, principalmente devido  fraqueza militar
e  situao interna do pas, verdadeiramente desesperadora. A frota liberiana
nunca teve mais que duas canhoneiras (algumas presenteadas pela Inglaterra).


79   HUBERICH, 1947, v. 1, p. 213.
80   CHESTER, 1974, p. 133.
81   ROSSETTI, 1910, p. 331.
82   BOYES, s.d., p. 22.
83   MARCUS, 1975, p. 217-8.
84   Ibid.
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Por nico exrcito teve as milcias amrico-liberianas at 1908, data em que
foram constitudas as foras de fronteira. As milcias jamais contaram mais de
2 mil homens antes de 1914. Em conjunto, os milicianos eram mal pagos, mal
treinados e mal equipados85. As milcias, organizadas somente quando estalavam
guerras com africanos autctones, eram, ento, ajudadas por outros africanos
autctones que exerciam o papel de "guerreiros auxiliares". Faltavam meios de
transporte rpido. Em 1880, o exrcito compunha-se de quatro regimentos
 um estacionado em cada condado , cada qual sob as ordens de um coman-
dante amrico-liberiano, por sua vez subordinado ao presidente da Libria,
comandante-chefe das foras armadas86. A descrio do quinto regimento feita
pelo presidente Barclay em maio de 1906 mostra bem em que estado se encon-
travam as milcias:
      A situao  pouco satisfatria: o comandante do regimento, coronel Carter, sendo
      igualmente pastor de almas, nunca se encontra l; o tenente-coronel  analfabeto;
      o major  surdo; o regimento est se deteriorando rapidamente e logo ser preciso
      reconstru-lo87.
    A fora de fronteira no era mais eficaz do que as milcias. Em dezembro de
1913 compreendia trs oficiais norte-americanos, sete oficiais liberianos e mais
de 600 soldados rasos, formando mais de uma dzia de guarnies espalhadas
pelo interior. At 1914, o comandante de cada guarnio exercia no seu dis-
trito funes ao mesmo tempo militares e administrativas. Consequentemente,
dependia tanto do ministrio da Guerra como do ministrio do Interior (entre
os quais no havia, de resto, nenhuma coordenao). Do ponto de vista militar,
a fraqueza da Libria contrastava com o poderio da Etipia, fato que explica,
em boa parte, por que a Libria no conseguiu, na poca da corrida e da partilha
da frica, defender seu territrio contra as invases europeias.
    No menos desesperadora era a situao interna. J vimos que o governo
estava sempre  beira da runa, devendo somas enormes a credores liberianos
e estrangeiros. Em janeiro de 1908, segundo o cnsul-geral do Reino Unido
em Monrvia, a Libria deveria reembolsar aos credores ingleses 60 mil libras
esterlinas por ano, "durante vrios anos"; em setembro de 1905, a dvida junto
dos negociantes alemes elevava-se a 120 mil dlares. Todo esse endividamento
permitia s potncias imperialistas intervir constantemente nos assuntos inter-


85    BARCLAY, A., Inaugural Address, 4 de janeiro de 1904.
86    USNA, DUSM 10/22, Enclosure, Barclay a Taylor, Monrvia, 27 de agosto de 1887.
87    LNA, Cabinet Minutes, reunio de 3 de maio de 1906.
Libria e Etipia, 1880-1914: a sobrevivncia de dois Estados africanos                                 317



nos do pas, de um modo como nunca fizeram na Etipia, que no lhes dava
pretexto ou motivo para tanto. De 1870 a 1900, mais ou menos, essas potncias
enviaram seguidamente misses diplomticas  Libria oferecendo ajuda para
pagar as dvidas, desde que aceitasse proteo. Foi o caso da Frana em 1879,
da Espanha em 1886 e da Alemanha em 1887: todos propuseram sanear as
finanas, organizar a defesa, estabelecer e dirigir a fora de fronteira. Ao mesmo
tempo, embaixadores e representantes residentes no pas tratavam os liberianos
com menosprezo, criticavam as leis sobre comrcio, alfndega e cidadania, e
com ameaas obrigavam o governo a reparar prejuzos reivindicados por seus
nacionais. O Reino Unido fez presses diplomticas dessa natureza em setembro
de 1869, agosto de 1870, abril de 1871, fevereiro e junho de 1882, novembro
de 1886 e janeiro de 190988. De modo semelhante, em fevereiro e outubro de
1881, agosto de 1897, janeiro e setembro de 1898 e dezembro de 1912, sob a
ameaa de canhoneiras, a Alemanha exigiu ao governo liberiano indenizaes
que variavam entre 3 mil e 60 mil dlares. Na maioria dos casos alegava moti-
vos insignificantes, intervindo particularmente a pedido de seu cnsul ou de
negociantes alemes que se queixavam de ter sido "insultados" por funcionrios
liberianos.
    Durante os anos de 1907, 1908 e 1909, assistiu-se a uma escalada sem pre-
cedentes de ingerncias praticadas pelo Reino Unido, Frana e Alemanha, cul-
minando com a mais grave de todas, verificada a 11 e 12 de fevereiro de 1909,
o famoso "incidente Cadell". H que considerar, neste caso, nomeadamente a
deplorvel situao em que se encontrava a Libria do ponto de vista econ-
mico, social e poltico, a rivalidade entre as potncias europeias, todas desejosas
de ganhar influncia sobre o pas ou sobre parte do seu territrio, bem como o
endividamento da Libria junto dessas potncias ou de seus cidados.
    A interveno dos europeus na Libria produziu efeitos duradouros sobre
a poltica e a sociedade. De incio, dividiu os liberianos em duas faces, uma
favorvel aos ingleses e outra aos norte-americanos89. No ms de janeiro de
1909, essas faces organizaram em Monrvia grandes manifestaes a favor de
Barclay e contra ele90. Alm do mais, para executar as reformas que as potn-
cias imperialistas exigiam, era necessrio recorrer a especialistas europeus e

88   Liberian Letters, 15, Dennis a Coppinger, Monrvia, setembro de 1870; Repository, LVIII, julho de 1882,
     p. 90-1, 123-5; Bulletin, 10 de fevereiro de 1897, p. 51-4.
89   USNA, DUSM, 405/238, Lyon ao Secretrio, Monrvia, 14 de agosto de 1908; Londres, USNA, Records
     of the Department of State relating to the internal affairs of Liberia (RDSL), 1909-1929. Reid ao
     Secretrio, Londres, fevereiro de 1909.
90 PRO, FO 369/596, Wallis a Grey, Monrvia, 11 de maro de 1909.
318                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



pagar-lhes altos salrios, o que onerava ainda mais as despesas j demasiadas
do Estado liberiano. E ele teria sucumbido se um negro norte-americano que
esposara a causa dos liberianos, Ernest Lyon, ministro residente em Monrvia,
no o tivesse ajudado a obter o apoio dos Estados Unidos da Amrica a partir
de 1909.
    A Etipia nunca sofreu ingerncias to repetidas das potncias europeias. Ao
contrrio, depois da vitria de Adowa, as demais naes prestaram a ela todas
as formas de respeito, tratando-a mais ou menos como igual, e isso no mesmo
perodo em: que as potncias imperialistas assediavam a Libria. Quando con-
sideramos a fraqueza militar da Libria e principalmente o estado de desinte-
grao interna  devido em parte  fraqueza econmica, em parte  interferncia
ativa dos europeus em seus assuntos internos , no surpreendem as perdas que
ela sofreu. Surpreende  que tenha sobrevivido.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                           319



                                     CAPTULO 12


               A Primeira Guerra Mundial e
                    suas consequncias
                                        Michael Crowder




    A Primeira Guerra Mundial foi antes de tudo um conflito entre potncias
europeias, no qual a frica viu-se direta e indiretamente envolvida pelo fato de,
no momento da abertura das hostilidades, encontrar-se, em quase toda a exten-
so, sob a dominao dos beligerantes. E embora as campanhas travadas em
solo africano no exercessem seno influncia marginal sobre o curso da guerra,
tiveram importantes repercusses no continente. Mais de um milho de solda-
dos africanos participou dessas campanhas ou de operaes militares na Europa.
Em nmero ainda maior, homens, mulheres e crianas foram recrutados, muitas
vezes  fora, para servir como carregadores em exrcitos cujos suprimentos no
podiam ser transportados por meios convencionais, como estradas, ferrovias e
bestas de carga. Mais de 150 mil soldados e carregadores perderam a vida na
guerra. Muitos mais ficaram feridos e mutilados. Ao trmino das hostilidades,
todos os pases da frica, com exceo dos pequenos territrios espanhis que
permaneceram neutros, estavam formalmente envolvidos num campo ou no
outro (ver figura 12.1).
    Mesmo os ltimos Estados independentes do continente  Libria, Etipia
e Drfr  foram envolvidos. A Libria formou ao lado dos Aliados assim que
os Estados Unidos da Amrica entraram na guerra, em 1917. O jovem impe-
rador pr-muulmano da Etipia, Lij Iyasu, proclamou dever de obedincia 
Turquia, suscitando nos Aliados a preocupao de que viesse a inspirar uma
320                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 12.1(A)  (E)   A guerra em solo africano (Fonte: Banks, 1975.)
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias   321
322   frica sob dominao colonial, 1880-1935
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                                                     323



djihd entre muulmanos do Chifre da frica, regio em que as foras de Sayyid
Muhammad Abdille Hasan ainda causavam problemas aos britnicos. Tropas
francesas, britnicas e italianas marcharam sobre Berbera, Djibouti e Massawa,
numa interveno que se revelou intil, pois nobres cristos, indispostos com
a poltica do imperador, depuseram-no em setembro de 1916. De maneira
semelhante, o sulto
    Al Dnr, de Drfr, nominalmente tributrio do Sudo Anglo-Egpcio
mas efetivamente independente dele, respondeu ao apelo dos turcos  djihd:
atacou o Chade francs, ameaou o Bornu ocupado pelos ingleses (Nigria do
norte) e tentou insuflar uma revolta em Kordofn (Sudo). Em fevereiro de 1916
o sulto foi derrotado e morto em combate, e Drfr plenamente incorporada
ao Sudo.
    Diretamente envolvidos no combate ou no, quase todos os territrios
viram-se afetados com a excluso dos alemes do comrcio africano, dada a
escassez de importaes em tempo de guerra devida s dificuldades de navega-
o e, do lado favorvel,  sbita demanda de recursos estratgicos.
    Muito j se escreveu sobre as campanhas europeias na frica durante a
Primeira Guerra Mundial1 e a subsequente distribuio do territrio alemo
entre os vitoriosos Aliados2  ltimo captulo da corrida para a frica. Muito
menos se escreveu, porm, a respeito do impacto da guerra sobre os africanos
e sobre aquelas estruturas administrativas somente h pouco a eles impostas
pelos conquistadores europeus3. Como  que essas frgeis estruturas resistiram
ao xodo do pessoal administrativo europeu, ao espetculo dos conquistado-
res brancos lutando entre si, s exaes em homens e materiais impostas aos
recm-conquistados africanos, s revoltas que ento irromperam por toda parte,
se no sempre diretamente, s vezes indiretamente, por causa da guerra? Quais
foram as consequncias sociais, polticas e econmicas da participao africana
no conflito europeu?  a essas questes fundamentais que este captulo tentar
principalmente responder. Um breve relato das campanhas militares, no entanto,
 indispensvel  melhor compreenso das implicaes que a guerra teve para
a frica.


1   Sobre as campanhas de Togo e Camares, ver MOBERLY, 1931; sobre a campanha do Sudoeste
    Africano sob dominao alem, ver UNION OF SOUTH AFRICA, 1924; HANCOCK, 1962, p.
    394-400; sobre a frica Oriental Alem, ver HORDERN, 1941, v. 1, e, do ponto de vista alemo, VON
    LETTOW-VORBECK, s.d. Encontra-se um bom resumo desta campanha em MOSLEY, 1963.
2   Ver, em particular, BEER, 1923; LOUIS, 1963a.
3    Sobre a Primeira Guerra Mundial, h na frica certo nmero de teses de doutorado; ver, no entanto,
     OSUNTOKUN, 1978.
324                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



      A guerra em solo africano
    Para a frica, a consequncia imediata da declarao de guerra na Europa
foi a invaso das colnias alems pelos Aliados. Nenhum dos beligerantes se
havia preparado para o conflito ao sul do Saara. Por breve instante acreditou
-se mesmo que a regio viesse a ser poupada. O governador do Togo, Doering,
props a seus vizinhos da Costa do Ouro (atual Gana) britnica e do Daom
(atual Benin) francs que o Toga se mantivesse neutro para no dar aos africanos
o espetculo de brancos fazendo a guerra a brancos4. Na frica Oriental Alem
(atual Tanznia), o governador dr. Schnee estava decidido a evitar as hostilidades
para conseguir dar continuidade a seu enrgico programa de desenvolvimento;
e quando os britnicos bombardearam Dar es Salaam, pouco aps a declarao
de guerra, concordou com uma trgua de curta durao que neutralizasse a
frica Oriental Alem5. Esperava-se at que as disposies do tratado de Berlim
(1885) relativas  neutralidade da bacia convencional do Congo permitissem
evitar a guerra na frica ocidental e central6.
    No entanto, a corrente favorvel  extenso do conflito s possesses alems
acabaria predominando. No caso do Reino Unido, que tinha o domnio dos
mares, a estratgia definida pelo Committee for Imperial Defence (Comisso
de Defesa do Imprio) previa que a guerra se estendesse s colnias do inimigo.
Para conservar essa supremacia naval, o Reino Unido precisava inutilizar o sis-
tema de comunicaes e os principais portos da Alemanha na frica. Quanto
aos Aliados, a vitria lhes permitiria dividir as possesses alems a ttulo de
presas de guerra. Essa considerao pesou certamente muito na deciso, tomada
pelo comandante-geral das foras da frica do Sul, general Louis Botha, e pelo
ministro da Defesa, J. C. Smuts, de colocar as foras sul-africanas ao lado dos
Aliados, invadir o Sudoeste Africano alemo (atual Nambia) e depois participar
na campanha da frica oriental7, mesmo contando com a oposio aberta de
afrikaners intransigentes. Botha e Smuts no s viam o Sudoeste Africano como
uma possvel quinta provncia, mas esperavam tambm que, ao contribuir para
a vitria dos britnicos no leste da frica, pudessem oferecer aos portugueses


4     CORNEVIN, 1962, p. 208.
5     VON LETTOW-VORBECK, s.d., p. 27-8; ver tambm LOUIS, 1963b, p. 209, que cita SCHNEE,
      1919, p. 28.
6     LOUIS, 1963b, p. 209-10, para uma breve exposio das consequncias da neutralidade da bacia do
      Congo para as colnias alems e britnicas da frica oriental.
7     DENOON, 1972, p. 121.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                                                     325



parte do territrio conquistado aos alemes, em troca da baa de Loureno Mar-
ques (Delagoa Bay), porto natural do Transvaal8. No Reino Unido, pensava-se
que a garantia da interveno e da lealdade da frica do Sul seria a perspectiva
de ela vir a possuir o Sudoeste Africano9. Aos franceses, a invaso de Camares
permitiria recuperar o territrio cedido por fora  Alemanha, em 1911, em
consequncia do incidente de Agadir (ver figura 12.1b). Mesmo a Blgica, que
invocou imediatamente a neutralidade perptua do Congo (atual Zaire), garan-
tida pelo artigo 10 do tratado de Berlim, tambm correu a invadir territrios
alemes na frica, logo que sua prpria neutralidade foi violada, na esperana
de que uma participao bem-sucedida desse a ela um trunfo no acordo final
de paz10.
    No era fcil defender as colnias alems, devido  supremacia naval dos
Aliados e  enorme inferioridade numrica das tropas coloniais l aquarteladas.
De incio, os alemes esperavam que a rpida vitria na Europa  para eles,
certa  evitasse a participao direta das colnias, abrindo-lhes a possibilidade
de realizar a ambio de uma Mittelafrika que ligaria Camares e a frica
oriental e arruinaria de uma vez por todas o velho projeto britnico de um eixo
Cabo-Cairo11. Mas, to logo se fez claro que uma vitria rpida era impos-
svel, os alemes compreenderam que campanhas prolongadas imobilizariam
na frica tropas coloniais aliadas que, de outra forma, seriam deslocadas para
a frente europeia. Essa estratgia foi brilhantemente explorada pelo general
P. E. von Lettow-Vorbeck, que,  frente das tropas alems da frica oriental,
combateu os Aliados  em alguns momentos com nmero dez vezes maior de
efetivos  por todo o decurso da guerra (ver figura 12.1e).
    As campanhas na frica podem ser divididas em duas fases distintas.
Durante a primeira  que durou apenas algumas semanas , os Aliados pro-
curaram destruir a capacidade ofensiva da Alemanha e neutralizar seus portos
africanos. Dessa forma, Lom no Togo, Duala em Camares, Swakopmund e
Lderitz Bay no Sudoeste Africano foram ocupados pouco depois da abertura
das hostilidades. Na frica Oriental Alem, cruzadores britnicos bombardea-
ram Dar es Salaam e Tanga no ms de agosto e, embora s viessem a ser efeti-
vamente tomados mais tarde, a partir de ento esses portos j no puderam ser


8    HYAM, 1972, p. 28.
9    Ibid., p. 26.
10   LOUIS, 1963b, captulo 19.
11   A respeito do projeto alemo de constituir uma Mittelafrika em caso de vitria, ver FISCHER, 1967,
     p. 102-3 e o mapa da p. 596.
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figura 12.2 General P. E. Von Lettow-Vorbeck (o segundo, da direita para a esquerda), comandante-em-chefe das foras alems na frica oriental durante a
Primeira Guerra Mundial, entre colegas. (Foto: Imperial War Museum.)
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                                                      327



utilizados pelos navios de guerra alemes. No Egito, com a entrada da Turquia
na guerra do lado alemo, os britnicos reforaram as defesas do canal de Suez
e em fevereiro de 1915 repeliram uma expedio turca. Depois disso, o Egito
constituiu-se a principal base inglesa para operaes contra a Turquia e suas
provncias mdio-orientais, tornando-se o eixo do poderio britnico na frica
e no Oriente Mdio pelas trs dcadas seguintes.
    A primeira fase da guerra na frica foi de capital importncia para a estra-
tgia global. J a segunda fase, exceo feita s operaes contra o imprio
turco lanadas a partir do Egito, teve efeito apenas marginal sobre o resultado
final do confronto. No obstante, os Aliados estavam dispostos a conquistar as
colnias alems, tanto para evitar que servissem de base  subverso de suas
prprias colnias (onde muitas vezes a autoridade colonial estava abalada) como
para divid-las entre si na eventualidade de uma vitria total. Foi por isso que,
depois de reprimir a revolta dos afrikaners apoiada pelos alemes do Sudoeste
Africano, o governo sul-africano empreendeu a conquista do territrio, que s
terminou seis meses depois. Essa campanha (ver figura 12.1) foi a nica de que
no participaram tropas africanas, pois os generais da Unio hesitavam em armar
as populaes autctones. Nem os alemes ousavam faz-lo, depois de haver
reprimido com brutalidade os levantes dos Herero e dos Nama.
    A longa campanha de Camares (ver figura 12.1) foi sustentada em grande
parte com tropas africanas. No obstante a superioridade numrica, os Aliados
 franceses, britnicos e belgas  levaram mais de 15 meses para conquistar o
territrio. Cnscio de que no poderia vencer, na frica oriental, contra for-
as numericamente dez vezes superiores s suas, von Lettow-Vorbeck decidiu
imobilizar o inimigo pelo maior tempo possvel, lanando mo da guerrilha12.
Permaneceu invicto at o fim das hostilidades, comandando sua coluna de sol-
dados maltrapilhos atravs da frica Oriental Portuguesa (atual Moambique),
at chegar  Rodsia do Norte (atual Zmbia), onde o alcanou a notcia do
armistcio na Europa (ver figura 12.2). Numa estimativa moderada, aproxi-
madamente 160 mil soldados aliados enfrentaram von Lettow-Vorbeck, cujo
efetivo em nenhum momento superou os 15 mil homens. Como em Camares,
as tropas africanas desempenharam papel decisivo em ambos os lados, dando
muitas vezes prova de grande bravura e revelando-se combatentes bem melhores
que os soldados sul-africanos brancos, dizimados por doenas. Houve dias em


12   Segundo a Official History britnica, von Lettow-Vorbeck "tinha conseguido reter na frica, durante
     mais de quatro anos, uma fora muito superior a todo o exrcito comandado por lorde Robens durante
     a guerra da frica do Sul".
328                                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935



que a rao do soldado nigeriano de infantaria se compunha, ao todo, de meia
libra de arroz13. Os carregadores pagaram pesado tributo: pelo menos 45 mil
morreram de doenas durante a campanha14.


      O xodo dos europeus
    A guerra assistiu a um significativo xodo dos europeus que exerciam funes
administrativas e comerciais nas colnias dos pases aliados, obrigados a partir
para a frente ocidental ou a incorporar-se s unidades estacionadas na frica, a
fim de combater em qualquer parte do continente. Em algumas regies, a pre-
sena europeia, j muito tnue, ficou reduzida em mais da metade. Na Nigria do
norte, numerosos funcionrios polticos dispensados do exrcito foram de novo
convocados, enquanto outros se apresentavam como voluntrios, de tal forma que
a regio viu-se privada de administradores15. Algumas circunscries, como Borgu,
ficaram sem administradores europeus durante boa parte da guerra16. Na Rodsia
do Norte, 40% dos europeus adultos estavam alistados17. Na frica negra francesa,
todos os europeus com idade para pegar em armas foram mobilizados e, na frica
Oriental Inglesa, todos foram recenseados para participar do esforo de guerra.
Em certos lugares, principalmente no campo, corria o boato de que os brancos
partiriam para sempre18. No Marrocos, quando o residente-geral, Louis Lyautey,
teve de deslocar parcela significativa de seu efetivo para a frente europeia, os pri-
sioneiros de guerra alemes foram empregados nas obras pblicas, para convencer
os marroquinos de que os franceses estavam ganhando a guerra19.
    O resultado desse xodo foi o declnio, quando no a completa paralisao
de inmeros servios essenciais anteriormente a cargo dos europeus. Em certos
casos, como no Senegal, africanos foram especialmente treinados para ocupar
as funes vagas20. Na frica Ocidental Inglesa, postos at ento reservados aos


13    DOWNES, 1919, p. 90.
14    MOSLEY, 1963, p. 234.
15    FIKA, 1978.
16    Ver CROWDER, 1973.
17    GANN, 1964, p. 163.
18    Na Nigria, a administrao britnica assinalou que os diversos "tumultos se deviam  agitao causada pela
      guerra e pelos rumores de que a administrao se retiraria" (Nigeria Annual Report for 1915, 1917, p. 23) .
19    BIDWELL, 1973, p. 23.
20    Gouvernement Gnral de l' AOF, textes relatifs  la formation et  la rorganisation des quadres indi-
      genes em AOF, 1916: "Circulaire relative  la formation du personnel des cadres indignes", Dacar, 1
      de outubro de 1916, p. 3-4. Ver tambm a "Circulaire relative  la rorganisation des cadres des agents
      indigenes de l'AOF", Dacar, 1 de outubro de 1916, p. 27-8.
                                                                                                                                                        A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias
                                                                                                                                                        329
figura 12.3   A campanha na frica Oriental Alem: recrutas da Brigada Nigeriana desembarcam em Lindi, dezembro de 1917. (Foto: Imperial War Museum.)
330                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



brancos foram ocupados por africanos instrudos, o que, conforme salientou
Richard Rathbone, explica em parte a lealdade da elite durante a guerra21. Na
frica Ocidental Francesa, o governador-geral queixava-se de que os britni-
cos, os quais, contrariamente aos franceses, no estavam sujeitos  mobilizao
geral em suas colnias, aproveitavam-se da situao para ocupar o terreno vago
deixado pela partida dos agentes comerciais franceses22. A presena europeia
somente se reforaria notadamente no Egito, onde desembarcaram vastos con-
tingentes britnicos para a ofensiva aliada no Oriente Mdio.
   Aos olhos dos africanos, o espetculo indito de europeus combatendo-se
entre si  coisa que jamais haviam feito durante a ocupao colonial  tal-
vez tenha sido ainda mais chocante do que o aparente xodo. Pior ainda, os
colonizadores incitavam os sditos uniformizados a matar o "inimigo" branco,
at ento pertencente a um grupo considerado sacrossanto dada a cor de sua
pele, sendo todo ataque a qualquer de seus membros punido com a mxima
severidade23.


      Participao dos africanos na guerra
   Exceo feita  campanha do Sudoeste Africano, as tropas africanas desem-
penharam papel decisivo nos xitos militares dos Aliados em solo da frica.
As tropas autctones combateram no apenas no territrio do continente, como
tambm foram reforar exrcitos europeus na frente ocidental e no Oriente
Mdio. Mais que isso, ajudaram a reprimir diversas revoltas contra a autoridade
colonial, tal como haviam anteriormente ajudado na conquista da frica pelos
europeus.
   Mais de um milho de homens foram recrutados durante a guerra para
completar os efetivos, regra geral pouco importantes, mantidos pelas autorida-
des coloniais. Somente a Frana dispunha de fortes contingentes militares nos
seus diversos territrios coloniais quando da abertura das hostilidades e, muito
embora a Alemanha tenha sido posteriormente acusada de militarizar suas
colnias, de fato apenas a Frana fazia jus a tal acusao. Tambm foi recrutado


21    RATHBONE, 1978, p. 6.
22    Archives du Sngal, Dacar, Srie D, 4D73, "Recrutement indigene" (1918). Rapport et Correspondance du
      Ministre des Colonies et du Ministre de la Guerre. Reprise de recrutement: Mission Diagne, 1917-1918:
      "Projet de recrutement".
23    Carta de sir Frederick Lugard a sua mulher, datada de 19 de junho de 1918, citada em PERHAM,
      1960b, p. 549.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                                                      331




figura 12.4 "Voluntrios forados" do Egito embarcando para o estrangeiro. Serviram na Sria, Frana,
Mesopotmia e Salnica. (Foto: Imperial War Museum.)




Figura 12.5 frica Oriental Alem: feridos esperam para serem removidos de Nyangao, depois da batalha
de Mahiwa (15 a 19 de outubro de 1917). Brigada Nigeriana. (Foto: Imperial War Museum.)




Figura 12.6 A campanha na frica Oriental Alem: tropas autctones do exrcito belga voltam para a costa
depois de os alemes terem cruzado o rio Rovuma. Ndanda, janeiro de 1918. (Foto: Imperial War Museum.)
332                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



forte contingente de carregadores, cerca de trs por combatente. Alm disso,
norte-africanos foram requisitados para substituir nas usinas os operrios fran-
ceses mobilizados. A migrao voluntria da mo de obra argelina para a Frana
teve origem com a Primeira Guerra Mundial. No total, mais de 2,5 milhes de
africanos, cifra que corresponde a bem mais de 1% da populao do continente,
participaram de uma forma ou de outra do esforo de guerra.
    O recrutamento de combatentes e carregadores obedecia a trs mtodos. O
primeiro era exclusivamente voluntrio: os africanos ofereciam seus prstimos
livremente, sem a menor presso externa. Foi assim que, no incio da guerra,
nas frentes da Sria e da Palestina, grande nmero de fallahn (camponeses)
pobres do Egito ofereceram-se em troca de salrios comparativamente atraen-
tes. No h a menor dvida de que, na maior parte dos pases africanos, alguns
voluntrios sabiam perfeitamente em que  que se estavam engajando. Os cida-
dos senegaleses das quatro comunas do Senegal (Dacar, So Lus, Rufisque,
Goreia) estavam inteiramente dispostos a aceitar as obrigaes do servio militar
imposto aos franceses da metrpole, desde que isso lhes garantisse o estatuto
de cidados. Foi nesse sentido que, a servio dos senegaleses, o deputado Blaise
Diagne conseguiu a aprovao da lei de 29 de setembro de 1916, pela qual os
originrios das comunas de pleno exerccio do Senegal eram e permaneciam
cidados franceses, conforme as disposies da lei de 15 de outubro de 1915. J
se disse que os 45 mil soldados recrutados em Madagscar eram todos volunt-
rios24; na sua maioria, entretanto, os recrutas foram convocados para os diferen-
tes exrcitos contra o seu desejo, fosse como "voluntrios" forados, fosse como
conscritos (ver figura 12.3).
    O recrutamento era, em grande parte, empreendido pelos chefes, que tinham
de apresentar aos administradores o nmero de efetivos por eles exigido. Em
algumas regies, no era difcil encontrar verdadeiros voluntrios, mas em outras,
intimidados pelos chefes, os homens eram apresentados aos administradores
como voluntrios. Na Rodsia do Norte, a impopularidade dos chefes logo
aps a guerra deve-se, em grande medida, ao papel por eles desempenhado no
recrutamento de soldados e de carregadores25.
    No obstante, grande nmero de soldados e carregadores foi oficialmente
recrutado por conscrio. Na frica negra francesa, um decreto de 1912, cujo
objetivo era a criao de um exrcito negro permanente, tornou obrigatrio o
servio militar de quatro anos para todos os africanos do sexo masculino, com

24    DESCHAMPS, 1962; CHAPUS, 1961.
25    GANN, 1964, p. 164.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                                                           333



idade entre 20 e 28 anos. O objetivo era substituir as guarnies da Arglia
por tropas da frica negra, de forma que as primeiras pudessem combater
na Europa, na eventualidade de uma guerra. Se esta se prolongasse, escrevia
o general Mangin, "nossas foras africanas constituiriam uma reserva quase
inesgotvel, cuja fonte est fora do alcance do adversrio". Declaradas as hosti-
lidades, quando a frica ocidental contava sozinha 14785 soldados africanos,
decidiu-se recrutar mais 50 mil no perodo 1915-1916. Comeou ento, na
frica francesa, aquilo a que o governador Angoulvant chamava "verdadeira
caa ao homem"26 e a que Jide Osuntokuri qualificou, recentemente, como novo
trfico de negros27. Comprometidos a fornecer um determinado contingente de
recrutas, os chefes apoderavam-se de estrangeiros e de antigos escravos para no
entregar os filhos ou os pais. Como no existiam registros de nascimento, muitos
dos recrutados ou j tinham passado da idade para o servio militar ou ainda
no a haviam atingido. Mas, conforme veremos, a campanha de recrutamento
provocou importantes revoltas, que tornaram impossvel arregimentar soldados
nas reas rebeldes. Precisando de homens, na tentativa de que um africano
bem conceituado obtivesse xito onde franceses haviam fracassado, o governo
resolveu, em 1918, nomear Blaise Diagne comissrio-geral do recrutamento das
tropas negras. Encarregadas de recrutar 40 mil atiradores, suas equipes arreba-
nharam na verdade 63378, poucos dos quais, no entanto, chegaram  frente de
batalha, pois em novembro de 1918 terminava a guerra.
    O servio obrigatrio foi igualmente institudo na frica Oriental Inglesa
para recrutamento de soldados e carregadores, por um decreto de 1915, de
acordo com o qual todos os homens de 18 a 45 anos ficavam obrigados a cumprir
o servio militar. Essa disposio foi estendida ao protetorado de Uganda em
abril de 1917. Na Rodsia do Norte, devido  vigncia do recrutamento compul-
srio em todos os distritos, mais de um tero da populao do sexo masculino
foi mobilizada, durante grande parte da guerra, no servio de carregamento28.
Depois de 1917, as prementes necessidades da frente sria obrigaram o governo
do protetorado britnico do Egito a recorrer  conscrio e  requisio de ani-
mais, apesar de ter anteriormente prometido arcar com todo o peso da guerra.
Os umda das aldeias "acertaram velhas contas entregando os inimigos em mos
dos agentes de alistamento ou fornecendo seus animais  insacivel caravana


26   Archives du Sngal, Dacar, Srie D, dossi 4D45, vice-governador da Costa do Marfim ao governador-geral
     da frica Ocidental Francesa, 18 de dezembro de 1915.
27   OSUNTOKUN, 1977.
28   HALL, 1965, p. 102.
334                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



sria"29. Na Arglia, na Tunsia e at no Marrocos, cuja conquista estava ainda
por ser completada, a populao autctone foi lanada  guerra. Estima-se em
mais de 483 mil o nmero total de soldados coloniais, em sua maioria recru-
tados  fora, que serviram o exrcito francs durante a guerra. No Congo, os
belgas chegaram a recrutar 260 mil carregadores durante a campanha da frica
oriental30. Por si ss, estas cifras desafiam a imaginao, especialmente se temos
em mente que a conquista era recentssima. No seu perodo mais dramtico, o
comrcio de escravos nunca chegou a um dcimo disso em um s ano.
    A guerra foi diretamente responsvel por um nmero enorme de mortos e de
feridos na frica (ver figura 12.5), mas no s: causou tambm, indiretamente,
inumerveis bitos devidos  epidemia de gripe que atingiu todo o continente
entre 1918-1919, facilmente propagada com o repatriamento dos soldados e
carregadores.


      A resistncia africana  autoridade europeia
    No momento em que os regimes coloniais aliados menos podiam tolerar
tumultos na retaguarda, sua autoridade, ainda no consolidada em regies como
o sul da Costa do Marfim, grande parte da Lbia ou Karamoja, em Uganda,
viu-se contestada por vrios levantes armados e outras formas de protesto. Para
enfrentar a situao, as potncias aliadas deslocaram para essas regies algumas
unidades dos efetivos militares necessrios para combater os alemes na frica e
na frente ocidental. Os recursos de que dispunham eram to escassos e o movi-
mento de revolta to extenso em certas regies como a frica Ocidental Fran-
cesa e a Lbia que os europeus tiveram de esperar at poder contar com tropas
suficientes para restabelecer sua autoridade. Grande parte do alto Senegal-Nger
e do Daom permaneceu fora do controle francs por mais de um ano. Os
franceses no conseguiram sufocar imediatamente a revolta de 1916 no Borgu
daomeano, porque grupos tnicos vizinhos  os Somba de Atacora, os Pila Pila
de Semere e os Holli, em Ueme, entre outros  tambm estavam em revolta.
Lyautey, que havia conquistado o Marrocos, temia a irrupo de um levante caso
cumprisse a determinao da metrpole: remeter para a Frana a metade de seus
70 mil homens e recuar para a costa do Atlntico. E, embora tenha destacado
os homens para a Frana, no recuou, conseguindo evitar assim o desafio  sua


29    LITTLE, 1958, p. 128.
30    YOUNG, 1965, p. 219.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                                 335



autoridade; mas a Frana teve de manter 35 mil homens no Marrocos durante
todo o perodo da guerra. Na frica Oriental Portuguesa, a invaso alem inci-
tou os sditos dos portugueses a derrubar seus detestados senhores31,
    As causas das revoltas e movimentos de protesto que eclodiram um pouco
por toda parte naquela poca divergem muito e nem todas esto diretamente
relacionadas com a prpria guerra. Em alguns casos, como na Lbia, chamou-se
revolta ao que, de fato, nada mais era que a continuao da resistncia  con-
quista e  ocupao europeias. Os motivos acusavam muitas vezes natureza
diferente. No h dvida de que o espetculo do enfraquecimento da autoridade
europeia, decorrente da partida em massa de metropolitanos, encorajava velei-
dades de revolta, tanto quanto a chegada de europeus, particularmente soldados
britnicos, as desencorajava no Egito.
    Mltiplas razes explicam os levantes: desejo de recuperar a independncia;
ressentimento contra as medidas de guerra, como o recrutamento obrigatrio
e o trabalho forado; oposio religiosa, nomeadamente pan-islmica,  guerra;
reao s restries econmicas geradas pela guerra; descontentamento com
certos aspectos do regime colonial, cuja natureza se desvendou nitidamente
durante os anos de guerra. Acrescente-se, por fim, sobretudo na frica do Sul,
os sentimentos pr-germnicos das populaes submetidas aos Aliados.
    O desejo de retomar a uma vida independente do branco, ou seja, de retornar
ao status quo ante, aparece claramente nas revoltas dos Borgawa e dos Holli-Ije, no
Daom francs, e dos diversos grupos Igbo da provncia de Owerri, na Nigria32.
A vontade de sacudir o jugo dos brancos explica, em maior ou menor medida,
grande parte das rebelies contra a autoridade francesa na frica ocidental. Um
dos acontecimentos que precipitaram o levante dos Egba em 1918, na Nigria
meridional, foi certamente a perda da situao de semi-independncia do pas,
logo depois da abertura das hostilidades. No Egito, os tumultos fomentados
pelo Wafd imediatamente aps a guerra estavam em grande parte inspirados no
desejo de abalar o regime de protetorado recm-imposto pelos britnicos, que
em quatro anos se havia tornado insuportvel tanto para os nacionalistas como
para os fallahn. Em Madagscar, 500 autctones, em sua maior parte intelec-
tuais, foram presos no final de 1915 e acusados de "constituir uma sociedade
secreta, organizada com o objetivo de expulsar os franceses e restabelecer um
governo malgaxe"33.

31   FENDALL, 1921, p. 120. Ver tambm DUFFY, 1959, p. 367.
32   Ver OSUNTOKUN, 1977.
33   HESELTINE, 1971, p. 158.
336                                                         frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Os Aliados receavam que a entrada da Turquia na guerra ao lado da Alema-
nha encorajasse a dissidncia entre os sditos muulmanos. No entanto, o apelo
da Turquia a favor da djihd encontrou menos ressonncia entre as populaes
muulmanas da frica do que o temiam as autoridades coloniais dos Aliados.
Mesmo assim, mantinham-se sempre atentos a qualquer descontentamento
entre sditos muulmanos e viram-se em dificuldades para convencer os chefes
e dirigentes muulmanos de que os Aliados no eram hostis ao Islo. Foi, em
parte, o receio de ver os egpcios aderirem ao apelo turco da djihd que pre-
cipitou o estado de stio no Egito, com a priso dos nacionalistas. Na Nigria
do norte, onde a maioria da populao era muulmana, os britnicos estavam
extremamente preocupados com a possvel repercusso da propaganda islmica,
mas a comunho de interesses estabelecida entre o sulto e emires do califado
de Sokoto e os britnicos assegurou a lealdade da maioria dos muulmanos da
regio.
    Os britnicos passaram momentos difceis quando os Sans Sufi, da Lbia,
que continuavam a resistir obstinadamente  ocupao de seu pas pelos italia-
nos, responderam ao apelo turco e invadiram a poro ocidental do Egito, em
novembro de 1915. Os Sans tomaram o porto egpcio de Al-Sallm, onde
conseguiram a adeso de trs quartos da guarnio autctone, enquanto os ingle-
ses fugiam por mar. Depois, marcharam sobre Sd Barrn e Mars Matrh.
Em seguida, os britnicos tomaram a ofensiva fazendo-os recuar para a Lbia34.
Embora vencidos no Egito, membros da confraria ajudados por outros lbios
infligiram em al-Karadbiyya uma derrota decisiva aos italianos, a mais esma-
gadora j sofrida por eles desde Adowa, em 1896. Fizeram ento os italianos
recuarem, obrigando-os a transferir o grosso de suas tropas da frente austraca
para o litoral, de tal forma que em 1917 a Itlia estava a ponto de perder a Lbia
como um todo35. Essas vitrias levaram  criao da Repblica Tripolitnica
(al-Djumhriyya al-Tarbulusiyya) na Lbia ocidental, em 16 de novembro de
1918, bem como do Emirado da Cirenaica, na Lbia oriental. Em 1919, a Itlia
reconheceu os dois Estados, concedendo a cada qual o direito a parlamento pr-
prio. Em 1920 outorgou-lhes outros direitos, em razo do tratado de al-Radjma,
Em janeiro de 1922, os dois Estados decidiram constituir uma unio poltica
e elegeram Idrs al-Sans, lder da Sansiyya, para chefiar a unio, formando
uma comisso central com sede em Gharyan.


34    EVANS-PRITCHARD, 1949, p. 127-8.
35    BARBOUR, 1959; AL-TILLISI, 1973, p. 25-6, 46-7, 274-5, 405-10; BARBAR, 1980.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                                                       337



    A insurreio lbia repercutiu favoravelmente no sul da Tunsia, onde foram
necessrios 15 mil soldados franceses para abafar a revolta36, e tambm entre os
Tuaregues e outros muulmanos do Nger e do Chade, onde a averso do islo 
dominao pelos infiis, a estiagem de 1914 e o recrutamento intensivo tinham
provocado fortssimo descontentamento. Em dezembro de 1916, os Sans
invadiram o Nger, onde conseguiram o apoio de Kaossen, chefe dos Tuaregues
Tarqui, de Firhn, chefe dos Tuaregues Oullimiden, e do sulto de Agades.
Tomaram esta ltima cidade, antes de serem derrotados por um destacamento
franco-britnico37.
    Os levantes islmicos no foram os nicos a ameaar os Aliados em suas
colnias. A revolta de John Chilembwe na Niassalndia (atual Malavi), em
janeiro de 1915, apresentava forte colorido cristo, e o movimento de Watch
Tower (Igreja da Torre de Atalaia), de Kitawala, na Rodsia, pregava a iminncia
do fim do mundo e a desobedincia  autoridade constituda. Este movimento
aproveitou-se da confuso reinante na Rodsia do Norte depois da invaso de
von Lettow-Vorbeck, no final da guerra. Igualmente apocalptico foi o grande
movimento conduzido no delta do Nger (na regio da Nigria) por Garrick
Braide, tambm conhecido pelo nome de Elijah II, que pregava o fim prximo
da administrao britnica. Na Costa do Marfim, em dezembro de 1914 o pro-
feta Harris foi deportado porque "os acontecimentos da Europa exigiam mais
do que nunca a manuteno da ordem entre as populaes da colnia"38. Em
Nianza, no Qunia, o culto Mumbo, que se expandiu rapidamente durante os
anos de guerra, rejeitava a religio crist e professava: "Todos os europeus so
nossos inimigos, mas est prximo o dia em que eles desaparecero de nosso
pas"39.
    Talvez a principal causa dessas revoltas tenha sido o recrutamento forado
de soldados e de carregadores. O dio que suscitava era tamanho que explica,
em grande parte, a quase totalidade dos levantes irrompidos na frica negra
francesa, assim como o movimento de resistncia encontrado na outrora pacfica
colnia da Costa do Ouro40.


36   LING, 1967.
37   Ver SALIFOU, 1973; OSUNTOKUN, 1975.
38   Nota confidencial do vice-governador da Costa do Marfim aos comandantes de circunscries, 16 de
     dezembro de 1914, apud HALIBURTON, 1971, p. 139.
39 Apud OGOT (org.) 1974, p. 264. Para maiores detalhes sobre os levantes referidos, ver os captulos 20,
   26, 27 e 29.
40   KILLINGRAY, 1978, p. 46; THOMAS, R. G., 1975.
338                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    O levante de John Chilembwe foi precipitado pelo alistamento dos Nyasa e
pelas pesadas perdas que eles sofreram diante dos alemes nas primeiras semanas
da guerra. Em uma carta memorvel (censurada) ao Nyasaland Times, protestava
ele nos seguintes termos: "Compreendemos que fomos convidados a verter
nosso sangue inocente nesta guerra mundial [...] esto nos exigindo mais que a
qualquer outra nacionalidade do mundo"41.
    As restries econmicas causadas pela guerra com certeza sustentaram e at
provocaram o movimento de resistncia s autoridades coloniais. Os levantes
verificados no centro-oeste da Nigria e no delta do Nger, no incio da guerra,
no podem ser compreendidos seno no contexto da queda do preo dos pro-
dutos  base de palma e do marasmo comercial subsequente ao desaparecimento
dos principais compradores desses produtos, os alemes42. Efetivamente, as sim-
patias pr-germnicas manifestadas por alguns sditos dos Aliados deviam-se,
em grande parte, ao fato de os alemes terem desempenhado papel comercial de
primeira ordem em numerosas regies da frica. Sua excluso pelos Aliados foi
associada com a depresso econmica que assinalou o primeiro ano da guerra.
    Na frica do Sul, contra a deciso do governo de apoiar os Aliados, os
afrikaners revoltaram-se, no final de 1914, por simpatia aos alemes e dio aos
britnicos. Os prprios alemes fizeram tudo para provocar o descontentamento
entre os autctones das colnias dos Aliados, muito particularmente ao longo
da fronteira norte-leste da Nigria e na Lbia. Em Uganda, pouco depois de
declaradas as hostilidades, Nyindo, chefe supremo dos Kigezi, foi persuadido
por seu meio-irmo, o mwami de Ruanda, a levantar-se contra os britnicos em
nome dos alemes43.
    Em numerosos casos, sobretudo na Nigria, as revoltas no se ligavam dire-
tamente a nenhuma medida especfica imposta pela guerra. Dirigiam-se, antes, a
certas prticas detestadas da administrao colonial, como a cobrana de impos-
tos. No pas dos Ioruba a cobrana de impostos foi praticada pela primeira vez
em 1916 e, com o aumento dos poderes conferidos aos chefes tradicionais em
virtude da poltica de administrao indireta, desencadeou as revoltas de Iseyin44.
Na frica Ocidental Francesa, o indignat (cdigo jurdico discriminatrio), a
reorganizao das fronteiras administrativas, a eliminao dos chefes e a exao



41    Apud ROTBERG, 1965, p. 82.
42    OSUNTOKUN, 1977.
43    LOUIS, 1963b, p. 213.
44    ATANDA, 1969.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                               339



daqueles que no tinham autoridade tradicional estavam na base de todas as
revoltas que sacudiram cada uma das colnias da federao.
    Fossem quais fossem as causas, as rebelies foram impiedosamente reprimi-
das pelas autoridades coloniais. Os "rebeldes" eram compulsoriamente alistados
no exrcito, chicoteados ou at enforcados; os chefes, exilados ou presos; as
aldeias, arrasadas como advertncia. A resistncia nem sempre era violenta,
no entanto. Muita gente esquivou-se dos motivos de queixa emigrando, por
exemplo.
    Foi assim que muitos sditos franceses do Senegal, da Guin, do alto Sene-
gal-Nger e da Costa do Marfim efetuaram aquilo a que A. I. Asiwaju chamava
"migrao de protesto", rumo aos territrios britnicos vizinhos45. Para escapar
aos agentes de recrutamento, os habitantes de aldeias inteiras sumiam na flo-
resta. Os jovens mutilavam-se para no servir o exrcito colonial. As migra-
es de protesto alcanaram tamanha amplitude que se calcula em 62 mil o
nmero de homens que deixaram a frica Ocidental Francesa46. Em Zanzibar,
os homens escondiam-se de dia e passavam a noite em rvores, para no serem
alistados como carregadores47.


     Consequncias econmicas da guerra
    A declarao de guerra prejudicou consideravelmente a vida econmica da
frica. De modo geral, provocou a queda dos preos dos produtos bsicos e
a elevao dos preos dos artigos importados, dada a reduo da oferta. Em
Uganda, estes preos chegaram a aumentar 50% de um dia para outro 48. A
estrutura do intercmbio entre a frica e a Europa foi radicalmente modificada
com a expulso dos alemes dos territrios aliados, onde, em certos casos, como
em Serra Leoa, eles eram responsveis por 80% do comrcio de importao-
-exportao. Como os Aliados dominavam os mares, as colnias alems foram
separadas da metrpole antes mesmo de serem ocupadas. A Alemanha, na
poca o principal parceiro comercial da frica tropical, viu-se quase totalmente
eliminada do continente, pois, com a ocupao de suas colnias pelos Aliados,
todos os cidados alemes foram feitos prisioneiros, e suas plantaes, casas de


45   ASIWAJU, 1976b.
46   Ver CROWDER, in AJAYI e CROWDER (orgs.), 1974, p. 506.
47   SMITH, H. M., 1926, p. 191.
48   INGHAM, 1958, p. 191.
340                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



comrcio e indstrias, confiscadas pelas potncias ocupantes. Mesmo no caso
dos territrios franceses, a indstria francesa do amendoim no era capaz de
absorver sozinha os gros at ento importados pela Alemanha, porque suas
usinas estavam instaladas nas provncias ocupadas do noroeste da Frana. Prin-
cipal importadora do amendoim de Gmbia, a Frana foi substituda pelo Reino
Unido, que absorveu 48% da colheita em 1916, contra 4% em 191249. Na rea-
lidade, a forma espetacular como os negociantes britnicos tomaram o lugar de
seus concorrentes, alemes sugere que, no referente s colnias africanas, a guerra
foi vista pelo Reino Unido, pas adepto do livre-cmbio como a Alemanha,
como uma oportunidade para expandir seu imprio econmico. Enquanto, de
modo geral, os negociantes alemes eram substitudos por cidados da potncia
governante, na frica Ocidental Francesa os britnicos tomavam o lugar dos
negociantes franceses mobilizados50.
    A crise subsequente ao desencadeamento das hostilidades logo deu lugar a
forte alta dos preos dos produtos necessrios ao esforo de guerra aliado. Por
exemplo, o algodo egpcio passou de trs libras egpcias o quintal, em 1914,
para oito libras entre 1916-191851. Mas o aumento da demanda no se traduzia
sempre em elevao dos preos, muitas vezes fixados para o produtor pelas admi-
nistraes coloniais. Alguns pases sofreram cruelmente durante todo o perodo
da guerra. Na Costa do Ouro, por exemplo, o cacau, principal produto de expor-
tao, estava longe de ser to procurado como os gros de oleaginosas. Alm
disso, o poder aquisitivo das empresas de importao-exportao instaladas na
frica caiu drasticamente com a mobilizao e a partida, voluntria ou forada,
de grande parte do pessoal europeu: em 1917, na frica Ocidental Francesa,
aproximadamente 75% dos comerciantes europeus estavam mobilizados52.
    Embora, por estarem controlados, os preos das exportaes nem sempre
refletissem o aumento da demanda e embora a expanso da necessidade de mo
de obra nem sempre se traduzisse, tambm, em aumento de salrios, o preo
dos produtos importados, no obstante, quando se encontravam, no deixou
de subir durante todo o curso da guerra. Se a maioria dos africanos ligados 
economia de subsistncia no foi atingida pela inflao, o mesmo no sucedeu
com os assalariados e produtores de gneros destinados  exportao. Foi assim
que o campons egpcio, produtor de algodo, verificou que o lucro auferido

49    HATTON, 1966.
50    CROWDER, in AJAYI e CROWDER (orgs.), 1974, p. 506.
51    BAER, 1962.
52    CROWDER, in AJAYI e CROWDER (orgs.), 1974, p. 506.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                                                341



com a alta do preo de seu produto no compensava o encarecimento brutal do
combustvel, do vesturio e dos cereais53.
    Durante toda a guerra, o Estado no cessou de intervir cada vez mais na
economia das colnias africanas: controle de preos, requisio de colheitas,
cultivo obrigatrio de certos produtos, recrutamento de mo de obra para pro-
jetos essenciais e distribuio da tonelagem disponvel nos navios mercantes. De
modo geral, a interveno procurava favorecer as casas importadoras e expor-
tadoras da potncia governante. Na Nigria, empresas como a John Holt e a
United Africa Company eram empregadas como agentes de compras e gozavam
de prioridade na alocao da tonelagem dos navios mercantes e de facilidades
para a obteno de emprstimos bancrios, em prejuzo das companhias meno-
res, sobretudo as pertencentes a nigerianos54.
     demanda por produtos tradicionais da agricultura de subsistncia  como
inhame, mandioca e feijo  para a alimentao dos Aliados na Europa e dos
exrcitos da frica e do Oriente Mdio, somaram-se as dificuldades dos outros
setores da economia. E, quando esses produtos eram requisitados, o que sucedia
com frequncia, ou pagos a preo inferior ao do mercado livre, os prprios pro-
dutores  que eram prejudicados. Assim, durante a guerra, os fallhin do Egito
tiveram muita dificuldade para sobreviver, devido  inflao e  requisio de
cereais e de animais55. Na frica Ocidental Francesa, a demanda de homens para
a guerra concorria com a demanda de sorgo, paino, milho etc. Em 1916, era
desesperadora a situao alimentar da Frana, cuja colheita de trigo diminura
em 30 milhes de quintais (colheita de 60 milhes, sendo que eram necessrios
90 milhes). Em 1917, ano em que a safra de trigo foi mundialmente defici-
tria, a colheita da Frana no ultrapassou 40 milhes de quintais56. Durante
esses dois anos, pois, o trigo ou cereais alternativos tiveram de ser procurados
no ultramar. A proximidade da frica do norte fazia dela uma evidente fonte
de suprimento e at o Marrocos, recentemente conquistado, teve de contribuir.
Mesmo assim, a demanda francesa teve de estender-se at Madagscar. Nos
territrios onde se desenrolavam operaes militares, os agricultores do setor
de subsistncia tiveram de atender, sobretudo na frica oriental,  premente



53   ZAYID, 1965, p. 76. Durante a guerra, a produo global diminuiu brutalmente; ver O'BRIEN, in
     HOLT (org.), 1968, p. 188-90.
54   J. OSUNTOKUN, 1978.
55   T. LITTLE, 1958, p. 128.
56   COSNIER, 1922.
342                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



demanda dos exrcitos, que, por problemas de intendncia, s podiam sobreviver
com os recursos da terra.
    A demanda de soldados e carregadores e a necessidade de aumentar a pro-
duo das culturas de exportao e de subsistncia determinaram a escassez de
mo de obra em vrias partes do continente. O recrutamento de carregadores na
Rodsia do Norte para a campanha da frica oriental cortou  Rodsia do Sul
(atual Zimbbue) e a Catanga sua fonte tradicional de mo de obra57. No Congo,
a administrao belga teve de apelar ao recrutamento forado de trabalhadores
(ver figura 12.6) para suprir as exploraes mineiras do pas. A epidemia de
gripe que assolou a frica central e oriental, j no fim da guerra, atingiu os
carregadores repatriados e provocou sria carncia de mo de obra no Qunia e
nas duas Rodsias. Havia escassez tanto de mo de obra europeia como africana.
Na Rodsia do Sul, os trabalhadores brancos das estradas de ferro, para quem
at ento os empregadores no restringiam licenas em razo da abundncia de
pessoal, foram de tal forma solicitados que acabaram por constituir sindicatos58,
coisa a que anteriormente se opunham empregadores e autoridades.
    A carncia de produtos de importao conduziu  queda da produo agrcola
naqueles pases dependentes da importao de adubos, implementos agrcolas
e materiais de irrigao, como o Egito. Mas tambm estimulou o desenvolvi-
mento de indstrias substitutivas em outros pases, principalmente na frica do
Sul, onde se tomou conscincia das potencialidades dos mercados de ultramar
para os produtos locais59. O Congo Belga, isolado da metrpole ocupada, teve
de tornar-se autossuficiente, tal como a frica Oriental Alem durante os pri-
meiros anos da guerra. A chegada de fortes contingentes militares britnicos
ao Egito e a injeo de aproximadamente 200 milhes de libras esterlinas na
economia estimularam sensivelmente o desenvolvimento industrial desse pas.
    A guerra trouxe, para a frica, o motor de combusto interna e, com ele, as
estradas de rodagem. Na frica oriental, a longa campanha contra os alemes e o
problema do transporte de provises impuseram a construo de vrias estradas,
como a que liga Dodoma, na frica Oriental Alem, a Tukuyu, na extremidade
setentrional do lago Nyasa. Reduziu-se, assim, para dois ou trs dias a durao
de uma viagem que antes exigia duas ou trs semanas60. Nas reas de atividade
militar constante ou onde foram necessrias instalaes de trnsito, houve um


57    GANN, 1964, p. 164.
58    Ibid., p. 172.
59    WILSON, F., in WILSON, M. e THOMPSON, L., (orgs.), 1971, p. 135.
60    MITCHELL, P., 1954, p. 38.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                                                     343



rpido desenvolvimento dos portos, como Mombaa, Bizerta, Port Harcourt e
Dacar. Na Nigria, as minas de carvo de Enugu foram abertas durante a guerra,
para que as ferrovias dispusessem de uma fonte de combustvel local.
    De modo geral, as receitas pblicas diminuram no decurso da guerra, j
que advinham principalmente da tributao das importaes. No obstante,
as colnias suportaram grande parte do nus financeiro das campanhas locais,
independentemente das somas que versaram s potncias metropolitanas, a
ttulo de contribuio ao esforo de guerra. Salvo quando as exigncias militares
dispuseram de outra forma, as obras pblicas e os planos de desenvolvimento
foram suspensos at o cessar das hostilidades.


     Consequncias sociais e polticas da guerra
   A guerra teve, para a frica, consequncias sociais muito variveis, segundo
o grau de participao de cada territrio, particularmente segundo a intensidade
do recrutamento ou das operaes militares de que foram palco. Lamentavel-
mente, at h pouco tempo dava-se relativamente pouca ateno  matria. Essa
indiferena  de surpreender, j que, em certas regies como a frica oriental e
para retomar a expresso de Ranger, a Primeira Guerra Mundial foi "a demons-
trao mais horrenda, mais destruidora e mais caprichosa do poder absoluto
europeu que a frica oriental jamais conhecera". A importncia das foras em
presena, o poder de fogo, a amplitude das devastaes, os estragos das doenas,
o nmero de perdas africanas, tudo isso eclipsou as primeiras campanhas pela
conquista colonial, mesmo a represso ao levante dos Maj Maj61. Na dcada
de 1930, H. R. A. Philip escrevia: "A experincia do perodo 1914-1918 foi tal
que realmente fez o nativo do Qunia sair de seu sono secular"62. Comparati-
vamente com o nmero de estudos que tratam das consequncias polticas da
guerra, poucos foram os trabalhos consagrados s suas repercusses sociais. No
entanto, seu impacto sobre os atiradores, carregadores e camponeses que foram
arrancados do pequeno mundo de suas aldeias para serem enviados a milhares
de quilmetros, bem como o papel por eles desempenhado nessas sociedades ao
retomarem63, so aspectos fundamentais da histria colonial.

61   RANGER, 1975, p. 45.
62   Apud OGOT (org.), 1974, p. 265.
63   Ver, por exemplo, ECHENBERG, 1975; PERSON, 1960, p. 106 -7, trata do papel preponderante
     desempenhado pelos amigos combatentes na sociedade Kissi aps a Primeira Guerra Mundial, sobretudo
     como agentes de modernizao.
344                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



    No h dvida de que a guerra abriu novos horizontes a grande nmero de
africanos, principalmente membros da elite culta. Para Margery Perham, 
      "difcil superestimar o efeito produzido sobre os africanos, que em grande medida
      tinham permanecido restritos a uma relao bilateral com os amos europeus, pelo
      espetculo de outro universo e pela constatao de que faziam parte de um conti-
      nente e de um mundo"64.
    Em muitas regies africanas, a guerra favoreceu se no sempre o despertar
de movimentos nacionalistas, ao menos o desenvolvimento de uma atitude mais
crtica da elite culta em relao ao poder colonial. Bethwell Allan Ogot pensa
que a experincia da guerra teve o mesmo efeito para os africanos e europeus
pouco instrudos:
      O soldado africano no tardou a descobrir os pontos fortes e a fraqueza do euro-
      peu, at ento considerado pela maioria dos africanos como um indivduo superior.
      De fato, sargentos africanos foram encarregados de ensinar a voluntrios europeus
      tcnicas da guerra moderna. Tornava-se evidente que os europeus no sabiam de
      tudo. De volta  sua terra, soldados e carregadores difundiram essa nova imagem do
      homem branco; isso explica, em grande parte, a confiana e a segurana reveladas
      pelos indgenas do Qunia na dcada de 192065.
    B. A. Ogot tambm observou que, significativamente, diversos dirigentes
polticos do Qunia tinham, de uma forma ou de outra, servido na campanha
da frica oriental. Na Guin, o regresso dos antigos combatentes foi o preldio
de greves, agitaes nos campos de desmobilizao e contestao da autoridade
dos chefes66.
    Se, por um lado, a guerra assinalou o fim das tentativas por parte dos afri-
canos para recuperar a soberania da era pr-colonial, por outro, tambm assis-
tiu  intensificao das reivindicaes, como consequncia da participao dos
africanos na administrao das novas entidades polticas a eles impostas pelos
europeus. Inspiradas nos Quatorze Pontos do presidente Woodrow Wilson pro-
postos como resposta aos soviticos, que em outrubro de 1917 tinham defendido
a concluso imediata da paz, sem anexaes nem indenizaes , essas reivin-
dicaes iam at o direito  autodeterminao dos povos. Nos pases rabes da
frica do norte, a declarao conjunta feita em novembro de 1918 pelo Reino


64    PERHAM, 1961, p. 45.
65    OGOT (org.), 1974, p. 265.
66    SUMMERS e JOHNSON, R. W., 1978.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                                                          345



Unido e pela Frana, de que os Aliados estavam considerando a emancipao
dos povos oprimidos pelos turcos, mostrava um grupo de rabes a quem era
oferecida a independncia, enquanto a outro, governado pelas mesmas potncias,
de fato a independncia era recusada.
    O partido Wafd, de Sa'ad Zaghll, no Egito, devia seu nome  delegao
(wafd) que tentou enviar  Conferncia de Paz de Versalhes para negociar a
restaurao da independncia do Egito67. Da mesma forma, na Tunsia, embora
o residente dos anos de guerra, Alapetite, tenha feito pesar sobre o seu movi-
mento um punho to firme como o dos britnicos sobre o Egito, os dirigentes
nacionalistas enviaram aps o fim das hostilidades um telegrama ao presidente
Wilson pedindo a ele que apoiasse a sua luta pela autodeterminao68.
    Ainda que os Quatorze Pontos do presidente Wilson no tenham inspi-
rado reivindicaes pela independncia imediata na frica ao sul do Saara,
encorajados pelo tom liberal desse documento os nacionalistas da frica oci-
dental esperavam exercer alguma influncia sobre a conferncia de Versalhes e
talvez poder exigir participao mais direta em seus prprios assuntos69. Como
afirmou F. W. Dove, delegado de Serra Leoa ao National Congress of British
West Africa, "passou o tempo em que os povos africanos eram coagidos a fazer
coisas que no estavam de acordo com seus melhores interesses"70. No Sudo,
a notcia dos Quatorze Pontos, somada  revolta rabe de 1916, assinalou uma
reviravolta na histria do movimento nacionalista e forjou a conscincia poltica
de uma nova gerao de jovens que tinham recebido nas escolas pblicas um
ensino ocidental moderno71.
    Em muitos territrios que haviam contribudo significativamente em homens
e em material com o esforo de guerra, a populao esperava ao menos, em con-
trapartida, uma reforma social e poltica. Em alguns casos, as autoridades colo-
niais haviam expressamente prometido mudanas em troca de maior ajuda das
populaes autctones. Na frica negra francesa, prometeram a Blaise Diagne
uma srie de reformas para depois da guerra, se ele conseguisse recrutar o com-
plemento de que a Frana necessitava para a frente europeia. Foi o que Diagne
fez, mas, como as reformas jamais foram implantadas, essa acabou sendo uma


67   ZAYID, in HOLT (org.) 1968, p. 341-2; a respeito das atividades do partido Wafd, ver o captulo 23
     deste volume.
68   ZIADEH, 1962, p. 60.
69   LANGLEY, 1973, p. 107 e passim.
70   Memorandum of the National Congress of British West Africa, 1920, F. W. Dove, delegado de Serra Leoa.
71   `ABD AL-RAHIM, 1969, p. 94.
346                                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935



das razes pelas quais perdeu a confiana de seus partidrios72. A contribuio
da Arglia para o esforo de guerra foi compensada pela melhoria da situao
econmica e poltica dos argelinos. A essa reforma opuseram-se os colonos,
embora ela tenha parecido extremamente limitada ao emir Khlid, neto de `Abd
al-Kdir, que criticou vivamente a administrao francesa e foi deportado em
1924. Muito justamente, foi considerado o fundador do movimento naciona-
lista argelino73. Na Tunsia, uma delegao de 30 representantes da comunidade
rabe solicitou ao bei que procedesse a uma reforma poltica, lembrando-lhe os
sacrifcios feitos pelo pas durante a guerra74. O movimento, que em 1920 deu
origem ao Destur, ou Partido da Constituio, foi, sem dvida, em grande parte,
obra de soldados e trabalhadores repatriados, descontentes com a situao de
inferioridade que sofriam em seu prprio pas75. Na frica Ocidental Britnica,
a imprensa, geralmente leal para com os britnicos e crtica para com os ale-
mes, acreditava que, em compensao,  elite culta seriam atribudas maiores
responsabilidades na administrao colonial76.
    A guerra estimulou no apenas o nacionalismo africano, mas tambm o
nacionalismo branco, nomeadamente na frica do Sul. Nesse pas, a rebelio
dos afrikaners foi rapidamente sufocada, mas no o estado de esprito que deu
origem a ela. Como dizia William Henry Vatcher:
      A rebelio confirmou aquilo que a guerra dos beres havia demonstrado, ou seja,
      que a soluo no residia na fora, que o combate deveria ser travado na arena
      poltica. Foi assim que, gerado na guerra dos beres, o moderno nacionalismo
      afrikaner veio  luz durante a rebelio de 1914. Se no tivesse havido a Primeira
      Guerra Mundial, os beres talvez conseguissem adaptar-se melhor  poltica de
      conciliao de Botha e de Smuts. A guerra os constrangeu a se organizar, a princ-
      pio clandestinamente, no quadro da Afrikaner Broederbond, depois no do Partido
      Nacional `expurgado'77.
   No Qunia, os colonos brancos aproveitaram as hostilidades para conse-
guir importantes vantagens polticas diante da administrao colonial. Obti-
veram o direito de eleger representantes no Legislative Council (Conselho


72    CROWDER, 1977d, in CROWDER, 1977a, p. 117.
73    CONFER, 1966, p. 113.
74    ZIADEH, 1962, p. 88.
75    Ibid., p. 123. A respeito das atividades do Destur , ver o captulo 24.
76    OMU, 1968, p. 44-9.
77    VATCHER, 1965, p. 46.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                               347



Legislativo), onde formaram maioria a partir de 1918. Isso, somado ao Crown
Lands Ordinance (Decreto sobre as Terras da Coroa), que permitia a segrega-
o racial nas White Highlands; ao Native Registration Ordinance (Decreto
sobre o Registro de Nativos), que introduzia uma pseudo-regulamentao do
laissez-passer; e ao Soldier Settlement Scheme, que depois da guerra atribuiu
vastas parcelas da reserva Nandi aos soldados brancos, fortaleceu a posio
dominante que a minoria europeia conservou no Qunia at a dcada de
195078.
    Os privilgios obtidos pela comunidade branca, sobretudo em matria de ter-
ras, provocaram reaes que incentivaram fortemente o nacionalismo no Qunia.
Foi assim que a Kikuyu Association, composta principalmente por chefes, foi
fundada em 1920 para defender os interesses fundirios dos Kikuyu, enquanto
a Young Kikuyu Association, de Harry Thuku, furldada no ano seguinte, tinha
como objetivo defender a terra e o trabalho79.
    Na frica do Sul, a escalada do nacionalismo afrikaner e a agitao repu-
blicana durante a guerra preocuparam vivamente os dirigentes africanos da
Suazilndia e da Basutolndia (atual Lesotho). Receavam que seus pases fossem
integrados  Unio e que esta, com sua poltica cada vez mais racista, como o
ilustra o Native Land Act (Lei sobre as Terras Indgenas) de 1913, obtivesse
a independncia sob presso dos afrikaners, o que depois lhes furtaria todos
os meios de salvaguardar seus interesses. Como declarou Simon Phamote, do
Sotho National Council, seu povo temia a Unio "porque ns sabemos que [...]
os Beres arrancaro um dia a sua independncia aos britnicos"80. A Unio,
por seu turno, atravs do African Native National Congress (que mais tarde
viria a tornar-se o African National Congress), apresentou depois da guerra um
memorando ao rei da Inglaterra, Jorge V, no qual evocava a participao dos
africanos nas campanhas militares travadas no sudoeste e no leste da frica, e
tambm na Frana, lembrando que a guerra tinha sido combatida para libertar
os povos oprimidos e garantir a cada nao o direito de dispor de seu destino81.
O Congress foi informado pelo British Colonial Office de que o Reino Unido
no podia imiscuir-se nos assuntos internos da frica do Sul, e o apelo do
Congress no foi apresentado  Conferncia de Paz.



78   BENNETT, 1963, p. 35-45.
79   Ibid., p. 45. Para maiores detalhes, ver o captulo 26.
80   HYAM, 1972, p. 80.
81   KUPER, in WILSON, M., e THOMPSON, L. M., (orgs.), 1971, p. 439.
348                                                           frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 12.7   O desenho da frica depois da Primeira Guerra Mundial.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                                                               349



     Concluso
    A guerra assinalou uma ntida evoluo da opinio internacional no que diz
respeito ao colonialismo. Antes do conflito, as potncias coloniais europeias no
tinham contas a prestar seno a si prprias. Depois dele, o passado colonial de
uma dessas potncias, a Alemanha, foi examinado pelos membros da Confe-
rncia de Paz reunidos em Versalhes, e julgado de acordo com as novas regras
de moralidade que deviam reger a administrao dos povos coloniais82. Sem
dvida que tambm poderiam dirigir equivalente censura  maior parte das
demais potncias coloniais, se o caso delas fosse do mesmo modo examinado83.
A ideia de "misso sagrada de civilizao" para com povos pretensamente pouco
evoludos  embora manifesta na dcada de 1890, por exemplo, com a proibio
da venda de lcool aos africanos  estava agora sacramentada nos mandatos
com que os Aliados vitoriosos asseguraram a administrao das colnias alems
em nome da Sociedade das Naes (SDN), responsvel, "atravs de todos os
meios ao seu alcance, por aumentar o bem-estar material e moral e favorecer
o progresso social dos habitantes84". Em teoria, essa disposio introduzia o
princpio da responsabilidade internacional, mas em face da fraqueza da SDN
no foi possvel fazer grande coisa, por exemplo, para melhorar a triste sorte
dos autctones do Sudoeste Africano, administrado sob mandato pela Unio85.
Da mesma forma, o direito  autodeterminao, em princpio proclamado no
congresso da Segunda Internacional Socialista realizado em Londres no ano
de 1896, havia sido enunciado pelo dirigente de uma grande potncia mundial,
Woodrow Wilson, enquanto uma nova potncia, a Rssia Sovitica, denunciaria
todas as formas de colonialismo na frica.
    Ainda que a sorte das populaes autctones no tenha melhorado signi-
ficativamente depois da guerra, perodo em que sinceras tentativas de reforma
abortaram em vista da depresso86, comeava-se a questionar a moralidade do
colonialismo. Nesse clima delineou-se o movimento nacionalista que devia,
finalmente, conduzir numerosos pases africanos  independncia. Por exemplo,
prevalecendo-se do pacto da Sociedade das Naes para "que se d tratamento

82   Ver, por exemplo, German Colonization Handbooks, redigidos sob a direo da Historical Section of the Foreign
     Office, n. 36, Londres, 1919, e FIDEL, 1926. Sobre a colonizao alem no Togo, ver CROWDER, 1968, p.
     241-8.
83   GANN e DUIGNAN, 1967, p. 79.
84   Estes so os termos dos mandatos sobre territrios africanos.
85   Ver SEGAL e FIRST, 1967.
86   Ver SARRAUT, 1923.
350                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935



equitativo a seu povo", dirigentes do National Congress of British West Africa,
como J. E. Casely Hayford e H. C. Bankole-Bright, conseguiram obter, relati-
vamente  administrao de Togo, uma audincia internacional por intermdio
da Unio Internacional das Associaes da SDN. Sucessivamente, logo aps a
Segunda Guerra Mundial, o regime de mandato viria a ceder lugar ao regime
de tutela, que previa a evoluo para a independncia dos territrios a ele sub-
metidos, os quais deveriam receber a visita de misses de inspeo "neutras".
    A Grande Guerra assinalou portanto, na histria da frica, uma virada
que, embora menos espetacular que o segundo conflito mundial, nem por isso
foi menos importante. Em particular, redesenhou o mapa da frica tal como
praticamente se apresenta hoje em dia (ver figura 12.7). A Alemanha saiu do
grupo das potncias coloniais, sendo substituda pela Frana e pelo Reino Unido
em Camares e Togo, pela Unio Sul-Africana no Sudoeste Africano e pelo
Reino Unido e pela Blgica na antiga frica Oriental Alem. A Blgica obteve,
ainda, as pequenas mas bem povoadas provncias de Ruanda e Urundi (atuais
Ruanda e Burundi)87.
    As delicadas negociaes entabuladas em Versalhes para a redistribuio
desses territrios entre os Aliados vitoriosos pertencem, a bem dizer,  histria
da Europa. No entanto, a maneira como Camares e Togo foram divididos,
sem que houvesse a menor preocupao de ordem histrica e tnica, provocou
vivssima amargura em certas parcelas da populao desses territrios, sobretudo
entre os Ewe do Togo. Para os habitantes das antigas colnias alems, a sorte
no melhorou muito com a troca de senhores. Na opinio de alguns africanos, a
balana at mesmo pendia mais em favor dos primeiros; em Camares e Togo,
a populao guardava certa nostalgia do antigo regime, pois os franceses haviam
introduzido o sistema de trabalho obrigatrio e os britnicos estavam menos
empenhados que seus primos germnicos no desenvolvimento dos territrios88.
    Pelo fato de a Frana e o Reino Unido considerarem puramente transitrio
o papel de mandatrios, os dois Togo foram menos desenvolvidos que a Costa
do Marfim e a Costa do Ouro, assim como Tanganica
    (Tanznia) menos que o Qunia ou Uganda. E, se o Sudoeste Africano
desenvolveu-se de maneira espetacular sob a "administrao" sul-africana, foi
em benefcio de uma populao de colonos em rpido crescimento. No que se
refere aos autctones, a brutalidade da dominao alem deu lugar a um regime


87    Ver LOUIS, 1963b, para uma anlise das negociaes que levaram a Conferncia da Paz a atribuir
      Ruanda e Urundi aos belgas.
88    Ver WELCH, 1966, p. 58.
A Primeira Guerra Mundial e suas consequncias                                351



abertamente racista, defensor de uma poltica de povoamento e de explorao
do pas pelos brancos e para os brancos.
   Embora essencialmente europeia, a Primeira Guerra Mundial teve profundas
repercusses na frica. Assinalou ao mesmo tempo o fim da partilha do conti-
nente e das tentativas africanas para reconquistar uma independncia fundada
na situao poltica anterior a essa partilha. Foi causa de profundas transforma-
es econmicas e sociais para numerosos pases africanos, mas inaugurou um
perodo de vinte anos de calma para as administraes europeias, exceo feita a
zonas como o Rf francs e espanhol, a Mauritnia francesa e a Lbia italiana.
   Todavia, semeada durante a guerra, a ideia da autodeterminao dos povos
e da responsabilidade das potncias coloniais deveria, no decurso do perodo
ulterior de paz, influenciar profundamente o desenrolar dos movimentos nacio-
nalistas nascentes. Mas seria necessrio, ainda, o cataclisma de uma segunda
guerra mundial para que esses movimentos, que antes reclamavam apenas um
papel mais importante na administrao, viessem a exigir as rdeas do poder.
A dominao europeia: mtodos e instituies                            353



                                      CAPTULO 13


                        A dominao europeia:
                        mtodos e instituies
                      Raymond F. Betts (reviso de A. I. Asiwaju)




    A "poltica indgena"
    Pouco depois de conquistada e ocupada pelas potncias imperialistas euro-
peias, ou quase ao mesmo tempo, a frica foi envolvida em uma rede adminis-
trativa colonial que, embora pouco uniforme e um tanto complexa, unificava-se
com base em algumas ideias e crenas comuns. Fenmeno nico quer na histria,
quer no mundo submetido  dominao europeia, a poltica colonial tomou na
frica o sentido de "poltica indgena". Entendendo-se que a expresso cor-
respondia a inmeras definies diferentes na administrao dos "indgenas" 
termo geralmente empregado para designar os africanos , tambm se admitia,
tanto em teoria como na prtica, que o poder colonial no estaria efetivamente
assegurado seno com a ajuda do pessoal e das instituies autctones, desem-
penhando uma funo complementar ou auxiliar.
    Esta concepo provinha da situao colonial j estabelecida pelos europeus
que desde o sculo XIX governavam a frica. Com a notvel exceo da Arglia
e da frica austral, esse vasto continente era, em razo do seu clima, quase que
totalmente considerado pouco propcio a uma colonizao intensiva pelos bran-
cos; de resto, as populaes locais pareciam geograficamente muito dispersas
para permitir uma administrao direta eficaz do pessoal europeu. Basicamente,
a frica afigurava-se um conglomerado de Estados tropicais cujas populaes
354                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 13.1 Sir Frederick Lugard (1858-1945),           Figura 13.2 Louis -Gabriel Angoulvant,
alto-comissrio da Nigria do norte, 1900-1907, 1912-   governador da Costa do Marfim, 1908-1916.
-1914; depois, governador da Nigria, 1914-1919.        (Foto: Roger-Viollet.)
(Foto: Mary Evans Picture Library.)




Figura 13.3 General Joseph Simon Gallieni               Figura 13.4 Albert Heinrich Schnee (1871-
(1849-1916), comandante superior do Sudo fran-         -1949), governador da frica Oriental Alem,
cs, 1886-1888; governador-geral de Madagscar,         1912-1918. (Foto: BBC Hulton Picture Library.)
1896-1905. (Foto: BBC Hulton Picture Library.)
A dominao europeia: mtodos e instituies                                                            355



deveriam ser ao mesmo tempo arregimentadas e dirigidas pelos europeus, para
fins determinados a partir do exterior. O que sir Frederick Lugard (mais tarde,
lorde Lugard) definia como "duplo mandato"  em sua clebre obra, intitulada
justamente The Dual Mandate, publicada pela primeira vez em 1922  era geral-
mente aceito como justificativa terica da presena europeia: desenvolvimento
social e econmico, para o bem tanto da frica como do resto do mundo.
    Consequentemente, de acordo com a ideologia imperialista da poca, a fina-
lidade da presena europeia definia-se em termos de responsabilidade ou de
tutela. O informe oficial do governo britnico, expedido no Qunia em 1923,
declarava: "O governo de Sua Majestade considera-se exercendo, por conta das
populaes africanas, uma tutela [...] cujo objetivo pode ser definido como a
proteo e o progresso das raas indgenas...1". No clebre estudo La mise en
valeur des colonies franaises, Albert Sarraut, ministro francs das colnias, escre-
via a propsito da Frana: "O nico direito que ela quer conhecer  o direito
de o mais forte proteger o mais fraco". A Frana, prosseguia ele, garantia "o
crescimento econmico e o desenvolvimento humano" de suas colnias2.
    Ambas as declaraes evocam esse estado de esprito paternalista, em relao
 frica colonial, de que o pensamento europeu se havia inteiramente impreg-
nado e que foi simultaneamente internacionalizado e institucionalizado com
o sistema de mandatos criado pela Liga das Naes aps a Primeira Guerra
Mundial. Como proclamava o artigo 22 do pacto da Sociedade das Naes, o
empreendimento colonial, sobretudo na frica, passaria a ser promovido em
nome de um ideal superior de civilizao e convinha "confiar a tutela desses
povos [as populaes coloniais] s naes desenvolvidas"3. Subjacente a essa
retrica transparecia mais uma vez o sentimento de superioridade cultural e
racial que se formara nos sculos XVIII e XIX e que se expressava na qualifica-
o de "crianas grandes" ou "no adultos" aplicada aos africanos. A dominao
europeia, que exigia essa condio social imaginria, supunha perdurar por muito
tempo, prolongando indefinidamente a colonizao da frica.
    As raras zonas onde j se haviam estabelecido importantes minorias brancas,
na poca expandidas com a chegada de numerosos imigrantes, pareciam desti-
nadas a uma colonizao permanente e  continuidade da supremacia europeia


1    lndians in Kenya, Cmd. 1922 (1923).
2    SARRAUT, 1923, p. 19.
3    Ao ingressar na Sociedade das Naes, no entanto, a Unio Sovitica expressou certa reserva com relao
     a alguns artigos do pacto. Desaprovou particularmente o artigo 22 e, consequentemente, recusou-se a
     nomear um representante junto da Comisso de Mandatos.
356                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



em tudo o que dissesse respeito  poltica e  propriedade. No entanto, mesmo
nessas zonas (exceto na frica do Sul, onde uma poltica de segregao dema-
siadamente rgida j se havia imposto), falava-se com boa vontade em desen-
volvimento cooperativo e, ao menos oficialmente, as populaes africanas eram
convidadas a se deixar conduzir pelos europeus.
    Para alm dessas consideraes, a poltica colonial no tinha objetivos claros
e definitivos. Viso a curto prazo mais que sistema bem definido, a verso brit-
nica apresentava traos de autonomia administrativa, enquanto as formas fran-
cesa e portuguesa implicavam certa integrao poltica. Oscilando entre esses
polos  poltica de "diferenciao" e poltica de "assimilao" , a administrao
colonial de entre as duas guerras era, aos olhos daqueles que deviam aplic-la,
um exerccio de adaptao cultural e poltica necessariamente emprico.
    No obstante, as ideias e experincias que viriam a desempenhar um papel
futuro remontavam, todas elas, ao perodo anterior  Primeira Guerra Mun-
dial. Ao "retalhamento terico" da frica, verificado nas duas ltimas dcadas
do sculo XIX, seguiu-se um perodo de conquista e dominao militar que
determinaria a maior parte dos mtodos de controle administrativo emprega-
dos desde antes do final do sculo. Como resultado, o perodo de entre guerras
foi aquele em que inmeras dessas antigas prticas se estruturaram em poltica
oficial e no qual o oportunismo administrativo foi elevado ao nvel de teoria
bem articulada. Retrospectivamente, esse perodo surge claramente como o da
burocratizao da administrao colonial.
    Se bem que inicialmente no houvesse uma concepo universalmente aceita
para a administrao colonial na frica, existia, no entanto, uma convergncia
bastante significativa de opinies sobre aquilo a que se poderia chamar admi-
nistrao conjunta ou, em linguagem mais corrente, administrao indireta;
aquilo que permitia s autoridades africanas participar do poder colonial, em
seus papis polticos tradicionais ou nos que os europeus lhes impunham, mas
incontestavelmente em posio subordinada. O acordo geral com relao a esse
grande princpio explica-se de muitas maneiras. Em primeiro lugar, as modali-
dades histricas da constituio dos imprios coloniais em fins do sculo XIX
no foram estranhas a isso, assim como a dimenso dos imprios acrescentou
um novo elemento ao problema da administrao colonial. Em segundo lugar,
a penetrao do continente africano deu-se em ritmo tal que o pessoal europeu
disponvel logo se tornou insuficiente para administrar as novas possesses, tanto
mais que elas se estendiam a regies com as quais no se estabelecera, at ento,
nenhum contato cultural europeu. Desse modo, a administrao direta seria uma
experincia inteiramente nova e, portanto, pouco vivel no plano imediato. Foi
A dominao europeia: mtodos e instituies                                        357



essencialmertte devido a essa situao, j analisada por vrios observadores4, que,
diferentemente dos pequenos territrios costeiros submetidos  administrao
direta, as vastas possesses do interior foram administradas de maneira indireta.
No final do sculo, alm disso, o colapso da administrao empreendida por
companhias concessionrias exigiu o estabelecimento de uma autoridade nacio-
nal sobre vastas regies que os europeus no mantinham com solidez, o que de
todo modo, salvo na frica Oriental Alem, acarretou o surgimento de um tipo
de administrao bastante frouxa, anloga aos mtodos brandos anteriormente
empregados pelas companhias, e de que a Somlia era exemplo flagrante.
    Havia ainda razes derivadas da percepo cultural dos europeus e que deno-
tavam intenes polticas. No somente o princpio do imprio "barato", que
nada ou quase nada custava diretamente  metrpole, tinha aceitao geral,
mas julgava-se tambm que, quanto menos a ordem social fosse abalada, mais
ativa seria a cooperao dos povos autctones. A respeito da poltica britnica
na frica, Lugard afirmava que "para terem xito e promoverem a felicidade e
o bem-estar do povo, as instituies e os mtodos devem estar profundamente
arraigados em suas tradies e preconceitos''5. Em 1906, o ministro francs das
colnias, Georges Leygues, declarava: "O princpio fundamental de nossa pol-
tica colonial deve ser o respeito escrupuloso de crenas, costumes e tradies
dos povos submetidos ou protegidos6".
    Explicaes e argumentos a respeito da falta de pessoal e da necessidade
de reduzir as despesas ao mnimo necessrio esto igualmente ligados a um
problema mais fundamental, que imps a adoo do sistema conjunto de admi-
nistrao a todos os governos coloniais do sculo XX: o malogro da poltica
administrativa direta ou assimilacionista, to em voga no sculo XIX. Quer se
tratasse dos franceses com as Quatro Comunas do Senegal (Dacar, So Lus,
Rufisque, Goreia), ou dos ingleses com as colnias da Coroa (Serra Leoa, Costa
do Ouro  atual Gana  e Lagos  pertencente  atual Nigria), a assimilao
malograra em fins do sculo passado, e no somente por causa da resistncia
cultural dos povos africanos. Aos funcionrios coloniais ingleses e franceses
faltava entusiasmo, devido aos conflitos e atritos que se produziam entre a
elite colonial europeia e os africanos educados  moda ocidental. Nas colnias
inglesas e francesas, o fim do sculo XIX foi assinalado pela frustrao geral
das expectativas desses africanos ocidentalizados. Como observou justamente A.

4    Ver PERHAM, 1960b, p. 140-1; FAGE, in GIFFORD e LOUIS (orgs.), 1967, p. 703.
5    LUGARD, 1929, p. 211.
6    La Dpche Coloniale, 12 de julho de 1906, p. 1.
358                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



E. Afigbo7, o final do sculo XIX no se caracterizou somente pelo sistemtico
afastamento dos africanos "cultos", que nas dcadas anteriores ocupavam postos
de responsabilidade nas colnias britnicas da frica ocidental, mas tambm
pela reduo da possibilidade de os africanos se tornarem cidados franceses no
Senegal e em outras colnias. Deve-se, portanto, a essa falta de solidariedade
entre colonialistas europeus e africanos cultos a escassez artificial de pessoal
administrativo verificada em fins do sculo passado, quando os novos regimes
comearam a restringir o recrutamento de africanos altamente capacitados para
a administrao.
    Dadas essas condies, nenhuma potncia colonial procurou eliminar de
imediato e por completo as estruturas sociopolticas existentes. De qualquer
modo, as polticas apresentavam grande diversidade, desde a aceitao relutante
e a adaptao forada dessas estruturas (como na Angola portuguesa e na frica
Oriental Alem) at os esforos deliberados para conservar as instituies (caso
da Nigria do norte britnica e do Marrocos francs). No obstante, as exign-
cias fundamentais do sistema colonial produziram em toda parte o efeito de
modificar os objetivos e, portanto, distorcer as funes das instituies africanas
bsicas, enfraquecendo-as. O prprio fato de os Estados africanos terem sido,
na sua maior parte, anexados por conquista e pelo exlio ou destituio de seus
dirigentes lanou em descrdito toda a antiga administrao. A generalizao de
um sistema fiscal concebido por europeus constituiu certamente outra medida
colonial demolidora, mas at mesmo tmidos esforos no sentido do que hoje se
chama modernizao remodelaram as instituies locais. Ainda que a existncia
da maioria das populaes africanas no tenha sido essencialmente afetada pela
presena dos europeus, as instituies polticas de base, em compensao, foram
profundamente alteradas.


      O regime colonial e suas estruturas
    Do palcio do sulto do Marrocos ao kraal de um chefe da frica oriental
ou austral, os administradores coloniais europeus procuravam e encontravam,
entre as "autoridades indgenas", aliados ou agentes para transmitir eficien-
temente as exigncias da dominao estrangeira ao conjunto das populaes
africanas. Era uma estrutura de autoridade assimtrica, no importando quo
pouco as instituies existentes fossem modificadas ou estivessem subordinadas

7     AFIGBO, in AJAYI e CROWDER (orgs.), 1974, p. 443.
A dominao europeia: mtodos e instituies                                       359



s necessidades dos europeus. No topo da pirmide administrativa encontrava-se
o governador ou residente-geral, que, embora em ltima instncia responsvel
perante o governo da metrpole, usufrua muitas vezes do poder como um
soberano.
    O quadro institucional em que o governador agia variava consideravelmente
em dimenso e complexidade, mas, via de regra, era assistido, no perodo de
entre as duas guerras, por uma espcie de conselho ou comisso consultiva que
representava ao mesmo tempo interesses "oficiais" (administrativos) e interesses
"no oficiais" (dos colonos ou dos comerciantes). Nos sistemas francs, portugus
e belga, a centralizao da administrao colonial reservava o poder legislativo
 metrpole, mas nas possesses britnicas da frica os conselhos coloniais
tomaram efetivamente o carter de assembleias protoparlamentares, em que os
eleitos ou nomeados, ou ambos, viram suas funes pouco a pouco passarem do
consultivo ao legislativo, preparando assim, sem querer mas de acordo com um
processo muito lgico, a via para a devoluo dos poderes polticos. Quando os
africanos comearam a estar presentes nos organismos consultivos coloniais,
principalmente no caso do sistema britnico, seu nmero e o modo como eram
designados constituam garantia suficiente de que no teriam influncia sensvel
no modo de dominao europeia de entre as duas guerras.
    A instituio central de toda a organizao colonial era o distrito ou regio
(chamada cercle na frica Ocidental Francesa, vocbulo militar que recordava a
natureza da aquisio colonial). Sobre a regio, distrito ou cercle, um administra-
dor europeu exercia a autoridade e dirigia as atividades tanto dos subordinados
europeus como das autoridades africanas integradas  administrao colonial.
    O elemento africano mais importante, aquele cujo papel tem sido mais
discutido, era o chefe local. Na verdade, todas as potncias coloniais dependiam
do chefe, tradicional ou designado, como elemento nuclear da estrutura admi-
nistrativa. O administrador colonial francs Robert Delavignette explicou de
modo sinttico a natureza do sistema, e sua anlise aplicava-se no somente 
frica Ocidental Francesa:
    No h colonizao sem poltica indgena; no h poltica indgena sem comando
    territorial; e no h comando territorial sem chefes indgenas que atuem como cor-
    reias de transmisso entre a autoridade colonial e a populao8.
   Embora nenhum observador ou crtico tenha jamais questionado a ativi-
dade dos chefes locais como parte integrante do sistema colonial em todo o

8    DELAVIGNETTE, 1946, p. 121.
360                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



continente, os especialistas, em compensao, muito tm discutido sobre a uti-
lizao que deles faziam as diversas potncias europeias9. A grande questo  a
diferena entre administrao direta e administrao indireta, entre delegao
da autoridade europeia aos chefes africanos e mediao europeia da autoridade
tradicional desses chefes. Os pesquisadores, na sua maioria, mostram interesse
pela distino entre os modos de poder dos britnicos e dos franceses na frica
subsaariana, os quais se diferenciavam pelos mtodos, se no pelos resultados.
Mas, para recolocar o problema no seu quadro histrico, talvez seja prefervel
proceder a uma anlise geral da poltica praticada no continente, reservando
no entanto, ainda, uma ateno particular para as atividades de britnicos e
franceses.
    A explicao mais clebre dada  importncia da "autoridade indgena" para a
ordem colonial  a de Lugard, terico do mtodo de dominao mais discutido
e mais imitado: a administrao indireta. Como tantos outros administradores
coloniais, fazia da necessidade virtude, mas raros falaram dessa virtude com
tanta persuaso.
    Encarregado de administrar o vasto territrio da Nigria do norte depois da
transferncia dos poderes da Royal Niger Company para o Estado, com falta de
pessoal e de fundos, Lugard compreendeu que estava fora de cogitao a ideia
de controle direto; mas, se chegou a tal concluso, foi tambm por estar pesso-
almente convencido, desde a poca em que servia em Uganda, de que o melhor
mtodo de administrao colonial era a utilizao das instituies autctones
existentes. Foi assim que entre 1900 e 1907, durante o perodo em que ocupou
o posto de alto-comissrio na Nigria, Lugard elaborou sua linha geral de ao,
dela fornecendo explicao detalhada em inmeras instrues aos administra-
dores, todas publicadas em Political Memoranda.
    O melhor resumo de sua poltica est contido em uma srie de instrues
a seus subordinados, datadas de 1906, nas quais preconiza "um governo nico,
onde os chefes africanos tenham deveres bem definidos e uma posio reco-
nhecida equivalente  das autoridades britnicas"10. Aquilo que deveria vir a ser
o sistema de administrao indireta fundava-se, portanto, no na subordinao,
mas na colaborao com o residente britnico, exercendo este essencialmente
funes consultivas em vez de executivas. Ao chefe africano  neste caso, o
emir peul  cumpria desempenhar o seu papel tradicional, seguindo diretrizes
bem precisas, mas no rgidas, da administrao colonial. Tentando dessa forma

9     Ver DESCHAMPS, 1963; CROWDER, 1964; CROWDER e IKIME (orgs.), 1970; ASIWAJU, 1976a.
10    LUGARD, 1919, p. 298.
A dominao europeia: mtodos e instituies                                                         361



integrar os emires ao sistema colonial, Lugard queria deixar-lhes a maior parte
de suas antigas responsabilidades, funes e prerrogativas, para que eles conti-
nuassem aparecendo aos olhos de seu povo como chefes legtimos.
    O regime de Lugard no apenas baseava-se na utilizao das autoridades
existentes, mantidas suas funes tradicionais, mas visava ainda a outro obje-
tivo: esperava-se que produzisse alteraes no modelo europeu, sobretudo com
respeito  justia e  tributao11. "A grande tarefa da administrao indireta",
escrevia o bigrafo de Lugard num artigo em defesa de sua poltica, " no
intervir nas rivalidades entre africanos, deixando campo livre suficiente para
que encontrem eles prprios o ponto de equilbrio entre o conservadorismo e a
adaptao"12 A realizao dessa tarefa estava em grande medida subordinada ao
conhecimento dos administradores europeus sobre os costumes e as instituies
locais, e tambm, claro est,  disposio das autoridades autctones para operar
esses ajustes, buscando modernizar suas prprias instituies.
    Tal como a esboamos, a administrao indireta na Nigria do norte pode
ser justaposta a outro modelo que, a exemplo do de Lugard, teve xito principal-
mente em regies inteiramente submetidas s instituies polticas muulmanas.
Foram os franceses que primeiro definiram teoricamente essa forma de admi-
nistrao indireta, cujo alcance superava o quadro africano. Por eles denominado
politique d'association, o modelo teve muita voga na virada do sculo e foi entu-
siasticamente oposto ao antigo ideal de assimilao poltica. Jules Harmand, o
terico conservador do colonialismo, nos oferece dele uma excelente explicao,
em longo trecho da obra Domination et colonisation, publicada em 1910 com
grande repercusso. A associao  declarava   uma forma de "administrao
indireta, com a conservao, embora melhor vigiada e dirigida, das instituies
do povo submetido e com o respeito por seu passado"13. Em 1923, a publicao
da obra de Sarraut, La mise en valeur des colonies franaises, marcou a consagrao
oficial dessa poltica.
    Proposta originariamente para a Indochina e mais tarde erigida em poltica
para a frica, a "associao" nem por isso deixava de estar geograficamente
limitada como prtica colonial. Os franceses s a consideraram seriamente no
Marrocos, sobretudo por causa do interesse que os assuntos referentes aos afri-
canos inspiravam ao residente-geral, Louis-Hubert Lyautey (ver figura 13.5),


11   Na Nigria, as modificaes provocadas pela administrao indireta esto cuidadosamente documentadas
     em IKIME (org.), 1980, captulos 25, 26 e 27.
12   PERHAM, 1934, p. 331.
13   HARMAND, 1910, p. 163.
362                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935



a quem a metrpole deixou as mos quase livres nos primeiros anos do pro-
tetorado. As estruturas do Estado xerifiano foram preservadas em todo o ter-
ritrio marroquino e, em mbito local, a ao administrativa assemelhava-se
estranhamente ao modelo proposto por Lugard. O contrleur civil francs devia
desempenhar o papel de conselheiro e no de superior hierrquico junto do
cdi, magistrado muulmano que exercia suas funes de acordo com o direito
muulmano (shari'a). Organizao semelhante existia no Marrocos espanhol,
onde a atividade do cdi era orientada pelo interventor, equivalente espanhol do
contrleur civil. A instituio do cdi foi conservada tambm na Somlia italiana,
mas dividindo as responsabilidades com chefes designados.
    Teoricamente, a administrao indireta era praticada tambm nos territrios
coloniais franceses ao sul do Saara; na realidade, porm, as coisas se passavam
de modo diferente. De acordo com um documento frequentemente citado,
pois descreve muito bem os mtodos empregados pelos franceses entre as duas
guerras, em 1917 o governador-geral da frica Ocidental Francesa, Joost Van
Vollenhoven, declarava: os chefes "no tm poder prprio de nenhuma espcie,
pois no h duas autoridades dentro do cercle [...]; no h seno uma! S o com-
mandant du cercle comanda; somente ele  responsvel. O chefe indgena no
passa de um instrumento, de um auxiliar" 14. Apesar das declaraes oficiais,
portanto, os franceses serviam-se das autoridades indgenas no indiretamente,
mas diretamente  e sob a autoridade da administrao colonial. E os portu-
gueses faziam o mesmo.
    Embora desacreditado por algumas crticas que o consideravam exagerada-
mente conservador15, o sistema de administrao indireta de Lugard conseguiu
inicialmente bons resultados na Nigria do norte; e foi estendido depois da
guerra  maior parte das possesses britnicas da Africa, inclusive aos territ-
rios de Tanganica e Camares, tomados  Alemanha. Os belgas o adotaram no
prprio Congo, depois de 1920. Se bem que as condies no fossem em parte
alguma melhores, nem os resultados mais brilhantes do que aquele obtido na
regio habitada pelos Haussa e Peul na Nigria do norte, os britnicos tentaram
de fato seguir as grandes linhas de costumes locais, de modo que at institui-
es recm-criadas, como os conselhos locais, estavam em consonncia com as
formas autctones de organizao. A notvel exceo, contudo, era a frica do
Sul, pas em que a noo de "autoridade indgena" constitua o meio pelo qual a


14    VAN VOLLENHOVEN, 1920, p. 207.
15    Para uma anlise mais recente, ver ABUBAKAR, in IKIME (org.), 1980.
A dominao europeia: mtodos e instituies                                                 363




figura 13.5 Louis-Hubert Lyautey (1859-1935), residente-geral francs no Marrocos, 1912-1925 (por
Chabellard). (Foto: Roger-Viollet.)
364                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935



minoria branca garantia a administrao local dos africanos, agora confinados
em reservas territoriais pela poltica de segregao.
    Em toda a frica subsaariana, no perodo de entre guerras o chefe local
deixou de ser uma "autoridade indgena", para tornar-se agente administrativo.
Suas atribuies e poderes tradicionais foram muito atenuados ou diminudos.
Essa mudana de posio, mesmo nas regies submetidas  administrao indi-
reta, pode ser facilmente explicada. Com efeito, as funes tradicionais eram
ampliadas sob presso das novas exigncias: recolhimento de impostos, opera-
es de recenseamento, recrutamento de mo de obra e alistamento. E quando
os europeus julgavam que os postos de autoridade tradicional no estavam
desempenhando a contento, colocavam neles ex-combatentes, sargentos ou fun-
cionrios. Esse era particularmente o caso nas colnias francesas e portuguesas,
onde comumente violavam-se as regras locais do recrutamento dos chefes. Alm
disso, os chefes eram s vezes encarregados de um papel poltico que outrora
no cabia em suas atribuies; ou, ento, lotados em sociedades acfalas, onde
no haviam tido antes nenhuma funo administrativa. Houve exemplos dos
dois casos entre os Igbo da Nigria, os Gikuyu do Qunia e os Langi do norte
de Uganda16.
    Com o estabelecimento da administrao europeia, os chefes foram mani-
pulados como um pessoal administrativo passvel de se transferir e remover 
vontade, para satisfao das necessidades coloniais. Foram abolidas e criadas
circunscries, segundo eram consideradas suprfluas ou teis s exigncias
coloniais. O caso mais impressionante foi, sem dvida, o do Congo Belga (atual
Zaire), pas em que, depois de 1918, as reformas propostas pelo ministro das
colnias, Louis Franck, redundaram numa reviso completa da ordem colonial.
O nmero de circunscries (chefferies) caiu de 6095 em 1917 para 1212 em
1938. Alm disso, uma circunscrio administrativa inteiramente nova, o sec-
teur, foi criada para consolidar a reforma. De acordo com o mesmo esprito, os
franceses decidiram adotar, na frica ocidental, uma nova circunscrio, o can-
ton  agrupamento de aldeias que, no dizer de um governador, "fica submetido
 autoridade de um agente administrativo indgena, que passa a ser nomeado
chefe de canto"17. Na Lbia, um decreto real de 31 de agosto de 1929 submeteu
as populaes  nova organizao administrativa que previa principalmente a


16    A esse respeito, ver especialmente TIGNOR, 1971; TOSH, 1973; AFIGBO, 1972; OCHIENG e
      MURIUKI, em OGOT (org.), 1972.
17    "Programa de ao econmica, poltica e social", 1933, p. 185; Apud SURET-CANALE, 1971, p. 323.
      Em itlico no original do autor.
                                                                                                                                                        A dominao europeia: mtodos e instituies
                                                                                                                                                        365
figura 13.6 A administrao indireta em ao: o prncipe de Gales recebe chefes em Acra, durante uma viagem  Costa do Ouro, 1925. (Foto: Illustrated
London News Picture Library.)
366                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



diviso das populaes nmades da colnia em "tribos" e "subtribos", conforme
a vontade do governador, aconselhado pelo comissrio regional. E mesmo os
britnicos operaram modificaes anlogas na zona oriental da Nigria, quando
a foi introduzida a administrao indireta. Em presena dos chefes locais, cuja
autoridade no podiam ento definir com preciso, os britnicos introduziram
o princpio do "chefe designado", com autoridade sobre territrios povoados por
milhares de habitantes, mas nomeado diretamente pelo governo colonial 18.
    O papel do administrador local complicava ainda mais a situao. Fossem
quais fossem suas intenes, acabava invariavelmente por tornar-se um chefe
auxiliar. Como Delavignette sublinha com satisfao, o administrador colonial
no era de forma alguma um administrador, mas um chefe, e reconhecido como
tal pelas populaes africanas submetidas  sua autoridade. A funo essencial
do administrador, afirmava ele,  de "agir como chefe"19. O discreto e reservado
papel que Lugard imaginara para o residente britnico na Nigria do norte no
foi aceito pelos administradores franceses e portugueses, que reservavam para si
a parte mais importante no exerccio da autoridade local. Na Somlia italiana,
os administradores aproximavam-se mais dos britnicos no que se refere s
relaes com os chefes locais, mas mesmo nesses dois grupos as teses de Lugard
eram necessariamente modificadas pelas exigncias do regime colonial e pela
personalidade de quem o exercia. Entre os funcionrios coloniais em servio
na frica, eram raros aqueles que, em tais relaes, davam provas da sutileza e
da faculdade de identificao que o bom funcionamento do sistema de admi-
nistrao indireta de Lugard exigia. Alm disso  e o que  mais importante  as
novas exigncias sociais impostas pelo colonialismo no tinham qualquer ponto em
comum com o costume africano, e s foram integradas s instituies autctones
mediante distores.


      Objetivos e imposies do colonialismo
   Para alm da retrica oficial, os objetivos concretos da colonizao revelaram-se
muito restritos. Limitavam-se essencialmente a manter a ordem, evitar despesas
excessivas e constituir uma reserva de mo de obra, primeiro para transporte de cargas
e depois para construo de estradas e ferrovias, mas tambm para fins comerciais.
Na prtica, esses objetivos eram atribudos s funes da administrao local,


18    Para maiores detalhes, ver AFIGBO, 1972.
19    DELAVIGNETTE, 1946, p. 29.
A dominao europeia: mtodos e instituies                                              367



e cumpridos de trs maneiras: reforma dos sistemas judicirios, recurso ao traba-
lho forado e instituio de impostos pessoais. As duas ltimas frmulas, dentre
inmeras instituies coloniais, foram as que mais perturbaes provocaram, ao
passo que a primeira talvez tenha sido a mais cuidadosamente planejada pelos
europeus.
    A introduo das instituies judicirias europeias deixou quase sempre
algum espao ao direito consuetudinrio africano e, conforme o pas (a Somlia
italiana, por exemplo), ao direito muulmano. No obstante, tambm provocou
mudanas. Como lorde Hailey observou, o princpio fundamental do direito
europeu divergia claramente dos sistemas africanos, pois estava centrado no
castigo do culpado  no na reparao do prejuzo causado  vtima 20. Inme-
ras vezes o poder colonial tentou instaurar uma diarquia judiciria, pela qual
litgios civis entre africanos seriam julgados de acordo com os procedimentos
pr-coloniais, enquanto o crime e os litgios entre europeus cairiam diretamente
sob a jurisdio colonial.
    No entanto, com a notvel exceo das colnias portuguesas, foi criado ou
fortalecido, um pouco por toda a parte, um sistema de tribunais voltado para as
necessidades dos africanos, tais como as entendiam os europeus21. Na primeira
dcada do sculo, os italianos na Somlia e os alemes na frica oriental procu-
raram ampliar os poderes judicirios dos chefes ou magistrados africanos. Mas
foi na costa ocidental que tentativas do mesmo gnero foram levadas mais longe
e com maior xito, com a instalao dos "tribunais indgenas" por Lugard. Parte
integrante da trpode "administrao indgena", o "tribunal indgena" era para
Lugard um instrumento para "inculcar a ideia da responsabilidade e desenvol-
ver em uma comunidade primitiva certo sentido da disciplina e do respeito 
autoridade"22. Presididos por africanos e essencialmente destinados a tratar dos
assuntos indgenas, esses tribunais deviam respeitar to estritamente quanto
possvel o direito consuetudinrio africano, modificando-o somente quando se
afastasse das normas jurdicas fundamentais dos ingleses. O modelo de Lugard
foi aplicado em numerosas possesses britnicas e nos territrios sob mandato,
e imitado pelos belgas no Congo.
    J os franceses aplicaram um mtodo diametralmente oposto, que buscava
reduzir os poderes dos africanos para fazer do administrador a nica autoridade
judiciria. Mesmo assim, o elemento mais singular e menos equitativo do sis-

20   HAILEY, lorde, 1957, p. 591.
21   Em ADEWOYE, 1977, pode ser encontrado fascinante estudo de um caso desse processo.
22   LUGARD, 1929, p. 548.
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tema francs ainda era o indignat 23. Empregado primeiro na Arglia na dcada
de 1870, foi depois adotado na frica Ocidental Francesa na dcada de 1880
e, tanto a como na Arglia, sobreviveu at o fim da Segunda Guerra Mundial.
Regulamentado por um decreto de 1924, o estatuto do indigenato permitia a
qualquer administrador francs aplicar pena de at quinze dias de priso e de
multa por diversas infraes, desde atraso no pagamento de impostos at falta
de respeito para com funcionrios franceses.
    Os impostos pessoais, que afinal incidiam sobre todos os africanos do sexo
masculino, tinham repercusso mais profunda que os regimes jurdicos. Concebi-
dos originariamente como meio de autofinanciamento da colonizao, tambm os
inspirava a ideia de obrigar os africanos a participarem das atividades econmicas
dos europeus, ampliando o setor monetrio da economia. Nos primeiros anos do
sculo XX, esses impostos estavam regulamentados como nenhuma outra insti-
tuio colonial, depois de ter passado por um claro ciclo de evoluo24. O imposto
de palhota, muito difundido nos primeiros anos da dominao colonial, tambm
suscitou contestaes e protestos entre os africanos25. Na dcada de 1920 foi, de
modo geral, substitudo por um imposto pessoal ou capitao, que permaneceu
como forma de tributao mais generalizada at o fim da era colonial. Entre
as duas guerras, tentou-se vrias vezes transform-lo num imposto progressivo,
segundo a regio ou o rendimento potencial das terras. Finalmente introduzido,
na dcada de 1920, em vrias possesses britnicas e no Congo Belga, o imposto
sobre a renda das pessoas fsicas visava sobretudo os no-africanos, em geral os
nicos a possuir renda suficiente para sofrer tributao.
    Em meio a esse quadro geral, havia numerosas variantes regionais, a mais
importante das quais relacionada com a noo de "autoridade indgena" lanada
por Lugard. Como este escrevia em Dual Mandate, "o imposto [...] , em certo
sentido, a base de todo o sistema, j que proporciona os meios para pagar ao
emir e a todos os subordinados"26. A instituio que assegurava o funciona-
mento do sistema era o "tesouro indgena", ideia cuja paternidade cabe a sir
Charles Temple, a servio de Lugard na Nigria do norte. Cada "autoridade
indgena" devia receber de volta uma porcentagem dos impostos arrecadados em
seu distrito, destinada a um "tesouro indgena" alimentado tambm pelo produto
de diversas licenas e multas aplicadas pelos tribunais. Era desse fundo que o


23    Para um estudo mais recente e detalhado, ver ASIWAJU, 1979.
24    HAILEY, lorde, 1957, p. 676.
25    Ver o captulo 6.
26    LUGARD, 1929, p. 201.
A dominao europeia: mtodos e instituies                                                           369



emir ou o chefe retirava sua prpria renda e pagava aos seus subordinados. O
remanescente seria empregado no funcionamento e na melhoria dos servios
pblicos. A frmula, aplicada originalmente nos emirados, estendeu -se, com
a administrao indireta, no s s possesses britnicas das costas oriental e
ocidental, mas tambm ao Congo Belga.
    Dentre todas as inovaes coloniais, o sistema tributrio foi o que mais con-
tribuiu para a burocratizao da administrao colonial. Atribua uma funo
comum ao administrador e ao chefe africano que, ao fixar e recolher o imposto,
muitas vezes de acordo com os conselhos locais de ancios ou de notveis,
relembrava a todos o poder regulamentador do novo sistema27. Ademais, depois
dos cobradores de impostos propriamente ditos, no tardaram a aparecer agen-
tes administrativos que passaram a integrar uma nova elite colonial. Dentre
eles, os mais representativos e os mais contestados foram, provavelmente, os
akida, empregados pelos alemes na frica oriental. Antes da colonizao euro-
peia, esses funcionrios de lngua kiswahili estavam lotados na regio costeira;
ento, a administrao alem atribuiu a eles novas funes e transformou-os em
cobradores de impostos e recrutadores de mo de obra. Em 1936, funcionrios
africanos foram nomeados cobradores de impostos na Rodsia do Norte, novo
indcio da tendncia para a burocratizao.
    A introduo de impostos em moeda foi logo seguida pelos impostos em tra-
balho, manifestao clara das tentativas europeias para arregimentar mo de obra
na organizao econmica da aventura colonial. O impt de cueillette, que permitia
a coleta de borracha selvagem no Estado Livre do Congo, foi o mais criticado;
mas o que vigorou por mais tempo (s seria abolido em 1944) foi o imposto em
trabalho chamado prestation, ao qual estavam obrigados todos os homens das
possesses francesas da frica ocidental e da equatorial, salvo se o remissem
mediante pagamento  vista. Inversamente, em Camares os alemes permitiam
aos africanos libertarem-se da capitao "pagando" em trabalho. E, em uma regio
de Uganda, os britnicos conservaram o luwalo  tributo pr-colonial de um ms
de trabalho para as obras pblicas  at 1938, data em que foi substitudo por um
imposto em numerrio. Os impostos, entretanto, no passavam de excees ao
sistema de trabalho forado que todas as potncias coloniais empregavam.
    Sempre s voltas com a falta de mo de obra para novos projetos e novos
empregos financiados pelo regime colonial, os administradores europeus impuse-


27   Lugard, em particular, exaltava os mritos do imposto pessoal por assinalar "o reconhecimento do prin-
     cpio segundo o qual cada indivduo tem, em relao ao Estado, obrigao proporcional aos seus meios",
     ibid., p. 232.
370                                                          frica sob dominao colonial, 1880-1935



ram sua dominao antes do final do sculo graas a um sistema de arregimen-
tao praticamente forada, que, de resto, destinava-se muitas vezes a satisfazer
tanto as necessidades do setor privado como as do setor pblico. O sistema,  certo,
entrou em declnio no incio do sculo XX, seja porque a necessidade de carre-
gadores era menor, seja pela crescente presso da opinio internacional. Mesmo
assim, embora muito modificado, seu uso continuou a fazer parte integrante do
regime colonial at o fim da Segunda Guerra Mundial. Foi esse, pelo menos, o
caso da administrao colonial francesa, que, at o final do conflito, empregava
grande quantidade de africanos submetidos  prestation, sobretudo para a cons-
truo de ferrovias (por exemplo, na frica ocidental). Alm disso, as autoridades
coloniais francesas frequentemente autorizavam o recrutamento forado para fins
comerciais, como o caso das plantaes de seringais na frica equatorial e das
florestas da Costa do Marfim 28. Os abusos eram, ainda ento, comuns o bastante
para suscitar a indignao da opinio pblica, da qual Andr Gide se tornou o
intrprete mais eloquente com a clebre Voyage au Congo (1927).
    Encontravam-se, contudo, no Sudoeste Africano alemo e na Unio Sul-
Africana as formas mais opressivas de regulamentao do trabalho. A poltica
praticada pela Unio Sul-Africana foi, evidentemente, estendida ao Sudoeste
Africano depois da Primeira Guerra, quando ele se tornou territrio sob man-
dato. No entanto, o regime alemo precedente era extraordinariamente seme-
lhante ao da Unio Sul-Africana, os dois igualmente severos: o trnsito dos
africanos era regulado por salvo-condutos e cdulas de identidade; leis sobre a
vadiagem castigavam quem no estivesse munido de um contrato de trabalho,
feito de maneira a dar enorme vantagem ao empregador alemo. Tambm na
Unio Sul-Africana havia leis sobre vadiagem e trnsito de pessoas, ficando os
contraventores sujeitos a penas de trabalho forado minimamente retribudo.
As leis de 1923 sobre os autctones (regies urbanas) e sobre a administrao
autctone reafirmaram aquelas anteriores referentes ao trnsito, enquanto outros
documentos legais, como o de 1922 sobre a aprendizagem, restringiam forte-
mente as possibilidades de emprego aos africanos.


      Meios de controle e de administrao
   Por diversos que tenham sido as teorias e os mtodos da dominao colonial
propostos ou aplicados no perodo de entre as duas guerras, nem por isso deixam

28    O caso da Costa do Marfim foi tratado por SEMI-BI, 1973, e por ANOUMA, 1973.
A dominao europeia: mtodos e instituies                                                          371



de delinear um modelo bem ntido de regime burocrtico. Na poca, a domina-
o colonial passara do controle militar ao controle institucional civil; o recurso
direto  fora tendia a ser substitudo pela persuaso administrativa. E, mesmo
assim, o ltimo argumento do poder colonial continuava a ser o canho.
    Como gostavam de salientar seus mais ardentes defensores, o poder colonial
havia sido implantado pela fora das baionetas e era com ela que se manti-
nha. Tendo isto em mente, todas as potncias europeias alistavam em suas
foras armadas elementos recrutados entre a populao autctone (ver figura
13.4). Embora organizao e eficincia variassem segundo as regies e obje-
tivos nacionais especficos, no perodo de entre as duas guerras essas tropas
coloniais exerciam principalmente funes de polcia, auxiliadas por foras de
gendarmes recm-criadas. Mas, como eram frequentemente destacados para
regies perante as quais eram cultural e etnicamente estrangeiros, os soldados
africanos sentiam-se desarraigados de seu prprio meio social e hostilizados
pelas populaes locais, com quem estabeleciam contato pela fora. Esse dado,
somado  recusa dos europeus em permitir o acesso dos africanos a postos de
comando,  que explica o fato de o exrcito jamais haver cumprido na frica,
nos movimentos de independncia, o papel poltico que desempenhou na sia
e no Oriente Prximo. De fato, a nica potncia colonial a organizar realmente
uma polcia militar para os africanos sob sua dominao foi a Frana, que, desde
os primeiros anos do sculo XX, considerava a frica subsaariana uma reserva
humana essencial  manuteno da sua posio militar no mundo.
    No perodo de entre as duas guerras, estigmatizado pelos contemporneos
como um perodo de "paz colonial" , as atividades militares continuavam a
pontilhar de forma severa os assuntos africanos. O manifesto desejo europeu
de manter, tanto quanto possvel, a frica militarmente neutra de fato no se
concretizou. Os franceses introduziram, em 1919, uma lei de conscrio que
previa o recrutamento anual de 10 mil africanos; os britnicos organizaram a
Fora de Defesa do Sudo, formada somente por oficiais sudaneses e britnicos
e destinada primordialmente s necessidades estratgicas imperiais no Oriente
Prximo e na frica oriental. A Force Publique do Congo Belga, exibindo ao
mesmo tempo a qualidade de exrcito de ocupao e de fora de polcia, foi
muitas vezes usada durante o perodo para sufocar a resistncia representada
por movimentos de sincretismo religioso29. No contexto de guerra declarada


29   Dentre os muitos estudos sobre o desenvolvimento histrico do militarismo na frica moderna, a melhor
     introduo  aqui e ali genericamente recapitulada neste texto   de J. S. Coleman e B. Belmont, in
     JOHNSON (org.), 1962.
                                                                                                                                                             372
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figura 13.7 A campanha na frica Oriental Alem: askaris da frica oriental enviados como agentes recrutadores pela administrao civil. Foto tomada perto
do rio Ruwu, em abril de 1917. (Foto: Imperial War Museum.)
A dominao europeia: mtodos e instituies                                  373



 fcil dimensionar os acontecimentos. A campanha italiana para subjugar a
Lbia, na dcada de 1920, bem como o esforo dos espanhis e dos franceses
para rematar a guerra do Rf, no Marrocos, falam por si. Mas foram superados
pela guerra de rapina empreendida por Mussolini contra a Etipia, fato que
encerrou tragicamente o perodo que estamos analisando.
    O histrico das operaes militares desenvolvidas na frica entre as duas
guerras no invalida seriamente a tese que define esse perodo como de domina-
o administrativa. Retrospectivamente, ganham relevncia os efeitos comuns, e
no as intenes divergentes dos mtodos e da prtica coloniais europeus. No
h a menor dvida de que, ao burocratizar-se, o regime colonial preparou efeti-
vamente, em parte, apesar de tudo, o movimento pela independncia nacional.
Os contornos de uma nova elite poltica delineavam-se lentamente,  medida
que em `diversos servios coloniais  mas principalmente nos britnicos  os
funcionrios subalternos e os chefes designados aprendiam a aplicar, em escala
modesta que fosse, a regra de Napoleo: "As carreiras abertas ao talento". Cen-
tros de formao, como a Escola Normal William-Ponty, em Dacar, preparavam
os educadores e os administradores em que a administrao colonial se apoiava
cada vez mais. Principalmente nas regies urbanas, comeava a soprar o "vento
da mudana".
    Entretanto, no era isso que os administradores coloniais desejavam. Mesmo
quando acentuavam a "preeminncia dos interesses africanos", estavam conven-
cidos de que somente eles poderiam garantir e estruturar eficazmente, no plano
social e econmico, o bem-estar das populaes autctones. Conforme salien-
tou um dia lorde Cromer, o objetivo de um bom governo e o de um governo
independente eram contraditrios no contexto colonial. Deste modo, o sistema
colonial afirmava-se enquanto regime autoritrio, sem a previso de vir a outor-
gar o poder poltico aos africanos que pretensamente servia. Sua caracterstica
mais comum era o paternalismo, e a diviso de responsabilidades era somente
tolerada, na melhor das hipteses, nas zonas de significativa colonizao branca.
A histria dos objetivos cambiantes e da no menos cambiante interpretao da
"supremacia dos interesses africanos" no Qunia  das mais esclarecedoras. O
informe oficial britnico de 1923 recorria a essa noo para descartar as reivin-
dicaes da populao autctone por uma representao equitativa nos assuntos
da colnia. Informes posteriores, expedidos em 1927 e 1930, apenas acrescen-
taram matizes a essa noo: continham concesses  populao branca cada vez
mais numerosa, a qual era, ento, chamada a participar das responsabilidades da
"tutela". Supremacia dos interesses africanos, por conseguinte, j no significava
preponderncia mas apenas considerao por esses interesses.
374                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Mesmo nos territrios onde foram implantadas instituies parlamentares
com vistas  criao de um governo colonial dotado de certos poderes, ainda
assim visava-se garantir a supremacia dos brancos. Na Arglia, por exemplo,
um sistema eleitoral de dois colgios, sancionado pela lei Jonnart, de 1919,
comportava uma participao rabe proporcionalmente menor do que a partici-
pao europeia nas Dlgations financires, esboo de parlamento representativo
de grupos de interesses e no de regies geogrficas. J na frica do Sul, os
africanos no desempenhavam papel algum nos trabalhos parlamentares. A
lei de 1936, relativa  representao dos povos autctones, na realidade supri-
miu os africanos dos registros eleitorais da colnia do Cabo e restringiu-lhes
a participao poltica  eleio de um nmero limitado de brancos em toda a
Unio, os quais representariam os "interesses indgenas". Nessas duas colnias,
onde havia forte concentrao branca, bem como em todas aquelas em que se
encontravam moradores europeus, a minoria demogrfica constitua de fato a
maioria poltica, excluindo dessa forma qualquer semelhana com um governo
democrtico de modelo europeu.
    Ainda que, em perspectiva histrica, os efeitos polticos gerais dos diversos
mtodos de colonizao caracterizem-se mais pelas similitudes do que pelas
divergncias, as diferenas de mtodo exerceram papel importante na preparao
da devoluo dos poderes pelo regime colonial. O colapso final desse regime na
frica explica-se, em grande medida, pela fraqueza dos europeus, cada vez mais
incapazes  financeira, militar e moralmente  de dar a ele prosseguimento, em
face da presso nacionalista africana. E, no entanto, durante os ltimos anos
do colonialismo, os mtodos preestabelecidos de imposio do poder tiveram
influncia sobre o processo de mudana. As noes administrativas de assimi-
lao e de diferenciao, de centralizao e de autonomia local, tornaram-se
ento fatores determinantes do processo. Como se ver no ltimo volume desta
obra (VIII), s vezes a transmisso dos poderes ocorreu suavemente, mediante
o "Westminster system" inspirado no parlamentarismo britnico, escapando ao
controle dos conselhos legislativos coloniais que tinham permitido  oposio
poltica definir seus mtodos. Um dos mais claros exemplos disso pode ser
encontrado no processo de independncia da Costa do Ouro, atual Gana. Os
casos mais radicais foram os da Arglia francesa e, em poca mais recente, os das
colnias portuguesas de Angola, Moambique e Guin-Bissau, sempre conside-
radas, de acordo com a tese da assimilao, como prolongamentos ultramarinos
do Estado Nacional.
    A diversidade dos mtodos importa menos, do ponto de vista histrico,
do que as similitudes na apreciao da situao colonial. Em que pesem as
A dominao europeia: mtodos e instituies                                  375



proclamaes consignadas nos documentos da Sociedade das Naes e des-
considerando o enfraquecimento de suas posies mundiais depois da Primeira
Guerra, as potncias europeias instaladas na frica no pensavam sob hiptese
alguma na devoluo do poder poltico durante o perodo que separou as duas
guerras. Com exceo do Egito, a frica parecia o nico continente onde o
colonialismo se instalara para ficar. Alis, os mtodos coloniais foram traados
por inteiro para acomodar os interesses e as intenes das potncias europeias.
A tarefa poltica, por conseguinte, consistia essencialmente em adaptar a frica
aos objetivos europeus, pouco importando se o poder colonial era exercido direta
ou indiretamente.
    O sistema colonial  e a est o elemento mais importante de toda a histria
do perodo de entre as duas guerras  fixou o quadro administrativo geral no qual
o governo nacional devia inserir-se durante a primeira dcada de independncia.
A incipiente normalizao da vida poltica no contexto de uma estrutura organi-
zada  europeia constitui o aspecto principal da modernizao que os europeus
introduziram ento na frica, mas para servir a seus prprios desgnios.
A economia colonial                                                       377



                             CAPTULO 14


                      A economia colonial
                                Walter Rodney




    A conquista e as novas relaes de produo, 18801910
    Desde o final do sculo XV, a frica participava da economia mundial como
um setor perifrico e dependente, inteiramente voltada para a Europa. Mas, em
vsperas do estabelecimento da dominao colonial europeia, no existia em
solo africano controle estrangeiro algum sobre as atividades econmicas coti-
dianas. Esta situao foi se estabelecendo progressivamente depois da perda da
soberania africana. Ao que parece, o sistema econmico colonial no atingiu o
apogeu seno no perodo imediatamente anterior  Segunda Guerra Mundial.
Os anos 1880-1935 correspondem, portanto, ao perodo em que foram lanadas
as bases das relaes de produo caractersticas do colonialismo. A oposio
e a resistncia africanas mantiveram os futuros colonizadores em xeque at a
segunda dcada do sculo atual, e at para alm disso, em alguns casos. s ten-
tativas de destruio de sua independncia econmica, os africanos respondiam
com a violncia. Assim o provam algumas lutas anticoloniais clebres, j citadas
 como a Hut Tax War em Serra Leoa, a revolta dos Bailundu em Angola, as
guerras dos Maj Maj na frica Oriental Alem, a rebelio dos Bambata na
frica do Sul.
    Para os africanos, as primeiras evidncias da nova economia manifestavam-se
como estradas, ferrovias e linhas telegrficas. A construo de sistemas de trans-
porte e comunicaes era o preldio da conquista: constituam meios logsticos
378                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



que permitiriam novas agresses a partir das bases formadas pelas zonas ocupa-
das. Muitas vezes chefes africanos opuseram-se a que os europeus levantassem
a infraestrutura de transporte e comunicaes, mandando as populaes derru-
barem postes telegrficos e sabotarem vias frreas. Assim se passou na regio do
Nger e da Senegmbia, onde a presena militar da Frana datava das dcadas
de 1880 e 18901. No entanto, raras eram as estradas e vias frreas de interesse
exclusivamente militar: as vias frreas que facilitavam a conquista tambm ser-
viam para a explorao de amendoim, algodo e outros produtos.
    As economias do litoral africano rapidamente viram-se reduzidas a entidades
dependentes no mbito da economia de cada uma das potncias colonizadoras,
diferentemente das populaes do interior, que, no conjunto, foram as ltimas
a entrar no circuito de colheita dos produtos, cultivos comerciais e trabalho
remunerado. Considerveis investimentos foram necessrios para a construo
de portos de guas profundas com capacidade adequada de descarga2, e mesmo
assim menores do que aqueles exigidos pela construo de redes de estradas e
ferrovias que penetrassem o serto. O afastamento da costa constituiu um dos
elementos deterrninantes do rpido avano colonial.
    O fator mais decisivo para a implantao da economia colonial foi o grau de
participao que as diferentes regies da frica tinham na economia mundial.
Evidentemente, isso estava relacionado em parte com o fato de que os euro-
peus preferiam exercer sua jurisdio sobre territrios j familiares, e em parte
com o fato de que a orientao do comrcio exterior pr-colonial predispunha
favoravelmente as comunidades africanas s inovaes econmicas coloniais,
como a cultura de produtos agrcolas especialmente destinados  venda para
os europeus. As zonas provedoras de escravos, que se estendiam do Senegal a
Serra Leoa, da Costa do Ouro (atual Gana)  Nigria, do rio Congo a Angola,
foram as faixas do litoral onde os europeus primeiro se fixaram. Certos tra-
os da economia colonial j se manifestavam nessas regies antes mesmo do
estabelecimento oficial da dominao estrangeira, pois tanto africanos como
europeus procuravam incentivar a produo de gneros exportveis, de modo a
poderem substituir o trfico de escravos por um comrcio "legtimo". Na frica
ocidental, chefes, negociantes e outros elementos da populao obtinham van-
tagens com a manuteno de relaes comerciais com o exterior e com o acesso
a produtos importados.  evidente que a propenso dos africanos a negociar
com os europeus no se manteve limitada  costa. Os europeus sabiam que o

1     GANIER, 1965. Ver tambm o captulo 6 desta obra.
2     ALBION, 1959.
A economia colonial                                                          379



seu comrcio com a frica ocidental tinha razes no interior. De fato, supe-
restimaram a importncia das riquezas passveis de explorao imediata, o que
explica o interesse comercial pelas regies situadas a montante da confluncia
do Nger-Benue, no decurso das dcadas de 1880 e 1890.
    Na costa oriental do continente, o comrcio do oceano ndico no estava
voltado exclusivamente para os pases europeus, como tambm no estava sob
o controle de europeus ou de afro-europeus o intercmbio de longa distncia
a partir da frica oriental. Aos colonizadores cabia suplantar os negociantes
rabes, Swahili e indianos. A experincia da frica oriental confirma a nossa
hiptese: o essencial das atividades coloniais realizou-se, num primeiro tempo,
naquelas regies africanas que j faziam parte dos circuitos de troca intercon-
tinental. A poro do litoral pela qual Reino Unido e Alemanha manifestaram
maior interesse (que hoje  parte da Tanznia) era a mesma reivindicada pelo
sulto de Zanzibar, comprador insupervel no trfico de marfim e de escravos
 e das especiarias por estes cultivadas  com europeus, rabes, indianos e ame-
ricanos. A partir das cidades swahili do litoral, os colonos europeus seguiram o
caminho trilhado pelos rabes, procurando acompanhar as rotas das caravanas
at o seu trmino, na regio dos grandes lagos. Em meados da dcada de 1880,
j estava desencadeada a corrida, s margens do lago Vitria, para onde empre-
sas coloniais acorreram, envolvendo-se num conjunto de atividades econmicas
africanas j bastante desenvolvidas. Em 1902, quando os britnicos terminaram
a construo da linha frrea que ligava Mombaa ao lago Vitria (ver fig. 16.1,
2 e 5), os fretes que at ento sustentavam o trfego de caravanas antes exis-
tente mais ao sul, em Tanga e Bagamoyo, passaram a ser realizados por trem.
Para no ficarem atrs, tambm os alemes resolveram, em 1905, construir uma
linha frrea do litoral ao interior, atravessando devidamente a rota do marfim
e dos escravos at o lago Tanganica. Nos confins da frica central, foi ainda
a rede comercial rabe que forneceu aos colonos europeus a sua primeira base
econmica.
    O norte da frica combinava certos traos das regies oriental e ocidental
do continente, mas de forma mais aguda. As economias norte-africanas faziam
parte tanto do conjunto mediterrnico como do sistema transaariano. A expe-
rincia j adquirida pelo contato com a economia europeia permitiu a diversos
setores da sociedade norte-africana adaptar-se  intensificao da produo
destinada  Europa e  difuso de artigos europeus nos mercados locais. Mas
a bem estabelecida e exploradora classe dirigente estava resolvida a defender
suas fronteiras, ainda que desejosa de reforar as relaes econmicas com os
europeus. Desse modo, embora muitas vezes deixando aos norte-africanos uma
380                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



autoridade nominal, a economia colonial progredia, e antes mesmo da completa
submisso do corpo social indgena estava institucionalizada.
    O preldio da colonizao do Egito pelos europeus remonta  expedio
napolenica de 1798. No sculo XIX, a presena europeia frustrou as inova-
es econmicas de Muhammad `Al. Na dcada de 1840, o algodo de fibras
longas, introduzido como base para a industrializao, promoveu a integrao
do Egito ao sistema capitalista mundial como produtor de bens agrcolas
primrios. Depois de terem contribudo para o fracasso da industrializao
egpcia, o Reino Unido e a Frana penetraram no mercado interno de terras
e hipotecas numa tentativa de controlar a economia desse pas3. Na Arglia,
uma spera resistncia aos franceses prosseguia ainda na dcada de 1870, mas,
ento, os colonos j se haviam instalado solidamente na agricultura, conferindo
 economia colonial na Arglia a sua primeira particularidade. Esta forma
de colonizao, alis, viria a multiplicar-se em escala variada pelo resto do
Maghreb e at  Lbia.
    Foi entre 1881-1882 que a Tunsia entrou na era colonial; j o Marrocos
e a Lbia foram parcialmente anexados em 1912. Os colonos propagaram seu
motor econmico nos diversos pases do Maghreb com intervalos de trinta
anos: primeiro na Arglia, a partir de 1860, depois na Tunsia, a partir de 1890
e, finalmente, no Marrocos, a partir de 19204. Na Lbia, os imigrantes italianos
eram menos numerosos do que os franceses no Maghreb; na Tripolitnia, os
colonos agricultores tiveram de esperar pela completa derrota do povo da Lbia,
que ocorreu por volta de 1931.
    Embora as datas de arranque das economias coloniais dos diversos terri-
trios do norte da frica perfaam um longo intervalo de tempo, continua
vlido situar, como de costume, o incio do colonialismo na dcada de 1880.
Foi principalmente graas ao poderio financeiro que as potncias europeias
reduziram as economias norte-africanas a um estado de dependncia colonial.
O norte da frica entrou na era do imperialismo depois que vultosos capitais
asseguraram o financiamento do canal de Suez e que foram liberalmente con-
cedidos emprstimos s classes dirigentes, desde o Egito at o Marrocos. Este
processo teve seu apogeu  por volta de 1880, levando  sujeio progressiva
dos regimes locais e, consecutivamente,  conquista da soberania por uma ou
outra das potncias europeias interessadas. Assim, no norte da frica, embora
a economia colonial tenha tido um longo perodo de gestao com incio pre-

3     ISSAWI, 1963.
4     AMIN, 1970, p. 256.
A economia colonial                                                         381



coce, no se pode afirmar que ela se tenha estabelecido definitivamente antes
da dcada de 1890, poca em que o capital monopolista dominava a Europa. O
mesmo se aplica  frica austral.
    Na poca da partilha imperialista, dezenas de milhares de colonos mantinham
relaes econmicas com os africanos e estavam estabelecidos na frica do Sul.
A independncia econmica africana foi minada pelas apropriaes violentas de
terras, enquanto as foras produtivas eram submetidas s ordens dos brancos.
Durante o sculo XIX, brancos e negros empenharam-se no desenvolvimento
de novas relaes econmicas e sociais5. De incio, as relaes eram coloniais
somente na medida em que reuniam uma minoria estrangeira e uma maioria
indgena num contexto de autoridade/sujeio, mas aps a descoberta de ouro
e diamantes no tardaram a enquadrar-se no mbito das relaes determinadas
pela intruso do grande capital.
    A explorao de ouro e diamantes na frica do Sul teria sido imposs-
vel sem tecnologia moderna e concentraes relativamente importantes de
capital. Nem o governo do Reino Unido nem os monoplios de minerao
surgidos a partir da dcada de 1870 tinham qualquer inteno de deixar as
riquezas do subsolo sob o controle dos Beres, ou tampouco de dar priori-
dade ao estabelecimento de colonos em grandes exploraes com terras ar-
veis, irrigao, pastagens e gado, j que anteviam os enormes benefcios que a
metrpole poderia auferir do subsolo e do trabalho africanos. As estruturas
sociais dos Beres fundavam-se numa mistura de elementos que associava
aos aspectos plantao com escravos, domnio feudal e comunidade patriar-
cal, as relaes de produo capitalistas. Depois da descoberta de diaman-
tes em Kimberley (1870) e, principalmente, com a descoberta de ouro em
Witwatersrand (1886), a burguesia decidiu-se a impor o seu domnio sobre
todas as estruturas sociais pr-capitalistas da frica do Sul, sem se preocupar
com questes de raa. As guerras anglo-beres (1899-1902) constituam
tambm uma forma de resistncia anti-imperialista, embora equvoca, pois
ao mesmo tempo era seu intuito estabelecer mais solidamente os colonos
no pas. A derrota dos Beres na luta pela autonomia e o esmagamento das
populaes africanas da regio (o captulo 9 j estudou isso) assinalaram o
nascimento da economia colonial sul-africana, indiscutivelmente centrada
na transferncia de matriasprimas, lucros e outros fatores de produo para
as metrpoles capitalistas.


5   DE KIEWIET, 1965, p. 34.
382                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



      Capital e coero no perodo 19001920
    Durante pelo menos trs dcadas, entre 1880 e 1910, a resistncia africana
contribuiu muito para reduzir o ritmo do avano da colonizao econmica.
Alm disso, era pouco o interesse imediato do capital monopolista europeu. A
frica suscitara enorme ambio na era do mercantilismo e da acumulao, mas
a relativa obscuridade em que ela mergulhou no sculo XIX persistia nos pri-
meiros anos do colonialismo, apesar do aumento do controle poltico-econmico
subsequente  partilha e  conquista do continente. Consideradas em termos
dos investimentos globais efetuados pelo capitalismo monopolista at a Primeira
Guerra Mundial, as cifras relativas ao crescimento da economia colonial africana
no impressionam muito. As mais expressivas referem-se a importaes e expor-
taes, pois o setor import/export era o elemento bsico da economia colonial. O
volume de mercadorias importadas pela frica aumentava lentamente. Exceo
feita  frica do Sul, a lista de importaes no vinha encabeada por mquinas,
ou implementos, ou produtos de consumo de qualidade. Em geral, a expanso
do intercmbio voltava-se para produtos tradicionais ao comrcio de meados do
sculo XIX, que no eram muito diferentes daqueles produtos intercambiados
na poca do trfico de escravos. Os artigos de algodo continuavam a dominar
as trocas entre a Europa e a frica, e em muitos lugares a importao de tecido
de algodo manteve o primeiro lugar durante todo o perodo, embora mais tarde
outros artigos de uso domstico comum  utenslios de cozinha, rdios, bicicletas
e mquinas de costura  tenham adquirido popularidade.
    A produo de artigos de exportao pela frica aumentava lentamente e de
modo pouco regular. Na frica ocidental, por exemplo, a produo de borracha
teve um surto efmero na dcada de 1880. Na frica central e na frica oriental,
a indstria da borracha entrou em declnio aps a crise internacional de preos
de 1912-1913, de forma que s a Libria acabou sendo identificada com esse
produto outrora to exaltado pelos europeus, vidos de explorar a frica. As
estatsticas mostram que, de modo geral, as exportaes compreendiam quan-
tidades insignificantes num primeiro momento (as duas primeiras dcadas do
sculo), seguido depois, at 1930, por uma poca de aprecivel crescimento. O
mesmo ocorreu com o algodo, o leo de palma, o caf, o amendoim e o cacau,
nas respectivas regies do continente.
    No incio do perodo colonial, o investimento de capitais estrangeiros na
indstria e na agricultura africanas foi modesto. A frica do Sul voltou a cons-
tituir a uma exceo, juntamente com a Arglia, que tambm atraa, embora em
A economia colonial                                                            383



menor grau, capitais dos colonos e investimentos na minerao.  possvel que
se tenha exagerado na questo da insuficincia de capitais6, pois o investimento
no era o nico meio de mobilizao da mo de obra e, portanto, da produo
de excedentes na economia colonial africana. Ao contrrio, foi sobretudo recor-
rendo  coero que as potncias coloniais conseguiram reunir pessoal e levar
produtos intercambiveis para o mercado.
    Na Europa, o declnio do feudalismo e o concomitante surgimento do capi-
talismo testemunharam a brutal destruio da independncia camponesa e a
criao de uma classe trabalhadora cujos membros no tinham alternativa seno
buscar pagamento por seu trabalho, como forma de sobrevivncia.
    Na frica, a autonomia da aldeia indgena teve de ser mais brutalmente
destruda, pois no havia nenhum mecanismo social interno que transformasse
trabalho em mercadoria. Era, ento, necessrio estabelecer uma relao entre
capital europeu suscetvel de ser investido na frica e a mo de obra africana.
Ora, esse capital no exercia atrao sobre a mo de obra, fosse por bons salrios,
fosse por altos preos de compra; do lado africano, a traumatizante passagem
de estruturas no capitalistas independentes para estruturas quase capitalistas
avassaladas aos centros econmicos do imperialismo no se fez, evidentemente,
sem dificuldades. Consequentemente, para recrutar a mo de obra africana, era
preciso lanar mo da fora, quer abertamente, quer sob a proteo das leis dos
novos regimes coloniais.
    Formas evidentes de trabalho forado e mal escondidas formas de escravido
marcaram, portanto, a consolidao da economia colonial na frica. Desde os
primeiros anos do sculo atual, o "contrato de trabalho" institudo pelos por-
tugueses em So Tom e os horrores perpetrados no Congo do rei Leopoldo
(hoje Zaire) causaram tamanho escndalo que foi preciso proceder a algumas
reformas ou, pelo menos, camuflar essas prticas, para acalmar a opinio libe-
ral da Europa ocidental. A classe operria europeia chegou inclusive a prestar
ajuda aos resistentes africanos para remediar a situao. Entre 1904 e 1907, o
governo da Alemanha imperial conseguiu esmagar impiedosamente a agita-
o dos africanos em Camares, no Sudoeste Africano (hoje Nambia) e na
frica Oriental Alem (atual Tanznia); desse momento em diante, contudo,
os socialdemocratas intervieram no Reichstag com vistas a reformar o estatuto
colonial pela via legislativa. Depois de 1918, quando estava em pauta distribuir
as colnias alems, o Reino Unido foi o primeiro a propor que a Alemanha fosse


6   FRANKEL, 1938.
384                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



definitivamente desapossada de seus territrios, em razo de o colonialismo
alemo ser considerado o mais coercitivo. Argumentava-se que as autoridades
alems tinham mantido o escravagismo e autorizado o uso sistemtico do aoite.
Os alemes contestaram as acusaes, replicando que os britnicos e os franceses
eram culpados por iguais excessos7. Na realidade, o modo de produo colonial
acarretava o mximo de coero, tanto para recrutar a mo de obra africana
como para mant-la nos locais de produo.
    Nos primeiros tempos do colonialismo, por vezes o prprio capital privado
encarregou-se da coero e de fazer reinar a ordem. Assim foi no tempo das
companhias dotadas de privilgios, cartas e concesses, que exerceram ativi-
dades na frica austral e central, na Nigria e na frica Oriental Alem. 
primeira vista, nada parecia obstar o processo de acumulao de capital dessas
companhias. No entanto, elas tiveram de suportar o custo das intervenes
armadas necessrias para destruir a independncia poltica da frica e para
lanar as bases das economias coloniais. Sua brutalidade realmente no tinha
limites, particularmente nas regies em que a populao estava muito dispersa,
fator que aumentava as dificuldades de recrutamento de mo de obra, como
no Congo francs (atual Repblica Popular do Congo). Contudo, em matria
de coero, as companhias dotadas de privilgios no podiam fazer as vezes do
Estado. Em consequncia, os Estados europeus tiveram de assumir diretamente
a responsabilidade por seus territrios  e isso valeu como regra geral durante a
dcada de 1890 , montando nos locais organismos coloniais para supervisionar
a economia por conta dos capitalistas privados. Estes, habitualmente, recebiam
compensaes em troca do abandono de seus privilgios polticos, o que revela
claramente a quais interesses de classe as potncias coloniais procuravam pro-
teger. As compensaes consistiam em abrir crditos que assegurassem a essas
companhias uma posio comercial mais slida do que na poca em que elas
viviam virtualmente em estado de guerra com as populaes africanas.
    Os Estados metropolitanos e seus prolongamentos na frica estavam obri-
gados a manter a coero para garantir a explorao econmica, pois, em face
da oposio africana, a economia colonial tinha de ser constantemente imposta.
Em vrios lugares, foi primeiro necessrio tomar as terras africanas para que se
pudessem desenvolver as estruturas socioeconmicas de povoamento. A indis-
pensvel infraestrutura de estradas e ferrovias s podia ser estabelecida com o
auxlio do Estado, que para tanto contribua requisitando sobretudo mo de obra


7     SCHNEE, 1926.
A economia colonial                                                           385



africana. O recurso  tributao para criar uma economia monetria  processo
demasiadamente conhecido para que nos detenhamos a descrev-la. No h
dvida de que, na origem, o imposto era a principal obrigao a empurrar os
africanos para o trabalho assalariado e para a produo de culturas destinadas
ao comrcio. A sobrecarga tributria subsequente encerrava-os ainda mais em
tal situao. Os contribuintes em atraso eram s vezes empregados pelo capital
privado  mas muito mais pelo Estado  na construo e na manuteno de
centros administrativos, estradas e pontes.
     possvel classificar os Estados coloniais de acordo com o uso que faziam
da fora em suas colnias. Os vestgios do escravagismo foram eliminados em
razo de seus aspectos anacrnicos. Desde a segunda dcada do sculo XX,
o uso do aoite e de outros castigos fsicos contra os africanos chocava e era
geralmente reprimido pela lei. Como todos os demais, tambm os Estados
coloniais tentaram conservar o monoplio das formas legais de violncia. Ao
mesmo tempo, procuravam convencer financiadores e colonos de que o poder
estatal encontrava-se  sua disposio. Desse modo, o castigo do aoite aplicado
por ordem do patro foi substitudo pela condenao judiciria  pena de aoite,
castigo muito mais aplicado na frica do que jamais o foi na Europa contra os
trabalhadores. Durante toda a dcada de 1930, a legislao trabalhista vigente na
frica era muito atrasada; as "faltas ao contrato" quase sempre inscreviam-se no
domnio do cdigo penal e no no do civil; praticada por operrios africanos, a
"falta ao contrato" unilateral continuava a ser considerada "desero", no sentido
militar da palavra.
    Algumas regies da frica estavam mais predispostas do que outras a busca-
rem o comrcio externo, e foram por vezes africanos que tomaram a iniciativa de
estabelecer com os europeus relaes coloniais de comrcio. Na frica ocidental,
procuravam-se novos produtos de exportao desde comeos do sculo XIX;
j as populaes da frica Oriental Alem e da regio leste do Congo Belga,
inversamente, s se dedicaram  cultura do algodo e de outros produtos de
exportao sob a coao do chicote. As caravanas da frica oriental no tinham
dado a conhecer aos africanos os mercados e os gneros europeus tanto quanto
as da frica ocidental no tempo das trocas pr-coloniais. Desse modo, a popu-
lao local no se sentia de forma alguma motivada, no incio, a consagrar parte
de seus trabalhos a outra coisa alm da satisfao de suas prprias necessidades.
Mesmo na frica ocidental, muitas vezes as potncias coloniais tiveram de fazer
presso sobre os agricultores para garantir que participassem da economia colo-
nial por elas instituda, conforme as condies ditadas pelo capitalismo europeu.
O fato de a partilha do continente haver tido como pano de fundo uma crise
386                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



cclica e prolongada da economia capitalista no deixa de apresentar interesse
neste contexto. A ttulo de exemplo, consideremos que desde 1883 os europeus
aspiravam a aumentar a produo de amendoim no Senegal, ao passo que a baixa
dos preos no contribua para motivar os africanos a cultivar mais. O imposto
foi, ento, o "impulsionador" do aumento da produo8. Nas regies em que a
dependncia se havia fixado nas estruturas pelo sistema de trocas pr-colonial,
as relaes econmicas de tipo colonial desenvolveram-se mais rapidamente e
a necessidade de recorrer  fora foi menor, embora sem ser completamente
eliminada.
    A ao combinada de capital europeu e mo de obra africana trabalhando
sob coao produziu considerveis excedentes de produtos para o consumo euro-
peu. Gneros agrcolas e minerais foram exportados e os lucros repatriados, pois
tinha vindo de fora o capital investido nas companhias mineiras, nas plantaes
e nas sociedades de import/export, No entanto, parte do capital acumulado graas
a esses lucros foi reinvestida, de onde o crescimento gigantesco do capital da
frica austral e a acelerao da transformao monopolista de firmas comer-
ciais da frica ocidental, que lhes permitiu apoiar empresas manufatureiras e
distribuidoras da Europa e associar-se a elas. Na Arglia, no sul da frica e,
em menor grau, na Tunsia, no Qunia, na Rodsia do Norte e na Rodsia do
Sul (atuais Zmbia e Zimbbue), os primeiros lucros obtidos com a economia
colonial garantiram aos colonos brancos um nvel de vida mais elevado e, ao
mesmo tempo, uma situao econmica mais estvel.


      Participao da frica na economia colonial, 19201930
    A coero representou fator decisivo nas relaes econmicas durante os
anos de formao das economias coloniais na frica, atingindo mais tarde
importncia maior do que jamais tiveram nos epicentros capitalistas. Porm, em
dado momento, a economia das colnias deixou de ter como elemento motor
principal a potncia externa e as sanes no econmicas. Essa virada primeiro
atingiu as colnias britnicas e alems, depois as colnias francesas e, enfim, as
colnias belgas e portuguesas. Desde a, os africanos passaram a considerar o
sistema econmico monetrio como uma realidade  um fato novo,  certo, mas
irreversvel, e ao qual, em muitos casos, estavam dispostos a dar boa acolhida.
A nova ordem de coisas pressupunha que os africanos fizessem uma opo,

8     KLEIN, 1968, p. 285.
A economia colonial                                                          387



dentre as diversas possibilidades a seu alcance, para ganhar a vida e participar
do sistema econmico de produo de bens a eles imposto. A frica colonial
produzia vasta gama de artigos de exportao, agrcolas e minerais, mas, para
este ou aquele membro da comunidade africana, o nmero de possibilidades
locais geralmente reduzia-se a uma s: trabalhar no vinhedo de uma fazenda
europeia, cultivar meio hectare de algodo ou descer todos os dias ao poo
de uma mina. A ecologia, assim como a poltica das administraes coloniais,
limitava o nmero real das opes. No obstante, os africanos conseguiram
exercer influncia sobre as condies de sua insero nos circuitos econmicos:
comearam a manifestar-se a respeito de salrios e preos, acabando afinal por
discutir todo o leque das questes sociais e polticas que afetavam a economia
colonial e dela derivavam.
    Nenhuma data precisa marca o incio deste novo perodo para o conjunto
do continente. Ele se confunde com o da conquista e com a fase ascendente da
coero nas relaes econmicas. Na frica Equatorial Francesa e nos territrios
portugueses, a coero inicial perdurou at a dcada de 1930. A transio deve
ser considerada em separado, levando em conta cada colnia e suas diferentes
regies geogrficas. Em muitos locais, o sistema econmico colonial j estava
estabilizado ao final da primeira dcada deste sculo. Sofreu um contragolpe
com a Primeira Guerra Mundial, mas restabeleceu-se depois de forma mais ela-
borada. A explorao mineira dominou as economias da frica austral durante
o ps-guerra, e pouco faltou para que ela no colocasse toda a regio sob uma
nica economia colonial. Por um lado, o processo de formao de monoplios e
de cartis assegurou a hegemonia do grande capital na ento Unio Sul-Africana,
no Sudoeste Africano e nas Rodsias. Por outro, o poderio econmico dos centros
mineiros era tal que exigia e pde obter um vasto reservatrio de mo de obra,
que se estendia a zonas cuja principal atividade econmica no era a explorao
mineira  especificamente os territrios do alto-comissariado (Basutolndia,
atual Lesotho; Bechuanalndia, atual Botsuana, e Suazilndia), a Niassalndia,
Moambique e Angola. Um conluio entre os portugueses e o regime existente
na frica do Sul permitiu manter uma corrente importante e regular de traba-
lhadores provenientes de Moambique e de Angola. Esse trfico fazia lembrar
o escravagismo, mas, paradoxalmente, trabalhar nas minas tornouse um objetivo
muito solicitado por numerosos africanos. O fato  que, no interior da frica
austral, o colonialismo criava enormes disparidades. Os capitais afluam para
alguns pontos, fora dos quais a atividade econmica era reduzidssima. E onde
quer que morassem, os africanos caam na obrigao de pagar impostos, alm de
388                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



terem de comprar bens de consumo com dinheiro. Nessas condies, as minas
apresentavam-se a eles, muitas vezes, como a nica sada possvel.
    No setor agrcola, a estrutura das economias coloniais tinha muitos pontos
em comum com a do setor mineiro. Geograficamente, um e outro confun-
diam-se na frica austral e, em certa medida, no Congo Belga e no norte da
frica. O setor agrcola exigia capitais de vulto e mo de obra abundante. Uma
poderosa empresa internacional controlava, no Congo Belga, as plantaes de
dendezeiros. Na frica Oriental Alem, as plantaes de sisal dependiam de
grandes companhias alems, financiadas por bancos e por industriais. Mesmo
depois de tornar-se relativamente descentralizada, sob o domnio britnico, a
explorao do sisal continuava a exigir vastas superfcies para plantao e usina
para beneficiamento, o que implicava investimentos considerveis. O Estado
jamais deixou de auxiliar os plantadores: deu-lhes ajuda incalculvel, ao fornecer
mo de obra barata, o que gerava superlucros. No entanto, em certas regies da
frica central, austral ou oriental, se no havia outro meio de conseguir uma
renda monetria, a plantao atraa trabalhadores vindos de muito longe. Em
Tanganica, vinham da Niassalndia, da Rodsia do Norte, de Moambique e
de Ruanda-Urundi (atualmente, Ruanda e Burundi). Devido a acordos com
o governo portugus, a administrao britnica evitava legalizar a entrada de
trabalhadores provenientes de Moambique. Em vez disso, confiava na dife-
rena de condies de vida entre Tanganica e Moambique, territrio em que
a economia monetria era fraca e a persistncia da coero dos impostos e do
trabalho forado induzia os africanos a cruzarem a fronteira.
    Os assalariados de todas as categorias constituam minoria nfima da popu-
lao africana adulta. As safras para venda, que formavam a chamada conomie
de traite, sistema econmico em que os produtos manufaturados e importados
eram objeto de troca direta pelas safras in natura ou minimamente processadas9,
ocupavam sem dvida a maior parte dos africanos. As safras possibilitavam um
pouco mais de liberdade de manobra do que os empregos assalariados. Ocasio-
nalmente, os africanos optavam entre vrias culturas de exportao. As culturas
de gneros alimentcios estavam em primeiro lugar destinadas ao consumo da
famlia, depois  venda na feira local e, mais raramente,  exportao. Dentro
desses limites, os camponeses africanos podiam escolher a natureza e a quanti-
dade do que plantariam ou preparariam para exportao. Todos os preos eram
fixados por organismos da metrpole, mas os preos agrcolas podiam ser ligei-


9     DUMONT, 1966.
A economia colonial                                                          389



ramente alterados quando os camponeses abandonavam uma cultura por outra
ou distribuam os estoques no mercado local. Em caso de desespero, "seguravam"
a venda do produto, mesmo com prejuzos enormes.
    Quando um africano via-se pressionado entre a possibilidade de explorar
suas prprias terras e a de alugar seus servios, quase sempre escolhia trabalhar
por conta prpria. Virtualmente, todos os produtos agrcolas africanos eram cul-
tivados em outras regies do mundo, particularmente o caf na Amrica Latina e
o azeite de dend nas ndias Orientais.  fora das comunidades africanas  que
deve ser atribuda a propagao geral das exploraes camponesas. Devido  sua
baixa densidade populacional, a frica central tornou-se a arena das companhias
concessionrias, abjetas no uso do trabalho forado. Nessa mesma regio, os
primeiros colonos desenvolveram suas exploraes agrcolas coagindo o prole-
tariado rural ao trabalho, como nas plantaes de cana-de-acar, sisal e algodo
em Moambique e Angola, ou abrindo empresas de forte intensidade de capital,
como no Congo Belga. Foi dessa maneira que o truste Lever Brothers conseguiu
formar plantaes de dendezeiros nesse pas a partir de 1911. Em compensao,
foram rejeitadas suas demandas de concesses semelhantes na frica Ocidental
Britnica, por compreender a administrao colonial que tal empreendimento
acarretaria a servido forosa de milhares de habitantes. Alm disso, na frica
ocidental os colonialistas cedo tiveram provas do valor do campesinato afri-
cano, de sua aptido para produzir excedentes exportveis e assegurar benefcios
lucrativos  comunidade europeia. As exploraes que a Frana persistiu em
manter na frica ocidental deram prova de inferioridade mesmo comparadas
 pequena produo africana. Na frica oriental, na Niassalndia e na Rodsia
do Sul, as exploraes dos colonos tiveram de ser subvencionadas e protegidas
contra a concorrncia africana pela legislao, sem o que no disporiam de mo
de obra suficiente. Onde a minerao no passava de mera intruso localizada
em meio a uma economia agrcola colonial, a opo dos africanos recaa sempre
sobre a produo agrcola, originando as dificuldades de recrutamento de mo
de obra local, como as que se verificaram nas minas do pas ashanti, na provncia
ocidental da Costa do Ouro e na Sukumalndia (Tanganica).
    As safras comerciais continuavam a ser impostas a algumas comunidades,
enquanto outros africanos praticavam-nas com entusiasmo, apesar da indife-
rena ou da hostilidade oficial. Reclamavam a construo de uma infraestrutura
de transporte e comercializao, e faziam uso imediato de todas as ferrovias
terminadas. Houve ocasies em que se lanaram a tal atividade antes mesmo
de os governos coloniais terem construdo pontes e estradas vicinais. Para obter
sementes procuravam as autoridades coloniais, os missionrios, os fazendeiros
390                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



europeus e africanos que j cultivavam aquele produto. O cacau e o caf so
dois dos mais conhecidos e importantes produtos agrcolas de exportao cuja
expanso deveu-se quase totalmente  iniciativa africana. Outras culturas de
menor importncia  ch, tabaco, pretro  obedeceram ao mesmo princpio.
Alm disso, os africanos se aplicavam particularmente ao cultivo dos gneros
mais lucrativos. No caso do cacau, tinham de explorar terras pouco indicadas
para essa cultura. Em certas ocasies, a preferncia dos africanos levava-os a
lutar contra a legislao colonial discriminatria. Assim, no final da dcada
de 1920 e incio da de 1930, era marcante em vrias zonas dos planaltos de
Tanganica o esforo dos africanos para plantar caf do tipo Arabica, em vez de
trabalhar para outros ou de plantar a variedade Robusta, menos lucrativa. Por
fim, os africanos saram vitoriosos, plantando cafeeiros mais depressa do que a
administrao colonial conseguia destru-los10.
    Onde a agricultura camponesa imps-se como forma hegemnica de econo-
mia colonial, ela procedia, a exemplo das minas e das plantaes, recrutando mo
de obra em reas distantes da zona de produo. Na Senegmbia, a cultura do
amendoim atraa mo de obra sazonal proveniente do serto a montante dos rios
Senegal e Nger; na Costa do Ouro e na Costa do Marfim, o caf absorvia gente
do Alto Volta, ao passo que em Uganda os cafeicultores deviam sua expanso a
trabalhadores provenientes de Ruanda-Urundi e de Tanganica. Desse modo, a
esmagadora maioria dos africanos que participavam diretamente da economia
colonial ou trabalhava na plantao de safras comerciais em exploraes campo-
nesas ou como trabalhadores assalariados das minas e da agricultura. No entanto,
inmeras outras atividades foram criadas ou transformadas pelas novas relaes
de produo. As grandes reservas florestais do continente s foram realmente
exploradas bem mais tarde, mas no Gabo uma indstria de extrao de madeira
foi logo criada, e em graus variados esse tipo de explorao desenvolveu-se onde
quer que existissem florestas importantes. A malha viria foi fator econmico
de significado mais geral: milhares de africanos acharam emprego remunerado
nos portos, nas ferrovias e  com o desenvolvimento da rede de estradas  como
motoristas de caminho, especialmente depois que se tornaram obsoletas as
cargas  cabea, aps a Primeira Guerra Mundial.
    Poucos setores da comunidade africana conseguiram permanecer imunes
 economia colonial,  medida que esta se consolidava. Apesar de serem tidos
como conservadores, todos os grupos de pastores foram atrados para a econo-


10    RODNEY, s. d.
A economia colonial                                                          391



mia monetria desde 1920, seno antes. Vendiam carne para consumo local e
ocasionalmente para exportao, juntamente com as peles. Nos territrios que
mais tarde viriam a formar a Somlia, essa era a principal forma de manifestao
da economia colonial. Tambm as populaes de pescadores foram atingidas.
O comrcio tradicional de peixe seco e defumado e tambm o de carne e de
outros gneros alimentcios tornaram-se dependentes do dinheiro dos princi-
pais exportadores, acompanhando as flutuaes sazonais do poder aquisitivo
dos camponeses, conforme recebiam o produto da venda do cacau, do algodo
etc. Os africanos procuravam naturalmente ganhar a vida de modo ao mesmo
tempo agradvel e remunerador. As administraes coloniais, as misses e as
companhias privadas abriram suas portas a jovens empregados, a artesos e (no
caso das duas primeiras) a professores primrios. O desejo de instruir-se estava
vinculado a possibilidades de emprego que permitiam, alm do mais, satisfazer
uma crescente predileo pela vida urbana. As pessoas que abandonavam a escola
primria ou que, por uma ou outra razo, no podiam pretender um emprego de
maior prestgio, ocupavam os interstcios da economia colonial como domsti-
cos ou membros da polcia ou do exrcito; ou, ento, "se viravam" nas cidades,
entregando-se a atividades mais ou menos ilcitas, como a prostituio.
    As reaes individuais dos africanos nunca deixaram de constituir, funda-
mentalmente, meras respostas  dinmica da economia colonial imposta. Mas
contriburam para a expanso e consolidao dessa economia, confirmando as
estruturas de explorao.
    Os salrios eram mantidos em nvel incrivelmente baixo. Qualquer ten-
dncia ao aumento era contra-arrestada; o poder aquisitivo estava sempre em
queda, em parte devido aos surtos peridicos de inflao em parte porque os
salrios eram comprimidos ou mantidos abaixo dos preos. Os colonos e outros
residentes europeus, bem como os diretores de empresas estrangeiras, todos
se entendiam para pagar o menos possvel aos trabalhadores e mant-los em
condio semifeudal, graas  introduo das carteiras de trabalho, as quais
limitavam vergonhosamente a liberdade de mudar de empregador. Os empre-
gadores opunham-se  constituio de organizaes operrias capazes de obter
uma alta dos salrios. O regime caduco do trabalho por tarefa ou por pea era a
regra: os trabalhadores no recebiam benefcio em caso de doena, incapacidade,
desemprego ou velhice. Alm disso, a mobilidade constante de uma populao
ativa quase que inteiramente composta por migrantes, a sua falta de qualificao
e o racismo generalizado eram outras tantas desvantagens que pesavam contra
o trabalhador africano ao enfrentar os capitalistas para exigir salrio melhor e
condies de trabalho menos penosas.
392                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Os camponeses africanos eram hostis ao sistema comercial.  bem conhecida
a tendncia das empresas comerciais da frica oriental a estabelecer monop-
lios, mediante o sistema de pools. Em todo o continente, essas empresas defen-
diam seus interesses no entrando em concorrncia e, dessa forma, conseguindo
elevar os preos. Na verdade, intermedirios, como os asiticos na frica oriental
e os libaneses na frica ocidental, entendiam-se uns com os outros a respeito
de preos e condies de venda, de sorte que o campons africano dispunha de
pequena margem de lucro ao vender os seus produtos. O produtor de bens de
exportao corria o risco de ser enganado na pesagem, na transformao (como
a debulhagem do algodo) ou no transporte, ou ainda no momento do clculo da
receita ou do reembolso de emprstimos ou adiantamentos porventura concedi-
dos. Alm do mais, os produtores africanos tambm compravam no varejo, atra-
vs de intermedirios e de sociedades comerciais. Uma profunda desigualdade
caracterizava as trocas entre a economia colonial e as metrpoles, desigualdade
que estava refletida na disparidade entre a pouca remunerao recebida pelos
africanos e o custo relativamente elevado dos produtos manufaturados, assim
como no baixo nvel dos salrios pagos nas colnias em comparao com os
das metrpoles. Bem entendido, a desigualdade no era fenmeno puramente
econmico: resultava do desequilbrio de poderes polticos, da fraqueza dos
produtores africanos no que se refere  organizao e  tecnologia11.
    Quer produzissem ou no excedentes exportveis, os africanos eram explo-
rados pelo sistema colonial. O imposto, cuja receita servia menos para assegurar
servios  populao do que para sustentar o Estado ou a infraestrutura eco-
nmica, recaa cada vez mais sobre maior nmero de pessoas. A mo de obra
sazonal das minas, das fazendas e das plantaes era arranjada a expensas das
economias aldes ou locais, outrora autnomas. Desse modo, o capital evitava
o custo de formao de mo de obra. Como na escravido, ela vinha de fora do
sistema capitalista, j plenamente formada. Os trabalhadores nunca recebiam um
salrio que lhes permitisse viver ou qualquer benefcio social, porque eram para-
lelamente agricultores e porque, durante toda a sua vida ativa, outros membros
de sua famlia tambm ganhavam o suficiente para viver daquela maneira lasti-
mvel que era, segundo os europeus, o "nvel de subsistncia" dos africanos. Da
mesma forma, as safras comerciais destinadas ao mercado local ou  exportao
eram produzidas como excedentes acima da subsistncia do campons. Por essas
razes,  enganoso considerar que existia nas colnias uma "economia dualista",


11    AMIN, 1974; EMMANUEL, 1972.
A economia colonial                                                           393



composta por um setor "tradicional" e um setor "moderno"12 nitidamente deli-
mitados. O pretenso enclave moderno e dinmico e as formas atrasadas tradi-
cionais viviam mesclados, dialeticamente interdependentes. O setor exportador
s devia o seu crescimento  possibilidade de apropriao permanente do valor
pertencente s comunidades africanas: terras, pessoal, produtos agrcolas entre-
gues como pagamento de impostos e capitais. No interior dessas comunidades,
a estagnao era menos inerente do que induzida. O "tradicional" no existia
enquanto tal, com a mo de obra dispersa e a razo de ser aniquilada. A produo
agrcola ou diminua ou era incapaz de acompanhar a expanso demogrfica.
Dessa forma, as zonas isoladas, embora nunca tenham apresentado crescimento
no sentido "capitalista" do vocbulo, tambm foram afetadas pela presena do
capitalismo no continente.


     Dependncia e depresso, 19301938
    As relaes de produo coloniais estabeleceram-se na frica no decurso de
vrios anos, durante os quais numerosas economias africanas autossuficientes
foram ou destrudas ou transformadas e subordinadas. Os laos que as uniam
foram cortados, como no caso do comrcio transaariano e do comrcio da regio
dos grandes lagos, na frica central e oriental. Mesmo as relaes anteriormente
existentes entre a frica e o resto do mundo, principalmente com a ndia e a
Arbia, sofreram perturbaes. Foram criadas numerosas economias coloniais
separadas. A partilha econmica no foi calcada exatamente sobre a partilha
poltica, j que as potncias imperialistas mais fortes apossaram-se das col-
nias mais fracas. O prprio Reino Unido, depois de criada a Anglo-American
Corporation, em 1917, teve de aceitar a penetrao do capital americano na
frica do Sul. No obstante, as fronteiras polticas arbitrariamente fixadas eram
geralmente aceitas como limite das economias, cada uma das quais incipiente,
artificial e individualmente voltada para a Europa. Faltavam a elas articulao
interna e laos regionais e continentais. Estavam dadas, assim, as condies para
que se tornassem dependentes em relao ao exterior, no que respeita a capitais,
mercados, tecnologia, servios e tomada de decises.
    Por definio, o sistema econmico da colnia era um prolongamento do
sistema da potncia colonizadora. As economias africanas desde logo foram
inteiramente integradas s dos respectivos colonizadores e, depois, s economias

12   MAFEJE, 1972; MEILLASSOUX, 1972.
394                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



das principais naes do mundo capitalista. No setor dos transportes marti-
mos  que a articulao tornou-se mais evidente. Eram poucas as naes que
possuam empresas capitalistas capazes de assegurar o transporte martimo na
era do imperialismo. Portugal tinha deixado de contar quase que por completo,
enquanto os Estados Unidos da Amrica haviam ampliado consideravelmente
as relaes comerciais com a frica depois do sculo XIX. As companhias de
transporte procuravam concorrer umas com as outras e, ao mesmo tempo, esta-
belecer monoplios. Cada pas procurava, mediante a legislao e subvenes
s companhias martimas, agir de forma que o comrcio colonial aumentasse
a tonelagem da sua marinha mercante. Contudo, no incio do sculo atual,
surgiram as Conference lines, entendimentos que permitiram acabar com a con-
corrncia e fixar tarifas monopolistas de frete. A representao dos pases mais
pobres nessas conferncias era insignificante ou inexistente; em compensao,
a participao da Alemanha continuou importante, mesmo depois da perda de
suas colnias africanas13.
    Os primeiros anos do capitalismo monopolista foram uma idade do ouro
para os bancos: atravs deles escoavam os excedentes africanos, j que no havia
obstculos  livre retirada de capitais das colnias. Eram bancos particulares que
emitiam o numerrio em circulao na maior parte das colnias, at que foram
criados, por via legislativa, institutos centrais de emisso. As tesourarias das
potncias colonizadoras manipulavam as reservas monetrias das colnias para
atender a seus prprios interesses e tambm aos do capital financeiro, uma vez
que as reservas coloniais eram investidas nos mercados monetrios metropoli-
tanos. Tendo a seu encargo os seguros martimos e o financiamento das grandes
operaes capitalistas, os bancos mantiveram-se hegemnicos sobre a economia
colonial. Abriam aos colonos brancos e aos comerciantes varejistas no africanos
crditos que recusavam aos africanos, dando assim prova de seu comportamento
capitalista e de seu pseudocientfico raciocnio racista. Decretos limitando a
abertura de crdito vinham s vezes confirm-los nessa atitude.
    Com base na atividade das companhias de navegao e das exploraes
mineiras, pode-se fazer boa ideia de como marchava a economia colonial. No
entanto, para compreender por que os mecanismos de explorao funciona-
vam daquela maneira,  necessrio analisar as estruturas econmicas da colnia
enquanto parte do conjunto da economia capitalista. O colonialismo confinou
as colnias africanas ao papel de produtoras de matrias-primas destinadas 


13    LEUBUSCHER, 1963.
A economia colonial                                                          395



exportao, impondo-lhes, consequentemente, depender dos pases capitalistas
desenvolvidos para quaisquer produtos manufaturados e tecnologia. Esta rgida
diviso internacional do trabalho no podia manter-se indefinidamente. Desde
antes da Segunda Guerra Mundial, esboava-se uma evoluo e surgiram algu-
mas indstrias de transformao e de manufatura leve. Entretanto o perodo at
1935 representa um exemplo quase perfeito de diviso internacional do trabalho
de tipo colonial clssico. As indstrias francesas opuseram-se vigorosamente  e
por muito tempo com xito  a qualquer tentativa de implantao de indstrias
de moagem de oleaginosas no Senegal. Em Tanganica, alguns plantadores de
sisal conseguiram montar uma cordoaria em 1932, mas, quando a produo
dessa indstria comeou a aparecer em Londres, foram tantos os protestos dos
cordoeiros ingleses que o Colonial Office reafirmou explicitamente o prin-
cpio segundo o qual a frica deveria restringir-se ao papel de produtora de
matrias-primas para exportao. Com poucas excees, a produo colonial
tendia  monocultura, o que a tornava dependente dos mercados especializados
de alguns pases capitalistas.
    A diviso internacional do trabalho aprofundou de modo permanente o
fosso entre a produo e o consumo nas colnias. O grosso da produo da
crescente economia monetria jamais foi destinado a satisfazer a demanda e o
consumo locais. Em contrapartida, os diversos artigos vendidos no comrcio
varejista eram, na sua maior parte, de origem estrangeira. O artesanato local
sofria bastante com a concorrncia e as intervenes europeias, como alis j
ocorria no perodo pr-colonial. Na dcada de 1920, quando a economia colo-
nial j estava firmemente estabelecida, os africanos produziam bens que no
consumiam e consumiam produtos que no produziam. De fato, a demanda
interna no favorecia o desenvolvimento dos recursos da frica. H, ainda,
outra consequncia nefasta: os colonizadores devastaram parte dos recursos e
negligenciaram outros, porque avaliavam sua utilidade relativamente  Europa
e no ao continente africano. Nenhum dos grandes agregados econmicos,
como poupana, investimentos, preos, rendas e produo, estava voltado para
necessidades domsticas. Essas consideraes estruturais  que levaram econo-
mistas e historiadores africanos, em trabalhos recentes, a contestar as antigas
definies de desenvolvimento colonial e a declarar que, ao contrrio, o colo-
nialismo no trouxera no plano econmico seno dependncia, desequilbrio e
subdesenvolvimento14.


14   RODNEY, 1972; RWEYEMANU, 1974; BRETT, 1973.
396                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Entre as duas guerras mundiais, o acontecimento marcante para a evoluo
das economias africanas foi a grande Depresso de 1929-1933. Surpreendendo
as economias interdependentes do mundo capitalista, a Depresso atingiu neces-
sariamente tambm as economias coloniais africanas, lanando uma luz cruel
sobre a sua extenso e natureza.
    Desde o sculo XIX, as crises cclicas da economia mundial fizeram diminuir
o crescimento da frica e impuseram sacrifcios aos africanos j engolfados pelo
sistema de relaes monetrias. Em 1930, portanto, somente a gravidade das
dificuldades que o continente experimentou ao receber o contragolpe da crise 
que era nova. Foi atravs dos setores capitalistas mais avanados (minas, plan-
taes e zonas de cultura de produtos bsicos comercializveis) que a Depresso
chegou  frica. No entanto, alcanou todas as ramificaes secundrias e ter-
cirias, mergulhando em dificuldades os africanos que vendiam alimentos aos
trabalhadores e tambm outros cultivadores, bem como os pastores, que julga-
vam contrrio aos seus interesses vender o gado pelos preos em vigor. Todos os
comerciantes africanos foram atingidos, ainda que s vendessem produtos locais,
como a cola. O fato  que os comerciantes ditos "tradicionais", os Haussa e os
lula, estavam avassalados  economia colonial. Seus negcios prosperavam na
medida em que enfrentavam a nova ordem e adaptavam-se a transformaes 
comprando caminhes, por exemplo , mas ficaram sem defesa em face de um
desastre externo de propores, como a Depresso, pois seus clientes recebiam
menos dinheiro em troca do produto de suas culturas e de seu trabalho.
    Todos os participantes da economia colonial adotaram medidas para comba-
ter os efeitos da Depresso. A iniciativa cabia s empresas capitalistas. Os bancos
e as casas comerciais reduziram suas operaes, mantendo presena nos grandes
centros, como Dacar, Lagos e Nairbi, e fechando as sucursais do interior e das
capitais menos importantes. Foi  custa dos camponeses que as casas exporta-
doras realizaram economias: fizeram cair os preos  produo quando a safra
de 1930 foi posta no mercado. Como empregadores, dispensaram muita gente
e reduziram drasticamente os salrios. Com exceo das minas de ouro, cuja
explorao evidentemente prosseguiu, a reao de todos os grandes empregado-
res dos diversos setores de produo consistiu basicamente em cortar despesas.
O nmero de assalariados, que aumentara consideravelmente depois da Pri-
meira Guerra Mundial, diminuiu 50%, se no mais, entre 1931 e 1934. Durante
esse perodo, exceo feita aos inmeros colonos e pequenos comerciantes que
abriam falncia, os principais beneficirios do sistema colonial continuaram a
ganhar lucros que, embora reduzidos, no deixavam de ser substanciais.
A economia colonial                                                          397



    A reao dos africanos  crise foi combater as solues apresentadas pelos
europeus. Contra a reduo de salrios, os trabalhadores fizeram greves mais
frequentes e macias, apesar da falta de sindicatos. Relativamente, poucas pgi-
nas tm sido consagradas  luta espontnea da classe operria africana antes da
criao dos sindicatos15. A julgar pela agitao reinante no momento da Depres-
so de 1920-1921, depois na grande crise de 1929-1933 e, enfim, na recesso
de 1938, os conflitos parecem ter sido mais agudos em perodo de guerra e de
conjuntura desfavorvel. Da mesma forma, no se pode considerar mera coin-
cidncia o fato de, em 1920-1921 e, de novo, em 1930 e 1938, os agricultores
da Costa do Ouro terem recusado vender o seu cacau e boicotado os armazns
estrangeiros. As empresas estrangeiras estavam dispostas a prosseguir acumu-
lando, fosse como fosse, enquanto operrios e camponeses entregues s suas
safras comerciais procuravam resistir ao empobrecimento e defender os magros
ganhos que tempos melhores lhes haviam propiciado.
    Outro mtodo de defesa utilizado pelos africanos era a fuga  economia mone-
tria. Os setores que se haviam recm-integrado nessa economia ou que mal
tinham experimentado a sua influncia foram os primeiros a fugir dela. Fenmeno
semelhante produzira-se no final da Primeira Guerra Mundial, obrigando os
governos coloniais a restabelecerem a economia colonial em certas regies. Nume-
rosos camponeses de Tanganica, bem menos acostumados s trocas monetrias do
que seus irmos da Costa do Ouro, tentaram pura e simplesmente abandonar as
culturas comerciais depois de 1930. Saram-se mal, j que o Estado colonial caiu
com todo o seu peso para contrariar uma tendncia considerada como retorno 
barbrie. Foram lanadas campanhas a favor do incremento das colheitas, e ins-
titudas sanes administrativas que no passavam de mal veladas tentativas de
obrigar os camponeses a aumentar a rea cultivada para compensar a baixa dos
preos. Essas campanhas eram apoiadas no s pelos negociantes, mas tambm
pelos industriais que precisavam de matrias-primas e por poderosas organizaes
metropolitanas, como a Empire Cotton Growing Association, cuja ao prosse-
guiu mesmo durante os anos posteriores  Depresso.
    A maior parte dos projetos que envolviam capital foi suspensa durante a
Depresso; os poucos investimentos efetuados visavam ao aumento da produ-
o primria barata, apelando para o trabalho forado, como o fez o projeto
de irrigao do Office du Niger francs. Em toda parte verificava-se a recru-
descncia da coero nas relaes econmicas, reveladora da necessidade de


15   DEUTSCHLAND, 1970.
398                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



reforar, em perodos de crise, a economia colonial por meios no econmicos.
Graas ao trabalho dos africanos e ao pagamento dos impostos, as estradas de
ferro continuaram rentveis e as receitas fiscais das colnias foram preservadas.
No entanto, o pior para a populao africana foi a reduo dos servios sociais,
j muito pobres, sobretudo medicina e educao, que se tornaram mais caros.
Depois de 1934, nos anos de retomada da economia, salrios, preos e diversos
servios oferecidos aos africanos no regressaram ao nvel anterior, enquanto o
capital privado obtinha, novamente, lucros bastante elevados.
    Os governos coloniais no concederam mais que um mnimo de assistncia
aos africanos que definhavam com a Depresso. Suspenderam a cobrana de
impostos e sustentaram os preos (os franceses fizeram isso com o amendoim).
Tentaram moderar a explorao forada, exercida pelos intermedirios. Eram
medidas ditadas pela necessidade. Nenhuma moeda tinha circulao; a queda
dos preos em um pas obrigava os camponeses desesperados a percorrerem
longas distncias para contrabandear sua colheita para outra regio, onde espe-
ravam auferir nfima vantagem. Quanto aos intermedirios, os governos tinham
de impedir que eles se apoderassem dos poucos lucros restantes, destinados 
exportao. No entanto, na frica oriental, os negociantes "asiticos" contribu-
ram de forma essencial para manter a economia monetria intacta e evitar a
volta  economia de trocas, eles que estavam, com seus aportes de capital, na
origem da difuso do numerrio e dos primeiros intercmbios monetrios em
toda a regio16. Afinal de contas, a administrao britnica acabou por proteger
os interesses desses varejistas e compradores de produtos diversos. No perodo
que seguiu a Depresso, os africanos viram-se mais do que nunca sujeitos a
controles administrativos (implantados para aumentar a produo) e tambm
expotos por completo s maquinaes das empresas de import/export e dos
"compradores" locais.
    A dependncia a que os africanos ficaram reduzidos depois da grande crise
mostra a amplitude das mudanas verificadas em sua vida, aproximadamente
cinquenta anos aps o advento do colonialismo. Nos primeiros anos, o impacto
do colonialismo pouco se fez sentir; mas introduziu transformaes profundas
 medida que se desenvolveu. A economia africana de modo algum foi estudada
durante o perodo colonial, e nem mesmo durante a fase nacionalista que se lhe
seguiu, quando ento era maior a preocupao em estudar a histria da frica
vista pelos prprios africanos. O debate sobre a significao da experincia


16    MANGAT, 1969.
A economia colonial                                                           399



colonial foi inibido, desde que numerosas mudanas eram econmicas, enquanto
outras  polticas, raciais e culturais  tambm tinham base econmica. No per-
odo seguinte ao desenvolvimento da economia monetria, a sociedade africana
diferenciou-se e novas classes formaram-se. Embora limitadamente, constituiu-
-se um proletariado em diversas regies do continente, enquanto o nmero de
camponeses no cessava de crescer por toda parte. O desenvolvimento do cam-
pesinato acarretava, por si, novas diferenciaes. Como em todas as comunidades
camponesas situadas na rbita capitalista, surgiram grandes exploraes em
detrimento dos pequenos agricultores e dos trabalhadores agrcolas sem terras.
No decurso dos anos 1920, todas as regies de culturas comerciais viram surgir
grandes proprietrios de terras empregando trabalhadores agrcolas e capazes,
segundo a ocasio, de introduzir novas tcnicas. Assim formou-se uma segunda
camada da populao, composta por alguns privilegiados que haviam sido bene-
ficiados com alguma educao durante os primeiros anos do colonialismo, no
momento em que eram ensinadas aos africanos certas noes indispensveis 
boa marcha da economia colonial. Pode-se notar, finalmente, que as redes de
distribuio estavam entregues, em nvel local, a africanos que dominavam o
setor na frica ocidental e no norte do continente. Os camponeses que tinham
vencido nas culturas comerciais, os negociantes africanos e a elite culta forma-
vam, em conjunto, o embrio de uma pequena burguesia. Estavam frequente-
mente ligados s antigas classes possuidoras das regies semifeudais da frica
e, por isso, muitas vezes mimados pelos europeus. Mas o fato capital  que, 
parte toda a poltica colonial, a marcha da economia favoreceu o progresso dessas
camadas da populao que econmica e culturalmente pertenciam ao mundo
colonial dependente.
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e e portuguesas (1914-1935)*
                     das antigas zonas francesas, belgas portuguesas (1914-1935)                 401 401



                                        CAPTULO 15


                  A economia colonial
               das antigas zonas francesas,
           belgas e portuguesas (1914-1935)*
                                 Catherine Coquery-Vidrovitch




   As colnias francesas, belgas e portuguesas apresentam algumas similarida-
des tanto na sua configurao geral como no que respeita  poltica colonial.
So colnias ou federaes de enorme extenso, embora com povoamento de
modo geral inferior  mdia da frica britnica, sobretudo a frica Equatorial
Francesa e Angola1. Moambique e Ruanda cumpriam a funo de reservatrios
de mo de obra para os pases mineiros vizinhos: Rodsias do Norte e do Sul
(Zmbia e Zimbbue atuais) e Congo Belga (atual Zaire), tal como na frica
Ocidental Francesa a zona voltaica (atual Alto Volta) fornecia trabalhadores
Mossi para as plantaes de cacau da Costa do Marfim e da Costa do Ouro
(atual Gana)2.
   Com efeito, a explorao desses territrios, baseada num esquema de investi-
mentos bastante avanado, era relativamente recente: os capitais nunca se aven-
turaram por l antes da Primeira Guerra Mundial, como mostra o quadro 1.



*    Este captulo foi redigido em 1974 e revisto em 1980. (Nota do coordenador do volume.)
1    Em 1936, a densidade demogrfica era 4,2 hab/km no Congo Belga, 2,8 na frica negra francesa e 2,4
     em Angola, segundo FRANKEL, 1938, p. 170 e 202-3.
2    Em 1936, Moambique e Ruanda-Urundi tinham densidades de 5,1 e 6,8 hab/km, respectivamente.
     Tambm h que levar em conta, na frica Ocidental Francesa, a diferena entre o Sahel semidesrtico
     e a zona costeira, mais frtil, de que a elevada densidade do pequeno Togo (14,4 hab/km 2) oferece bom
     exemplo. Ibid.
402                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 15.1   Os recursos das colnias francesas, belgas e portuguesas. (Fonte: Atlas Grandidier, 1934.)
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                     403



Quadro 1 Investimentos na frica negra (em milhes de libras esterlinas)
                                      Investimentos          Investimentos % dos investimentos
Regies                                acumulados             acumulados     totais na frica
                                       187019131               19141936      negra, em 1936
frica britnica                             695                   4212                   77
frica negra francesas:3                      25                   29,5                  5,7
frica Ocidental Francesa                                          30,44                 2,5
frica Equatorial Francesa                                         21,24                 1,79
Togo e Camares                                                   18,64, 5
Colnias alems                               85
Colnias portuguesas:                                              66,7                   5,4
Angola                                  muito pouco               31,94, 6                2,6
Moambique                                                        34,74, 7                2,8
Colnias belgas:
Congo e Ruanda-Urundi                       40                     94,48                 11,7
Total                                   pelo menos
(Territrios no britnicos)                150                     190                  22,9
1 Segundo Frankel, 1938, p. 149-59, e Paish, 1909, 1910-11.
2 Com a excluso dos investimentos alemes no Sudoeste Africano (126,5 milhes de libras) e em Tanganica
(33,5), Frankel, 1938, p. 202-3.
3 A avaliao de Frankel sobre capitais investidos na frica negra francesa, no entanto, est visivelmente
subestimada (talvez em um tero), porque s considera as empresas cotadas na bolsa.
4 1870-1936.
5 Dos quais aproximadamente 15,8 milhes de libras de investimentos alemes anteriores.
6 Dos quais aproximadamente 16 milhes de libras de capitais do Reino Unido.
7 Vinte milhes de libras de capitais do Reino Unido.
8 Deduzindo os investimentos alemes em Ruanda-Urundi (9 milhes de libras).
9 frica Equatorial Francesa c Camares.


    No plano econmico, foi um perodo decisivo, que teve o incio e o fim
assinalados por dois traumatismos profundos. O primeiro  a Primeira Guerra
Mundial  serviu para desencadear, apesar da breve mas violenta crise dos anos
1921-1922, um boom colonial sem precedentes, que refletia a prosperidade
metropolitana dos anos de 1920. Embora espetacular, foi uma expanso rela-
tivamente curta, encenada pela longa Depresso que seguiu a crise de 1930.
Tudo isso produziu conturbaes tanto no plano econmico e social como no
plano ideolgico. No final do perodo, as relaes da frica de lngua francesa
e de lngua portuguesa com o mundo exterior j se achavam transformadas. As
colnias, at ento relativamente independentes de suas metrpoles, foram inte-
gradas ao sistema capitalista ocidental, no contexto de um sistema econmico
coerente de explorao colonial.
404                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



    O trao dominante do perodo foi o esforo para a importao de bens de
capital, lucrativo para as metrpoles, mas duramente suportado pelas colnias.
Havia, no entanto, contrastes entre os pases mineiros (sobretudo o Congo Belga;
muito secundariamente Angola e, como porta de sada do Rand, Moambique),
onde a indstria de minerao ou a infraestrutura ferroviria atraram um nvel
superior de investimentos, e os demais territrios, ainda exclusivamente agrco-
las. Outro fator de diversidade era o modo de explorao: a frica Equatorial
Francesa e o Congo continuaram a ser, por muito tempo, pases explorados por
companhias monopolistas; a frica Ocidental Francesa e a pequena Ruanda-
-Urundi, ao contrrio, foram submetidas ao regime concorrencial da conomie
de traite, ou seja, uma economia fundada na exportao de produtos agrcolas
bsicos obtidos por meios tradicionais e na importao de bens de consumo.
As colnias portuguesas, relativamente bem dotadas, sofriam sobretudo pelo
fato de dependerem de uma metrpole "subdesenvolvida", sem condies de
financiar sua explorao.


      O financiamento de bens de capital
    Observa-se nos grficos (ver fig. 15.2) a notvel semelhana entre o comr-
cio exterior do Congo Belga e o da frica Ocidental Francesa: da ordem de 20
milhes de libras esterlinas na vspera da Depresso. Angola e a frica Equatorial
Francesa trabalhavam com valores quatro ou cinco vezes menores (em 1930, os
475 mil contos do comrcio exterior de Angola representavam pouco menos que
5 milhes de libras, contra 4,3 milhes da frica Equatorial Francesa). Compa-
rativamente, o comrcio da pequena Ruanda-Urundi parece quase inexistente (em
1930, 70 milhes de francos belgas, equivalentes a apenas 360 mil libras!).
    Mas todos os grficos apontam uma constante da dcada 1920 -1930,
mesmo que a inflao tenda a exagerar o valor dos bens importados em rela-
o ao seu volume (ver as curvas de Ruanda-Urundi; a converso em libras
esterlinas oblitera os efeitos da inflao continental nas outras figuras). Em
todos os territrios, uma balana comercial deficitria  que surge com a
Primeira Guerra Mundial e atinge o ponto culminante nos anos de mxima
euforia econmica de 1925-1930  revela a importncia dada aos bens de
capital.  ocioso assinalar a importncia assumida nesse perodo pelo setor
de infraestrutura dos transportes, sobretudo ferroviria e porturia, mas tam-
bm rodoviria, fenmeno novo ligado  introduo da trao automvel. No
Congo Belga, 65% dos investimentos acumulados em 1932 destinavam-se a
                                                                                                                                  A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)
                                                                                                                                  405
figura 15.2   Comrcio exterior colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas. (Fonte: Chrtien, 1970, p. 1690-1.)
406                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



minas, transportes e imveis ou a empresas secundrias, agrcolas ou comer-
ciais, ligadas  expanso ferroviria e mineira. Nos anos 1927-1930, os bens
importados para obras pblicas absorviam, em mdia, 47% das importaes
especiais. Em 1929, os bens de capital (carvo e coque, leos minerais, peas
metlicas, mquinas, navios e veculos) constituam quase metade das impor-
taes3, contra apenas um tero na frica Ocidental Francesa. Devido a isso,
o capital investido no Congo Belga disparou, passando de 1215 milhes de
francos belgas antes da guerra para mais de trs bilhes de francos-ouro em
19354. J em rpido crescimento entre 1920 e 1924, esse capital mais que
duplicou entre 1924 e 1929, chegando quase ao mximo do perodo entre
guerras, antes da queda da grande depresso. Os novos capitais subscritos por
empresas belgas declinaram de 1,4 bilho de francos belgas em 1929 para 276
milhes em 1932, ou seja, 30 a 50 milhes de francos-ouro.

Quadro 2 Evoluo do capital investido no Congo Belga (em bilhes de
francos belgas de 1950)
        1920                1924          1929       1933                  1938
         6,6                 11           29,7        30,9                  30
 Fonte: Peemans, 1968, p. 383.


    Mas as colnias continuavam financeiramente pobres. Apesar do crescimento
das receitas aduaneiras, devido ao surto do comrcio exterior, e, sobretudo, ao
aumento do imposto de capitao, elas no estavam em condies de assumir
sozinhas o financiamento da expanso. O desenvolvimento dos bens de capital
ia de par com uma poltica intensiva de emprstimos tomados s metrpoles.
    Paradoxalmente, o maior esforo foi despendido no momento crtico da
grande depresso. Iniciada no Congo, durante a euforia dos ltimos anos da
dcada, a poltica de emprstimos atingiu o pice entre 1928 e 1932. A partir
de 1931, foi a vez de a frica Ocidental Francesa empenhar-se seriamente no
esforo para obter emprstimos, pois o desastre de 1930 convencera o governo
da urgncia de um programa de bens de capital.
    Com uma dvida pblica que chegava a quase 250 milhes de francos em
1909, o Congo Belga tomou de emprstimo, sobretudo depois de 1928, cerca
de 3500 milhes de francos comuns, ou seja, aproximadamente 600 milhes


3     PASSELECQ, 1932, v. I, p. 417-20.
4     FRANKEL, 1938, p. 167.
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                      407



de francos-ouro belgas5. Apesar de sua superioridade em dimenso e povoamento,
a frica Ocidental Francesa contentou-se com quatro vezes menos aps 1920, isto
, um tero apenas dos crditos autorizados pela lei: 630 milhes de francos belgas
pagos em 1935, ou aproximadamente 120 milhes de francos-ouro franceses dos 1
750 milhes de francos belgas autorizados entre as duas guerras. Era uma quantia
ainda duas vezes menor do que a da frica Equatorial Francesa que, ao mesmo
tempo mais miservel e mais afeita ao exemplo belga, empreendera mais cedo uma
poltica de emprstimos para obras de infraestrutura. Os recursos foram quase total-
mente absorvidos pela construo da estrada de ferro Congo-Oceano. Somavam
aproximadamente 300 milhes de francos-ouro emprestados entre 1920 e 1936,
quantia correspondente  quase totalidade dos crditos legalmente deferidos.
    O resultado foi o crescimento da dvida externa, que ameaava mais grave-
mente o equilbrio oramentrio, em razo de as amortizaes se tornarem mais
pesadas em plena Depresso, precisamente no momento da queda vertiginosa
das cotaes dos produtos de exportao. Em 1933, a amortizao anual da
dvida congolesa, estimada em 198 milhes de francos belgas, representava
perto de 88% das receitas oramentrias da colnia, ou seja, aproximadamente
metade das suas despesas, equivalentes a quase metade do valor das exportaes.
Bem menos pesados, os encargos da frica Ocidental Francesa (40 milhes de
francos franceses em 1933) excediam, nos piores anos da crise, um tero do ora-
mento geral, mas somente de 5 a 8% da receita total, com todos os oramentos
includos (gerais e territoriais). Os da frica Equatorial Francesa ultrapassavam,
ento, os 80% (81% do oramento geral para 1934). Os territrios portugueses,
a respeito dos quais temos poucas informaes precisas, tambm estavam pesa-
damente endividados: em 1936, Angola devia no total perto de um milho de
contos, isto , 8,7 milhes de libras ou 220 milhes de francos-ouro. Era uma
dvida muito superior  da frica Ocidental Francesa, para um valor sete vezes
menor das exportaes6, mas correspondente a menos da metade da dvida do
Congo Belga, que tinha um oramento comparvel.
    De modo geral, o aumento dos encargos durante os anos de Depresso foi
nitidamente mais rpido nesses territrios do que nos territrios britnicos mais
endividados, como indica o quadro 3.
    Embora delicada em vista das flutuaes da moeda, a comparao entre
o Congo Belga e a frica Ocidental Francesa mostra as diferenas dos
modos de explorao. Considerado mais rentvel e, em todo caso, mais vido

5    No decorrer desse perodo, a paridade oscilou em torno de 100 francos belgas = 70 francos franceses.
6    FRANKEL, 1938, p. 371; DUFFY, 1962, p. 139 et. seq.
408                                                          frica sob dominao colonial, 1880-1935



de capitais, o Congo Belga apresentava, no entanto, fraquezas econmicas
evidentes. Seu endividamento era infinitamente mais pesado do que o da
frica Ocidental Francesa e seu comrcio de exportao muito inferior,
no obstante a importncia das indstrias de minerao. Acima de tudo, as
receitas oramentrias do Congo Belga eram evidentemente mais limitadas,
em vista de a tributao aduaneira e a carga fiscal sobre a populao afri-
cana serem menores, o que resultou em um dficit financeiro mais grave no
momento da Depresso.

Quadro 3 Amortizao anual da dvida: encargos comparados de alguns
territrios em 1928 e 1935 (em porcentagens)
                                                 frica Ocidental          frica Equatorial
                      Congo Belga
                                                     Francesa                  Francesa

                               Taxa de               Taxa de               Taxa de
                1928 1935                1928 1935             1928 1935
                             crescimento           crescimento           crescimento

Da receita      20,6 79,3        384       2,5     6,8       367       16,6 47,1          284


Das expo.
                9,5   26,8       282       1,5     6,9       460       17,2 46,6          271
especiais


Fonte: Frankel, 1938, p. 182; Coquery-Vidrovitch (?).


   Esta aparente incoerncia explica-se, de fato, pela distoro do nvel de
explorao. O Congo chegava ao estgio da explorao pelo capital, enquanto
a Africa Ocidental Francesa ainda estava de certo modo na conomie de traite.
Em vsperas da Depresso, a superioridade comercial da federao francesa,
mais da metade (52,7% em 1928) ainda baseada na exportao de amendoim do
Senegal, era a prova da rentabilidade de uma poltica de vistas curtas, limitada 
explorao da margem de lucro entre bens importados vendidos a preo elevado
aos produtores africanos e a compra a baixo preo de safras cuja produo estava
abandonada ao setor tradicional (conomie de traite). Era de supor que a colnia
fosse autossuficiente, j que o fundamento da colonizao era gerar lucros para
a metrpole; vivia dos direitos aduaneiros, fruto de um comrcio em expanso
e de pesada tributao. Apesar da depresso que paralisou os negcios e, simul-
taneamente, obliterou as receitas africanas, a metrpole recusava-se a qual-
quer subveno como auxlio. Da mesma forma, o ltimo subsdio concedido
 miservel frica Equatorial Francesa (que recebeu ao todo, de 1910 a 1934,
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                    409



375 milhes de francos) remontava a 1928, resignando-se a metrpole, no pior
momento da crise, a ficar somente com o encargo do servio dos emprstimos,
isto , 80 milhes de francos em 19357.

Quadro 4         Alguns resultados coloniais (em milhes de francos franceses)
                                    frica Ocidental Francesa                       Congo Belga
                                                         Evoluo                          Evoluo
                                   1928       1935                        1928 1935
                                                          em %                              em %
Amortizao anual                   17,2      54,8          +218            87      225      + 158
Receitas oramentrias
                                    723       593            -18           420      290       -21
ordinrias
Valor das exportaes               144       698            -39           915      850       -7
Receita aduaneira                   213       142            -33            ?        79
Capitao                           143       152             +6          75(?)      64       -15

    A capitao, porm, continuou aumentando em plena crise, ou ento pouco
diminuiu (na frica Ocidental Francesa, 156 milhes de francos franceses em
1929, 181 milhes em 1931; no ponto mais baixo, 153 milhes em 1935). Se a
Frana assentiu finalmente em fazer um esforo de investimento nas colnias
africanas, foi a ttulo provisrio, sob a forma de emprstimos garantidos pelo
Estado, reembolsveis em 50 anos, a juros de 4 a 4,5%. Isto significava que as
colnias francesas essencialmente tinham, afinal, de arcar com o pagamento de
seus prprios bens de capital. Evidentemente, na frica Equatorial Francesa
a misria do territrio exigiu finalmente que a metrpole assumisse a quase
totalidade da dvida, mas, na frica Ocidental Francesa, deduzindo-se o reem-
bolso da dvida, a participao francesa na formao de bens de capital no
passou de 16% do total, entre 1931 e 1936. Em outros termos, foi a fora de
trabalho dos habitantes que na verdade conseguiu, desde o incio, desenvolver
o territrio.
    Mas como esta economia arcaica  quer dizer, mais dependente da taxao
e da pilhagem do que da produo e dos investimentos  era frgil, a grande
depresso determinou sua falncia. Em 1934, o relator do oramento colonial
na Cmara dos Deputados constatava que as colnias estavam no fim e sugeria
o financiamento dos bens de capital pelo Estado. No mesmo ano, acontecia
a Conferncia Econmica da Frana Metropolitana e do Ultramar, primeira


7    MOELLER, 1938, p. 3-5.
410                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



tentativa de pr em ao um programa de apoio que acabou sendo realizado
somente depois da Segunda Guerra Mundial8.
   Embora a crise atingisse brutalmente o Congo Belga (o valor das exportaes
baixara aproximadamente dois teros, passando de 1511 milhes para 658 milhes
de francos belgas, entre 1930 e 1933), ela foi menos aguda em valor relativo e
reabsorvida mais rapidamente. Prova disso  que o valor das exportaes atingiu de
novo 1203 milhes em 1935.  evidente que o Congo continuava ainda modera-
damente produtivo. Em comparao com as colnias britnicas da frica austral,
a produtividade de suas minas era ainda muito reduzida. Embora em 1935 essa
produtividade representasse 62% do valor das exportaes do Congo Belga e 30%
no caso de Angola, esses dois territrios juntos exportavam apenas 6% do valor
total dos produtos minerais da frica negra.

Quadro 5 Importncia relativa do comrcio externo de algumas colnias
(em porcentagem do comrcio total da frica negra)
                          Africa Ocidental       Congo Belga                    Angola
                              Francesa
    1928                         5,9                      4,7                      1,3
    1935                         5,8                      4,1                      1,1

    A colnia belga, cuja atividade econmica j era de tipo capitalista, contava,
no obstante, com a vantagem do avano tcnico e de uma poltica de investi-
mentos a longo prazo. A grave crise oramentria dos anos 1930 relacionava-se
mais com a reduo do fluxo de investimentos do que com o valor das expor-
taes. As receitas prprias da colnia, inferiores s da frica Ocidental Fran-
cesa, eram compensadas pela importncia dos capitais privados e pelo apoio
do Estado, que, alm dos emprstimos, cobria o dficit com a ajuda de fortes
subvenes: 687 milhes de francos belgas de 1933 a 1937, alm de uma loteria
colonial, cuja receita lquida (271 milhes de francos belgas) serviu para cobrir
parcialmente os dficits de 1934 e 1935 (673 milhes de francos belgas, ou
seja, 47% das despesas ordinrias). De 1914 a 1935, o Congo "custou"  Blgica
(excludos os emprstimos) um total de 112,5 milhes de francos-ouro, isto ,
aproximadamente metade das despesas metropolitanas totais de 1908 a 19509.




8     COQUERY-VIDROVITCH e MONIOT, 1974, p. 407-9.
9     MOELLER, 1938; ver tambm STENGERS, 1957, p. 394.
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)   411



    Em resumo, ainda que, ou melhor, justamente por ter "custado mais caro 
Blgica", ao contrrio das federaes francesas, o Congo conseguiu "decolar" logo
que a indstria se recuperou da Depresso. Mas no se deve exagerar: o fato de
em toda parte, em seguida  Depresso, as exportaes terem ganho terreno em
relao s importaes prova que os bens de capital da fase precedente apenas
ajudaram a desenvolver at um estgio ulterior uma poltica ainda basicamente
centrada na explorao externa e no no desenvolvimento dos territrios, para
seu prprio benefcio.


     Os encargos do trabalhador
    Este perodo, delimitado por duas fases difceis, marcadas pela explorao
crescente dos trabalhadores  a Primeira Guerra Mundial e a grande depresso
, foi rude para os africanos. Nesse tempo de "desenvolvimento" colonial, os
homens s interessavam ao colonizador enquanto mercadoria ou bem de pro-
duo. Foi para melhorar sua eficincia, alis, que foram tomadas as primeiras
medidas de proteo do trabalho. O nvel de vida, porm, continuava precrio e
vulnervel ao menor desequilbrio: entrou em colapso com a grande depresso,
conforme salientava um administrador francs: "Notei sempre que, ao elaborar
de fato e regularmente o oramento de uma famlia autctone, ele nunca fechava.
A vida de um africano, na verdade,  um milagre perptuo"10.


     O trabalho
   Embora o trabalho forado fosse oficialmente repudiado em toda parte, a
carncia de mo de obra levava  coero, direta ou imposta atravs de tributos,
que tinham de ser pagos.

     Prestao de servios e culturas obrigatrias
   Era comum em toda a parte o uso do trabalho no remunerado. As federa-
es francesas oficializaram, depois da guerra, as prestaes de servio gratuitas
para obras de interesse local ou colonial. Fixadas inicialmente em sete dias por
ano, logo passaram para 12 dias na frica Ocidental Francesa e para 15 dias


10   URVOY, 1940.
412                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



na frica Equatorial Francesa. O decreto de 6 de outubro de 1922, reformado
em 7 de janeiro de 1925, previa a possibilidade de iseno individual, ao preo
de 50 cntimos a dois francos por dia, conforme a maior ou menor penetrao
da economia monetria.
    Esta obrigao, por si limitada, era mais impopular porque a alimentao
desses trabalhadores, no considerada de antemo, ficava a cargo das mulheres se
a obra estivesse a um dia de distncia a p da aldeia. A este trabalho obrigatrio
somavam-se os recrutamentos impostos (no entanto, pagos) pelas ferrovias: de
1921 a 1932, 127250 homens, totalizando uma ausncia de 138125 anos, foram
recrutados na frica Equatorial Francesa para a construo da estrada Congo
-Oceano. Aproximadamente 20 mil devem ter morrido antes de 192811. Na
frica Ocidental Francesa, a medida foi acompanhada do sistema conhecido
como "da segunda parcela do contingente", que previa o alistamento para fins
"sociais e utilitrios" da metade dos trabalhadores no convocados para o servio
militar12. Finalmente, em vsperas da grande depresso, o servio de carregado-
res, embora um pouco em declnio por toda parte, ainda provocava devastaes
em Ruanda, onde o trabalho obrigatrio e gratuito passou, contudo, de 29 para
13 dias por ano13.
    A poca foi marcada sobretudo pela instituio da cultura obrigatria de
produtos especificas. Esse procedimento, que teve origem no Congo Belga no
final do sculo XIX, foi retomado durante a Primeira Guerra Mundial, depois
de uma misso realizada em 1915 em Uganda e na Costa do Ouro, a respeito
do algodo e do cacau, respectivamente14. A cultura obrigatria do arroz foi
introduzida na provncia oriental e a do algodo multiplicou-se desde Maniema
e Uele ao conjunto da colnia. Em 1930, os "campos do Estado" abrangiam mais
de um milho de hectares; em consequncia, o Congo produziu 15 mil toneladas
de arroz e 30 mil toneladas de algodo; uma dezena de empresas controlava
111 usinas de descaroamento. A inovao era especialmente impopular, mas
mesmo assim foi adotada nas federaes francesas. Introduzida em 1916, por
ocasio do "esforo de guerra", desde o incio ela sobreviveu somente graas 
sustentao artificial dos preos pelas subvenes francesas. Contrariamente, na


11    SAUTTER, 1967.
12    Decreto de 31 de outubro de 1926. O sistema tambm estava em uso em Madagscar.
13    P. DE DEKKER, 1974. As prestaes de trabalho anuais obrigatrias passaram de quinze dias em 1928
      para treze dias em 1931. Mas, no Congo Belga, o trabalho gratuito obrigatrio subiu para 120 dias por
      ano durante a Segunda Guerra Mundial. MERLIER, 1962, p. 95.
14    PASSELECQ, 1932, v. I, p. 281.
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                  413



mesma poca o governo da Niassalndia (atual Malavi) deixava de subvencionar
a produo algodoeira, e no Congo Belga os subsdios eram reduzidos.
   Na frica Equatorial Francesa, instigadas pelo administrador Flix bou
(1927-1928), quatro empresas receberam, com um equipamento mnimo de
bens de capital, o monoplio de compra sobre vastas "zonas de proteo"15. Essas
disposies seguiam o modelo belga de monoplios no Congo, institudo pelo
decreto de 1 de agosto de 1921.
   A cultura obrigatria do algodo, introduzida na mesma poca tambm na
frica Ocidental Francesa, foi mais uma das grandes ideias do Office du Niger
(1933). Aqui, mais uma vez, centros aldeos especialmente desenvolvidos e pela
primeira vez estabelecidos em 1937 fracassaram lamentavelmente, em vista da
impossibilidade de solucionar o problema demogrfico e do mau preo de um
algodo difcil de vender: 1,25 franco em 1928; 90 cntimos em 1929; 70 cn-
timos em 1931 e apenas 60 cntimos de 1933 a 1936.

Quadro 6 Algodo na frica Ocidental Francesa: exportaes mdias
quinquenais (em toneladas)
     191014       191519           19204           19259           19304            19359   1954
      189            467             895            3500            2500            3900    1300

    Nas colnias portuguesas, a incria da administrao, incapaz de garantir a
distribuio de sementes ou de providenciar instrues tcnicas, explica a inefi-
cincia do sistema. Mesmo assim, prevaleceu de modo particularmente arcaico
no territrio da Companhia de Moambique, criada em 1891, que gozava de
direitos de soberania por 50 anos sobre 160 mil km2. Esta era a nica compa-
nhia no mundo que em 1930 ainda exercia poder de soberania e tinha controle
sobre 11,6% do comrcio global da colnia, entre 1918 e 1927, sobre 6,5% do
territrio e sobre o trabalho de 4% da populao16.
    Mas nem sempre os resultados eram to decepcionantes; no auge da Depres-
so, foi introduzida em larga escala, pelo mtodo das culturas obrigatrias, a
produo de cacau e principalmente a de caf na Costa do Marfim, Camares
e Ruanda-Urundi. Neste ltimo territrio, o "programa-caf", introduzido expe-
rimentalmente em 1925 (obrigao de meio hectare por chefe ou subchefe), foi
sistematizado logo que se fizeram sentir os primeiros efeitos da Depresso.


15    COQUERY-VIDROVITCH, 1972, p. 475-7.
16    BOHM, 1938, p. 155.
414                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



Quadro 7        Exportaes de caf de Ruanda (em toneladas)
        1929                1932                 1935                 1936                 1937
         50                  100                 1150                 2000                  375
 Fonte: Molitor, 1937, p. 156-75.


    A rpida propagao das culturas especulativas explica-se em princpio pelo
fato de os africanos, oprimidos pelos encargos, no terem outro meio de com-
pensar as perdas seno aumentando sua produo, de forma a driblar a queda
dos preos nos piores momentos da crise. Mas, com a retomada, finalmente
convencidos da rentabilidade de seus esforos, os camponeses entregaram-se
voluntariamente s novas produes. O arranque espetacular na frica Ociden-
tal Francesa, em 1936, aparece no quadro 8.

Quadro 8        Exportaes da frica Ocidental Francesa (em toneladas)
                                                 1935                               1936
 Caf                                            5300                              43500
 Cacau                                           6700                              49700
 Fonte: "L'evolution des exportations de l'AOF de 1905  1957". Institut d'Emission de l'AOF et du Togo,
 n. 36, julho de 1958.


    As culturas especulativas garantiam o mnimo de dinheiro vivo para pagar o
imposto de capitao e atender s necessidades primrias de consumo, levando
 eliminao correlativa das culturas obrigatrias.
    Nessas circunstncias, a funo das instituies encarregadas de ajudar os
produtores era muito importante, como o Crdit Agricole (organizado em
1931 na frica Ocidental e na frica Equatorial francesas e em Camares),
criado para garantir as operaes de produo a curto e mdio prazos e favo-
recer a passagem  propriedade privada. S eram beneficiados os camponeses
pertencentes a uma associao legalmente reconhecida (Socit de Prvoyance,
Association Agricole etc.) e os donos de propriedades registradas em seus
prprios nomes (e no heranas de famlia)17. Da mesma forma, as Socits
Indignes de Prvoyance (SIP), cujo nmero quintuplicou em quatro anos
na frica Ocidental Francesa (de 22 em 1929 para 104 em 1936), tambm
desempenharam o seu papel, ainda que costumassem interessar muito ao
commandant de cercle sob o ngulo exclusivo dos recursos complementares


17    Decreto de 26 de junho de 1931. DESANTI, 1940.
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                             415



resultantes das coletas obrigatrias. No Senegal, em 1940, apenas duas ou trs
SIP estavam em condies de cumprir um papel til, em Sine-Saloum18. At
ento, o trabalho obrigatrio, quer nos campos, nas minas ou nas estradas de
ferro, era a regra geral.

     Regime e regulamentao do trabalho
    Na frica francesa, a administrao controlava os alistamentos que, em prin-
cpio, no podiam exceder, desde 1921 na frica Equatorial Francesa, "um tero
da populao masculina apta que tenha atingido a idade adulta". No Gabo, a
partir de 1926, com o desenvolvimento da explorao florestal, os novos explo-
radores eram avisados de que estavam abrindo seus canteiros de obras "por sua
conta e risco e sabendo bem que corriam o risco de no encontrar no local a
mo de obra necessria"19.
    No Congo Belga, o limite dos recrutamentos estava fixado em 25% dos
"homens adultos aptos". O limite foi reduzido para 10% em meados da dcada,
em face da carncia de mo de obra, mas, regra geral, a quota oficial era mui-
tssimo ultrapassada20. Nas colnias portuguesas, uma sutil distino havia sido
estabelecida entre o "trabalho correcional", reservado aos condenados, e o traba-
lho dos homens de 14 a 60 anos, "obrigao moral e social", pelo menos por seis
meses no ano21, no devendo o Estado "ter escrpulos em obrigar e, se necess-
rio, forar os negros selvagens da frica a trabalhar, quer dizer, a melhorar a si
prprios pelo trabalho, para obter melhores meios de vida, para civilizar-se22.
    A praga dos recrutadores persistia especialmente no Congo, territrio em
que o Estado delegava s sociedades o poder de recrutamento, como a Bourse
du Travail du Katanga (BTK), agncia privada que recrutava pessoal para as
minas das zonas rurais. Em 1926, a fim de remediar a carncia de mo de obra,
o governo concedeu  Union Minire du Haut-Katanga (UMHK) o monoplio
do recrutamento em Maniema (provncia oriental) e em Ruanda-Urundi23.


18   TUPINIER, 1940.
19   ANTONETTI, 1926-1927.
20   MERLIER, 1962, p. 134-5. A noo de "adulto" era vaga, pois designava os indivduos que tivessem
     "atingido o desenvolvimento normal do adulto". LONARD, 1934, p. 382.
21   Cdigo do Trabalho de 1911. Le rgime et l'organisation du travail des indignes dans les colonies tropicales,
     Bruxelas, 1929, p. 224-315.
22   Recomendao da comisso, incorporada ao Cdigo do Trabalho de 14 de outubro de 1914; apud
     DUFFY, 1962, p. 132.
23   FETTER, 1976, p. 90.
416                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Nas colnias portuguesas, estouravam escndalos peridicos, como aquele
do trabalho forado e escravo nas plantaes de cacau de So Tom e Prn-
cipe no incio do sculo XX. Eram plantaes que absorviam de 2 mil a 4 mil
"recrutas voluntrios" por ano. Fiel  sua tradio neoescravagista, Portugal
rejeitou em 1930 a "Recomendao a respeito da coero indireta ao traba-
lho", proposta pela Conferncia Internacional de Genebra. Em 1947, surge
o famoso relatrio de protesto de Henrique Galvo, deputado por Angola 
Assembleia Nacional de Lisboa. Foi preso em 1952, por declarar que dois
milhes de africanos tinham sido expatriados das colnias portuguesas24. Em
1903, o recrutamento de mineiros para o Transvaal em Moambique foi con-
fiado  Witwatersrand Native Labour Association (WNLA). Em troca de um
acordo de reserva de 47,5% do trfego sul-africano para a estrada de ferro de
Loureno Marques, a conveno de 1928 autorizava aproximadamente 250
recrutadores a alistarem at 80 mil africanos por ano. A mdia anual entre
1913 e 1930 foi de 50 mil emigrantes, perfazendo um total de 900 mil, dos
quais 35 mil morreram e somente 740 mil regressaram com boa sade. A
locao de homens e o trnsito de mercadorias constituam, assim, o principal
suporte financeiro da colnia (dois teros em 1928)25. Alm do montante refe-
rente s licenas de emigrao, que representava 9,8% das receitas orament-
rias em 1928-1929, e s tarifas ferrovirias (28%), h ainda que considerar os
direitos aduaneiros pagos no regresso (25%) e, como parte da receita coletada
atravs do imposto de capitao, os fundos remetidos s famlias ou trazidos
de volta para o pas26.
    Ruanda-Urundi desempenhou, em menor grau, papel anlogo para as minas de
Katanga: em 1930, 7300 trabalhadores (de uma populao total de 350 mil "homens
adultos aptos") moravam no Congo, sendo que mais de 4 mil deles em Katanga27.
Cumpre ainda mencionar, um pouco por toda a parte, a emigrao voluntria rela-
cionada com as calamidades naturais (25 mil ruandeses emigraram para Uganda
quando da grande fome de 1928-1929) ou com as fugas ao trabalho forado, como
fizeram os Mossi do Alto Volta, ao se refugiarem na Costa do Ouro.
    Todas as potncias coloniais sentiram, quase ao mesmo tempo, a necessidade
de regulamentao do trabalho. Anteriormente, a regulamentao tivera apenas
valor formal, mas com a proliferao da mo de obra assalariada tornava-se


24    BOHM, 1938, p. 124; DUFFY, 1962, p. 185.
25    BOHM, 1938.
26    Ver quadro em CARDOZO, 1931, p. 29.
27    DE DEKKER, 1974.
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                     417



indispensvel a sua aplicao28. Semelhante em todos os territrios, ela fixava
a durao legal do contrato (mximo de trs anos no Congo, dois anos nas
colnias francesas e portuguesas), cujo registro, taxado, no era obrigatrio na
"carteira" do trabalhador. Embora as federaes francesas tivessem fixado, desde
1922, o "salrio mnimo" autorizado, eram comuns os abusos devido  falta de
inspeo. No era raro um africano, crente de estar se empregando por um ano,
ver-se de fato expatriado por dois ou mais anos. O salrio era pago em merca-
dorias e no em dinheiro, a alimentao distribuda no correspondia ao previsto
na origem. E,  menor infrao, aplicavam-se multas muito pesadas. Alm disso,
em nome da proclamada liberdade do trabalho, o emprego de diaristas persistiu
por muito tempo, sem qualquer tipo de controle.
    A crise de mo de obra, particularmente aguda nas minas e nas obras
ferrovirias, determinou uma mudana de poltica no Congo Belga. At os
anos de 1920, o modelo adotado no Congo fora o das minas da frica do Sul,
onde a mo de obra sem qualificao, recrutada mediante contratos de curta
durao (seis a nove meses), era renovada  medida que se exauria. Depois de
uma investigao, em 1922, a UMHK empreendeu as primeiras reformas. O
rpido aumento da produo  que dobrou nos dois anos seguintes  provo-
cou paralelamente aumento de pessoal africano (de 7500 para 14 mil). Essa
foi a origem do famoso paternalismo belga. A reorganizao das reservas
foi empreendida em 1926; em um ano, o custo do trabalho aumentou 40%,
embora o salrio no representasse mais que um quinto do oramento. Em
1930, pela primeira vez, a natalidade excedeu a mortalidade nos campos da
Union Minire du Haut-Katanga, que ofereciam, ento, as condies de vida
menos desfavorecidas da frica central29. O xito da poltica de estabilizao
da mo de obra em troca da regularidade do emprego aps 1928, e enquadrada
em todos os domnios (lazer, religio, escola etc.), tornou-se evidente quando,
sobrevinda a Depresso, o pessoal foi reduzido de 16 mil para apenas 5 mil
trabalhadores entre 1930 e 1932. Isso provocou, entre os naturais da Rodsia
do Norte, sucessivas revoltas contra a poltica de repatriao, uma srie de


28   No Congo Belga, um decreto de 1910 visava "todos os trabalhadores indgenas" do Congo ou das colnias
     vizinhas, empregados por um "amo civilizado" ou "sujeitos a imposto pessoal" que no fosse o imposto
     per capita, o qual foi emendado em 1922. Na frica Equatorial Francesa, um decreto de 1902 voltou
     a vigorar de 1907 a 1911 e depois foi completamente reformado em 1922, embora somente em 1935
     tenha sido promulgada a primeira legislao ordinria determinando as condies de sua aplicao. Na
     frica Ocidental Francesa, o primeiro decreto de conjunto, reunindo as medidas locais, foi promulgado
     somente em 1928. Nas colnias portuguesas, o Cdigo de Trabalho de 1911 foi revisto em 1926 e de
     novo em 1928 (Cdigo de Salazar). LONARD, 1934.
29   FETTER, 1976, p. 113.
418                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



tumultos entre os trabalhadores que viviam fora das reservas e a revolta dos
naturais de Ruanda-Urundi em 1932.


      Tributao
    Apesar dos progressos, a inegvel expanso da economia pouca alterao
trouxe ao nvel de vida dos africanos.  certo que o salrio tornou-se habitual;
o nmero de trabalhadores congoleses decuplicou em dez anos: de 47 mil em
1917 para 427 000 em 1927, cifra s superada em 1937, aps o refluir da grande
depresso30. No entanto, representava somente uma modesta porcentagem da
populao: menos de 20% dos "homens adultos aptos" no Congo, dentre os quais
2% eram de Ruanda31. Mais tarde, em 1950, esse nmero representava apenas
2% da populao total da frica francesa32.
    Apesar da curva ascendente da oferta de emprego, os salrios no aumenta-
vam, pois, ao contrrio do Reino Unido sempre fiel  sua poltica deflacionria,
a inflao dos anos de 1920 foi o fenmeno dominante nas finanas dos outros
pases europeus: em 1926, o franco francs perdera quatro quintos de seu valor
no pr-guerra, o franco belga um pouco mais (paridade de 100 francos belgas
por 87,60 francos franceses em 1926, estabilizada no ano seguinte para mais
ou menos 100 francos belgas por 71 francos franceses), sem falar da inflao
galopante do escudo portugus.
    Devido  inflao metropolitana, sentida na frica pelo custo crescente
dos bens importados, sem que os preos dos produtos de exportao tambm
aumentassem, o salrio real dos africanos tendia a declinar. A nica tenta-
tiva coroada de algum sucesso foi a gradativa substituio do pagamento
em dinheiro pelo pagamento em espcie  introduzida no Congo Belga a
partir de 1916 e lentamente adotada na frica Equatorial Francesa.  que a
medida, em troca, condicionava que fosse pago em dinheiro o imposto, exigido
de todos os adultos ativos e considerado, desde o incio do sculo, sinal do
acesso do pas  economia monetria e, consequentemente, condio de seu
desenvolvimento.
    O problema do imposto pesava sempre mais sobre o poder aquisitivo dos
africanos apanhados pelo ciclo da produo colonial. O trmino da penetrao


30    Relatrios anuais sobre a administrao do Congo Belga, 1919 a 1939.
31    7300 trabalhadores dentre 350 mil "homens adultos aptos"; DE DEKKER, 1974.
32    HODGKIN, 1956, p. 118.
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                     419



colonial e o progresso da administrao, consolidada desde a guerra, dificulta-
vam mais e mais  populao reagir fugindo ou revoltando-se. Mais regulares,
as receitas tributrias comearam finalmente a exercer a funo de fonte prin-
cipal do financiamento da expanso: em razo disso, entre as duas guerras,
verificou-se um aumento mais rpido da capitao do que da remunerao dos
trabalhadores.
    As rendas dos camponeses, de fato, continuavam irrisrias, especialmente
entre os que plantavam safras obrigatrias: de 1928 a 1932, no Congo Belga,
700 mil plantadores de algodo ganhavam em mdia 165 francos belgas por ano;
os rizicultores pouco mais ganhavam (170 francos belgas)33. Os nmeros eram
ainda mais baixos na frica Equatorial Francesa. Cultivando 20 acres de algo-
do por ano ( razo dos 200 dias regulamentares), na mesma poca, o lavrador
Ubangi ganhava somente de 9,20 a 40 francos franceses, que correspondiam a
pouco mais que o montante do imposto34.
    Menos miservel, a remunerao dos assalariados mal acompanhava a infla-
o, cuja tendncia era avanar mais depressa nas zonas de economia monetria:
no Mdio Congo o salrio mensal mdio caiu de 25,45 francos belgas em 1912
 considerado um ano de ponta,  verdade (19,30 francos em 1913)  para 19,35
em 1920, chegando a 30 francos somente em 192935 . Era maior nas zonas de
explorao florestal do Gabo (40 a 50 francos belgas), quase equivalente 
mdia do Congo Belga (60 francos belgas por ms)36.
    Na melhor das hipteses, houve uma elevao paralela do imposto nas
zonas mais produtivas, como no Gabo, onde a jornada de trabalho exigida
para pag-la decresceu ao longo da dcada: de 23 dias no fim da guerra para
18 dias em vsperas da Depresso. De modo geral, no entanto, a carga fiscal
tornou-se mais pesada ao menos para os camponeses, sobretudo durante a
Depresso, com a dispensa de trabalhadores e o colapso do preo dos produ-
tos tropicais. A tributao direta que pesava sobre o africano excedia, ento,
largamente a remunerao do seu trabalho, condenando-o ao endividamento
e  misria  tanto mais que o imposto aumentou no momento em que os


33   MERLIER, 1962, p. 83-4.
34   SAN MARCO, 1940.
35   Relatrios anuais, Mdio Congo, Arquivos da frica Equatorial Francesa, Aix-en-Provence, dossi 4 (2)
     D. Ver COQUERY-VIDROVITCH, 1972, p. 490-2.
36   Em 1927, por exemplo, 227 milhes de francos belgas para 315 mil trabalhadores, isto , 720 francos
     belgas por ano ou 60 francos belgas por ms (60 francos belgas equivaliam a 42,50 francos franceses
     em 1927). Em 1924, a UMHK pagava entre 30 e 45 francos belgas por 30 dias de trabalho efetivo.
     FETTER, 1976.
420                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



preos, ao nvel mais baixo, fizeram cair a remunerao dos camponeses. Os
casos j estudados da Guin (ver fig. 15.3) ou da Costa do Marfim mostram
que, durante esses anos dramticos, o campons teve de pagar mais do que
recebia, ao menos no contexto da economia monetria. Apesar da expanso
das culturas especulativas, todos os testemunhos concordam: a misria era
profunda. Os camponeses abriram mo de suas magras reservas, cederam as
ltimas moedas poupadas com imensa dificuldade e chegaram at a vender seus
parcos bens familiares.
    Embora a comparao seja difcil,  possvel identificar ao mesmo tempo cer-
tas semelhanas e certas divergncias de evoluo entre os vrios territrios. Foi
nas colnias portuguesas que o imposto de capitao mostrou-se uniformemente
mais pesado, pois correspondia oficialmente a trs meses de trabalho  o imposto
podia ser pago com trabalho e o salrio correspondente a um dia era estimado
em 1 a 1,5% do seu montante. Tambm na frica Ocidental Francesa o imposto
de capitao era proporcionalmente elevado.
    O montante da taxa direta cobrada por habitante era, em 1915, 2 francos
franceses na frica Ocidental Francesa, 1,55 na frica Equatorial Francesa
e 1,35 franco no Congo Belga. Quanto mais o pas estava obrigado a viver de
recursos prprios, maior era a tributao.

Quadro 9         Parte relativa da capitao nas receitas totais dos oramentos
coloniais
                               Em porcentagem                                     Em milhes de francos
                                frica Ocidental          frica Equatorial
       Congo Belga                                                                Montante da capitao
                                    Francesa                  Francesa
  Taxao                     Taxao             Taxao                           Congo
                Taxas                    Taxas               Taxas                        AOF AEF
  da pop.                     da pop.             da pop.                           Belga
              aduaneiras               aduaneiras          aduaneiras                       (Ff )
  africana                    africana            africana                           (Fb)
1928                             20          29,4         22,6          27,3          --       144      27
1931 21,2          21            28          18,4         22,5          30,9          115      181      38
1932     29       19,6          28,7         19,9         24,6          30,9          109      168      37
1934 22,5         18,9          27,1         21,1          19           30,3          82       154      41
1935 22,4         27,9          25,8         23,9                       46,5          91       153
Fonte: "Rapports annuels sur l'administration de la colonie du Congo belge, 1932-1938. Annuaires statistiques
de l'AOF, v. I, II, III, 1932-1938, e da AEF, v. I, 1936-1951".
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                        421



   De modo geral, os oramentos coloniais eram constitudos da mesma forma:
25% das tarifas aduaneiras e 25% do imposto de capitao37. A tragdia foi que,
com a Depresso, as autoridades tentaram fazer com que esse tributo cobrisse o
dficit do primeiro (reduzido a menos de 20% em 1932). No entanto, mais uma
vez os congoleses foram os menos desfavorecidos: embora o imposto mdio por
habitante, em 1931, estivesse praticamente equiparado ao exigido pela adminis-
trao francesa (mdia por habitante: 12,48 francos franceses na frica Ociden-




figura 15.3 Avaliao aproximada das possibilidades monetrias africanas na Guin Francesa (1928-1938).
(Fonte: Trentadue, 1976, p. 633.)


37   Na frica Ocidental Francesa, aproximadamente metade (43 a 45%) do oramento era constitudo,
     de 1928 a 1935, por alfndega mais imposto de capitao. Um tero provinha dos outros impostos,
     principalmente indiretos (15 a 20%), que tambm recaam largamente sobre as populaes autctones
     (imposto sobre a terra, imposto sobre o gado, imposto de consumo e de circulao) e sobre as estradas de
     ferro (13 a 16%), estas, alis, sempre deficitrias. O resto (somente 21 a 24%, porcentagem equivalente
      do Congo Belga) provinha das diversas empresas pblicas e privadas (propriedades estatais, patentes,
     rendimentos, instalaes industriais). Annuaires statistiques, citados na fonte do quadro 9.
422                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



tal Francesa e 11 francos franceses na frica Equatorial Francesa, contra 11,50
francos belgas, ou 8,30 francos franceses, no Congo), o decrscimo durante a
Depresso foi maior. Entre 1931 e 1934, as receitas totais do imposto de capi-
tao no Congo Belga caram 29%, contra 15% na frica Ocidental Francesa,
sem mencionar a frica Equatorial Francesa, onde ele aumentou 43% entre
1929 e 1934.
    O fato  que na frica francesa, apesar de redues muitas vezes dramati-
camente reclamadas pelos administradores locais no momento da Depresso,
a falta de apoio da metrpole obrigava a "no seguir a via [das redues] seno
com muita prudncia"38. No Congo, em compensao, embora a situao no
conjunto fosse pior no fim do perodo, o imposto permanecia inferior a um ms
de salrio. Alm disso, o tempo de trabalho exigido para atender s necessidades
bsicas (expressas na compra do kitenge, ou tecido estampado), que em alguns
casos tinha subido para quase cinco meses, declinou em geral desde 1920, seno
desde antes da guerra. No entanto, posteriormente chegou a subir at quase um
ms e meio.

Quadro 10 Valor do imposto anual de capitao em algumas regies rurais,
em relao ao salrio mensal (salrio mensal global: 19121933 = 100)
                                  Imposto                              Imposto + kitenge
                    1912 1920 1924 1928 1933                   1912 1920 1924 1928 1933
Baixo e Mdio
                     65      50      36      31      78        106     175      198     119      138
Congo
Kasai                75      37      41      22      59        175     482      291     143      135
Fonte: Peemans, 1968, p. 361. Na frica Ocidental Francesa, em compensao, a SCOA estimava que, ainda
em 1940, o imposto tomava do cultivador de amendoim a metade de seus ganhos anuais. Relatrio anexado
ao balano, arquivos da Companhia.



   Encontramos aqui  embora ainda em estado embrionrio  os efeitos de
uma poltica de investimentos prematura, que devia levar a um sistema de pro-
duo mais dinmico ou que, pelo menos, buscasse diferenciar-se do tipo atra-
sado de explorao da zona do Sahel francs. Por falta de qualquer produto
lucrativo, ainda se procurava extorquir o africano na tentativa de evitar a falncia
econmica.


38    Circular n. 68 do Comissrio da Repblica em Camares, 19 de setembro de 1932. Arquivos Yaound,
      APA-10895/A.
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                    423



     As crises e suas repercusses
   Sempre precria, em 1930 a situao dos africanos tornou-se to trgica
quanto a do incio do perodo.

     Produo
    No obstante a escala mundial das hostilidades, a Primeira Guerra Mundial
provocou um crescimento espetacular da produo. Com algumas raras exce-
es (como o caso da madeira okoume do Gabo, inteiramente dependente do
mercado alemo, que lhe foi brutalmente fechado), as exportaes e os lucros
das firmas expatriadas revelaram aprecivel incremento. O fato  que o "esforo
de guerra" foi particularmente severo na frica de lngua francesa. Em 1915
foi a lanado um programa de "intensificao da produo", que atingiu o
ponto mximo em 1916-191739. Foram organizados campos de trabalho para
cultivo e colheita dos produtos ditos estratgicos (borracha, oleaginosas, madeira
etc.). Mais importante, contudo, era o fato de o governo francs ter garantido
provisoriamente a venda desses produtos, requisitando 140 mil toneladas de
oleaginosas em 1918 e quase 3 milhes de toneladas em 1919. A produo de
artigos como leo de rcino e borracha teve ento grande incremento, mas caiu
definitivamente no fim da Primeira Guerra Mundial, quando o Estado deixou
de compr-las. De modo geral, no entanto, a guerra demonstrou a necessidade de
organizar a produo (foi esse o papel atribudo  Conferncia Econmica Colonial
de 1917) e serviu para lanar as primeiras empresas especulativas em grande escala 
algodo em Oubangui-Chari (atual Repblica Centro-Africana), madeira no Gabo
e na Costa do Marfim  no incio dos anos de 1920, aps a violenta mas breve
crise de 1921-1922.
    Foi devido a razes opostas que a crise de 1930, a qual provocou o colapso
dos preos, conduziu a uma redefinio dos objetivos e das tcnicas de produo,
pelo menos naqueles territrios submetidos  autoridade francesa, cuja econo-
mia mantinha-se at ento como conomie de traite.
    No se tratava de uma crise de superproduo. O baixssimo nvel dos ren-
dimentos fazia com que os produtos em questo representassem apenas uma
proporo mnima do comrcio internacional (por exemplo, as exportaes de
amendoim do Senegal compunham 50% da receita da frica Ocidental Fran-


39   Ver a circular de 13 de fevereiro de 1915, frica Equatorial Francesa, citada em COQUERY-VIDROVITCH,
     1972, p. 492. No que concerne  frica Ocidental Francesa, ver MICHEL, 1982.
424                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



cesa, mas representavam somente 5% da produo mundial), e as medidas de
proteo tomadas pelas autoridades coloniais permitiram rpida recuperao,
graas a uma poltica (embora limitada) de subvenes. Essas medidas incluam
bnus  exportao na frica Ocidental Francesa, pagas s companhias expa-
triadas para compensar a queda dos preos, e a subscrio da dvida nacional
na frica Equatorial Francesa, ento  beira da bancarrota devido ao dficit da
receita aduaneira.
    Esmagados por impostos que j no podiam pagar (a carga fiscal continuou
exorbitante, apesar da queda dos preos e dos salrios), os africanos reagiram 
queda de sua renda aumentando a produo. Como vimos, foi em plena crise que
as culturas de tipo tropical (caf, cacau, banana, algodo) se expandiram, devido
unicamente  produo dos pequenos plantadores africanos. Apesar dos preos
baixos, a queda na tonelagem das exportaes, que foi significativa em 1932,
conheceu logo uma reverso. A mdia da tonelagem durante o intervalo entre
as duas guerras foi excedida pela primeira vez em 1931 e de maneira definitiva
a partir de 1934. Isso era, naturalmente, consequncia do esforo despendido no
perodo de 1924 a 1928, muito florescente, bem como da poltica de desenvol-
vimento dos transportes, que prosseguira vigorosamente durante a Depresso,
graas aos emprstimos concedidos s colnias francesas em 1913.
    Todavia, posto que a alocao desses fundos coincide com o perodo mais grave
de Depresso, eles foram essencialmente destinados no para promover a expanso
dos programas, mas antes para compensar, ainda que muito parcialmente, o dficit
local, principalmente em Camares (onde os campos de trabalho foram aban-
donados) e na frica Ocidental Francesa, territrio em que mais de metade das
operaes continuou a ser financiada pelos limitados recursos da federao. Sob
outro aspecto, a poltica de emprstimos macios ocasionou o rpido crescimento
da dvida interna, no exato momento em que as receitas dos oramentos coloniais
vinham abaixo por causa do dficit das rendas aduaneiras.
    Assim, a evidente transformao econmica ocorrida durante esse perodo
foi empreendida e custeada pelo campesinato, posto que a elevao da carga
tributria sobre os produtores coincidiu com o nvel mais baixo dos preos e,
consequentemente, dos salrios. Geralmente, considera-se que o incremento
das receitas tributrias e o desenvolvimento do setor assalariado da populao
agrcola (que pouco a pouco substituiu o trabalho forado) devem estar rela-
cionados com a expanso das culturas especulativas. No entanto, essas culturas
serviram essencialmente para desencadear um processo de diferenciao social,
dando lugar ao surgimento de uma classe de "novos-ricos" locais, pequenos
proprietrios de terras e empresrios comerciais, que ganharam dinheiro  custa
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                      425



da misria e do endividamento da maioria.  significativo, por exemplo, que,
durante os anos da Depresso, a poupana tenha aumentado consideravelmente
nos pases africanos, quer em nmero de contas abertas, quer em volume de
depsitos. O crescimento da poupana deve-se, evidentemente,  pequena classe
mdia dos compradores, que logo compreenderam, graas s condies comer-
ciais relativamente favorveis, que a sua posio dependia da rapidez com que
adotassem as regras do jogo capitalista.
    No entanto, para a massa dos pequenos camponeses pobres, a situao
agravou-se: tiveram de esgotar suas magras reservas, hipotecar terras e tornar-se
rendeiros pelo sistema dos "dois-teros" ou pelo dos "trs-quartos" (o abusa das
plantaes de cacau da Costa do Marfim). No era mais necessrio forar os
africanos a trabalhar mediante leis estritas e obrigatrias. A partir de 1931,
a falta de dinheiro (a cujo uso j no se podia fugir) tornou-se aguda e cada
vez tornava-se mais difcil voltar ao modo de subsistncia tradicional, fundado
na lavoura de alimentos, que no mais garantia a sobrevivncia. Estritamente
falando, os africanos j no tinham opo40.

     Penria de alimentos, fomes e epidemias
    Caracterstica de todo o perodo foi a grave carncia de alimentos. A econo-
mia de guerra dos anos 1915-1918 acarretou uma srie de graves implicaes.
A medida mais nociva foi a requisio de alimentos para a metrpole, no ins-
tante mesmo em que as tropas (10 mil homens somente na frica Equatorial
Francesa, mas algo acima de 160 mil na frica Ocidental Francesa) exauriam
os campos. No Gabo, somente um quarto da produo obrigatria foi deixada
para consumo local. No Mdio Congo e em Oubangui-Chari, at a mandioca
foi exportada: 210 toneladas em 1915, 157 em 191741. Na frica Ocidental
Francesa, como consequncia da deciso de exportar produtos bsicos, a admi-
nistrao esvaziou os estoques de reserva, que j se encontravam desfalcados
devido a dois anos seguidos de semiestiagem (1911-1912) e a um ano de aridez
total (1913). A seca assolou toda a zona sudanesa, desde o Senegal at Uadai e o
Chade. Das carncias peridicas de alimentos passou-se  fome devastadora, que


40   Para a frica Equatorial Francesa, ver RESTE, G. G., Rapport conomique au Min. des Colonies, Brazza-
     ville, 24 de junho de 1937, Archives Nationales, Section d'Outre-Mer, Paris (ANSOM), Fonds Guerut,
     827. Para a frica Ocidental Francesa, veja Relatrio de E. Giscard d'Estaing ao Min. Col. sobre sua
     misso na frica Ocidental Francesa, 1931-1932, ANSOM, Affaires politiques, p. 539. Cf. COQUERY-
     -VIDROVITCH, 1977 e 1976.
41   Cf. circular de 13 de fevereiro de 1915, frica Equatorial Francesa; COQUERY-VIDROVITCH, 1972, p.492.
426                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



fez com certeza de 250 a 400 mil vtimas42, apenas aliviada com 4 mil toneladas
de cereais que o Sudo francs (atual Mali) no tivera nem meios nem tempo
de expedir para a Frana43.

Quadro 11 frica Ocidental Francesa: exportao de alimentos requisitados
(em milhares de toneladas)
Produto                1916              1917           1918             1919              Total
Milho                   1,5              4,6                                                  6
Paino                  9,6              3,6             1,3              1,6               16,2
Arroz                                    2,7                                                  3
                    --------        --------         --------         --------          --------
Total                  11,3   1
                                         11,1   2
                                                         3,22
                                                                          3,3   2
                                                                                            25,2
1   Inclui madeira, cola e gonaki (uma espcie de cola).
2   Mais feijo.
Fonte: "Annuaire du Gouvernement Gnral de l'AOF, 1917-1921", Paris, 1921, p. 55.


    Na frica Equatorial Francesa, onde a venda obrigatria prolongou-se at
a dcada seguinte para abastecer o projeto ferrovirio Congo-Oceano, a fome,
iniciada em 1918, chegou  metade norte do pas (Woleu-Ntem) entre 1922 e
1925: a populao Fang foi provavelmente reduzida em 50%, passando de 140
mil indivduos a 65 mil, em 193344. Enfraquecidas, as populaes foram assola-
das por epidemias, com a recrudescncia da varola e, sobretudo, a disseminao
da gripe espanhola proveniente da Europa, que talvez tenha feito desaparecer
um dcimo da populao da frica Equatorial Francesa45.
    Embora nem sempre acusando resultados to desastrosos, o problema da
escassez de alimentos provocado pelo sistema colonial foi constante no perodo.
Vamos, por exemplo, encontr-lo em Ruanda, "celeiro" do Congo Belga, depois
de uma nova seca, em 1928-192946. Era bem o sinal da fragilidade do pas, esgo-
tado pela conomie de traite, a despeito do aumento das cifras de exportao.
    Em 1930, houve situaes de fome aguda como a do Nger, da qual os
Zerma-Sonrai guardam atroz lembrana: na origem, uma invaso de gafanhotos.


42    SURET-CANALE, 1964, p. 169-72.
43    COSNIER, 1921, p. 253.
44    SAUTTER, 1966, p. 859, 864, 871.
45    HUOT, MARZIN, RICAU, GROSFILLEZ, DAVID, 1921.
46    O que no impediu o surto posterior das exportaes de mandioca, que passaram de 239 para 2515
      toneladas entre 1930 e 1934. DE DEKKER, 1974.
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                427



O sistema colonial, porm, fez tudo para agrav-la, conforme o provam os rela-
trios da poca, cheios de severa autocrtica. Cargas fiscais exorbitantes (em dez
anos, passaram de 1,25 para 7 francos belgas) estimulavam o exlio para a Costa
do Ouro, em prejuzo da lavoura de alimentos. O trabalho forado aumentou
em 1927 com a instalao dos servios administrativos em Niamey e com o
prolongamento da estrada de ferro, sem que se respeitasse o calendrio agrcola,
que a precariedade das chuvas tornava particularmente foroso. Os estoques de
paino, que no eram obrigatrios, dependiam exclusivamente dos chefes locais.
Em 1931, a administrao negou-se a reduzir o imposto de capitao e insistiu
no seu pagamento coletivo, obrigando os camponeses a pagarem pelos desertores
e pelos mortos, o que levou a uma situao na qual, conforme assinala um rela-
trio, "aldeias inteiras desapareceram [...] e um grupo etrio foi completamente
dizimado47, Em certas reas a taxa de mortalidade foi superior a 50%.
   No conjunto, no obstante, a catstrofe foi menor. As fomes foram contidas
graas ao progresso dos meios de transporte, e as epidemias, controladas pelas
primeiras campanhas sanitrias. Mesmo assim, a queda dos preos e a falta de
empregos foram cruelmente sentidas em toda parte: "Foi no preo pago ao
produtor que o declnio mais se fez sentir. O poder aquisitivo da populao
autctone decaiu em maior proporo do que nas crises anteriores48.
    revelador que na frica de lngua francesa a imigrao urbana em grande
escala tenha comeado exatamente no momento da grande crise. Apesar da estag-
nao geral dos ndices demogrficos (na frica Ocidental Francesa, 14,4 milhes
de habitantes em 1931 e 14,6 milhes em 1936), as vilas e cidades comearam a
inchar com o afluxo em massa de camponeses miserveis, muito embora tambm
nelas a situao do emprego fosse crtica. Em 1936, por exemplo, no havia mais
que 167 mil assalariados na frica Ocidental Francesa, ou seja, pouco mais de 1%
da populao. Entre 1931 e 1936, no entanto, as populaes de Dacar e de Abidjan
aumentaram 71%, enquanto a de Conakry duplicava. Ainda mais revelador  o
caso do pequeno ncleo empobrecido do interior, como Ouagadougou, onde a
populao cessou de se reduzir para aumentar um tero, no mesmo perodo.
   A estagnao geral do crescimento demogrfico durante esse perodo indica
particularmente bem que prevalecia o estado de pobreza. As despesas sociais, em
contraste, tendiam a aumentar em toda parte: o acrscimo paralelo das despesas
com a sade, do nmero de ambulatrios e das facilidades de tratamento mdico
contribuiu efetivamente para fazer recuar flagelos tradicionais como tripanos-

47   Apud FUGLESTAD, 1974, p. 25.
48   Socit du Haut-Ogou, Relatrio  Assembleia Geral dos Acionistas, 1930, Arquivos da Companhia.
428                                                          frica sob dominao colonial, 1880-1935



sorrase, doenas venreas e lepra. Em compensao, no perodo 1931-1936, o
de maior carga fiscal, as populaes mostraram-se particularmente vulnerveis s
epidemias ("males espordicos": gripe, varola etc.).  muito tentador relacionar
esse aumento da incidncia de doenas ao estado de angstia profunda e misria
fsica em que se encontrava uma populao debilitada e indefesa49.


      Balano econmico
   Pelo fato de serem mantidas sob o rigoroso controle das autoridades admi-
nistrativas, e dada sua irrisria participao nas transformaes socioeconmicas,
no final do perodo as populaes se encontravam em situao insegura, com
um sistema que estava em plena mutao.

      O setor privado
   A poca foi, com efeito, assinalada pela expanso de empresas poderosas, que
haviam sido fundadas justamente na virada do sculo. O Congo Belga vinha em
primeiro lugar. Em vsperas da Depresso, contavam-se no pas 278 empresas
industriais e comerciais e 36 representaes de companhias estrangeiras, sem
incluir uma infinidade de negcios locais pertencentes a particulares (ao todo,
o nmero de estabelecimentos aumentou um tero em trs anos, passando de
4500 em 1926 para 6600 em 1929).

Quadro 12          Companhias belgas instaladas no Congo, 1929
                                                                 Comrcio
                                                                                    Floresta, (ou
                                               Agricultura    (eventualmente,
                 Transporte Bancos Minas                                             floresta e
                                               e indstria      agricultura e
                                                                                    agricultura)
                                                                 indstria)
 Nmero               23          24     27       125                 88                  9
 Capital
 (milhes           2167          1037   951      1982               1196                105
 de francos)
 Capital
 mdio por            94           43    35        16                 14                  12
 empresa
Fonte: Passelecq, 1932, p. 362.




49    Cf. COQUERY-VIDROVITCH, (?).
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                      429



    De 1919 a 1930, o montante de capital investido aumentou um bilho
de francos-ouro  incluindo um bilho devido a emisses coloniais. A car-
teira do Estado (avaliada em 16 bilhes de francos-ouro em 1928, valor de
mercado que caiu para 5 bilhes em setembro de 1930 e depois para um
tero do ativo em posse do setor privado) estava ento estimada em metade
do valor dos ttulos congoleses possudos por particulares. Mas, embora os
setores cobertos j fossem diversificados, o maior impulso viera das ativida-
des de minerao e ferrovirias. Quatro grupos principais (Socit Gn-
rale, Empain, Cominire e Banque de Bruxelles) garantiam, com mais de 6
bilhes de francos-ouro, aproximadamente 75% do capital50. O grupo mais
importante, a Socit Gnrale, respondia sozinho por metade desse capital,
controlando trs companhias ferrovirias, trs empresas gerais, dois bancos,
doze companhias de minerao, seis plantaes, trs empresas financeiras,
onze companhias industriais e comerciais e uma empresa imobiliria  o
que significa quase toda a produo mineira (cobre, diamantes, rdio, boa
parte do ouro), toda a indstria de cimento e as mais importantes instalaes
hidreltricas51.
    O sucesso da Socit Gnrale estava relacionado com a produtividade das
suas minas, dentre as quais destacavam-se a Union Minire du Haut-Katanga
(cobre) e a Forminire (diamantes de Kasai), cuja prospeco comeou em 1907
e explorao em 1914. A Union Minire du Haut-Katanga nasceu em 1906 de
um acordo com o Comit Spcial du Katanga, o qual, herdeiro da Compagnie
du Katanga (1891), recebera do Estado, em 1900, a gesto econmica da zona,
passando a funcionar quando da chegada da ferrovia a lisabethville (atual
Lubumbashi), em 1910.
    A Socit Gnrale contrastava com a relativa inatividade das outras com-
panhias concessionrias, muitas das quais no tinham reunido capital suficiente
para a explorao de seus vastssimos domnios.
    Isso era particularmente verdadeiro na frica Equatorial Francesa 52,
paralisada desde 1900 por uma infeliz concesso de trinta anos que tinha
liquidado o territrio a umas quarenta enormes companhias monopolistas,
metade das quais j tinha desaparecido antes da Primeira Guerra Mundial.
Algumas, dentre as poucas sobreviventes, tinham se convertido em compa-


50   FRANKEL, 1938, p. 292.
51   Alm disso, a Socit Gnrale participava largamente de outras sete empresas e estava representada no
     conselho administrativo de outras quinze. lbid., p. 294.
52 Cf. COQUERY-VIDROVITCH, 1972.
430                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



nhias estritamente comerciais, como a Socit du Haut-Ogou, na metade
oriental do Gabo, a Compagnie Propritaire du Kouilou Niara, comprada
pela Lever Brothers em 1911; outras ocupavam-se de vagas exploraes de
palmeirais mantidos em estado rudimentar, como a Compagnie Franaise Du
Haut et du Bas-Congo. E outras, ainda, perpetuavam um absurdo regime de
coero e de pobreza, em produtos no lucrativos ou mesmo j condenados,
como a Compagnie Forestiere Sangha-Oubangui, a qual imps o monoplio
da coleta de borracha silvestre at 1935. Tinha um capital de 12 milhes
de francos belgas para um monoplio que abrangia 17 milhes de hectares,
reagrupando onze antigas companhias concessionrias do Mdio Congo e
de Oubangui-Chari. Alm de tudo, a explorao dos diamantes de Ouban-
gui, descobertos em 1913, no comeou antes da dcada de 1930. O nico
surto de atividade na frica Equatorial Francesa fora o da madeira okoum
no Gabo, matria-prima da indstria de contraplacado, nascida durante a
Primeira Guerra Mundial.
   Em vsperas da Depresso, 107 empresas totalizavam um capital nominal
de 309 milhes de francos belgas, o qual, em francos-ouro, mal tinha dupli-
cado desde 1913, enquanto o capital acionrio privado atingia 70 milhes de
francos belgas. O agente motor de investimentos continuava a ser o Estado,
sinal de um pas considerado pobre, em que o setor privado abandonara,
desde longa data, ao poder pblico o peso das enormes despesas em bens de
capital.
   Estava-se longe do xito de uma empresa como a Lever Brothers, que, par-
tindo das primeiras plantaes de dendezeiros adquiridos no Congo Belga
(concesso de 750 mil hectares da Socit des Huileries du Congo Belge 
SEDEC  em 1911), logo estendeu o seu imprio oleaginoso ao conjunto
da frica ocidental (Gabo/Mdio Congo, Nigria, Camares). A Unilever,
finalmente constituda em 1928, aps a fuso da empresa britnica com o truste
germano-holands da margarina, desenvolveu, ao lado do imprio ingls da Uni-
ted Africa Company, toda uma srie de filiais francesas (Niger Franais, Nosoco
no Senegal, Compagnie Franaise de Cte-d'Ivoire etc.), que se expandiram
principalmente no decurso da Segunda Guerra Mundial53.
   A frica Ocidental Francesa continuava a ser o domnio das companhias
comerciais baseadas na agricultura de exportao. Mesmo neste domnio, o
atraso em relao ao Congo Belga era enorme.


53    SHERRIL, 1973, p. 48.
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                       431



Quadro 13 Investimentos em empresas da frica Ocidental Francesa em
1943 (em porcentagem)
                          Comrcio              Plantaes              Floresta            Minas
 Todas as
                               38                     18                   12,5               7,5
 empresas
 Apenas
                              42,8                11 a 12                11 a 12              8,8
 companhias
Fonte: Dresch, 1952, p. 232-41, com base na pesquisa realizada pelo Ministrio das Colnias em 1943,
ANSOM, srie Affaires conomiques, carto 52.


    Em 1938, a federao francesa contava apenas umas cinquenta firmas comer-
ciais, cujo capital social em pouco excedia os 600 milhes de francos 54. Dez
dentre elas ostentavam um capital superior a 20 milhes, sendo que apenas duas
assumiam um tero do conjunto: a Socit Commeriale de l'Ouest-Africain
(SCOA), fundada em 1906 com um capital de 125 milhes de francos belgas,
e a Compagnie Franaise de l' Afrique Occidentale (CFAO), fundada em 1887,
com 75 milhes de francos55. Mas os investimentos dessas companhias, inexis-
tentes antes da guerra, mal excederam a mdia de 10 a 20 milhes de francos-
-ouro nos melhores anos, embora representassem, no final do perodo, 10% dos
investimentos totais na frica francesa56.
    A razo disso  que o comrcio no exigia muito capital, posto que consistia
em armazenar e conduzir at os portos os produtos do pas, exportados em bruto
ou em estado semibruto, bem como em distribuir em troca os bens de impor-
tao manufaturados, destinados sobretudo ao consumo. Certamente a dcada
de 1920 caracterizou a poca triunfal da conomie de traite, e a inflao foi sua
maior fonte de lucro: de 1913 a 1920, o comrcio externo da frica Ocidental
Francesa passou de 277 para 1143 milho de francos franceses. Em cinco anos,
o valor dos artigos ingleses de algodo exportados para a frica quadruplicou e,
considerando-se a estabilidade da libra, aumentou 800% em relao aos preos
franceses de 1914. Em poucos anos, a SCOA e a CFAO tinham se disseminado
por toda a frica ocidental, atingindo em 1924 a sua configurao quase defi-
nitiva (SCOA: 140 agncias, 145 em 1930, 250 em 1940; CFAO: 141 agncias,
191 em 1930, 411 em 1939). Mas elas tambm operavam nos territrios britni-

54   TUPINIER, 1940.
55   Em 1945, os investimentos de capital acionrio das duas empresas representavam 84% do capital das
     empresas comerciais da frica Ocidental Francesa cotadas na bolsa de valores francesa, e 52% do capital
     de todas as empresas. VALDANT, 1946, p. 269.
56   Sobre a histria das duas firmas, ver COQUERY-VIDROVITCH, 1975.
432                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



cos, onde o comrcio era mais dinmico: produtos de azeite de dend e estanho
da Nigria para a CFAO e cacau da Costa do Ouro para a SCOA, produto logo
responsvel por um tero do faturamento da companhia.
    A crise foi duramente sentida, pois a base da prosperidade era amplamente
especulativa e mal preparada para resistir ao colapso dos preos das mercadorias,
dado que a diversificao das atividades nem bem comeara, a industrializao
praticamente no existia e o comrcio tradicional constitua ainda, em vsperas
da Segunda Guerra Mundial, o essencial das atividades da frica Ocidental
Francesa.
    As colnias portuguesas, por sua vez, nem tinham chegado a optar entre as
diferentes possibilidades econmicas. Moambique estava em situao de obscu-
rantismo geral: ainda vivia em larga medida sob regime concessionrio, no qual,
ao lado da relativamente eficiente pilhagem da Companhia de Moambique, ou
das terras bastante boas obtidas por subconcesso pela Companhia do Zambeze,
a Companhia do Niassa perdeu o monoplio em 1929, em vista dos desastrosos
resultados obtidos57. Moambique resistiu muito mal  Depresso (o valor das
exportaes declinou 50% entre 1929 e 1933). Em Angola, a primeira tentativa
de explorao mineira foi a da Diamang, com capitais belgas e ingleses, que
desde 1920 figurava como o principal suporte financeiro da colnia, apesar do
carter ainda muito limitado da sua contribuio (600 mil libras esterlinas em
1929, ou seja, um quarto do valor das exportaes angolanas). Isenta de impos-
tos e de tarifas aduaneiras e dispondo com exclusividade da mo de obra e do
mercado, a companhia j estava forjando seu imprio monopolista.

      Bens de capital e produo
    No que concerne aos bens de capital e  produo, o balano econmico
continuava pobre no final desse perodo. As obras mais importantes foram as das
estradas de ferro, para as quais o Estado em toda parte substitura ou largamente
financiara as antigas companhias privadas. A rede ferroviria do Congo Belga
expandiu-se consideravelmente: os investimentos nesse domnio passaram de
480 milhes de francos-ouro em 1920 para 535 milhes em 1935, e a extenso
da rede de 1940 km para 2410 km. Ao todo, em 1934, o governo havia garan-
tido o capital ferrovirio at o montante de 2271 milhes de francos-ouro. Os
encargos correspondentes elevavam-se em 1934 a 103 milhes de francos58. O


57    BOHM, 1938, p. 155.
58    FRANKEL, 1938, p. 407 e 414.
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                      433



programa consistia fundamentalmente em ampliar a rede em torno das minas,
ligando Katanga ao sistema rodesiano em 1918, ao Baixo Congo em 1928 e
a Benguela depois de 1930. Mas o balano financeiro continuava catastrfico
(com um rendimento anual mdio de 1 %), a no ser no caso da estrada de ferro
de Katanga, onde o transporte de cobre ocupava 85% da tonelagem. O fato 
que a estrada de ferro continuava a ser concebida como "negcio" e no como
servio pblico. O objetivo era menos a expanso do trfego do que a dos lucros,
mediante tarifas proibitivas, protegidas pela interdio da concorrncia trem/
estrada59, o que impedia a produo, sobretudo no perodo do colapso dos preos.
Era esse o evidente interesse das colnias portuguesas pois, com 2348 km de via
frrea em Angola e 1 936 km em Moambique em 1930, elas obtinham desse
meio de transporte a maior parte de seus recursos, 80% do total do comrcio
externo de Moambique60.
    Na frica Equatorial Francesa, os grandiosos projetos ferrovirios lanados
em 1913 (incluindo a ferrovia do Gabo e a ligao Congo-Chade)61 resultaram
finalmente na laboriosa e cara construo, em vidas e em dinheiro, da linha
Congo-Oceano (menos de 500 km, no perodo de 1922-1934), que desblo-
queou o territrio at ento dependente do Congo Belga. Em compensao,
a frica Ocidental Francesa, que sofria de pobreza mineral, efetuou somente
alguns trabalhos de prolongamento, numa rede inarticulada de ramais antigos,
perpendiculares  costa e reveladores do carter arcaico, fragmentrio e desor-
denado da explorao: 550 km de 1921 a 1934, de um total superior a 3500
km em operao.
    A grande novidade foi a criao, na regio das savanas, de uma rede de estra-
das que, pondo fim s cargas s costas dos homens, transformou as condies
de colheita e distribuio dos produtos. A rede de Oubangui (frica Equatorial
Francesa) foi iniciada com a guerra e contava 4200 km em 1926. No entanto,
poucos veculos a utilizavam e, por muito tempo, exclusivamente utilitrios:
menos de mil veculos em 1930, 1500 em 1931 e somente 2850 em 1945, dos
quais 600 eram veculos de turismo62.


59   Cada setor contava com um monoplio. Cf. Monopole des transports automobiles dlimit entre 1928 et
     1934; Relatrio n. 108 ao Senado belga, 1935, apud FRANKEL, 1938, p. 409-11. Poltica anloga 
     dos territrios britnicos, onde, por exemplo, na Costa do Ouro o governo proibia, na mesma poca, que
     os plantadores transportassem o cacau em caminho, para garantir os lucros da estrada de ferro. KAY
     (org.), 1972, p. 431.
60   De acordo com os quadros de FRANKEL, 1938, p. 369.
61   COQUERY-VIDROVITCH, 1972, p. 286.
62   lbid., p. 284.
434                                                                         frica sob dominao colonial, 1880-1935



    A frica Ocidental Francesa, principalmente, compensava com estradas a
deficincia ferroviria: em 1937,27 mil km estavam abertos a 17229 veculos,
dos quais mais ou menos 10 mil caminhes e caminhonetes. Entre 1926 e
1934, os projetos rodovirios e de melhoria dos portos absorveram quase tanto
capital quanto as ferrovias, atingindo 475 milhes de francos franceses, contra
520 milhes63.
    No obstante, a infraestrutura construda quase no teve tempo de influen-
ciar o volume das exportaes antes da Depresso. Seguramente, alguns terri-
trios ofereciam ampla gama de produtos: algodo, caf, cana-de-acar, sisal
e milho em Angola, a que se podia acrescentar coco, amendoim e arroz em
Moambique; madeira no Gabo e na Costa do Marfim; banana na Guin.
Mas a exportao limitava-se ainda, de forma quase exclusiva, aos minerais e s
oleaginosas. Poucos territrios apresentavam situao to favorvel quanto a do
Congo Belga, cuja expanso assentava-se, na melhor das hipteses, sobre dois
ou trs produtos no mnimo parcialmente transformados. Tratava-se de leos
vegetais, cuja produo aumentou de 2500 toneladas em 1914 para 9 mil em
1921 e para 65 mil em 1930; havia tambm o cobre, que triplicou, entre 1922
e 1931, de 43 mil para 120 mil toneladas, antes de cair para 54 mil toneladas
no ano seguinte, em consequncia de uma reduo da produo decidida por
acordos internacionais.

Quadro 14           Congo Belga: valor das exportaes (em porcentagem)
                            1927 1928 1929 1930 1931 1932 1933 1934 1935
Minerais                      61       61        60        67       70            60       54       59        62
Produtos de dend,
                              20       19        17        14       11            17                          12
azeite-de-dend
Algodo                        5        8         9        8            8          8                          11
Total                         86       88        86        89       89            85                          85
Fonte: Frankel, 1938, p. 289-301.


   Certamente, Angola era potencialmente quase to bem dotada, mas a negli-
gncia portuguesa deixava a sua irregular produo agrcola entregue aos capri-
chos do clima e da especulao, o que a fez estagnar durante dez anos64.



63    Annuaires statistiques de l'AOF, op. cit. na fonte do quadro 9.
64    FRANKEL, 1938, p. 371-3.
A economia colonial das antigas zonas francesas, belgas e portuguesas (1914-1935)                   435



    Quanto  frica Equatorial Francesa, estava justamente emergindo do
monoplio florestal do Gabo, responsvel por pouco mais de 400 mil tonela-
das de suas exportaes em 1930. Embora a tonelagem exportada de Camares
tivesse triplicado desde 1923 (de 48 mil para 124 mil toneladas), a explorao do
pas mal comeava a andar em 1934, com 73 milhes de francos em exportaes,
dos quais aproximadamente 60% consistiam em cacau e produtos do dende-
zeiro. Finalmente, a frica Ocidental Francesa, apesar do tmido aparecimento
de alguns produtos novos, dependia ainda em mais de 50% do amendoim do
Senegal, na quase totalidade exportado em estado bruto.

Quadro 15 Valor das exportaes da frica Ocidental Francesa (em porcentagem)
                           1928 1929 1930 1931 1932 1933 1934 1935 1936
Amendoim                    52,7       47       46       47        38       42      49     53     53
Produtos de dend,
                             13        14       14       13        12       6,5      6      8     10
azeite-de-dend
Madeira                      7,5       6        7,5      5,5       4,5       3       3      3     1,6
Cacau                         9        8        9,5      10        16       13      11      8     7,7
Caf                                                                                       0,3    0,3
Banana                                                   0,1       0,3      0,4     0,4    0,3    0,4
Total                       88,2       75       77      75,6      70,8     64,9     69,4   72,6   73
Fonte: "L'volution des exportations de l'AOF", op. cit. na fonte do quadro 8.



    Concluso
    Em suma, o balano econmico no final do perodo de entre as duas guerras
era negativo, tanto do ponto de vista dos colonizadores (produo diminuda e
pouco diversificada) como do ponto de vista africano (misria e confuso das
populaes). No obstante, malgrado as aparncias, a infraestrutura assentada e
as facilidades de produo tinham modificado profundamente a estrutura da eco-
nomia. Sob este aspecto, a Depresso de 1930 levou  conscincia da necessidade
de uma poltica conduzida pelo Estado. Ela imps a ideia da planificao colonial,
em que a diviso internacional do trabalho servia para justificar a organizao de
zonas de produo especializadas e intensificadas. Resumindo, o capitalismo de
Estado, tal como o concebiam as potncias coloniais (e particularmente a Frana),
visava a integrar o mundo colonial, at ento mantido relativamente na periferia
do sistema mundial de produo e distribuio de bens.
436                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



   Outro trao caracterstico do perodo foi a reverso da curva demogrfica.
No caso dos territrios de lngua francesa, pelo menos, parece que se deteve a
tendncia  diminuio, em meados da dcada de 1920. A guerra revelara, ao
mesmo tempo, o reservatrio de recursos humanos que a frica representava
e os perigos que a ameaavam, no exato instante em que o "desenvolvimento"
dos territrios provocava maior demanda de mo de obra. Segundo a opinio
geral, estima-se que at o final da dcada de 1930 a exploso demogrfica no
tenha ainda iniciado. A retomada do crescimento populacional, no entanto,
ajudou a acelerar o processo de recuperao. De fato, a explorao logo recome-
ou com renovado vigor, mas as populaes, agora a ponto de se integrarem 
economia moderna, preparavam-se para agir no mais como passivos ou rebel-
des instrumentos da lei colonial. Certamente, as colnias portuguesas, onde o
Reino Unido e a Unio Sul-Africana estavam assumindo o desenvolvimento
capitalista, continuavam miserveis. O paternalismo belga, por um lado sempre
disposto a investir, por outro recusava sistematicamente qualquer promoo
interna para os africanos.
   A Frana, por sua vez, compreendera finalmente que era preciso contribuir
em escala macia para o investimento produtivo, mesmo que sem retorno ime-
diato. A partir de 1936, o governo da Frente Popular elaborou um programa
colonial coerente, ao mesmo tempo reformista e moderno. Embora a carncia
de recursos impusesse limites, o programa introduziu nas federaes francesas
verdadeiramente as primeiras reformas que, afinal, permitiram a formao de
sindicatos e de partidos polticos africanos.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                         437



                                        CAPTULO 16


                        A economia colonial:
                     as antigas zonas britnicas
                                        Martin H. Y. Kaniki




    Por volta da segunda dcada do sculo atual, os britnicos achavam-se firme-
mente estabelecidos em numerosos territrios da frica tropical, especialmente
Nigria, Costa do Ouro (atual Gana), Gmbia, Serra Leoa, Qunia, Tanganica
(atual Tanznia), Niassalndia (atual Malavi),Uganda, Rodsia do Norte (atual
Zmbia), Rodsia do Sul (atual Zimbbue) e frica do Sul (ver fig. 2.1), e
as economias de tipo colonial estavam manifestamente em via de formao.
Este captulo pretende analisar a natureza e as principais caractersticas dessas
economias.
    Os britnicos, a exemplo dos demais colonizadores, no desenvolveram uma
teoria universal do colonialismo que se aplicasse a todos os aspectos da vida
em todas as colnias. Jamais definiram qualquer mtodo que se assemelhasse
a um sistema prtico universal de colonialismo. Na verdade, essa generalizao
seria impossvel num colonialismo imposto a povos de cultura, costumes e tra-
dies extremamente diversos e que viviam em meios muito diferentes. Alis,
reservava-se ampla autonomia aos administradores coloniais para adequar cada
situao segundo as condies locais. No entanto, mesmo na ausncia de uma
teoria explcita, o exame crtico das relaes coloniais evidencia alguns princ-
pios que parecem ter guiado o comportamento dos responsveis, bem como dos
executantes das polticas econmicas coloniais.
438                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Em primeiro lugar, o Reino Unido esperava que as colnias fornecessem
matrias-primas (produtos agrcolas ou minrios) necessrias para alimentar a
mquina industrial da potncia imperialista. Em segundo, as colnias deveriam
importar os produtos manufaturados provenientes da metrpole. Estes dois
postulados dividiram o imprio em dois mundos econmicos distintos: de uma
parte, a metrpole; de outra, as colnias. Era significativo que pouqussima reci-
procidade existisse nas suas relaes. Enquanto as colnias viam-se, na maior
parte dos casos, obrigadas a exportar para o Reino Unido, que tinha prioridade
sobre qualquer outro comprador (mesmo que oferecesse melhor preo), este no
tinha a menor obrigao de abastecer-se com exclusividade em qualquer de suas
possesses. O Reino Unido seguia uma poltica econmica racional, evidente-
mente orientada por seus melhores interesses, comprando a quem oferecesse
melhor preo. Os pases colonizados eram desfavorecidos tambm em matria
de importao. s vezes, tinham de adquirir artigos ingleses caros, pois o sistema
administrativo colonial, sob presso da metrpole, elevava as tarifas aduaneiras
dos artigos no fabricados pelo Reino Unido. Em terceiro lugar, esperava-se
que as colnias fossem autossuficientes. A coleta de impostos sobre os povos
colonizados devia cobrir o oramento geral da administrao, assim como o
financiamento de qualquer projeto de desenvolvimento.
    Todos esses princpios diretores foram incutidos, explcita ou implicitamente,
nos administradores coloniais. Mas havia um princpio to importante quanto,
que parece ter sido mal assimilado por alguns administradores coloniais e pelos
que fazem a apologia do colonialismo: o fato de os britnicos, como os demais
colonizadores, emigrarem para as colnias essencialmente, se no unicamente,
com o objetivo de enriquecer e de promover seus prprios interesses. No se
sentiam minimamente compromissados em relao ao desenvolvimento dos
africanos. Onde quer que se verificasse um "desenvolvimento" nas colnias,
geralmente no se tratava seno do efeito secundrio de atividades que, desde o
incio, visavam a favorecer os interesses dos colonizadores. Seria um completo
equvoco imaginar que o sistema administrativo colonial pudesse decidir sobre
as principais opes polticas sem ter em conta os interesses particulares dos par-
tidrios do imperialismo que no pertenciam  administrao. Esses auxiliares
oficiosos eram encontrados principalmente nas firmas comerciais, nas empresas
de minerao e nos bancos. Representavam interesses de grupos nas diversas
assembleias e comisses da colnia ou agiam como "grupos de presso". Na falta
de qualquer representao africana verdadeiramente dita, como era o caso da
maioria das colnias, os colonos brancos e os representantes das grandes firmas
metropolitanas conseguiam obter numerosas concesses da administrao local,
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                                   439



 custa das populaes autctones. Em outras palavras, a poltica e a prtica
coloniais eram determinadas por fatores polticos e econmicos. De fato, era
muito frequente que os elementos brancos "no oficiais" exercessem influncia
mais direta sobre a populao local do que a prpria administrao. Esses cida-
dos britnicos compravam produtos agrcolas dos habitantes, respondendo pelo
seu transporte e expedio, e vendiam-lhes artigos importados da metrpole.
Esses europeus tambm empregavam mo de obra autctone. Em quaisquer
dessas atividades, a interferncia do governo local era mnima. Evidentemente,
as tarifas praticadas para a importao e a exportao, bem como o nvel dos
salrios pagos, influenciavam mais o cotidiano dos africanos do que a visita do
comissrio de distrito que, uma vez por ano, recolhia o imposto nas aldeias.
Semelhante situao no constitua caso excepcional, reservado a algumas col-
nias: era a norma que de fato regulava as relaes econmicas na vida colonial.
E como essas relaes eram predominantemente econmicas, a prtica colonial
ficava condicionada pelas leis econmicas1.
    Desde os primeiros tempos da ocupao efetiva da frica, o governo de
Londres compreendeu o potencial e a importncia que as foras econmicas
de suas novas colnias representavam para o desenvolvimento dos interesses
britnicos no ultramar. Em 1895, o primeiro-ministro, lorde Salisbury, expunha
com muita clareza essa tomada de conscincia perante o parlamento:
    Nosso papel em todos esses novos pases  abrir caminho ao comrcio britnico, 
    empresa britnica, ao investimento do capital britnico, numa poca em que outros
    caminhos, outras vlvulas para a energia comercial de nossa raa vo-se fechando
    gradativamente sob o efeito de princpios comerciais que se difundem cada vez
    mais [...]
    Dentro de alguns anos, nossos cidados sero os senhores, nosso comrcio ser
    predominante, nosso capital reinar [...]
    My Lords, a potncia em causa  fantstica, mas exige uma condio: deveis permitir
    que estas foras atinjam o pas onde sua ao se deve exercer. Cabe a vs abrir o
    caminho2.
    Na verdade, o caminho estava aberto e cada administrao colonial soube
criar e manter as condies adequadas para garantir a prossecuo "ordenada"
das atividades econmicas da colnia. Essas condies incluam a manuteno



1    FURNIVAL, 1948, p. 8.
2    Apud WOLFF, 1974, p, 134-5.
440                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



"da lei e da ordem", que propiciavam a explorao eficaz dos recursos da colnia,
quer humanos quer materiais.


      A propriedade dos meios de produo
    At 1935, o meio de produo essencial e quase nico nas possesses bri-
tnicas era o solo. As atitudes e polticas adotadas pelos britnicos no que se
refere  terra variavam de uma regio para outra e, na mesma regio, de colnia
para colnia. No entanto, pode-se dizer que, de maneira geral, os africanos
continuaram na prtica senhores de suas terras nas colnias britnicas da frica
ocidental, mas foram no mais das vezes desapossados delas na frica oriental e
na frica central. Seja como for, em cada uma dessas regies havia diferenas
notveis de colnia para colnia.
    Em Uganda e, em menor medida, em Tanganica, a maior parte das terras
frteis estava em mos da populao local africana. Com algumas excees,
como, por exemplo, em Buganda (regio de Uganda), em Bukoba e Kilimandjaro
(Tanganica) e no pas dos Gikuyu (Qunia), as grandes extenses de terra no
tinham valor de mercado, pois o regime fundirio era o da propriedade coletiva.
Cada membro da comunidade tinha direito ao usufruto da terra. Em muitos
casos, era a mo de obra e no o solo que constitua o meio de produo mais
escasso.
    Os estrangeiros, principalmente britnicos, monopolizavam e reservavam para
si a concesso de regies florestais explorveis ou as jazidas do subsolo, embora
essas empresas exercessem pouca influncia sobre as comunidades locais de agri-
cultores. Ocorriam, no entanto, graves conflitos quando se localizavam riquezas
minerais no subsolo de terras frteis. Quase que invariavelmente, a propriedade
do subsolo cabia  coroa britnica ou a seus representantes e era concedida de
acordo com a vontade dos agentes oficiais ou oficiosos do imperialismo.
    No Qunia e na frica central, como sucedia em Tanganica na poca da
dominao alem, os africanos possuam algumas terras, mas os colonos euro-
peus haviam adjudicado a si prprios extenses imensas das terras mais frteis
(ver fig. 16.1). O processo e as consequncias polticas e econmicas da mono-
polizao das terras no Qunia e na Rodsia do Sul foram muito bem analisados
por M. P. K. Sorrenson3 e Giovanni Arrighi4. J se afirmou que o baixo nvel de


3     SORRENSON, 1968.
4     ARRIGHI, 1967.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                              441



atividade econmica encontrada pelos britnicos no Qunia, no incio do sculo
XX, levou-os a buscar agentes econmicos vindos do exterior. Essa mesma tese
argumenta que, ao contrrio da florescente agricultura camponesa existente em
Uganda (especialmente em Buganda), pas dotado de regime poltico centrali-
zado, o nvel econmico da maior parte das comunidades do Qunia era muito
arcaico para que os britnicos vissem a uma possvel base de arranque para o
desenvolvimento econmico do territrio. Foi por isso  sempre de acordo com
essa tese  que foram escolhidos colonos brancos para formar o ncleo da vida
econmica da colnia5. Semelhante argumentao constitui explicao parcial e
muito insatisfatria. No imprio britnico havia muitas regies euja economia
agrcola permanecia miservel e atrasada. Citemos, por exemplo, as regies
costeiras do Qunia. O fato de tais zonas no terem recebido colonos europeus
revela claramente que o planalto queniano oferecia algo especial aos olhos dos
colonos britnicos. Parece evidente que o clima temperado foi fator essencial
a atrair os colonos brancos. No Qunia, as terras de colonizao estavam, na
sua maioria, situadas a mais de 1400 metros acima do nvel do mar. Essas reas
beneficiavam-se de um regime pluvial dos mais favorveis, com precipitaes
abundantes e regulares. Em resumo, a terra expropriada situava-se nas zonas
mais propcias  agricultura.
    O incio do processo de expropriao de terras na frica oriental foi tratado
no captulo 7. Realizada a preo vil, a operao adquiriu aspecto dramtico,
especialmente no Qunia, a partir de 1909. Nesse territrio, at 1903 somente
2 mil hectares haviam sido atribudos aos europeus. Por volta de 1914, as con-
cesses j haviam ultrapassado 260 mil hectares, para atingir 2740 mil hectares
em 19306. Era uma poro considervel do conjunto das terras arveis, quando
se sabe que o planalto queniano (aproximadamente 90000 km2) representava
menos de 15% da rea do territrio, abrigando porm, at a dcada de 1930,
75% da populao total da colnia. Os principais vitimados pela expropriao
foram os Gikuyu, mas os Nandi, os Masai, os Kipsigi e outras etnias foram
igualmente desapossados.
    A extenso das terras disponveis e a propaganda feita pelas autoridades
coloniais no intuito de popularizar a colonizao agrcola atraram numero-
sos europeus, tanto aventureiros como autnticos agricultores. Em 1903 s se
contavam, no Qunia, 596 brancos. Dois anos depois, o nmero chegava a 954


5    WOLFF, 1974, p. 47-67.
6    Ibid., p. 57, 60.
442                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 16.1 frica oriental: desenvolvimento econmico das antigas zonas britnicas (produtos agrcolas).
(Fonte: Oliver e Atmore, 1972.)
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                              443



indivduos, dos quais 700 provenientes da frica do Sul7. A progresso conti-
nuou (5438 em 31 de maro de 1914). No final de dezembro de 1929, viviam
no Qunia 16663 europeus8.
    Muitos desses primeiros colonos, especialmente antes de 1910, adquiriram
as terras a preo vil, quando no gratuitamente. Entre eles figurava lorde Dela-
mere, que se tornou mais tarde um dos maiores latifundirios: em certa poca,
chegou a possuir mais de 400 mil hectares9. Entre 1902 e 1915, as terras eram
atribudas sob arrendamento, por 99 anos. Em 1915, a administrao modificou
as condies da concesso de terras, beneficiando os colonos que constituam na
poca uma fora poltica efetiva: uma nova legislao agrria, a Crown Lands
Ordinance (1915), aumentou o prazo das concesses para 999 anos. O texto
tambm reduzia as rendas e o valor mnimo dos melhoramentos necessrios
anteriormente impostos aos colonos nos termos da lei de 1902.
    Grande parte das concesses, no entanto, no foi objeto de qualquer explo-
rao agrcola. Enquanto aos africanos, a quem faltavam terras, recusavam-se
o usufruto e os direitos de propriedade sobre solos que lhes pertenciam, os
europeus obtinham lucros considerveis com a especulao. Por volta de 1930,
64,8% das terras europeias "no eram objeto de nenhuma atividade agrcola
produtiva"10. Os lucros da especulao consolidavam-se, com a criao de empre-
sas de holding. Em 1912, cinco proprietrios, sozinhos, detinham 20% do total
das terras europeias. Nas zonas mais frteis do Rift Valley, uma superfcie supe-
rior  metade do total das terras de colonizao estava, em certa poca, con-
centrada em mos de apenas duas companhias e quatro pessoas. Foi justamente
nessa regio que a especulao se excedeu. Exploraes que em 1908 haviam
sido adquiridas por meio xelim o acre (0,4 hectare) foram vendidas a 10 xelins
o acre em 1912. Dois anos mais tarde, as mesmas terras mudavam outra vez de
dono, ao preo de 20 xelins o acre11.
    Na Rodsia do Sul, a proporo das terras concedidas aos europeus foi ainda
maior. Entre 1890 e 1900, pioneiros e aventureiros europeus afluram ao pas,
na esperana de encontrar l uma nova corrida ao ouro (repetindo o "Rand" de
1886). Mas foram descobertos to somente alguns depsitos minerais dispersos
e sem importncia. A maioria dos europeus adquiriu terras da British South


7    Ibid., p. 54, 103.
8    Ibid., p. 107.
9    HUXLEY, 1935, p. 287; SORRENSON, 1968, p. 86 et seq.
10   WOLFF, 1974, p. 60.
11   Ibid.
444                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



Africa Company (BSAC), que governava o territrio por determinao da coroa
britnica, instalando-se ento na Mashonalndia como fazendeiros. Depois,
em 1894, a cada membro das colunas Victoria e Salisbury, recrutados para a
campanha contra os Ndebele, foram prometidos 2400 hectares a serem toma-
dos  futura conquista. A expropriao de terras estendeu-se  Matabelelndia.
Ao contrrio do Qunia, a populao branca aumentou com muita rapidez, e,
entre 1900 e 1935, a Rodsia do Sul contava mais europeus do que qualquer
outro territrio da frica tropical. Em 1901, somavam 11 mil pessoas; em dez
anos, o nmero mais que duplicou, atingindo 23 mil almas. Em 1926, havia na
Rodsia do Sul mais de 35 mil europeus. Desse total, 29,9% tinham nascido na
Rodsia, 29,2% eram naturais do Reino Unido e 32,6% eram provenientes da
frica do Sul. At os anos 1930, a populao branca aumentou mais por causa
da imigrao do que pelo nmero de nascimentos.
    O aumento da populao europeia acelerou a expropriao de terras. No
perodo 1900-1935, os brancos apossaram-se de uma superfcie territorial total-
mente desproporcionada em relao ao seu nmero. Em 1911, possuam mais
ou menos 7700 mil hectares, total pouco inferior ao das reservas africanas. A
tomada de terras continuou e, por volta de 1925, as concesses aos europeus
atingiam 12500 mil hectares, incluindo a quase totalidade das terras de altitude
igualou superior a 900 metros, situadas a menos de 40 quilmetros da estrada
de ferro12, onde as temperaturas eram moderadas e as precipitaes suficientes
e regulares. Em compensao, at 1925, os africanos tinham adquirido apenas
18 mil hectares das terras externas aos limites das reservas destinadas aos autc-
tones. Esses nmeros ilustram com eloquncia a incapacidade de as populaes
locais rivalizarem com os europeus, em face das circunstncias e das condies
reinantes. At essa poca, porm, a propriedade fundiria no constitua direito
legal absoluto a favor da minoria branca. A lei agrria denominada Land Appor-
tionment Act, promulgada em 1930 e aplicada em abril de 1931,  que consagrou
legalmente os privilgios da minoria europeia, com prejuzo da maioria africana.
Essa lei repartia o solo do Qunia em quatro grandes categorias13: as "reservas
indgenas" (22,4%), formadas pelas zonas em que a terra era ocupada segundo o
direito consuetudinrio africano; a "zona de compra para indgenas", destinada
 aquisio individual de fazendas pelos africanos e que constitua uma espcie
de compensao pela perda do direito de comprar terras em outras partes da
Rodsia do Sul; a "zona europeia" (50,8%), formada pelas terras possudas pelos

12    KAY, G., 1970, p. 50.
13    Ibid., p. 30.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                              445



brancos, s quais foram acrescentados 7700 hectares, reservados para serem
mais tarde adquiridos ou explorados exclusivamente por europeus. "Todas as
zonas urbanas estavam classificadas como zona europeia"14. A zona no afetada
(18,4%) compreendia 720 mil hectares de terras pobres e inspitas, cujo usu-
fruto a administrao se reservava, para distribuio posterior por uma ou outra
das trs categorias. Evidentemente, a legislao fundiria de 1930 introduzia a
discriminao racial na diviso das terras, mas no anulava a situao resultante
da partilha entre brancos e negros, que era anterior a 1925. Consequentemente,
impedia o "desenvolvimento isolado" das raas, dentro de suas respectivas zonas.
A minoria branca ficou com a parte do leo nessa partilha, j que, na poca, a
Rodsia do Sul (atual Zimbbue) vivia em regime de autonomia interna domi-
nado pelos brancos. Para estes, a terra assumia uma funo dupla: era fator de
produo e, ao mesmo tempo, objeto de especulao.
    Na Rodsia do Norte, a quantidade de terras atribudas aos europeus foi
relativamente menos importante. A British South Africa Company (BSAC) ,
que governou a colnia at 1924, reservara para si os direitos sobre as terras em
todo o territrio, com exceo da Barotselndia, em razo de tratados firmados
com os chefes locais durante a dcada de 189015. A companhia estimulava com
sucesso os imigrantes brancos. Os africanos desapossados de suas terras eram
coagidos a abandonar o local, s vezes em troca de alguma indenizao. Em
1921, de um total de 3624 europeus, 714 eram agricultores16. Aproximadamente
em meados da dcada de 1930, o solo da Rodsia do Norte estava dividido em
trs grandes categorias: as zonas reservadas especialmente aos africanos totali-
zavam 28740 mil hectares, englobando a Barotselndia (14970 mil hectares) e
as reservas africanas (13760 mil hectares); as terras j concedidas aos europeus
estendiam-se por mais de 3400 mil hectares, dos quais 2225 mil pertenciam
a duas companhias, e mais de 1200000 eram explorados por fazendeiros. Os
60700 mil hectares restantes compreendiam as zonas florestais e as reservas de
animais selvagens17.
    Na frica ocidental (ver fig. 16.2), os britnicos, mais cedo ainda do que na
frica oriental, procuraram tornar-se diretamente proprietrios do solo, a fim
de criar reservas florestais e de oferecer terras em concesso a plantadores euro-
peus. Ainda em 1894 e, depois, em 1897, aplicaram a Lands Bill (lei agrria) na


14   Ibid.
15   BALDWIN, 1966, p. 144-5.
16   Ibid., p. 41, 146.
17   Ibid., p. 149.
446                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



Costa do Ouro (atual Gana), para garantir o controle direto das terras declaradas
devolutas. Em reao a essa lei, a elite instruda e os chefes tradicionais criaram,
em 1897 (ver o captulo 6), a Aborigines' Rights Protection Society (Sociedade
de Proteo dos Direitos dos Indgenas). Em maio de 1898, a Sociedade enviou
a Londres uma delegao que, argumentando no haver terras devolutas na
Costa do Ouro nem qualquer parcela de terra que no pertencesse a esta ou
quela famlia africana, conseguiu convencer o Colonial Office a revogar a lei.
Na dcada de 1910, a Anti-Slavery and Aborigines' Rights Protection Society
(Sociedade de Luta contra o Escravagismo e de Proteo aos Direitos dos Ind-
genas), fundada pela elite nigeriana por influncia de Herbert Macaulay e dos
chefes tradicionais, contestou uma iniciativa destinada a introduzir lei anloga
em Lagos. Para conseguir seu objetivo, a Sociedade apelou para o Privy Coun-
cil, de Londres, o qual concluiu que a terra era "propriedade incontestvel da
comunidade"18. Depois deste xito dos africanos ocidentais, os britnicos renun-
ciaram  poltica de apropriao direta da terra, embora em teoria todas as terras
das zonas conquistadas da frica Oriental Britnica  como Benin, na Nigria,
e o pas Ashanti, na Costa do Ouro, ou as terras cedidas ao Reino Unido, como
Lagos  fossem propriedade da coroa, ao passo que as terras sob protetorado,
como a Nigria do Norte ou as regies setentrionais da Costa do Ouro, eram
administradas em nome do povo pela coroa19. Entre 1906 e 1925, alguns euro-
peus, como W. H. Lever, o magnata do sabo e da margarina de Liverpool, e
tambm algumas empresas, como a British Cotton Growing Association, pro-
moveram encarniadas campanhas pelo estabelecimento de plantaes na frica
Ocidental Britnica; efetivamente, conseguiram alguns resultados na Costa do
Ouro, na Nigria do Sul e em Serra Leoa. Mas as campanhas acabaram fracas-
sando e, em 1930, apenas uma parte relativamente pobre das terras da frica
Ocidental Britnica havia sido expropriada em proveito de colonos britnicos e
de outros europeus, na sua maior parte para explorao mineral.
    Se entre as duas guerras os africanos da regio conseguiram permanecer
com suas terras, no ficaram devendo isso nem a uma poltica deliberada da
administrao colonial nem ao fato de a frica ocidental, em fins do sculo
XIX, ter adquirido a fama de "tmulo do homem branco". Conforme salientava
A. G. Hopkins,




18    AJAYI e CROWDER (orgs.), 1974, p. 576.
19    ELIAS, 1971, p. 1-33.
                                                                                                                          A economia colonial: as antigas zonas britnicas
                                                                                                                          447
figura 16.2   frica ocidental: desenvolvimento econmico das antigas zonas britnicas. (Fonte: Oliver e Atmore, 1972.)
448                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



      a alegada insalubridade dos trpicos no impediu a criao de plantaes europeias
      no Congo Belga, na frica Equatorial Francesa ou na Malsia, nem tampouco
      desencorajou quantos aspiravam verdadeiramente a se instalar na frica ocidental.
      Alm do mais, no incio do sculo XX comeava-se a lutar com mais eficcia contra
      a malria e outras molstias tropicais, e o `tmulo do homem branco' principiava a
      perder um pouco de sua m fama20.
o que foi, ento, que impediu a apropriao das terras em grande escala na frica
Ocidental Britnica? A primeira resposta foi classificada por Hopkins como
"dado geolgico fortuito", ou seja, a constatao de que a frica ocidental era
relativamente pobre em recursos minerais. A segunda foi o malogro do movi-
mento para estabelecer plantaes na regio, malogro devido a vrios fatores:
a) a vigorosa oposio de outras firmas britnicas que operavam nessas reas
e no podiam lanar-se, elas prprias, no sistema de plantaes; b) o fracasso
de algumas plantaes, por falta de capital e "extrema ignorncia das condies
tropicais", por escassez de mo de obra e pelas flutuaes da oferta no mercado
mundial; c) o terceiro fator, de longe o mais importante, foi que o sistema de
plantaes no constitua uma necessidade na regio, pois, nas suas parcelas,
com mtodos simples de cultivo os africanos tinham efetivamente capacidade
de produo suficiente para satisfazer  demanda de produtos agrcolas desti-
nados  exportao, como cacau, amendoim e azeite de dend. Sem contar que
toda tentativa de requisio importante de terras ou de introduo de trabalho
obrigatrio em grande escala nas plantaes era recebida com hostilidade pela
populao21. Foi a combinao de todos esses fatores que poupou populaes
da frica Ocidental Britnica da expropriao das terras, destino sofrido por
alguns povos da frica Oriental Britnica.


      Produo
   As economias coloniais de que estam os tratando caracterizavam-se por dois
grandes setores: um que garantia essencialmente as necessidades alimentares dos
agricultores e do mercado interno, e outro que fornecia os produtos primrios
destinados  exportao. A produo para abastecimento local achava-se organi-
zada havia muito tempo, antes mesmo do estabelecimento do colonialismo, no


20    HOPKINS, 1973, p. 212.
21    Ibid., p. 213-4.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                               449



dedicando a ela quase nenhum interesse as autoridades administrativas. Banana,
inhame, mandioca, arroz e milho eram cultivados pelos camponeses da frica
ocidental mediante processos muito simples, que os britnicos encontraram na
regio em fins do sculo XIX. Na frica central e na oriental, a situao era
praticamente a mesma para a produo de banana, milho, mandioca, paino e
outras lavouras. Em anos mdios, a maioria das famlias camponesas produzia o
bastante para satisfazer suas necessidades, e trocavam ou vendiam no mercado o
pouco excedente. Aos olhos dos funcionrios e dos colonos imperialistas, con-
tudo, o setor interno pouco interesse oferecia, j que no contribua diretamente
para aumentar os lucros do capital internacional. Ao contrrio do setor de expor-
tao, a produo do setor interno no trazia divisas estrangeiras, to necessrias
para o pagamento das mercadorias importadas, nem liberava matrias-primas
para alimentar as fbricas da metrpole. No surpreende, consequentemente,
que o setor tenha sido to negligenciado pelas autoridades coloniais.

     Safras comerciais
   O setor de exportao consistia essencialmente em produo primria (pro-
dutos agrcolas e produtos minerais).  parte os casos excepcionais, em que
colonos europeus possuam importantes extenses de terra, o setor agrcola de
exportao, nas antigas possesses britnicas da frica tropical, estava quase
inteiramente em mos de milhes de pequenos produtores no especializados.
A famlia constitua o ncleo de produo. Apenas na Costa do Ouro meridio-
nal e, em certa medida, na Nigria ocidental  que se encontrava uma notvel
proporo de agricultores que tinham sabido organizar plantaes de cacauei-
ros em bases capitalistas22. Os produtores no especializados no podiam tirar
plena vantagem das oportunidades do mercado para realizar um lucro mximo
nos anos em que as cotaes dos produtos subiram ao nvel mais alto23. Mas,
em compensao, como estavam apenas parcialmente integrados ao sistema
capitalista internacional, no se achavam inteiramente expostos s flutuaes
das condies econmicas internacionais, que estavam fora de seu alcance, nem
plenamente sujeitos s diferentes formas de explorao colonialista. As prin-
cipais safras comerciais compreendiam cacau da Costa do Ouro e da Nigria
ocidental; o azeite e a polpa de dend da Nigria, Serra Leoa e, at certo ponto,
da Costa do Ouro; amendoim de Gmbia e da Nigria do norte; algodo de


22   HILL, P., 1963.
23   MYINT, 1968, p. 50-2.
450                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 16.3   Colheita de ch na Niassalndia (fazendas de Lujenda, Cholo). (Foto: BBC H. P. Library.)
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                                                451



Uganda, Nigria e Tanganica; caf de Uganda e Tanganica (ver fig. 16.3). A
produo de cravo-da-ndia em Zanzibar (hoje parte da Tanznia), que supria
quase totalmente as necessidades do imprio britnico, no entra nesta enume-
rao porque o cravo-da-ndia era a cultivado por pessoal negro em plantaes
pertencentes a rabes.
    A participao na produo de safras comerciais sob o regime colonial no
alterou os hbitos dos camponeses africanos. Primeiro, porque nenhuma ino-
vao tcnica fundamental da adveio. E, segundo, porque a maior parte dessas
culturas, ou de outras semelhantes, fora introduzida e praticada muito antes da
era colonial. A extrao do azeite-de-dend era praticada pelos habitantes da
frica ocidental desde sculos, e poucas mudanas foram introduzidas na pro-
duo e no processamento. Trs culturas  cacau, caf e algodo (em Buganda)
 eram novas para os camponeses locais, mas inseriram-se facilmente nos ciclos
habituais dos trabalhos rurais. Em consequncia, o setor de exportao pro-
grediu rapidamente24. Na falta de qualquer inovao tcnica importante, essa
rpida expanso pode ser atribuda  intensificao do uso da terra e da mo
de obra25.
    Ao contrrio daquilo que os historiadores coloniais nos querem fazer crer, o
setor de exportao campons desenvolveu-se naqueles pases sem se beneficiar,
por pouco que fosse, de qualquer iniciativa da administrao. Na verdade, em
alguns casos, foram realizados progressos apesar das medidas e das polticas
oficiais desfavorveis. At a indstria do cacau da Costa do Ouro, de que os
britnicos tanto se orgulhavam, desenvolveu-se fundamentalmente graas s
iniciativas locais. Allan McPhee, um admirador convicto da expanso imperia-
lista na frica, engana-se quando atribui  administrao colonial da Costa do
Ouro o xito da cultura do cacau. Segundo esse autor, "restam poucas dvidas
de que a produo de cacau na Costa do Ouro  filha adotiva do govemo"26. Ora,
recentes estudos27 destacaram a pobreza da contribuio que os funcionrios da
poca deram  implantao dessa indstria. Na realidade, em vrias ocasies,
tcnicos agrcolas cujos confortveis salrios eram pagos pela tributao imposta
aos produtores rurais mostravam-se mais ignorantes do que os camponeses,
redundando em desastres a aplicao dos seus conselhos28. Apesar do nefasto


24   Ver quadro 1.
25   Ver SZERESZEWSKI, 1965.
26   MCPHEE, 1926, p. 41.
27   HYMER, apud RANIS (org.), 1971, p. 129-79; ver tambm KAY, G. B. (org.), 1972, p. 12-35.
28   KAY, G. B. (org.), 1972, p. 13-5 e 231.
452                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



papel desempenhado pelo Ministrio da Agricultura, a indstria prosperou.
Comeando praticamente do zero no incio da dcada de 1890, em 1903 os
fazendeiros j haviam plantado, ao todo, 17 mil hectares de cacaueiros. Em 1928,
a superfcie atingia 364 mil hectares29 (ver fig. 16.4). Em aproximadamente vinte
e cinco anos, o cacau substituiu a borracha e o azeite-de-dend, para se tornar
o principal produto de exportao do pas30. Em 1934, a Costa do Ouro era
responsvel por 40% da produo mundial de cacau. No entanto, antes dessa
poca, esse ramo de atividade pouco se havia beneficiado da pesquisa cientfica
realizada no territrio. Como observava a Comisso da frica ocidental:
       [...] extraordinrio que antes de 1937 no existisse estao agrcola alguma den-
      tro do cinturo do cacau propriamente dito que pudesse conduzir as pesquisas
      necessrias, segundo as exigncias locais dessa cultura.  difcil compreender como
      um funcionrio do Ministrio podia emitir conselhos competentes a respeito dessa
      planta e de seu tratamento, j que, sob as condies locais, no dispunha de nenhum
      meio para adquirir conhecimentos31.
    A contribuio dada pela administrao  agricultura camponesa limitava-se
a dois aspectos conexos: a) a administrao baixava regulamentos e fazia respei-
tar os textos em vigor para controlar a qualidade da produo e b) as autoridades
introduziam tcnicas agrcolas para aumentar ou manter a produtividade da
terra ou da mo de obra. Mesmo a, o xito da ao oficial era reduzido, princi-
palmente em funo da ignorncia e da empfia dos "tcnicos"32.
    No Qunia e nas Rodsias, a produo de safras comerciais passou gradati-
vamente para as mos dos colonos, desde o incio do sculo XX. No decurso da
primeira dcada, tanto no Qunia como na Rodsia do Sul, os produtores africa-
nos rivalizavam muito eficazmente com os colonos brancos, produzindo a maior
parte dos cereais necessrios  subsistncia de crescente efetivo de assalariados.
Pode-se dizer que, at 1914, os camponeses africanos do Qunia contriburam
mais para o comrcio agrcola e para o setor de exportao do que os prprios
colonos brancos. Foi esse o perodo em que os colonos europeus lutaram, sem
grande xito, para se estabelecer na agricultura. Na mesma poca, no entanto, a
influncia da economia poltica colonial ainda era fraca. Logo, porm, colonos


29    LA ANYANE, 1963, p. 40 e 100.
30    Em 1915, o cacau ia alm de 50% do valor total das exportaes domsticas.
31    The West African Commission, 1938-1939 (Londres, Leverhulme Trust, 1943)  185, apud KAY, G. B.
      (org.), 1972, p. 231.
32 Para a experincia da frica ocidental, ver KANIKI, 1972, p. 63-7.
                                                                 A economia colonial: as antigas zonas britnicas
                                                                 453
figura 16.4   Abrindo cacau na Costa do Ouro. (Foto: Longman.)
454                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



e plantadores descobriram que s podiam participar efetivamente na produo
de safras comerciais agindo por intermdio de seus respectivos administradores
coloniais, e reduzindo sistematicamente ao mnimo o papel dos produtores
africanos. Mas a agricultura de colonizao, ainda mal organizada, exigia mo
de obra abundante e barata. A palavra de um administrador do Qunia em
1905 resumia a situao: "O trabalho dos autctones  to necessrio ao cultivo
das terras como o sol e a chuva!"33. Consequentemente, uma srie de medidas,
seguindo geralmente o modelo da frica do Sul, foram sendo gradativamente
adotadas para obrigar os africanos a trabalhar para os brancos. Primeiro, a alie-
nao de terras, que j comeara, foi intensificada. Esta medida visava privar os
africanos de qualquer fonte de renda em dinheiro.
    O caso da Rodsia do Norte, em que produtores africanos tentaram apro-
veitar o mercado criado pela mo de obra das minas, na dcada de 1920, 
particularmente chocante. No incio da dcada de 1920, os autctones vendiam
uma quantidade irrisria de milho aos negociantes, mas, em 1927, a tonelagem
das transaes atingia 30 mil sacas de 200 libras. Em 1930, participaram com
50% nas vendas de gado em p e, em 1935, comercializaram aproximadamente
100 mil sacas de milho34. Semelhantes progressos no atendiam aos interesses
dos colonos europeus, que j ento haviam constitudo um grupo de presso bas-
tante poderoso. Os brancos no desejavam uma queda nos preos dos alimentos
destinados aos mineiros, mas estavam interessados em obter mais terras e fazer
subir a cotao de seus produtos. Ento, para favorecer os interesses dos colonos,
em 1928-1929 a administrao criou reservas indgenas na regio servida pela
estrada de ferro e nas reas em que africanos e europeus se encontravam em
competio direta pela terra. Essa medida enfraquecia a capacidade de compe-
tio dos africanos no mercado, mas, alm disso, da resultou, de maneira mais
significativa, que a situao competitiva das populaes locais viu-se "severa-
mente limitada" nos mercados comerciais. Com efeito, os terrenos s margens
das estradas de ferro foram reservados  colonizao europeia numa faixa de
30 quilmetros de cada lado da via35. Essas medidas foram tomadas delibera-
damente. Um europeu, membro eleito do Conselho Legislativo, assim exprimia
seus sentimentos em 1930:



33    HILL, 1956, p. 7.
34    BALDWIN, 1966, p. 150. A produo europeia de milho, comercializada entre 1930 e 1935, passou de
      168 mil para 211 mil sacas.
35    Ibid.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                                    455



     O imprio britnico est antes de tudo preocupado com a promoo dos interesses
     dos sditos britnicos de origem inglesa, e somente em segundo lugar com os demais
     sditos da coroa, raas protegidas e nacionais de outros pases, nesta ordem36.
    Realmente, a administrao colonial no poupou esforos para favorecer os
interesses dos colonos, em detrimento da populao local, como o provam vrias
medidas ento tomadas. Em primeiro lugar, em 1936 foi promulgada uma lei
sobre o milho (Maize Control Ordinance), a qual criou um gabinete de controle
do milho com a atribuio de comprar e vender todo o cereal a preos fixos. O
mercado dividiu-se em setor interno e setor de exportao, ficando as cotaes
mais altas com o primeiro. Aos produtores europeus foram atribudos trs quar-
tos do mercado interno, enquanto os africanos recebiam apenas um quarto37.
Um ano mais tarde, tambm a participao dos africanos no comrcio de gado
foi reduzida por uma lei (Cattle Marketing and Control Ordinance) que criou
um gabinete de controle do gado. Esse organismo fixava a cotao mnima,
abaixo da qual as vendas de gado em p eram ilegais, e tinha a atribuio de
regular as importaes e as exportaes de gado. Indubitavelmente, a nova lei
destinava-se, em certa medida, a melhorar a qualidade da carne de boi, mas seu
"objetivo essencial" era "impedir que grande parte da criao bovina praticada
pelos colonos europeus fosse eliminada pela concorrncia"38.
    Em segundo lugar, as cotaes dos produtos agrcolas camponeses foram
drasticamente reduzidas. Na Rodsia do Sul, isso ocorreu principalmente com
o comrcio de gros, entre 1908 e 1911. Mas, mesmo aps a introduo dessas
duas medidas, a maior parte dos africanos continuava refratria  idia da con-
tratao como assalariados nas fazendas e plantaes dos europeus, principal-
mente em razo da hostilidade racial, das ms condies de trabalho e do baixo
nvel dos salrios. Esta situao no era peculiar ao Qunia e s duas Rodsias,
j que se verificou igualmente em outros territrios da frica tropical at a
dcada de 192039.
    Em terceiro lugar, a tributao foi inaugurada ou desenvolvida no s como
forma de aumentar as receitas pblicas, mas ainda com o objetivo de obrigar os
africanos a se colocarem a servio dos interesses do capitalismo internacional.




36   Ibid., p. 147.
37   Ibid., p. 152.
38   Ibid., p. 153-4.
39   BERG, 1965, p. 394-412.
456                                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



Esse princpio bsico foi claramente enunciado pelo governador do Qunia em
1913:
      Consideramos que a taxao  o nico mtodo possvel de obrigar o indgena a sair
      da reserva para procurar trabalho. S assim  que o custo de vida do africano pode
      aumentar [...] Disso depende o suprimento de mo de obra e o nvel dos salrios.
      Elevar o nvel dos salrios no aumentaria, antes diminuiria a oferta de mo de
      obra40.
    Em quarto lugar, o trabalho forado foi legalizado em muitas colnias. Os
africanos eram obrigados a trabalhar determinado nmero de dias por ano em
obras pblicas e nas fazendas e plantaes europeias. A regra foi aplicada quer
em tempos de paz, quer durante a guerra. Foi ento que se criou o inquo sistema
da "carteira de trabalho", inspirado na experincia sul-africana, para regularizar
o mercado de mo de obra. A medida entrou em vigor no Qunia a partir de
julho de 1920. Todo africano adulto do sexo masculino era obrigado a trazer
consigo uma carteira de trabalho (kipande), na qual estavam registrados o nome
do titular, o tipo de trabalho exercido, o horrio de servio e o salrio percebido.
Qualquer erro de apresentao ou a perda do kipande por um africano eram
punidos com multa ou trs meses de priso. O kipande restringia fortemente a
liberdade dos africanos. O trabalhador no podia mais deixar o seu emprego
por livre vontade. Os laos at ento contratuais entre empregado e emprega-
dor passaram a ser sancionados pela lei penal, tornando-se delito o direito do
assalariado a interromper o trabalho. A vontade manifestada pelos africanos de
se libertarem de tal servido  comprovada pelos milhares de processos legais
impetrados contra "desertares".
    E, como se no bastasse, foi proibida aos africanos a prtica de certos culti-
vos. No Qunia, por exemplo, a cultura do caf foi proibida aos africanos, por
tratar-se da "cultura comercial de longe a mais lucrativa" que se praticava no
territrio41. Foi preciso esperar at os anos de 1950 para que o monoplio fosse
desmantelado pelo movimento Mau Mau.
    O principal resultado dessas medidas foi a proletarizao do campesinato
africano, fenmeno que, segundo parece, atingiu em maior escala a Rodsia do
Sul, mais que qualquer outro pas aqui abordado42. A mo de obra africana empre-
gada pelos europeus mediante salrios de fome trabalhava para produzir safras


40    East African Standard (dirio local), 8 de fevereiro de 1913.
41    WOLFF, 1974, p. 141.
42    ARRIGHI, 1970.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                                 457



que eram comercializadas tanto no mercado interno como no externo. Foi assim
que em 1927, no Qunia, entre 83700 e 117 mil africanos, o equivalente a mais
de 50% da massa assalariada, trabalhavam na agricultura comercial. As principais
culturas eram milho, caf, trigo e sisal. O milho ocupava apenas 325 hectares em
1905. Em 1920, a superfcie aumentou para 12500 hectares. Nove anos mais tarde,
contavam-se 90 mil hectares semeados de milho43. Desde o comeo da dcada de
1920, os colonos haviam expulsado os camponeses africanos da produo e do
comrcio desse importante cereal. A rea cultivada de caf tambm registrou uma
progresso espetacular: de apenas 32 hectares em 1905, passou para 11250 hecta-
res em 1920, e chegou, dez anos depois, a aproximadamente 39 mil hectares44. Em
1913, as exportaes de caf e de milho renderam ao Qunia 64991 libras esterli-
nas. Em 1920, as exportaes dos dois produtos, junto com a de sisal, montavam
a 566556 libras esterlinas, para atingir 2429655 libras em 1930 (nesta cifra, o caf
entrava com mais de 50%)45. Esses progressos acarretaram profundas modificaes
estruturais. Em 1913, o setor exclusivamente africano contribua com 24% para o
montante global das exportaes do territrio, enquanto a contribuio do setor
europeu no ia alm de 5%. Estava claro que, na poca, a mo de obra assalariada
africana pouco representava na agricultura comercial dos europeus. Em 1932, a
parte dos agricultores africanos declinara para 9%, enquanto a porcentagem das
exploraes europeias aumentara para 76%46. J estava presente um dos caracteres
dominantes da economia do Qunia colonial!
    Os colonos europeus da Rodsia do Sul comearam a experimentar vrias cul-
turas: algodo, ctricos e tabaco, mas s esta planta vingou, e tornou-se o principal
produto de exportao agrcola a partir dos anos de 1910 (ver fig. 16.1). Em 1927,
o valor das exportaes de folhas de tabaco atingiu 1 254 mil libras, ponto mximo
do perodo 1909-1937. Esse montante representava 19,8% do total das exporta-
es do47 territrio, mas o tabaco era apenas uma das culturas da colnia. Durante
muito tempo, as safras comerciais para o mercado interno (especialmente milho e
criao de gado) superaram em valor o montante das exportaes de tabaco. Com
exceo dos trs anos do perodo 1926-1928, o valor do milho representou, de
1920 a 1929, mais de 50% do valor total das safras48. A expanso das exportaes


43   WOLFF, 1974, p. 73.
44   Ibid.
45   Ibid., p. 54.
46   Ibid., p. 137.
47   FRANKEL, 1938, p. 231-2.
48   Ibid., p. 239.
458                                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



de milho foi prejudicada pelas elevadas tarifas dos transportes, j que se trata de
um produto demasiadamente volumoso e de baixo preo.
   Na Rodsia do Sul, como sucedeu na Rodsia do Norte e no Qunia, a
agricultura praticada pelos colonos brancos criou-se e desenvolveu-se graas 
substancial ajuda dos poderes pblicos, sob a forma de emprstimos, conselhos
tcnicos e pesquisas. Em 1938, o Diretor da Agricultura, ele prprio europeu,
deplorava a flagrante falta de ajuda aos produtores africanos, mas sua declarao
no produziu eco49.
   Na Rodsia do Sul, mais que em qualquer outra regio da frica tropical, os
colonos formavam uma poderosa burguesia rural, que adquiriu certo carter nacio-
nalista, sob o efeito dos esforos comuns consagrados ao desenvolvimento econ-
mico do territrio50. Desde 1926, o setor agrcola ocupava um nmero de europeus
superior a qualquer outro setor (com 22,9% do total da populao ativa)51. Cumpre
notar que, em 1935, este setor ocupava 4305 europeus, dentre  os quais, 2733
proprietrios de terras, enquanto os mineiros somavam 2899 pessoas52.

      As minas
   O subsolo de algumas possesses britnicas da frica tropical era rico em
vrios recursos minerais (ver figs., 16.2 e 16.5). Havia minas de ouro na Costa
do Ouro, na Rodsia do Sul, em Tanganica e Serra Leoa. Os diamantes repre-
sentavam importante produo industrial em Serra Leoa e na Costa do Ouro.
Minas de cobre existiam apenas na Rodsia do Norte, e o minrio de ferro era
uma especialidade de Serra Leoa. Minas de carvo eram exploradas na Nigria
e na Rodsia do Sul, onde representavam importante fonte de energia. Na maior
parte dos territrios era possvel explorar um ou dois tipos de minrio, mas s
a Rodsia do Sul e Serra Leoa apresentavam grande variedade de minerais. Em
1929, Serra Leoa comeou a extrao de ouro e platina, a que se seguiu, em
meados da dcada de 1930, a explorao de cromo, ferro e diamante.
   A descoberta de jazidas minerais nesses pases da frica no foi obra do
acaso, produzida aps a chegada dos colonialistas europeus. Os minrios eram
conhecidos e explorados desde muito antes da era colonial, e a descoberta de


49    The Minutes of Proceedings at the First and Second Meetings of the Native Development Board, Lusaka, 1938,
      p. 12-7.
50    ARRIGHI, 1967, p. 20.
51    KAY, G., 1970, p. 46-67.
52    FRANKEL, 1938, p. 238.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                                                   459




figura 16.5 frica oriental: desenvolvimento econmico das antigas zonas britnicas (minrios). (Fonte:
Oliver e Atmore, 1972.)
460                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935



jazidas resultara de prospeco deliberada e especfica. Antes da dominao
branca, a populao da Rodsia do Sul e a da Costa do Ouro extraam e traba-
lhavam o ouro havia muitas geraes. Os dois pases eram mais conhecidos pela
riqueza potencial de seu subsolo do que pela perspectiva agrcola. Da mesma
forma, os autctones da Nigria exploravam as jazidas de estanho e trabalhavam
esse metal muitas geraes antes de os brancos atingirem o interior do pas.
Em certos territrios, a prospeco mineira do perodo colonial comeou nas
regies onde a populao local j explorava o subsolo. A esperana de enriquecer
da noite para o dia atraiu muitos europeus, e abundantes capitais do Ocidente
afluram  Rodsia do Sul a partir da dcada de 1890, mas a segunda corrida
do ouro no repetiu o milagre do "Rand" anterior, e s se descobriram algumas
pequenas jazidas. Os pequenos mineiros, juntamente com os colonos, formaram
uma burguesia rural que comeou a expressar fortes sentimentos nacionalistas,
em vez de envolver-se no processo capitalista em escala internacional.
    Com raras excees, a explorao dos recursos minerais foi financiada por
capitais estrangeiros. Havia dois motivos para isso: primeiro, em certos casos, o
montante do capital a ser investido estava fora do alcance dos africanos (nomea-
damente no caso das minas de cobre da Rodsia do Norte e de minrio de ferro
de Serra Leoa). E, segundo, os administradores coloniais impediam deliberada e
sistematicamente os africanos de se beneficiarem dos recursos minerais de seu pas.
To logo jazidas eram localizadas, promulgava-se rapidamente uma srie de textos
legislativos dando o monoplio aos interesses imperialistas. Mesmo onde os afri-
canos vinham explorando as minas h vrias geraes, tornou-se ilegal possurem
minrios sem licena especial. A explorao de jazidas de diamantes foi totalmente
proibida aos africanos. Em Serra Leoa e na Costa do Ouro, a indstria mineira era
monoplio do Consolidated African Selection Trust (CAST), poderosa empresa
multinacional que explorava grande variedade de minrios. O monoplio fora-
-lhe concedido sob o pretexto de que o mercado de diamantes no poderia ser
controlado se fosse dividido entre um nmero muito grande de vendedores. Fosse
qual fosse o valor do argumento, a administrao colonial cedeu s presses do
capital internacional e expulsou injustamente a populao africana da indstria
mais lucrativa da poca. O Sierra Leone Selection Trust (SLST) obteve a exclusi-
vidade dos direitos de prospeco, extrao e venda de todos os diamantes por um
perodo de 99 anos, a contar de 193353. Foi preciso esperar pela dcada de 1950,



53    O texto do contrato est reproduzido no Public Record Office Kew (PRO), CO 267/644/22008/Parte
      I, 1934, (Arquivos do Colonial Office).
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                                                   461



quando o controle das vastas regies diamantferas tornou-se impossvel, para que
a administrao se visse obrigada a legalizar a participao africana54.
    Entretanto, mesmo quando os africanos puderam obter licenas de mine-
rao desde o incio, vrios regulamentos e disposies tcnicas reduziram ao
mnimo a participao das populaes locais. Na Nigria, por exemplo, na ausn-
cia do proprietrio de uma mina de estanho, era crime confiar a explorao
a um africano, quaisquer que fossem as qualificaes dele55. Em Serra Leoa,
nenhum africano podia obter licena de minerao se no fosse capaz de ler
e compreender a lei de minas de 1927 (Mining Ordinance), escrita em ingls.
Os autctones que no soubessem ler ingls estavam automaticamente desqua-
lificados de qualquer participao na minerao56. Apesar de tudo, a indstria
mineira se estabeleceu como atividade rentvel.
    O setor de exportao dos pases aqui tratados, que englobava principalmente
produtos agrcolas e minerais, progrediu rapidamente. Como se pode ver pelo
quadro 1, todos esses pases africanos viveram, por volta de 1914, uma dcada
de inegvel crescimento.
    Os recursos minerais tm sido considerados a "pedra de toque do desen-
volvimento econmico de grande parte da frica"57, e a administrao colonial
trabalhava febrilmente para descobrir a "jazida milagrosa". Mas est claro que o
papel das minas nas economias coloniais tem sido manifestamente exagerado.
 certo, como o demonstra o quadro 2, que os produtos minerais contriburam
substancialmente para o setor de exportao de alguns territrios, particular-
mente as Rodsias, a Costa do Ouro e Serra Leoa.




54   VAN DER LAAN, 1965.
55   CHARLES, 1964, p. 38.
56   Os africanos contornaram esta disposio discriminatria estabelecendo sociedade com os que sabiam
     ler ingls.
57   FRANKEL, 1938, p. 210.
462                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935




Quadro 1 Valor dos minrios, em porcentagem das exportaes totais de
cada territrio
         Ano             1913   1929    1930    1931   1932       1933       1934      1935
Serra Leoa                aa     a       a      4,0    7,4        21,5       44,7      52,0
Nigria                  8,4    13, 1   9,3     11,0   6,7         9,1       17,6      15,7
Costa do Ouro            33,0   17,8    25,6    25,1   29,3       34,8       46,6      41,0
Rodsia do
                         26,7   28,9    29,4    51,2   85,7       86,8       84,2      72,0
Norte
Rodsia do Sul           93,3   66,0    65,5    69,2   72,8       79,2       78,2      79,9
Qunia                    a     10,0    7,0     8,0    8,0         9,0        7,0       6,0
Tanganica                 a     3,0     n.db.   n.d.   n.d.       n.d.        n.d.     12,0
a) a: insignificante.
b) n.d.: no disponvel.
Fonte: Annual Reports.


    Na Costa do Ouro, os produtos minerais assumiram grande importncia a
partir do comeo do sculo. Entre 1905 e 1909, os minrios, sobretudo o ouro,
representavam mais de 40% do total das exportaes do pas e, nos oito ou
nove anos seguintes, a proporo permaneceu superior a 30%. A cifra declinou
para menos de 20% no decurso dos anos 1920, mas voltou a subir para 41% em
193558. O caso da Rodsia do Sul era ainda mais surpreendente. Entre 1909 e
1913, os produtos minerais (principalmente o ouro) contriburam com mais de
90% para o total das exportaes do territrio. Durante quase todos os anos que
se seguiram at 1935, a proporo manteve-se superior a 70%.
    Na Rodsia do Norte, extraa-se cobre desde 1910, mas s nos ltimos anos
da dcada de 1920  que as minas passaram a funcionar com plena capacidade,
fazendo com que a produo pesasse bastante no setor de exportao. A partir
de 1931, os produtos minerais representavam mais de 50% do valor total das
exportaes da colnia. E a proporo aumentou consideravelmente nos anos
seguintes.
    Em Serra Leoa, a explorao do subsolo comeou muito tarde, mas em 1935
os produtos minerais j compunham mais de 50% do total das exportaes
locais. Vejamos os valores, em 1936, das exportaes minerais provenientes
das possesses britnicas, classificadas em ordem decrescente (libras esterli-


58    Ibid., p. 320-1.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                                                   463



nas): Rodsia do Norte, 5094 mil; Rodsia do Sul, 4422 mil; Costa do Ouro,
2124213; Serra Leoa, 1245 mil.
     interessante notar que, no caso da Nigria, o montante dos produtos mine-
rais era importante em valor absoluto, mas permanecia bastante fraco em relao
ao total  apenas 14% das exportaes totais da colnia.
    A substancial contribuio dada pelas minas ao setor de exportao pode-
ria induzir a exagerar a sua contribuio  prosperidade geral. Mas h que
levar em conta as limitaes impostas  participao dos africanos. As minas
foram abertas  custa do capital estrangeiro e os lucros resultantes da explorao
foram repatriados, para encher os bolsos dos acionistas metropolitanos ou para
serem reinvestidos em benefcio de outros pases no africanos. Assim, quando
a carta da Niger Company foi rescindida, em 1899, esta companhia recebeu
uma indenizao de 150 mil libras esterlinas, em compensao pelos direitos
de minerao que ela detinha na rea onde posteriormente foram abertas minas
de estanho. Pelo mesmo acordo, a Niger Company devia receber, por 99 anos,
50% do total dos royalities sobre as operaes de minerao59. Essa clusula
impunha pesado tributo  populao local, mas a situao ainda era pior nas
Rodsias, onde os direitos sobre o subsolo ficaram em mos da British South
Africa Company at 1933, data em que o Estado os adquiriu por dois milhes
de libras60. Mesmo com a mudana, porm, raramente as populaes autctones
receberam considerao e ainda menos foram tratadas como beneficirias das
operaes de minerao. Em 1942, um funcionrio do alto escalo do Colonial
Office britnico declarava impudentemente que, "particularmente, h poucas
razes para reservar o valor da produo mineira s populaes locais, j que
essas populaes em nada contriburam para o seu desenvolvimento"61. Mas,
nos territrios em que as administraes coloniais nacionalizaram as minas,
como Serra Leoa, Qunia, Tanganica e Uganda, poucas receitas extraram delas,
principalmente royalties e imposto de renda. Em Serra Leoa, as receitas pblicas
diretas provenientes das minas eram 34100 libras em 1935, o que representava
apenas 5% da receita pblica global do territrio62.
    Os salrios continuavam a ser o nico meio de a populao local recolher
uma frao da renda das minas, mas, como no caso da agricultura e das plan-
taes europeias, o pagamento era to baixo que os assalariados tinham de


59   BOWER, apud PERHAM (org.), 1948, p. 5.
60   Ibid.
61   DAWE, J. A. Minute, CO 54028/42. J. A. Dawe era subsecretrio adjunto do Colonial Office, Londres.
62 KANIKI, 1972, p. 238-9.
464                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



se socorrer junto ao setor campons. A discriminao racial representava um
fator importante desse problema63. Mesmo com funes idnticas, os operrios
europeus recebiam um salrio muitas vezes superior ao dos africanos. Alm
disso, os autctones raramente recebiam formao tcnica que lhes melhorasse
a produtividade e, portanto, o ganho. Na Rodsia do Sul, onde os operrios
brancos especializados e semiespecializados dominavam o mercado de traba-
lho64, os assalariados africanos sequer estavam autorizados a sindicalizar-se.
Alis, mesmo nos territrios livres da dominao dos colonos, foi preciso esperar
pelo fim da dcada de 1930 para que os sindicatos, instrumento importante das
negociaes coletivas, fossem legalmente reconhecidos. Com exceo da Rodsia
do Sul, onde as minas "proporcionaram uma base para grande parte do desen-
volvimento industrial local"65, e em contraste com a experincia sul-africana,
em que a minerao foi "o criador e o protetor originais" da industrializao66,
o setor mineiro contribuiu pouco para a propagao de outras atividades. E os
poucos benefcios no deixaram de ter seu custo. As terras arveis eram cortadas
e prejudicadas pelos trabalhos de minerao; a selva e rvores de valor, destru-
das; o modo de vida tradicional era perturbado, seguindo-se uma ruptura geral
da lei e da ordem.
   Os setores de exportao dos pases aqui tratados apresentavam dois traos
principais. Em primeiro lugar, as exportaes, tanto produtos agrcolas como
minerais, saam em estado bruto. Dessa forma, o valor unitrio da maior parte
das exportaes era relativamente baixo. Em segundo lugar, verificava-se uma
tendncia para o desenvolvimento da monocultura, o que tornava bastante vul-
nerveis as economias dos pases que dependiam essencialmente das exportaes
agrcolas. Somente a Nigria (com trs tipos de culturas: cacau, produtos do
dendezeiro e amendoim) e o Qunia constituam economias algo diversificadas.
A debilidade das economias baseadas na monocultura patenteou-se tragica-
mente durante a grande depresso de 1929-1934, quando o pnico e a confuso
tomaram conta da administrao colonial.




63    BALDWIN, 1966, p. 42 e 82-99; BOWER, apud PERHAM (org.), 1948, p. 23; ARRIGHI, 1967, p.
      25-6; KAY, G., 1970, p. 57-8.
64    ARRIGHI, 1967, p. 20-1; KAY, G., 1970, p. 57-8.
65    KAY, G., 1970, p. 24.
66    PATTERSON, 1957, p. 150.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                               465



     Moeda e bancos
    A exemplo das outras potncias coloniais, os britnicos introduziram nas suas
colnias o uso de moedas modernas, em lugar do tradicional sistema de troca, de
pagamento em mercadorias e de outras unidades monetrias como ouro em p
e conchas. Isso visava fundamentalmente a estimular a produo e a exportao
de safras comerciais, bem como a importao de manufaturas da Europa. As
potncias coloniais, realmente, esforaram-se bastante para promover a adoo
de sua moeda, e o fizeram recorrendo a trs grandes meios. De acordo com
Hopkins, trataram de "desmonetizar as moedas tradicionais, pagando em moeda
europeia  mo de obra cada vez mais numerosa e exigindo que os impostos
lhes fossem pagos em dinheiro e no em espcie67". Esses mtodos revelaram-se
bastante eficazes e, em 1910, o uso das moedas europeias, entre as quais figurava
grande variedade de moedas inglesas, j estava bastante difundido na frica
ocidental. O ano de 1912 foi assinalado pela criao da West African Currency
Board, encarregada de cunhar moeda na frica Ocidental Britnica. Em 1913,
a WACB emitiu as primeiras moedas  de dois xelins, um xelim, seis pence e
trs pence; trs anos depois, as primeiras notas. Na frica oriental, os britnicos
comearam por introduzir o sistema em vigor na ndia. Mas, em 1920, criaram
uma Currency Board encarregada da emisso de moedas e de notas para as trs
colnias. Todas essas moedas estavam ligadas  libra esterlina, moeda corrente
na metrpole.
    O uso cada vez mais difundido de moedas modernas trouxe como consequ-
ncia maior o surgimento de instituies bancrias nas colnias britnicas. Na
frica ocidental, o primeiro banco foi criado em 1894. Tratava-se do Bank of
British West Africa, ao qual se seguiu, em 1926, o Barclays Bank ("Dominion,
Colonial and Overseas"). Essas duas instituies detiveram o monoplio das
atividades bancrias na frica Ocidental Britnica durante todo o perodo
colonial. A frica oriental e a frica central, por sua vez, tornaram-se feudos
do National Bank e do Grindlay's Bank. Esses estabelecimentos tiveram ao
prejudicial sobre o desenvolvimento econmico das colnias por trs razes
essenciais. Primeiro, eles investiram todo o seu capital, incluindo as economias
dos prprios africanos, no Reino Unido, favorecendo a formao de capital e,
consequentemente, o desenvolvimento econmico no pas rico que era a metr-
pole,  custa das colnias j pobres. Pior, ainda: pesquisas recentes demonstraram


67   HOPKINS, 1973, p. 206.
466                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



que, em matria de emprstimos, todos esses estabelecimentos aplicavam uma
poltica discriminatria com relao aos empresrios africanos e favorvel aos
britnicos e asiticos68. Finalmente, como o sistema bancrio tornou-se apangio
exclusivo dos europeus, aos africanos foi recusada a possibilidade de adquirir
formao e experincia nesse domnio vital.


      Marketing
    A comercializao foi gravemente negligenciada pelos administradores colo-
niais. Em graus diferentes, a poltica do laissez-jaire era a regra em todos os
territrios que estamos discutindo. A generalizao feita por Cyril Ehrlich,
segundo a qual esta poltica, "ao contrrio da crena popular,  praticamente a
nica utopia que ainda no foi experimentada"69, somente se aplicaria ao per-
odo posterior a 1940.  certo que os organismos de comercializao datam do
final das dcadas de 1940 e de 1950. A maior parte dos textos promulgados at
meados da dcada de 1930 no regulamentava seno dois pontos: as licenas
comerciais e a qualidade de algumas exportaes agrcolas. As cooperativas de
venda foram legalmente reconhecidas por lei em Tanganica, em 1932, mas nada
se lhes seguiu durante cinco anos. Enquanto porta-bandeira da livre iniciativa
daquela poca, o Reino Unido no restringia sequer as atividades de empresas e
indivduos no britnicos nas suas possesses. Antes do surgimento da United
Africa Company (UAC), em 1929, por exemplo, as duas principais companhias
francesas  a Compagnie Franaise de l'Afrique Occidental (CFAO) e a Socit
Commerciale de l'Ouest-Africain (SCOA)  rivalizavam muito eficientemente
com as firmas britnicas na frica Ocidental Inglesa. Em meados da dcada de
1920, cada uma dessas sociedades possua mais filiais e entrepostos em Serra
Leoa do que qualquer similar britnica70. No entanto, nada fora previsto para
proteger a populao local. A preocupao fundamental das administraes
coloniais consistia em desenvolver o comrcio de import/export, a fim de ali-
mentar os cofres pblicos com a receita dos direitos aduaneiros.
    Incontestavelmente, at o comeo da dcada de 1930 havia tendncia para
favorecer todos quantos estivessem em condies de contribuir para o aumento
das receitas do Estado. Assim, os comerciantes hindus no s eram admitidos,


68    Ibid., p. 209.
69    EHRLICH, 1973, p. 660.
70    Ver KANIKI, 1972, p. 58-60.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                                                   467



mas em certa medida estimulados a dominar o comrcio da frica oriental e,
at certo ponto, da frica central. A populao de origem asitica na frica
oriental aumentou nas seguintes propores: Uganda, 2 mil em 1910, 13 026
em 1917; Tanganica, 18784 em 1913 e 23422 em 1931; Qunia, 22800 em 1921
e 26759 em 1931.
    O "descontentamento e a desconfiana das comunidades levantinas", que o
professor Bauer observou serem "discriminadas nos meios oficiais" na frica
ocidental71, eram fenmeno recente. Hostilidade de fato contra os levantinos,
principalmente os libaneses, vinha no dos crculos oficiais, mas de diversos
agentes comerciais europeus em resposta  rivalidade comercial demonstrada
por eles72. Se as empresas britnicas aparentavam dar-lhes preferncia, no era
por respeito, mas porque eles podiam  com as bnos do governo Britnico 
atuar como grupo de presso e influenciar as decises polticas73.
    Continua vlida a afirmao de Ehrlich de que "as decises administrativas,
em toda a frica britnica, raramente encorajavam empreendimentos comer-
ciais nativos"74. Outros fatores porm refreavam iniciativas locais. Acima de tudo,
a poltica oficial geral, como seria de se esperar no contexto colonial, era dirigida
para o avano dos interesses imperialistas. Consequentemente, a populao local
no estava protegida das "garras" das grandes empresas e era facilmente exposta 
destruio. Na primeira dcada do sculo 20, durante a construo de ferrovias,
as empresas europeias pressionavam os comerciants africanos de duas manei-
ras. Por meio da concentrao de capital, vendiam pequenas empresas abaixo
do preo. Desse modo, os grandes mercadores nativos que haviam emergido
durante o sculo 19 eram descartados dos negcios e as empresas europeias
estendiam suas vendas do atacado para o varejo. O que Alldridge disse sobre
Serra Leoa em 1908 aplica-se a vrias partes do imprio britnico:

     Anteriormente, as grandes empresas europeias eram comerciantes pura e simples-
     mente, no sentido mais tradicional do termo [...] seu negcio era estritamente a
     venda por atacado; eles importavam mercadorias, compravam a produo local e
     exportavam, mas nunca excediam a isso. Vendiam as mercadorias importadas na
     embalagem original; lidavam com grandes quantidades e deixavam o varejo intei-
     ramente nas mos dos comerciantes locais [...] Tudo isso mudou. A funo do


71   BAUER. P. T., 1954, 148.
72    Slater a Amery, Despacho Confidencial, CO 267/607, de 11 de janeiro de 1925, Anexos 3 e 5.
73   EHRLICH, 1973, p. 652.
74   Ibid.
468                                                         frica sob dominao colonial, 1880-1935



      intermedirio no  mais a mesma, uma vez que as grandes empresas tornaram-se as
      prprias intermedirias, e, enquanto continuam a ser atacadistas, tambm passaram
      a negociar no varejo.75
Em segundo lugar, na maioria dos casos, os comerciantes africanos no tinham
como fazer emprstimos bancrios porque no possuam garantias. Alm disso,
muitas vezes o preconceito racial prevalecia a esse respeito.
    O papel das empresas comerciais europeias tem sido estudado por muitos
autores, a maioria deles concorda sobre a importncia do contato da frica
com o mercado europeu ocidental e as Amricas. As firmas compravam a pro-
duo interna e exportavam para a frica. Tambm importavam e vendiam
uma variedade de produtos manufaturados, principalmente txteis. Mcphee,
Bauer e Hopkins enfatizam o papel dessas empresas na expanso das fronteiras
e do setor comercial como um todo. No entanto, so muito discretos quanto s
tendncias dessas firmas para a explorao76. Os comerciantes europeus, hindus,
libaneses e, em grau menor, certos africanos apropriavam-se do excedente da
produo camponesa, especialmente atravs de transaes no equitativas. Os
mercadores pagavam baixo preo pelos produtos locais e vendiam bem caro os
artigos importados. A experincia similar dos camponeses da Amrica Latina
 bem reveladora neste caso:
      Obstculo suplementar ao desenvolvimento comercial de uma economia formada
      por pequenos agricultores  o mecanismo de comercializao. Aproveitando a infe-
      rioridade do campons nas transaes e a concentrao habitual de trs funes
      comerciais nas mos do mesmo intermedirio (comprador dos produtos, fornecedor
      de crdito e vendedor de artigos de consumo), todo o excedente produzido pelo
      trabalho dos `economicamente fracos' tende a ser transferido ao intermedirio, em
      vez de ficar disponvel para reinvestimento.77
   Nas regies dominadas pelos colonos (Rodsia do Sul, por exemplo), tor-
nou-se "habitual que os proprietrios europeus comercializassem a produo
de seus rendeiros e, muitas vezes, a das exploraes autctones vizinhas"78. Esta
prtica reduzia ao mnimo o nvel competitivo dos africanos e garantia ao colono
branco uma situao de quase monoplio.


75    ALLDRIDGE, 1910, p. 73-4.
76    HOPKINS, 1973, p. 108-209; MCPHEE, 1926, p. 32-105; BAUER, P. T., 1954.
77    PEARSE, apud SHANIN (org.), 1971, p. 73.
78    ARRIGHI, 1970, p. 209.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                                                 469



    De vez em quando, os produtores africanos defendiam coletivamente os
seus interesses mediante a reteno, recusando-se a entregar o produto ao mer-
cado. Houve numerosos casos de recusa de venda na Costa do Ouro, onde os
produtores africanos de cacau encontravam-se totalmente  merc das presses
do mercado internacional. A mais sria "greve de vendas" do cacau ocorreu de
outubro a dezembro de 1930. Foi descrita como uma "greve econmica desti-
nada a conseguir preos mais altos" e "era diretamente contra as grandes firmas
compradoras para exportao e o controle monopolstico por elas exercido" sobre
a economia da Costa do Ouro79. Alm de reterem o cacau, os africanos da Costa
do Ouro tambm boicotaram as mercadorias europeias. Houve prises e foram
aplicadas multas por participao nas "greves de vendas". A eficcia do movi-
mento ameaou os prprios fundamentos das relaes econmicas coloniais, j
que o governo colonial, tal como as filiais das firmas metropolitanas, extraa sua
receita do comrcio do cacau. Era evidente que o movimento colocava-se contra
os interesses das duas partes. Consequentemente, as autoridades coloniais rom-
peram o movimento pela fora, multando e prendendo os chefes que apoiaram
essas greves80. Durante a campanha do cacau de 1937-1938, outra importante
greve de vendas foi organizada contra as mais poderosas casas exportadoras, que
tinham fechado um acordo fixando um teto para o preo de compra do cacau.
    Dessa vez, a greve de vendas propagou-se  Nigria ocidental e s terminou
com a interveno do governo britnico. Uma comisso de inqurito dirigida
por Nowel81 revelou que o sistema de comercializao, que envolvia milhares de
intermedirios, era ao mesmo tempo ineficiente e gerador de desperdcios, preju-
dicando quer os produtores da frica ocidental, quer os consumidores europeus.
    A United Africa Company (UAC), que reunia muitas antigas firmas bri-
tnicas de comrcio, tornou-se, depois de 1929, a mais poderosa e a principal
nos mercados da frica ocidental. No decurso da dcada de 1930, a UAC
movimentava mais de metade das operaes de exportao na frica ocidental
e dominava os mercados dos territrios britnicos82, especialmente na Nigria.
Havia filiais da UAC na frica oriental e na central, mas aqui o papel dela
era bem mais reduzido. Nestas duas ltimas regies do continente no havia
nenhum equivalente da UAC.



79   RHODIE, 1968, p. 105.
80   Ibid., p. 109-115.
81   Gr-Bretanha, Commission on Marketing West African Cocoa, Londres HMSO, 1938, p. 157 e passim.
82   HOPKINS, 1973, p. 199.
470                                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



   O comrcio com o Reino Unido mantinha as possesses africanas em posio
de inferioridade, como durante a Depresso de 1929. Em 1932, tarifas imperiais
de preferncia foram introduzidas nas possesses britnicas. Para as importaes
provenientes do imprio, os direitos aduaneiros eram 10% a 50% mais baixos do
que o nvel geral. Mas, j que o intercmbio entre os diversos territrios ingleses
era negligencivel, o beneficirio final da lei era evidentemente a metrpole.
Em setembro de 1931, o Colonial Office dirigiu uma circular s administraes
coloniais, pedindo que ajudassem o Reino Unido e lembrando-lhes que
      os interesses do Reino Unido e os de suas colnias e possesses so indissolveis e
      que os perigos que o Reino Unido enfrenta so os mesmos que ameaam o conjunto
      do imprio [...] que o colapso geral do crdito britnico ou a desvalorizao da libra
      esterlina significariam a runa para as colnias, tanto quanto para o Reino Unido83.
    Apesar da taxao mais alta, a importao de bens no britnicos aumentou
consideravelmente, para vantagem dos consumidores das colnias. Os calados
de lona e os tecidos de seda artificial e de algodo, de fabricao japonesa,
inundaram os mercados, a preos bem inferiores aos dos artigos ingleses, que
eram beneficiados pela reduo de tarifas. Em 1934, o chefe do distrito de Dar
es Salaam (Tanganica) salientava que, "praticamente, todas as lojas do distrito84
estavam repletas de artigos japoneses de todos os tipos. A invaso tornou-se
mais pronunciada durante este perodo de marasmo econmico. Como dizia
um administrador colonial, talvez com certo exagero, "o africano mdio estaria
agora reduzido a usar roupa de casca de rvore se no houvesse grandes quanti-
dades de roupas baratas de algodo, de fabricao japonesa,  venda em todas as
lojas da cidade e das aldeias"85. Mas a preocupao do governo de Londres era
a prosperidade da indstria britnica, e no o bem-estar das populaes pobres
de suas colnias.
    Em 1934 veio o contra-ataque: as tarifas aduaneiras sobre mercadorias no
britnicas tiveram, em geral, um aumento de 100%. Alm disso, um sistema de
quotas limitava a importao de artigos de fabricao japonesa. Houve protestos
isolados contra essas medidas, mas as populaes colonizadas acabaram tendo
de pagar preos mais altos, promovendo os interesses imperialistas.



83    West African Mail and Trade Gazette, 24 de outubro de 1931, p. 4; Sierra Leone Royal Gazette, 15 de
      outubro de 1931.
84    Dar es Salaam District Officer's Annual Report for 1934, p. 4. Arquivos Nacionais da Tanznia, 54/4.
85    Ibid., ano de 1933, p. 3-4.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                              471



     Infraestrutura
    A infraestrutura constitui um dos principais fatores da comercializao. A
construo de ferrovias, estradas, linhas telegrficas e instalaes porturias
mereceu desde cedo a ateno das administraes coloniais. Embora esses equi-
pamentos servissem  administrao em geral, seu objetivo fundamental era
fazer chegar at o mar as exportaes. No admira, portanto, que o traado e os
grandes entroncamentos das estradas e das ferrovias pouco levassem em conta
o bem-estar geral das populaes locais. Na sua maioria, as estradas de ferro
ligavam diretamente a costa s regies interioranas de jazidas de minrios ou de
plantaes comerciais. O nmero de linhas transversais e de ligaes ferrovirias
interterritoriais era pobre. Consequentemente, as estradas de ferro atendiam
apenas a zonas limitadas e, fosse qual fosse o seu papel, a importncia que
tiveram na abertura dos territrios do continente foi com certeza exagerada86.
Somente a Rodsia do Sul e a frica do Sul dispunham de verdadeira malha
ferroviria, concebida principalmente para servir s minas muito dispersas e s
regies de agricultura de colonizao. O cinturo do cacau ao sul da Costa do
Ouro tambm era servido por estradas de ferro, ao passo que os territrios do
norte, que no tinham produo exportvel, ficaram completamente abandona-
dos (ver figs. 16.2 e 16.5).
    Na sua maior parte, as ferrovias eram construdas, possudas e administra-
das por governos ou servios oficiais. A construo da primeira via frrea na
frica Ocidental Britnica ocorreu em Serra Leoa, durante a dcada de 1890.
O primeiro trem comeou a operar na colnia em 1897 e, por volta de 1909,
foi concluda a linha principal, atravessando a rica regio de palmeirais (den-
dezeiros) at Pendembu, a leste, numa extenso de 365 km. Um ramal ligando
Bubuya a Makeni, no norte (132 km), foi construdo em 1915. Logo depois de
iniciadas as obras em Serra Leoa, outras possesses seguiram o seu exemplo,
com resultados ainda melhores. Todas as grandes linhas estavam prontas j em
1920. Em Tanganica, os britnicos herdaram as duas ferrovias construdas pelos
alemes em comeos do sculo XX.
    Somente nas Rodsias e em Serra Leoa  que o capital privado participava
da construo das ferrovias. A linha principal que atravessa a Rodsia de sul
a norte era um prolongamento da rede da frica do Sul, e foi construda pela




86   MCPHEE, 1926, p. 47-8, 108-15, 126-7.
472                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



British South Africa Company. A linha atingiu Bulawayo em outubro de 1897
e cruzou o Zambeze nas cataratas Victoria em comeos de 1904.
    Algumas linhas secundrias foram construdas por empresas interessadas
na minerao87. A principal delas atingiu Livingstone (capital da Rodsia do
Norte) em 1905, e Broken Hill no ano seguinte. Finalmente, em 1909 a estrada
de ferro foi estendida at a fronteira do Congo por outra empresa, a Rhodesia-
Katanga Junction Railway and Mineral Company (ver fig. 16.5). Em Serra
Leoa, a Sierra Leone Development Company, que explorava minas de ferro
em Marampa desde 1933, construiu uma linha de 80 km que ligava Marampa
a Pepel, porto de embarque no Atlntico (incio da dcada de 1930). Era uma
ferrovia para uso exclusivo da companhia. A construo de estradas coube tanto
 administrao colonial como s autoridades locais. Onde os recursos o permi-
tiam, os chefes africanos mobilizavam o povo de suas comunidades para integrar
sua economia ao mundo exterior. Regra geral, porm, a rede de estradas no foi
concebida como alternativa, mas como via de acesso s redes ferrovirias, que
eram empreendimentos pblicos. Assim o contribuinte teve de sustentar o custo
de dois sistemas onerosos e ineficientes.
    A mais importante contribuio dos modernos meios de transporte foi a
considervel reduo das tarifas de frete, o que gerou duas consequncias: a) os
carregadores humanos foram substitudos pela mquina, liberando assim a mo
de obra, j rara, para outras atividades produtivas; b) a diminuio do custo do
transporte fez aumentar a margem de lucro dos produtores e estimulou a expan-
so do setor comercial. Infelizmente, porm, raras vezes os produtores africanos
usufruram da parte que lhes cabia nessas vantagens. As casas comerciais e os
outros beneficirios que operavam no setor de exportao, influentes e vidos
de lucros, guardavam para si a parte do leo. Nas regies de colonizao branca,
as taxas dos fretes foram manipuladas a favor dos europeus, forando assim os
produtores africanos a financiar indiretamente a agricultura dos colonos.
    Citemos dois casos em que a construo de ferrovias produziu efeitos not-
veis: em Uganda e na Nigria. Antes de 1902, ano em que a Uganda Railway
ligou esse territrio isolado do serto  costa de Mombaa, atravs dos pla-
naltos do Qunia, os custos do transporte faziam aumentar em 150% o preo
da maior parte das mercadorias importadas pelo oceano ndico. A chegada da
linha Lagos Railway a Kano, Nigria, em 1911, tambm foi positiva. A cultura
do amendoim desenvolveu-se consideravelmente: as exportaes desse produto


87    G. Kay, 1970, p. 42-4.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                              473



passaram do mximo anterior de 2 mil toneladas para 50 mil toneladas em 1916,
atingindo 147 mil toneladas em 1929. Tambm na Rodsia do Norte o sistema
ferrovirio contribuiu fortemente para o setor de exportao, sobretudo para o
desenvolvimento da minerao88. Na maioria dos outros territrios, o sistema
ferrovirio exerceu relativamente pouca influncia e, durante a maior parte do
perodo aqui estudado, a explorao permaneceu deficitria89. Cumpre salientar
que, embora os modernos meios de transporte tenham sido de fato positivos,
eles no criaram uma economia de exportao "a partir do nada". Na verdade,
"os modernos meios de transporte foram primeiramente destinados s regies
que, embora repletas ainda de incertezas, j tinham comeado a demonstrar o
seu potencial econmico"90.
    H ainda outra categoria de servios que j existia antes da era colonial, mas
que durante esse perodo desenvolveu-se em importncia e eficincia: os trans-
portes martimos. Na frica Ocidental Britnica, desde antes de 1900, o setor
era dominado por uma nica empresa britnica, a Elder Dempster Line and
Co. Ltd., constituda em 1890 com a fuso de todas as companhias inglesas que
operavam na costa ocidental. Em 1895, a Elder Dempster e a companhia alem
Woermann fizeram um acordo de no concorrncia mtua, ficando, assim, em
condies de fixar as tarifas em detrimento dos clientes. Na frica oriental e na
frica austral era a Union Castle Line que detinha o monoplio dos transportes
martimos.


     frica do Sul, 18801935
   Dentre as colnias e possesses africanas da coroa britnica, havia uma, a
frica do Sul, que, no perodo considerado, experimentou um surto econmico
to extraordinrio e to tristemente clebre nas suas repercusses que merece
uma meno especial, breve que seja.
   Em 1869, a frica do Sul, que abrangia as duas colnias britnicas do Cabo
e de Natal, bem como as colnias de populao ber ou afrikaner do Transvaal
e do Estado Livre de Orange, tinha uma economia to pobre e de to pouco
peso no sistema capitalista mundial quanto qualquer outra colnia europeia da
frica (ver fig. 16.7). No contava ao todo seno 260 mil europeus, dos quais


88   BALDWIN, 1966, p. 17-18, 171-2.
89   FRANKEL, 1938, passim.
90   HOPKINS, 1973, p. 198.
474                                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



20% viviam na colnia do Cabo91, onde se encontrava a nica cidade com mais
de 10 mil habitantes: a Cidade do Cabo. Em 1860, havia apenas uns trs quil-
metros de ferrovias e nenhuma estrada de rodagem. A trao animal era a nica
forma de transporte. As atividades manufatureiras limitavam-se  fabricao
de carroas, mveis, calado e curtume de couro92. Em 1860, as exportaes
da frica do Sul consistiam em matrias-primas: em primeiro a l, seguida do
ferro, peles e couros, no ultrapassando tudo 2,5 milhes de libras esterlinas.
Conforme as concluses de D. Hobart Houghton:
      De maneira geral [em 1860] a colnia [do Cabo] era um pas de populao esparsa,
      que vivia essencialmente da criao de carneiros e da lavoura de subsistncia, pobre
      demais para avanar com rapidez mediante a formao interna de capital e despro-
      vido de recursos explorveis para atrair capital estrangeiro93.
   Ora, a colnia do Cabo era, ento, a provncia mais rica da frica do Sul.
Nas outras colnias, sobretudo no Transvaal e no Estado Livre de Orange, as
condies ainda eram piores.
   Mas, durante os trinta ltimos anos do sculo XIX, a frica do Sul experi-
mentou uma verdadeira revoluo, no s econmica mas tambm social. A pri-
meira causa da transformao refere-se a um nico acontecimento: a descoberta
de minerais; primeiro, diamantes na Griqualndia em 1867 e em Kimberley
em 1870, depois, ouro no Transvaal, em 1886. Cinco anos aps a descoberta de
Griqualndia, as exportaes de diamantes elevavam-se a mais de 1,6 milho
de libras esterlinas. Em 1880, tinham passado para mais de 5 milhes de libras,
representando mais que todas as outras exportaes sul-africanas somadas94. J
antes de 1899 a companhia De Beers Consolidated Mines Ltd. estabelecera-se
"para fazer das minas um setor moderno, fortemente concentrado e largamente
dotado de capital, empregando para tal fim as tcnicas mais recentes e estabele-
cendo o monoplio mundial das vendas por intermdio do Diamond Syndicate
de Londres"95 (ver fig. 16.6), fazendo com que o valor das exportaes de dia-
mantes continuasse a aumentar, atingindo a casa dos 10 milhes de libras em
1905 e mais de 15 milhes em 1910. Quanto s minas de ouro, descobertas em
1886, passaram por um crescimento ainda mais acelerado. Desde 1890, o ouro


91    CURTIN, FEIERMAN, THOMPSON, VANSINA, 1978, p. 329.
92    COLE, 1961, p. 396.
93    HOUGHTON, apud THOMPSON (org.), 1971, p. 4.
94    Ver fig. 16.2: "Exportaes sul-africanas, 1861-1910", em ibid., p. 18.
95    Ibid., p. 13.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                              475



se tornara a principal exportao da frica do Sul, que, naquele ano, vendeu 10
milhes de libras esterlinas, quantia que subiu para 25 milhes em 1905 e para
45-50 milhes em 1910.
    Por um lado, a expanso do setor trouxe para a frica do Sul consequncias
verdadeiramente extraordinrias em todos os sentidos. Politicamente, a desco-
berta de diamantes levou primeiro  anexao da rea de Kimberley, depois  do
prprio Transvaal em 1877 e, finalmente,  conquista da Zululnda em 1879,
aps a humilhante derrota dos britnicos em Isandhlwana. Tambm contribuiu
para o desencadear, em 1881, da primeira guerra anglo-ber, que resultou na
vitria dos beres. Da mesma forma, a descoberta de ouro levou  anexao de
todos os Estados africanos situados ao sul do Limpopo,  incurso feita por
Jameson em 1896 e, finalmente, em 1899,  segunda guerra anglober, que
redundou na criao da Unio Sul-Africana, em 1910. Alguns aspectos dessas
consequncias polticas de longo alcance e da reao que elas suscitaram entre
os africanos j foram objeto de estudo no captulo 9.
    Por outro lado, as descobertas provocaram um afluxo de capitais e de tcnicos
do Reino Unido, da Europa e dos Estados Unidos da Amrica. Na realidade, o
grosso dos investimentos na frica colonial, entre 1880 e 1939, foi canalizado
para a frica do Sul. Segundo P. Curtin e outros, em vsperas da Segunda
Guerra Mundial, "os investimentos estrangeiros eram estimados em 56 libras
esterlinas por habitante na frica do Sul, contra 38 libras nas duas Rodsias,
13 libras no Congo Belga e 10 libras, no mximo, em toda a frica tropical96.
Foram esses investimentos que permitiram o desenvolvimento no s da inds-
tria de extrao mineral mas tambm, como veremos, da infraestrutura da frica
do Sul. O fenmeno no deveria, alis, surpreender, j que, segundo observa
Houghton, as descobertas de diamantes fizeram da Griqualndia, outrora "uma
terra de ningum, esquecida, onde viviam algumas centenas de Griqua sob a
autoridade de seu chefe Waterboer", repentinamente, um "dos focos de atrao
mundial"97. A descoberta de jazidas aurferas trouxe as mesmas consequncias
para o Transvaal e para as regies situadas ao sul do Limpopo.
    Igualmente revolucionrio foi o impacto das indstrias de extrao mineral
no domnio da infraestrutura. Dadas as enormes distncias que separavam as
zonas de povoamento e as cidades  Johannesburgo est a 1540 km do Cabo  e
a disperso da populao, at ento havia-se descartado a ideia da construo
de ferrovias, pois a operao no seria rentvel. A descoberta de ouro e de dia-

96   CURTIN, FEIERMAN, VANSINA, 1978, p. 500.
97   HOUGHTON, apud WILSON, M. e THOMPSON (orgs.), 1971, p. 11.
                                                                                              476
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figura 16.6   Operrios negros em uma mina na frica do Sul. (Foto: Keystone Press Agency.)
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                                477



mantes, contudo, tornou a instalao de uma rede ferroviria e rodoviria no
s necessria, mas tambm vivel. No causou surpresa, pois, que a construo
de ferrovias comeasse na dcada de 1870 a partir de vrios pontos Cidade do
Cabo, Port Elizabeth, East London e Burban , todas dirigidas em primeiro
lugar aos campos diamantferos e, depois de 1886, ao Transvaal. A extenso das
linhas aumentou de 110 km em 1869 para 1700 km em 1889, 3300 km em
1899 e 4190 km em 190598 (ver fig. 16.7). A malha rodoviria teve evoluo
paralela: no fim da Primeira Guerra Mundial, o pas possua 75 mil km de
estradas provinciais e muitos quilmetros mais de caminhos que serviam s
exploraes agrcolas.
    A descoberta de ouro e de diamantes teve ainda importante consequncia
no que se refere  mo de obra e ao regime de propriedade rural, consequncias
que, por sua vez, acarretaram uma urbanizao crescente. A procura de mo de
obra para as minas era praticamente incessante. Para satisfazer  demanda e,
ao mesmo tempo, reforar a posio dos brancos, sobretudo a dos afrikaners,
vrias leis foram votadas, principalmente nas dcadas de 1910 e 1920, no sentido
de compelir os africanos a deixarem a terra natal para ir trabalhar nos centros
mineiros e industriais. Entre esses documentos figuram o Natives' Land Act de
1913, o Mines and Works Act de 1911, emendado em 1926, o Apprenticeship
Act de 1922, o Natives (Urban Areas) Act de 1923, o Native Administration
Act de 1927 e, finalmente, o Native Service Contract Act de 1932. A mais
tristemente clebre de todas essas leis, o Natives' Land Act, reservava 88% das
terras ao uso exclusivo dos brancos, que, no entanto, representavam apenas 20%
da populao99. Nos 12% restantes, a lei criava uma srie de "reservas indgenas"
para os africanos. Ademais, abolia o squatting e o sistema de meao, que per-
mitia aos africanos cultivar parte das terras de um branco, pagando a metade do
que fosse colhido. Finalmente, por determinao desta lei, fora das reservas, os
africanos no podiam comprar terras seno de outros africanos, exceto na pro-
vncia do Cabo e, salvo dispensa especial do governador-geral, no Transvaal e no
Estado Livre de Orange. O documento, que minava as prprias bases da socie-
dade africana, obrigou milhares de agricultores e de criadores independentes a
deixarem sua terra natal, suas terras e fazendas aos brancos, transformando-os,
para citar as palavras de Leo Kuper, em "um proletariado sem terras e explorvel"
 a pior forma de dependncia econmica. Ps igualmente em vigor o princpio


98   Ibid., p. 20.
99   CURTIN, FEIERMAN, THOMPSON, VANSINA, 1978, p. 505; FIELDHOUSE, 1981, p. 75;
     WILSON, F. e KUPER, apud WILSON, M. e THOMPSON (orgs.), 1971, p. 126-36 e 440.
478                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 16.7   Extenso da rede ferroviria da Repblica da frica do Sul, entre 1900 e 1953. (Fonte: Cole,
1961.)
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                               479



da segregao territorial na frica do Sul. Foi aplicado sem alteraes at 1936
e, desde 1931, pelo menos 6 milhes de africanos estavam concentrados nas
reservas, que no cobriam ao todo seno uns 88 mil km, enquanto 1,8 milho
de europeus ocupavam uma superfcie de aproximadamente 1140 mil km100.
    Tanto o Mines and Works Act de 1911, com a emenda de 1926, como o
Apprenticeship Act de 1922 excluam igualmente os africanos de muitas ocupa-
es qualificadas e impunham escalas de salrios diferentes para a mo de obra
qualificada (em grande parte branca) e a no qualificada (em grande parte afri-
cana, indiana e mestia). Em 1935, um mineiro branco ganhava um salrio onze
vezes superior, em mdia, ao de um mineiro africano101. As demais leis Natives
(Urban Areas) Act de 1923, o Native Administration Act de 1927 e o Native
Service Contract Act de 1932  regulamentavam o trnsito de pessoas, o local de
residncia e o emprego dos africanos, no interesse dos trabalhadores brancos. O
Natives (Urban Areas) Act de 1923, por exemplo, tornava obrigatria a segrega-
o no tocante ao alojamento, a fim de restringir a "mistura indesejvel", ao passo
que a Civilised Labour Policy, adotada em 1924, intensificava a segregao na
indstria, impondo a substituio dos operrios "de cor" por brancos pobres102.
Finalmente, o Native Labour Regulation Act considerava delito a ruptura dos
contratos de trabalho pelos operrios africanos empregados nas minas e usinas.
    O conjunto dessas medidas provocou o afluxo dos africanos para os novos
centros mineiros e industriais, obrigando-os a trabalhar como assalariados nas
exploraes europeias. Durante o perodo considerado, o nmero de mineiros
aumentou espetacularmente. De 163 mil em 1906 (18 mil brancos, 94 mil afri-
canos e 51 mil chineses), passava para 291 mil (com 32 mil brancos) em 1918.
Em 1936, a frica do Sul contava 300 mil mineiros africanos, dos quais mais
ou menos 40% provenientes das reservas indgenas do Transvaal e do Ciskei,
25% do Moambique portugus e quase 15% da Basutolndia, Estes nmeros
demonstram que, apesar daquelas leis, era imprescindvel, dada a insuficin-
cia da mo de obra disponvel no pas, mandar vir trabalhadores africanos de
Moambique, da Basutolndia e at da Niassalndia e das duas Rodsias, bem
como, a partir de 1899, chineses contratados por prazo determinado103. Convm
notar que, em consequncia dessas diversas leis, a maior parte dos trabalhadores
africanos no tinha contrato permanente, sendo no mais das vezes trabalhadores


100 FIELDHOUSE, 1981, p. 75.
101 CURTIN, FEIERMAN, THOMPSON, VANSINA, 1978, p. 502.
102 WELSH, apud WILSON, M. e THOMPSON (orgs.), 1971, p. 183-4.
103 HOUGHTON, apud WILSON, M. e THOMPSON (orgs.), 1971, p. 15, 19-20.
480                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



migrantes ou sazonais, obrigados a se deslocar constantemente entre os territ-
rios brancos e as "reservas indgenas".
    A expanso das indstrias extrativas experimentou, alm disso, como corol-
rio, forte surto de urbanizao. A migrao de trabalhadores para as novas zonas
mineiras e industriais trouxe consigo o rpido desenvolvimento de algumas
cidades e o aparecimento de aglomerados inteiramente novos. Foi assim que
Kimberley, que no existia em 1866, contava 18 mil habitantes em 1877 e que,
em 1900, a antiga aldeola de Johannesburgo tornara-se uma grande cidade de
166 mil habitantes104. Outras cidades, como a do Cabo e Port Elizabeth, viram
a sua populao proliferar rapidamente durante o mesmo perodo. A proporo
de brancos que viviam nas cidades passou de 35,8% em 1890-1891 para 65,2%
em 1926, e a dos africanos de 13% em 1904 para 17,3% somente em 1936105.
    Dois outros setores da economia sul-africana experimentaram uma fants-
tica expanso, graas em parte ao desenvolvimento da indstria de minerao:
a agricultura e o setor manufatureiro. O forte crescimento demogrfico e o
surgimento das novas populaes urbanas provocaram o nascimento de novos
mercados tanto para os gneros agrcolas como para os produtos manufatura-
dos. Esses mercados viveram nova expanso aps a Primeira Guerra Mundial,
quando a Unio Sul-Africana recebeu o Sudoeste Africano sob mandato. A
nova infraestrutura de estradas e de ferrovias facilitava o transporte dos produ-
tos, e os fazendeiros aproveitaram essa oportunidade, assim como a do Land
Act de 1913. Entre 1927 e 1937, o governo tomou algumas medidas (instau-
rao de barreiras alfandegrias, criao de vrios servios de comercializao,
ampliao dos servios bancrios), a fim de ajudar os fazendeiros brancos  custa
dos concorrentes negros. Dessa forma, os produtores brancos conseguiram uma
produo suficiente no s para abastecer o mercado interno, mas tambm para
exportar milho de 1907 em diante, carne e ovos depois da Primeira Guerra
Mundial, acar e laticnios do final da dcada de 1920 em diante106. Nessa
poca, os africanos j estavam praticamente excludos da agricultura comercial
e encontravam-se reduzidos  condio de simples assalariados. Os salrios ou
permaneciam estagnados ou aumentavam muito lentamente, o que agravava
ainda mais a situao. Entre 1914 e 1934, o salrio mensal mdio de um oper-
rio agrcola africano casado passou de 6 a 10 xelins para apenas 8 a 12 xelins107.


104 WILSON, F., apud WILSON, M. e THOMPSON (orgs.), 1971, p. 113-4.
105 WELSH, apud WILSON, M. e THOMPSON (orgs.), 1971, p. 173.
106 WILSON, F., apud WILSON, M. e THOMPSON (orgs.), 1971, p. 132-6.
107 WELSH, apud WILSON, M. e THOMPSON (or gs.), 1971, p. 158.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                              481



Acrescentemos que o salrio mensal mdio de um operrio agrcola branco,
que trabalhasse na provncia do Cabo, era de 2 libras, 18 xelins e um penny em
1866, e passou a 19 libras, 7 xelins e 7 pence em 1952, ao passo que o de um
trabalhador rural "de cor" passava, na mesma poca, de 12 xelins e 10 pence para
2 libras, 7 xelins e 10 pence apenas108. Assim, durante o perodo aqui estudado,
o hiato entre brancos e negros no cessou de aumentar, com a depauperao
crescente do nvel de vida destes ltimos.
    O setor manufatureiro sofreu transformaes ainda mais radicais, fenmeno
tanto mais interessante na medida em que quase no se manifestou, como j
vimos, a no ser na frica do Sul. Como observava Monica Cole, "as novas con-
dies polticas surgidas aps a guerra dos beres favoreceram o desenvolvimento
industrial, e a unificao das quatro provncias, sobrevinda em 1910, suscitou
uma onda de sentimento nacionalista, que se exprimia no desejo de desenvol-
vimento industrial e de maior autossuficincia"109. Os brancos entregaram-se,
portanto,  obra e, de 1912 em diante, j haviam implantado certo nmero de
indstrias: conservas de frutas, confeitaria, cervejarias, fbricas de sabo e de
velas, pequenas indstrias mecnicas (que produziam moinhos de vento, bombas
e sondas para a abertura de poos, portes e fechos), fbricas de botas, calados
e roupas110. O governo estimulou particularmente este setor durante a Primeira
Guerra Mundial, no intuito de diversificar a economia do pas, para que se tor-
nasse menos dependente da indstria de minerao e proporcionasse emprego
aos "brancos pobres". Com essa finalidade, no s instituiu barreiras alfande-
grias em 1924, mas tambm criou a Board of Trade and Industries em 1924,
a Electricity Supply Commission em 1923 e a South African Iron and Steel
Corporation em 1928. A quantidade de empregos proporcionada pelo setor
atesta o xito destes esforos. Em 1918, o setor manufatureiro dava emprego a
124 mil pessoas (das quais, 44 mil brancos) e, em 1928, a 141 mil. Experimentou
crescimento ainda mais acelerado aps a Depresso da dcada de 1920 e incio
dos anos 1930. Em 1939, a produo (produtos alimentcios, bebidas, tabaco,
txteis e vesturio, couro e calado, produtos qumicos, metais e construes
mecnicas) atingia aproximadamente 75 milhes de libras esterlinas, o que fazia
do setor a principal fonte de renda nacional, depois do setor mineiro111.



108 Ibid.
109 COLE, 1961, p. 396.
110 Ibid.
111 Ibid.
482                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    O que ficou aqui registrado demonstra  evidncia que, ao contrrio da
maior parte das colnias, a frica do Sul passou por uma verdadeira revolu-
o econmica no decorrer do perodo 1880-1935. De 217 milhes de libras
em 1932, o produto nacional bruto passou para 320 milhes em 1937. Com
o desenvolvimento dos setores mineiro, manufatureiro e agrcola, a economia
sul-africana atingiu igualmente, ao contrrio da economia da maior parte dos
outros pases da frica, alto nvel de diversificao. Em 1932, as indstrias de
extrao, o setor manufatureiro, a indstria de construo e as estradas de ferro
empregavam 555 mil pessoas, das quais a maioria era indianos e africanos112.
Esse desenvolvimento espetacular tem necessariamente relao com a desco-
berta de ouro e de diamantes e, em parte, com o fato de, no perodo considerado,
os britnicos terem deixado que os brancos da frica do Sul fossem donos do
seu destino. Mas todo este desenvolvimento fenomenal foi conseguido  custa
dos povos no brancos da frica, especialmente os africanos e as populaes
"de cor". Efetivamente, como notava na poca a Native Economic Commission,
instaurada em 1932, se o fenmeno dos "brancos pobres" tinha, ento, desapa-
recido inteiramente, a situao das populaes "de cor", em compensao, havia
passado por completa degradao. A superpopulao e a pobreza reinantes
nas reservas haviam provocado migraes em massa para os centros urbanos e
mineiros, onde os africanos ganhavam baixssimos salrios e viviam confinados
em favelas e guetos. Pior, no estavam autorizados a ali se instalar definitiva-
mente com a famlia, de forma que, condenados a constantes idas e vindas entre
a cidade e o mato, tornaram-se, em sua maioria, migrantes temporrios, "homens
de dois mundos", j que, para citar Houghton, "eles estavam presos por laos
estreitos e indissolveis ao mesmo tempo  sociedade rural de onde provinham
e ao mundo industrial moderno113: Deslocados, desapossados de suas terras, mal
pagos, vtimas da discriminao, os negros da frica do Sul sofreram econmica
e socialmente, no perodo que estudamos, bem mais do que todos aqueles das
outras regies da frica.


      Concluso
   Aproximadamente em meados da dcada de 1930, o colonialismo brit-
nico havia consolidado sua posio, integrando a economia da frica tropi-


112 HOUGHTON, apud WILSON, M. e THOMPSON (orgs.), 1971, p. 35.
113 Ibid.
A economia colonial: as antigas zonas britnicas                                 483



cal  economia capitalista mundial. As possesses da coroa continuavam a ser
importantes fontes de produtos primrios, e o setor industrial era praticamente
inexistente. Como participantes do setor comercial, os operrios e camponeses
africanos passaram por algumas das suas piores dificuldades econmicas, alis
como o resto do mundo, entre 1929 e 1935. Nem o operrio nem o campons
local foram beneficiados pelo sistema de relaes econmicas coloniais, mas o
assalariado africano era quem sofria a pior das exploraes. A apropriao do
excedente pelo capital internacional demonstra o estado de atraso e de pobreza
geral reinante nas possesses britnicas em meados da dcada de 1930. A admi-
nistrao colonial tentava, s vezes febrilmente, deter a rpida degradao dos
solos arveis, especialmente nas "reservas indgenas", onde a densidade demogr-
fica ameaava destruir a fertilidade das terras, restringindo a agricultura africana.
Mas a explorao dos diferentes recursos do territrio pelos europeus no foi
em parte alguma objeto de restrio. Ningum sugeriu, por exemplo, que no
se devia explorar os minerais porque eles constituam recursos no renovveis114.
As minas, geralmente consideradas como um setor moderno, s marginalmente
contriburam para a vida industrial. De fato, as minas viviam no setor rural
pagando salrios de fome. As caractersticas econmicas que se estabeleceram
durante esse perodo, em muitos casos, sobreviveram  descolonizao.




114 BALDWIN, 1966, p. 160.
Economia colonial: a frica do norte                                     485



                                       CAPTULO 17


                             Economia colonial:
                              a frica do norte
               Ahmed Kassab, Ali A. Abdussalam e Fathi S. Abusedra




   A evoluo da economia da frica do norte no primeiro quartel do sculo
XX no obedeceu sempre ao mesmo ritmo nem cumpriu as mesmas etapas em
cada um dos pases que constituem esse conjunto geogrfico (Tunsia, Arglia,
Marrocos, Lbia, Egito e Sudo), uma vez que a colonizao neles no se efeti-
vou ao mesmo tempo (ver figura 17.1).


    Parte I: A economia da Tunsia, da
    Arglia e do Marrocos, 19191935
    Ahmed Kassab


    A economia desde o fim da Primeira Guerra
    Mundial at a crise econmica de 1929
    Em 1919, os franceses vinham colonizando a Arglia havia 89 anos, a Tunsia
havia 38 e o Marrocos havia no mais que sete anos. Verifica-se, no entanto, que,
depois da Primeira Guerra Mundial, as instituies polticas, administrativas,
econmicas e financeiras introduzidas pelas autoridades francesas j estavam
firmemente implantadas e que o processo de desapropriao dos fllahn e dre-
nagem das riquezas em benefcio da metrpole, apenas iniciado no Marrocos,
j estava bastante adiantado na Arglia e na Tunsia. A guerra no fizera seno
moderar o curso do processo. Com o fim das hostilidades, retomou um ritmo
clere.
                                                                                                                 486
                                                                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935
figura 17.1   Desenvolvimento econmico durante o perodo colonial no noroeste da frica. (Fonte: Fage, 1978.)
Economia colonial: a frica do norte                                           487



    O desmembramento da sociedade rural pela colonizao agrcola
    Na Arglia, a extenso da propriedade agrcola colonial resultava funda-
mentalmente da poltica constante de "colonizao oficial": as terras tomadas
s populaes autctones eram loteadas pelos poderes pblicos e atribudas a
colonos europeus, os quais obtinham todas as facilidades para se estabelecer
(crdito, utenslios, habitao etc.). Com verbas pblicas eram criados centros
de colonizao, onde se instalavam servios indispensveis como lojas, escolas,
hospitais etc.
    Depois da guerra, a colonizao oficial esmoreceu (apenas 70 mil hectares
de terras estatais foram loteados entre 1921 e 1931), assumindo o seu papel a
colonizao privada. Aps um curto perodo de retardamento (1918-1920), o
ritmo da expanso recomeou mais acelerado do que nunca, apesar do aumento
do preo da terra. Deveu-se isso  legislao agrria de 4 de agosto de 1926,
que simplificou o procedimento da inquirio em terras `arsh, substituindo as
inquiries propriedade a propriedade por inquiries coletivas: graas a essa lei,
milhares e milhares de hectares de terras coletivas `arsh foram adquiridos pelos
colonos. Em 1930, as 25795 propriedades coloniais da Arglia somavam uma
superfcie total de 2334 mil hectares1. Localizavam-se principalmente no Tell,
a zona mais mida e mais frtil: plancies de Oran, Sd Abl-Abbs, Mu'askar,
Mitidja, Skikda e Annba e os planaltos de Constantine, Satf, Guelma etc. (ver
figura 17.2).
    Essas fazendas j apresentavam grande extenso antes da grande crise eco-
nmica. Sua superfcie mdia era de 90 hectares. A grande propriedade com
mais de 100 hectares, que constitua somente 20,6% da totalidade das fazendas
europeias, abrangia 73,4% da superfcie total das terras possudas pelos colonos.
"O aumento da grande propriedade, sobretudo do latifndio, constitui o trao
marcante da agricultura europeia nos anos 1920-19302."
    Na Tunsia, o processo de desapropriao dos fllahn desencadeou-se ime-
diatamente, com o estabelecimento do protetorado, em 1881. A "colonizao
pelo capital" (1881-1882), que permitira a grandes empresas capitalistas (Com-
pagnie des Batignolles, Socit Marseillaise de Crdit, Socit Fonciere de
Tunisie etc.) aambarcar perto de 430 mil hectares de terras, foi imitada pela
"colonizao oficial" sistematicamente organizada pelas autoridades do prote-



1    AGERON, 1979.
2    Ibid., p. 484.
488                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



torado, inquietas com o "perigo italiano" 3. A "colonizao oficial" tinha como
objetivo incrementar o povoamento francs na Tunsia e desenvolver a "coloni-
zao pelos franceses". Somas considerveis foram destinadas a esse fim. Alm
das medidas legislativas que favoreciam a transferncia de terras ocupadas pelos
tunisianos para os franceses  decreto de 13 de novembro de 1898, obrigando a
administrao dos habs a colocar  disposio do Estado um mnimo de 2 mil
hectares de terras a cada ano; decreto de 22 de julho de 1903, passando para
domnio pblico as regies montanhosas etc. , as autoridades do protetorado
forneceram aos colonos importantes meios de financiamento: subvenes aos
organismos europeus de crdito agrcola, s cooperativas e associaes agrcolas
coloniais, crdito para instalao sem juros, reembolsvel em 20 prestaes anu-
ais, a quem recebia lotes para colonizao. Ao mesmo tempo,  custa do Estado
os poderes pblicos desenvolviam a rede de estradas e de ferrovias nas regies
de forte implantao colonial, criavam aldeias de colonizao, melhoravam o
abastecimento de gua e a rede de esgotos das regies rurais habitadas pelos
colonos. Ao todo, as propriedades coloniais na Tunsia somavam, em 1931,
aproximadamente 700 mil hectares de terras, grande parte das quais, como na
Arglia, situada nas regies mais midas e frteis do pas: no TeU, havia quase
400 mil hectares de terras coloniais, ao passo que na regio central e no sul havia
apenas 300 mil hectares. Esses nmeros abrangem as propriedades dos franceses
e as dos italianos (43600 hectares) (ver figura 17.3).
    As propriedades italianas caracterizavam-se pela pequena extenso (menos
de 10 hectares). Os colonos de origem siciliana ou calabresa eram, normalmente,
viticultores, hortelos e fruticultores fixados na regio de Tnis e de Bizerta, no
litoral da pennsula de Cap Bon. As propriedades coloniais francesas, em con-
trapartida, apresentavam extenso mdia bem superior: na regio de Ab Slim,
na mdia Medjerda, por exemplo, 80% das propriedades francesas tinham mais
de 500 hectares4.
    No Marrocos, a colonizao agrcola comeou sem dvida mais tarde do que
na Arglia e na Tunsia, embora aproveitando-se j das experincias argelina e
tunisiana. O progresso data de 1918, e tornou-se muito rpido de 1923 a 1930.
A administrao do protetorado, que pretendia criar um denso povoamento
europeu em todo o imprio xerifiano, tratou de organizar metodicamente a
colonizao oficial. Ps ento  disposio dos colonos, 60% dos quais vindos
da Arglia, terras estatais transferidas sob a forma de lotes de colonizao de

3     Em 1911, a populao italiana contava 86 mil pessoas, contra 46 mil franceses.
4     KASSAB, 1979.
Economia colonial: a frica do norte                                           489



diferentes dimenses, bem como as terras coletivas. Essas terras no foram,
como ocorreu na Arglia, concedidas gratuitamente, mas vendidas a preo baixo
como na Tunsia, com a obrigao de o colono desenvolv-las e nelas residir.
Eram oferecidos: grandes facilidades de pagamento e ilimitada concesso de
crditos para instalao e compra de implementos, subsdios ao desmatamento,
 mecanizao, ao plantio etc., iseno de direitos aduaneiros sobre a importa-
o de implementos agrcolas, adiantamentos feitos s associaes mtuas de
agricultura etc.
    A colonizao privada conseguiu, no mesmo perodo (1922-1932), apro-
priar-se de mais de 350 mil hectares5. A maior parte das terras coloniais per-
tencia a franceses; pequena parcela era explorada por espanhis, belgas, suos e
italianos. Estavam essencialmente localizadas nas plancies do Marrocos atln-
tico (Shwiya, Dukkla e `Abda), do Sa's, do Marrocos oriental (plancie de
Trffa). As propriedades de 100 a 500 hectares representavam 50% da totalidade
das fazendas europeias.

    Caractersticas da colonizao agrcola
    Apesar dos considerveis esforos dos poderes pblicos para incrementar o
povoamento rural francs, a colonizao oficial no chegou a estabelecer um
nmero importante de colonos franceses nos campos do Maghreb. Excluindo os
pequenos viticultores e fruticultores  italianos na Tunsia, espanhis no Mar-
rocos , os colonos europeus no formavam verdadeiramente um campesinato
tal como o existente ento na Frana. Tratava-se principalmente de grandes
fazendeiros, possuidores de vastas extenses de terra, implementos agrcolas
bastante diversificados e instalaes agrcolas muitas vezes imponentes. Manti-
nham estreitos laos com os bancos e diversos organismos de crdito agrcola,
com os institutos de pesquisa e os mltiplos servios administrativos que direta
ou indiretamente se ocupavam da colonizao.
    Praticavam uma agricultura essencialmente especulativa, voltada para expor-
tar a produo mais do que para abastecer o mercado interno. A maioria dos
colonos estava especializada em uma nica cultura: vinha, cereais, oliveiras (na
Tunsia). Na rea de Oran (Arglia), a economia agrcola colonial era centrada
quase exclusivamente na vinha; os planaltos de Constantine e as plancies do
Tell tunisiano eram o reino da monocultura cerealfera.



5    Em 1932, a colonizao oficial tinha se apropriado de 202 mil hectares.
                                                                                                                                                        490
                                                                                                                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935
figura 17.2 Vinhedos europeus na Arglia, por volta de 1930. (Fonte: Encyclopdie de l'Empire Franais  L'Algrie, Laboratoire de Cartographie de la
Facult des Lettres et des Sciences Humaines de Tunis, 1946.)
Economia colonial: a frica do norte                                                                491




figura 17.3 A implantao da colonizao agrcola na Tunsia, em 1921. (Fonte: J. Poncet, Laboratoire de
Cartographie de la Facult des Lettres et des Sciences Humanies de Tunis, 1952.)




    Esta especializao aplicada a fazendas de vrias centenas de hectares permi-
tia uma certa racionalizao dos trabalhos agrcolas e o emprego sistemtico de
modernos implementos agrcolas. Foi depois da Primeira Guerra Mundial que
o trator  de lagartas e de rodas  apareceu nos campos da frica do norte. Seu
emprego generalizou-se pouco a pouco, simultaneamente ao dos equipamen-
tos de trao (arados de relha e de disco, polidiscos, cultivadores, semeadores
mecnicos em linha etc.). Depois das segadoras-enfardadeiras, as colheitadeiras
combinadas tambm se disseminaram, possibilitando enorme economia de mo
de obra agrcola. Os novos implementos permitiram igualmente a aplicao
das tcnicas do dry farming s terras de cultura de cereais, situados nas franjas
semiridas do Tell, e para expandir a cultura do trigo, especialmente do trigo
mole.
    Paralelamente, esforo considervel foi desenvolvido no domnio da pesquisa
agronmica, que era realizada nos institutos de pesquisa de Tnis, Argel, Rabat
492                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



etc. e que possibilitava aos colonos dispor de novas variedades de cereais, rvores
frutferas, tabaco e outras culturas, adaptadas aos solos e aos climas do Maghreb.
    Essa agricultura de tcnicas sofisticadas atingia no raro elevado nvel de
produtividade. Em todos os setores os rendimentos cresceram ininterrupta-
mente entre 1919 e 1929; na Tunsia, a produo de vinho conheceu um surto
prodigioso entre 1920 e 1925, passando de 498148 para 918853 hectolitros. Na
Arglia, a produo de vinho anual mdia, que era de 6853 mil hectolitros no
perodo 1916-1920, elevou-se para 18371 mil hectolitros nos anos 1931-19356.
Tambm a produo de trigo teve um aumento espetacular. Cultura europeia
por excelncia, desenvolveu-se extraordinariamente no s no que se refere s
superfcies cultivadas, mas tambm em termos da quantidade produzida por ano.
De 68285 quintais em 1920, a produo colonial de trigo no Marrocos atingiu
1 884 mil quintais em 1935. Em reas superiores (222815 hectares), os fllahn
obtinham apenas 1316 mil quintais.
    Os mercados locais no tinham capacidade para absorver as crescentes
quantidades de produtos agrcolas: no caso do vinho, sendo muulmana a
imensa maioria da populao, a produo tinha de ser quase totalmente expor-
tada. A produo de frutas era igualmente exuberante, sobretudo em anos
chuvosos.
    Essa agricultura extremamente mecanizada exigia pesados investimentos. E
apelava sempre para o crdito. Entre 1919 e 1930 a maioria dos colonos esteve
pesadamente endividada, no s para aumentar as suas exploraes, mas tambm
para adquirir novas mquinas agrcolas.

      O setor agrcola
      A sociedade aps a Primeira Guerra Mundial
    Depois da Primeira Guerra Mundial, a maior parte (mais de 80%) da popula-
o do Maghreb vivia nas zonas rurais do trabalho da terra. O regime de proprie-
dade fundiria compreendia, em linhas gerais, as terras melk (propriedade privada),
as terras coletivas ou comunais (`arsh) e, na Tunsia e no Marrocos, as terras habs
(bens de mo-morta). A importncia relativa de cada categoria variava segundo as
regies: as terras melk, por exemplo, predominavam nas regies de vida sedentria,
em torno das cidades, nas plancies midas do Tell ou do Sa'is no Marrocos; j
as terras `arsh estendiam-se principalmente pelas montanhas de pastoreio  por


6     AGERON, 1979, p. 487.
Economia colonial: a frica do norte                                              493



exemplo, entre os Za'er, que praticavam o pastoreio de transumncia  e regies
semiridas (planaltos da Arglia e do Marrocos, altas e baixas estepes tunisia-
nas), onde o modo de vida est assentado na criao (ovinos, caprinos, camelos
e equinos).
   Nas terras melk, existia toda uma hierarquia de proprietrios, cuja cpula era
constituda por uma minoria de latifundirios que concentrava em mos parte
importante das terras de cultura e pastoreio. Esses grandes proprietrios eram
particularmente numerosos no Marrocos. Na Arglia igualmente, apesar da
grande extenso das terras coloniais, a grande propriedade muulmana ocupava,
depois da Primeira Guerra Mundial, superfcies nem um pouco desprezveis,
embora longe de equiparar-se  dos latifundirios marroquinos.
    As grandes propriedades situavam-se principalmente nos arrondissements de Mos-
    taganem, Medea e Constantine. Neste ltimo, foram recenseados 834 proprietrios
    com mais de 100 hectares em 1914 e 1463 com uma mdia de 185,4 hectares em
    1930. Nessa mesma data, a mdia era 263,7 hectares no arrondissement de Mosta-
    ganem e 367,3 hectares no de Medea [...]. Finalmente, para o conjunto da Arglia,
    a estatstica de 1930 dava 7035 proprietrios, isto , 1,1% detinha 21 % das reas
    muulmanas7.
   Na Tunsia, havia uma aristocracia rural residente em Tnis, cujas terras
se estendiam principalmente pelo Tell cerealfero (regio de Bedja, Mateur e
Kef ). O modo de explorao dessas terras era o arrendamento por um quinto,
o khammst, praticado em toda a frica do norte, sistema que no propiciava
a evoluo das tcnicas e dos mtodos de cultivo. Os proprietrios "mdios" ou
"abastados" no eram uma categoria negligencivel: diz-se que representavam
22,6% dos proprietrios argelinos e detinham 34,8% do total das reas muul-
manas em 19308.
   As pequenas propriedades eram inmeras em torno das cidades, nas plancies
cerealferas de solos frteis, como as do Sa'is no Marrocos e da mdia Medjerda
na Tunsia, nas montanhas de agricultores sedentrios (Cablia, Rf e Alto Atlas
ocidental), nos osis.
   A produo agrcola e a pecuria estavam sujeitas a flutuaes drsticas,
devido  irregularidade das precipitaes pluviais; as fomes, embora em regres-
so, ainda eram frequentes. Alm disso, a usura ainda devastava os campos, e s
os grandes fazendeiros tinham acesso aos organismos de crdito criados pelos

7    Ibid., p. 59.
8    Ibid.
494                                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935



europeus. No entanto, na Tunsia (1907) e mais tarde no Marrocos (1927)
foram criadas Socits Indignes de Prvoyance, organismos cujo principal papel
era emprestar sementes9 aos pequenos fllahn. O auxlio financeiro concedido
pelas autoridades coloniais aos colonos era incomparavelmente mais importante.
Entre 1917 e 1929-1930, por exemplo, os fllahn marroquinos10 conseguiram,
por intermdio das Socits Indignes de Prvoyance, crditos de curto prazo que
se elevavam a 19 milhes de francos marroquinos; em contrapartida, somente
os emprstimos de longo prazo concedidos pela Cais se des Prts Immobiliers
(constituda em 1920) aos colonos (aproximadamente 4 mil) atingiram, entre
1925 e 1930, 140 milhes de francos11.

      As transformaes da sociedade rural sob o efeito da colonizao
    Com a colonizao, a sociedade rural do Maghreb, seja como for, evoluiu
sensivelmente. Por um lado, os grandes fazendeiros seguiram o exemplo dos
colonos e adotaram, com mais ou menos sorte, tcnicas, mtodos e at gne-
ros por eles cultivados (vinhedos, trigo). Por outro lado, muitos camponeses
que trabalhavam em fazendas de colonos ou de grandes fazendeiros norte-
-africanos tornaram-se assalariados agrcolas, acabando por proletarizar-se.
Depois da Primeira Guerra Mundial, com a difuso das mquinas agrcolas,
as desigualdades sociais aumentaram consideravelmente. O uso do trator e dos
implementos agrcolas modernos deu aos colonos e aos grandes fazendeiros
autctones uma inextinguvel fome de terra. Para tornar rentvel o moderno
equipamento, fosse alugado ou prprio, tinham de aumentar incessantemente
a produo e, consequentemente, a extenso da rea explorada. Ora, esgota-
das as terras estatais, essa expanso s podia prosseguir  custa dos pequenos
e mdios agricultores muulmanos, que iam, ento, sendo gradativamente
afastados para os setores montanhosos ou seus contrafortes. Para expandir-se
tambm pelo espao utilizado pelas comunidades pastoris das estepes e tomar
parte dele para colonizao, as autoridades coloniais tentaram por todos os
meios fixar os autctones dessas regies e transform-los em cerealicultores
e fruticultores. Nas altas estepes tunisianas, por exemplo, "depois da Primeira
Guerra Mundial, a todo loteamento em favor dos colonos correspondia um

9     O crdito monetrio, muito restrito, estava sujeito a condies to severas (avalista, garantias sob a forma
      de cauo de terceiros, penhora da produo, hipotecas sobre ttulos de propriedade etc.) que s uma
      minoria de agricultores "abastados" poderia obt-lo.
10    A populao rural estava estimada em 5450 mil pessoas em 1926 (87,9% do total da populao).
11    R. HOFFHERR, 1932.
Economia colonial: a frica do norte                                          495



loteamento destinado a fixar ao solo os habitantes da regio; e, desde 1922,
lotes da mesma ordem, numerosos mas pequenos, foram distribudos aos
ocupantes de algumas terras comunais ou habs"12.
   As consequncias disso foram a expanso da colonizao para reas onde as
populaes autctones necessitavam de amplas pastagens para o gado e o desen-
cadeamento de um processo de sedentarizao gerador de pobreza e xodo.


     O carter colonial das novas formas de organizao
     do espao tunisiano, argelino e marroquino
     A explorao dos recursos minerais
    O estabelecimento dos europeus nos trs pases da frica do norte teve
como consequncia no s o domnio dos colonos sobre parte importante das
melhores terras desses pases, mas tambm a explorao das riquezas do subsolo
em benefcio de empresas estrangeiras.
    Essas riquezas sofreram prospeco muito cedo e foram rapidamente explora-
das. Na Arglia, as primeiras minas foram abertas em 1845. Na Tunsia, as jazidas
de fosfato de Gafsa tinham sido descobertas j em 1885-1886 (apenas quatro
anos aps o estabelecimento do protetorado) e exploradas a partir de 1899.
    No Marrocos, o primeiro zahr (decreto) sobre minerao dispunha sobre
a pesquisa e a explorao minerais, e datava de 1914: estabelecia o princpio
da "mina ao primeiro ocupante", que gerou muitos abusos; o zahr de 1923,
que buscava pr termo s manobras dos especuladores reformando a legislao
mineira, apenas retardou a explorao sistemtica dos recursos minerais do pas.
Com excluso dos fosfatos de Kuribka, cuja explorao data de 1920, o Marro-
cos no exportava, ainda em 1928, seno aproximadamente 8 mil toneladas de
minerais. No entanto, as empresas de prospeco e os solicitantes de concesses
de minerao abatiam-se como praga de gafanhotos sobre o pas: o nmero de
licenas de pesquisa emitidas entre 15 de setembro de 1938 e 1 de janeiro de
1939 elevou-se a 3500 e o de licenas de prospeco a 400.
    A descoberta da jazida de carvo de Djerada, em 1928, provocou nova reforma
da legislao marroquina sobre minerao. Em 1928 era criado o Bureau de
Recherches et de Participations Minieres, especializado na pesquisa de com-
bustveis slidos e lquidos; logo depois, o zahr de 1 de novembro de 1929


12   DESPOIS, 1961.
496                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



simplificava a legislao anterior sobre minerao e salvaguardava os interesses
do Estado. Desde a, a prospeco e a explorao das riquezas minerais ganha-
ram impulso. A bacia carbonfera de Djerda, bem como as jazidas de ferro de
Khenfra e mangans de Imin, foram metodicamente reconhecidas e prospec-
tadas. A mina de chumbo de Awl, na alta Mulja, uma das mais importantes
da frica do norte, entrou em fase de produo e foi rapidamente equipada. As
jazidas de mangans de Abu `Arafa, no sudoeste do Marrocos, foram ligadas a
Wudjda, por via frrea, em 1933; tambm as minas de cobalto de Ab `Azz,
chumbo e zinco de Mibladen, estanho de Wulms e molibdnio de Azzekr, no
Alto Atlas, passaram a produzir. Em vspera da grande depresso, o Marrocos
parecia um dos pases norte-africanos mais ricos em recursos minerais. Os fos-
fatos ocupavam a principal posio, quer em termos de tonelagem produzida,
quer de quantidade exportada. As exportaes subiram de 8232 toneladas em
1921 para 1179 mil toneladas em 1930.
    Na Arglia e na Tunsia, as jazidas de fosfatos (Kuwayf e Kafsa), minrio de
ferro (Ben Saf, Wenz e Djarsa), chumbo, zinco etc. j produziam desde antes da
Primeira Guerra Mundial, e quase toda a produo era exportada para a Frana
e outros pases da Europa ocidental. Toda essa riqueza mineral era inteiramente
explorada por companhias estrangeiras, as quais forneciam capital, tcnicos, admi-
nistradores e assim por diante. A Socit des Mines d'Aouli et Mibladen, por
exemplo, estava sob controle da Socit Penarroya-Maroc, associada  Banque
de l'Union Parisienne-Mirabaud, bem como  Banque de Paris et des Pays-Bas,
 Kuhlmann e ao Bureau Minier de la France d'Outre-Mer. As minas de zinco
e chumbo de Twaysit eram de propriedade da Compagnie Royale Asturienne
des Mines (Blgica); o grupo norte-americano Morgan era um dos mais impor-
tantes acionistas da mina de Zelldja. Na Tunsia, as minas de ferro de Djarsa
estavam sob controle da Compagnie Algrienne de Crdit et de Banque, repre-
sentante da Banque de l'Union Parisienne. Na Arglia, todas as riquezas mine-
rais encontravam-se igualmente em mos de capitalistas estrangeiros, sobretudo
franceses, com expressiva participao dos bancos.

      Vias de comunicao e portos
   Para ligar as diversas jazidas minerais aos portos de exportao, foram cons-
trudas estradas de ferro na Arglia a partir de 1844 e desde os primeiros anos
do protetorado na Tunsia e no Marrocos. Em 1919, os principais elementos
da malha ferroviria argelina e tunisiana estavam j instalados, interligando as
grandes cidades (na maioria cidades costeiras) e as jazidas minerais aos prin-
Economia colonial: a frica do norte                                                                  497



cipais portos de exportao (Oran, Argel, Annaba, Tnis, Sfax, Sousse). No
Marrocos, o desenvolvimento das ferrovias foi mais lento devido  clusula do
tratado franco-alemo de 4 de novembro de 1913, que interditava  Frana
a construo de qualquer estrada de ferro antes do estabelecimento da linha
Tangiers-Fez (ver figura 17.1). Somente em abril de 1923  que a primeira
linha, a de Casablanca-Rabat, foi inaugurada. Diferentemente da maior parte
das linhas tunisianas e argelinas, a rede marroquina compreendia essencialmente
linhas de bitola normal (144m). Mas, a exemplo das redes dos outros pases
do Maghreb, tinha carter notoriamente colonial: as linhas principais ligando
cidades e portos  costa do Atlntico, e as linhas tronco servindo as jazidas de
minerais e as grandes cidades do interior (Fez, Meknes, Marrakech). O estabe-
lecimento e a explorao da rede ferroviria eram exclusivamente controlados
pelas companhias estrangeiras.
    A malha rodoviria foi igualmente planejada para servir os grandes aglo-
merados urbanos, onde vivia a maior parte da populao europeia, e as regies
do interior em que estavam estabelecidas as fazendas dos colonos. A rede de
estradas da Arglia, por exemplo, situa-se predominantemente no Tell seten-
trional, regio onde se concentravam as fazendas dos europeus e as maiores
cidades do pas.
    O mesmo acontecia com a infraestrutura porturia, essencialmente planejada
e desenvolvida para abrir os pases do Maghreb  produo manufatureira da
Frana e do estrangeiro, bem como para exportar minerais e produtos agrcolas.
Em 1919, a infraestrutura porturia da Arglia e a da Tunsia j haviam sido
construdas, mas a do Marrocos era ainda incipiente. No foi antes de 1917
que se concluram os trabalhos do porto de Casablanca. O trfego desse porto
experimentou uma progresso rpida e constante: de 400 mil toneladas em
1920, passou para 2220 mil toneladas (das quais, 1198 mil eram fosfatos) em
192713. Concentrava mais de 80% do trfego total dos portos marroquinos. O
trfego de Kenitra (ex-Port Lyautey, o segundo do Marrocos) mal atingiu 191
mil toneladas em 1927.
    A natureza do trfego em todos os portos do Maghreb comprovava o carter
colonial das trocas e as relaes comerciais de desigualdade entre os trs pases
norte-africanos e a Frana.



13   Os portos, tal como as ferrovias, foram construdos mediante sucessivos emprstimos pblicos lanados
     pela administrao marroquina e garantidos pelo governo francs (emprstimo de 1916 e emprstimo
     de 1920, de 290 milhes de francos).
498                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



      Iniquidade do sistema aduaneiro e fiscal
      O sistema aduaneiro
    Sendo a Arglia uma colnia, as mercadorias argelinas e francesas entravam
reciprocamente livres de direitos em cada um desses territrios. De resto, as
mercadorias importadas de outros pases para a Frana ou para a Arglia esta-
vam sujeitas  mesma tarifa; o monoplio do pavilho reservava exclusivamente
 marinha francesa a navegao entre a Arglia e os portos franceses. Havia,
portanto, entre a Frana e a Arglia, uma verdadeira unio aduaneira, "uma das
mais perfeitas que se encontram no mundo econmico"14; era, no entanto, uma
unio que condenava a Arglia a permanecer um pas exportador de matrias-
-primas e produtos agrcolas e importador de produtos manufaturados.
    O sistema aduaneiro da Tunsia, aps a Primeira Guerra Mundial, era regido
pelas leis de 19 de julho de 1890 e 2 de maio de 1898. Esta ltima concedia
privilgios aos produtos manufaturados franceses, particularmente a mquinas,
produtos metalrgicos, txteis etc. Os similares estrangeiros no estavam, con-
tudo, sujeitos  tributao alfandegria, de modo que o mercado tunisiano vivia
inundado de manufaturados franceses e de outras procedncias. Uma unio
aduaneira parcial foi introduzida em 1928: os produtos agrcolas tunisianos isen-
tos de impostos deixaram de estar sujeitos a quotas, mas os produtos franceses
obtiveram no s iseno completa como tambm proteo contra similares
estrangeiros. Dessa forma, os produtos franceses podiam concorrer com os dos
outros pases industriais no mercado tunisiano e, s vezes, at elimin-los, o
que encareceu os bens importados e paralisou os esforos de industrializao
da Tunsia.
    As relaes comerciais e aduaneiras entre o Marrocos e o estrangeiro eram
ainda mais inquas e desiguais. O Ato de Algeciras (1906) estabelecia o princpio
da estrita igualdade econmica dos pases signatrios no mercado marroquino.
Fosse qual fosse a provenincia, a origem, a bandeira de transporte, as mercado-
rias que entrassem no Marrocos ficavam sujeitas a um direito de 10% ad valorem
e a uma taxa suplementar de 2,5% para a Caisse Spciale des Travaux Publics.
Esse sistema "portas abertas" permitiu aos grandes pases exportadores inundar
o Marrocos com seus produtos manufaturados ou agrcolas, sem a menor con-
trapartida, salvo talvez a vantagem de adquirir suprimentos aos melhores preos
durante a fase de equipamento (1920-1930). Mas, desde o incio da grande


14    BOUIS, 1946, v. 11, p. 56.
Economia colonial: a frica do norte                                                             499



depresso, o Marrocos sentiu os inconvenientes desse sistema, que constitua
"um entrave crescente  prosperidade marroquina, na medida em que a atividade
do pas se orientava para um regime de economia completa, no qual as indstrias
nascentes reclamavam necessria proteo" 15.
    O Marrocos, ento, teve de recorrer a um protecionismo indireto, que limi-
tava o acesso de certo nmero de produtos agrcolas estrangeiros. Foi assim que
o zahr de 22 de fevereiro de 1921 submetia a regime de autorizao a entrada
de trigo, cevada e seus derivados; o de 4 de junho de 1929 praticamente proibia
a entrada de cereais e farinhas estrangeiras, embora os manufaturados continu-
assem afluindo ao Marrocos nas mesmas condies do passado.
    A natureza dos produtos exportados pelo Maghreb refletia perfeitamente as
caractersticas da economia da regio e do sistema aduaneiro. As exportaes
marroquinas entre 1920 e 1930, por exemplo, compreendiam essencialmente
fosfatos e cereais (ver figura 17.4). O desequilbrio no gnero dos produtos
comprados e vendidos pelo Maghreb era responsvel pelo dficit quase perma-
nente da balana comercial (o valor das importaes superava de longe o das
exportaes) nos trs pases (ver figs. 17.5 e 17.6). A ttulo de exemplo, o valor
das importaes tunisianas atingiu 1984 milhes de francos em 1929, enquanto
as exportaes renderam apenas 1408 milhes de francos.
    Enfim, o sistema aduaneiro estava em grande parte na origem da runa do
artesanato rural e urbano.




figura 17.4 Dficit da balana comercial marroquina, de 1912 a 1938. (Fonte: Encyclopdie de l'Empire
Franais, 1946.)


15   HOFFHERR, 1932, p. 243.
500                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935




Figura 17.5 Comrcio global da Arglia, de 1915 a 1938. (Fonte: Encyclopdie de l'Empire Franais, 1946.)




Figura 17.6 Parcela referente  Frana no comrcio global da Arglia, de 1920 a 1938. (Fonte: Encyclopdie
de l'Empire Franais, 1946.)
Economia colonial: a frica do norte                                         501



     O sistema fiscal
    Um dos primeiros atos das autoridades francesas ao assumirem o controle
dos pases do Maghreb foi a reorganizao das finanas e do sistema fiscal des-
ses pases. Estabeleceram uma Administrao das Finanas cuja primeira tarefa
consistiu em elaborar o oramento e controlar despesas. O rigor e a disciplina
oramentrios deveriam promover o equilbrio entre despesas e receitas, o que
muitas vezes foi conseguido entre 1919 e 1930. Mas, sob o efeito da grande
depresso, as despesas superaram as receitas e, em 1939, o dficit do oramento
tunisiano excedia 100 milhes de francos franceses.
    As receitas provinham essencialmente dos direitos aduaneiros e dos impostos
sobre a propriedade rural, a produo agrcola (tartb no Marrocos) e os bens
de consumo (impostos indiretos), em resumo, fundamentalmente da populao
autctone: "Repartida sobre uma massa orgnica de contribuintes indgenas, a
carga [fiscal] sobre os autctones se tornava frequentemente muito pesada"16.
    Alm disso, para adquirir equipamentos os trs pases da frica do norte
tinham de contrair emprstimos em intervalos prximos. Em 1930, a Arglia
devia 2 bilhes de francos  Frana17, enquanto a dvida total do Marrocos
se elevava, em 1932, a 1691 milhes de francos18. O equipamento adquirido
mediante esses emprstimos devia beneficiar primeiro e acima de tudo os seto-
res modernos da economia, dominados pelas empresas europeias, mas foi com
dinheiro dos bolsos dos muulmanos que a mxima parte deles foi resgatada.
Em 1931, o servio da dvida pblica do Marrocos absorvia mais de um tero
do oramento do pas.


     Tunsia, Arglia e Marrocos durante a grande depresso
     A crise e os grandes setores da economia norteafricana
   A Depresso atingiu o Maghreb um pouco tarde. S se fez sentir plenamente
a partir de 1932, mas se manifestou mais cedo no Marrocos do que na Tunsia
ou na Arglia19. Encontrava-se, ento, o imprio xerifiano justamente na fase de
desenvolvimento de suas potencialidades econmicas.


16   Ibid., p. 292.
17   AGERON, 1979, p. 414.
18   R. HOFFHERR, 1932, p. 304.
19   BERQUE, 1970.
502                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Um dos primeiros setores da economia a ser alvejado pela Depresso foi
o setor agrcola colonial, extremamente dependente do crdito e dos merca-
dos externos, conforme j vimos. A partir do momento em que os preos vie-
ram abaixo e as sadas externas fecharam-se ou rarefizeram-se, os fazendeiros
mecanizados e endividados j no foram capazes de honrar seus compromissos
para com os diversos organismos de crdito de que eram devedores. O mesmo
ocorreu com a produo mineira, que era inteiramente tributria dos mercados
estrangeiros, pois as matrias-primas de origem mineral praticamente no eram
transformadas ou utilizadas nos pases que as produziam.
    A economia autctone tambm foi atingida pela crise, na medida em que
sua parcela nas exportaes de produtos agrcolas viu-se colhida pela reduo
das vendas e queda dos preos. O mesmo se diga do trabalho dos artfices, que
desempenhava papel importante na economia das grandes cidades marroquinas
(Fez, Mekns, Marrakech) e tunisianas (Tnis, Kayruwn e Sfax), cujos merca-
dos externos estavam praticamente encerrados.

      Os efeitos da crise sobre a economia dos colonos
      Agricultura
   O primeiro setor agrcola europeu atingido pela Depresso foi justamente o
que mais dependia dos mercados externos, principalmente do mercado francs:
o setor vincola, cujas exportaes representavam na Arglia, por exemplo, 66%
do valor total das exportaes em 1933. O preo mdio de venda do hectolitro
de vinho, que chegava a 168 francos em 1927, caiu para 108 francos em 1931 e
para 54 francos em 1934. As ms vendas e as fartas colheitas, particularmente a
de 1935, aumentaram enormemente os estoques de vinhos nas adegas argelinas
e tunisianas. Ora, a vinicultura, sobretudo na Arglia, era um dos alicerces da
economia dos colonos. Dela viviam, na Tunsia, 1 372 proprietrios europeus.
"Quer dizer que a falncia da vinicultura podia acarretar a falncia de impor-
tante parcela da colnia rural francesa, a cuja implantao tantos cuidados foram
dedicados20."
   A Depresso alcanou igualmente a indstria do azeite, principalmente na
Tunsia, pois um tero de sua produo ia anualmente para a Itlia e para a
Frana. Ora, a Itlia concedeu subsdios aos seus oleicultores como estmulo
para que exportassem a preo baixo e como forma de proteger a sua produ-


20    PONCET, 1952, p. 300.
Economia colonial: a frica do norte                                                                  503



o olecola; em 1932, imps direitos aduaneiros proibitivos sobre os azeites
estrangeiros. Em 1935, suspendeu as importaes da Frana e do imprio fran-
cs, como retaliao ao embargo adotado pela Frana, em razo das sanes
decididas pela Sociedade das Naes (5 de outubro de 1935), em consequncia
da agresso italiana contra a Etipia. A queda das exportaes e dos preos21
afetava, certamente, em primeiro lugar os produtores tunisianos, mas tambm
os plantadores europeus da regio de Sfax, senhores de vastas possesses, cuja
produo de azeite destinava-se principalmente  exportao. A quantidade de
azeite exportada, que se elevava a 409800 quintais em 1930, caiu para menos
de 200 mil em 1936. "Foi outro verdadeiro desastre, que provocou a paralisao
das plantaes europeias e marcou o fim da expanso da colonizao francesa
na rea de Sfax" (ver figura 17.7)22.
    O terceiro elemento de especulao agrcola, essencial tanto para os fllahn
como para os colonos, era a cultura de cereais. Os colonos argelinos possuam mais
de um milho de hectares semeados de trigo em 1934; no Marrocos, aproximada-
mente 96% das terras exploradas pelos europeus eram ocupadas pela cerealicultura.
Mas os colonos cultivavam principalmente trigo mole, destinado aos moinhos fran-
ceses. Na Tunsia, por exemplo, a quase totalidade dos 160 mil hectares cultivados de
trigo mole pertencia aos franceses. Tambm neste setor a queda dos preos e a das
exportaes andaram de par: o valor das exportaes europeias de trigo tunisiano,
que era de 291408 mil francos em 1931, caiu para 60845 mil francos em 1934.

     A crise no setor mineiro
   A alta mundial verificada desde 1919 nos preos dos minerais deixou de ser
regular em 1927. A tendncia  baixa nas exportaes de minerais delineou-se
com clareza desde 1931. Os embarques de fosfato marroquino diminuram de 1
779 mil toneladas, em 1930, para 900731 toneladas em 1931; os da Tunsia, que
chegavam a 3600 mil toneladas, atingiram o mximo de 1623 mil toneladas em
1932. Enquanto os preos de venda no cessavam de cair, os custos de produ-
o aumentavam. Em 1932, uma tonelada de fosfato tunisiano tinha um custo
de produo de 65,77 francos no porto de embarque e era vendida por 53,77
francos23. O mesmo ocorria com outros minerais (chumbo, zinco, ferro).

21   O preo do azeite, que passou de mil francos o quintal no perodo 1925-1928, caiu para 700 francos em
     1930 e para 300 francos em 1933.
22 PONCET, 1952, p. 302.
23   Grande Conselho da Tunsia, XI Sesso (novembro-dezembro de 1932). Seo Francesa, Relatrio por
     Boisse, diretor da Cmara dos Interesses Mineiros, p. 29.
504                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



   A Depresso trouxe consigo o fechamento de grande quantidade de minas,
principalmente aquelas que eram marginais e dispersas.

      A economia muulmana abalada pela depresso
   Dado que a imensa maioria da populao do Maghreb vivia da agricultura, foi
no setor agrcola que se fizeram sentir mais dolorosamente os efeitos da crise.
   Os principais produtos atingidos foram os cereais (em particular trigo e
cevada), a l e o azeite, sobretudo na Tunsia. Todas as categorias de produtores,
tanto aquelas que estavam integradas aos circuitos internos e internacionais de
comercializao dos produtos agrcolas como os pequenos fllahn que prati-
cavam economia de subsistncia, sofreram duramente os efeitos da crise. Para
o trigo duro tunisiano, por exemplo, embora entre 1928 e 1931 a queda dos
preos fosse de apenas 20% em relao s cotaes de 1926, passaria para 45%
em 1932 e para 60% em 1935, no momento mais crtico da Depresso24. A
baixa dos preos da cevada atingiu, em 1935, nada menos de 75% das cotaes
de 192625. A l, produzida e em grande parte comercializada por criadores de
todas as categorias, teve seu preo reduzido em mais de 60% no ano de 1935,
em comparao com 1926. A crise atingiu igualmente a produo artesanal, j
significativamente diminuda por causa da importao de produtos manufatu-
rados. Por exemplo, a participao do artesanato nas exportaes da Tunsia, que
era de 3% em 1920-1925, caiu para 1,95% em 1930-193526.
   Era normal, em tais condies, que nos trs pases do Maghreb se verificasse
uma queda constante do valor global do comrcio exterior entre 1931 e 1936.
No caso da Tunsia, o montante desse comrcio declinou, em 1936, aproxima-
damente 40% em relao ao de 1927-1928. No Marrocos, caiu de 3780606
francos em 1929 para 1750518 francos em 1935. O comrcio exterior da Arglia
tambm sofreu uma queda sensvel, decaindo de 9983 mil francos em 1930 para
6702 mil francos em 1936.

      Consequncias sociais da depresso
   As consequncias sociais foram de extrema gravidade. Colonos e agricultores
norte-africanos endividados, na impossibilidade de honrar seus compromissos,


24    NOUSCHI, 1970.
25    EL-ANNABI, 1975.
26    KASSAB, 1976.
Economia colonial: a frica do norte                                                                  505




figura 17.7 Produo e exportao de azeite de oliveira tunisiano (milhares de toneladas), de 1931 a 1939.
(Fonte: Encyclopdie de l'Empire Franais, 1946.)




foram  falncia. Muitos dentre os que ainda no estavam endividados tiveram
de contrair emprstimos e hipotecar bens. Os pequenos e mdios agricultores,
que no tinham acesso s instituies bancrias e aos organismos de crdito
agrcola, tiveram de ir aos agiotas das aldeias e das vilas para pagar as dvidas.
   A crise acentuou consideravelmente as diferenas sociais, ao permitir que
financistas (muitas vezes agiotas), grandes comerciantes e ricos proprietrios
de imveis urbanos ou rurais aumentassem desmedidamente a sua fortuna.
Verificou-se forte concentrao da propriedade e da lavoura em mos de restrita
minoria de grandes proprietrios de origem rural e, no raro, tambm de origem
urbana. Na Arglia,
     essa crise mundial, assinalada pela baixa catastrfica dos preos dos cereais e dos
     ovinos, ps em dificuldade, por outro lado, os proprietrios de 50 a 100 hectares
     e incrementou o empobrecimento dos camponeses de pequenas parcelas de terra.
     Assim,  compreensvel que imensas reas fossem a leilo e parte da terra viesse a
     ser adquirida pela gente mais rica27.
    A formao de enormes fazendas de colonos e de muulmanos data da grande
Depresso. Com a crise da lavoura e as calamidades naturais, a seca e a fome torna-
ram-se comuns em vrias partes da frica do norte, especialmente nas regies de
estepes. Um nmero considervel de fllahn arruinados, famintos e perseguidos pelo
fisco afluiu para as cidades: foram consequncias da grande Depresso a intensifica-



27   AGERON, 1979, p. 509.
506                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935



o do xodo rural e a formao ou o desenvolvimento de favelas28 na periferia dos
centros urbanos. Nenhuma cidade relativamente importante escapou a esse fen-
meno, que durante e aps a Segunda Guerra Mundial assumiu enormes propores.
    O marasmo econmico paralisou as obras, fechou as minas e as oficinas e
provocou desemprego em massa para a populao urbana, artesos e trabalha-
dores de todas as categorias profissionais. "Desde 1932, 12% dos operrios de
Argel estavam desempregados ... [em 1935] , 77% dos operrios da construo
civil estavam sem trabalho, em Argel"29.

      Solues para a crise
      Interveno do poder pblico
    Uma crise de tamanha proporo no podia deixar indiferente o poder
pblico. Em razo disso, o papel do Estado na organizao dos vrios setores
da atividade econmica aumentou consideravelmente. As principais medidas
tomadas pelas autoridades coloniais e pelo governo da Frana incidiram sobre o
setor agrcola, do qual vivia a maior parte da populao do Maghreb e dependia
o futuro do povoamento europeu.
    As medidas em auxlio da vinicultura, no caso particular da Tunsia, consis-
tiram em aumentar as quotas de vinho isentas de impostos destinadas  Frana.
A plantao de novos vinhedos foi proibida em todo o Maghreb, estimulando-se
a erradicao das vinhas com subsdios.
    A cerealicultura beneficiou-se com as vrias aes empreendidas pelo governo
para reerguer a atividade: formao de estoques de trigo duro e de trigo mole,
mediante subsdios ao armazenamento; fixao de um preo mnimo para ambos
os tipos de trigo; escalonamento da venda dos cereais estocados; certificados de
armazenamento com garantia do Estado, o que permitia aos agricultores obter
adiantamentos bancrios de mais de dois teros do valor dos produtos; aplica-
o aos trs pases do Maghreb das medidas adotadas na Frana para controle,
proteo e regulamentao do mercado de cereais.
    Organismos paraestatais, (Office des Crales, Office de l'Huile, Office du
Vin) foram criados para efetivar a aplicao dessas medidas, cada um no setor
competente.




28    Por exemplo, favelas de Ben Msk em Casablanca, Melsn e Djabal al-Ahmar em Tnis, e outras.
29    AGERON, 1979, p. 43.
Economia colonial: a frica do norte                                           507



    Para dar fim s penhoras e arrestos contra colonos e fazendeiros insolven-
tes, foram institudas a Caisse des Prts de Consolidation (1932) na Arglia,
e a Caisse Fonciere (1932) e Caisse Tunisienne de Crdit et de Consolidation
(1934) na Tunsia. Moratrias de graa, redues de dvidas e emprstimos hipo-
tecrios puderam, ento, ser concedidos a devedores ameaados de expropriao.
    A misria das comunidades rurais e a efervescncia nacionalista da resul-
tante levaram as autoridades francesas a refletir sobre a sorte dos fellahin norte-
-africanos. De 1933 a 1935, foi introduzida, nos trs pases da frica do norte,
uma poltica de campesinato.

     Poltica de campesinato
    Na Arglia, uma lei de 19 de julho de 1933 instituiu um Fonds Commun
des Socits Indignes de Prvoyance, o qual permitia  administrao deferir
apenas aos muulmanos, por intermdio das Socits Indignes de Prvoyance,
crditos e subvenes. Esse fundo devia contribuir tambm, tal como a Caisse
des Prts Agricoles, para desendividar os fllahn, fornecendo-lhes emprsti-
mos de consolidao. Um servio de "economia social" na Direction des Affai-
res Indignes instituiu medidas para modernizar as tcnicas de produo dos
fllahn: concedia emprstimos de longo prazo para o plantio de rvores, fazia
adiantamentos para a compra de fertilizantes, arados etc. Todas essas medidas,
porm, por mais teis que fossem, no eram suficientes: os crditos abertos aos
agricultores dispersaram-se "entre mirades de fllahn30", e as medidas adotadas
para modernizar a agricultura muulmana e cooptar os fllahn no foram leva-
das adiante com verdadeira perseverana.
    Na Tunsia e no Marrooos, o Estado tambm procurou injetar crdito no
campo, resolver os problemas de posse da terra, diversificar os sistemas de pro-
duo agrcola dos fllahn. Mas a legislao no foi secundada por aes de
envergadura que buscassem desenvolver os meios de produo dos fllahn e dos
pastores, ou aumentar a parcela de terra dos mais pobres.

     As novas tendncias da agricultura e a persistncia
     do carter colonial do sistema econmico
   A crise econmica demonstrou claramente os riscos da monocultura, sis-
tema predominante especialmente entre os agricultores europeus. O governo


30   Ibid., p. 497.
508                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



promoveu a diversificao das culturas, estimulando a expanso das lavouras
hortifrutcolas e ampliando a irrigao.
    A suspenso das exportaes de frutas da Espanha e da Itlia para a Frana,
por causa da guerra civil espanhola, e a aplicao de sanes contra a Itlia pela
Sociedade das Naes abriram de par em par as portas do mercado metropoli-
tano  produo frutcola do Maghreb, contribuindo para um desenvolvimento
muito rpido da fruticultura, particularmente de ctricos. Vastas plantaes de
laranja, tangerina e limo foram formadas em Mitidja, Arglia, Cap Bon, Tun-
sia, nas regies de Casablanca, Kenfra, Mekns, Wudjda, no Marrocos. Orga-
nismos paraestatais como o Office Tunisien de Standardisation foram criados
para organizar o acondicionamento, venda e exportao das frutas.
    O desenvolvimento da hortifruticultura nas plancies do litoral estava vincu-
lado ao da irrigao, com o aproveitamento dos lenis d'gua subterrneos e dos
rios. No Marrocos, foram construdas barragens no Wd Baht (1934), no Umm
al-Rab'a, em Kasba-Zaydniya, no Tadla (1936) e no Wd Nafs em Lalla
Takerkust (1936). Criaram-se permetros irrigados na rea de Sd Sulajmn,
na plancie de Tadla, na plancie de Triffas, e em outras regies.
    Na Tunsia, nas regies cerealferas do Tell, sobretudo nas enormes fazendas
dos colonos, foram plantados extensos olivais.
    A economia do Maghreb, no entanto, permanecia essencialmente agrcola.
Existiam somente algumas indstrias de transformao, que empregavam como
matria-prima os produtos agrcolas do pas  moinhos, prensas de azeite, des-
tilarias, fbricas de massas alimentcias, cervejarias e conservas  ou ento pro-
dutos minerais, aos quais se dava um primeiro processamento (por exemplo,
fundies de chumbo) ou uma elaborao mais complexa (usinas de hiperfos-
fatos e de superfosfatos), antes da exportao.
    Essas empresas, geralmente de pequeno porte, estavam quase todas em mos
de europeus, e a massa operria industrial no era muito importante: 40 mil ope-
rrios31 em toda a Arglia, em 1938. Apesar do estado de semi-industrializao do
pas, nem por isso as cidades do Maghreb deixavam de crescer em ritmo acelerado.
O ndice de urbanizao do Marrocos, que era 70% em comeos do sculo, passava
de 15% em 1936. As grandes metrpoles econmicas (Casablanca, Argel, Tnis)
viram sua populao aumentar em proporo considervel. Casablanca, que mal
contava 20 mil habitantes em 1900, possua 257 mil em 1936. Quase sem inds-
trias, mas com um setor tercirio super desenvolvido, essas cidades constituam
um polo de atrao para os rurcolas em busca de emprego.


31    AGERON, 1979.
Economia colonial: a frica do norte                                                      509



   Em vsperas da Segunda Guerra Mundial, a economia do Maghreb afigu-
rava-se, portanto, tipicamente dualista e extrovertida. A evoluo dos setores
ocupados por norte-africanos estava bloqueada pela penria de financiamentos,
pela persistncia de arcasmos, fragmentao das propriedades e recuo para
os espaos marginais da rea agrcola. Na verdade, os norte -africanos foram
excludos dos setores modernos da economia (bancos, indstria de minerao e
indstria de transformao, empresas de planejamento e de execuo de projetos
de desenvolvimento). Mas estes mesmos setores, dominados pelo capital estran-
geiro, dependiam estreitamente dos centros de deciso e dos mercados externos,
cujas opes e flutuaes sofriam mais ou menos passivamente.


    Parte II: Lbia, Egito e Sudo
           Ali A. Abdussalam e Fathi S. Abusedra*


    Lbia
    Durante o perodo colonial, a economia da Tripolitnia centrava-se em duas
atividades principais: a agricultura (incluindo a pecuria) e o comrcio. A agri-
cultura era praticada nas zonas rurais e o comrcio nas cidades. Estas duas ati-
vidades constituam a ocupao principal e a fonte de renda essencial da maior
parte da populao. Os turcos no fizeram qualquer tentativa para modificar a
situao, mas os italianos esforaram-se para introduzir mudanas radicais na
economia. A primeira parte deste estudo examina os ltimos anos da dominao
otomana; a segunda, a economia lbia sob a ocupao italiana.

    A economia lbia sob a dominao otomana (18801911)
    Durante a administrao otomana, a economia ficou estagnada e as ativida-
des econmicas limitaram-se  agricultura, ao comrcio e ao pequeno artesa-
nato. A economia permaneceu tradicional no decorrer do perodo. Para lavrar
a terra, empregavam-se arados de madeira puxados por animais. O que mais se
cultivava eram o trigo e a cevada, tmaras, azeitonas (azeite), ctricos e gado. A
produo agrcola dependia em grande parte das chuvas, que variavam segundo

* Professores assistentes de Economia da Universidade de Garyounis, em Benghazi, Lbia.
510                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



as estaes. Grande quantidade de gado era criada nas plancies da Cirenaica e
de Trpoli, e parte desse gado era exportada para os pases vizinhos. Calcula-se
que a exportao de carneiros atingia aproximadamente 500 mil cabeas em
1906. Somente a exportao da Cirenaica atingiu, em 1908, cerca de 58 mil
cabeas de gado e 340 mil carneiros.
    No setor comercial, dada a inexistncia de estradas de rodagem e de meios de
transporte modernos, as caravanas serviam no s para transportar mercadorias
locais, mas ainda para ligar as principais cidades da Lbia aos pases vizinhos
da frica. Havia cinco rotas principais de caravanas: trs iam para o sul, uma
para leste e a outra para oeste (ver figura 17.8). A primeira ia de Trpoli a Kano
(na Nigria), passando por Ghadmes, Ght, Air e Zinder. A segunda ia de
Trpoli a Bornu (na Nigria), via Murzuk, Tadjarh, Bilma, N'Guimi e Kukawa.
A terceira ligava Benghazi a Wadai (no Chade), via Awdjla, Kufra e Tibesti.
Outras rotas seguiam de Benghazi para Sallm (no Egito), a leste, e de Trpoli
para a Tunsia, a oeste32.
    As caravanas transportavam contas de vidro, roupas, seda, especiarias e papel
para Bornu e Wadai, trazendo em troca mercadorias como couro, marfim e
penas de avestruz. No final do sculo XIX, porm, esse comrcio comeou a
declinar. A colonizao de outros pases africanos permitiu a construo de
novas rotas a baixo custo, de modo que meios de transporte modernos e mais
eficientes substituram os antigos. Em consequncia, a importncia do comrcio
caravaneiro foi decrescendo pouco a pouco. Alm disso, Trpoli e Benghazi, os
portos principais, comerciavam ativamente com a Europa e os pases vizinhos.
As exportaes para estes pases incluam gado, carneiro, l, pelo de cabra e de
camelo, tmara, cevada, trigo e esparto. As importaes compreendiam produtos
txteis (algodo e seda), vidro, armas de fogo, arroz, acar, ch e caf. Os prin-
cipais parceiros comerciais eram Itlia, Inglaterra, Malta, Egito, Tunsia, Frana,
ustria, Alemanha e Grcia.
    A indstria, pouco desenvolvida, limitava-se a alguns produtos de tipo arte-
sanal: txteis, fabricao de tapetes, curtumes, fabricao de sabo e alguma
ourivesaria de ouro e prata. Em 1911, havia aproximadamente 2 mil teares de
algodo, 500 de l e 120 de seda33. Algumas dessas indstrias locais produziam
roupas para homens e mulheres. Outras produziam tendas e tapetes. Oficinas
de particulares faziam belas joias (braceletes, anis e brincos). O sal e o tabaco
eram monoplio do governo.

32    CORO, 1971.
33    Ibid., p. 79.
                                                                                                                                     Economia colonial: a frica do norte
                                                                                                                                     511
figura 17.8   Lbia, Egito e Sudo: desenvolvimento econmico na poca colonial. (Fonte: Fage, An Atlas of African History, 1978.)
512                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Embora tenha perdurado por mais de setenta anos (1835-1911), o segundo
imprio otomano em Trpoli pouco se esforou para desenvolver a economia lbia.
No possua qualquer poltica sistemtica de melhoramento da infraestrutura eco-
nmica, quer se tratasse de estradas, de portos ou do ensino. Raras escolas tcnicas
existiam nessa poca. A negligncia para com a economia devia-se, em parte, ao
fato de a Turquia enfrentar outros problemas. Achava-se em guerra com alguns
vizinhos, enquanto tentava desesperadamente agarrar-se s suas possesses na
Europa e salvar o imprio da desagregao. Por consequncia, a administrao
turca, aparentemente interessada apenas em recolher impostos, no se dedicou
ao desenvolvimento da economia Lbia.
    O sistema fiscal aplicado a Trpoli sob o governo otomano inclua um imposto
de capitao para os adultos de sexo masculino, uma dzima e um imposto
de renda. Outras taxas eram o imposto sobre a propriedade rural, o imposto
sucessrio e o imposto de iseno do servio militar, incidente sobre adultos
no muulmanos do sexo masculino; o imposto sobre a cunhagem em ouro e
prata, os direitos alfandegrios sobre produtos exportados e importados34. Alm
disso, o governo recolhia importante receita do monoplio do sal e do tabaco.
Os impostos pesavam sobre a economia e contribuam para a sua estagnao
quase total. Provocaram, ademais, inmeras revoltas, as quais alimentavam a
instabilidade poltica e enfraqueciam o controle dos turcos sobre o pas.

      A economia lbia durante a ocupao italiana (19111942)
    O interesse da Itlia pela Lbia manifestou-se apenas no final do sculo
XIX. Como outras potncias europeias, tambm a Itlia desejava pr os ps na
frica do norte, mas somente no incio do sculo atual  que ela se lanou a
uma verdadeira poltica de colonizao. A princpio, pretendia empregar meios
pacficos, fazendo do Banco di Roma o seu cavalo de Troia.
    O Banco di Roma foi o primeiro estabelecimento financeiro italiano a abrir
suas portas em Trpoli, no ano de 1907. Logo depois, inaugurou sucursais em
outras cidades e ampliou o campo de operaes. Suas atividades no se limi-
tavam s finanas, mas abrangiam empreendimentos na rea da indstria, da
agricultura e dos transportes. O banco instalou moagens e refinarias de azeite
em Trpoli, bem como uma fazenda de criao de carneiros na Cirenaica. Alm
disso, inaugurou linhas martimas entre as principais cidades do pas e os pases
vizinhos, adquirindo terras e enviando peritos para explorar os recursos minerais


34    CACHIA, 1975, p. 72 et seq.
Economia colonial: a frica do norte                                          513



do pas. Essas e outras atividades despertaram suspeitas sobre as verdadeiras
intenes do Banco di Roma na Lbia. E suas atividades acabaram sendo cer-
ceadas, se no proibidas, pelas autoridades turcas35. A hostil atitude para com o
Banco di Roma foi um dos pretextos usados pela Itlia para invadir a Lbia, em
1911 (ver o captulo 5 deste volume).

     A poltica econmica durante a ocupao italiana
   Quando a Itlia invadiu a Lbia, acalentava o sonho de transformar a nova
colnia em fonte de matrias-primas para sua indstria, mercado para os pro-
dutos italianos e soluo para sua exploso demogrfica. Os italianos queriam
que a Lbia se tornasse parte integrante da Itlia. Todo esforo foi empregado
em tal sentido. Fizeram investimentos importantes na agricultura, na indstria
e na infraestrutura.

     Colonizao agrcola
    O programa agrcola da Itlia na Lbia teve duas fases distintas: na primeira,
a colonizao foi incumbida  iniciativa privada; na segunda, foi assumida pela
potncia colonial.
    Para encorajar a imigrao, nos primeiros tempos da ocupao o governo
concedeu vastos domnios aos italianos ricos, para que os desenvolvessem. Essas
terras ou eram propriedade do governo ou expropriadas a um antigo dono. Em
1929, mais ou menos 58087 hectares de terra haviam sido adquiridos desse modo.
As fazendas foram arrendadas a agricultores italianos pelo prazo de 90 anos. Mais
tarde, esses concessionrios foram obrigados a estabelecer novos agricultores ita-
lianos em suas terras, fato que pesou ao mesmo tempo sobre os primeiros colonos
e sobre o governo. Os subsdios oficiais aos colonos elevaram-se a 62 milhes de
liras, e os emprstimos das caixas de poupana alcanaram a cifra dos 158 milhes
de liras36. Somente 2301 famlias, contudo, foram reinstaladas ao abrigo deste
plano, nmero muito aqum da expectativa italiana37. O governo de Roma decidiu,
ento, adotar uma nova poltica de colonizao, a fim de acelerar o processo, mas
no conseguiu levar a bom termo nenhum grande programa de desenvolvimento
enquanto a resistncia local subsistiu, isto , at 1932.


35   F. MALGERI, 1970, p. 17 et seq.
36   SHARKASI, 1976, p. 67-71.
37   Ibid., p. 71.
514                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Logo depois da represso  resistncia lbia (para maiores detalhes, ver
o captulo 5 deste volume), o governo italiano procurou pr em prtica um
plano ambicioso em certas regies da Lbia, sobretudo Al-Djabal al-Akhdar
(A Montanha Verde). O objetivo era estabelecer ali cerca de 300 mil italianos
num prazo de vinte e cinco anos38. A tarefa foi confiada a empresas privadas
e semi-pblicas, que arrecadaram todos os recursos que puderam reunir junto
do setor privado e do setor pblico, canalizando-os para o financiamento
do novo plano de desenvolvimento: tratava-se do ENTE per la Colonizza-
zione della Libia, do Istituto Nazionale della Providenza Sociale (INPS) e
da Azienda Tabacci ltaliani (ATI). O plano inclua desbravamento das terras,
abastecimento de gua, construo de sedes de fazendas, fornecimento de
equipamentos agrcolas, gado e implementos para os colonos. Os agricultures,
por seu turno, deviam pagar as despesas do desenvolvimento entregando a
esses organismos a maior parte da sua produo, cujo valor era creditado em
uma conta deles mesmos39. Ao fim de algum tempo, os agricultores podiam
ser donos de sua prpria fazenda. Em 1936, o projeto de povoamento j havia
custado cerca de 800 milhes de libras e somente 85 mil italianos40 se haviam
ali estabelecido.

      Indstria
   Os italianos no implantaram grandes indstrias na Lbia, mas ampliaram
algumas das j existentes. Uma pequena fbrica de conservas de atum foi cons-
truda em Trpoli. A capacidade da refinaria de azeite foi aumentada, passando
para 2200 toneladas por ano41. A produo de sal aumentou bastante: de 14000
toneladas por ano em 1927 saltou para a mdia anual de 50 mil toneladas, em
193742. Uma segunda fbrica de tabaco, maior, foi instalada em Trpoli em 1923.
Construram-se duas fbricas de calados, uma em Trpoli em 1923 e outra em
Benghazi em 1929. Fbricas de produtos alimentcios e de tecidos continuaram
a produzir em maior escala. Entre as outras indstrias, citam-se a de materiais
de construo, asfalto, plvora, gorduras e sabo. Durante o perodo em estudo,
havia na Lbia aproximadamente 789 fbricas, a maior parte das quais instalada


38    Ibid., p. 72.
39    LINDBERG, 1952, p. 11.
40    SHARKASI, 1976, p. 72.
41    Ibid., p. 33-4.
42    Ibid.
Economia colonial: a frica do norte                                                515



em Trpoli. O artesanato local continuou a existir durante a ocupao italiana,
dados o seu carter e a limitao do mercado.

     Desenvolvimento da infraestrutura
    Antes da ocupao italiana, a infraestrutura da Lbia era rudimentar e, por
isso, o governo italiano teve de investir nela pesadamente. Construiu estradas,
ferrovias, portos, um moderno sistema de comunicao, instalaes hidrulicas
e edifcios pblicos. O investimento nesses trabalhos chegou a 870 milhes de
libras no perodo 1913-193643. Esse macio investimento em infraestrutura
visava desenvolver a economia em benefcio da prpria Itlia: era preciso gerar
empregos para a populao da pennsula e assegurar um mercado potencial para
os produtos italianos.
    No entanto, todo esse investimento havia de ser pago pelos lbios. A popula-
o da Lbia fora dizimada pela guerra. Muita gente morreu combatendo contra
a ocupao italiana; outros morreram em campos de concentrao. Boa parte
emigrou para os pases vizinhos. Os sobreviventes dos campos de concentrao
foram encaminhados, em condies semelhantes s da escravido, para os can-
teiros da estrada do litoral e para os novos projetos de desenvolvimento agrcola.
O objetivo dos italianos era fazer as populaes autctones recuarem para as
terras marginais do interior, a fim de estabelecer os excedentes populacionais
italianos nas terras mais frteis da Lbia.
    Os peninsulares dizimaram tambm o gado da Lbia. Desde sempre a populao
interiorana do pas dependia dos carneiros e dos camelos como alimento, fonte de
matrias-primas e meio de transporte. Enormes quantidades de gado foram abatidas
ou confiscadas. O restante, enxotado dos pastos tradicionais para as inspitas regies
prximas dos campos de concentrao, sucumbiu pela fome. O quadro 1 mostra a
considervel diminuio do rebanho durante a ocupao italiana.

Quadro 1 Recenseamento do gado na Lbia, em 1926 e 193344
                                                                           Burros
     Ano         Carneiros        Cabras   Bovinos   Camelos   Cavalos
                                                                           e mulas
     1926         800000           70000   10000      75000     14000        9000
     1933          98000           25000    8700      2000      10000        5000


43   LINDBERG, 1976, p. 46.
44   ALLAN, McLACHLAND e PENROSE (orgs.), 1973, p. 52.
516                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



Os italianos no tiveram conscincia da extenso do prejuzo causado  riqueza
pecuria da Lbia antes que a resistncia findasse, em 1932. Embora tratassem
de estimular a criao de gado, levou anos para que os rebanhos atingissem
novamente o nvel originrio. Com efeito, as perdas haviam sido to importantes
que a base econmica se debilitara, e a populao, empobrecida, j no tinha a
mesma capacidade de poupana.
    Finalmente, para agravar a situao, os italianos no educaram os lbios para
as funes administrativas nem lhes proporcionaram instruo adequada. Con-
forme salientava K. Folayan, "em 1939-1940, enquanto os italianos (cerca de
10% da populao total) dispunham de 81 escolas primrias para seus filhos,
os lbios, que representavam mais de 85% da populao, s tinham 97  sua
disposio45. Do mesmo modo, havia sete escolas secundrias para os italia-
nos, e apenas trs para os lbios. Mesmo nos quadros da polcia e do exrcito,
nenhum lbio podia ultrapassar a graduao de sargento. Raros foram os lbios
autorizados a ocupar postos administrativos de relativa importncia aps 1934.
A falta de pessoal qualificado entravou o desenvolvimento econmico do pas
por muitos anos.


      Egito
    A derrota militar de Muhammad `Al em 1840 assinalou o fim de importante
fase da histria econmica do Egito moderno. O sistema por ele instalado pre-
via o desenvolvimento simultneo da agricultura e da indstria sob controle e
propriedade do Estado. Seus planos lanaram o pas no rumo de uma economia
orientada para a exportao46. Essa tendncia foi reforada entre 1850 e 1920.
Todas as atividades econmicas estavam voltadas para o cultivo e exportao de
algodo, razo por que o Egito tornou-se um pas monocultor altamente espe-
cializado. Na dcada de 1920, o Egito experimentou um esboo de industriali-
zao, fundamentalmente atravs da substituio de importaes. O perodo que
estamos examinando caracterizou-se por duas tendncias principais: a primeira,
no sentido da concentrao na agricultura de exportao, especialmente algodo;
a segunda, no sentido da industrializao. Vrias mudanas estruturais concorre-
ram para acomodar essas tendncias. Vamos agora examinar os diversos fatores
que induziram a cada uma dessas fases.


45    FOLAYAN, 1974, p. 7.
46    ISSAWI, 1963, p. 24.
Economia colonial: a frica do norte                                          517



     Economia orientada para a exportao
     O desenvolvimento da infraestrutura
    O perodo de que trataremos testemunhou um impressionante desenvolvi-
mento da infraestrutura do pas, o qual, porm, concentrou-se nas atividades
relacionadas com o algodo e sua exportao. Grandes projetos de irrigao
foram lanados. A barragem de Assu (ver figura 17.9), a maior do mundo na
poca, foi concluda em 19012 e sobrelevada em 1907-1910. A barragem do
Delta foi reforada e posta em funcionamento, bem como as de Zifta, Asyt
e Esn. Aproximadamente 13 500 km de canais foram abertos no reinado de
Ism'l's (1863-1879). A superfcie cultivada passou de 4,76 milhes de feddns
em 1881 para 5,66 milhes em 191147. A maior parte das novas terras foi des-
tinada ao cultivo do algodo, no s por ser mais rentvel, mas tambm porque
os ingleses o encorajavam: o algodo era, ao mesmo tempo, uma cultura de
exportao, que permitia ao Egito pagar as suas dvidas, e uma matria-prima
de que o Lancashire grandemente necessitava. Em resumo, os ingleses queriam
 e conseguiram  fazer do Egito um produtor de algodo e fornecedor de sua
indstria txtil48. O volume das receitas do algodo cresceu de 3,12 milhes de
kantrs em 1879 para 7,66 milhes em 1913  um aumento de 140% em vinte
e quatro anos49.
    A necessidade de transportar as safras de algodo exigia a expanso da rede
de transportes e comunicaes, onde se concentraram, ento, os maiores esforos
(ver figura 17.10). As estradas de ferro foram completadas, passando a interligar
todas as grandes cidades do Delta e o Cairo ao Alto Egito. A primeira via frrea
foi inaugurada em 1853; em 1877, contavam-se 1519 km de estradas de ferro
de bitola normal. Essa rede mais do que duplicou durante a ocupao britnica,
atingindo, em 1909, 3200 km, alm de 1600 km de bitola estreita. As instalaes
porturias de Alexandria foram modernizadas e vrias vezes ampliadas. Novos
portos foram construdos em Suez e Port-Said, no canal de Suez, aberto  nave-
gao em 1869. Todos esses melhoramentos facilitaram muito a transformao
do setor agrcola: de uma agricultura de subsistncia passou-se a uma cultura de
exportao em grande escala, destinada aos mercados internacionais.
    Cumpre sublinhar que a influncia econmica da administrao britnica
se fez sentir principalmente no que se refere a irrigao e transporte. A recons-

47   ISSAWI, 1954, p. 34, Feddn: 0,56 hectare.
48   Ibid., p. 35.
49   Kantr de algodo: 45 kg.
                                                                                                         518
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figura 17.9   Assu: as guas do Nilo na sada da barragem (1937). (Foto: BBC Hulton Picture Library.)
Economia colonial: a frica do norte                                          519



truo de vrias barragens e a construo da barragem de Assu garantiram
ao Egito irrigao perene e permitiram ampliar a superfcie total das terras
cultivadas. No entanto, h que se ter em mente que o intuito dos britnicos era
desenvolver fontes alternativas para suas necessidades de algodo, de forma a
no depender nica e exclusivamente dos Estados Unidos da Amrica para o
suprimento da indstria txtil, como acontecera antes da Guerra de Secesso.
Ora, o Egito tinha certas vantagens, em comparao com outros fornecedores
eventuais, como a ndia e o Brasil. Em outras palavras, a primeira preocupao
do Reino Unido era garantir a estabilidade do suprimento de matrias-primas
para sua indstria txtil. No espanta, por isso, que o governo tenha consagrado
a maior parte de suas despesas de capital  promoo das exportaes, invocando,
como justificativa dessa poltica, a necessidade de considerveis investimentos na
rede de irrigao, para aumentar as receitas destinadas ao reembolso da dvida
estrangeira, apesar da difcil situao financeira do Egito. O algodo foi o prin-
cipal beneficirio do investimento em obras pblicas. Os demais setores bene-
ficiados foram aqueles relacionados com as necessidades do setor de exportao.

     Poltica de livrecmbio
    Uma das mudanas fundamentais caracterstica deste perodo foi a pol-
tica de livre-cmbio adotada pelo governo. Tratava-se de posio contrria 
de Muhammad `Al, para quem a interveno do Estado era indispensvel ao
desenvolvimento. Lorde Cromer, conselheiro financeiro e ministro plenipo-
tencirio do Reino Unido no Egito durante 24 anos, era adepto do laissez-
-faire. Opunha-se  concesso de proteo aduaneira s indstrias nascentes.
Sua atitude negativa em relao s companhias txteis egpcias ilustra bem suas
posies. Ele afirmava ser "prejudicial aos interesses do Reino Unido e do Egito
dar qualquer estmulo ao crescimento de uma indstria de algodo protegida
no Egito50.
    De qualquer modo, o governo egpcio estava preso a acordos internacionais
que o impediam de proteger suas indstrias nascentes, mesmo que desejasse
faz-lo. Em virtude do tratado anglo-turco de 1838, os comerciantes estrangei-
ros podiam comprar e vender em todas as partes do imprio otomano, pagando
um imposto uniforme de 8% ad valorem, ou at menos51. O tratado abriu o
imprio ao livre-cambismo e as mercadorias estrangeiras comearam a inundar


50   Citado por ISSAWI, 1954, p. 37.
51   MEAD, 1967, p. 15.
520                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



o desprotegido mercado egpcio. Pode-se afirmar que "esse tratado bloqueou
por mais de um sculo qualquer nova tentativa de industrializao por parte do
Estado"52. Tais acordos expiraram em 16 de fevereiro de 1930, e o Egito resga-
tou, ento, a autonomia fiscal. Como veremos mais adiante, isso lhe permitiu
modificar o sistema de direitos aduaneiros, de forma a proteger as indstrias
locais emergentes. Esta reforma tarifria marca o incio da fase de substituio
de importaes.

      Modelos de investimento
    O tipo de investimento prevalecente no perodo favorecia a agricultura. A
formao bruta de capital, de 1880 a 1914, atingiu 15% do produto interno bruto
(PIB). Era uma proporo muito alta, comparada  de outros pases. No entanto,
a maior parte desses investimentos foi para a agricultura e para a construo
urbana, enquanto a indstria no recebeu mais que 2,3% da formao bruta de
capital (FBC). De modo geral, os autores explicam esse tipo de acumulao
de capital em termos de rentabilidade relativa e afirmam que o investimento
na agricultura era, ao mesmo tempo, mais rentvel e menos arriscado do que
na indstria. No entanto, R. Mabro e S. Radwan sustentam que outros fatores,
principalmente a poltica do governo, proporcionam melhor explicao53.
    Os investidores egpcios preferiam a terra e a propriedade fundiria aos pro-
jetos industriais, pois o proprietrio de terras gozava de prestgio social. Possuir
terras e fazer parte da "burguesia agrria" conferia privilgios, j que esta classe
estava no pice da hierarquia social. Ocorria, portanto, uma clara tendncia para
a concentrao das grandes propriedades rurais. Os latifundirios (aqueles que
possuam 50 feddns ou mais) representavam 15% do conjunto dos proprietrios
de terras em 1897, e detinham 44% do total da rea cultivvel. Em 1913, repre-
sentavam menos de 1% do conjunto dos proprietrios, mas detinham 44,2% das
terras arveis. A superfcie mdia das grandes exploraes passara, portanto, de
183 para 193 feddns durante o perodo54.  uma evoluo importante, pois os
investimentos desses proprietrios voltavam-se para a terra, desequilibrando a
estrutura em seu conjunto. Alm disso, os estrangeiros, de acordo com as capitu-
laes, gozavam de imunidade fiscal e judiciria, o que lhes dava vantagem sobre
os concorrentes egpcios em matria de investimento industrial. Seja como for,


52    MABRO e RADWAN, 1976, p. 18.
53    Ibid., p. 21.
54    Ibid., p. 25.
Economia colonial: a frica do norte                                          521



sem protees o mercado egpcio no suscitava muito interesse e a industriali-
zao continuou negligenciada at a dcada de 1930.
    A administrao egpcia tambm argumentava que era necessrio encorajar
o cultivo e a exportao do algodo para aumentar a receita do pas, permitindo
o reembolso das dvidas. A acumulao de enorme dvida pblica, que come-
ou em 1858, deveu-se ao financiamento dos projetos de infraestrutura e das
extravagncias de alguns monarcas egpcios. A lei de liquidao de 1880 fixara
a dvida pblica do pas em 98,37 milhes de libras, mas nos 20 anos seguintes
foram contrados mais emprstimos no valor de 18,2 milhes de libras. As obri-
gaes da dvida externa atingiram 8,5 milhes de libras egpcias por ano em
191455. Era, portanto, vital o incremento das exportaes para amortiz-la.
    A Guerra de Secesso dos Estados Unidos estimulou a produo e a venda
do algodo egpcio ao exterior. As exportaes aumentaram de pouco mais de
meio milho de kantrs em 1860 para mais de 2,1 milhes em 1865, 4,1 milhes
em 1890 e 7,7 milhes em 1913.
    No entanto, depois da rpida elevao dos preos em funo da Guerra de
Secesso, eles no deixaram de cair at o final do sculo, sendo insuficiente o
aumento da produo para compensar a queda. No decorrer da primeira dcada
do sculo XX, o preo do algodo mais do que duplicou, atingindo o valor das
safras o triplo do que valiam no incio da ocupao. Em 1916, o preo do algodo
atingiu o valor mdio de 38 xelins por kantr; em 1919, subiu para 90 xelins. As
exportaes montaram a 88 milhes de libras egpcias em 1920, da derivando
grandes supervits56.
    Financeiramente, o xito da administrao britnica consistiu em assegurar a
arrecadao e a administrao corretas das receitas suplementares que esses supe-
rvits acarredavam para o governo. As autoridades trataram de proceder a uma
reforma oramentria, reduzindo as despesas, salvo aquelas julgadas compensa-
doras  por exemplo, as obras de irrigao. O aumento das receitas de exportao
permitiu amortizar todos os emprstimos contrados durante a ocupao, e tam-
bm reduzir a dvida de Ism'l em cerca de 10 milhes de libras no ano de 1913.

     Fase de substituio das importaes
  Incontestavelmente, a administrao britnica procedeu a numerosas refor-
mas que se revelaram benficas para a economia egpcia. Os maiores xitos


55   ISSAWI, 1963, p. 27.
56   Ibid., p. 31.
522                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



situam-se na rea financeira, obras de irrigao e eficincia administrativa. No
entanto, no  menos verdadeiro que essa mesma administrao revelou-se
hostil  industrializao do Egito e que, ao mesmo tempo, a poltica de livre-
-cmbio acentuou o papel primordial do algodo na economia egpcia. No
final da dcada de 1920, porm, importantes mudanas assinalaram o incio de
um novo perodo, em que a indstria desempenhou papel de primeira ordem.
Uma das principais razes dessas mudanas foi a grande depresso de 1929,
que trouxe o colapso da demanda internacional de matrias-primas, especial-
mente de algodo. Evidentemente, isto provocou uma severa deflao de todas
as atividades da economia egpcia. Em consequncia, a poltica de livre-cmbio
passou a sofrer presses cada vez mais contundentes, aumentando os apelos 
interveno governamental. Alm disso, durante os ltimos anos da dcada, as
relaes comerciais do Egito haviam-se deteriorado, o que vinha somar-se a
todas as razes que advogavam o desenvolvimento de outros produtos alm do
algodo, principal fonte de receitas de exportao do pas. Tal perodo testemu-
nhou, ento, o surgimento de um poderoso movimento nacional. A revoluo de
1919 assinalou o apogeu da expanso do nacionalismo egpcio, o qual se refletiu
no surgimento de empresrios nacionais com novas ideias sobre o desenvolvi-
mento futuro do Egito. Ademais, se a produo agrcola em fins do sculo XIX
acompanhava a taxa de expanso demogrfica, no sucedia o mesmo no incio
do sculo XX, pois a produo agrcola aumentou 30%, enquanto o crescimento
populacional foi da ordem de 50%57. A capacidade de absoro da agricultura
egpcia no acompanhava o ritmo de aumento da populao, sendo necessrio,
portanto, desenvolver novos setores que proporcionassem empregos produtivos e
elevassem a renda per capita. Finalmente, dada a carncia de importaes durante
a Primeira Guerra Mundial, estabeleceram-se vrias novas indstrias, as quais
reclamavam proteo para resistir aos assaltos da concorrncia estrangeira.
    Por todas essas razes, em 1930, quando obteve autonomia fiscal, o Egito
tratou de impor direitos aduaneiros de 15 a 20% sobre uma gama de produtos
de consumo passveis de concorrncia com a produo local. Nos anos seguintes,
a proteo aduaneira estendeu-se a todos os produtos estrangeiros que podiam
fazer concorrncia. Tinha incio um novo perodo de crescimento econmico,
graas  substituio das importaes. O desenvolvimento industrial era atestado
por vrios ndices. O primeiro, o aumento do emprego industrial. Em 1937, mais
ou menos 155 mil pessoas trabalhavam em empresas com 10 operrios ou mais,


57    MEAD, 1967, p. 16.
Economia colonial: a frica do norte                                              523



contra 30 mil em 1916. Outro ndice era o crescimento da produo industrial.
De 1917 a 1939, a produo de acar, por exemplo, passou de 79 mil para
159 mil toneladas, a de cimento de 24 mil para 353 mil toneladas e a produo
industrial de tecido de algodo de 7200 mil metros quadrados para 500 milhes
em 193958. Um terceiro ndice era a elevada porcentagem de necessidade de
certos bens industriais supridas pela produo local neste ltimo ano, tal como
o mostra o quadro 2.

Quadro 2 Egito: produo local e necessidades locais de produtos industria
lizados, 193959
                                Necessidades                       Necessidades
        Produto                  locais (em        Produto          locais (em
                                porcentagem)                       porcentagem)
 Acar                                100          Sabo                90
 Bebidas alcolicas                    100         Mveis                80
 Cigarros                              100         Fsforos              80
 Sal                                   100         Cerveja               65
 Farinha                               99       leos vegetais           60
 Algodo fiado                         96       Soda custica            50
 Calado                               90      Txteis (algodo)         40
 Cimento                               90

    Outro fenmeno importante a assinalar: o aparecimento de empresas nacio-
nais nos anos de 1920. O primeiro banco exclusivamente egpcio e administrado
somente por egpcios, o Bank Misr, foi fundado em 1920 e favoreceu o desen-
volvimento de empresas industriais em grande escala. O banco procurou atrair
capitais privados fora das vias tradicionais de investimento; em 1940, o grupo Misr
compreendia 21 companhias associadas. Estima-se que a parte correspondente
s empresas industriais do banco atingia 45% do acrscimo do total do capital
realizado de todas as sociedades annimas do setor industrial no perodo 1922-
-1928. Portanto, o Bank Misr deu enorme impulso ao desenvolvimento industrial
do Egito no perodo de entre as duas guerras. O investimento assinalava-se pela
crescente participao do capital local. As sucessivas crises do algodo, os elevados
lucros esperados por certos setores da indstria (como o demonstravam os lucros


58   ISSAWI, 1963, p. 44.
59   EL-KAMMASH, 1968, p. 41.
524                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



realizados pelos estrangeiros engajados na indstria local), a criao de possibi-
lidades de investimento nacional por intermdio do Bank Misr e suas empresas,
tudo isso permitiu orientar os investimentos para projetos industriais.
    Concluindo, o perodo foi caracterizado por diversas tentativas de desen-
volvimento. Aps o malogro da tentativa de Muhammad `Al. de realizar um
programa de industrializao forada, sem dispor da necessria infraestrutura,
a economia orientou-se para a monocultura de exportao. Esta tendncia foi
reforada sob a ocupao britnica, que encorajou a ampliao das terras culti-
vveis e as exportaes de algodo. Trs argumentos eram invocados em apoio
a tal evoluo: primeiro, o livre-cmbio e a especializao em setor, nos quais o
pas estava em situao comparativamente favorvel trariam consigo maior bem-
-estar; segundo, era preciso dispor de recursos para amortizar a dvida pblica
acumulada; terceiro, os tratados internacionais impediam que o Egito protegesse
suas novas indstrias. Consequentemente, orientou a economia para a exporta-
o. No entanto, as primeiras trs dcadas do sculo XX foram caracterizadas
por uma transformao estrutural da economia, no sentido da industrializao.
Havia diversos fatores envolvidos: as sucessivas crises agrcolas, que levaram
 deteriorao do comrcio egpcio, o aparecimento de empresas nacionais, a
recuperao da autonomia fiscal e a mudana da poltica governamental em
relao  indstria. Esta, portanto, cresceu rapidamente no final do perodo que
estamos examinando.


      O Sudo
    No fim do sculo XIX, o Sudo assistiu ao nascimento de um movimento
religioso que desencadeou a revolta contra a dominao turco-egpcia e culmi-
nou na criao do Estado Mahdista, de 1881 a 1898. Quase na mesma poca,
o Egito caiu sob a dominao do Reino Unido e, logo em seguida, o Sudo
foi reocupado pelos britnicos. Foi a poca da dominao anglo-egpcia sobre
o Sudo. A primeira parte desta seo trata sucintamente da situao sob o
Estado Mahdista e a segunda destaca as principais etapas da poca da domi-
nao anglo-egpcia.

      O Estado Mahdista
  O Estado Mahdista estabeleceu administrao e sistema judicirio prprios.
Uma de suas grandes realizaes foi a instaurao de um regime fiscal simples
Economia colonial: a frica do norte                                          525



e prtico, fundado nos ensinamentos do islo. O zakt constitua o essencial das
receitas fiscais. Estabelecia alquotas de 2,5% sobre a fortuna e de 10% sobre
o gado e os cereais. Dada a simplicidade do sistema e sua adaptabilidade s
condies sociais, permaneceu em vigor mesmo aps a queda dos Mahdistas.
A administrao estimulava a agricultura e o comrcio, pois essas atividades
deviam sustentar o exrcito, equipando-o com armas e munies.
   O Estado Mahdista, contudo, no durou muito. Vrios fatores contriburam
para sua queda. Em primeiro lugar, o movimento mahdista enfermava de rivali-
dades internas, devido  luta pelo poder aps a morte do Mahdi, em 1885. Em
segundo lugar, a consolidao do poder no conjunto do pas tinha esgotado os
recursos do Estado. Por fim, este precisava defender as fronteiras contra diversas
potncias coloniais europeias60. O Estado Mahdista aspirava a estender-se para
o norte, em direo ao Egito, iniciativa que se revelou desastrosa, pois levou o
Reino Unido, que ento dominava o Egito, a ocupar tambm o Sudo.

     A dominao angloegpcia
    A conquista anglo-egpcia do Sudo encerrou o breve perodo de indepen-
dncia nacional sob os mahdistas. Felizmente, a administrao colonial no foi
muito pesada. A poltica colonial do Reino Unido no Sudo foi relativamente
moderada, havendo a um verdadeiro esforo de desenvolvimento da economia
do pas. A administrao britnica no Sudo teve o mrito de desenvolver a
infraestrutura e introduzir a agricultura moderna.

     Desenvolvimento da infraestrutura
    No decorrer da sua administrao colonial no Sudo, o Reino Unido fez
construir estradas de ferro, portos e barragens, e expandiu o sistema de ensino
(ver figura 17.10). A primeira estrada de ferro foi construda entre 1896 e 1898
para a campanha militar. Depois, seria prolongada at Atbara e empregada para
o transporte entre o norte do Sudo e o Mediterrneo, via Egito. Quando Port
Sudan foi construdo, em 1906, nova ferrovia foi projetada para lig-lo a Atbara.
Mais tarde, em 1910, a linha principal seria prolongada at Sennr. Outra linha
surgiu em 1924, entre Djazra e o Mar Vermelho. Servios de barcos a vapor
tambm foram criados para ligar o sul e o norte do pas. Esses modernos e
eficazes meios de comunicao contriburam para o escoamento dos produtos


60   HOLT, 1970, p. 204 et seq.
                                                                                                                                                        526
                                                                                                                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935
figura 17.10   Cultura do algodo de Djazra, regio situada ao sul da confluncia do Nilo Azul com o Nilo Branco. (Foto: BBC Hulton Picture Library.)
Economia colonial: a frica do norte                                                     527



agrcolas e reduziram consideravelmente os custos do transporte. A administra-
o britnica tambm se interessou pelo desenvolvimento da educao. Alm
disso, tomaram-se medidas para melhorar a utilizao dos recursos do solo e das
guas. Foram construdas algumas estaes de bombeamento e abertos vrios
canais de irrigao.

     Desenvolvimento agrcola
   O Reino Unido compreendeu desde o incio a importncia do potencial
agrcola do Sudo. Comeou pela cultura experimental de algodo, a fim de
suplementar a produo egpcia. Desde que a primeira experincia realizada
em Zaydab em 1905 mostrou-se promissora, logo foi estendida ao vale de
Djazra, o mais frtil do Sudo, situado entre o Nilo Azul e o Nilo Branco. Um
ambicioso plano foi ento concebido para essa rea, e o Sudan Plantation Syn-
dicate, empresa privada, foi autorizado a nela cultivar algodo. O plano previa
uma associao entre o governo, o Sudan Plantation Syndicate e agricultores
sudaneses. O governo alugava a terra de seus proprietrios e tomava a seu cargo
as despesas de capital necessrias para a construo de canais e de estaes de
bombeamento. O Sudan Plantation Syndicate assumia as despesas menores e
a gesto do projeto. Era tambm responsvel pelo transporte e comercializao
do produto. E aos agricultores cabia garantir o cultivo do algodo (ver figura
17.10). O produto da venda seria dividido entre os trs parceiros, da seguinte
maneira: 40% para os agricultores, 35% para o governo e 25% para o Sudan
Plantation Syndicate. Mais tarde, as partes do governo e do Syndicate passaram,
respectivamente, para 38% e 22%61.
   O plano de valorizao de Djazra previa a irrigao de aproximadamente
200 mil hectares de terras para cultivo de algodo, milho e forragem, mas foi
adiado devido  Primeira Guerra Mundial. Foi, entretanto, revisto em 1919 e
ganhou novo impulso com o trmino da construo da barragem de Sennr, em
192562. O xito do projeto de Djazra estimulou o desenvolvimento de atividades
conexas, como transporte, irrigao e debulha industrial do algodo.
   Para financiar essas obras, o sistema fiscal vigente foi suplementado por um
acordo entre o Reino Unido e o Egito, nos termos do qual o Egito daria ao
Sudo ajuda financeira, emprstimos necessrios aos seus projetos de desen-
volvimento e ao seu oramento. A contribuio egpcia ao oramento sudans


61   ALLAN, W. N. e SMITH, R. J., 1948, p. 608-609. Ver tambm GAITSKELL, 1959, p. 70.
62   GAITSKELL, 1959, p. 94.
528                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



elevou-se a 2,8 milhes de libras egpcias entre 1899 e 1916, e os emprstimos
atingiram cerca de 5,4 milhes de libras egpcias no perodo 1900-191063.
    As subvenes e emprstimos egpcios eram necessrios pelo fato de os
impostos serem pouco elevados no Sudo. O imposto territorial era de 10 a
100 piastras por feddn. A dzima vigorou durante a ocupao britnica. Outros
impostos recaam sobre o comrcio e diversas indstrias64.
    Para incentivar a utilizao do solo, o imposto sobre terras cultivadas s incidia
sobre um quarto delas aps dois anos. Depois, o conjunto se tornava tributvel por
oito a dez anos. Havia outros impostos: sobre os rebanhos, que no incidia sobre
pessoas, mas sobre o conjunto de um grupo tnico, e tambm um imposto per capita
de 25 a 80 piastras. Em 1912, foi institudo um imposto sobre o patrimnio. Alm
disso, as embarcaes eram taxadas proporcionalmente  sua capacidade de carga.

      Impacto da atividade econmica do Reino Unido no Sudo
    Em comparao com a atuao da Frana e a da Itlia respectivamente no
Maghreb e em Trpoli, a atividade econmica colonial do Reino Unido no
Sudo parecia, em certa medida, digna de elogios. As terras no foram con-
fiscadas, nem concentradas em mos de uns poucos privilegiados, como ocor-
reu em outras colnias. O desenvolvimento do vale de Djazra foi um sucesso
til ao Reino Unido, mas tambm ao Sudo, que dele participou diretamente.
A instalao de uma rede de modernos meios de transporte, a construo de
portos e canais de irrigao contriburam igualmente para a expanso de uma
agricultura moderna no Sudo. Mas h tambm o reverso da medalha: desde
logo, a infraestrutura instalada, alm de ser insuficiente, servia claramente aos
interesses do Reino Unido, antes que aos dos sudaneses.  muito significativo
que nenhuma estrada tenha sido construda naquela poca, e que as ferrovias o
tenham sido, originariamente, para facilitar as campanhas militares do Reino
Unido, bem como a explorao do algodo e da goma-arbica em Djazra e nas
zonas ocidentais, respectivamente. Exatamente como na maior parte das col-
nias, a industrializao foi completamente negligenciada. Apesar de tudo isso,
no entanto, a crtica mais severa que se pode fazer ao colonialismo britnico no
Sudo  ter ignorado por completo o sul do pas tanto social como economica-
mente. O problema, ainda hoje sem soluo, que essa rea do Sudo apresenta
, incontestavelmente, em grande parte imputvel a essa negligncia.


63    Ibid., p. 35.
64    TUNLEY, 1948.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos    529



                                        CAPTULO 18


       As repercusses sociais da dominao
          colonial: aspectos demogrficos
                                       John Charles Caldwell




    No perodo entre 1880 e meados da dcada de 1930, a frica conheceu
mudanas decisivas no que se refere  demografia. No incio do perodo, a
populao do continente ainda vivia esparsa, ao menos segundo os critrios
do Velho Mundo. O mais importante, porm,  que ela no estava crescendo
rapidamente e revelava-se vulnervel s presses internas e externas a que desde
h muito achava-se exposta. Por volta de 1935, a populao do continente havia
incontestavelmente aumentado, em consequncia dos progressos no controle da
mortalidade, e estavam lanadas as bases para que viesse a duplicar no decorrer
do perodo 1930-1960, o que muito provavelmente aceleraria e consolidaria a
independncia do continente.
    Inmeros ndices podem ser usados para demonstrar a evoluo ocorrida
entre as duas datas, alguns dos quais nos ajudam a compreender a transio
demogrfica. Em 1880, a presena de europeus estabelecidos no interior do
continente restringia-se  Arglia, onde uns trezentos mil imigrantes, origin-
rios principalmente da Frana, Espanha, Itlia e Malta, tinham consolidado a
vitria do exrcito francs; na frica do Sul, um nmero quase equivalente de
europeus, na sua maioria de origem britnica ou holandesa, j tinha proprie-
dades que avanavam em direo ao norte, at o rio Limpopo (ver figura 1.1).
Alm do mais, os europeus comeavam a exercer autoridade sobre o Egito e a
Tunsia, governavam algumas populaes do litoral do Senegal e da Costa do
530                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



Ouro (atual Gana) e ocupavam certo nmero de enclaves: Gmbia, Serra Leoa,
Lagos, Libreville, parte de Angola e de Moambique. Em 1935, administraes
europeias controlavam quase todo o continente. Em meio sculo, graas aos
progressos mdico cientficos europeus, a medicina conseguiu dominar e curar
as principais doenas que assolavam as populaes da frica, cujas causas eram
at ento ignoradas. Com efeito, foi pelo final do perodo que as sulfamidas e
os medicamentos derivados deram incio  era da quimioterapia, etapa sanitria
decisiva para o continente africano. Essa mesma poca compreende tambm,
quase totalmente, o perodo de construo das estradas de ferro, e o de transi-
o do tempo em que todo o transporte terrestre era feito por carregadores ao
aparecimento de um nmero crescente de caminhes traando, na poeira e na
lama, uma rede de estradas cada vez mais densa.


      Crescimento demogrfico
    Muitos estudiosos publicaram dados aparentemente seguros referentes 
evoluo da populao africana1, mas na verdade o essencial de nosso conheci-
mento sobre as contagens efetuadas no sculo XIX vem de uma extrapolao
retrospectiva, a partir dos dados fornecidos pelos censos posteriores  Segunda
Guerra Mundial. Se estes dados tivessem proclamado o dobro dos habitantes
que contaram,  provvel que tivssemos ajustado para mais a nossa estimativa
da populao do sculo XIX, na mesma proporo.
    Os trabalhos mais citados referentes ao sculo XIX so os de W. F. Will-
cox e A. M. Carr-Saunders, aos quais se juntam outros, mais recentes, de J. D.
Durand2. As cifras apresentadas pelos dois primeiros autores no se fundamen-
tam em praticamente nenhuma base real e somente se impuseram, por assim
dizer,  fora de serem repetidas e pelo fato de concordarem uma com a outra.
    Na realidade, Willcox limitou-se a repetir as estimativas feitas por um
autor italiano do sculo XVII, B. Riccioli3 com a justificativa de que esse "foi
um jesuta muito sbio", que "resumia a totalidade dos conhecimentos de seu
tempo" e admitindo a hiptese de que a populao africana no experimentou
qualquer crescimento entre o sculo XVII e meados do sculo XIX4. Na ver-


1     Ver United Nations, 1973, quadro II. 4, p. 21.
2     WILLCOX, 1931; CARR-SAUNDERS, 1936, p. 17-45; DURAND, 1967, p. 136-59.
3     RICCIOLI, 1661, 1672, p. 630-4.
4     WILLCOX, 1931, p. 45.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos         531



dade, Riccioli era mais sensvel  "mstica dos nmeros" do que a estatsticas
demogrficas srias: havendo estimado, na poca, a populao do globo em
um bilho de pessoas, dividiu esse total entre os cinco continentes, por ml-
tiplos de 100 milhes. Para levar em conta o fato evidente de que a frica
no estava desabitada, ao mesmo tempo que estimava considervel populao
para a sia, no restou a Riccioli outra soluo que no a de fixar os habi-
tantes da frica em 100 milhes. Willcox defendia essa teoria afirmando que
a densidade demogrfica das regies africanas que sabidamente no estavam
crescendo aceleradamente em 1931 (ou seja, com excluso de Egito, Tunsia,
norte da Arglia, Serra Leoa, Libria, Gmbia, frica do Sul e Rodsia do
Norte, atual Zmbia) correspondia  estimativa de Riccioli para todo o con-
tinente5. O raciocnio no resistia ao exame: Willcox pensava em pases cuja
demografia era mal conhecida na poca. Nada prova que a sua populao per-
manecesse estacionria. No se compreende por que nesses pases a densidade
demogrfica teria permanecido necessariamente igual, no passado,  dos pases
excludos. Sob o argumento de no haver provas de crescimento demogrfico
antes de uma poca recente, Willcox tomava o nmero 100 milhes como
estimativa da populao do continente at 1850.
    As estimativas de Carr-Saunders no constituem trabalho independente,
mas apenas um comentrio s de Willcox. Menos interessado em calcular popu-
laes globais do que em definir nmeros ou tendncias regionais que pudessem
ter sido negligenciados, Carr-Saunders declara, portanto, aceitvel e provvel a
cifra dada por Willcox para calcular a populao africana de 1650, ou seja, trs
sculos antes de seu tempo, que foi o dos censos regulares dos habitantes do
continente.
    No obstante, Carr-Saunders argumenta que os nmeros de Willcox no
levavam em conta uma probabilidade verossmil: a de que o desgaste provo-
cado pelo trfico de escravos tenha produzido uma diminuio da populao
antes de 1800, mas que tais perdas teriam sido largamente compensadas pelo
rpido crescimento demogrfico verificado na frica do norte6. O autor con-
clui que o nmero mais baixo  90 milhes  teria sido atingido em 1800 e
que o aumento posterior fez expandir a populao em um tero, durante o
sculo XIX7.



5    WILLCOX, 1931, p. 45.
6    CARR-SAUNDERS, 1936, p. 34-5.
7    Ibid., p. 42.
532                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



    A tese de um declnio da populao que teria caracterizado total ou par-
cialmente o sculo XIX  frequentemente ouvida, mas pouco demonstrada.
Um observador acreditava que ela se originava de dois fatos principais: um,
a falta de informaes precisas sobre as populaes rurais esparsas do inte-
rior levava os europeus a conclurem que encontravam regies despovoadas;
dois, o desejo dos filantropos de acreditar que tinham desempenhado papel
benfico aps um perodo de desordens e devastaes largamente imputveis
a seus compatriotas8. Outro observador sustentava que as populaes locais
haviam sido superestimadas pelas potncias europeias, na poca das grandes
conquistas africanas, com a inteno de estimular os investimentos das com-
panhias e das empresas que acompanhavam a expanso colonial9.  certamente
tentador concluir pela existncia de intenso povoamento ao ler os relatrios
deixados por exploradores como H. M. Stanley: efetivamente, por um lado
esses viajantes tinham tendncia para aumentar os nmeros; por outro, eles
seguiam pelos rios e caminhos que, sem dvida alguma, atravessavam regies
de densidade superior  mdia.
    As sries demogrficas traadas por Durand constituem progresso impor-
tante, pelo que parece. Na maior parte dos clculos, especialmente das popu-
laes que viviam ao sul do Saara, o autor faz estimativas retrospectivas
fundamentado, aparentemente, nas estatsticas publicadas pela Organizao
das Naes Unidas, relativas a 192010. Mas, para obter a estimativa mdia,
rejeitou os nmeros de 1920 argumentando que eles subentendiam uma taxa
de crescimento demogrfico muito elevada (1,5% ao ano) em relao ao per-
odo 1920-1950, para o qual aceitava os nmeros das Naes Unidas. Ainda
assim, as projees retrospectivas desse autor esto realmente fundadas nos
resultados dos censos posteriores  Segunda Guerra Mundial. Durand no
justifica as razes por que recusou aceitar a taxa de crescimento decorrente
das estatsticas das Naes Unidas para o perodo 1920-1950, atitude que
deixa supor que a influncia das ideias de Riccioli, divulgadas pelos trabalhos
de Willcox e Carr-Saunders, ainda domina a questo. Durand conclui, quase
como se procurasse justificar sua metodologia, com a seguinte observao:
"Quando somamos a estimativa da populao da frica do norte, esta [a
estimativa mdia] concorda aproximadamente com a hiptese de Willcox,
segundo a qual a populao global da frica permaneceu estacionria em mais

8     KUCZYNSKI, 1948-1953, v. 2, p. 120.
9     SURET-CANALE, 1971, p. 37.
10    DURAND, 1967, p. 152-3.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos        533



ou menos 100 milhes de habitantes no decorrer deste perodo [1750-1850]"11.
As estimativas desse autor referentes  frica do norte, contudo, esto apoia-
das em estudos do crescimento demogrfico no Egito e na Arglia, durante
a segunda metade do sculo XIX e as primeiras dcadas do sculo XX12. A
estimativa mdia admite, para a frica do norte, uma taxa de crescimento
anual de 1,25% entre 1850 e 1920.
    Mais reveladoras so as estimativas mximas e mnimas propostas por
Durand para 1850  respectivamente, 145 e 81 milhes , pois autorizam uma
margem de erro de aproximadamente 30% a mais ou a menos. A margem de
erro admitida nas estimativas para a sia e Amrica Latina  de 10% e de apenas
4% para a Europa. A impreciso das estimativas referentes  frica subsaariana
explica-se em parte pela raridade de registros disponveis. O risco de erro est
patente tanto na controvrsia levantada com a publicao das estimativas de
Durand, que apresentavam diferena de 20 milhes a propsito da populao da
Nigria, quanto na grande incerteza quando se tratava de avaliar uma populao
to importante como a da Etipia.
    Evidentemente, ningum pode afirmar qual era a populao da frica,
principalmente a das regies subsaarianas, durante o perodo que estamos
estudando. Ningum ousou calcul-la em menos de 100 milhes de almas,
nem em mais de 150 milhes, em 1880. Por volta de 1900, a margem entre as
estimativas mais baixas e as mais altas reduziu-se para algo entre 115 e 155
milhes. No entanto, em 1935 a cifra de 150 milhes j estava claramente
ultrapassada. Na maioria dos pases africanos no havia qualquer contagem
sria para este perodo e certos "censos" sequer mereciam tal nome. O censo
de 1911 realizado na Nigria do Norte foi transmitido a Londres num docu-
mento de uma s pgina13. Kuczynski dedicou anos  redao de trs grossos
volumes (perto de 2500 pginas)14 em que analisava, com mincias, em rela-
o ao perodo anterior  Segunda Guerra Mundial, os dados demogrficos
de todas as colnias (e de dois territrios sob mandato) que o Reino Unido
possua na frica. Esse trabalho continua a ser um documento histrico fas-
cinante para o demgrafo de hoje, mas seria falso afirmar que ele fornea um
conjunto de informaes vlidas sobre os nveis e as tendncias da populao,
no decurso do perodo em referncia.


11   Ibid., p. 153.
12   Especialmente KISER, 1944, p. 383-408, e CHEVALIER, 1947.
13   MEEK, 1925, p. 169.
14   KUCZYNSKI, 1948-1953; 1939.
534                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



   No entanto, podemos falar, certamente com maior proveito, sobre dados
recentes relativos s populaes africanas e, em seguida, analisar as foras que
devem ter modelado esse povoamento em pocas anteriores.


      Populao vulnervel aps uma era de quase estabilidade
    Exceo feita aos perodos de crise, como o atual, em que a revoluo tcnico
cientfica transforma o mundo, as taxas de expanso demogrfica costumam ser
relativamente baixas, as taxas mdias de mortalidade coincidindo aproximada-
mente com as taxas mdias de natalidade. Isto se deve ao carter exponencial
do crescimento demogrfico, o qual, ao fim de um espao de tempo suficiente-
mente longo, acumula uma populao considervel a partir de taxas de cresci-
mento aparentemente baixas. Uma taxa de crescimento anual de apenas 0,5%
(resultante de uma natalidade superior em cinco por mil  taxa de mortalidade)
multiplica a populao por 15, no espao de um milnio. Mesmo supondo que
a populao africana contasse 150 milhes de almas em 1900,  muito impro-
vvel que a populao do continente no ultrapassasse, dez sculos antes, os 10
milhes de pessoas.
    Portanto  possvel admitir a hiptese de que, antes da era moderna, a frica
apresentasse uma taxa de mortalidade inferior em cinco por mil ao ndice de
natalidade. Mas h que opor reservas: trata-se de uma mdia sobre perodo
muito extenso. Durante os ltimos mil anos, a populao do continente como
um todo pode ter passado por oscilaes, sendo quase certo que algumas socie-
dades locais sofreram dramtico despovoamento, com subsequente recuperao.
Seria, contudo, surpreendente se a recuperao ocorresse devido a uma taxa
natural de crescimento superior a 1% ao ano antes do comeo do sculo XIX na
frica do Norte e antes de 1900 nas regies situadas ao sul do Saara. Estas so
taxas mdias de natalidade e de mortalidade. As provas  muitas delas extradas
da Europa medieval  indicam que, na maior parte dos anos, os nascimentos
excediam os bitos. A mortalidade no supera a natalidade seno em perodos
relativamente breves, em que o nmero de bitos se eleva terrivelmente, em
consequncia de epidemias, fomes, guerras e outras catstrofes.
    Dessa forma, se os nveis de fecundidade permaneceram quase constantes
no continente, os recentes estudos sobre padres de fecundidade podem elu-
cidar a situao da fecundidade e da mortalidade na antiga frica. A partir
de meados dos anos 1950, com mais frequncia do que em qualquer outro
lugar do mundo, foram efetuadas na frica pesquisas demogrficas de grande
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos                              535



escala15. Os dados coletados eram de interpretao difcil, sobretudo porque
as populaes africanas no atribuam tradicionalmente a mesma importn-
cia a certas informaes (especialmente a idade das pessoas) necessrias aos
demgrafos para quantificar os resultados. De qualquer modo a existncia de
dificuldades deu origem a novos mtodos de anlise (a ponto de o desafio
representado pelos dados de provenincia africana ter revolucionado a meto-
dologia demogrfica), graas aos quais numerosas informaes sobre a frica
subsaariana foram obtidas16.
    Os resultados mostraram uma diversidade muito maior do que o supunham
as teorias sobre a estabilidade das populaes a longo prazo (algumas variaes
poderiam ser explicadas por erros nos dados). No obstante, torna-se claro que,
na sua maior parte, as populaes subsaarianas esto includas entre aquelas
cuja taxa mdia de fecundidade das mulheres, durante o perodo de procriao,
atingia 6,5 a oito filhos nascidos vivos e cuja taxa bruta de natalidade se apro-
xima dos 50 por mil, ou ainda mais. Constitui exceo uma rea delimitada: na
frica central, um retngulo de mais de 5 milhes de km, englobando Gabo,
Camares, a Repblica Popular do Congo, a Repblica Centro-Africana e boa
parte do norte do Zaire. Nessa rea, a taxa mdia de natalidade por mulher
aparentemente no passa de seis e, em certas regies, o nmero cai para quatro.
A taxa bruta do conjunto do retngulo era certamente inferior a 40 por mil na
poca em que nasceram as crianas recenseadas  dos anos 1940 aos anos 1960.
Estes nmeros poderiam ser em boa parte imputados ao grande nmero de
mulheres que no tinham filho algum, nmero que em certas reas chegava a
dois quintos da populao feminina.
    Dirigindo a ateno para o conjunto das regies situadas fora desse retngulo
de baixa fecundidade, podemos apontar algumas hipteses vlidas sobre a situ-
ao demogrfica da frica subsaariana pr-moderna. Aplicaremos os mtodos
de anlise reservados s populaes estveis17, mas h que notar a duas questes
problemticas. A primeira questo  que  extremamente improvvel que a taxa
de natalidade tenha jamais sido superior ao seu nvel atual. Talvez tenha per-


15 Ver, por exemplo, a predominncia da frica nas listas de pesquisas sobre a fecundidade, in DUNCAN,
   1973.
16   A metodologia vem descrita por W. BRASS e A. J. COALE, in BRASS et al., 1968, p. 108-42; COALE
     e DEMENY, 1967. Encontra-se uma exposio cronolgica das concluses e interpretaes sucessivas,
     por A. J. COALE e F. LORIMER, in BRASS et al., 1968; e por A. J. COALE e E. van de WALLE
     in BRASS et al., 1968; H. J. PAGE e A. J. COALE, in OMINDE e EJIOGU (orgs.), 1972; e por H.
     J. PAGE, in CALDWELL (org.), 1975.
17   Extramos as cifras do quadro "Norte" , in COALE e DEMENY, 1966, p. 220-435.
536                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



manecido constante, como parece indicar o exame da pirmide etria elaborada
h cinquenta anos, pelos censos da Costa do Ouro (atual Gana)18. Alm disso, a
melhoria das condies sanitrias conseguiu diminuir a esterilidade e melhorar a
fecundidade, como se sugeriu ao menos no caso do Qunia e da ilha Maurcio19.
Se assim for,  pouco provvel que a taxa de fecundidade da frica pr-moderna
tenha sido 90% inferior  atual, e quase impossvel que no tenha alcanado
80%. A segunda questo  a possibilidade de a populao no ter permanecido
estacionria, mas ter mantido uma taxa de crescimento de 0,5% ao ano durante
alguns sculos (devido a razes que sero analisadas adiante).
   Esse conjunto de fatores eventuais nos autoriza a imaginar uma sociedade em
que a taxa de fecundidade feminina atingia a mdia de 5,5 a 7 filhos nascidos
vivos, correspondente a uma taxa de natalidade de 42 a 50 por mil. A expectativa
de vida ao nascer era de 20-30 anos, para uma taxa de mortalidade de 38 a 50 por
mil e uma mortalidade infantil de 250/375 por mil crianas nascidas vivas. Pode-se
admitir uma hiptese intermediria: uma situao em que a fecundidade mdia
das mulheres ultrapassasse ligeiramente 6 filhos nascidos vivos, de onde teramos a
taxa mdia de expanso demogrfica de 0,3% e a expectativa de vida ao nascer de
22,5 anos mais ou menos  nvel correspondente ao da Roma Antiga, no fim da
Repblica20. Admite-se, ento, uma taxa bruta de natalidade equivalente mais ou
menos a 48 por mil e uma taxa bruta de mortalidade de 45 por mil, situando-se
a mortalidade infantil entre 300 e 350 por mil. As elevadas taxas de natalidade,
encorajadas pela cultura e pela religio, constituem certamente uma espcie de
resposta  fortssima mortalidade que por muito tempo caracterizou a frica
tropical como uma das regies do mundo mais dizimadas por doenas.
   O quadro no nos deve surpreender: as precrias condies da higiene pblica
prolongaram-se por muito tempo, at a poca atual, nas mais remotas partes do
continente. Pesquisas efetuadas em Mali (final da dcada de 1950) e em Alto
Volta (incio dos anos 1960) levaram a admitir uma taxa bruta de mortalidade
prxima de 40 por mil e de mortalidade infantil prxima ou at superior a 300



18    J. C. CALDWELL, in BIRMINGHAM, NEUSTADT e OMABOE (orgs.), 1967, p. 94.
19    A taxa de natalidade da ilha Maurcio, que se mantivera na mdia de 40 por mil durante todo o sculo,
      passou de 33 por mil em 1943 e para 50 por mil em 1950, ocorrendo a expanso mais forte durante
      e aps a campanha antimalrica. William Brass acredita que as taxas de natalidade aumentaram na
      dcada de 1950 no Qunia (comunicao pessoal), enquanto D. J. van de Kaa julga que as taxas atuais
      de natalidade esto evoluindo na Nova Guin (atual Papua-Nova Guin), em condies de sade e de
      mudana social anlogas s de certas partes da frica. (VAN de KAA, 1971.)
20    DUBLIN, LOTKA e SPIEGELMAN, 1936, p. 42.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos          537



por mil21. Semelhante estado de coisas , porm, incompatvel com a estabilidade
demogrfica verificada na zona de baixa fecundidade da frica central, quando
se admite que as atuais taxas de natalidade mantiveram-se constantes desde
o passado. Dados os nveis de mortalidade acima descritos (hiptese bastante
moderada, uma vez que as condies sanitrias nas florestas equatoriais do
litoral da frica ocidental foram, sem dvida, por muito tempo piores que em
qualquer outra parte), poderamos concluir da o seguinte: durante os sculos
passados, nas regies em que a taxa mdia de fecundidade das mulheres era de
cinco nascimentos, o despovoamento teria tido ritmo superior a 0,5% ao ano;
onde a taxa de fecundidade caa para 3,5 nascimentos, o despovoamento atin-
giria pelo menos 1,5% ao ano. Esta suposio  inconcebvel se aplicada a um
perodo prolongado: no ltimo caso (despovoamento de 1,5%), a cada 40 anos a
populao teria diminudo para metade. Em ambos os casos h indcios de que,
nos primeiros tempos da ocupao europeia, as populaes africanas realmente
ultrapassavam, de longe, todas as estimativas aventadas. A nica concluso poss-
vel  a de que a fecundidade tenha baixado nesta regio em poca relativamente
recente, muito provavelmente durante o perodo de que estamos tratando.
    Nosso objetivo essencial consistir em examinar as influncias que tenham
podido provocar mudanas na densidade demogrfica a longo prazo, bem como
os fatores passveis de ter exercido efeitos drsticos de curto prazo durante o
sculo passado. Sempre se sups que, nas sociedades tradicionais, o principal
fator de limitao numrica da populao fosse o potencial de alimentos dis-
ponveis. No entanto, E. Boserup argumenta que as densidades demogrficas
crticas no conduziam a uma situao malthusiana, mas a uma evoluo dos
mtodos agrcolas: "As baixas taxas de expanso demogrfica encontradas (at
h pouco) nas comunidades pr-industriais no podem ser explicadas como
resultado de uma carncia de recursos alimentares devida  superpopulao, e h
que aceitar a ideia de outros fatores na explicao das tendncias demogrficas
[...], mdicos, biolgicos, polticos etc."22
    Talvez o passado da frica tenha sido bem mais complexo e, nos casos
extremos, se tenha chegado aos limites do potencial de alimentos, ainda que no
frequentemente. As terras destinadas  lavoura restringiam-se s imprprias para
outros usos; por exemplo, a faixa de terra quase deserta que separava dois reinos
em guerra era utilizada como "terra de ningum". Na maior parte do continente
africano, o total de terras cultivadas sempre foi pequeno, em parte devido aos

21   P. CANTRELLE, in CALDWELL (org.), 1975, p. 102.
22   BOSERUP, 1965, p. 14.
538                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



mtodos de queimada rotativa da savana, em parte pelo fato de os caadores e
coletores de alimentos terem necessidade de vastas extenses para sobreviver.
Os episdios de fomes dramticas eram excepcionais, registrados apenas em
seguida a secas, invases de gafanhotos ou caos social provocado por guerras
ou epidemias. A crise amide desencadeava-se muito repentinamente para per-
mitir o aproveitamento importante das terras ociosas23. Os limites extremos do
potencial alimentcio natural eram superados, causando enorme mortalidade
e despovoamento, cujos efeitos persistiam por dezenas de anos. As presses
sobre a capacidade de produo de alimentos do sistema eram habitualmente
 mas no sempre  demasiado breves e sbitas para determinar mudanas nos
mtodos de explorao do solo, segundo Boserup. Essas mudanas so mais
provveis quando presso demogrfica permanente age sobre a capacidade de
produo de alimentos do sistema agrcola, seja numa situao em que a taxa
de mortalidade tenha se reduzido significativamente com a melhora da higiene
pblica ou outras medidas, seja quando circunstncias fortuitas ou condies
geogrficas favorveis moderam os picos de mortalidade. Por dezenas de anos,
subsequentemente  crise, a densidade humana permanecia abaixo do limite a
partir do qual haveria presso sobre os recursos alimentares24. As populaes
aumentavam, mas em ritmo modesto, pois estavam sempre sujeitas a epidemias e
doenas fatais. A taxa de crescimento demogrfico pode ter subido ligeiramente
pois, numa populao esparsa, os riscos de contgio das doenas infecciosas
diminuem temporariamente25. Mas isso  discutvel, j que o desastre pode ter
causado uma tal desorganizao na comunidade (por exemplo, uma alta por-
centagem de rfos) que a mortalidade poderia ter crescido por outras razes.


      Os fatores da evoluo demogrfica em
      oposio a antes e depois de 1880
   O fator mais nefasto para o equilbrio demogrfico foi, sem dvida, o trfico
de escravos. Embora o presente captulo compreenda um perodo cujo incio




23    Esta tese apoia-se principalmente em um estudo efetuado em primeira mo sobre as secas no Sahel e
      na Etipia, no incio dos anos 1970. Ver CALDWELL(?).
24    Para um exame mais cuidadoso deste gnero de presso, consultar ALLAN, W., 1965.
25    Como foi aparentemente o caso entre os colonos dos sculos XVII e XVIII, em contraste com a situao
      das sociedades das quais eles provinham.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos                                      539



coincide com a abolio quase total do trfico de escravos atravs do Atlntico,
 preciso estudar a importncia da escravatura e seus efeitos a longo prazo.
    O modo como certos nmeros tornaram-se convencionalmente aceitos para
medir a quantidade de africanos das regies tropicais embarcados para o Novo
Mundo assemelha-se curiosamente ao modo como foram extrapolados os cl-
culos da populao do continente, a partir da obra de Riccioli.
    P. D. Curtin demonstrou como a quase totalidade dos historiadores moder-
nos abeberou-se indiretamente em Kuczynski, que foi buscar as estimativas em
W. E. B. Du Bois, o qual, por sua vez, reproduzira as estimativas arbitrrias de
Edward Dunbar, publicista norte-americano de meados do sculo XIX que
defendia a causa poltica dos mexicanos26.
    At que outros pesquisadores empreendam um exame mais completo das
fontes originais, somos obrigados a citar as estimativas do prprio Curtin:
segundo este autor, 9,5 milhes de escravos africanos chegaram vivos  Am-
rica, distribudos do seguinte modo: sculo XV, 34 mil (0,4% do total); sculo
XVI, 241 mil; (2,5%); sculo XVII, 1341 mil (14%); sculo XVIII, 5652 mil
(59,1%); sculo XIX, 2298 mil (24%)27. Este movimento, mais o pequenssimo
contingente de emigrantes africanos livres que atravessaram o Atlntico no
sculo XIX28, produziu nas duas Amricas o desenvolvimento de uma populao
de origem africana cujo efetivo representa, hoje, um mltiplo do nmero total
dos escravos outrora importados. Como no podia deixar de ser, a frica ocupa
o segundo lugar (depois da Europa) enquanto fonte de povoamento de "colonos"
que emigraram do continente de origem. A significao histrica profunda desse
fato ainda no foi plenamente compreendida.
    A exportao de escravos (aceitando, em princpio, o nmero de africanos
que chegaram vivos s Amricas) pode ser considerada como taxa de emigra-
o, com a ressalva de que desconhecemos realmente o efetivo das populaes
autctones de onde foram extrados esses contingentes. A ttulo de exemplo


26   CURTIN, 1969, p. 3-8; a fonte intermediria da maior parte dessas estimativas  KUCZYNSKI, 1936, p. 12.
27   Extrada dos quadros das pginas 116, 119, 216 e 234, in CURTIN, 1969. Na reunio de especialistas
     sobre o trfico negreiro, realizada sob os auspcios da Unesco em Port-au-Prince (Haiti), de 31 de janeiro
     a 4 de fevereiro de 1978, os participantes no chegaram a acordo quanto ao nmero exato de escravos
     exportados para o Novo Mundo. Segundo a opinio geral, as cifras de Curtin eram muito reduzidas,
     e o nmero exato deveria situar-se entre 15 e 30 milhes. Ver o relatrio final da reunio, documento
     CC-78/CONF. 601/7, Unesco, Paris, 17 de julho de 1978; ver tambm J. E. INIKORI, "La traite des
     Noirs et les conomies atlantiques de 1451 a 1870", documento de trabalho apresentado nessa reunio,
     CC-76/WS/22, Paris, 1 de outubro de 1976.
28   Por exemplo, os 36 100 africanos recrutados nas Antilhas britnicas entre 1841 e 1867. Ver ROBERTS,
     G. W., 1954, p. 235
540                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



e para nos reportarmos s estimativas baixa e mdia de Durand29 (esta ltima
porque mais adiante argumentaremos que pode estar mais prxima da verdade
do que as novas estimativas de populao constante), o quadro 1 d, para trs
sculos e meio (1500-1850), as taxas mdias anuais de emigrao por mil
habitantes da populao de base correspondente s hipteses demogrficas
mdia e baixa.

Quadro 1 Taxas mdias anuais de emigrao africana da populao de base
(15001850)
 Nmero
                            Sculo             Sculo              Sculo              18001850
 de escravos
                             XVI               XVII                XVIII
 exportados
 Taxa por mil
 habitantes
   Hiptese
   demogrfica                                                       0,5                   0,4
   mdia

      Hiptese
      demogrfica                                                    0,9                   0,6
      baixa

Mesmas taxas
para a frica
ao sul do Saara
  Hiptese
  demogrfica                                                        0,6                   0,4
  mdia

      Hiptese
      demogrfica                                                    1,1                   0,6
      baixa


    No entanto, a maior parte dos escravos provinha de regies bem definidas da
costa ocidental da frica, sobretudo do Senegal e de Angola. Alm disso, em
sua maioria os cativos eram originrios de zonas situadas a menos de 500 km do
litoral. Supondo que nessas regies encontrava-se aproximadamente um tero



29    As estimativas dadas para os sculos XVI e XVII seguiram os mtodos de Durand.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos                    541



da populao africana que habitava o sul do Saara, obteremos as taxas indicadas
no quadro 2 para os quatro perodos abaixo considerados:

Quadro 2 Taxas mdias anuais de emigrao da populao de base, nas
regies mais afetadas pelo trfico de escravos
                                  Sculo               Sculo          Sculo   18001850
 Taxa de exportao
                                   XVI                 XVII            XVIII
 Hiptese
                                    0,1                  0,6            2,5       1,8
 demogrfica mdia
 Hiptese
                                    0,2                  0,8            3,1       1,9
 demogrfica baixa

    A esses nmeros h que adicionar as mortes provocadas pelo trfico. A
mortalidade de escravos durante a travessia do Atlntico parece ter decrescido
proporcionalmente: um sexto nos sculos XVI e XVII, um dcimo nos sculos
XVIII e XIX30. Durante as operaes de captura e marcha dos prisioneiros
para o litoral, o nmero de bitos era com certeza elevado. Parte dessa morta-
lidade suplementar ocorreria de qualquer forma, pois a anlise das origens da
escravido na frica ocidental revelou que a oferta de escravos nos mercados
aumentava significativamente por ocasio dos conflitos internos (tais como as
conquistas dos Fulani na Nigria), que faziam multiplicar o nmero de refu-
giados e de prisioneiros31. Mas, sem dvida, a existncia de um mercado de
escravos na costa fazia aumentar a violncia arbitrria e o nmero de vtimas
das ilegalidades extraordinrias ou de aplicaes mais rigorosas da lei habitual.
As taxas acima apresentadas devem, portanto, ser acrescidas provavelmente de
50%, no mnimo, para os sculos XVI e XVII, de um tero para o sculo XVIII
e talvez de 20% para o sculo XIX.
    O aumento das taxas de perdas, mesmo se aplicado s estimativas baixas
de populao, no produz para a frica uma taxa global superior a 1,3 por
mil para o sculo XVIII e a 0,7 por mil para o sculo XIX. As perdas seriam
compensadas pela diferena mdia de um ponto, entre a taxa de natalidade e
a de mortalidade (o correspondente a uma taxa de expanso natural de 0,1 %).
Considerando-se somente a frica ao sul do Saara, esses nmeros tornam-se,
respectivamente, 1,4 e 0,8; e restritos ao tero dessa populao, eles passam para
4,2 e 2,9. Bastariam essas taxas para provocar um decrscimo da populao e

30   CURTIN, 1969, p , 275-86.
31   Ibid., p. 260.
542                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



deter todo e qualquer crescimento, na falta de outra mudana substancial que
pudesse melhorar o balano demogrfico. Com efeito, parece que, nas sociedades
pr-modernas, as taxas mdias de expanso natural raramente alcanaram 0,4%
por longos perodos. No decorrer do sculo XVIII e comeos do XIX, havia na
costa africana, de Cabinda at Luanda, bem como no interior correspondente,
uma zona de evidente despovoamento. Essas zonas costeiras e interioranas, que
englobam hoje em dia grande parte da atual Angola, do Zaire e at de Zmbia,
dificilmente teriam mais do que quatro milhes de habitantes e, no entanto,
devem ter fornecido bem mais de um milho de escravos somente no sculo
XIX. De acordo com a frmula adotada acima, esses nmeros sugerem uma
taxa de perda prxima de 1% ao ano, que certamente se traduziu em baixa de
densidade e despovoamento de certas regies, sobretudo em Angola.
    Quais eram, ento, as sequelas disso em 1880? As remessas para fora do con-
tinente haviam praticamente cessado: escravos provenientes do Sudo meridio-
nal foram introduzidos ao longo do Nilo at a Etipia, a frica oriental e talvez
o Oriente Mdio, durante mais alguns anos. A escravido de fato continuava
a ser praticada de Angola para as plantaes de So Tom e Prncipe, situao
que perdurou at 19l3. Em Zanzibar (hoje parte da Tanznia), o comrcio de
escravos extinguiu-se praticamente depois de 1873. De resto, o mercado jamais
atingiu, nessa regio, escala comparvel ao trfico macio das costas atlnticas,
mesmo que dele tenha resultado certo despovoamento ao longo dos grandes
eixos de penetrao do interior, especialmente o que do oeste ia para Tabora.
No interior do continente, a escravido sedentria continuou, como prova um
relatrio de 1904 referente  frica Ocidental Francesa, de acordo com o qual
um quarto da populao, aproximadamente, vivia sob um regime qualquer de
escravido32. No entanto, as consequncias para a demografia local eram, sem
dvida, insignificantes. Embora em 1880 o trfico para alm do Atlntico j
contasse quatro sculos de existncia, metade dos escravos fora exportada mais
ou menos a partir de 1770, inicialmente para atender ao surto do algodo norte-
-americano e, depois,  crescente demanda do Brasil.
    Durante esse perodo de mais ou menos um sculo (1770-1880), os africanos
que chegaram vivos ao continente americano, mais aqueles mortos no momento
da captura ou durante o transporte, podem ser calculados ao todo em aproxima-
damente 6 milhes (4,5 milhes de homens e 1,5 milho de mulheres)33. Desse
total, a frao daqueles que, mesmo permanecendo livres, teriam sobrevivido

32    SURET-CANALE, 1971, p. 66.
33    A respeito da diviso por sexos, ver CURTIN, 1969, p. 41, nota 37.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos          543



at 1880 seria pequena: 250 mil pessoas no mximo, se levarmos em conta a
reduo das exportaes de escravos depois de 1840. No entanto, a deportao
de mulheres teve consequncias mais graves para a demografia. Mesmo partindo
de taxas de reproduo que caracterizam uma populao estacionria, 1,5 milho
de mulheres teria dado  luz 3 milhes de filhos nascidos vivos (quer dizer, a um
nmero de descendentes igual ao nmero de progenitores); um baixo ndice de
expanso natural (0,3% ao ano) faria aumentar esse nmero para 3,25 milhes
por volta de 1880, dado que a massa de escravos foi exportada no incio do
perodo que estamos considerando. A cifra de 4 milhes de pessoas representa
uma estimativa razovel do dficit total. Essa perda seria irrisria para a frica
como um todo ou para o conjunto das regies ao sul do Saara, talvez 4 e 5%, res-
pectivamente, o que representaria, se partirmos de uma taxa de expanso natural
anual de 0,5%, o equivalente a oito ou 10 anos de crescimento. No entanto, nas
regies que constituam as principais fontes de escravos a situao seria outra:
se empregssemos a hiptese anterior  isto , que a rea continha um tero
da populao subsaariana , o dficit teria sido de 15%, ou seja, o equivalente a
uma gerao inteira, pelo menos.
    Duas hipteses se afiguram discutveis nestes clculos. A primeira  que, para
as populaes do final do sculo XVIII e comeos do XIX, o malthusianismo
no constitua a regra, j que os recursos alimentares podiam ser desenvolvi-
dos pela adoo de uma agricultura mais extensiva ou mudando-se as plantas
cultivadas. Se assim no fosse, ento a populao teria tido, normalmente, um
aumento natural muito pequeno, mas expandindo-se com rapidez bastante para
compensar o dficit devido ao trfico, antes de diminuir. De onde se infere que o
trfico teve um impacto muito fraco sobre o total da populao. No obstante, j
se sups uma certa restrio malthusiana, considerando-se que metade da quan-
tidade total de escravos foi exportada durante os trs sculos anteriores a 1770.
Se esta hiptese no se confirmar (e supondo que a diviso por sexos nas cargas
de cativos tenha permanecido relativamente constante no decurso dos sculos),
poderemos, ento, presumir um dficit suplementar de 4 milhes de almas, se
aplicarmos apenas a taxa mdia de expanso natural a partir de 1770. O nmero
chega a 5 milhes se considerarmos o perodo inteiro. A segunda hiptese, bem
menos discutvel,  que o carter universal do casamento das mulheres na frica,
garantido, mesmo nas regies onde havia desequilbrio numrico entre os sexos,
pela prtica da poligamia, significa que a retirada macia de homens teve pouco
efeito sobre a reproduo global. Na realidade, os costumes tradicionais de casa-
mento limitaram as perdas infligidas  frica pelo trfico.
544                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Nas regies (e reas limtrofes) que forneceram escravos durante quinhentos
anos, produziu-se uma mudana mais sutil, que pode ter causado um impacto
demogrfico mais importante. Trata-se da evoluo das fontes de alimentos,
que experimentaram grande renovao em consequncia dos contatos externos.
    Algumas das populaes africanas mais densas vivem hoje sob os "trpicos
midos", regio que se estende da costa da frica ocidental, pela bacia do Congo,
aos planaltos da frica oriental. A maior poro dessa rea era originariamente
recoberta por espessas florestas, boa parte das quais ainda subsiste. Atualmente,
elas abrigam dois quintos da populao do continente, mas nem sempre foi
assim. A caracterstica mais extraordinria dessa vasta regio  que largussima
parte dos alimentos provm de plantas ali desconhecidas h quinhentos anos.
Um exame atento das pesquisas cientficas sobre os regimes alimentares ao sul
do Saara34, bem como de outros documentos semelhantes, demonstra que a
mandioca , hoje, a cultura mais difundida no litoral que vai da Costa do Marfim
at Angola. No interior, o cultivo de mandioca atinge os contrafortes ocidentais
dos planaltos da frica oriental. O segundo lugar cabe  cultura do milho, que
tende a dominar em Angola e nas vastas extenses da frica oriental (do Qunia
a Lesotho e a Natal). Em Ruanda e em Burundi, a ordem de importncia das
culturas  feijo, batata-doce, mandioca e batata.
    H mais de seis mil anos, segundo alguns especialistas (embora outros o con-
testem), a revoluo neoltica atingiu a frica pelo Egito, alcanando as savanas
da frica ocidental uns trs mil anos mais tarde35. A passagem  agricultura pro-
duziu resultados espantosamente fecundos, que permitiram a domesticao de
plantas selvagens na Etipia e na frica ocidental. Civilizaes neolticas ainda
mais avanadas (como a civilizao Nok) surgiram na Nigria setentrional. O
cultivo de gneros alimentcios na zona tropical mida teve menor xito, embora
a cultura local do inhame se adaptasse  umidade e prosperasse bastante bem
s margens das florestas, assim como a variedade de arroz da frica ocidental.
Pouco depois do incio da era crist, vegetais mais adaptados  frica equatorial,
como a banana (especialmente a banana-da-terra) e o inhame asitico, alcan-
aram a frica oriental e propagaram-se lentamente em direo ao Ocidente36.


34    M. P. MIRACLE, in GABEL e BENNETT (orgs.), 1967, p. 201-25. Miracle demonstrou de forma
      convincente a imperfeio dos dados antropolgicos utilizados por MURDOCK, 1960, bem como
      o interesse de que se revestem as srias pesquisas por sondagem efetuadas pelos servios pblicos no
      decorrer do ano. Levando em conta as reservas apontadas pelos crticos de Miracle, Murdock foi aqui
      empregado como referncia adicional.
35    OLIVER e FAGE, 1962, p. 25; MURDOCK, 1960.
36    HALLET, 1970, p. 16-17; ver tambm SAUER, 1952, p. 34-5.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos         545



Mas a conquista da floresta era obra de grande envergadura: a agricultura e o
povoamento humano progrediram vagarosamente nas zonas florestais. O pro-
cesso foi to lento que, at o sculo XV, as reas de florestas ao norte da bacia
do Congo parecem ter sido esparsamente povoadas por caadores e coletores,
populao que ainda hoje ocupa considervel extenso de terras37.
    Do ponto de vista da histria demogrfica, tenhamos sobretudo presente que,
h quinhentos anos a floresta africana abrigava uma populao muito escassa.
As grandes excees eram as margens da floresta, a costa e os principais eixos
de comunicao. Na Nigria, a zona de Lagos oferece-nos um exemplo do pri-
meiro caso; do mesmo modo, Old Oyo no caso do litoral. Por fim, no caso dos
eixos de comunicao, citemos Ife e Benin onde se faz a travessia do Nger, no
ltimo ponto em que o rio  facilmente acessvel e vadevel antes de atingir o
delta. Desde ento, a ocupao da floresta continuou em ritmo acelerado e ainda
no se completou. Para tomar um exemplo da Nigria  um exemplo recente
, a abertura da floresta mida ao sul de Ondo (e a sudeste do pas Yoruba,
densamente povoado)  agricultura intensiva foi, em larga medida, produto da
construo da estrada que liga Ijebu Ode a Benin, em comeos dos anos 1960.
    Parece fora de dvida que o povoamento da floresta foi quase que intei-
ramente devido  expanso natural e no  imigrao. Do mesmo modo, est
claro que o processo se acelerou no sculo XIX e que, no decorrer do perodo
em estudo, j atingira um ritmo sem precedentes. O milho alcanou certos
pontos ao norte da bacia do Congo somente depois de 1830, e tornou-se o
cultivo mais importante dos Zande por volta de 1900. O Qunia cultivava o
milho desde os anos 1880, mas, at o final do sculo, somente a costa do oceano
ndico produzia em grandes quantidades38, j em Uganda, Ruanda e Burundi,
o milho no assumiu importncia seno nas primeiras dcadas do sculo XX39.
O cultivo da mandioca foi ainda mais tardio. Na frica ocidental, a difuso
do cultivo da mandioca foi freada devido  ignorncia dos africanos, que no
sabiam prepar-la nem eliminar as diversas substncias txicas que a planta
contm. Foram os afro-brasileiros (africanos retomados do Brasil, para onde eles
prprios ou seus ancestrais tinham ido como escravos), estabelecidos na costa da
Guin no sculo XIX, que ensinaram os autctones a preparar o gari (farinha de
mandioca), receita que "parece ter-se difundido dos centros de afro-brasileiros 



37   McCALL, 1964, p. 142-3; PHILLIPSON, 1977, p. 220-30.
38   MIRACLE, 1966, p. 95-9.
39   M. P. MIRACLE, in GABEL e BENNETT (orgs.), 1967, p. 219-20.
546                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935



maior parte das regies de cultura tradicional do inhame", mas sua expanso se
tornou particularmente rpida mais ou menos a partir de 190040.
    O cultivo da mandioca desenvolveu-se significativamente somente a partir
de 1900 no Senegal e no antes dos anos 1920 ao norte dos rios Nger e Benue41.
Todas as provas coincidem. As variedades asiticas de arroz suplantaram de
longe as variedades indgenas, especialmente na frica ocidental, no decurso dos
sculos XIX e XX. No entanto, s antigas variedades de tara vieram acrescentar-
-se, no sculo XIX, os novos tipos importados do Pacfico42.
    O historiador da alimentao notaria as mudanas revolucionrias ocorridas
nos regimes alimentares. No entanto, o demgrafo deve sublinhar que grande
parte das regies situadas ao sul do Saara passaram por mudanas nos ltimos
quinhentos anos, e que tal evoluo tornaria quase inevitvel a expanso demo-
grfica. Acrescentemos que as mudanas se aceleraram no final do sculo XIX e
que exerceram efeito particularmente sensvel exatamente nas zonas que foram
as grandes fornecedoras de escravos.
    Esses foram os principais fatores determinantes da evoluo demogrfica,
mas h outros. Citemos o comrcio, embora seja o caso de perguntarmos se as
suas atividades introduziram mais riqueza, maiores possibilidades de comprar
vveres em poca de escassez e, talvez, de receber cuidados mdicos nas poucas
localidades onde isso era possvel, ou se no trouxeram novas doenas, ao mul-
tiplicar o contato com estrangeiros. Por volta de 1880, as culturas comerciais
compreendiam o algodo do Egito, o cravo-da-ndia de Zanzibar, o acar de
Natal e a crescente rea de amendoim do Senegal. Na Arglia, colonos brancos
haviam fundado uma economia colonial baseada no vinho e no trigo. Falta
mencionar um efeito secundrio do comrcio, prejudicial  sade pblica: a
macia importao de lcool de forte graduao pelo continente. O comrcio
do lcool deve-se a dois motivos: a) o lcool podia ser produzido a baixo preo
na Europa e exportado para a frica com enormes lucros; b) numa economia
que ignorava qualquer moeda de troca verdadeiramente reconhecida, havia o
problema de oferecer uma mercadoria que fosse aceita pelos africanos em con-
trapartida aos produtos locais43. Mary Kingsley julgava legtimo o comrcio
de lcool, supondo-o menos nocivo do que a maconha44, opinio partilhada


40    W. O. JONES, 1959, p. 79.
41    Ibid., p. 80-4.
42    JOHNSTON, B. F., 1958, p. 26.
43    Ver as observaes de H. M. Stanley, citadas por MIDDLETON, 1936, p. 288.
44    KINGSLEY, 1897, p. 662-8.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos           547



por uma comisso formada em 1909 para pesquisar o comrcio do lcool45. As
bebidas alcolicas eram distribudas em profuso, muitas vezes sob a forma de
salrio. Em 1894, metade das receitas globais e 95% dos direitos aduaneiros
do protetorado da costa do Nger provinham do lcool. Nesse mesmo ano, as
receitas pblicas oriundas de bebidas alcolicas alcanavam aproximadamente 2
milhes de libras esterlinas46. Embora a Conferncia de Bruxelas de 1892 tenha
procurado, sem xito, limitar esse comrcio no Congo (atual Zaire), nenhuma
regulamentao pde ser imposta na frica tropical, antes do perodo imedia-
tamente anterior  Primeira Guerra Mundial.
    As mesmas questes podem ser colocadas a respeito de outro trfico, o de
armas. A introduo da carabina  que permitiu a um punhado de homens
arrebatar grande quantidade de escravos africanos. A experincia dos traficantes
rabes e etopes na frica oriental o comprova. A prazo mais longo, essas regies
comercialmente mais desenvolvidas foram as primeiras a serem dotadas de uma
infraestrutura econmica, administrativa e civil: instalaes porturias, estradas,
centros comerciais, comercializao das safras e, finalmente, escolas, equipamen-
tos sanitrios e, talvez, reduo das taxas de mortalidade. Na frica ocidental, as
regies particularmente ativas no comrcio de escravos em geral estavam  frente
no que se refere a esses melhoramentos. Os Igbo e os Ashanti desenvolveram
parte de seus dons para o comrcio durante a poca do trfico de escravos. No
norte da frica, drenagem, redes de esgotos e outras infraestruturas sanitrias
foram, sem dvida, implantadas desde meados do sculo XIX, em algumas cida-
des da Arglia e do Egito. O objetivo, em grande parte, era proteger as minorias
europeias recentemente ali estabelecidas, mas as populaes autctones tambm
acabaram por ser beneficiadas. Na dcada de 1840, o impacto deste progresso
foi particularmente benfico em Argel, onde os franceses procuravam erradicar
o cholera morbus47.


     O impacto do colonialismo
    Um dos argumentos mais frequentes dos europeus para justificar a sua pol-
tica de colonizao nos anos 1880 era que as novas administraes permanentes
reduziriam as perdas em vidas humanas, at ento devidas s lutas entre etnias


45   SCHRAM, 1971, p. 115.
46   Ibid., 114-5.
47   MORRELL, 1854, p. 87.
548                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



e s operaes de captura pelos mercadores de escravos. Lugard insistia muito
em que as regies mais despovoadas da Nigria comprovavam as devastaes
crnicas48. Sem dvida, reinava certa insegurana na frica pr-colonial: a posi-
o defensiva ocupada por inmeras aldeias o demonstra. Os agricultores s
desciam  plancie para cultivar as melhores terras, desde que tivessem a sua
segurana garantida49.
    O argumento da maior segurana tornou-se verdadeiro a longo prazo, mas
continua a ser muito discutvel quanto s primeiras dcadas. A instabilidade
africana fora exacerbada ao contato dos europeus. De qualquer modo, com
certeza os administradores e missionrios a ampliaram, todos procurando
justificar a nova ordem instaurada. Em muitos casos, o objetivo das razias
no era a captura de homens, mas a pilhagem de gado e cereais50, ainda que
os proprietrios atacados corressem riscos ao defender seus bens. Mas o que
os novos regimes coloniais citam com menos frequncia  o pesado tributo
em vidas humanas que foi o preo de suas intervenes nas diferentes regies
da frica. As perdas raramente ocorriam logo ao primeiro estabelecimento
da administrao; deviam-se, antes,  represso das revoltas posteriores e s
expedies punitivas por elas desencadeadas. Essas represlias parecem ter
causado srios prejuzos, em razo da escassez de alimentos que se seguia 
transmutao dos ciclos da agricultura de subsistncia. Eis alguns exemplos:
no Senegal, em 1886, o massacre de milhares de autctones quando tentavam
opor-se  construo de uma ferrovia51; a guerra dos Ndebele na Rodsia do
Sul (atual Zimbbue), em 1893; a interminvel represso da revolta dos Bate-
tela no Estado Livre do Congo (1895-1907); a srie de dramas no Sudoeste
Africano alemo (atual Nambia) (1901-1906). Desastres ainda mais graves
esgotaram Tanganica (atual Tanznia), onde os alemes adotaram a ttica da
"terra queimada" durante a rebelio dos Maji Maji (1905-1906). O nmero
total de mortos elevou-se provavelmente a centenas de milhares, principal-
mente devido  fome52. Nessa mesma regio, as hostilidades entre as tropas
alems e as britnicas durante a Primeira Guerra Mundial sem dvida alguma
agravaram a taxa de mortalidade. Mesmo que as causas tenham sido mais

48    LUGARD, 1929, p. 66.
49    PROTHERO, 1965, p. 39-40; R. M. PROTHERO, in CALDWELL e OKONJO (orgs.), 1968, p.
      252.
50    MACMILLAN, 1938, p. 47 et seq.
51    GAFFAREL, 1905, p. 80-4.
52    Ver C. J. MARTIN, in BARBOUR e PROTHERO (orgs.), 1961, onde as perdas em vidas humanas
      so estimadas em aproximadamente meio milho.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos          549



complexas, citemos como consequncia indireta, mas certa, da presena dos
europeus as devastaes sofridas pelos pases limtrofes da nao Zulu depois
de 1800, bem como as destruies decorrentes das guerras dos Zulu, que se
prolongaram de 1879 at o ltimo levante de 1906. A ocupao branca no
pacificou em toda a parte os conflitos que dividiam os africanos. Certas riva-
lidades agravaram-se, porque os administradores ou os missionrios tomavam
o partido de um grupo tnico contra outro. Em certas regies do continente, a
paz colonial permitiu aos povos agricultores empalmar as terras dos nmades,
como ocorreu nos pases dos Tuaregues e dos Massai.
    Evidentemente, algumas das regies dotadas de administrao permanente
experimentaram uma expanso demogrfica durante o sculo XIX. Esse parece
ter sido o caso do Egito, pas onde, no comeo do sculo passado, Muhammad
`Al desenvolveu a irrigao e melhorou as infraestruturas sanitrias53. Foi tam-
bm o que sucedeu na Arglia, depois que os franceses subjugaram os ltimos
resistentes, em 187954. Em particular quando os militares cederam lugar aos
administradores civis  fato que se generalizou em comeos do sculo XX , a
necessidade de tal estabilidade nasceu das exigncias impostas pelos governos
metropolitanos, para os quais as administraes coloniais africanas deveriam ser
autossuficientes55. Da resultaram importantes esforos pelo desenvolvimento
das comunicaes e pela produo destinada  exportao.
    O problema demogrfico maior, que assinalou os anos anteriores  Primeira
Guerra Mundial, foi talvez a "questo da mo de obra" e os sistemas de concesso
aplicados na frica central.
    No final do sculo XIX, as metrpoles advertiam que as colnias tinham de
ser rentveis. Alcanar o objetivo, ou no, dependia inteiramente do trabalho da
mo de obra africana. Os lucros provinham do transporte dos produtos, que era
realizado por carregadores na maior parte das regies tropicais do continente. Na
verdade, a existncia da mosca ts-ts impedia o emprego de animais de trao,
e a falta de estradas e de ferrovias afastava a possibilidade de transporte meca-
nizado. Na frica central, o produto mais lucrativo foi, a princpio, o marfim, e
o transporte das presas exigia enormes esforos dos carregadores.
    O desenvolvimento da bicicleta de pneus, nos ltimos anos da dcada de
1880, e do automvel com rodas pneumticas, na dcada seguinte, ocasionou
enorme demanda de borracha, que no pde ser atendida pelas plantaes antes

53   KISER, 1944, p. 385 et seq.
54   OLIVER e FAGE, 1962, p. 150.
55   Ibid., p. 204 et seq.
550                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



da gerao seguinte (a primeira plantao da Malsia comeou a produzir em
1910). No intervalo, a frica tropical e a Amrica do Sul satisfizeram as neces-
sidades do mercado graas  borracha nativa, que na frica dava principal-
mente em lianas e cuja explorao, transporte e primeiro processamento exigiam
importantes recursos de mo de obra.
    A dificuldade com a mo de obra provinha do fato de os africanos que viviam
da "agricultura de subsistncia" terem poucas necessidades pessoais, conside-
rando o trabalho regular como uma forma de escravido56. Na opinio deles, esse
tipo de trabalho era para mulheres57. Os europeus, frustrados ao ver escapar-lhes
polpudos lucros, tomavam muito a mal essas atitudes africanas: "O medo tinha
de substituir a falta de ambies, de desejo de enriquecer, tornando-se o motivo
que incitaria os africanos a trabalhar"58. As solues aplicadas foram primitivas
e frequentemente brutais. O trabalho forado foi introduzido em benefcio dos
poderes pblicos, e os chefes locais, encarregados de designar os trabalhadores.
Instituram-se os impostos pessoais e de palhota, com a possibilidade, em certas
regies e mais comumente nos primeiros tempos do sistema, de se optar pelo
pagamento em dias de trabalho. Em 1896, depois que a conquista francesa intro-
duziu a tributao, os Mossi do Alto Volta procuraram, a princpio, aumentar
a produo e o comrcio, mas logo os jovens Mossi comearam a ir trabalhar
como operrios sazonais na Costa do Ouro (atual Gana), s para descobrir que
os impostos triplicaram entre 1906 e 191059. O sistema tem uma longa histria.
Fazia parte do novo mtodo de colonizao aplicado pela Frana nos anos 1920,
poca em que os Mossi foram empregados nas obras da ferrovia da Costa do
Marfim e nas outras obras de infraestrutura da frica ocidental francesa, embora
o trabalho dos carregadores se tornasse cada vez mais raro,  medida que se
generalizava o uso dos caminhes de carga60. Alm disso, os africanos estavam
obrigados aos recrutamento militar, sendo incorporados no exrcito e na polcia.
Em certos pases, empregou-se mo de obra recrutada no estrangeiro, como foi
o caso dos indianos recrutados para construir a ferrovia Mombaa-Uganda em
comeos do sculo, e para o cultivo do acar em Natal, j desde 1860. Por toda
parte verificavam-se deslocaes de mo de obra, seja para concentrar o pessoal
onde era mais necessrio, seja porque certas comunidades africanas tinham fama


56    J. C. MITCHELL, in BARBOUR e PROTHERO (orgs.), 1961.
57    OLIVER e FAGE, 1962, p. 202.
58    MONTMORENCY, 1906, p. 149.
59    E. P. SKINNER, in KUPER (org.), p. 60-3.
60    M. L. BATES, in HARLOW e CHILVER (orgs.), 1965, p. 625.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos                 551



de ser melhores ou mais afeitas ao trabalho, em virtude de contatos mais antigos
com a economia comercial ou em consequncia de antigas caractersticas de suas
culturas originais.
    Nos 30 anos que se seguiram a 1880, as deslocaes de mo de obra eram
normalmente acompanhadas de elevada mortalidade. Muitas vezes, os traba-
lhadores eram enviados para regies onde ficavam expostos a doenas para
eles novas; alm disso, africanos que pareciam imunizados contra a malria no
seu pas de origem, uma vez deslocados, contraam uma forma virulenta dessa
doena e at hematria61. Alguns trabalhadores deslocados no respeitavam
hbitos estritos de higiene, existentes um pouco por toda a frica, especialmente
o de satisfazer as necessidades naturais fora da aldeia e longe das correntes de
gua62, poluindo ento as fontes de gua e disseminando a disenteria e as novas
doenas da febre tifide e paratifide. As condies reinantes nos campos de
trabalho certamente favoreciam a propagao das doenas venreas e da diarreia.
Os homens, vetores de numerosos germes de doenas e de parasitas comuns na
frica tropical, costumavam trabalhar duro em comparao com seus costumes
e com sua resistncia fsica. Caam doentes. Muitos estavam enfraquecidos pela
fome, em parte porque o novo regime alimentar que lhes ofereciam era radical-
mente diferente de sua alimentao tradicional, em parte porque os carregadores
e outros viviam subalimentados: os europeus ou no se preocupavam com isso,
ou ento supunham, sem qualquer razo, que os africanos viviam do que a terra
dava 63. As estatsticas de mortalidade do sculo XIX so mal conhecidas, mas
em 1915 o cnsul britnico em So Tom e Prncipe dava uma taxa de 100
bitos por 1000, entre os trabalhadores levados para l64. Em 1922, durante a
construo da ferrovia de Brazzaville, calculou-se uma taxa equivalente entre
os africanos submetidos ao trabalho forado65. Esta ltima contrastava com a
mortalidade de 150 por mil, vigente no canteiro de obras da ferrovia de Cama-
res, antes de 191466. Os Mossi traduziam a situao com um provrbio: "O
trabalho do homem branco come as pessoas". Nos anos 1920, a administrao
francesa teve de intervir no Alto Volta, para melhorar a alimentao e o salrio

61   THOMAS, H. B. e SCOTT, 1935, p. 309.
62   FAULKINGHAM, R. H., BELDING, FAULKINGHAM, L. J. e THORBAHN, 1974, p. 31-5;
     ORUBULOYE, s.d., p. 77.
63   KUCZYNSKI, 1939, p. 50-1; SURET-CANALE, 1971, p. 26 et seq.; E. P. SKINNER, in KUPER
     (org.), 1965, p. 65.
64   MOREL, E. D., 1920, p. 157-8.
65   KUCZYNSKI, 1939, p. 162.
66   Ibid., p. 61.
552                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



dos trabalhadores empregados na ferrovia da Costa do Marfim, a fim de reduzir
as perdas em vidas humanas67. Condies igualmente ms reinavam nas reas
agrcolas, como o prova o desaparecimento anual de 20% dos trabalhadores de
Camares, em 190268.
    A situao mais desastrosa era a da frica central, no Estado Livre do Congo
(mais tarde, Congo Belga e, depois, Zaire), no Congo francs (mais tarde, frica
Equatorial Francesa) e na parte alem de Camares, ou seja, quase exatamente
na zona de baixa fecundidade. Por volta de 1890, os concessionrios obtiveram
produo total de vastas extenses de terra no Estado Livre do Congo, enquanto
o sistema era reforado pela criao do Domnio Privado de Leopoldo, a partir
de 1892. Em menos de dez anos, o sistema estendeu-se s outras duas colnias
alem e francesa, e se manteria intocado at a vspera da Primeira Guerra Mun-
dial. No final dos anos vinte, Andr Gide ainda encontrou l remanescncias
notveis69.
    Cada um desses sistemas tinha muitos pontos em comum. Os africanos
descobriram que j no eram proprietrios das reservas de marfim acumu-
ladas, que tinham de matar os elefantes para obter as presas e de sangrar a
floresta para conseguir borracha. Figuras suspeitas chegaram da Europa como
representantes das concessionrias: eram autorizadas, em grau extraordinrio,
a utilizar em proveito prprio o aparelho da administrao colonial, inclusive
as foras armadas, a polcia e os tribunais. O imposto e o trabalho forado,
embora oficialmente regulamentados, eram aplicados por esses agentes de
modo a assegurar trabalho de tal durao que a agricultura e, consequente-
mente, o regime alimentar sofreram profundamente. As populaes locais pas-
saram a aceitar cada vez menos o fato de serem despojadas das terras coletivas,
que sempre lhes pertenceram, para trabalh-las em benefcio de outrem. A pri-
so era uma pena pouco satisfatria, j que reduzia o efetivo de trabalhadores.
Em vez disso, aplicavam-se o chicote, as mutilaes, a tomada das mulheres e
dos filhos como refns, o incndio das aldeias e um nmero considervel de
execues. Sem dvida alguma, a doena e a fome acompanharam a destruio
da organizao tradicional do trabalho e a fuga de aldeias inteiras70. No h

67    E. P. SKINNER, in KUPER (org.), 1965, p. 65.
68    KUCZYNSKI, 1939, p. 68.
69    GIDE, 1930, passim.
70    Fenmeno amplamente bem descrito, especialmente por causa das discusses que suscitou na Europa
      durante este perodo. Ver SURET-CANALE, 1971; MOREL, 1920; MIDDLETON, 1936, e tambm
      Information and Public Relations Office, Belgian Congo and Ruanda-Urundi, Belgian Congo, Bruxelas,
      1959, v. 1.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos          553



nenhuma estatstica exata da poca, mas todos em geral constatam um decl-
nio dramtico da populao.  provvel que o clculo dessas perdas tenha se
baseado em estimativas exageradas da populao africana pr-colonial, levando
em conta o desaparecimento de populaes que viviam ao longo dos caminhos
e dos rios, e que tinham abandonado suas aldeias. No entanto,  difcil deixar
de concluir que a populao diminuiu nessas regies entre 1890 e 1910, seno
mais tarde (a teoria segundo a qual milhes de africanos emigraram para os
territrios ingleses limtrofes quase no encontra apoio nos documentos e nos
censos britnicos realizados nessas colnias). Parece mais difcil, mas talvez
no impossvel, imaginar que o ndice de molstias (venreas e outras) desse
perodo contribuiu para agravar a taxa de esterilidade feminina durante meio
sculo e mais. E  difcil aceitar o teor de um texto publicado pelas Naes
Unidas, atribuindo a situao da regio a "um choque cultural" e a "um pro-
cesso de adaptao"71.
     A expanso colonial deveria, afinal, redundar num forte desenvolvimento
demogrfico, devido em parte ao estabelecimento de bases econmicas cujos
resultados j foram discutidos em vrios dos captulos anteriores. Alguns dos
mais espetaculares foram a exportao de azeite de dend do delta do Nger, a
descoberta de diamantes e, em seguida, de ouro na frica do Sul entre 1870 e
1900, o desenvolvimento da cultura do cacau na Costa do Ouro nos anos 1890
e, finalmente, a descoberta de enormes jazidas de cobre no Congo e na Rodsia
do Norte (atual Zmbia), no incio deste sculo.
     No entanto, o acontecimento que mais rpida influncia exerceu sobre a
mortalidade foi a expanso das estradas e das ferrovias. Pelo fim da dcada
de 1920, a maior parte do sistema ferrovirio estava pronta e as estradas eram
melhoradas. J a partir dos ltimos anos da dcada de 1930, alguns caminhes
chegavam a quase todas as regies do continente. Os meios de transporte per-
mitiram que os administradores e os negociantes enviassem alimentos para as
reas afetadas pela fome. A prpria existncia de uma rede de transportes e de
moeda vlida em regies muito extensas estimulou a produo de excedentes
alimentares para o mercado, a partir de 1920; os bitos provocados pela carestia,
devida  seca, diminuram constantemente, assim como comearam a declinar
os picos da taxa de mortalidade, que mantinham uma elevada mdia de bitos.
Antes dessa data, pases como Uganda sofriam fomes que matavam mais de 100
mil pessoas por ano, como sucedeu em 1918-191972.

71   United Nations, 1973, p. 31.
72   D. A. LOW, in HARLOW e CHILVER (orgs.), 1965, p. 110.
554                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Os missionrios exerciam influncia modesta, mas real, sobre essa mortali-
dade, independentemente da abertura de hospitais. Uma autoridade declarava
que "os fiis adquiriram [...] ao menos um certo domnio das condies de vida
criadas pelo sistema colonial"73.
    Finalmente, que efeito teve a medicina ocidental na frica? Resumindo, com
exceo das medidas excepcionais tomadas em alguns casos de epidemia, os
parcos servios sanitrios instalados antes da Primeira Guerra Mundial tinham
a principal preocupao de cuidar dos europeus. Mais tarde, foram progressi-
vamente estendidos aos trabalhadores africanos, que ainda eram, a justo ttulo,
considerados a principal fonte de riquezas do continente. A medicina de massa
no comeou a ser verdadeiramente praticada seno em meados do sculo XX.
O fato de os servios mdicos pouco poderem fazer est provado pelos nmeros:
ainda em 1939 o montante do oramento a eles destinado no passava de dois
xelins por pessoa na Costa do Ouro e de cinco dinheiros na Nigria74.
    As populaes estavam sujeitas a terrveis doenas. Nos anos 1930, um rela-
trio sobre as condies sanitrias reinantes em Kampala ainda indicava:
      Cada doente que se apresenta  consulta  portador de germes ou sofre de malria
      ativa e est atacado por uma ou diversas variedades de parasitas intestinais. De 50
      a 80% sofrem ou sofreram de sfilis, de bouba ou das duas doenas. O mesmo se d
      com a gonorreia, e, alm disso, a lepra, a febre de espirilo e a disenteria esto longe
      de ser raras75.
    As afeces parasitrias compreendiam a ancilostomase, a ascaridase, a
esquistossomose, a filariose e o nematide de Medina. Acrescentem-se as doen-
as epidmicas, como a febre amarela, a varola, a doena do sono (tripanosso-
mase) e os males importados: tuberculose e clera. Mais ou menos at o fim do
sculo passado, os europeus estavam muito mais expostos s doenas africanas,
como o provam as taxas de mortalidade registradas no comeo daquele sculo
entre as foras britnicas estacionadas na frica ocidental. Os bitos eram nove
vezes superiores entre os brancos do que entre os soldados africanos76.
    Nem a prpria Europa estava bem equipada, do ponto de vista mdico, para
as aventuras africanas. No comeo do sculo XIX, a expectativa de vida de um


73    OLIVER e FAGE, 1962, p. 204.
74    KUCZYNSKI, 1948-1953, v. I, p. 10.
75    THOMAS H. B., e SCOTT, 1935, p. 303-4.
76    Calculado com base nos dados citados por KUCZYNSKI, 1948-1953, v. I, p. 16, que do taxas brutas
      de mortalidade de 427 por mil para os soldados europeus e de 46 por mil para os africanos.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos              555



ingls, ao nascer, era inferior a 40 anos. No entanto, no final do sculo, esse
nmero passou para 47 anos na Inglaterra, na Frana e na Alemanha, enquanto
a mortalidade geral se aproximava dos 20% e a mortalidade infantil ficava perto
dos 200 por mil77 .
    Alm disso, a revoluo na medicina demorou a se interessar pelas doenas
tropicais. Embora a vacina antivarilica tenha sido descoberta no sculo XVIII
(principalmente porque a varola no era uma doena tipicamente tropical), os
fatores de propagao da elefantase, da malria e da febre amarela s foram
identificados, respectivamente, em 1877, 1897 e 1900. Com exceo do quinino
e de certos compostos do arsnico utilizados contra a sfilis e a bouba, o apa-
recimento de medicamentos e vacinas contra as doenas tropicais s data real-
mente dos anos 1920. Entretanto, escolas de medicina tropical foram fundadas
na Europa, desde 1897 em Liverpool e em Londres, em 1900 em Hamburgo,
em 1901 em Bruxelas, seguidas pelas de Paris, Bordus, Marselha e, mais tarde,
pelas da frica (Cidade do Cabo em 1912 e Dacar em 1918).
    Na frica tropical, a medicina pblica foi por muito tempo um servio con-
fiado aos militares, ainda que pequenos hospitais civis comeassem a aparecer na
dcada de 1890. A partir de 1840, ano em que o primeiro mdico missionrio
chegou a Serra Leoa, misses mdicas difundiram-se esparsamente pela frica
ocidental. Algumas delas incluam pessoal africano, sobretudo em Serra Leoa.
Esses estabelecimentos tratavam principalmente os militares, os administradores
e os missionrios, embora alguns africanos tambm recebessem tratamento: sol-
dados, empregados do governo e pessoal das misses. Os verdadeiros progressos
datam apenas do incio do sculo atual, como o prova a evoluo das taxas brutas
de bitos de funcionrios europeus em servio na Costa do Ouro: 76 por mil
em 1880-1900, 31 por mil em 1902, 22 por mil em 1903 e 13 por mil em 1904.
Mesmo considerando as faixas etrias, estas porcentagens suportam favoravel-
mente uma comparao com as taxas correspondentes relativas  Inglaterra por
volta de 191278. Atribui-se o progresso s medidas sanitrias tomadas contra a
malria e a febre amarela,  melhora dos mtodos de tratamento das doenas tro-
picais e  segregao dos quarteires de habitao. As medidas sanitrias devem ter
causado algum efeito sobre os poucos africanos que viviam nos principais centros
administrativos, especialmente em Lagos, aps as determinaes do governador
William McGregor e do dr. Ronald Ross (que descobriu o mecanismo de propa-
gao da malria), no comeo do sculo. O emprego de mtodos europeus para

77   KEYFITZ e FLIEGER, 1968, p. 32-6; DUBLIN, LOTKA e SPIEGELMAN, 1936, p. 61.
78   KUCZYNSKI, 1948-1953, v. I, p. 17-8.
556                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



cuidar da sade dos africanos era insignificante, de um lado porque a Europa
oferecia campos de experincia mais interessantes depois da Primeira Guerra
Mundial e, de outro, por causa da crise dos anos 1930, que levou as potncias
coloniais a restringirem despesas com sade pblica. Em 1924, a Nigria tinha,
teoricamente, um mdico para 200 mil habitantes, mas, de fato, somente em um
quarto dos postos esse cargo estava lotado. Em 1939, a proporo de mdicos
em relao  populao do pas era inferior  de 191479. Ainda assim, essas pr-
prias cifras superestimam as possibilidades de os africanos se beneficiarem com
tratamento mdico, j que, no decorrer dos anos 1930, contavam-se na Nigria
12 hospitais reservados para 4 mil europeus, enquanto 40 milhes de africanos
dispunham apenas de 52 estabelecimentos hospitalares80.
    Em vista da extrema carncia de mdicos, a difuso da sade pblica dependia
da possibilidade de serem fundadas clnicas rurais que dispensassem os cuidados
necessrios mediante servios de auxiliares mdicos, e de serem organizadas,
nas aldeias, unidades mdicas que recorressem aos meios locais. Na Nigria, em
1904 foi aberto um dispensrio em Ibad, e outros vieram nas cidades Yoruba,
no decorrer dos anos seguintes81. Em 1910, o governo de Serra Leoa concedeu
prmios, para cada distrito, aos chefes das duas aldeias cujas condies sanitrias
mais tivessem melhorado82. Em 1934, havia hospitais em todos os principais
centros de Uganda e 88 subdispensrios de zona rural que registraram, nesse
ano, 1 378545 consultas83. Cumpre no exagerar o alcance de tais mudanas: em
muitos dispensrios os remdios eram escassos e os responsveis mostravam-se
indecisos quanto  conduta a seguir, como ocorreu na maior parte das regies
africanas rurais at o aparecimento da linguagem escrita. Andr Gide, em visita
aos centros sanitrios de Btou, s margens do Oubangui, no final dos anos
1920, observava com acrimnia que os nicos produtos disponveis para com-
bater as doenas da frica central limitavam-se a tintura de iodo, cido brico
e sal de Glauber84.
    A reduo mais significativa da mortalidade na frica (o fato  certo para
o perodo aqui considerado) foi provavelmente conseguida pelo combate aos
picos peridicos de bitos devidos  fome e s epidemias. Algumas dessas con-


79    Ibid., p. 9-10.
80    RODNEY, 1972, p. 225.
81    SCHRAM, 1971, p. 125.
82    ANNIMO, 1910a.
83    THOMAS, H. B. e SCOTT, 1935, p. 304-5.
84    GIDE, 1930, p. 33.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos                                 557



quistas mal compensaram o recrudescimento de outras doenas ocasionado pela
presena de europeus. Quase todas as autoridades anteriores  Primeira Guerra
Mundial reconheciam que as epidemias de doena do sono que na poca asso-
lavam a frica tropical decorriam em grande parte das atividades dos brancos,
e era comum declararem que as novas vias de comunicao e as perturbaes
introduzidas na selva haviam provocado a propagao da mosca ts-ts ou sua
vinda para a proximidade das aldeias85.
    Do mesmo modo, a suposta epidemia de sfilis que atingiu Uganda no in-
cio do sculo atual foi considerada um acontecimento novo e to inquietante
que a campanha ento desencadeada conduziu  criao do servio mdico
de Uganda. Em Camares, o mal, que em 1895 passava por desconhecido, j
estava disseminado em 1905. A verdade sobre a sfilis africana  sem dvida
mais complexa: o micrbio se parece tanto com o da framboesia (bouba) que 
difcil acreditar que alguma forma de sfilis no tenha existido desde muito antes
no continente86. Embora esteja claramente provado que as formas virulentas de
sfilis se propagaram a partir das regies mineiras da frica do Sul, parece que
uma sfilis endmica menos grave era ali conhecida h muito tempo, e se teria
difundido por uma forma de vacinao praticada em Uganda87.
    As campanhas contra as epidemias, que se ampliaram desde o incio do
sculo, aparentemente tiveram algum xito. Os britnicos combateram a doena
do sono evitando que as populaes tivessem contato com a mosca ts-ts:
impediram que os animais utilizassem as poas de gua situadas perto dos
lugares habitados, limparam a mata e, s vezes, deslocaram populaes inteiras,
como ocorreu nas margens do lago Vitria. Os franceses trataram considervel
nmero de casos individuais. Cabe destacar a obra do dr. E. Jamot, que empre-
gava um composto de arsnico, o atoxil. Uma regio de 124 mil habitantes, em
Camares, tratada dessa forma, apresentou a taxa bruta de mortalidade igual a
81 por mil, dos quais 36 podiam ser atribudos  doena do sono. Por volta de
1930, a epidemia estava prestes a ser vencida. Em Uganda, onde os primeiros
casos da doena do sono apareceram em 1901, calcula-se que a epidemia pro-


85   Estudos recentes vieram corroborar esta convico, embora diferindo ligeiramente quanto s razes.
     DUGGAN (1962) sustenta que a doena do sono se propagou porque as administraes coloniais
     tornaram mais fcil a circulao de pessoas e de animais; FORD (1971) aprofundou essa ideia e sugere
     que novos e grandes polos de deslocao surgiram para os seres humanos, os animais domsticos e os
     animais selvagens, o que alterou fundamentalmente o equilbrio ecolgico, suscitando assim epidemias
     muito severas, durante um considervel perodo de tempo.
86   CARTWRIGHT e BIDDISS, 1972.
87   DAVIES, J. N. P., 1956, p. 1041-55.
                                                                                                                                                               558
                                                                                                                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935
Figura 18.1 Leprosrio mvel numa pequena aldeia ao norte de Bangui (Oubangui-Chari). (Documento extrado da obra de Virginia Thompson e Richard
Adloff: The Emerging States of French Equatorial Africa, e reproduzido com a autorizao dos editores, Stanford University Press, 1960, de Virginia Thompson
e Adloff.)
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos          559



vocara pelo menos 200 mil mortes em 1906, quando comearam as deslocaes
em massa das populaes; mas, em 1918, a certeza de a doena estar erradicada
era suficiente para autorizar alguns habitantes evacuados a regressar s aldeias
de origem88.
    Os surtos de peste bubnica eram frequentes no primeiro tero deste sculo.
De 1900 a 1910, registraram-se 6 mil casos no Egito, metade dos quais foi letal89.
Antes de 1932, contavam-se perto de 60 mil bitos em Uganda90. Epidemias
surgiram em Acra em 1908, em Lagos em 1924 e mais generalizadamente nas
regies yoruba da Nigria em 192591. As medidas adotadas na frica Ocidental
Britnica revelaram que a doena podia ser contida. Durante a epidemia de
Acra, a cidade entrou em quarentena, e foram administradas 35 mil doses de
vacina de Haffkine. Surgiram epidemias de febre amarela do Senegal ao Sudo,
com imprevisvel frequncia. Em 1927, os laboratrios Rockefeller de Yaba,
perto de Lagos, haviam descoberto uma vacina, mas, como no foi utilizada
em massa antes da Segunda Guerra Mundial, todos os xitos obtidos contra a
febre amarela antes de 1935 foram consequncia da eliminao de mosquitos
nas regies urbanas e do uso de mosquiteiro. No se sabe exatamente se a lepra
regrediu no decorrer do nosso perodo. O leo de alpola era empregado na
Nigria desde os anos 1920, mas em 1938 estimava-se que 1% da populao
ainda se achava afetada pelo mal92 (ver figura 18.1). A vacinao antivarilica
comeou no final dos anos 1930, mas em escala to reduzida que a varola no
diminuiu muito seno na Costa do Ouro e no sul da Nigria93. Em compensa-
o, o contato com europeus e a participao dos africanos na Primeira Guerra
Mundial propagaram a todo o continente uma epidemia de "influenza" em
1918-1919: a taxa de mortalidade voltou a subir ao nvel recorde do incio do
sculo, embora provavelmente no fosse to alta como na sia, pois em muitos
casos as populaes africanas ainda estavam protegidas por seu relativo isola-
mento. Nas minas da frica do Sul, nos primeiros anos do sculo atual, as taxas
de mortalidade continuavam altssimas. Em 1907, uma comisso de estudo da
situao no Transvaal revelou a extenso dessas taxas nas minas da poca: 71
por mil para os africanos das regies tropicais; 28 por mil para os das regies


88   D. A. LOW, in HARLOW e CHILVER (orgs.), 1965, p. 111.
89 ANNIMO, 1910b.
90 THOMAS H. B. e SCOTT, 1935, p. 309.
91 SCHRAM, 1971, p. 121-2, 196.
92   Ibid., p. 231.
93 KUCZYNSKI, 1948-1953, v. I, p. 11-2.
560                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



temperadas do sul e 19 por mil para os brancos. Dois anos antes, as cifras eram,
respectivamente, 130, 35 e 20 por mil94.
    Na maior parte do continente, foram tmidos os progressos contra o pior dos
flagelos: a malria, que tornava o doente anmico quando no o matava e que
foi responsvel por muitas mortes atribudas a outras causas.


      Evoluo demogrfica antes de 1935
    Tentando, como o fizemos, analisar a interao dos fatores demogrficos
presentes na frica com mais preciso do que nas avaliaes precedentes da
evoluo global das populaes, no chegaremos a distinguir tendncias real-
mente convincentes.
    A chave da mudana foi indubitavelmente a evoluo da taxa de mortalidade.
No temos nenhuma prova de que as modificaes da fecundidade tenham
exercido impacto importante no continente africano como um todo. A taxa de
fecundidade pode ter diminudo durante um perodo na rea de baixa natalidade
da frica central. Segundo o projeto Princeton, a anlise da taxa de fecundidade
por idade revela que essa diminuio ocorreu, durante o nosso perodo, em regi-
es ao norte de Camares, Repblica Centro-Africana, Gabo, Nger, Sudo e
Zaire95. Localmente, a elevao da taxa de fecundidade pode ter ocorrido em
funo da melhor sade das mulheres, mas ns j vimos que esses melhoramen-
tos s se verificaram, efetivamente, depois de 1935. Seja como for, as estatsti-
cas por faixa etria comprovam uma estabilidade espantosa96. Pode ter havido
mudanas nos padres de poligamia, mas, embora essa instituio tenha sido
comumente apontada como um fator contrrio  fecundidade, os dados reunidos
na frica central sugerem que o efeito da poligamia pouco contou para isso:
nos casamentos polgamos as mulheres podem dar  luz um nmero menor de
filhos do que nos casamentos monogmicos, em razo do costume de aumentar


94    ANNIMO, 1911. No entanto, ver tambm ANNIMO, 1913, onde consta que as questes levan-
      tadas durante uma sesso do parlamento sul-africano foraram o ministro responsvel pelas questes
      relativas s populaes autctones a reconhecer que as taxas de mortalidade entre os mineiros tinham
      sido sistematicamente reduzidas, pela omisso dos bitos ocorridos nos quarteires indgenas. Os bitos
      registrados mensalmente em 1913 ainda levavam a pensar que a taxa anual podia ser da ordem de 200
      por mil, ou mais.
95 BRASS et al., 1968, passim.
96    Quer dizer, em Gana, entre 1921 e 1960; J. C. Caldwell, em BIRMINGHAM, NEUSTADT e OMA-
      BOE (orgs.), 1967, p. 94; e para o norte da Nigria entre os censos de 1921 e de 1952-1953, MEEK,
      1925, p. 180, bem como E. van de WALLE, em BRASS et al., 1968.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos            561



o nmero de esposas nos casamentos pouco fecundos e devido  instituio do
levirato, que acrescentava algumas esposas s unies poligmicas97.
    H prova de indiscutvel crescimento da populao nas primeiras dcadas
deste sculo, conforme as estatsticas para essas regies. Citemos os casos do
Egito, cuja populao talvez tenha duplicado entre 1882 e 193798, e da Costa do
Ouro, pas em que o crescimento de um tero observado entre os censos de 1921
e 1931 no pode ser inteiramente atribudo ao aperfeioamento dos mtodos
de contagem99. O mesmo sucedeu na frica do Sul, onde os nmeros totais de
habitantes e de africanos quase dobraram no intervalo que separa os censos de
1904 e 1936. Trata-se, porm, de regies onde reinavam uma prosperidade e
estrutura administrativa excepcionais, como o prova, at certo ponto, a prpria
realizao de censos; cumpre, ento, atribuir a tais fatores esse desenvolvimento
demogrfico, que se revela mais acelerado do que o do conjunto da frica.
    Estabelecidas todas essas reservas e repetindo que ningum saber jamais
qual o nmero real dos habitantes da frica antes de 1900, eis aqui as ten-
dncias que se delineiam e parecem mais plausveis que as hipteses at agora
apresentadas. Devido em grande parte  penetrao da floresta tropical pela
agricultura, 0,25% de crescimento por ano para o conjunto do continente (sem
dvida, 0,5% para as regies florestais) parece uma hiptese razovel no perodo
de 1500 a 1850. Presume-se que as rpidas mudanas no regime alimentar, que
marcam os sculos XVIII e XIX, vieram compensar as devastaes provocadas
pelas razias de escravos. Com o fim do trfico negreiro,  de crer que o cresci-
mento tenha atingido a taxa mxima de 0,5% por volta de 1880, para declinar
em seguida sob o efeito da partilha e da ocupao da frica subsaariana pelos
europeus. Embora o crescimento da populao continuasse sem dvida a decli-
nar em certas regies at a Primeira Guerra Mundial, a demografia aumentava
ao nvel local no norte e no sul da frica  e talvez igualmente na Costa do
Ouro , o que pode ter bastado para compensar largamente as pesadas perdas
humanas que o Estado Livre do Congo e o Congo francs sofreram por volta de
1900. Podemos, assim, postular que o crescimento da populao africana passou
por um mnimo de 0,25% no comeo do sculo e foi, depois, aumentando at
alcanar a taxa mdia de 0,5% em 1920 e chegar a 1% entre 1920 e 1935. Por
extrapolao retroativa aplicada aos sculos anteriores, tendo por base a hiptese



97   Ver MUSHAM, 1951, p. 354-63 e OHADIKE, 1968, p. 264-8.
98   KISER, 1944, p. 385 et seq.
99   J. C. CALDWELL, in BIRMINGHAM, NEUSTADT e OMABOE (orgs.), 1967, p. 20-3.
562                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



de 165 milhes de almas em 1935100, obtemos as seguintes estimativas: 1500, 47
milhes; 1840, 104 milhes; 1880, 120 milhes; 1900, 129 milhes; 1920, 142
milhes; 1935, 165 milhes.
    A base desta projeo repousa no seguinte argumento: a revoluo neoltica
propagou-se lentamente na frica subsaariana durante trs milnios, determi-
nando a cultura intensiva do solo e um povoamento mais denso. Aceitando,
neste caso, a hiptese de um crescimento demogrfico contnuo,  possvel
comparar as cifras com as de Durand (estimativa baixa), e observar que as duas
teorias concordam sobre o contingente populacional existente no ano de 1500.
Mas isso implica uma taxa de crescimento mais baixa para os sculos XIX e XX,
e os resultados se aproximam muito mais das estimativas mdias de Durand. A
projeo sugere que a frica contava aproximadamente 120 milhes de almas no
incio do nosso perodo (1880) e que, no decurso dos 55 anos seguintes, a pro-
gresso foi de 37,5%, para chegar a uma populao de 165 milhes em 1935.


      Redistribuio demogrfica e urbanizao
   Esses 55 anos conheceram um fluxo de populao que iria determinar e
modelar as futuras estruturas da frica moderna. O acrscimo de 45 milhes
de pessoas significa que nem todos podiam ocupar exatamente o mesmo espao
de seus antepassados, acelerando-se, portanto, a migrao para as terras no
habitadas. Muito significativamente, desde os anos de 1890 na frica ocidental
 um pouco antes no sul da frica e um pouco depois na frica oriental  os
trabalhadores migrantes comearam a procurar trabalho remunerado a grande
distncia. De incio, a necessidade de pagar o imposto os obrigava a isso, mas,
posteriormente, o desejo de consumir e de ir para lugares distantes tornou-se
mais forte. A durao das migraes, unicamente sazonais nos primeiros tempos,
acabou por se prolongar cada vez mais101. No final da dcada de 1920, cerca de
200 mil indivduos deixavam todos os anos a savana e emigravam para a Costa
do Ouro ou para a Nigria102. Os governos locais opunham poucos obstculos
aos recm-chegados, com exceo dos governos da frica do Sul e da Rodsia
do Norte, pases onde a imigrao foi temporariamente restringida para os

100 Recalculadas a partir de estimativas dadas pelas Naes Unidas, as cifras foram ligeiramente corrigidas
    para levar em conta novas informaes demogrficas disponveis depois dos censos posteriores  Segunda
    Guerra Mundial.
101 CALDWELL, 1968, p. 361-77.
102 SURET-CANALE, 1971, p. 246.
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos                                    563



adultos do sexo masculino, por causa dos receios dos colonos e das presses
exercidas pelos sindicatos brancos103.
    Finalmente, grande parte das correntes migratrias acabou povoando no as
plantaes nem as minas, mas as cidades, o que, com o tempo, contribuiu para
formar grandes aglomeraes. Em muitas reas, os centros urbanos justificavam,
dada a sua importncia, a instalao de administraes nacionais e de indstrias
secundrias. Certamente, a frica possua antigas cidades no vale inferior do
Nilo e algumas outras mais recentes no Maghreb, na frica ocidental (savana),
no pas Yoruba (Nigria) e na Costa do Ouro central. No entanto, por volta de
1880, somente uma pessoa em cada 300 vivia em cidades com mais de 100 mil
habitantes (as cifras correspondentes para a sia so de uma em 50 e, para a
Europa, de uma em 15104).
    A verdadeira mudana ocorreu no perodo em estudo, especialmente na frica
subsaariana. Na frica tropical, com exceo da Nigria, encontramos dezesseis
cidades que deviam desempenhar um papel importante no sculo XX e cuja
populao podemos estimar em 80 mil pessoas em 1880. Em 1930, esta cifra
havia quintuplicado e ultrapassava o meio milho. Estava iniciado o processo de
multiplicao por 10 que caracterizaria os quarenta anos seguintes. Em 1931,
Dacar contava 54 mil habitantes; Freetown, com 44 mil, apenas tinha duplicado
em cinquenta anos; Acra contava 60 mil almas, Adis Abeba 65 mil, Nairbi 48 mil,
Dar es Salaam 25 mil. Na Nigria, a escala era diferente: Ibadan possua 400 mil
habitantes, contra apenas 150 mil em 1880. A populao de Lagos duplicara: 126
mil. Outras dez cidades yoruba totalizavam cerca de meio milho de habitantes, o
que representa pequeno progresso em relao ao meio sculo anterior. No entanto,
ao norte, a populao de Kano dobrava em cinquenta anos a partir de 1880,
atingindo 89 mil almas. O total de outras onze cidades passava de 150 mil, mais
ou menos, para 200 mil pessoas105. No Sahel, a populao das cidades histricas
declinou, sem dvida alguma, em parte porque os franceses no implantaram l
centros administrativos importantes. Por volta de 1931, Tombuctu, Gao e Mopti
somavam apenas 15 mil habitantes. Na frica do norte, muitas das velhas cida-
des mantiveram a sua importncia. No perodo a que nos referimos, a populao
do Cairo, de Alexandria e de Argel triplicou, ultrapassando, respectivamente, 1
milho, 600 mil e 250 mil almas. Em 1931, catorze cidades do Maghreb totaliza-
vam 1,5 milho de pessoas, ou seja, pelo menos duas vezes a populao que elas

103 OLIVER e FAGE, 1962, p. 219-20.
104 Calculado utilizando os dados de P. M. Hauser, in HAUSER (org.), 1957, p. 53-95.
105 As cifras relativas s cidades da Nigria, na sua maior parte, so extradas de BASCOM, 1959, p. 29-43.
564                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



contavam cinquenta anos antes. No Sudo, Khartum-Omdurman abrigava 150
mil pessoas. Em 1931, as 14 principais aglomeraes da frica austral (frica
do Sul, Rodsia, Angola e Moambique) reuniam ao todo mais de um milho
de pessoas, duplicando em cinquenta anos. Johannesburgo tinha perto de 400
mil habitantes. Na frica subsaariana, as populaes afluam para novos portos,
cidades mineiras e centros administrativos, que, em toda a regio, duplicavam de
volume de vinte em vinte anos. Na frica do norte, contavam-se algumas cidades
novas erguidas sobre antigas povoaes, cuja populao dobrava de trinta e cinco
em trinta e cinco anos. Em meio sculo, essas grandes cidades tinham agrupado
um total de aproximadamente 4 milhes de indivduos. O equilbrio regional
modificara-se de tal maneira que, nessas populaes urbanas globais, a proporo
de cidados norte-africanos cara de trs quartos para menos de trs quintos, a
do sul da frica passara de um quinto para um sexto, a da frica tropical de um
quinto para um quarto (dentro dos limites da frica tropical, excluindo a Nigria,
essa porcentagem tinha aumentado de um quarto para um tero).


      Bases para o futuro
   Por volta de 1935, a frica tinha superado vitoriosamente o trauma demo-
grfico provocado pela colonizao europeia. A taxa de natalidade ultrapassava
de longe a de mortalidade e, em vrias regies, sobretudo nas cidades em expan-
so, a vida se tornava menos precria. Evidentemente, as taxas de mortalidade
continuavam muito elevadas (para o conjunto da frica, a taxa de mortalidade
excedia claramente 30 por mil e a expectativa de vida ao nascer mal passava
dos 30 anos), mas foram as doenas tropicais, antes de qualquer outro fator,
que limitaram o afluxo de colonos e impediram a frica de transformar-se em
outra Amrica Latina. Mesmo assim, a populao branca do continente africano
multiplicou-se por 30: de 25 mil indivduos em 1800 (vivendo no Cabo, na sua
maioria) para 750 mil em 1880, dos quais cinco sextos na frica do Sul, na
Arglia e no Egito. Em 1935, o nmero quintuplicara de novo (3750 mil pes-
soas), a metade na frica do Sul, um quarto na Arglia e um quinto nos outros
pases do Maghreb. No mesmo perodo, os asiticos imigrados (quase exclusiva-
mente indianos, salvo pequenas comunidades de chineses, a mais importante das
quais situada no Rand) passaram de 50 mil para mais de 300 mil, dois teros dos
quais, pelo menos, fixaram-se na frica do Sul. A mudana estava acontecendo,
mas poucos a perceberam claramente, como se pode observar neste julgamento
de um europeu, sobre a diviso racial da populao da Arglia nos anos 1920:
As repercusses sociais da dominao colonial: aspectos demogrficos                565



    A maior parte dos franceses da frica j no deve recear que haja outro esforo
    srio para abalar a sua autoridade. De fato, como eles salientam, contam-se mais de
    800 mil europeus diante de 5,5 milhes de autctones, que esto desunidos e no
    poderiam seno provocar problemas espordicos106.
    Em 1935, a frica estava a ponto de decolar para a rpida expanso demo-
grfica. A populao global, que, segundo as estimativas, progredira de 120
milhes em 1880 para 165 milhes em 1935, passou para 200 milhes no
final dos anos 1940, alcanou os 300 milhes em meados da dcada de 1960
e, inevitavelmente, 400 milhes em meados de 1970. Deste total, 50 milhes
de africanos vivem em cidades com mais de 100 mil habitantes, o que deixa
definitivamente para trs a situao existente na frica da partilha em 1880,
poca do debate sobre a criao de mo de obra.
    Cabe perguntar se mudanas to considerveis foram ampla ou totalmente
consequncia da penetrao colonial. Sem dvida alguma, o abalo das popula-
es estveis  que provocou no Estado Livre do Congo e em outros lugares da
frica central um agravamento da taxa de mortalidade , a lenta reduo dos
bitos, constatada em outras regies do continente no decurso do sculo passado
e geralmente depois de 1900, bem como o acelerado afluxo populacional para
centros urbanos e regies mineiras resultam quase inteiramente da revoluo
industrial e dos crescentes contatos com as sociedades industrializadas. Grande
parte dessa transformao teria ocorrido mesmo sem a dominao colonial. Os
comerciantes teriam estimulado o desenvolvimento de centros comerciais. As
escolas de medicina europeias haveriam de interessar-se pelo problema da pro-
teo aos comerciantes, sobretudo contra as doenas tropicais. Os missionrios
teriam lanado os fundamentos de um sistema hospitalar.
    No entanto, a dominao colonial acelerou a evoluo. Em resumo, certa-
mente no final de nosso perodo, ela ajudou a reduzir os picos de mortalidade,
melhorando e desenvolvendo a importao e a aplicao das tcnicas moder-
nas de combate s epidemias, criando uma rede de transportes que permitiu
a distribuio de alimentos pelas zonas de escassez. A necessidade de centros
administrativos proporcionou os ncleos de novas cidades; as garantias dadas aos
europeus pelos poderes pblicos coloniais em matria de segurana das pessoas
e dos bens apressaram o desenvolvimento de estabelecimentos comerciais, minas
e plantaes. Sem a presena das administraes coloniais, os empresrios euro-
peus teriam se mostrado ainda mais vidos e mais cruis do que eram. Os euro-


106 CASSERLEY, 1923, p. 50.
566                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



peus costumam justificar a expanso colonial destacando essas realizaes. No
entanto, a histria da China e a da Amrica Latina provam que, cedo ou tarde,
a maior parte desses melhoramentos seria conseguida de qualquer forma.
   O avano da industrializao era irreversvel e o estabelecimento de um
modus vivendi com a frica e com as demais regies em desenvolvimento for-
necedoras de matrias-primas essenciais tornava-se inevitvel.
Repercusses sociais da dominao colonial: novas estruturas sociais     567



                                         CAPTULO 19


          Repercusses sociais da dominao
           colonial: novas estruturas sociais
                                   Adiele Eberechukuwu Afigbo




    A mudana e a continuidade
    Para as mitologias rivais do imperialismo europeu e do nacionalismo colonial,
mudana  uma inovao introduzida pela dominao europeia nas sociedades
ditas "tradicionais". Para os apologistas do imperialismo, aplicada aos povos
coloniais a mudana sugere progresso, transio linear, brusca e benfica de
uma cultura tradicional esttica e quase no-produtiva para um modernismo
dinmico e sem limites. Mas para os nacionalistas coloniais a palavra traz a
conotao de "dilaceramento", processo pelo qual imperialismos fechados a toda
e qualquer simpatia, a toda e qualquer compreenso, transtornam um universo
idlico para substitu-lo por tumulto, instabilidade e incerteza.
     parte essas divergncias, os dois grupos parecem concordar a respeito de
certo nmero de postulados relativos  mudana nas sociedades tradicionais sob
domnio colonial. Esses postulados abrangem a crena de que essas sociedades
so fundamentalmente estticas e, portanto, defasadas em relao aos valores
modernos, de onde resulta que as relaes naturais entre ambos s poderiam ser
conflitivas; a crena de que valores, atitudes e estruturas novos abalam necessa-
riamente seus equivalentes tradicionais ao primeiro contato e de que, em todas
as colnias e mesmo em todas as regies geogrficas, as sociedades tradicionais
reagiram de maneira uniforme ao impacto da cultura europeia.
568                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Recentemente, no entanto, os pesquisadores demonstraram que, no tocante
 frica, essas hipteses esto mal fundadas, pois as sociedades s quais potn-
cias europeias impuseram o seu direito estavam longe de ser estticas. Muito ao
contrrio, elas eram produto de geraes, quer dizer, de sculos ou de milnios
de evoluo. Na verdade, pode-se afirmar que "a modernizao da frica  um
processo contnuo, desde as origens". Elementos como a diviso do trabalho, a
urbanizao, a mobilidade social, ou seja, as migraes de mo de obra, habitual-
mente associadas  modernizao, j estavam em ao na frica pr-colonial.
    De resto, a polarizao "tradicional-moderno", com todas as implicaes
em termos de conflitos e de incompatibilidades, no pode aplicar-se a todo
o espectro das precrias transformaes da era colonial. As culturas africanas
desenvolveram toda uma gama de variadas reaes s inovaes ocidentais. No
apenas certos costumes e crenas foram rejeitados e modificados, como outros
foram conservados por algum segmento da sociedade, enquanto novas solues
se impunham a outro segmento.
    Por exemplo, ao mesmo tempo em que desapareciam os sacrifcios huma-
nos, o trfico de escravos e a morte de gmeos recm-nascidos nas sociedades
onde essa prtica existia, e novas e velhas ideias se amalgamavam no domnio
da religio, o ideal europeu da monogamia no casamento, aceito por uma par-
cela da elite ocidentalizada, coexistia e coexiste legalmente com a poligamia,
institucionalmente conservada entre as massas urbanas e rurais. Atualmente,
existem lado a lado tradies arquitetnicas indgenas e europeias; a etnicidade
e o nacionalismo locais; sistemas de autossuficincia local e regional e uma
economia monetria nacional; a vida rural e a vida urbana; as instituies buro-
crticas  moda ocidental e as tradicionais autoridades locais; escolas islmicas
e escolas ocidentais.
    Foi, portanto, sem dificuldade que muitas instituies e ideias africanas
autctones sobreviveram ao choque com valores europeus a elas estranhos,
quando no se fundiram a eles. Como exemplo, o caso dos Igbo, que  de regra
considerar inteiramente ocidentalizados. Segundo Sylvia Leith-Ross, nos anos
30 tanto praticavam a comunho como a magia e a medicina tradicionais, com
desconcertante facilidade: "No jardim que cerca a sua nova casa com teto de laje,
plantam lado a lado o hibisco da `civilizao' e o ogirisi, rvore dos ritos pagos
familiares"1. Margaret Read mostrou como os Nguni integravam a religio crist
e a educao ocidental em sua sociedade, empregando uma e outra para melhorar


1     LEITH-ROSS, 1939, p. 293.
Repercusses sociais da dominao colonial: novas estruturas sociais           569



as chances de sobrevivncia da sua cultura no mundo moderno. Eles no veem
nenhuma contradio, nem tm a menor dificuldade em combinar ritos cristos
e ritos tradicionais Nguni no casamento e nas cerimnias fnebres2. Por sua vez,
o professor Fallers fez a descrio de certos grupos sociais ugandeses aceitando,
"com entusiasmo e sucesso", muitos elementos da modernizao  limitando a
sua influncia e adaptando-os  cultura e  estrutura social tradicionais. De fato,
os africanos submetidos  dominao colonial estavam provavelmente cnscios
da noo elementar de que, aceitando "formas novas", s aumentariam a gama
de suas possibilidades3.
    Portanto, toda e qualquer generalizao fcil quanto s reaes das sociedades
africanas  influncia europeia corre o risco de gerar confuso. A tal respeito,
convm no perder jamais de vista a imensido do continente africano, a diver-
sidade e a variedade das sociedades africanas, dos temperamentos e da psicologia
dos indivduos e dos grupos, nem o fato de que mesmo as reaes a estmulos
semelhantes estavam sujeitas a mudar, no s de uma sociedade para outra, mas
at dentro da mesma sociedade. No tocante  Nigria, h o costume de chamar
a ateno para a diferena das reaes dos Igbo, dos Yoruba, e dos Haussa e dos
Peul  administrao indireta. No Qunia, os Gikuyu aceitaram as inovaes
ocidentais, embora modificadas  sua maneira, enquanto bom nmero de seus
vizinhos tendiam a adotar atitude oposta.
    , pois, de admitir que a mudana em si mesma no era desconhecida na
frica pr-colonial, no havendo sociedade africana que se mantivesse imper-
mevel  influncia europeia, ou que simplesmente estiolasse diante dela. O
que no impede reconhecer que foi sob o domnio colonial que a ideologia da
mudana veio a ser adotada pelos detentores do poder e seus pretensos amigos.
Mesmo os funcionrios coloniais, que eram ferrenhos partidrios da adminis-
trao indireta baseada na preservao das instituies e dos valores tradicionais,
admitiam contudo a necessidade de mudana. Com efeito, sob a administrao
indireta esperava-se que as instituies autctones e os chefes locais interme-
diassem a introduo de reformas limitadas, que no contrariavam os interesses
das autoridades coloniais. Cada administrao colonial via a mudana como
a nica possibilidade de modernizao da frica e de sua adaptao  rbita
do Ocidente, no interesse deste. As elites autctones patrocinavam a mudana
enquanto meio de pr a frica de p, fazendo-a participar do concerto das
naes.

2    READ, 1971, p. 362.
3    GUSFIELD, 1971, p. 19.
570                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



      As principais foras de mudana
     fcil traar o elenco das foras que mais contriburam para modificar a
estrutura e o carter da sociedade africana colonial. Houve a prpria conquista,
com suas implicaes polticas, a educao ocidental, o cristianismo ocidental,
as foras econmicas ocidentais e o desenvolvimento da urbanizao. A pene-
trao da maior parte dessas foras na frica (e, principalmente, a conquista
militar, a conquista poltica, sua consolidao e a explorao econmica), bem
como a forma como elas dominaram a vida social, j foram cuidadosamente
abordadas em outros captulos deste volume. Resta examinar, abreviadamente, a
urbanizao e a educao ocidental, antes de passar  anlise dos efeitos sociais
produzidos pela reunio de todos esses fatores.
    A propsito de urbanizao, cabe sublinhar que essa importante fora de
mudana no foi introduzida na frica pelos europeus. Muito ao contrrio, j
existia  oferecendo todo tipo de possibilidades de diviso do trabalho, aglome-
rao populacional, mobilidade social etc.  sculos antes da chegada do colo-
nialismo europeu. Nos litorais da frica do norte, da frica oriental, ocidental
e austral, bem como na zona interior constituda pela cintura sudanesa e pelo
pas Yoruba, formavam-se aglomeraes urbanas cada vez mais importantes,
graas  consolidao do seu sistema poltico e ao desenvolvimento do comrcio
internacional (ver fig. 19.1). Mas  inegvel que o domnio europeu deu novo
mpeto  urbanizao, no s criando novos centros urbanos em lugares onde
a urbanizao jamais existira, como as terras dos Igbo e dos Ibibio, na Nigria,
mas tambm expandindo os velhos centros. T-lo essencialmente pelo desen-
volvimento dos meios de comunicao e pela criao de novos centros polticos,
administrativos, comerciais, mineiros ou agrcolas. Assim, pode-se notar que,
entre 1850 e 1950, sculo crtico para o continente em razo dos contatos com
a Europa e da dominao estrangeira, a taxa anual de crescimento da populao
urbana da frica foi de 3,9%, em comparao com a mdia mundial de 2,6%.
Este fato nos esclarece sobre o ritmo da urbanizao em geral, na frica colo-
nial. Esse novo surto do desenvolvimento e da expanso urbanos resultou na
ampliao de sua funo catalisadora das transformaes sociais.
    Diferentemente da urbanizao, a educao ocidental foi levada para a frica
pelos europeus, mas no se propagou graas s instituies deles. Seria verda-
deiro afirmar que a revoluo educacional na frica foi obra de trs grupos
de interesse: as misses crists, os governos coloniais e as iniciativas africanas
locais, por ordem decrescente de importncia. Para as misses crists, a escola
                                                                                                                                                Repercusses sociais da dominao colonial: novas estruturas sociais
                                                                                                                                                571
figura 19.1   Vista geral de Lagos, Nigria, um dos principais portos da frica ocidental na poca colonial. (Fonte: Frank Cass and Co. Ltd.)
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era uma instituio-chave, j que esse era o mtodo mais eficaz de proselitismo
e de criao de congregaes capazes de se renovarem no objetivo de garantir
a sobrevivncia do cristianismo, aps a partida dos missionrios brancos. A
instruo e a evangelizao estavam de tal modo interligadas que, em muitas
regies da frica, um missionrio erguendo a sua tenda era sinnimo de criao
de uma escola. Parece mesmo que, entre os Nguni, a abertura de uma escola
precedia invariavelmente a abertura da igreja4.
    Os administradores coloniais, por sua vez, esperavam que a escola formasse o
pessoal de que necessitavam para preencher os escales inferiores da burocracia,
a fim de criar as condies polticas, econmicas, sociais e morais que permi-
tissem aos europeus explorar ao mximo possvel os recursos ainda to pouco
utilizados do continente. Para tanto, no se contentavam com a construo e
gesto de escolas essencialmente leigas: atravs de subvenes, tambm apoia-
vam o esforo educacional das misses. Alm disso, as estruturas polticas por
eles estabelecidas permitiam s misses penetrar no corao do continente, sem
recear pela segurana de seus agentes. As escolas oficiais leigas eram necessrias
principalmente para a extenso da educao ocidental a numerosas regies isla-
mizadas da frica, onde eram temidas violentas reaes muulmanas caso no
se concordasse em limitar a atividade missionria.
    No que se refere s iniciativas locais, cumpre notar que, bem antes do incio
da dominao colonial, os governos do Egito e dos Estados do Maghreb haviam
introduzido a educao ocidental no quadro de seus esforos para vencer o atraso
tcnico desses pases em relao  Europa. Na frica negra, as iniciativas locais
tambm desempenharam o seu papel no desenvolvimento da educao. A partir
dos anos 1920, movidos por um ideal nacionalista, alguns Gikuyu entregaram-se 
criao e administrao de escolas prprias que, ao contrrio das escolas mission-
rias, estavam abertas  cultura gikuyu. Em Uganda e no sul da Nigria, os dirigen-
tes locais e os ancios uniram seus esforos aos da administrao colonial ou das
misses para criar escolas. E tambm os membros da nova elite criaram e fizeram
funcionar escolas independentes da administrao colonial e das misses.
    Embora seja fcil enumerar as foras que contriburam para a mudana social
na frica colonial, identificar as modificaes trazidas por cada uma  bem mais
difcil. De fato, foi to profunda a influncia de cada uma dessas foras que seria
intil procurar saber, especificamente, qual fora produziu dada mudana.
    A conquista militar e o estabelecimento da administrao colonial, por exem-
plo, no s desafiaram e venceram os velhos dirigentes polticos e senhores da

4     READ, 1971. p. 359.
Repercusses sociais da dominao colonial: novas estruturas sociais            573



guerra, mas tambm os detentores de poderes religiosos e mgicos, que partici-
param igualmente da resistncia. Foi desse modo que a derrota diante das potn-
cias coloniais pde perfeitamente levar  perda de confiana nos sacerdotes e
deuses tradicionais, e  deciso de abraar a f dos vencedores, considerada supe-
rior. O xito dos conquistadores teve ainda outros efeitos secundrios. As velhas
castas militares, onde quer que existissem, j no podiam subsistir enquanto
tais no novo sistema. Os membros da elite poltica tradicional, que vivia de
seu poder, no podiam continuar assim, a menos que se engajassem no servio
poltico da colnia, como representantes do poder autctone sob o sistema de
administrao indireta, ou como cobradores de impostos e agentes de informa-
es sob o sistema da administrao dita "direta". Em outras palavras, muitos dos
membros das antigas elites polticas, militares, econmicas e religiosas tiveram
de procurar outro ofcio para substituir o antigo ou complement-lo. Assim, nem
todos quantos se aproveitaram das novas oportunidades econmicas oferecidas
pela dominao estrangeira o fizeram simplesmente em resposta aos atrativos
do novo regime econmico. Alguns dos que migraram para os novos centros
no o fizeram apenas por amor ao urbanismo, mas porque a conquista militar e
as estruturas polticas dela resultantes tornaram superada e insustentvel a sua
posio no meio rural. O triunfo da fora militar e poltica, portanto, atingiu a
sociedade nos seus fundamentos, exigindo ajustes das diferentes classes.
    Foi essa tambm a obra do cristianismo, que procurava abolir deuses e cren-
as tradicionais. E, onde quer que a religio crist lanasse razes, os sacerdotes
tradicionais e os outros manipuladores do sobrenatural tiveram de buscar outras
profisses. Os escravos ganharam a liberdade, forando aqueles que at ento
dependiam do trabalho servil a trabalhar pelas prprias mos ou a procurar
trabalhadores assalariados. Terras antes reservadas aos deuses e aos duendes
tornaram-se disponveis para a lavoura e para o estabelecimento de instituies
sociais, como escolas, hospitais etc. As jovens geraes foram para a escola ou
aprenderam novas tcnicas que as qualificavam para empregos na administra-
o, no comrcio ou nas misses. E, como a maior parte desses empregos era
oferecida nas cidades, a converso ao cristianismo podia, de fato, incitar a viver
nas zonas urbanizadas. Ou, para citar outro exemplo, algum podia partir para
uma cidade a fim de melhorar de situao, embora continuasse firmemente
ligado  religio tradicional. Com o tempo, no entanto, a separao fsica dos
lugares de culto e dos ritos religiosos da famlia, bem como as presses sociais
e psicolgicas do novo ambiente, acabavam por transformar o indivduo numa
espcie de cristo. Seria possvel multiplicar este tipo de exemplo.
574                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



      As novas estruturas sociais
    Entre as consequncias sociais da dominao estrangeira sobre as socieda-
des africanas, a mais imediatamente perceptvel era a consequncia poltica. Os
Estados africanos j existentes  com exceo da Libria e, at 1935, da Etipia
perderam boa parte de sua soberania e, consequentemente, o direito de participar
dos assuntos da comunidade mundial, a no ser por intermdio de seus novos
senhores. Mesmo o direito de se comunicar com os vizinhos africanos, salvo ao
nvel mais rudimentar e oficioso, ficava severamente limitado quando os vizinhos
se encontravam do outro lado da linha fronteiria de uma colnia. Desse modo, os
Efik da Nigria foram separados de seus mercados tradicionais em Camares, os
Yoruba viram-se impedidos de intervir direta e abertamente nos acontecimentos
verificados no Daom (atual Benin), outrora parte integrante de seu famoso imp-
rio, e os Bakongo de Angola no podiam mais manter contato com as populaes
que lhes eram aparentadas, tanto no Gabo como no Congo francs Alm disso,
a dominao estrangeira transformou e racionalizou o mapa poltico da frica.
Onde antigamente imbricavam-se inmeros Estados e comunidades soberanas,
com limites flutuantes e por vezes bastante tnues, passou a haver apenas algu-
mas dezenas de colnias com fronteiras fixas e bem delimitadas. Em convenes
e tratados internacionais sobre fronteiras, tentou-se levar em considerao as
zonas polticas preexistentes. No entanto, outras consideraes, como as pretenses
de potncias rivais, a miragem das fronteiras naturais (montanhas, rios etc.), os
meridianos e paralelos, sobrepujaram as aspiraes africanas. O resultado foi que
populaes estreitamente aparentadas e antes unidas no plano poltico acabaram
por vezes separadas pela fronteira estabelecida.
    Como os critrios mais constantes de integridade tnica nem sempre eram
respeitados, muito menos o foram as efmeras pretenses dos Estados e imp-
rios conquistadores  integridade territorial. O califado de Sokoto e o imprio
de Bornu perderam vastos territrios antes da fixao das fronteiras da colnia
e do protetorado da Nigria. J os "imprios peripatticos" de Samori Tour e de
Rabi ibn Fadlallah foram simplesmente repartidos entre as colnias adjacentes.
Da mesma forma, os belgas, os portugueses e os britnicos repartiram entre si
o territrio dos imprios secundrios de Msiri e Tippu Tib na frica central.
As fronteiras impostas s colnias cristalizaram-se sob a mo de ferro dos ocu-
pantes e do direito internacional, convertendo-se nas fronteiras dos Estados
africanos independentes. Hoje,  impossvel projetar modificaes importantes
em qualquer uma delas sem suscitar demonstraes de resistncia.
Repercusses sociais da dominao colonial: novas estruturas sociais          575



   H que mencionar outro aspecto da nova estrutura poltica: a imposio da
nova administrao burocrtica europeia, estranha aos sistemas polticos afri-
canos preexistentes. Entre as duas estruturas, a europeia e a africana, havia toda
uma variedade de tipos de relaes. Se consideramos, por exemplo, a poltica das
duas principais potncias coloniais da poca (o Reino Unido e a Frana), per-
cebemos que havia diferenas at mesmo dentro de cada sistema. Os franceses
davam menos ateno do que os britnicos  integridade dos imprios, reinos e
sobados por eles conquistados e  utilizao desses sistemas polticos autctones
na administrao local. Inclinavam-se, portanto, a extinguir as antigas susera-
nias, obrigando seus dirigentes  aposentadoria. Quanto aos ingleses, tentaram
cooptar os chefes locais e seu sistema poltico para a administrao imperial. Era
este o modelo geral. Mas, no Marrocos, os franceses esforaram-se por manter
a monarquia e todo o seu edifcio poltico, a fim de aproveitar uma e outro na
administrao do pas, enquanto, durante trs dcadas no pas dos Ashanti da
Costa do Ouro (atual Gana) e quase vinte anos em Benin (Nigria), os ingleses
procuraram destruir os sistemas administrativos autctones5.
   Apesar de tudo, verificamos que, salvo provavelmente nos emirados muulma-
nos do norte da Nigria, a unio dos sistemas administrativos europeus e autcto-
nes jamais foi orgnica, de modo que, em certos domnios da vida de uma colnia,
os dois sistemas podiam muito bem funcionar harmonizadamente, ao passo que
em outros agiam com independncia e, por vezes, com objetivos contrrios.
   Outro efeito do domnio estrangeiro que se tornou sensvel desde os primr-
dios da poca colonial foi o rebaixamento geral da condio dos africanos. O
colonialismo sobreps,  estrutura social preexistente, pelo menos uma camada
suplementar de dirigentes e de chefes. Na frica oriental, ao favorecer a imi-
grao asitica, sobreps de fato duas classes. Em todas as colnias, os europeus
tinham o monoplio do poder poltico, econmico e educativo, menos na frica
oriental, onde uma frao do poder econmico caiu em mos dos asiticos. Nes-
sas condies, os africanos se proletarizaram, procurando exemplo e proteo
junto dos europeus e, s vezes, dos asiticos.
   Esta estrutura de relaes sociais apoiava-se em uma teoria racial que procu-
rava dividir as diversas ramificaes da famlia humana por ordem hierrquica
de civilizao, ocupando os africanos (negros) a base inferior da escala e os
europeus (brancos) o pice. Principalmente na frica austral, onde os colo-
nos brancos viviam em conflito com os Bantu, superiores em nmero, a teoria


5    AFIGBO, 1974.
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racial era particularmente rigorosa, abonada pela autoridade da Santa Bblia,
que reforava as presumidas implicaes sociais de um pseudodarwinismo. No
tocante aos negros, sobretudo, a teoria supunha um grau de incultura que tor-
nava necessria e possvel a explicao de sua evoluo histrica e social em
termos de influncias "camitas".
    Na prtica, o peso dessa teoria racista conduziu a uma poltica que negava ao
africano, fosse qual fosse sua educao, a igualdade de direitos com os brancos na
administrao colonial. Na frica ocidental, ela marcou um recuo em relao 
prtica liberal de meados do sculo XIX, que permitira aos africanos preencher
funes equivalentes s dos europeus. A teoria tambm levou  adoo de uma
poltica de segregao dos africanos e dos europeus, nas reas urbanas. Havia
no somente bairros reservados aos europeus, mas tambm hospitais europeus,
clubes europeus etc., diferentes daqueles criados especialmente para os africanos.
Isso foi responsvel por incutir nos africanos um sentimento de inferioridade,
uma tendncia a perder a confiana em si mesmos e em seu futuro, ou seja, um
estado de esprito que frequentemente favorecia a imitao pura e simples dos
costumes europeus. Felizmente, alguns bandeirantes do africanismo irritaram-se
tanto com tal estado de coisas que acabaram por contestar toda a fachada social
e ideolgica do colonialismo, com base em fatos histricos e religiosos. Desse
modo abriram a via ao pensamento nacionalista radical do perodo posterior 
Segunda Guerra Mundial.
    De maneira geral, o domnio colonial na frica tendia a transformar as
distines raciais em categorias sociais. No entanto, uma anlise mais profunda
revela que em colnia nenhuma os africanos constituam uma nica classe. No
incio, a estrutura social pr-colonial perdurou, mas, com o tempo, as novas
foras remodelaram essa estrutura, fazendo surgir novas classes.
    Muito embora a frica pr-colonial oferecesse inmeras possibilidades s
pessoas de mrito, desejosas de subir na escala social por aes individuais, a
estrutura de classe tendia a dar um peso excessivo ao nascimento. Era assim,
na medida em que certas profisses de prestgio, como a de sacerdotes e a de
ferreiro, eram hereditrias. O domnio estrangeiro haveria de operar mudanas
plenas de consequncias nas estruturas sociais africanas, ao privilegiar o mrito
individual antes que o nascimento e ao oferecer possibilidades de progresso que
escapavam ao controle de quem detinha as rdeas da sociedade e das estruturas
tradicionais. Alm disso, ao dessacralizar inmeras instituies e costumes afri-
canos, tendia a minar a autoridade e o respeito impostos pela velha aristocracia,
bem como a reverncia que ela inspirava. Ao abolir a escravido e proclamar a
igualdade de todos perante a lei secular e divina, os cdigos jurdicos e morais
Repercusses sociais da dominao colonial: novas estruturas sociais          577



dos colonizadores ofereciam, at mesmo aos menos favorecidos da sociedade
tradicional, a oportunidade de subir na escala social, segundo a capacidade
individual e o acaso da sorte.
    O anonimato das cidades aumentava os efeitos desta revoluo legal e moral,
pois abria aos antigos escravos e a outros prias a possibilidade de poderem
trabalhar, livres do fardo da histria. Pelas mesmas razes, os centros urbanos
exerciam e ainda exercem atrao irresistvel sobre outras categorias de pessoas
provenientes das regies rurais. Enquanto algumas procuravam encontrar a
sorte nas cidades por iniciativa prpria, outras rumaram para l obrigadas pela
poltica fiscal e fundiria aplicada pelos colonizadores nas zonas rurais, princi-
palmente naquelas povoadas por colonos. Os migrantes que tinham instruo ou
boa qualificao profissional rapidamente ascendiam ao nvel da nova elite, ou
ento formavam "subelites" em torno dela. Os menos favorecidos, os que pouca
ou nenhuma instruo e qualificao tinham, mergulhavam nas profundezas
da sociedade citadina para formar as massas urbanas ou, como dizem certos
pesquisadores, o proletariado urbano. Muitos deles viviam  merc dos patres,
enquanto outros aprendiam alguma profisso e fundavam empresas independen-
tes, de rentabilidade varivel. Diferiam dos camponeses, seus correspondentes
rurais, em que no extraam da terra os meios de subsistncia, eram mais sens-
veis s influncias modernas e viviam em favelas.
    Tanto a nova elite como o proletariado urbano desempenharam importante
papel enquanto agentes de transformao da sociedade rural, mas aquela foi
incontestavelmente mais influente na histria poltica, econmica e social da
frica colonial. Sua principal superioridade sobre a elite tradicional e sobre
as massas urbanas e rurais estava na alfabetizao (ver fig. 19.2). O fato  que
nas regies no-islamizadas da frica a inovao mais importante introduzida
pela dominao estrangeira foi a alfabetizao. Mesmo nas regies muulma-
nas, a introduo do alfabeto latino deu novo impulso ao ensino religioso. Para
muitos povos africanos, a alfabetizao foi uma nova mstica, muito procurada
por si mesma e a todo preo, j que parecia abrir caminho para as riquezas do
mundo moderno. Quando se conhecem o poder, a autoridade e a influncia que
a primeira gerao de empregados, intrpretes e professores indgenas exerceu,
podemos fazer ideia da mgica atrao que a palavra escrita teve para tantos
africanos. De imediato, as elites tiveram acesso ao pensamento cientfico e social
do mundo europeu e puderam comear a dialogar com as potncias coloniais
sobre o destino da frica, a se familiarizar com os modos sociais da Europa, o
que fez do estilo de vida dessas elites um exemplo a ser seguido pelos compa-
triotas menos afortunados.
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figura 19.2   Escola secundria CMS de Mengo, Uganda: em busca do saber. (Foto: Royal Coommonwealth Society.)
Repercusses sociais da dominao colonial: novas estruturas sociais             579



    No entanto, nem todos os que eram considerados membros da nova elite
da frica colonial deviam tal condio  sua instruo, e nem todos os que a
deviam  instruo atingiam o mesmo nvel. Conforme demonstraram a pro-
fessora Lucy Mair e vrios outros pesquisadores, alguns penetraram nessa classe
porque enriqueceram na agricultura ou nos negcios de grande escala e pude-
ram contribuir para o financiamento da atividade poltica de seus irmos mais
cultos, porm menos ricos6. Alguns plantadores de algodo e caf em Uganda,
de cacau na Nigria ocidental e na Costa do Ouro, de caf na Costa do Mar-
fim ou de amendoim no Senegal e em Gmbia, lograram entrar para a nova
elite graas ao xito profissional. Da mesma forma, principalmente na frica
ocidental, onde muitos africanos de instruo precria conseguiram impor-se
como intermedirios entre os produtores primrios e as grandes companhias
comerciais europeias, a prosperidade comercial abria facilmente o acesso a uma
situao privilegiada. Outros, ainda, chegaram a pertencer  elite porque diri-
giam organizaes de massa, como sindicatos, podendo garantir aos elementos
mais cultos o tipo de apoio de que necessitavam para convencer os colonizadores
de estarem representando o povo. Na frica oriental e central, ao contrrio, o
nmero de africanos que chegou a penetrar na elite foi relativamente baixo, em
razo de uma poltica deliberada das potncias coloniais e devido s atividades
dos indianos e dos pequenos comerciantes portugueses e gregos. De fato, em
muitas dessas regies assistiu-se ao desaparecimento quase total das elites tra-
dicionais dos centros urbanos.
    Foi de certo modo devido a essa grande diversidade de qualificaes e de
origens que se tornou difcil definir, com preciso, a nova elite da frica colonial.
Portanto podemos afirmar com alguma razo que o problema do surgimento de
uma nova classe em qualquer povo africano da poca colonial era, em grande
medida, questo de saber que nvel e que espcie de possibilidades educacionais
e econmicas eram oferecidos s pessoas e at que ponto essas pessoas os uti-
lizavam com eficincia. Todos os estudos at agora realizados sugerem que as
regies ou colnias que assistiram aos esforos mais intensivos para a difuso
da educao ocidental e que ofereceram aos africanos maiores facilidades de
participao no comrcio e na agricultura industrial forneceram o maior nmero
de membros da elite.
    Em certas regies da frica, especialmente entre os povos que  como os
Igbo, Ibibio, Ogoja, Tiv, Idoma, Birom, Anga e Gwari da Nigria  no tinham


6    MAIR, 1971; LLOYD (org.), 1966; KILSON, 1970.
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figura 19.3   Jogo de crquete na colnia: a formao da nova elite. (Foto: Royal Commonwealth Society.)
Repercusses sociais da dominao colonial: novas estruturas sociais             581



chefes e onde era, por isso, difcil identificar os chefes tradicionais e associ-los
 obra do governo colonial, boa parte dos membros da nova elite provinha da
classe considerada plebeia antes da colonizao (ver fig. 19.3). Alguns provi-
nham at da classe servil e de migrantes ainda no-assimilados. Os membros
dessas classes foram efetivamente os primeiros a adotar a educao ocidental,
a experimentar novas profisses e a emigrar para as cidades, enquanto, no seu
conjunto, a elite tradicional mantinha-se em reserva. Mas, logo que os benefcios
da educao e das novas atividades tornaram-se evidentes, os membros da elite
tradicional juntaram-se ao movimento. Algumas potncias coloniais, especial-
mente a Frana e o Reino Unido, tratavam deliberadamente de encorajar esta
classe, com mais ou menos xito, criando escolas especialmente planejadas para
ela, digamos. Com a riqueza obtida de suas terras ou com a remunerao que
recebiam como autoridades locais, em geral essas elites tinham condies de
mandar educar os filhos no s nos estabelecimentos locais, mas em instituies
de primeira ordem da Europa e da Amrica.
    No entanto, em certos lugares da frica, a elite tradicional reagiu imedia-
tamente ao apelo da educao ocidental e das empresas comerciais modernas.
Foi essa classe que, no Egito, tomou a iniciativa de criar instituies do tipo
ocidental. Em Buganda, foi tambm ela que logo reconheceu as vantagens da
educao ocidental e da agricultura comercial. Na Etipia, acolheu-a da mesma
forma, enviando seus filhos para estudar na Europa e nos Estados Unidos. Dessa
maneira conseguiu conservar a direo dos negcios do pas.
    Como a nova elite contava, nas suas fileiras, homens sados de diferentes
classes da sociedade,  difcil falar simplesmente em conflito entre os "homens
novos" e os dirigentes tradicionais. Em Serra Leoa e na Libria, onde, durante
boa parte do perodo considerado, a nova classe constituiu-se de pessoas que
no eram originrias desses territrios, as elites da costa tendiam  o que  com-
preensvel  a entrar em conflito e a rivalizar com as sociedades tradicionais do
interior. Estavam inclinadas a menosprezar os chefes, que, por sua vez, votavam
a elas uma desconfiana persistente. Na Costa do Ouro do sculo XIX e no pas
dos Yoruba (Nigria), muitos dos fundadores da nova elite eram, ou pelo menos
acreditavam ser, aparentados com as populaes do interior (ver fig. 19.4).
    Em outros lugares, onde a primeira gerao da elite no inclua repatriados,
como os escravos libertos dos navios negreiros ou regressados das Amricas,
os laos tnicos e culturais eram ainda mais estreitos. Decorreu da que, em
todo o sculo XIX e mesmo no incio do XX, nova e velha elites lanaram
uma tradio de cooperao  sendo a nova considerada a mediadora entre as
sociedades autctones e a cultura ocidental. Afinal de contas, aqueles jovens
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figura 19.4   Festa na casa do governador de Lagos: a nova elite e os administradores coloniais. (Foto: Royal Commonwealth Society.)
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haviam sido enviados  escola para aprender novas tcnicas, a fim de permitir
aos seus enfrentar os problemas colocados pela presena europeia. Na Costa do
Ouro e no pas dos Egba (Nigria) trabalharam conjuntamente com a antiga
elite para construir uma nova sociedade e afastar a dominao europeia, mas
fracassaram.
    No entanto,  medida que a autoridade colonial lanava razes mais fundas,
surgiram tenses e choques entre os dois grupos. A nova elite esperava, equi-
vocadamente, que a Europa se propusesse a modernizar a frica e escolhesse
dentre ela os auxiliares para a execuo dessa tarefa. Sob a dominao colonial,
contudo, foram as burocracias europeia que assumiram o papel para o qual a
nova elite se havia preparado e, em vez de associ-la, a administrao voltou-se
de preferncia para os dirigentes tradicionais, mantendo-os restritos aos assuntos
locais. Foi esse, em especial, o caso na frica sob dominao britnica, onde
se notava um esforo deliberado para conservar as antigas famlias dirigentes,
tambm como  em certa medida  na frica belga depois de 1906. Mesmo nos
territrios franceses onde as grandes suseranias foram abolidas, as velhas famlias
dirigentes sobreviveram aqui e ali, com uma posio diminuda,  escala da aldeia
ou da circunscrio; e, ao nvel local, onde eram utilizados homens despidos de
hierarquia tradicional, era comum conferir-lhes o ttulo de "chefe" e o mesmo
gnero de funes que aos membros das famlias dirigentes tradicionais.
    Em consequncia da sua excluso, a nova elite rebelou-se abertamente contra
as potncias tradicionais. A essa oposio declarada, os dirigentes tradicionais
no podiam aderir. O prolongamento da sua sobrevivncia dependia da potn-
cia colonial, o que lhes amarrava as mos. Alm disso, a grande parte de seus
membros faltavam as bases de instruo necessrias para participar do debate,
com alguma possibilidade de serem entendidos. De resto, se aceitassem os argu-
mentos da nova classe, estariam relegando-se, eles prprios, ao segundo ou ao
terceiro lugar. Como no se alinhavam com os jovens lobos, estes passaram a
consider-los lacaios do imperialismo, enquanto eles passaram a acusar os jovens
de sentimentos revolucionrios, censurando-os por quererem destruir costumes
imemoriais e virar o mundo de pernas para o ar.
    A propaganda imperialista incitava uma e outra elites a disputarem o direito
de falar em nome do povo. Os jovens o tinham como certo; os antigos os con-
testavam e reclamavam para si esse direito. A administrao colonial concordava
com estes ltimos. Tem-se uma ideia da acrimnia que tais confrontos provo-
cavam atentando para a disputa que ops, nos anos 1920, Nana Sir Ofori Atta,
chefe de Akyem-Abuakwa, na Costa do Ouro, aos dirigentes do Congresso
Nacional da frica Ocidental Britnica. A mesma acrimnia se verificava, na
584                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



mesma poca, nos debates entre a Associao dos Jovens Gikuyu, de Harry
Thuku, e a Associao dos Gikuyu, dominada pelos chefes tradicionais7.
    Todavia, no se pode concluir do que a fica que as relaes normais entre a
nova e a antiga elites, no perodo 1880-1935, tenham sempre assumido o carter
de conflito. A natureza dessas relaes dependia do lugar e da poca. Nos terri-
trios franceses, nem a nova nem a velha elite floresceram sob o domnio estran-
geiro e, quando o n da autocracia colonial, aps a Segunda Guerra Mundial,
comeou pouco a pouco a afrouxar, entre as fileiras de dirigentes nacionalistas
da frica francesa havia chefes tradicionais e descendentes de chefes.
    Na Costa do Ouro, o partido poltico dominante at a ascenso do sr. Kwame
Nkrumah  a United Gold Coast Convention  representava uma espcie de
aproximao entre as elites novas e as tradicionais. Em lugares como a Etipia,
o Egito e Buganda, onde os dirigentes tradicionais tinham respondido de modo
positivo s influncias ocidentais, no havia razes para que algum conflito
os separasse da nova elite. O mesmo se dava em sociedades como a dos Igbo,
onde a elite tradicional no tinha estatura suficiente para resistir por muito
tempo ao regime colonial. Em todos os casos, a nova elite no contava somente
os "indgenas desenraizados" da mitologia imperialista, como nem todos os
dirigentes tradicionais eram os adversrios obscurantistas do progresso como
a demagogia nacionalista mais tarde os estigmatizou. Os dois grupos tinham
mais elementos em comum do que desejavam admitir, no efmero calor dos
debates intermitentes.


      Ascenso de novas organizaes
    Alm de delinear as novas estruturas que at agora vimos, o sistema colonial
introduziu diversas mudanas na estrutura da sociedade africana. Estamos nos
referindo  criao de novas organizaes, as quais ajudaram muita gente e o
meio rural a se ajustar s exigncias e s normas da sociedade colonial. Os soci-
logos viram a organizaes "voluntrias", coisa que elas foram, no sentido de
que os participantes de modo algum "nasceram" nelas, tal como se nasce numa
linhagem, numa aldeia ou num grupo tnico. Uma anlise mais detida mostra-
ria que, no caso de algumas delas, especialmente das associaes baseadas em
etnias e na busca do bem-estar e do progresso, esse carter voluntrio no  to



7     KIMBLE, 1963, p. 389-96; KING, K. J., 1971b.
Repercusses sociais da dominao colonial: novas estruturas sociais              585



evidente, j que quem se recusasse a pertencer a elas teria de enfrentar algum
tipo de ostracismo.
    Os africanistas esto de acordo sobre as condies sociais que provocaram
o nascimento dessas organizaes. Parece que elas geralmente tiveram origem
nos novos centros urbanos, se bem que outras  aquelas baseadas nas etnias, por
exemplo  tenham acabado por estabelecer vnculos locais. O fato  que, como
observou com justeza o professor Wallerstein, a migrao das "zonas rurais
tradicionais para os setores urbanos modernos" conduziu ao "deslocamento e
 desorientao do indivduo8. Dado que nem a sociedade tradicional nem a
administrao colonial estavam em condies de intervir para atender s novas
necessidades desses migrantes, eles tiveram de elaborar as suas prprias insti-
tuies, sistemas e normas, com vistas a emprestar sentido  sua existncia no
estranho e febril ambiente social da cidade.
    Os estudos de Gordon Wilson sobre a frica oriental destacaram uma cor-
relao evidente entre as presses da sociedade colonial e a formao dessas
organizaes. Assim, os africanos do Qunia, cuja cultura tradicional se ressentia
da opresso particularmente severa do sistema colonial e da agressividade dos
colonos, dispunham de associaes tnicas mais numerosas e mais slidas do
que os africanos dos territrios vizinhos, como Tanznia e Uganda. Por conse-
guinte, foi em parte  necessidade de autoproteo e de autoestabilizao que a
formao das associaes de voluntrios respondeu. Alm disso, as condies da
existncia urbana facilitavam a formao dessas organizaes, j que, segundo
Thomas Hodgkin, ofereciam "centros onde homens e mulheres com interesses
particulares em comum podiam se encontrar e compreender"9.
    Muito embora se tenha salientado, e com razo, que  difcil classificar as
diferentes organizaes em categorias perfeitamente delimitadas, especialmente
em virtude da pluralidade de suas atribuies, vamos divid-las em trs grupos.
    No primeiro grupo esto as organizaes de carter puramente "social", cujas
atividades so consagradas  camaradagem e  distrao. Resultavam da ausncia,
nas aldeias, de ocasies tradicionais de diverso, recreao, formao cvica  como
as mascaradas, as associaes por faixas etrias e as festividades tradicionais. A se
fazia sentir, igualmente, a atrao pelos diferentes modos da vida social europeia
moderna, tal como a praticavam, em cada colnia, as comunidades europeias.
Nessa categoria incluem-se os clubes de futebol, os grupos de escoteiros e de
moas guias, as sociedades de debates e as associaes de ex-alunos.

8    WALLERSTEIN, 1970, p. 319.
9    HODGKIN, 1956, p. 84.
586                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



    No segundo grupo entram as associaes tnicas, que consistiam em pro-
longamento urbano da etnicidade rural. Estavam hierarquizadas: associaes
de aldeia, de cl, de etnia. Tinham duas tarefas principais. Uma era ajudar os
recm-chegados, permitindo-lhes adaptar-se  cidade com um mnimo de cho-
ques. Assim, ao primeiro contato com a urbe, o migrante novo encontrava, desde
logo, membros de sua associao de aldeia ou de cl, que o ajudavam a encontrar
moradia, o apresentavam a quem estava procurando empregados ou a oficiais
que lhe ensinavam o seu ofcio em tcnicas modernas. Tambm o ensinavam
a se comportar na cidade. Era  sua associao que a pessoa recorria em caso
de dificuldade. Os membros obtinham a emprstimos que os ajudavam a dar
andamento s suas atividades quando estas eram comprometidas com prejuzos
srios. Funerais, casamento e outras despesas aprovadas pela associao tambm
podiam motivar emprstimos ou, conforme o caso, davam lugar a donativos do
grupo10. A outra funo dos grupos tnicos consistia em "servir de canal para
uma informao destinada  opinio esclarecida da aldeia", principalmente man-
tendo os laos entre os naturais da aldeia que permaneciam nas suas terras e os
aldees emigrados. Para isso, importava que estes continuassem interessados no
crescimento social e poltico de seus lares, o que, no incio, valeu a essas associa-
es a hostilidade e a oposio de desconfiados funcionrios europeus. Todavia,
com o passar do tempo, eles reconheceram a utilidade e as possibilidades dessas
organizaes e no tardaram a consult-las sobre questes como imposto, edu-
cao e desenvolvimento comunitrio.
    No terceiro grupo, classificamos os sindicatos, constitudos em grande parte
em funo de negociaes econmicas coletivas. Na sua maioria, os centros
urbanos se desenvolveram em pontos vitais, como comrcio, minerao e comu-
nicaes, que ofereciam possibilidades de emprego a trabalhadores qualificados
e no-qualificados. Nessas cidades no tardaram a formar-se concentraes de
operrios que viviam de salrio. A esses homens, especialmente aqueles que
comeavam pelo degrau inferior da escala, costumam os analistas de tendncia
marxista considerar  impropriamente  como proletrios. Alm daqueles que
dependiam das sociedades de minerao, das misses etc., havia tambm artfi-
ces autnomos, que atendiam a certas necessidades da populao urbana.
    A vida da populao da cidade estava ligada s flutuaes da economia mun-
dial e de seus mercados, dos quais ela no compreendia nem a trama nem o
comportamento. Para se defender nesse mundo econmico estranho, os assala-

10    Ver a excelente anlise da criao e do funcionamento de uma associao de voluntrios do tipo tnico
      em BANTON, 1966, p. 402-19.
Repercusses sociais da dominao colonial: novas estruturas sociais                587



riados e os funcionrios constituram sindicatos, a fim de negociar eficazmente
com os empregadores as bases de um melhor salrio e de melhores condies
de trabalho. Os artfices autnomos formaram corporaes que fixavam preos
e estabeleciam normas, condies de aprendizagem etc. Sindicatos e corpora-
es cumpriam tambm as funes de sociedades de ajuda mtua  acorrendo
em auxlio dos membros necessitados de dinheiro ou de conselhos, cuidando
de providenciar funerais decentes, encontrar facilidades de educao, bolsas de
estudo e festas do calendrio.
    O perodo 1880-1935 assistiu ao nascimento dessas novas organizaes.
Segundo o professor Kilson, a partir de 1937 existia todo tipo de associaes
de comerciantes e de trabalhadores na Nigria, em Serra Leoa, no Qunia e
outros lugares. Mas o estudo dele mesmo e o de outros  como o do professor
Kimble sobre Gana, do professor Yesufu e do sr. Ananaba sobre a Nigria, de
V. Thompson e R. Adloff sobre a frica Equatorial Francesa, de R. H. Bates
sobre Zmbia  mostram claramente que a idade de ouro dessas organizaes
aconteceu somente depois da Segunda Guerra Mundial11.
    No faltavam razes para tanto. As associaes dependiam, at certo ponto,
da propagao do ensino, cujos efeitos levavam certo tempo para se manifestar,
como os da urbanizao. Para alm da costa da frica ocidental, do Maghreb,
do Egito e do Qunia, levaram em geral mais de trinta anos. Em compensa-
o, na frica do Sul, onde as condies poderiam ser consideradas ideais em
consequncia da precocidade da revoluo da indstria e das comunicaes, a
crescente violncia do nacionalismo ber e a oposio dos outros brancos sufo-
caram a iniciativa africana. A expanso das associaes dependia tambm, em
parte, do desenvolvimento da economia capitalista, mas a frica colonial no
teria conhecido seno uma "economia capitalista rudimentar", substancialmente
dependente de trabalhadores migrantes  tipo de trabalhadores que, segundo
se diz, eram refratrios  organizao em sindicatos. Alm do mais, na poca
os assalariados ainda eram poucos. Nos anos 1950, calculava-se que somavam
quatro ou cinco milhes. Finalmente, havia numerosas proibies editadas pelos
regimes coloniais, autocrticos e exploradores, os quais, na maior parte, no
reconheceram oficialmente os sindicatos antes do fim dos anos 1930 ou incio
dos anos 1940.
    Conforme ficou dito antes, os efeitos sociais da dominao estrangeira esta-
vam longe de ser uniformes de um extremo a outro do continente. No que res-

11   Ver, por exemplo, KILSON, 1970; KIMBLE, 1963; YESUFU, 1962; ANANABA, 1969; THOMPSON
     e ADLOFF, 1960; BATES, R. H., 1971.
588                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



peita  difuso do ensino, ao triunfo das novas foras econmicas,  extenso da
urbanizao e, portanto,  emergncia da nova elite, pode-se dizer que a frica
ocidental experimentou o maior progresso, seguida pelo Egito e Maghreb, frica
do Sul, frica oriental e frica central. Porm, se estabelecermos essa compara-
o tomando os blocos coloniais e no as regies geogrficas, ser possvel per-
ceber que a maior evoluo se deu nos territrios britnicos, em segundo lugar
nas colnias francesas e portuguesas, ficando muito atrs o Congo Belga (atual
Zaire). Mas entre os prprios territrios britnicos tambm havia desigualdade:
os territrios onde as transformaes foram mais substanciais eram Egito, Costa
do Ouro (atual Gana), Nigria, Uganda e Serra Leoa, seguidos pelo Qunia e
as duas Rodsias (atuais Zmbia e Zimbbue).
    Se considerssemos as colnias separadamente, teramos a impresso de que
o sul da Costa do Ouro e da Nigria evoluam mais depressa do que o norte.
Por outro lado, na frica de lngua francesa, os territrios da frica ocidental
vinham em primeiro lugar, seguidos pela frica do norte e depois pela frica
Equatorial Francesa. No interior da frica Ocidental Francesa, o Senegal e o
Daom estavam  frente e as outras colnias acusavam certo atraso.
    O fato  que a expanso e os efeitos das foras de evoluo eram determi-
nados por tantos fatores que nenhum governo colonial ou grupo africano seria
capaz de domin-los por completo. Primeiro fator: a extenso e a profundidade
do contato com a Europa, de que se beneficiara o territrio ou o conjunto geo-
grfico considerado, antes da colonizao. A frica ocidental e a frica austral
tinham mantido contato bastante regular com a Europa desde o sculo XVI.
Assim, l pelo comeo do sculo XIX, j estavam estabelecidas condies de vida
quase urbanas em diversos pontos dessa costa  So Lus, Banjul, Acra, Lagos,
os portos fluviais Oil River, Luanda e Cabo. Eram bons canais para a difuso da
educao ocidental, do cristianismo e do comrcio europeu rumo ao interior. Em
compensao, a costa oriental no manteve contato permanente com a Europa
seno da dcada de 1870 em diante.
    Esta distncia no tempo  importante para esclarecer a diferena entre os
efeitos gerados pelas foras de mudana nas diversas regies e pases da frica.
No sculo XIX, o perodo que precedeu a instaurao do domnio europeu foi
a fase mais liberal das relaes entre a Europa e a frica. Entre a abolio da
escravatura e a imposio do colonialismo, a Europa estava, afinal de contas,
disposta a encorajar a emergncia de um grupo de africanos prontos a cooperar
com ela na obra de "civilizao" do continente. Isso equivalia a estimular a ini-
ciativa africana no ensino e no comrcio. Em consequncia, a frica ocidental
ganhou muito com a aplicao dessa poltica.
Repercusses sociais da dominao colonial: novas estruturas sociais          589



    Mas a imposio do domnio colonial e a concomitante aplicao de polticas
raciais nada liberais, opuseram todos os gneros de obstculos contra a parti-
cipao dos africanos no ensino e no comrcio. As regies em que a poltica
liberal no estava firmemente implantada desde antes do advento do domnio
estrangeiro viram-se, portanto, bastante desfavorecidas. As potncias coloniais
desconfiavam da nova elite africana e procuravam limitar-lhe o crescimento fre-
ando o desenvolvimento das escolas: os que chegavam eram desencorajados de
conseguir o diploma, negando-se-lhes trabalho  altura de sua competncia na
administrao colonial. A liberdade de participar das novas empresas comerciais
tambm lhes foi reduzida ao mnimo.
    A presena ou a ausncia de colonos brancos  igualmente importante para
explicar o desigual impacto das foras de evoluo. Na frica ocidental, havia
poucos colonos europeus, o que at certo ponto explica a rapidez dos progressos
realizados pelos africanos ocidentais em matria de educao e de economia,
mas eles constituam multido na Arglia, no Qunia, nas Rodsias e na frica
do Sul. No Congo Belga, onde havia menos colonos europeus, o reinado das
companhias era to pouco liberal e to debilitante quanto a influncia dos colo-
nos. Os interesses dos colonos europeus chocavam-se com os dos africanos, e
eles usavam a sua influncia sobre a administrao colonial para dificultar ou
reduzir a zero o desenvolvimento africano.
    Finalmente, cumpre explicar a diversidade das reaes africanas s influncias
estrangeiras. Na Nigria, os Igbo se ocidentalizaram com entusiasmo bem maior
que os Peul. No Qunia, os Gikuyu compreenderam as vantagens da educao
ocidental muito antes de seus vizinhos. O conservadorismo e a resistncia da
cultura islmica contriburam para frear o desenvolvimento da influncia oci-
dental, principalmente no oeste do Sudo, mas, na frica do norte e no Egito,
uma importante frao da elite dominante procurou assegurar a sobrevivncia
da herana islmica introduzindo a cincia e a tcnica ocidentais. Esse tipo de
ao redundou em uma frutuosa unio entre a cultura islmica e o pensamento
cientfico ocidental. Os muulmanos do oeste do Sudo, que no souberam dar
provas da mesma iniciativa, viram-se mal preparados para enfrentar os proble-
mas postos pela dominao colonial. Franceses e ingleses puderam determinar,
ali, com toda a liberdade que forma e que dose de influncia ocidental podiam
admitir na regio.
A religio na frica durante a poca colonial                                    591



                                        CAPTULO 20


                   A religio na frica durante
                         a poca colonial
                                           Kofi Asare Opoku




    A instaurao do domnio colonial europeu na frica no se resumiu  impo-
sio forada do poder poltico, econmico e social. Foi tambm uma imposio
cultural, e utilizou a cultura para dar apoio s superestruturas polticas, econmi-
cas e sociais representadas pelo colonialismo. Este captulo examinar o aspecto
religioso dessa imposio cultural e a reao africana a ela.


    A vida religiosa na frica em vsperas do
    domnio colonial
    A religio africana tradicional no perodo prcolonial
   A religio africana tradicional estava (e est) inextricavelmente ligada  cul-
tura africana. Era uma realidade presente em todos os setores, como o salienta
muito bem Emmanuel Obiechina:
    No existe qualquer dimenso importante da experincia humana que no esteja
    ligada ao sobrenatural, ao sentimento popular religioso e  piedade [...]. Tudo isso
    constitui parte integrante da estrutura ideolgica da sociedade tradicional e  essen-
    cial para uma interpretao exata da experincia no contexto social tradicional1.


1    E. OBIECHINA, 1978, p. 208.
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    Essa onipresena no modo de viver dos povos africanos dava  religio tra-
dicional um carter global, no contexto da cultura de onde se tinha originado.
Estava baseada em uma viso particular de mundo, que no inclua somente a
percepo do sobrenatural, mas tambm a compreenso da natureza do universo,
dos seres humanos e do seu lugar no mundo, assim como a compreenso da
natureza de Deus, cujo nome variava de uma regio para outra. Essencialmente
esprito, Deus no possua imagens nem representaes fsicas: era o criador e
o pilar do mundo. Poder, justia, beneficncia e eternidade eram atributos dele
e, como fonte de todo o poder, governava a vida e a morte. Deus recompensava
os homens, mas tambm os castigava quando agiam mal. De mil maneiras o
comparavam a um suserano da sociedade, e o consideravam como autoridade
ltima em todos os domnios. De forma geral, Deus no se assemelhava aos
seres humanos e era totalmente superior  sua criao, mas, ao mesmo tempo,
envolvia-se nos negcios dos homens, sustentando a criao e defendendo a
ordem moral, assim como os seres humanos repousavam sobre ele enquanto
poder que lhes era superior. Deus, portanto, era ao mesmo tempo transcendente
e imanente.
    Existia uma hierarquia dos espritos. Abaixo de Deus estavam os espritos
dos ancestrais (ver fig. 20.1), sempre tratados com reverncia e temor; depois,
vinham as deidades, ou os deuses, que se acreditava terem o poder de recompen-
sar os seres humanos ou de castig-los com m sorte, doenas e at a morte. As
divindades tinham seus cultos, sacerdotes e altares. Algumas estavam ligadas a
diversas caractersticas do ambiente, mas esses objetos tangveis no eram mais
que habitculos terrestres dos deuses, e no os prprios deuses.
    Alm das deidades sobrenaturais, havia outros espritos, ou poderes msti-
cos, reconhecidos pela capacidade de ajudar ou de prejudicar os seres humanos.
Pertenciam a essa esfera todos os agentes da feitiaria, da magia e da bruxaria.
Finalmente, vinham os encantos, os amuletos e os talisms, que tanto eram
empregados para proteo como para agresso.
    A concepo geral do homem era que o ser humano compe-se de substncia
material e de substncia imaterial. A parte imaterial (a alma) sobrevive  morte
e a parte material (o corpo) se desintegra. A morte, portanto, no significa o fim
da vida:  antes a continuidade e a extenso da vida. Os mortos permanecem
membros da sociedade e se acredita que exista, ao lado da comunidade dos vivos,
uma comunidade dos mortos. Entre ambas ocorre uma relao simbitica. A
sociedade humana, portanto,  uma famlia unida, composta pelos mortos, pelos
vivos e por aqueles que ainda no nasceram.
A religio na frica durante a poca colonial                                 593



    No que respeita  relao do homem com a sociedade, ser humano signi-
ficava pertencer a uma comunidade. Isso implicava participao em crenas,
cerimnias, rituais e festas2: a participao comunitria tinha mais valor do que
a participao individual. De fato, a sociedade estava fundada mais nas obri-
gaes do que nos direitos individuais, e o indivduo afirmava seus direitos no
exerccio dessas obrigaes, o que transformava a sociedade numa vasta malha
de relaes. Alm disso, a vida humana era considerada e compreendida como
um ciclo de nascimento, casamento, procriao, morte e vida ps-morte. O
indivduo nunca se fixava em uma etapa da existncia: tinha necessariamente
de passar  seguinte e, para tornar a transio mais fcil, eram cumpridos ritos
especiais para garantir que nenhuma ruptura se produzisse, que o movimento e
a regenerao se dessem perpetuamente3.
    A religio africana tradicional no apenas era onipresente, mas tambm unia
os homens aos poderes invisveis, ajudando-os a estabelecer relaes justas com
as potncias extra-humanas e com seus semelhantes. A religio era o amlgama
que dava s sociedades humanas solidez, estabilidade e coeso. Alm disso, aju-
dava os homens a compreender e dominar os acontecimentos, a se libertar de
suas dvidas, angstias e sentimentos de culpa.
    Mas a situao no era esttica, j que de gerao em gerao ocorriam
mudanas, e cada uma delas acrescentava sua parte de experincia  herana
religiosa e cultural. No havia deus ciumento que proibisse a aceitao ou o
acrscimo de novos deuses e novas crenas  e novos cultos e novos altares
apareciam, enquanto outros declinavam. Os deuses que tinham revelado poder
possuam altares por toda a parte, e era frequente que grupos tnicos vencidos
adotassem os deuses dos adversrios vitoriosos. E, como o movimento era a
essncia da vida, as mudanas eram consideradas normais, na medida em que
no transgredissem os valores africanos.

    O islo no perodo prcolonial
   Duas religies estrangeiras foram introduzidas durante o perodo pr-colonial,
ao lado da religio tradicional: o islamismo e o cristianismo. A ascenso e a
difuso do islo na frica j foram tratadas em volumes anteriores. A expanso
de maior importncia do islo na poca pr-colonial deu-se no sculo XIX, em
parte quando militantes islmicos, descontentes com os intolerveis arranjos


2    MBITI, 1969, p. 2.
3    OPOKU, 1978, p. 10-1.
594                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 20.1 Personagens Makishie durante uma cerimnia de iniciao, em Zmbia. Os danarinos repre-
sentam os espritos ancestrais encarregados de instruir os futuros iniciados. (Fonte: Servio Nacional de
Turismo de Zmbia.)
A religio na frica durante a poca colonial                                 595



concludos entre o islo e a religio tradicional africana, declararam "guerras
santas" com o objetivo de restabelecer a f islamita na sua pureza original. Essas
djihds redundaram na formao de Estados teocrticos, nos quais a religio e a
lei do islo foram impostas ao povo, tendo havido muitas converses. Os Estados
teocrticos prolongavam-se atravs da zona sudanesa da frica ocidental, desde
o Senegal at o que  hoje o norte da Nigria, incluindo Futa-Djalon, Futa-Toro,
o califado de Sokoto e o imprio de Bornu4.
    Na frica oriental, o islo penetrou no corao do continente a partir da
costa, mas, ao contrrio dos seus iguais da frica ocidental, os muulmanos desta
rea interessavam-se mais pelo comrcio do que pela converso dos habitantes 
sua f. Trataram de assegurar os laos comerciais com o interior e sua esfera de
influncia econmica. No entanto, certas reas da frica oriental seguiam o islo
havia sculos; ao longo da costa, foi se desenvolvendo uma nova cultura muul-
mana e, a partir dessa mistura com a cultura bantu, nasceu a cultura swahili. O
kiswahili , hoje, a lngua franca da maior parte da frica oriental.
    Antes da chegada das potncias coloniais, o islo j avanara em propor-
o considervel. Dentre seus progressos, assinalemos a substituio do ciclo
de festas tradicionais pelo calendrio islmico em vrias partes da frica e a
incorporao de numerosas palavras e conceitos rabes por lnguas africanas
como o haussa, o fula e o mandinga, o que contribuiu muito para enriquec-las.
No retorno da viagem, os peregrinos j seguiam novas modas de vesturio; e,
com o exemplo de religiosos e clrigos muulmanos residentes ou de passagem
por diversas regies da frica, a cultura rabe tinha comeado a causar grande
impacto sobre os africanos. A influncia se fazia sentir tambm na arquitetura,
nos ttulos, na msica e em outros aspectos da cultura, principalmente entre as
camadas mais favorecidas da populao africana, sobretudo no Sudo.
    Malgrado o progresso islmico conseguido antes da chegada das potncias
coloniais, as ltimas dcadas do sculo XIX assistiram ao desmoronar de alguns
Estados teocrticos da frica ocidental, ao enfraquecimento do comrcio e da
influncia islmicos na frica oriental. No obstante, a dominao colonial
ainda viria a dar ao islo a possibilidade de uma expanso sem precedentes.

    O cristianismo na frica prcolonial
   Antes de instaurada a dominao colonial, o cristianismo (como se viu em
volumes anteriores) passara por trs fases de sua histria no continente africano.


4    LAST, 1974.
596                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



A primeira encerrou-se no sculo VII da era crist, com o advento do islo,
deixando colnias crists dispersas nos desertos e em certas partes ao norte da
frica. A Etipia mantinha-se firmemente crist desde o sculo IV. A era das
exploraes portuguesas no sculo XV marca o incio da segunda fase, e esta,
por sua vez, termina com o trfico de escravos que se seguiu quelas explora-
es e durou aproximadamente trs sculos. A terceira fase (1800-1885) foi
desencadeada pelo surgimento de um poderoso movimento missionrio no final
do sculo XVIII, na Europa. A partir da dcada de 1840, assistiu-se  pene-
trao dos missionrios no interior do continente, enquanto o perodo anterior
caracterizara-se por sua concentrao ao longo da costa, principalmente nos
enclaves europeus litorneos, na Etipia e na frica do Sul. A arrancada para o
serto tornou-se possvel graas  explorao geogrfica, que deu aos europeus
maior conhecimento sobre o interior da frica. Alm disso, inmeros missio-
nrios foram incentivados pelas experincias e ideias de David Livingstone,
que em numerosos escritos narrou os resultados de suas expedies. Segundo
ele, os missionrios deviam estabelecer centros de catequese e de civilizao
destinados no s a expandir a religio, mas tambm a promover o comrcio e
a agricultura. Imbudos por essas ideias, inmeros e entusiasmados mission-
rios penetraram fundamente o interior da frica, acompanhando antigas vias
comerciais. Acresa-se a esse contexto o progresso da medicina, no sculo XIX,
que permitiu o controle de vrias doenas tropicais e tornou mais fcil aos mis-
sionrios estabelecer-se em tantas regies da frica.
    Viver no serto familiarizou cada vez mais os missionrios com a frica,
fator que veio a tornar-se decisivo no ltimo quarto do sculo, quando come-
aram as lutas pela conquista do continente. Assim que as naes europeias
interessavam-se mais pela aquisio de territrios africanos, os missionrios
franqueavam-lhes o caminho em algumas zonas e serviam  conscientemente
 enquanto agentes do colonialismo europeu. Cada missionrio estava firme-
mente persuadido de que, se havia de ocorrer uma interveno europeia, ento
que fosse conduzida por seu prprio pas. Como escrevia Roland Olivier, "eles
desejavam garantir que a interveno fosse conduzida por compatriotas seus ou
pela potncia mais capaz de oferecer as melhores oportunidades para a obra de
seu culto"5.
    Alm disso, a administrao colonial na frica, argumentava a maior parte
dos missionrios, no providenciaria apenas a segurana e a proteo to dese-


5     OLIVER e MATHEW (orgs.), 1971.
A religio na frica durante a poca colonial                                 597



jadas para lhes permitir reparar os males do trfico negreiro, mas ainda estimu-
laria e garantiria o desenvolvimento de novas possibilidades econmicas aos
africanos. Desse modo, encorajavam entusiasticamente a interveno europeia,
sobretudo a partir dos anos 1870, nela vendo um empreendimento moralmente
justificado.


    Religio africana tradicional e domnio colonial
    A imposio do domnio colonial na frica, a partir de 1885, conduziu 
difuso da influncia europeia at o mago do continente, enquanto antes ela se
concentrava ao longo da costa. Toda a interveno europeia, durante o perodo
colonial, fundamentava-se no postulado de que, para implantar o progresso,
era preciso transformar ou mesmo destruir por completo a cultura africana. E,
como a cultura africana estava intimamente ligada  religio,  fcil perceber
que a poltica colonial europeia podia chocar-se violentamente com princpios
da religio tradicional, que constituam as prprias bases da sociedade africana.
Desde o incio, a religio tradicional viu-se submetida ao desafio da sobrevivn-
cia e da necessidade de se fortalecer.
    Os missionrios foram os porta-vozes da cultura ocidental praticamente at
comeos da dcada de 1890, e sempre foram claros relativamente  religio afri-
cana: queriam converter os africanos no somente ao cristianismo, mas tambm
 cultura ocidental, que julgavam impregnada de cristianismo e profundamente
marcada por ele. De fato, para a maior parte desses missionrios convictos, no
havia a menor diferena entre as duas coisas e, no entanto, embora no dis-
tinguindo entre a sua religio e a sua cultura, trabalhavam sem descanso para
converter os africanos a uma forma de vida na qual a religio estava separada
dos outros aspectos da existncia. Ensinavam ao seu novo rebanho que a vida
podia ser dividida em esfera espiritual e esfera secular  ensino que se opunha 
prpria base da cultura africana, ou seja, a unidade entre religio e vida. Desse
modo, os missionrios tratavam de atacar o prprio elemento que sustentava a
coeso das sociedades africanas. O perigo foi desde logo percebido por vrios
chefes africanos perspicazes, que prontamente se opuseram  penetrao dos
missionrios, identificando na presena deles um desafio e uma ameaa s for-
mas tradicionais de autoridade. Os missionrios, assim como os administradores
coloniais, pregavam contra a crena nos espritos, nas foras sobrenaturais e nos
deuses, na feitiaria, nos sacrifcios, nos rituais, nos tabus e na venerao dos
antepassados. Com isso, minavam a influncia dos tradicionais chefes rituais
598                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



africanos, como sacerdotes, sacerdotisas, mgicos, fazedores de chuva e monarcas
divinos. Os administradores coloniais introduziram tambm a medicina ociden-
tal, e atacavam os costumes "pagos" para enfraquecer a posio dos mdicos e
dos curandeiros tradicionais. A ordem antiga foi, portanto, severamente fusti-
gada e, em numerosos setores da sociedade africana, envidaram-se esforos para
defend-la e proteg-la.
    Embora os administradores coloniais se interessassem em primeira instncia
pelo controle poltico econmico e social dos territrios, as questes relativas 
religio no podiam estar excludas de suas preocupaes essenciais. A doutrinao
dos missionrios era compartilhada pelas potncias coloniais. De modo geral, seus
administradores adotaram atitude hostil para com algumas prticas religiosas e
tentaram aboli-las suprimindo certos cultos. Procuraram eliminar a f na feitiaria,
bem assim prticas como a prova do veneno, destinada a descobrir pessoas suspei-
tas de culpa ou inocentes em crimes difceis de provar, ou o "rapto" de cadveres
para descobrir quem havia provocado sua morte por feitiaria ou despacho.
    Os africanos reagiram de muitas maneiras a esses ataques. Aqueles que
no se haviam convertido faziam oposio ao domnio colonial e desafiavam
as condenaes dos missionrios, simplesmente continuando a obedecer  sua
f e a praticar seus ritos, aberta ou clandestinamente. Aqueles que se haviam
convertido ao cristianismo, e cujas crenas e atitudes estavam, portanto, forte-
mente influenciadas pela nova doutrina, exprimiam sua resistncia integrando
sincreticamente algumas das crenas tradicionais  sua nova f.
    Os africanos empregavam a religio como arma para resistir ao domnio
colonial e  ameaa que ele representava para seus valores. Muitas vezes, recor-
riam  magia,  interveno dos antepassados e de seus deuses para combater a
opresso colonial. Durante as duas primeiras dcadas do sculo XX, os guerreiros
Igbo do sudeste da Nigria empregaram esses meios para se defender contra
os invasores estrangeiros. Podem ser citados como exemplos os Esza, do grupo
Abakaliki, os Uzuakoli e os Aro6. Alguns cultos constituam claramente focos
de resistncia  dominao colonial, como o Mwari, na Rodsia do Sul (atual
Zimbbue), e havia associaes secretas, como a Poro em Serra Leoa (ver fig.
20.2) e outras regies da frica. Tambm houve guerras mgicas em Mada-
gscar e na bacia do Congo. Na frica oriental, principalmente no Qunia,
surgiram profetas que davam revigoramento 7espiritual para resistir ao colonia-


6     Ver AFIGBO, 1973.
7     A fundao de igrejas independentes, distintas das igrejas missionrias controladas pelos europeus,
      exprimia o mesmo tipo de protesto.
                                                                                                    A religio na frica durante a poca colonial
                                                                                                    599
figura 20.2   Membros de uma sociedade secreta em Serra Leoa. (Foto: Royal Commonwealth Society.)
600                                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



lismo, como ocorreu no distrito de Machakos, entre os Kilungu, nos primeiros
meses de 1922 (ver o captulo 26). Um dos movimentos mais conhecidos, por
ter utilizado ao mesmo tempo a religio e a magia a fim de resistir  opresso
e ao domnio colonial, foi, como j vimos antes, o movimento Maj Maj na
frica Oriental Alem, durante a primeira dcada do nosso sculo8. Apesar da
derrota, o movimento Maj Maj demonstrou que a religio africana tradicional
podia conduzir  unidade contra a presso europeia, e que ela no era uma fora
fragmentria, confinada a algumas localidades. Alm disso, semeou o germe do
nacionalismo africano, que posteriormente haveria de crescer e difundir-se, na
luta pela independncia, at o fim do domnio colonial, nos anos 1960.
    O culto Nyabingi era semelhante ao Maj Maj. Abrangia igualmente uma
vasta zona, por sobre fronteiras tnicas e regionais. Era encontrado em Ruanda,
no noroeste de Tanganica (atual Tanznia) e em Uganda. Assim como no movi-
mento Maj Maj, os adeptos do culto Nyabingi acreditavam que seus produtos
medicinais tinham o poder de neutralizar o efeito das balas europeias e partilha-
vam da mesma f de serem possudos pelos espritos de ancestrais legendrios.
Esse culto nasceu no final do sculo XIX e expandiu-se at 1928, ano em que se
transformou em movimento de revolta contra a ocupao europeia na regio de
Kigezi, Uganda. Conforme diz E. Hopkins, "o movimento conseguiu bloquear
os esforos administrativos de trs potncias coloniais durante cerca de vinte
anos, at sua eliminao, em 1928"9.
    Os alemes  e em seguida os belgas, que assumiram o domnio de Ruanda
aps a Primeira Guerra Mundial  no lograram elimin-lo e, mesmo depois de
esmagado o levante de 1928, o culto perdurou at 1934, data de sua supresso
final.
    Outros cultos conseguiram resistir  presso europeia, resgatando certos
aspectos da religio tradicional e combinando-os com ideias tomadas ao cristia-
nismo. Exemplo disso foi o culto Mumbo, praticado pelos Gusii, perto do lago
Vitria, no Qunia, e usado como esteio da sua revolta contra o colonialismo
britnico, deflagrada em 190010.
    Na Costa do Ouro (atual Gana), a administrao colonial britnica adotou
atitude hostil para com certas prticas religiosas, abolindo algumas e tentando
suprimir certas divindades e respectivos cultos. Assim, o culto de Katawere,



8     Para maiores detalhes, ver o captulo 7 deste volume.
9     HOPKINS, E., 1970.
10    Para maiores detalhes, ver os captulos 7 e 26 deste volume.
A religio na frica durante a poca colonial                                     601



deidade tutelar de Akim Kotoku, foi proibido em 190711. Anteriormente, nos
anos 1880, o governo alemo havia destrudo os santurios de Kete-Krachi,
dedicados a Denteh; o sacerdote foi aprisionado e executado. A administrao
colonial britnica obrigou os Krobo a abandonar suas aldeias, no monte Krobo,
aniquilando-as; destruiu igualmente os santurios de Kotoklo e de Nadu, devo-
tados ao culto de suas divindades tutelares.
    A administrao colonial combatia a crena na feitiaria e procurava faz-
-la desaparecer por meio de decretos e de medidas destinadas a pr fim aos
movimentos africanos pela eliminao da feitiaria. Apesar da ao conjugada
dos missionrios e dos administradores coloniais, a crena na feitiaria persistiu
tanto no meio dos convertidos como dos no convertidos, continuando os afri-
canos a tratar do problema  sua maneira.
    Entre os vrios novos cultos surgidos na frica ocidental para proteger
as pessoas contra a feitiaria, cumpre mencionar o Aberewa (Mulher Velha),
da Costa do Ouro, culto proibido pela autoridade colonial em 1908. O mais
difundido dos movimentos pela eliminao da feitiaria foi o culto Bamucapi, da
frica central e do sudeste, que se alastrou por Moambique, Niassalndia (atual
Malavi), Rodsias (atualmente, Zimbbue e Zmbia), sul de Tanganica (atual-
mente, Tanznia) e Congo Belga (atual Zaire). Os membros do culto Bamucapi
bebiam poes que supunham livr-los da feitiaria ou proteg-los do efeito
dela12. O culto prosperou no incio da dcada de 1930; tomava ideias empresta-
das  religio africana tradicional e, ao mesmo tempo, ao cristianismo.
    Como alguns africanos persistiam em recorrer a seus mtodos tradicionais
para lutar contra a feitiaria, a administrao colonial baixou decretos a respeito
dela. Em Uganda, por exemplo, um desses decretos foi promulgado em 1912 e
reformado em 1921: as penas se tornavam mais severas, indo de um a cinco anos
de priso, e o porte de artigos de feitiaria passava a constituir delito13. Mas todas
as leis das autoridades coloniais revelaram-se pouco eficazes contra a feitiaria,
bem como as condenaes dos missionrios e dos africanos convertidos.
    Outra investida contra a religio africana tradicional traduziu-se em medidas
contra os ritos de iniciao de rapazes e moas  idade adulta. Para os africanos,
os ritos de iniciao preparavam rapazes e mocinhas no s para a idade adulta,
mas tambm para a vida social e comunitria, constituindo um elemento vital e
nuclear da vida social, cultural e religiosa.

11   DEBRUNNER, 1967, p. 255.
12   RANGER, 1971, p. 132.
13   HOPKINS, E., 1970, p. 311.
602                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Em muitas partes da frica, os ritos de iniciao compreendiam a circun-
ciso dos meninos e a clitoridectomia das meninas, e era essa a fonte das mais
graves controvrsias. Os missionrios consideravam os ritos inadmissveis, tanto
do ponto de vista dos costumes como da teologia, e muitas vezes buscavam o
apoio da administrao colonial para combat-los. O ataque equivalia a uma
interferncia no significado central da concepo africana do homem e na orga-
nizao da vida religiosa: a reao dos africanos foi violenta. Na frica oriental,
principalmente, o problema da circunciso e, sobretudo, da clitoridectomia pro-
vocou as reaes mais fortes. Os missionrios a julgavam prtica abominvel e
tentaram fazer com que suas novas ovelhas a abandonassem por completo. No
tocante  circunciso dos meninos, porm, estavam dispostos a concordar, desde
que fosse despojada de seus aspectos "pagos", "demonacos" e "satnicos".
    Na diocese de Masasi, Tanganica meridional, e na provncia central do Qu-
nia houve srios confrontos entre as misses crists e os povos africanos, a pro-
psito da circunciso. Em Masasi, foi empreendida uma poltica de adaptao
e procurou-se modificar o jando (circunciso) e o malango (exciso na mulher)
praticando-os sob auspcios cristos de forma a despoj-los de qualquer ele-
mento estimado ou julgado "no cristo". Essa poltica evitou um confronto
direto entre a iniciao tradicional e as misses crists, embora a Igreja tenha
omitido um elemento essencial da iniciao das meninas, a elongao do clit-
ris, e no chegasse a dar ao malango a importncia que a iniciao tradicional
determinava. No entanto, reconhecia a necessidade de seus fiis serem ao mesmo
tempo cristos e membros plenamente iniciados de suas comunidades, objetivo
que foi alcanado dentro da prpria Igreja e no em revolta contra ela14.
    Mas, na provncia central do Qunia, a poltica dos missionrios provocou
confronto direto. Os africanos j nutriam forte ressentimento contra a adminis-
trao britnica, que lhes havia tomado vastas extenses de terra para coloc-las
 disposio dos colonos brancos. Essa espoliao coincidiu com as ativida-
des de umas tantas misses  a Scottish Mission (Ukambani, 1891, e Kikuyu.
1898), a Mission vanglique Luthrienne Bavaroise (Ukambani, 1893), a
African Inland Mission (Ukambani, 1896), a Gospel Missionary Society (Nai-
rbi, 1897), a Church Missionary Society e a African Inland Mission (Nairbi,
1901)  que comearam a criticar as veneradas tradies dos Akamba, Meru,
Tharaka, Massai e outros povos, principalmente a exciso inicitica das meninas




14    RANGER, 1972.
A religio na frica durante a poca colonial                                603



e a circunciso dos meninos. A presena europeia significava, portanto, uma
dupla presso: sobre a terra e sobre as tradies.
    O que os missionrios consideravam particularmente repugnante era a inicia-
o das meninas. Criticavam-na violentamente e a Church of Scotland Mission,
a African Inland Church e a Gospel Missionary Society a proibiram em suas
igrejas, em 1920 e 1921. A circunciso no recebeu ataques to duros, mas as
misses exigiram que passasse a ser praticada em hospitais ou em residncias
particulares. Assim que a presso contra a clitoridectomia comeou a aumentar,
a administrao colonial britnica reconheceu que se tratava de prtica "prejudi-
cial" e que a "educao" a eliminaria progressivamente. Mas a iniciao masculina
e feminina tinha profunda significao para a vida comunitria dos africanos, e
qualquer abolio, qualquer proibio sbitas atentariam gravemente contra sua
segurana psicolgica, social e religiosa.
    A oposio  atitude negativa dos europeus para com a exciso manifestou-se
abertamente em comeos da dcada de 1920, a partir de 1923. Entre os Gikuyu,
por exemplo, foram criadas escolas independentes com o objetivo de restabelecer
essa prtica e educar os filhos, que no eram admitidos nas escolas das misses
por causa da exciso. Em 1929, uma cano de dana, intitulada muthirigu,
que ridicularizava as misses e os cristos contrrios  iniciao, ganhou rpida
popularidade no meio dos Gikuyu, mas foi proibida pela administrao colonial
britnica no ano seguinte. Alm disso, a oposio africana manifestava-se pelo
desligamento de numerosos membros das igrejas protestantes e anglicanas, entre
os Gikuyu, os Embu e os Meru. Em 1928, surgiu uma igreja independente, a
Igreja Ortodoxa Africana, enquanto em 1930 propagava-se, entre os Gikuyu,
um movimento proftico pregando o julgamento iminente dos europeus e das
misses por Deus. O movimento foi rapidamente eliminado pela administrao
colonial.
    A oposio africana continuou a se manifestar de vrias formas, inclusive
tumultos, ataques s escolas das misses, tentativas de impedir que os padres
exercessem o seu ofcio e at mesmo a morte de um missionrio, em Kijabe.
Esta oposio  atitude dos missionrios a respeito da exciso foi acompa-
nhada pela crescente onda de nacionalismo, que resultou, finalmente, na resis-
tncia poltica aberta ao domnio estrangeiro15. Entre os Akamba, os Embu e
os Meru, no entanto, o problema da iniciao feminina no gerou tanta tenso




15   Para um estudo mais detalhado, ver WELBOURN, 1961, p. 135-43.
604                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



como entre os Gikuyu, tendo a resistncia assumido a forma de escolas e igrejas
independentes.
   Todos os ataques contra a religio africana tradicional, bem como as reaes
a que deram causa, regra geral no fizeram mais que revigor-la extraordinaria-
mente nos anos 1930.


      O islo e a dominao colonial
    Aparentemente, tudo se passou mais favoravelmente para o islo do que
para a religio tradicional, durante o perodo da dominao colonial. Nas zonas
onde, antes da chegada das potncias coloniais, predominavam muulmanos, a
lei islmica dera azo a uma unidade mais territorial do que tnica, que impunha
obedincia s autoridades16. Isso favoreceu uma administrao e um comrcio
eficazes e facilitou aos muulmanos o trabalho de proselitismo e converso.
    O desenvolvimento das comunicaes permitiu aos muulmanos o acesso
a regies at ento fora do seu alcance. Quando as vias comerciais da frica
ocidental foram reorientadas do deserto para a costa, comeou a aumentar o
nmero de muulmanos at o incio do colonialismo muito reduzido no litoral.
A constante expanso do seu nmero em Serra Leoa, de 1891 a 1931, ilustra
bem esse fato: em 1891, eles constituam 10% da populao; em 1901, 12%; em
1911, 14%; em 1921, 19,5%; em 1931, 26,12%17.
    A presena muulmana na costa ocidental aumentou mais ainda com a
vinda dos Ahmadiyya, que chegaram como missionrios usando as rotas mar-
timas costeiras. Embora considerados herticos por alguns, desempenharam
importante papel ao suscitar entre os muulmanos o interesse pela educao
ocidental.
    A atitude das autoridades coloniais para com o islo era ambgua. Enquanto
alguns julgavam tratar-se de uma forma de religio mais esclarecida do que
a religio africana tradicional, outros consideravam avanadas as instituies
muulmanas, e as utilizavam segundo o interesse da administrao colonial. Os
tribunais islmicos foram, ento, permitidos e, em certas zonas, os chefes muul-
manos desfrutavam de amplos poderes18. Os muulmanos eram empregados

16    WIEDNER, 1964, p. 245-6.
17    TRIMINGHAM, 1962, p. 226.
18    No norte da Nigria, por exemplo, onde primeiro se tentou uma poltica de dominao indireta, o governo
      do Reino Unido defendia o poder dos chefes muulmanos. As autoridades coloniais ficavam por detrs
      do islo, enquanto religio oficial da rea.
                                                                                               A religio na frica durante a poca colonial
                                                                                               605
figura 20.3   Fachada de uma mesquita no norte de Gana. (Fonte: Universidade de Washington.)
606                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



pelos administradores coloniais em postos subalternos (guias, agentes, escritur-
rios), o que os colocava em contato estreito com os povos africanos. Conforme
observava Trimingham, isso familiarizava os adeptos da religio tradicional "com
as caractersticas exteriores do islo, elevava o prestgio da converso a uma reli-
gio favorecida e propiciava aos agentes islmicos facilidades para o exerccio da
sua propaganda e de diversas formas de presso"19 (ver fig. 20.3).
    Mas o islo no se beneficiava com favores de todas as autoridades coloniais.
No Congo Belga (atual Zaire), a administrao era-lhe particularmente hostil,
vendo nessa religio uma ameaa  misso de "cristianizao" e "civilizao".
Somente a construo de algumas mesquitas foi autorizada, e as escolas muul-
manas foram inteiramente proibidas na colnia20.
    Outros europeus, principalmente franceses, procuravam impor a cultura
europeia aos sditos, muulmanos ou no, por considerar que tinham a obri-
gao de elevar o nvel da populao colonizada oferecendo a ela os "benef-
cios" da cultura francesa. Enquanto a poltica britnica, em relao aos Estados
muulmanos, baseava-se na crena de que podiam confiar na cooperao dos
chefes islmicos, os franceses pensavam de outro modo. Procuraram de incio
limitar as zonas sob controle muulmano, quando da tentativa de se apossarem
da maior parte do Sudo ocidental. Cuidavam de evitar o emprego do rabe
na correspondncia oficial, e at ajudavam abertamente os que no aceitavam
o proselitismo muulmano, como os Bambara. Alm disso, tambm cuidavam
de impedir que chefes muulmanos fossem designados para dirigir povos no
muulmanos. Para fazer oposio efetiva  difuso do islo e da jurisprudncia
islmica, trataram tambm de reforar a religio tradicional e de codificar o
direito consuetudinrio, para fazer dele um contrapeso21. Mas, apesar de todo
o receio e hostilidade, os franceses estavam mais familiarizados com o islo do
que com a religio tradicional. Como no conseguiram materializar as intenes
hostis, acabaram chegando a acordo com os muulmanos e at criaram institutos
destinados ao estudo da vida, crenas, prticas e instituies do islo22.
    As potncias coloniais estavam decididas a destruir os vastos Estados muul-
manos e as organizaes religiosas islmicas, principalmente atiando as rivali-
dades entre eles. Assim, os britnicos aboliram o califado de Sokoto, ao norte da
Nigria, enquanto os franceses encorajavam abertamente as rivalidades tnicas e


19    TRIMINGHAM, 1962.
20    Ver BOOTH, 1977, p. 325.
21    Ver AJAYI, s.d.
22    Ibid.; ver tambm CROWDER, 1968, p. 359-61.
A religio na frica durante a poca colonial                                 607



dinsticas, que levaram  desintegrao o imprio Tukulor. Favoreceram igual-
mente a proliferao das ordens sufi e se recusaram a reconhecer um califa para
todos os membros muulmanos da ordem Tijaniyya na frica ocidental.
    Nessa regio, a Frana e o Reino Unido ansiavam e desejavam garantir a
liberdade de culto aos muulmanos, sob certas condies. Queriam vivamente
um islo da frica ocidental, privado de todas as suas conexes internacionais
e de seus aspectos universais. As potncias coloniais almejavam, acima de tudo,
impedir a constituio de um movimento pan-islmico que pudesse ameaar a
sua hegemonia, temor que se tornou real quando a Turquia alinhou-se ao lado
da Alemanha na Primeira Guerra Mundial e quando o sulto otomano ordenou,
na qualidade de califa de todos os muulmanos, a revolta geral contra os infiis
europeus.
    Posteriormente, porm, as potncias coloniais acabaram por encorajar e no
apenas tolerar o islo. Preferiam tratar com africanos islamizados a lidar com
africanos cristianizados. Como dizia um funcionrio francs em 1912: "Os
negros islamizados so geralmente pessoas amveis, reconhecendo a segurana
que nossas armas lhes trouxeram; eles no pensam seno em viver em paz, 
sombra de nosso poder23.
    Tambm a influncia modernizadora do islo era apreciada pelas potncias
coloniais, que teriam declarado consider-lo "uma ponte entre o estreito par-
ticularismo da sociedade tradicional e os vastos impulsos e exigncias da vida
moderna e dos interesses econmicos"24. Os chefes muulmanos submissos ao
colonialismo eram por isso estimulados e muitas vezes gozavam dos favores
oficiais, de honras e recompensas em nvel nacional. Construam-lhes mesquitas
e escolas islmicas, ajudavam-nos na organizao de suas peregrinaes e de suas
viagens de estudo. Concomitantemente, os muulmanos que no obedeciam 
linha oficial e se mostravam recalcitrantes eram chamados  ordem e frequen-
temente molestados.
    Mas os muulmanos opunham-se  dominao colonial por motivos ao
mesmo tempo religiosos e polticos. Se bem que as administraes coloniais
 principalmente a francesa  tivessem conseguido obter, em parte, o apoio
muulmano em seus territrios da frica ocidental, muitos desses muulmanos
queriam preservar a pureza do islo e, portanto, no podiam tolerar o fato de
serem submetidos a "infiis" representados por uma administrao crist; de fato,
aspiravam a desembaraar o pas do colonialismo francs. Semelhante desejo

23   Citado in AJAYI, s.d., p. 22.
24   Ibid.
608                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



conduziu  ressurreio do mahdismo. Supunha-se que o Mahdi, equivalente
ao Messias cristo, era aquele que viria  terra para instaurar um sistema justo,
de acordo com o dogma islmico, e livrar a sociedade da tutela dos infiis. O
mahdismo disseminou-se por numerosas reas das regies sudanesas da frica
ocidental e foi a expresso do sentimento antifrancs na alta Guin, na Maurit-
nia e no Senegal, principalmente desde 1906 at a Primeira Guerra Mundial.
    Havia outros movimentos islmicos de sentimento antifrancs ou de postura
anticolonial: o Hamalliyya, fundado pelo xeique Hamallah, movimento ativo
no Senegal, no Sudo francs, na Mauritnia e no Nger, e a confraria dos
Sanusiyya, fundada por Muhammad b. `Ali al-Sanusi na Lbia, que se tornou
a principal fora de resistncia ao colonialismo italiano. Entre 1860 e 1901, a
Sansiyya espalhou-se pela Tunsia, e pelo Egito, Sudo central e Senegal.
    A confraria dos Sansiyya criara toda uma tradio de oposio ao domnio
estrangeiro na Lbia, pois no era somente uma ordem religiosa, mas tambm
movimento poltico. Opunha-se ao domnio turco, embora considerasse o sulto
turco como o califa de todas as terras muulmanas. A nica razo pela qual os
adeptos da Sansiyya no pegavam em armas contra a Turquia era o fato de terem
uma religio comum a uni-los. Mas, no caso dos italianos, nenhum lao do gnero
existia: a ordem resistiu firmemente  invaso italiana e comandou a resistncia
lbia de 1911 a 1932. Depois de a Turquia renunciar  soberania sobre a Lbia, em
1912, os membros da Sansiyya garantiram, sozinhos, a chefia e a responsabili-
dade do movimento de libertao. Palavras de ordem e proclamaes do comando
da resistncia foram lanadas em nome da "al-Hakuma al-Sansiyya", o governo
Sansiyya. Ao longo dos anos, a confraria foi reconhecida em outras terras muul-
manas, no s enquanto confraria dos libertadores da Lbia, mas tambm como a
dos combatentes da f, os Mujahidin. K. Folayan escreveu a esse respeito:
      O papel da ordem Sansiyya, ao assumir a chefia efetiva do movimento de resis-
      tncia lbio, faz dela um exemplo politicamente importante de movimento religioso
      que se tornou espinha dorsal da resistncia ao imperialismo ocidental, e realmente
      a ordem detinha o mais longo histrico de resistncia na frica. De fato, o papel
      desse movimento no terminou com o colapso de sua fora militar e a ocupao
      da Lbia pela Itlia, em 1932. Desde o primeiro ano de independncia (1951), ao
      contrrio, os Sanusiyya continuaram assumindo a defesa da Lbia, como a classe
      effendiya representava o nacionalismo do Egito ou do Maghreb25.




25    FOLAYAN, 1973, p. 56.
A religio na frica durante a poca colonial                                          609



    Alguns dos mais determinados adversrios da invaso francesa do Alto Volta,
no final do sculo XIX, foram muulmanos, muitos dos quais teriam dito aos
Mossi da regio que os brancos iriam embora assim que eles, os negros, se
tornassem muulmanos26. Alm disso, as conquistas de Samori Tour na frica
ocidental e de Rabih na regio do Chade, no final do sculo passado, puseram
os muulmanos em conflito com os europeus e contriburam para identificar o
islo com a resistncia  dominao colonial.
    No obstante, o islo prosperou sob esse mesmo domnio, devido s nume-
rosas vantagens que tinha sobre um cristianismo imposto pelos missionrios e
devido, tambm,  desintegrao da vida tradicional operada pelo colonialismo.
Muitos consideravam o islo uma religio autctone, difundida pelos africanos
e cujos adeptos, longe de se apartarem da comunidade, misturavam-se intima-
mente a ela. No sucedia o mesmo com os cristos, que tendiam a criar comu-
nidades prprias e separadas, de acordo com um modo de vida essencialmente
europeu. No era casual, portanto, que a palavra dos Temne (Serra Leoa) para
designar cristos e europeus fosse a mesma: poto27. Alm disso, ao contrrio do
cristianismo, imposto pelas misses, o islo conseguia conviver melhor com ins-
tituies sociais e religiosas tradicionais da frica, como a magia, a adivinhao,
a poligamia e a vida comunitria. Tornar-se muulmano no exigia, consequen-
temente, ruptura radical com a tradio, ponto em que os missionrios insistiam
tanto: o islo "enfatizava a coeso mais do que o cristianismo, e menos a riva-
lidade e a realizao individual"28. Outro ponto contava a favor do islo: com
toda a destruio que acompanhou a dominao colonial, havia a necessidade de
uma nova base de integrao social e o islamismo a proporcionava, na medida
em que possua significativos recursos para aqueles que tivessem perdido suas
razes tradicionais. Comentando as causas da "exploso" do islamismo durante
esse perodo, diz N. S. Booth:
     Em certas reas isso pode ter ocorrido porque o islo era considerado uma forma de
     resistncia ao domnio poltico e cultural do Ocidente; em outras, a poltica colonial
     o favoreceu involuntariamente. Talvez de maneira complexa, a hostilidade europeia
     para com o islo e o fato de os europeus haverem utilizado em proveito prprio os
     muulmanos e suas instituies tenham contribudo para os projetos do islo. Ser
     muulmano podia ser uma forma de obter vantagens no sistema colonial e, ao mesmo


26   BOOTH, 1977, p. 323.
27   KAREFA-SMART, A. e KAREFA-SMART, J., 1959, p. 19.
28   HULL, 1980, p. 146.
610                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



      tempo, marcar uma certa distncia em relao  cultura ocidental. Era um modo de
      fazer parte de uma comunidade mundial, respeitada de boa ou de m vontade pelos
      europeus, e que proporcionava um centro alternativo de adeso e a base de uma dig-
      nidade independente. A presso de uma nova cultura e de uma religio estrangeiras
      tendia a reforar o sentimento de identidade com uma cultura e com uma religio
      que, embora estrangeiras de origem, tinham passado a ser aceitas localmente29.
    Mas esta aceitao no implicava abandono da viso tradicional de mundo:
de fato, o islo, assim como o cristianismo, veio complementar as crenas e pr-
ticas tradicionais, antes que suplant-las. Por essa razo, as "religies-hspedes"
tendiam em grande parte a ser compreendidas no quadro das noes fundamen-
tais que sustentavam a religio tradicional dos africanos. Assim, para a maior
parte dos muulmanos africanos, o islo significava uma das muitas maneiras de
ser religioso, complementando a religio tradicional, e esta, por sua vez, suprindo
certas lacunas do islo.
    No entanto, ocorreram algumas mudanas fundamentais na viso tradicional,
entre os africanos convertidos ao islamismo. O artigo de f islmico relativo ao
Juzo Final e  separao dos crentes e dos mpios na vida futura difere aguda-
mente das ideias tradicionais, que salientam a comunidade de existncia com os
antepassados mortos. O islo  visto como uma nova fonte de poder, visando 
realizao da totalidade da vida,  cura e  melhora no seio da comunidade.


      O cristianismo na poca colonial
    A instaurao do domnio colonial ajudou consideravelmente a obra dos mis-
sionrios. Em primeiro lugar, administradores coloniais e missionrios compar-
tilhavam a mesma viso de mundo e provinham da mesma cultura. Em segundo
lugar, a administrao colonial alimentava disposio favorvel ao trabalho dos
missionrios e, muitas vezes, subvencionava as escolas das misses. Em terceiro
lugar, a imposio do controle colonial em cada territrio assegurava a paz e a
ordem, graas s quais os missionrios podiam contar com a proteo da admi-
nistrao. Em quarto lugar, a introduo de meios de comunicao eficazes e
a instaurao da economia monetria estimularam o comrcio e contriburam
para o advento de um novo estilo de vida, que haveria de impor-se em toda a
frica, estilo de vida caracterizado pela falncia das comunidades em proveito


29    BOOTH, 1977, p. 320.
A religio na frica durante a poca colonial                                       611



do individualismo. De maneira geral, pode-se dizer que as misses crists na
frica eram as aliadas e o complemento do imperialismo europeu; a atividade
missionria fazia parte do avano ou da penetrao do Ocidente no mundo no
ocidental.
    Religio dos vencedores, o cristianismo era considerado a fonte do poder do
homem branco. Ele dava acesso  educao, ao emprego, ao poder e  influncia
no mundo do branco. A ponta de lana da pregao missionria era a particu-
laridade do cristianismo, especialmente como ele era entendido e interpretado
pelas misses europeias. Recorrendo  palavra (evangelizao direta),  escola
e ao trabalho mdico, os missionrios obtiveram numerosas converses, com
sucesso formidvel no final do sculo XIX. Em consequncia, surgiram inme-
ras comunidades crists onde antes no havia e muitos africanos convertidos
assumiram o trabalho de evangelizao de seu povo. O registro escrito de vrias
lnguas africanas e o ensino das lnguas europeias nas escolas favoreceram a alfa-
betizao um pouco por toda a parte da frica. O registro dos falares africanos
levou ao surgimento da literatura escrita em diversas lnguas do continente.
    A estreita ligao do cristianismo com a educao no est sendo exagerada,
haja vista que foi graas s inmeras escolas fundadas pelos missionrios que
muitos africanos entraram em contato com a religio crist. De fato, em muitas
partes da frica, a escola era a igreja. A importncia das escolas para o trabalho
missionrio foi muito bem acentuada por Elias Shrenk:
     Se ns tivssemos uma nao com educao regular, capaz de ler e escrever, os meus
     planos para a obra das misses seriam diferentes. Mas, no momento, estou conven-
     cido de que a abertura de escolas constitui a nossa principal tarefa. Tenho pssima
     opinio a respeito dos cristos que no so capazes de ler a Bblia. O menor aluno
     tem vocao missionria e estabelece com os adultos uma relao que no existiria
     sem a escola30.
   Os missionrios desempenharam importante papel na introduo da econo-
mia monetria na frica. As misses formaram plantaes em inmeras partes
do continente, acrescentando outras espcies  cultura dos produtos locais e aju-
dando na difuso do cacau, do caf, do tabaco, do algodo e da cana-de-acar.
Mas, sobretudo, o cristianismo difundia ideias novas. As ideias, na verdade, no
eram inteiramente novas e havia pontos de convergncia entre as pregaes dos
missionrios e as crenas dos africanos, como a f em Deus e a obedincia 
vontade dele enquanto juiz supremo e criador do homem.

30   Citado por DEBRUNNER, 1967, p. 145.
612                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Contudo, os missionrios manifestavam atitude negativa para com a cultura
e a religio africanas. Desde o incio estavam decididos a destru-las. Prega-
vam que o nico deus verdadeiro era aquele cuja natureza e essncia haviam
sido reveladas pela Bblia; que todos os outros deuses no passavam de iluses;
que o filho de Deus, Jesus Cristo, era a revelao suprema e nico salvador da
humanidade; que a igreja era a nica a dispensar a graa divina e que fora dela
no havia salvao. Desse modo, os missionrios europeus consideravam dever
divino conduzir todos os povos ao domnio da graa e da salvao.
    Imbudos da convico de serem donos da nica verdade, condenavam tudo
o que fosse "pago". Pregavam contra todas as formas de prticas tradicionais: o
derrame de libaes, a celebrao de cerimnias de pompa, batuques e danas,
as cerimnias tradicionais dos ritos de passagem, como a conduo do recm-
-nascido para alm da soleira, os ritos de puberdade das moas e os costumes
ligados aos mortos e aos enterros. Tambm negavam a existncia dos deuses, das
feiticeiras e de outras entidades sobrenaturais em que os africanos acreditavam.
De modo geral, tornar-se cristo significava, em larga medida, deixar de ser
africano e tomar como ponto de referncia a cultura europeia. O cristianismo
exercia, portanto, uma fora desagregadora sobre a cultura africana.
    A reao africana aos esforos dos missionrios assumia trs modos dife-
rentes: aceitao, rejeio e adaptao. No h a menor dvida de que muitos
africanos aceitaram voluntariamente a nova f e de que o cristianismo ganhou
bem mais adeptos na frica durante este perodo do que ganhara nos dois ou
trs sculos anteriores. O primeiro grupo de africanos a abraar o cristianismo
foi o dos prias e dos indivduos rejeitados, como os leprosos e todos quantos
sofriam de diversas formas de invalidez social, nas sociedades africanas tradicio-
nais. Pertenciam a essa categoria os que tinham violado certos tabus tradicionais
e fugiam das perseguies, assim como as mulheres que davam  luz gmeos, nas
sociedades em que havia tabu contra o nascimento de gmeos. Essas mulheres
refugiavam-se, com os filhos, nos estabelecimentos das misses. Os prias no
tinham nada a perder com a converso  ao contrrio, os ensinamentos dos mis-
sionrios sobre a igualdade e a fraternidade davam a eles esperana, confiana e
inspirao. Acolhiam com fervor "a ideia de que no se deve aceitar de maneira
fatalista a sua posio na vida, como se ela escapasse ao controle humano"31.
    Mas a expanso do cristianismo na poca colonial no se deveu exclusiva-
mente  iniciativa dos missionrios. Os convertidos, catequistas e ministros do


31    HULL, 1980, p. 143.
A religio na frica durante a poca colonial                                   613



culto africanos difundiam com zelo sua nova religio, enquanto alguns chefes
tradicionais, como Lewanika e Lobengula, davam toda ajuda aos missionrios.
Boa parte da expanso do cristianismo pode, portanto, ser atribuda ao zelo dos
africanos convertidos, especialmente durante o perodo que se seguiu a 1914.
Houve inmeros casos de evangelistas africanos que deixaram seus prprios
grupos tnicos para trabalhar como missionrios. Assim, os evangelistas de
Buganda levaram o cristianismo a outros povos, como os Banyakare, os Bakiga,
os Batoro, os Bagisu e Langi, chegando at Ruanda e o Congo Belga. Um dos
mais clebres foi Canon Apoio Kivebulaya (1866-1933), que trabalhou entre os
pigmeus como missionrio no Congo Belga, de 1896 a 1899, e depois de 1915
a 193332. Na frica ocidental, o bispo yoruba Samuel Ajayi Crowther trabalhou
no vale do Nger. O profeta liberiano itinerante William Wade Harris (ver fig.
20.4) viajou atravs da Costa do Marfim e do distrito de Apolnia, na Costa
do Ouro, entre 1910 e 1915, convertendo cerca de 100 mil pessoas. Expulso
da Costa do Marfim, retirou-se para a Costa do Ouro; suas atividades nos dois
pases redundaram na criao da glise Harriste (Igreja Harrista) na Costa do
Marfim e da Twelve Apostles Church (Igreja dos Doze Apstolos) na Costa
do Ouro33.
    Havia ainda os j mencionados africanos que rejeitavam em bloco a men-
sagem crist e se mantinham fiis s tradies religiosas e culturais de seus
antepassados, encontrando nelas mais significado do que naquilo que os mis-
sionrios pregavam. Alguns deles participaram das perseguies e do ostracismo
aos africanos convertidos, mas outros realizavam igualmente sacrifcios e prti-
cas destinados a manter a harmonia entre os seres humanos e as foras espiri-
tuais. Era entre essas fileiras que se encontravam os chefes religiosos e culturais,
assim como os curandeiros. Foram eles em grande parte os responsveis pela
preservao dos valores africanos e a eles devemos os conhecimentos sobre as
culturas africanas tradicionais.

     Igrejas separatistas
   Por fim, havia aqueles que preferiam adaptar a nova religio, fundando as
chamadas igrejas separatistas ou independentes. Esse processo constitui a quarta
etapa da histria do cristianismo na frica. As igrejas independentes obedeciam
a dois tipos principais: aquelas originadas de cises com outras igrejas indepen-


32   Ver LUCK, 1963.
33   Para maiores detalhes, ver HALIBURTON, 1971.
614                                                         frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 20.4 William Wade Harris, o evangelista liberiano da frica ocidental (aprox. 1865 -1929).
(Foto: Methodist Missionary Society.)
A religio na frica durante a poca colonial                                   615



dentes e aquelas surgidas sem qualquer vinculao com grupos j existentes.
Na maior parte dos casos, procuravam integrar  vida crist uma parcela mais
importante das crenas e prticas africanas do que as igrejas controladas pelas
misses o permitiam. Eram expresso do desejo africano de encontrar "um lugar
onde se sentir em casa" e de incluir noes religiosas africanas nas liturgias cris-
ts. Um dos fatores que mais contribuiu para o aparecimento dessas igrejas foi a
traduo da Bblia em vrias lnguas africanas, bem como a leitura e interpreta-
o das Santas Escrituras pelos africanos. Com base na compreenso que delas
faziam, os africanos formavam ou fundavam suas prprias igrejas, pondo fim ao
monoplio da interpretao das Escrituras, que sempre fora dos missionrios.
    As igrejas originadas de cises representavam em grande parte a reao ou
adaptao africana ao colonialismo, e tinham carter emancipador. Proliferaram
e atraram os nacionalistas africanos, principalmente nas zonas de povoamento
europeu, onde a represso poltica era intensa. Pode-se, aqui, citar o exemplo das
igrejas etopes da frica do Sul, que defendiam os direitos polticos dos africa-
nos e o progresso autnomo da frica. Nehemiah Tile rompeu com a igreja da
misso metodista em 1882 e fundou, dois anos depois, a Igreja Tembu34, uma
das primeiras independentes jamais criadas na frica. A segunda  e primeira
a ser chamada de "etope"  foi fundada em 1892 por um pastor de Wesley,
Mangena M. Mokone, mais uma vez na frica do Sul. O movimento "etope"
difundiu-se por outras partes da frica meridional e oriental.
    Em outras reas do continente, as igrejas originadas de cises exprimiam
muitas vezes uma hostilidade declarada  administrao colonial. John Chilem-
bwe, por exemplo, fundou a sua Province Industrial Mission na Niassalndia (ver
fig. 20.5), e atacou violentamente as prticas coloniais britnicas em matria de
impostos e de recrutamento militar. Acabou por travar uma luta armada contra
a administrao colonial inglesa, antes de ser capturado e executado, em 1915.
Quase na mesma poca, comeou a tomar impulso o Watchtower Movement
(Movimento da Torre de Vigia). Partindo da Niassalndia, espalhou-se rumo 
Rodsia do Sul (atual Zimbbue), entre os Shona, e assumiu carter poltico bem
acentuado. O movimento africano correspondente, que se propagou  frica
central e ao Congo, era diferente: suas origens remontavam  igreja separatista
fundada por Elliot Kamwana no norte da Niassalndia em 1908. Tornou-se
conhecido como movimento Kitawala (Reino) ou Church of the Watch Tower




34   Ver SUNDKLER, 1961, p. 38-9.
616                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935



(Igreja da Torre de Vigia); na Rodsia do Norte (atual Zmbia), seus pregadores
milenaristas prediziam o colapso total do colonialismo e o fim do mundo35.
    Processos semelhantes desenrolaram-se em outras partes do continente,
principalmente s vsperas da Primeira Guerra Mundial. O exemplo de William
Wade Harris na frica ocidental j foi estudado. Em 1921, Simon Kimbangu
(ver fig. 20.6) fundou a sua glise-de-Jsus-Christ-sur-la-terre par le Prophete
Simon Kimbangu  EJCSK (Igreja de Jesus Cristo sobre a Terra pelo Profeta
Simon Kimbangu), no Congo Belga (atual Zaire). Seus partidrios recusavam-se
a pagar impostos  administrao colonial e declaravam no cumprir o trabalho
forado por ela reinstitudo. Esses atos constituam verdadeira ameaa para a
administrao belga e, para evitar um levante geral no pas, Simon Kimbangu
foi preso e encarcerado at a morte, em 1951. Mas o kimbanguismo conti-
nuou a propagar-se at o curso inferior do Congo36. O movimento neokim-
banguista denominado Mission des Noirs (Misso dos Negros), fundado por
Simon-Pierre Mpadi e que se tornou conhecido como movimento "khakista",
propagou-se do baixo Congo at o Congo francs (hoje Repblica Popular do
Congo) e Ubangui-Chari (atual Repblica Centro-Africana).
    Orientao semelhante tinham os movimentos fundados em Uganda por um
ex-soldado dos King's African Rifles, Ruben Spartas Mukasa, que consagrou a
vida a trabalhar pela redeno de toda a frica,  custa de sua pessoa. Sua Afri-
can Progressive Association (Associao Progressista Africana) e o Christian
Army for the Salvation of Africa (Exrcito Cristo para a Salvao da frica),
assim como um ramo da Igreja Ortodoxa Africana que ele criou, exprimiam
bem o objetivo social e poltico desses movimentos. Na Niassalndia, Jordan
Nguma fundou a Last Church of God and His Christ (ltima Igreja de Deus
e de Seu Cristo), que tinha a mesma inspirao da de Musaka em Uganda.
    Outras igrejas, inspiradas na Reforma, acentuavam certos aspectos da teolo-
gia crist que as igrejas fundadas pelas misses tinham negligenciado. As igrejas
sionistas da frica do Sul davam nfase  posse pelo Esprito Santo,  cura e 
profecia. Espalharam-se por toda a frica meridional e oriental. A Diniya Roho
(Igreja do Esprito Santo)37, que se desenvolveu entre os Abaluyia do Qunia e
foi fundada por Jakobo Buluku e Daniel Sande em 1927, considerava o batismo
pelo Esprito Santo, o dom de falar por lnguas e a livre confisso dos pecados
condies necessrias para pertencer a ela. Alfayo Odongo tambm realava o

35    Para maiores detalhes, ver o captulo 27 deste volume.
36    Ibid.
37    ODINGA, 1967, p. 69.
A religio na frica durante a poca colonial                                                   617




figura 20.5 O reverendo John Chilembwe (1860/1870-1915), chefe da revolta de 1915 na Niassalndia, e
sua famlia. (Foto: Edinburgh University Press.)
618                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



papel do Esprito Santo ao fundar sua Joroho Church (Igreja do Esprito Santo)
entre os Luo do Qunia, em 1932. Vrias igrejas africanas e Aladura, na frica
ocidental, davam igualmente nfase  possesso pelo Esprito Santo.
    Havia igrejas com objetivos mais limitados. Em 1910, entre os Luo do Qu-
nia ocidental, foi fundada a Misso Nomiya Luo, por John Owalo; a igreja ado-
tou a circunciso e fez dela condio para a salvao. Embora a circunciso no
fizesse parte das tradies dos Luo, a igreja queria introduz-la de acordo com
o precedente bblico38. Outras igrejas foram criadas especialmente para aqueles
que no haviam conseguido observar as recomendaes das igrejas missionrias
a propsito da monogamia, sendo por isso excludos, bem como para aqueles
que no podiam entrar para essas igrejas porque j eram polgamos. A ttulo
de exemplo, citemos a Igreja Africana Nacional39, que prosperou no distrito
Rungwe, em Tanganica, nos anos 1930.

      Cristianismo africano
    Ao lado dessas igrejas, outras haviam surgido, e no eram produto do alvio
da ansiedade ou da presso social, mas inspiravam-se em uma ideologia mais
positiva. Desde a introduo do cristianismo na frica, alguns convertidos
tinham aceito a nova f por completo. Outros, ao contrrio, aceitavam-na com
base naquilo que j sabiam, compreendendo o cristianismo a partir dos conceitos
fundamentais da religio africana tradicional, de modo a associar a mensagem
de Cristo s suas profundas necessidades religiosas.
    Nessas condies, o cristianismo no vinha simplesmente substituir as cren-
as e prticas religiosas tradicionais, mas complement-las. Em outras palavras,
alguns cristos africanos empregavam o cristianismo para reforar aspectos mais
frgeis das crenas tradicionais, do mesmo modo como recorriam s crenas
tradicionais para reforar supostas lacunas do cristianismo. Assim chegaram ao
que sinceramente acreditavam ser uma religio repleta de sentido, podendo esse
cristianismo ser considerado como expresso do modo de ser religioso africano.
Foi por isso que o denominamos "cristianismo africano".
    Subjacente a ele, est uma expresso de criatividade religiosa e de integri-
dade cultural e no uma simples reao, mera resposta ou adaptao a estmulos
exteriores, como certos especialistas tendem a pensar. Geralmente, com poucas
excees, a explicao para o aparecimento e a proliferao dos movimentos


38    ATIENO-ODHIAMBO, 1974, p. 10-1.
39    RANGER, s.d., p. 16-20.
A religio na frica durante a poca colonial                                                   619




figura 20.6 O profeta Simon Kimbangu (c. 1890-1951), fundador da glise-de-Jsus-Christ-sur-la-terre
(Igreja de Jesus Cristo sobre a Terra), no Congo Belga. (Foto: Tshibangu.)
620                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



cristos autctones baseia-se em fatores a eles externos, o que lhes confere uma
racionalidade funcional ou, pelo contrrio, fisionomia aberrante e irracional.
Essas interpretaes no so inteiramente despidas de validez, mas tendem a
superestimar o papel dos fatores externos no aparecimento dos movimentos
cristos. Assim, quando so chamados de "igrejas independentes", subentende-se
que exista, fora de sua esfera, um ponto de referncia mais importante:
    Ao associar ousadamente o cristianismo  tradio africana, as igrejas autc-
tones satisfazem a fome espiritual de seus adeptos, representando o Evangelho
de forma compatvel com a viso de mundo africana tradicional.
    Diversas formas de adorao foram encontradas para satisfazer as neces-
sidades espirituais e emocionais dos membros da igreja, permitindo assim ao
cristianismo, tal como  religio tradicional, abranger todas as dimenses da vida
humana e preencher todas as necessidades do homem. Entre elas, o desejo de
cura, noo cujo carter central na religio tradicional e no cristianismo africano
nunca ser demasiado acentuar. A cura contribui para a plenitude do homem e
a esse respeito a religio  essencial. Alm da cura, as necessidades religiosas de
adivinhao, de profecia e de vises tambm so satisfeitas, pois existe a firme
crena de que Deus revela o futuro e as causas do infortnio por meio de vises.
Enquanto as igrejas das misses negam a existncia de foras do mal, como o
feitio e a bruxaria, as igrejas autctones reconhecem-nas e garantem proteo
crist contra esses poderes negativos, acreditando profundamente que Jesus
Cristo pode, realmente, proteger e curar.
    O reconhecimento da realidade das foras do mal, como a feitiaria, constitui
ao mesmo tempo uma aceitao da viso africana do mundo e uma reminis-
cncia do universo bblico, que reconhecia a existncia de demnios e espritos
malignos, assim como dos prncipes, das potncias e dos senhores das trevas
deste mundo. Neg-los, como o faziam os missionrios, era ser ocidental, mas
no forosamente bblico, j que a Bblia reconhecia esses poderes, ao mesmo
tempo que proclamava que Deus tinha domnio sobre eles.
    O aparecimento das igrejas crists autctones deu oportunidade aos africa-
nos de desenvolver um cristianismo prprio e autnomo: um cristianismo ver-
dadeiramente africano, alis acompanhado do nascimento da primeira teologia
africana. Essas igrejas atravessaram as fronteiras tnicas e at internacionais,
unindo vrios povos na mesma f e na mesma prtica. Numa poca de mudanas
terrivelmente profundas e radicais para a vida africana, elas proporcionaram a
muita gente proteo religiosa ou cultural.
    Citemos, aqui, algumas igrejas crists autctones surgidas durante o per-
odo colonial e ainda hoje bastante ativas: a Apostolowa Fe Dedefia Habobo
A religio na frica durante a poca colonial                                                621



(Sociedade da Revelao Apostlica), na Costa do Ouro; a Negro Church of
Christ, na Nigria; a glise des Banzie, no Gabo; Dini ya Nsambwa (Igreja
dos Antepassados), no Qunia; e tambm a Calici ca Makolo (Igreja dos Ante-
passados), na Niassalndia; a original Igreja do Pssaro Branco, entre os Zazuru
da Rodsia do Sul; a Igreja de Cristo para a Unio dos Bantu e Proteo dos
Costumes Bantu, na frica do Sul; a glise des Noirs, no Congo; e a Igreja
Herero do Sudoeste Africano, na atual Nambia40. Falta acrescentar as igrejas
que acentuavam a natureza autctone do seu cristianismo, tomando o nome da
etnia dominante ou incluindo o adjetivo "africano" em sua denominao. Para
ilustrar, tomaremos a Igreja Musama Disco Christo, de Gana.

     Igreja Musama Disco Christo
     luz das consideraes precedentes, a Igreja Musama Disco Christo (Exrcito
da Cruz de Cristo), da Costa do Ouro41, pode ser tomada como exemplo de igreja
crist autctone. Seu fundador, o profeta Jemisimihan Jehu-Appiah, adaptou com
sucesso o cristianismo, reorganizando-o pelo modelo Akan e representando-o de
forma compreensvel para a viso do mundo Akan. A igreja surgiu em 1919 como
grupo de orao, a Faith Society (Sociedade da F), vinculado  igreja metodista
de Gomoa Oguan, na regio central da Costa do Ouro. Mas, depois que seu chefe,
o catequista William Egyanka Appiah, foi expulso dessa igreja juntamente com
seus fiis, o grupo transformou-se em igreja plena, em 1922.
    Appiah no criou somente uma igreja da qual era chefe espiritual, mas estabe-
leceu uma dinastia de que se tornou fundador, com o ttulo de Akaboha I (rei), e seu
filho, Akasibuna (prncipe), ficando, segundo a constituio da igreja, "encarregado
de perpetuar esta linhagem de sucesso como um direito divino, assim como o
prescreve o Esprito Santo"42. A esposa do fundador, a profetisa Natholomoa Jehu-
-Appiah, tornou-se a Akatitibi (rainha-me) da igreja; rei e rainha tornaram-se
desde logo as autoridades supremas da Igreja Musama Disco Christo. Na quali-
dade de chefe e profeta de um movimento espiritual, Jemisimihan Jehu-Appiah
dele fez "uma igreja crist autctone, destinada a servir como nosso humilde
presente: uma `mirra' da frica a Cristo, que  nossa divina e preciosa oblao, sem
querer saber se os outros esto oferecendo ouro ou incenso43",


40   Para maiores detalhes, ver WEBSTER, J. B., 1964; TURNER, H. W., 1965 e 1967; WISHLADE, 1965;
     HAYWARD (org.), 1963; BAETA, 1962.
41   Para maiores detalhes, ver OPOKU, 1978.
42   Constituio da Igreja Musama Disco Christo, MOZANO, 1959, p. 11.
43   Ibid., p. 11.
622                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 20.7 O profeta M. Jehu-Appiah, Akaboha III, neto e sucessor do fundador da Igreja Musama Disco
Christo (Costa do Ouro, Gana), carregado em andor durante o Festival Anual da Paz. (Foto: K. Asare Opoku.)
A religio na frica durante a poca colonial                                             623



    A igreja estava organizada segundo o modelo do tradicional Estado Akan
(Oman), cuja estrutura repousa sobre formao militar.  frente do Oman (Estado)
encontra-se o Nana Akaboha, que combina os poderes espiritual e temporal. O
Akaboha tem seus chefes de diviso e seus lugares-tenentes. A importncia desta
estrutura Akan reside no fato de estar ligada  histria e ao desenvolvimento da
igreja. Destino e misso da igreja se refletem nesta estrutura e em suas divises.
    A sede da igreja, Mozano, funciona como um ahenkro, cidade-capital de um
tradicional Estado Akan.  l que reside o Akaboha e onde so tomadas todas
as decises essenciais que interessam  igreja; tambm  l que se desenrola a
festa anual Asomdwee Afe (Festival da Paz). No ahenkro encontramos altares e
lugares santos, onde os fiis oram e recebem a cura.
    Os membros da igreja se distinguem dos outros pelo emprego de anis e de
cruzes de cobre, que equivalem a "marcas tribais". Os nomes celestes que cada
membro recebe e que so peculiares  igreja tambm equivalem a "nomes tri-
bais". A igreja tem linguagem prpria, osor kasa (linguagem celeste), empregada
para saudaes e para se entrar nas casas; os nomes utilizados na igreja tambm
provm dessa linguagem. Embora no esteja muito difundida, basta para dis-
tinguir a igreja como um oman com sua prpria lngua. Os membros da igreja
pertencem a diversas etnias e divises, fato em grande parte determinado pelas
necessidades das pessoas que vm buscar na igreja solues para seus problemas
de vida. Como a religio tradicional,
     o cristianismo praticado no oman de Musama  uma religio do ser e do fazer, e repre-
     senta um refugo do cristianismo missionrio, que  essencialmente a religio de uma
     cultura intelectual. [O cristianismo da Igreja Musama Disco Christo]  uma religio
     concebida para a vida cotidiana, que oferece respostas satisfatrias para os problemas da
     vida contempornea. Ao contrrio do cristianismo missionrio, que nega a existncia
     dos demnios, das feiticeiras e dos espritos malignos, a Igreja Musama reconhece a
     existncia desses seres, embora demonstrando o poder que Deus exerce sobre eles44.
   A igreja apoia-se fortemente na religio e na cultura Akan, na busca de
respostas satisfatrias para os problemas da vida contempornea, combinando
elementos do metodismo e tendncias essencialmente africanas. Representa
uma extenso do cristianismo na frica, com base na convico de que  possvel
edificar uma sociedade crist sobre os alicerces da cultura africana.




44   OPOKU, 1978b, p. 121.
624                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



      Concluso
    O perodo de dominao colonial que vai de 1880 a 1935 no assistiu 
destruio, mas antes  confirmao do pluralismo religioso na frica. O cris-
tianismo ortodoxo e o islo tambm realizaram importante progresso, devido
a certas atividades dos administradores coloniais. A religio tradicional assim
como as religies-hspedes constituram a base sobre a qual se ergueram as
novas religies, embora tenham-se operado inmeras mudanas de perspectiva.
A expresso institucional da religio tradicional foi muito afetada pela nova
ordem, mas sua viso de mundo perdurou mesmo entre os africanos que fizeram
profisso de f crist ou islmica. A existncia do pluralismo religioso gerou
rivalidades e at conflitos em vrias partes da frica, mas, ao mesmo tempo,
possibilitou um dilogo interconfessional.
    O enfraquecimento da religio tradicional significou, igualmente, o enfra-
quecimento de grande nmero de instituies sociais e polticas tradicionais,
que dela dependiam. Assim, a moralidade, a teia de relaes familiares, a coe-
so comunitria e a instituio dos rgulos enfraqueceram muito, embora sem
desaparecerem por completo.
    O perodo assistiu ao nascimento das igrejas autctones, por vezes ditas "inde-
pendentes", "separatistas", "em ruptura" ou "etopes". As causas desse fenmeno so
mltiplas, mas a presena colonial e a expanso da alfabetizao foram determi-
nantes. No entanto, quaisquer que sejam as razes, este processo marca a quarta
etapa da histria do cristianismo na frica, perodo em que, por iniciativa exclusiva
dos africanos, um novo tipo de cristianismo, adaptado  viso africana do mundo,
foi criado e atraiu milhares de fiis. Essas igrejas proporcionaram a seus membros
uma alternativa para os seculares servios dos curandeiros e adivinhos, ainda que,
se necessrio, as pessoas continuassem a consultar os "mdicos" tradicionais.
    De maneira geral, o surgimento concomitante de vrias religies, ao lado da
religio tradicional nica, provocou uma fermentao de ideias que enriqueceu
a vida religiosa. As trs religies fizeram emprstimos recprocos para se adap-
tarem s necessidades dos fiis.
    A religio tradicional, porm, continua a resguardar seu valor pleno, em face das
mars de individualismo, secularismo, desenraizamento, excessiva explorao da
natureza e at atesmo, que se seguiram  chegada dos ocidentais  frica. Ela ofe-
rece uma outra perspectiva dos problemas universais do homem, e no est separada
da vida diria nem da natureza. Sua viso do mundo constitui um contrapeso salutar
 aridez que tanto caracteriza a dimenso espiritual dos tempos modernos.
As artes na frica durante a dominao colonial                        625



                                       CAPTULO 21


                     As artes na frica durante
                       a dominao colonial
                                             Wole Soyinka




    Em fevereiro de 1976, na Nigria, um homem foi detido por uma barreira
policial entre Ibadan e Lagos. Transportava suspeitamente dois sacos cheios de
esculturas de bronze e de madeira, talvez roubadas, embora o homem afirmasse
que eram dele. Investigado o caso, apurou-se que falava a verdade. Convertido
havia pouco ao islo, vivia e trabalhava em um centro comunitrio de Ibadano
As efgies esculpidas das divindades yorub que levava consigo haviam sido
trazidas para Ibadan, como tantas outras, por trabalhadores migrantes, para
satisfao das aspiraes espirituais desses operrios, pequenos comerciantes,
funcionrios e outros, na sua residncia provisria. Mas o chefe da comunidade,
que se convertera ao islo, decidiu converter igualmente seus vizinhos. Conver-
tido tambm ele, disseram ao suspeito que os smbolos de sua antiga f deviam
desaparecer para permitir que o centro comunitrio se tornasse a morada digna
da presena espiritual de Al. Incapaz de destruir os objetos, o homem resolveu
lev-los de volta para sua aldeia, de onde eram provenientes.
    O incidente constitui exemplo perfeito da evoluo das formas culturais, de
sua manifestao concreta e, ao mesmo tempo, da sobrevivncia, ou melhor, da
renovao dos valores culturais em face de certas formas de dominao, quer se
revistam de aspecto religioso, quer mais nitidamente social. O que continuava
verdadeiro em 1976 era ainda mais comum durante o perodo excepcional-
mente dramtico da dominao da frica, que assistiu  submisso de todo um
626                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



povo, de sua organizao social, de seus modos de comportamento econmico
e artstico, por estratgias de total explorao pelos interesses estrangeiros. O
trfico de escravos intensificara guerras intestinas durante mais de dois sculos,
causando devastaes culturais de amplitude sem precedentes. As expedies
punitivas das foras coloniais, a intolerncia e a incompreenso dos mission-
rios, tudo isso havia perturbado profundamente a vida cultural do continente.
Diferentes mtodos na dominao estrangeira e nas relaes com a populao
africana, bem entendido, inspiravam ou suscitavam nos africanos deslocados
diversas reaes culturais. Regra geral, considera-se que o colonialismo mostrou
sua face mais brutal nas colnias belgas e portuguesas da frica, assim como
entre os colonos britnicos da frica oriental, favorecendo o aparecimento de
um tipo de africano que realmente se pode qualificar como pessoa deslocada, no
sentido literal da palavra. A penetrao rabe, nica no seu gnero, apresenta a
ambiguidade de um expansionismo que, no obstante, deixou fortes marcas na
paisagem cultural. De qualquer maneira, a impresso que nos d este perodo
 a de resistncia, quer dizer, de maior vitalidade das formas e valores culturais
autnticos das populaes autctones.


      A arte africana
     difcil avaliar o impacto qualitativo das atividades comerciais imperia-
listas sobre a produo artstica. Com toda a certeza, certos tipos de atividade
no foram afetados.  o caso, por exemplo, da tcnica das contas pintadas dos
artistas de Camares ou da escultura religiosa dos Yoruba, Baule, Bakota etc.
(ver fig. 21.1). Outras modalidades de arte acusavam, no entanto, um processo
de quase imperceptvel transformao, tanto na forma quanto no contedo.
Embora conservando grande parte de sua sutileza cromtica, a arte mural Mbari
dos Igbo (Nigria) comeou a apresentar, pelas mos dos trabalhadores vindos
das aldeias, contrastes violentos de cores, do tipo pop art, que se explicam pela
sbita descoberta da possibilidade de utilizar toda uma nova gama de cores e
de materiais. Anteriormente, essa arte mural estava limitada por sua prpria
natureza e pelo estreito espectro das tintas fabricadas na regio.
    Significativamente, o festival anual do canto de Koumina  departamento
de Bobo-Dioulasso-Kournina, no Alto Volta administrado pelos franceses  foi
marcado por um debate que opunha "tradicionalistas" e "modernistas", precisa-
mente sobre o problema das tintas. Os produtores tradicionalistas de mscaras
preferiam a tcnica antiga das tintas naturais, no s devido a razes relativas ao
                                                                                                                          As artes na frica durante a dominao colonial
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figura 21.1   Esttuas de madeira provenientes de um santurio Yoruba dedicado a Shango. (Foto: Werner Forman Archive.)
628                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



seu aspecto visual e  sua textura, mas tambm por pensarem que devia existir
uma relao orgnica entre os materiais da produo artstica. Os "modernistas"
achavam que no s as cores importadas eram mais fceis de usar, como tambm
que ofereciam maiores possibilidades de escolha. Ainda nesse festival das colhei-
tas, que reunia ferreiros, teceles, fabricantes de tintas, escultores, danarinos e
feiticeiros de todos os cantes vizinhos, alm dos famosos msicos de Diagaso,
os Kare, encontramos outro exemplo da persistncia da criatividade coletiva,
apesar do processo de desintegrao comunitria acelerado pelo sistema imposto
pelos administradores coloniais a seus empregados. Ao menos uma vez por ano,
quando desta manifestao, nica por sua importncia, as famlias dispersas se
reencontravam na cidade para afirmar por meio da arte a autenticidade de sua
viso do mundo.
    O artesanato local dificilmente poderia rivalizar com a produo industrial,
que inundava os mercados africanos j desde o incio da colonizao. O objeto de
arte perde, ento, o papel integrado que lhe cabia na evoluo normal da comu-
nidade, conforme testemunha o declnio da arte do forowa e do kuduo (ver fig.
21.2), recipientes finamente cinzelados dos Ashanti (Costa do Ouro, atual Gana)
cujos motivos decorativos eram, como de costume na frica, ideogramas expri-
mindo a sabedoria tradicional, provrbios, conselhos morais e vinhetas histricas.
Do mesmo modo como os pesos para o ouro, cuja utilidade comercial comeava
a diminuir, os forowa ainda eram habitualmente usados como caixas de rap, de
unguentos etc. Mas sua produo fora largamente abarcada por fabricantes do
Reino Unido que, alm disso, podiam dispor de maior escolha de metais. Doran
H. Ross1 registrou um forowa de prata onde se lia, estampado, "Birmingham,
1926". Em contraposio, nada indica que a ornamentao das canoas tenha
experimentado, no decurso do mesmo perodo, um empobrecimento comparvel
no que se refere  unio esttica entre imagem e sentimento; exatamente como
nos veculos motorizados, que comearam a aparecer a partir de 1910, bem como
nos panos tecidos, essa tcnica continuou a perpetuar a estratgia de educao
comunitria que se poderia classificar como "ensino em movimento".


      Arquitetura africana
   Um olhar mais atento ao projeto, ao exterior e ao interior de algumas das
palhoas africanas tradicionais mais harmoniosas, revelaria a existncia de um

1     ROSS, D. H., 1974, p. 45.
As artes na frica durante a dominao colonial                                      629



gnio arquitetnico entre a populao autctone, capaz de se exprimir em formas
concretas e sbias, flagrantemente contrastante com a disposio uniformemente
retilnea das habitaes dos africanos arregimentados nas plantaes belgas e
francesas (especialmente). Andr Gide nos d, justamente, uma descrio deta-
lhada dessas palhoas na obra Voyage au Congo (1927):
    A palhoa de Massa no se parece com nenhuma outra,  verdade; mas ela no 
    apenas `estranha':  bela; e no  tanto a sua forma estranha como a sua beleza o que
    me comove. Beleza to perfeita, to bem executada, que parece inteiramente natural.
    Nenhum ornato, nenhum suprfluo. Sua pura linha curva, que no se interrompe
    da base  cumeeira,  como se fosse obtida matemtica ou fatalmente; calcula-se a
    intuitivamente a resistncia exata dos materiais. Um pouco mais ao norte ou ao sul,
    o barro, misturado com areia demais, talvez no permitisse este mpeto sutil, que
    termina numa abertura circular, pela qual somente o interior da palhoa recebe luz, 
    maneira do panteo de Agripa. Do lado de fora, uma srie de caneluras regulares d
    vida e tom a essas formas geomtricas e permite alcanar a p a cumeeira da palhoa,
    amide alta de sete a oito metros; elas ajudaram a construo sem necessidade de
    andaimes; a palhoa foi feita  mo como um vaso; no  trabalho de pedreiro, mas
    de oleiro [...]
    Dentro da habitao sente-se um ar fresco e delicioso, j que vimos l de fora abra-
    sados. Por sobre a porta, como se fosse um enorme buraco de fechadura, uma espcie
    de prateleira de escaninhos, com vasos e objetos de uso domstico. As paredes so
    lisas, brilhantes, envernizadas. Em face da entrada, uma espcie de tambor alto, de
    terra, belamente ornamentado com motivos geomtricos em alto e baixo, pintados
    de branco, vermelho e negro: so tulhas de arroz. A tampa de barro  fechada her-
    meticamente com barro, e a parte de cima, completamente lisa, parece uma pele de
    tambor. Apetrechos de pesca, cordas e utenslios pendem de cabides de madeira. s
    vezes, um feixe de azagaias, um escudo de junco tranado. Aqui,  meia-luz de uma
    tumba etrusca, passa a famlia as horas mais quentes do dia;  noite, o gado se junta
    a ela: bois, cabras e galinhas; cada animal tem o seu canto reservado e tudo fica no
    seu lugar, tudo limpo, exato, ordenado. Nenhuma comunicao com o exterior assim
    que a porta  fechada. Cada qual est em sua casa2.
   Seria pueril imaginar que todas as habitaes africanas de ento fossem
capazes de suscitar no viajante o mesmo lirismo, mas  lamentvel que poucos
urbanistas da poca tenham procurado inspirao nas lies estruturais dessa
arquitetura tradicional.

2    GIDE, 1930, p. 217-8.
630                                                           frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 21.2   Kuduo akan em cobre, de Gana. (Foto: Werner Forman Archive.)
As artes na frica durante a dominao colonial                            631



    As cidades continuaram a crescer como rplicas ou adaptaes do pla-
nejamento urbano europeu ou, como j dissemos, seguindo um plano rgido
em quarteires, que contribuiu para despersonalizar o africano e abafar a
sensibilidade comunitria. Cumpre reconhecer, no entanto, que foram inseri-
dos bolses de moradias tradicionais por entre as estruturas estrangeiras que
comeavam a invadir a paisagem. Mesmo no centro intensamente urbanizado
das principais cidades do Congo Belga (atual Zaire), do Senegal, da Costa do
Ouro (atual Gana), da Nigria, de Angola etc., perduram bairros tradicionais
que datam do sculo XIX, dominados pela massa dos edifcios de concreto.
Regra geral, tm como centro o poo comunitrio. Uma varanda circular ou
retangular d para um ptio e uma srie de residncias familiares  unida por
um telhado comum; um sistema de drenagem recolhe e evacua as guas para
esgotos a cu aberto nas ruas principais. Mesmo quando se trata de casas
com mais de um andar, a organizao do espao e as relaes entre os planos
revelam as mesmas qualidades libertadoras. Neste particular, a contribuio
dos regressados do Brasil para a frica foi imensa. At nas pequenas cidades
do interior, exemplos isolados de um desenvolvimento interrompido da arqui-
tetura tradicional do perodo nos causam, ainda hoje, a sensao de frustrao
perante essas realizaes em que a criatividade se manifesta sob o aspecto
mais imediato e mais til. As modernas cidades africanas nos fazem lembrar,
constantemente, que seu ambiente no foi modificado segundo a vontade dos
habitantes, mas ao bel-prazer dos colonizadores, com todas as consequncias
alienantes que isso acarretava e que se fizeram sentir inclusive na produo
de outras formas de arte, influenciadas pelo urbanismo, tais como a pintura
mural, a escultura, a msica etc.


    A msica africana
   A autntica msica popular africana continua a nos relembrar o lugar indis-
cutvel desse meio de expresso enquanto fonte de regenerao da vontade
cultural do continente. Os "sales" desempenharam a um papel equvoco: com
poucas excees, o destino da msica na costa da frica ocidental repetiu-se
tambm nas reas da frica austral com as quais a civilizao europeia esta-
beleceu contato cada vez mais estreito no ltimo quarto de sculo. O processo
era o mesmo: a responsabilidade de educar os "indgenas" era confiada aos mis-
sionrios, que fundavam escolas e, usando de engabelao, ameaas (apoiados
na presena intermitente de foras expedicionrias), engodos comerciais e uma
632                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



variedade de irrefutveis demonstraes do nvel cultural superior dos catequi-
zadores, no tinham dificuldades para ench-las de jovens alunos, cujo estado
de esprito ia do entusiasmo  reticncia.
    Seria ocioso insistir a respeito do ensino ministrado a essa multido de
crianas, mas no se deve supor que o processo de reorientao cultural se apli-
casse apenas aos alunos escolarizados. Do Cabo a Gmbia s havia diferena
nos detalhes:
      [...] dois msicos de Natal, Mr. Ganney e Mr. A. E. Rollands, formaram um coro
      zulu com cerca de 14 vozes, cujos membros foram ensinados a cantar no as suas
      canes indgenas, mas madrigais, cantos para diversas vozes e baladas inglesas. A
      qualidade da sua interpretao foi considerada to boa que justificou uma excurso
      de concertos  frica do Sul e, mais tarde,  Inglaterra. Neste pas, pelo menos cinco
      dos membros do coro o deixaram e caram em descrdito aceitando salrios mais
      atraentes nos music-halls de Londres. Nada mais se sabe do coro zulu de 1892, mas
      foi o precursor de numerosos corais africanos que posteriormente fariam excelentes
      interpretaes de obras europeias3.
   H provavelmente alguma relao entre o que a relatamos e o fato de,
dois anos antes, o extico apetite musical de Durban ter sido aguado pela
invaso de uma troupe de cantores negros dos Estados Unidos que deli-
ciou o pblico com suas "interpretaes sem acompanhamento de peas
de sucesso, como My Old Kentucky Home, Old Black Joe, Jingle Bells (...) e
sobretudo pela riqueza das autnticas vozes negras depois de tantas imita-
es medocres4".
   O autor no prestava, evidentemente, ateno  ironia da histria, a julgar
pelas linhas que j lhe havia inspirado a carreira musical de outro habitante de
Durban:
      As atividades musicais de William Swift estendiam-se  musicologia e, nos momen-
      tos de folga, percorriam os Kraals zulu para ouvir os cantos indgenas que ele depois
      interpretava ao violino, companheiro inseparvel de suas peregrinaes. Dava con-
      certos, durante os quais cantava algumas das 80 rias assim recolhidas, cruamente
      designadas pelo nome de `canes cafres'5.




3     JACKSON, G. S., 1970, p. 117.
4     Ibid.
5     Ibid., p. 50.
As artes na frica durante a dominao colonial                                633



    As "canes cafres" interpretadas por W. Swift perante elegantes auditrios
europeus nos sales de Durban eram, bem entendido, cantadas na mesma
poca em ambientes dos mais profundamente diferentes, do ponto de vista
fsico, espiritual, econmico e social. Para os Kuyu da frica central, esse tipo
de canto servia para invocar o princpio vital da comunidade, por ocasio
de cerimnias como a semeadura e a colheita, a morte e a fertilidade. (H,
evidentemente, todos os motivos para crer que poucos europeus conseguiram
recolher os cantos autenticamente sagrados dessas populaes.) Mas o que
nos interessa aqui  o papel e a funo social da msica, pois ela  que per-
mite, melhor do que qualquer outra forma de expresso artstica, apreender
imediatamente a realidade cultural viva6. Quando os Kuyu, por exemplo, nos
funerais de uma camponesa famosa pela habilidade excepcional no cultivo
da mandioca, executavam do crepsculo  aurora uma sequncia de cantos,
danas e mmicas simblicos, estvamos em presena de uma afirmao da
continuidade da vida, ou seja, de uma evocao concreta da sobrevivncia eco-
nmica para os vivos. As mmicas e os cantos tm a o objetivo deliberado de
transmitir aos vivos a cincia mgica da defunta; ao mesmo tempo, a exploso
vocal e gestual induz a uma catarse da comunidade inteira, expurgando-a de
sua mgoa e dando-lhe foras para continuar a luta pela sobrevivncia. Esta
msica era muito mais que simples "canes".
    A msica contribua, do mesmo modo, para a compreenso do misterioso e
do profundo. Sua irm gmea, a oratria, sempre constituiu, em qualquer comu-
nidade, um meio privilegiado de comunicao oficial e social, principalmente no
que respeita  poltica e  justia.  desnecessrio lembrar a importncia que teve
na guerra. A conjuno da msica com a oratria no quadro das estruturas judi-
cirias formais constitui, ento, outra caracterstica das culturas em que a msica
no  um fenmeno social isolado, mas uma atividade integrada. Os Idoma do
nordeste da Nigria costumavam utilizar nos seus processos judiciais um plano
semicoral, dentro de uma encenao predominantemente teatral. Contra um
fundo de resposta do coro, as partes apresentavam suas razes como verdadei-
ros atores, avanando um a um do fundo do cenrio semicircular formado pela
assistncia, para nele mergulhar de novo. Os gestos eram de uma teatralidade
deliberada, plenamente calculados, mesmo para os efeitos incongruentes. O
processo podia durar de dois dias a uma semana. Entre os Watutsi, os litgios
implicavam o mesmo recurso s tcnicas teatrais. A. Merriam descreve uma


6    NKETIA, 1975, p. 21-4.
634                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935



cena caracterstica da atitude dos Bambala para com a potncia colonial onipre-
sente, que enfeixava cada vez mais em suas mos todas as rdeas de comando
da sociedade.
   Essa realidade da vida contempornea exprimia-se de diversas maneiras
no repertrio cultural, sem que jamais comprometesse o funcionamento da
expresso artstica:
      Primeira parte: Eu estava em minha casa e gostaria de ficar. Mas ele chegou e quer
      discutir o caso em pblico. Ento, deixei a minha casa e  por isso que vocs me
      veem aqui. (Canta:) "Eu sou como um grilo. Gostaria de cantar, mas o muro de
      terra que me cerca no deixa. Algum me forou a sair da minha toca, por isso vou
      cantar." Discutamos o caso, mas lentamente, lentamente, de outra forma teremos
      de recorrer ao tribunal dos brancos. Voc me forou a vir. Quando o sol cair, ainda
      estaremos aqui discutindo. (Canta:) "Sou como o co que se deita diante da porta
      at que lhe deem um osso."

      Segunda parte: Ningum pode seguir em duas direes ao mesmo tempo. Voc
      disse uma coisa e outra. Uma delas  obrigatoriamente falsa.  por isso que o ataco.
      (Canta:) "Um ladro fala com outro ladro.  por voc ser mau que o ataco."7
   Apesar da tendncia  romantizao, ao exotismo racial e a outras formas de
sentimentalismo e preconceito, no se pode negar o lugar da msica na vida dos
povos africanos. Segundo um msico shona contemporneo:
      Grande parte da histria da frica nos foi transmitida [...] pelo canto. [Quando
      se toca mbira e se canta], veem-se desenrolar cenas dos tempos idos e as vagas e
      enevoadas figuras de sonho do passado delineiam-se na poca moderna. Quase se
      pode ver os ancestrais claudicando por entre os vivos8.
   O que j se escreveu sobre feiticeiro das sociedades maliense, senegalesa,
gambiana e guineense, no somente como animador das festividades, mas tam-
bm como testemunha, historiador e porta-voz cultural, vale tambm em grande
parte para o msico shona, cujo instrumento, a mbira (outro nome da senze),
inspirou as observaes que acabamos de citar. O feiticeiro  profusamente cele-
brado em uma epopeia escrita por um negro americano descendente de escravos,
que retomou a Gmbia h menos de 10 anos para tentar encontrar vestgios



7     Recolhido por A. P. Merriam, citado in BRANDEL, 1961, p. 39-40.
8     Majuru, citado in BERLINER, 1978, p. 133.
As artes na frica durante a dominao colonial                              635



de seus antepassados9. Se nos deslocarmos do feiticeiro do oeste do Sudo 
frica central e austral, encontraremos l o seu equivalente, e a epopeia de sua
sobrevivncia numa fase de extrema violncia e instabilidade. Mesmo na frica
austral, com sua histria pica dos construtores do imprio plena de episdios
blicos e violentos, os cinquenta anos da virada do sculo foram singularmente
inseguros e marcados por muitas e brutais disperses dos povos.
    A mbira sobreviveu a esse processo de fragmentao cultural, e chegou
mesmo a criar, entre seus adeptos, uma identidade de cultura, com todo um
sistema de estratificaes sociais do religioso e do profano. As peregrinaes
foradas dos Shona entre o Cabo e a frica central impossibilitam-nos, hoje,
dizer em que medida a instrumentao musical deles  na verdade, as funes
sociais de sua msica  foi introduzida nos ou tomada aos pases vizinhos:
Moambique, Rodsia do norte (atual Zmbia), Tanganica (atual Tanznia),
os dois Congos (atualmente, Zaire e R. P. do Congo), Uganda, onde a prtica
do instrumento estava disseminada, e Rodsia do Sul (atual Zimbbue), onde
a maior parte dos Shona acabou por se concentrar na virada do sculo. O certo
 que a cultura centrada em torno da mbira converteu-se em trao de unio das
populaes dispersas e sobreviveu  incessante e intensiva fragmentao dessas
populaes.
    Os Shona consideravam a mbira como ddiva do grande esprito ancestral
Chaminuka, personagem histrica real de comeos do sculo XIX, segundo
consta. A msica fazia parte integrante da vida social, domnio em que havia
penetrado a ponto de ser indispensvel a diversas atividades, como curas, casa-
mentos, funerais, lavouras, partos, ritos iniciticos e uma infinidade de outros
acontecimentos. Acredita-se que o instrumento propriamente dito fosse "capaz
de projetar seu som em direo ao cu e de estabelecer ligao com o mundo
dos espritos" criando, assim, um lao entre as atividades e os pensamentos dos
vivos e o esprito dos antepassados.
    Os executantes eram sedentrios ou ambulantes. Nem sempre atendiam
aos convites, mas h o caso de clebres tocadores de mbira contratados a
centenas de quilmetros, seja por seu renome artstico, seja porque seu estilo
adaptava-se melhor a um objetivo preciso  regra geral, a entrada de um
mdium em transe.  de ver que a cultura da mbira permitiu manter, para alm
das fronteiras geogrficas, a coeso cultural de uma comunidade. As cerim-
nias mbira, que duravam toda a noite, comeavam pela entrada em transe do


9    HALEY, 1976.
636                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



mdium e prosseguiam com atividades recreativas de carter puramente social,
como dana, canto, recitais poticos (incluindo a comdia) e mmica. J foram
descritas como "uma longa jornada comunal ao fundo da noite". Ao voltar ao
estado normal, o mdium em transe podia pronunciar sentenas sobre litgios
e dar conselhos sobre questes de interesse comum  semeaduras, colheitas e
at sobre poltica.
   Em suas mltiplas formas, a mbira constitui um indicador precioso da evo-
luo interna das culturas musicais da frica. O instrumento de base, uma
caixa de ressonncia provida de cordas tensas e com a forma clssica de uma
cabaa, apresenta naturalmente dezenas de variantes. A forma principal, a mbira
huru dzadzima, considerada a "mbira de todos os antepassados", teria sido o
instrumento do prprio grande ancestral Chaminuka. Sob essa forma  que o
instrumento foi introduzido no Transvaal pelos Shona, durante o xodo dos
Ndebele em direo ao sul no final do sculo XIX, pouco antes de eles haverem
sido repelidos ao norte pelo incio da penetrao europeia no interior. A mesma
variante foi utilizada pelos Venda e pelos Lemba na frica do Sul, e pela etnia
Karanga da poro meridional da Rodsia do Norte, no decorrer do perodo.
De modo geral, a dzadzima gozou de preeminncia durante pelo menos meio
sculo, dado que foi descrito pela primeira vez em um desenho publicado por
Charles e David Livingstone, em 1865.
   Em comeos do sculo XX surge um culto rival, o mashawe, que empregava
a verso njira da mbira, na regio dos Shona. Em menos de dez anos esta ver-
so comeou a suplantar a outra. Frequentemente acompanhada de tambores
e mesmo de flautas, a njira principiou a gozar de certa preferncia, sobretudo
para ocasies sociais como casamentos, nascimentos etc. Os adeptos das duas
escolas eram mesmo designados pelo nome de seus respectivos instrumentos  o
vaMbira para os adeptos da dzadzima, Njanja para os da njira. A essa diviso
tnica acabou por corresponder uma repartio geogrfica que afetava o com-
portamento social, porm de modo sutil, sem romper a unidade cultural dos
adeptos da mbira.
   Os testemunhos dos missionrios, assim como os dos exploradores, con-
firmam a qualidade da emoo coletiva que a mbira suscitava. Eles comparam
o som desse instrumento ao da ctara, do clavecino e da espineta10. Segundo
esses testemunhos, o canto sugere o clima emocional do fado portugus, que,
muito significativamente, era a msica dos saudosistas colonizadores lusitanos


10    BERLINER, 1978, p. 41.
As artes na frica durante a dominao colonial                                 637



da Amrica do Sul. Em qualquer lngua, parece que a experincia do exlio
produz correspondncias musicais identificveis.
   Ao contrrio de muitas outras formas de msica social africana, a mbira
no era uma arte de corte, mas verdadeira msica do povo, do conjunto da
comunidade dispersa. O respeito de que gozavam seus executantes no seio da
comunidade e o apreo votado  sua arte explicam-se por serem considerados
mediadores artsticos entre este e o outro mundo e pelo fato de sua disponibili-
dade e competncia terem-nos transformado em smbolo da coeso tnica numa
poca de violentas convulses. A tal ponto esses msicos dominavam a sua arte
que at os missionrios, apesar da previsvel hostilidade inicial, acabaram sendo
conquistados por ela. No decorrer da dcada de 1920, instrumentos do tipo
mbira comearam a fazer tmida apario nas orquestras religiosas da Rodsia
do Sul. Composies de carter experimental, baseadas nas melodias da mbira,
foram se insinuando nas festas sazonais das misses, encerrando-se o tempo em
que os alunos eram expulsos caso fossem surpreendidos tocando o "instrumento
do diabo" na hora do recreio.
   Dentro ou fora dos quadros da misso, porm, o papel socialmente integrador
da msica permaneceu como o aspecto mais caracterstico da vida cultural do
continente africano. Intermedirio espiritual ou animador, historiador ou cor-
teso a servio de uma classe privilegiada, o msico era um componente bsico
do mecanismo cultural.


     As artes teatrais
    A arte do espetculo era, na maior parte dos casos, prolongamento ou ilustra-
o da msica. Alguns exemplos j citados mostram bem como  difcil delimitar
essas duas modalidades artsticas. No entanto, a evoluo das formas teatrais no
decorrer do sculo XIX, ao contato com influncias externas; ilustra bem melhor
do que a evoluo da msica como se passa de um modo tradicional a modos
adaptados. Assistimos assim, na costa da frica ocidental, ao nascimento de
uma verdadeira dramatizao, que desloca formas e lugares sob o duplo assalto
das proibies islmicas e da evangelizao crist, nascimento reforado pela
influncia dos antigos escravos regressados a Serra Leoa e Libria, os quais
trouxeram consigo as formas de espetculo, as maneiras, os valores, os costumes
e as expresses idiomticas de seus pases de exlio11.

11   KOPYTOFF, 1965, p. 86-133; AJAYI, 1965, p. 25-52; JULY, 1968, p. 177-95.
638                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    O teatro profissional  forma secular, derivada das representaes mascara-
das para funerais de reis  era acontecimento comum no velho imprio Oyo da
Nigria durante todo o sculo XIX. A desintegrao do imprio sob o ataque
dos Peul vindos do norte e as devastaes causadas pela guerra civil com vassa-
los rebeldes do sul produziram, como efeito simultneo, a disperso das troupes
profissionais para o sul e para alm das fronteiras do Daom (atual Benin) e a
sua extino no local de origem. Os muulmanos vitoriosos proibiram a maior
parte das formas de espetculo teatral e, muito particularmente, aquelas asso-
ciadas s festas dos antepassados onde havia representao da figura humana, o
que  interditado pela religio muulmana.
    As convulses polticas no seio do imprio Oyo, onde os grupos teatrais
tinham gozado da proteo de uma monarquia estvel, no favoreceram por
muito tempo a difuso (e a secularizao) do teatro. Os missionrios j avan-
avam da costa para o norte, de modo geral com ligeira vantagem sobre as
empresas comerciais apoiadas pela fora militar12. E foram os missionrios que
completaram o trabalho do islo, proibindo aos fiis a participao em qualquer
culto que fosse. Ora, as companhias teatrais eram administradas como Corpo-
raes familiares, onde os segredos do ofcio e os ritos iniciticos eram moeda
corrente. Os temas tambm eram estritamente tradicionais  razes suficientes
para qualific-los como cultos diablicos, sinistros. A exemplo dos muulma-
nos, os missionrios cristos no se contentaram com a interdio das repre-
sentaes: tal qual a mbira na frica austral, os instrumentos ligados s artes
teatrais foram estritamente proibidos. Assim criou-se o vazio que a cultura dos
ex-escravos veio ocupar. O trfico havia contribudo para a converso religiosa
da costa ocidental, ao mesmo tempo que ameaava a vida cultural. As misses
e suas esferas de influncia, ento, exatamente como na frica austral, garan-
tiam uma certa segurana, e tambm a submisso aos senhores muulmanos,
ao preo inevitvel da renncia a toda arte autntica. O ciclo de substituio
cultural chegava ao fim: depois de ter dilacerado a vida cultural da populao,
o escravagismo moribundo devolvia os filhos da terra com uma nova cultura
destinada a substituir a antiga13.
    Mas a vitria no foi to fcil. O teatro "profano" resistiu aos assaltos e, no
contente em preservar suas formas prprias, transformou-se deliberadamente
em base de resistncia  cultura crist. To resistente se revelou que, sob diversas
formas, participou das experincias tentadas pela elite colonial para desenvolver

12    AYANDELE, 1966, p. 29-70, 117-23.
13    AJAYI, 1965, p. 126-65.
As artes na frica durante a dominao colonial                                    639



um teatro significativo. Pois, no ltimo quartel do sculo XIX, a costa ociden-
tal estava submetida  influncia artstica dos exilados cristianizados. Estes
voltavam confiantes na superioridade da cultura adquirida e impacientes para
provar aos colonos brancos  que agora controlavam a sua existncia  que os
negros eram no s capazes de receber, mas de praticar as refinadas artes euro-
peias. Da resultou uma feliz complicao: apesar do esforo consciente que os
levou a desligar-se culturalmente das populaes autctones do interior, estas
permaneceram "confortvel e firmemente apegadas a seus prprios costumes e
instituies"14.
    As novas formas teatrais (euro-americanas), devidas essencialmente  ini-
ciativa de expatriados vindos para a Libria, Senegal e Serra Leoa, foram se
difundindo de oeste para leste e recebendo novas influncias. A forma arre-
medada de vaudeville dos "Nova Scotians"  como se autodenominavam os
prprios ex-exilados de Serra Leoa , aps ter gozado de sucesso duradouro
ao longo da costa, sofreria transformao na forma e no contedo ao chegar 
regio mais a leste da Costa do Ouro, Daom e Nigria. No  exagero afirmar
que desde os primeiros anos do sculo XX uma forma de espetculo inteira-
mente nova nascera na frica ocidental: o concert party, derivado dos espetculos
"bem-educados" destinados  classe mdia das cidades 15. Eram farsas rudes e
mesmo debochadas, generosamente temperadas com canes de estivadores,
tudo edulcorado para fruio dos membros da aristocracia colonial dos centros
administrativos, que se encontrava entre o pblico.
    Formaram-se "academias" para concertos inspirados no music-hall vitoriano
ou no vaudeville americano. As igrejas crists organizaram as suas prprias repre-
sentaes e a moda dos concertos acabou por chegar s escolas  dia de distri-
buio de prmios, visita do chefe do distrito, aniversrio da rainha Vitria etc.
Os missionrios negros no quiseram ficar alheios  o reverendo Samuel Ajayi
Crowther (fig. 21.3) deixou famoso exemplo de prelado negro que patrocinava e
encorajava de forma notvel esta modalidade de arte, enquanto o reverendo James
Johnson transformava a celebrada Breadfruit Church de Lagos em verdadeiro
teatro16. Aqueles que retornavam do Brasil traziam o perfume extico, e no entanto
familiar, de uma msica que encontrava eco espontneo nas melodias tradicionais
da costa ocidental e do Congo, pois a represso nas cidades no tinha sido dura-
doura o bastante para faz-las carem no esquecimento por completo. Na virada

14   JULY, 1968.
15   TRAOR, 1972, captulo II; OGUNBA e IRELE (orgs.), 1978.
16   AJAYI, 1965, p. 206-38; JULY, 1968, p. 196-207; AYANDELE, 1966, p. 175-238.
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figura 21.3 O bispo Samuel Ajayi Crowther (1808-1891) fotografado por ocasio de uma visita a Benin, em companhia de trs africanos e esttuas rituais.
(Foto: Popperfoto.)
As artes na frica durante a dominao colonial                                                      641



do sculo e nas primeiras dcadas do sculo XX, o Natal e o Ano Novo foram
pretextos para a apresentao, nas ruas de Freetown e de Lagos, de espetculos
que faziam pensar nas fiestas da Amrica Latina, dentre os quais a caretta, espcie
de mascarada satrica17, parece ter sido a forma mais durvel.
    Entretanto, os adeptos do nacionalismo cultural no cessavam de lutar
contra o perigo da usurpao total pelas formas importadas18. Mais uma vez, a
religio e suas instituies forneciam a base. O carter inaceitvel dos excessos
do imperialismo cultural cristo, como a interdio dos instrumentos e rias
africanos em uma igreja "universal", acabou por provocar a dissidncia. De
1882 at o incio da dcada de 1930, assistiu-se na frica a uma proliferao
de movimentos secessionistas inspirados pelo desejo de adorar a Deus segundo
o modo cultural praticado pelos antepassados19. Foi ento que se instaurou,
na frica ocidental, principalmente em Lagos, uma tradio nica de "pera",
que principiou com cantatas religiosas e passou pela dramatizao de episdios
bblicos, antes de afirmar a sua independncia com o abandono dos temas
religiosos e a progressiva constituio de grupos profissionais itinerantes. Foi
um processo semelhante ao do teatro Adbegijo  ento temporariamente
desativado , que evoluiu dos ritos funerrios sagrados dos Alafin do imprio
Oyo ao divertimento corteso, antes de adquirir existncia independente e
ampliar sua base geogrfica. No perodo que separa os grandes concertos de
msica clssica e de canes folclricas inglesas apresentados pela" Academia"
nos anos de 1880 e a representao da pea histrica King Elejigbo, encenada
pela Egbe Ife Church Dramatic Society em 1902, produzira-se incontestvel
transformao das ideias e da sensibilidade, mesmo no meio das elites ociden-
talizadas da Nigria meridional. A Igreja, que no via esses fenmenos com
bons olhos, decidiu proibir a nova forma de arte em suas parquias e escolas,
mas, infelizmente para ela, no conseguiu seno acelerar a construo  como
desafio  de salas destinadas exclusivamente ao teatro. O conflito dividiu a
elite colonial em faces, equiparveis no tocante aos recursos disponveis.
Em 1912, a secularizao do teatro estava suficientemente avanada para que
a administrao colonial de Lagos anunciasse a publicao de uma "portaria
regulamentando os teatros e as representaes em pblico", que condicionava


17   Tambm  possvel que a caretta seja uma forma hispanizada da mscara Gelede, reimportada da Amrica
     do Sul para seu lugar de origem.
18   Sobre o nacionalismo cultural, principalmente no que concerne  Nigria, ver HATCH, 1971, captulo
     XII ; SCHWARZ, 1965, captulos I, II e IV.
19   RAY, 1976, captulo VI. Ver tambm o captulo 20, anterior a este.
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a realizao de espetculos pblicos  obteno de uma licena. Em meio ao
clima de nacionalismo cultural que reinava em Lagos na ocasio,  de indagar
se essa hipcrita tentativa de censura poltica teria produzido efeito: signifi-
cativamente, a portaria jamais foi promulgada.
    Os grupos de vaudeville prosperavam. Alguns de seus nomes, como Two Bobs
and their Carolina Girl, na Costa do Ouro, nos dizem muito sobre o que inspirava
a tantos deles.  a um professor chamado Valley que se atribui a paternidade
das variedades vaudevillescas na Costa do Ouro20. Um seu aluno, Bob Johnson,
com seu Axim Trio, logo ultrapassaria o mestre para tornar-se,celebridade cul-
tural da Costa do Ouro e mesmo de toda a costa ocidental21. E s inovaes de
Bob Johnson que remonta a tradio do concert party na Costa do Ouro, com
troupes especializadas em nmeros de music-hall  canes, faccias, danas,
imitaes, cenas cmicas. Mas, do ponto de vista da continuidade cultural, sua
contribuio mais importante consistiu em trazer para o primeiro plano do
repertrio contemporneo uma personagem do folclore tradicional, o vivo e
malandro Ananse (o aranha). Esta forma de expresso teatral, extremamente
rica de situaes puramente cmicas, logo se tornou tambm instrumento de
stiras sociais e polticas.
    Em meados da dcada de 1930, Bob Johnson era famoso o bastante para
montar seu nmero de vaudeville em outras cidades da frica ocidental. No
decorrer dessa dcada, a regio podia orgulhar-se de um repertrio que constitui
um dos mais estranhos exemplos de ecletismo da histria do teatro. At mesmo
o cinema, ento na primeira infncia, deixara j a sua marca no teatro da frica
ocidental: certos nmeros de Bob Johnson eram adaptaes das comdias de
Charles Chaplin, inclusive o vesturio e o clebre modo de andar. Hoje, que
perdemos todo o contato com as realidades histricas da frica ocidental da
poca do colonialismo, no h como no nos surpreendermos com um concerto
como o da celebrao do Empire Day, onde eram apresentadas canes como
Mini the Moocher, lado a lado com God's Gospel in our Heritage e vinhetas tiradas
da vida de um estivador liberiano.
    Eis outro exemplo da ironia da colonizao: enquanto Bob Johnson prepa-
rava sua primeira excurso pela frica ocidental e Hubert Ogunde, que viria a
ser o principal animador de concert party da Nigria, recebia educao esttica
sob a dupla influncia do pai clrigo e de uma av sacerdotisa do culto osugbo22,

20    GRAFT, 1976.
21    SUTHERLAND, 1970.
22    Ver FADIPE, 1970, captulo VII.
As artes na frica durante a dominao colonial                                643



no Senegal, um educador europeu, Charles Bart, procurava reverter a poltica
de aculturao europeia numa importante escola de ensino secundrio. Compre-
enderemos melhor a importncia deste acontecimento e, ainda, a razo por que
a evoluo foi to lenta, se tivermos presente o carter educativo do assimila-
cionismo, como se expressa nos escritos de convictos africanos francfilos como
o padre Boillat, Paul Holle etc. Embora aparentemente entregue a exaustivas
pesquisas sociolgicas23, o padre Boillat conclua, aps haver estudado a cultura,
a filosofia, a estrutura social, a linguagem etc. dos Bambara, dos Sarakole, Wolof,
Serer, Tukulor e mouros do Senegal, que a sociedade africana no oferecia qual-
quer perspectiva de desenvolvimento cultural no sentido moderno e no tinha
outro futuro que no testemunhar "a queda de todos esses hbitos grosseiros,
se no desonrosos, conhecidos como o costume do pas", Se as comunicaes de
Boillat  metrpole no se tornaram pedra angular da poltica assimilacionista
francesa, no h dvida de que desempenharam papel determinante em sua
formulao.
    Foi em meio a esse clima e ao fim das subsequentes dcadas de con-
servadorismo que nasceu e perdurou por longo tempo a escola de William
Ponty24. Famosa escola normal, ela cumpriu na frica de lngua francesa a
mesma funo que o Achimota College desempenhou no ocidente de lngua
inglesa e o Makerere College na frica oriental. Todos esses estabelecimentos
destinavam-se a dar educao europeia bsica aos futuros professores e funcio-
nrios pblicos de baixo escalo. Os valores culturais transmitidos pela escola
William Ponty eram obrigatoriamente franceses, quer se tratasse de teatro,
poesia, msica, arte, histria ou sociologia. No entanto, durante os anos em
que esteve  frente da escola, Charles Bart procurou dar nova orientao 
formao cultural dos estudantes. A partir de 1930, eles foram incentivados a
retomar ao seu meio ambiente para adquirir clareza sobre suas opes cultu-
rais. Foram-lhes confiados trabalhos de pesquisa que permitiam explorar ao
mesmo tempo a forma e o contedo da arte autctone. No retorno das frias,
pedia-se aos grupos originrios de todos os territrios coloniais representados
na escola William Ponty que apresentassem um espetculo de teatro baseado
em suas pesquisas, com total responsabilidade dos estudantes sobre sua realiza-
o. Como esta nova forma de teatro sociolgico no se limitava ao auditrio
habitual de funcionrios europeus e de africanos "educados", nem somente ao
Senegal, sua influncia disseminou-se amplamente pelas diferentes camadas

23   BOILAT, 1853.
24   OBICHERE, 1972, p. 7-18.
644                                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



sociais da frica de lngua francesa. Mas, constitua ela um prolongamento
autntico da cultura de onde provinha?
    Somos obrigados a responder negativamente, embora a experincia no dei-
xasse de ter valor educacional. Seria demais esperar que, nesse perodo, o modelo
"clssico" de teatro francs pudesse desaparecer completamente em face das
formas tradicionais de expresso. A "comunidade" representada por William
Ponty era artificial. Estava distanciada tanto pela natureza do pensamento como
pelos objetivos culturais da sociedade cujos tesouros pilhava. A situao, bem
entendido, no era exclusiva de William Ponty, mas comum a todas as escolas
e instituies criadas pelo colonizador para o desempenho de sua prpria mis-
so na frica. Assim, o teatro de William Ponty servia principalmente para
satisfazer o apetite de exotismo da comunidade de colonos franceses. Mesmo
quando "ia ao povo" e lhe utilizava os temas, esse teatro continuava a ser uma
curiosidade desprovida de contato verdadeiro com a vida social e os autnticos
valores culturais da populao.


      O renascimento literrio no Egito25
    No mbito da cultura literria, o Egito e o Sudo ocidental proporcionam
exemplos importantes: no primeiro caso, temos um renascimento literrio; no
segundo, um processo de ajuda mtua, ao mesmo tempo direta e indireta, 
penetrao cultural da frica durante o perodo colonial, a favor de interesses
fundamentalmente opostos.
    A ocupao do Egito por Napoleo Bonaparte, as reformas de Muhamad'Al
nos mbitos militar, social e econmico, o envio de misses pedaggicas 
Europa, especialmente  Frana, bem como o estabelecimento de uma grfica
impressora em Bulaq, no ano de 1922, tudo isso preparou o caminho para o
incio de uma nova relao entre dois mundos  o Ocidente e o Oriente isl-
mico e para o advento de uma nova era no Egito. Esse perodo preparatrio do
renascimento literrio egpcio foi acelerado no reinado do quediva Ism'l Pacha
(1863-1879) e atingiu o ponto decisivo de desenvolvimento a partir da segunda
metade do sculo XIX.
    A criao de ambiente propcio ao florescimento de uma cultura rabe
moderna foi determinada por vrios fatores. O primeiro deles foi a contnua


25    Esta seo sobre o renascimento literrio no Egito foi preparada sob a direo do professor Y. A. Talib,
      do Departamento de Estudos Malaios, Universidade de Cingapura.
As artes na frica durante a dominao colonial                                                            645



emigrao, a partir da dcada de 1870, de intelectuais cristos srios e libane-
ses26 para o Egito. Perseguidos pelo regime autocrtico turco, esses intelectuais
estavam imbudos das noes ocidentais sobre poltica, cincia e literatura. No
prprio Egito, surgiu entre os muulmanos uma nova elite que adotara as ideias
islmicas modernistas de Al-Afghani e `Abduh. As fileiras de tal elite no tarda-
ram a ser preenchidas por letrados egpcios regressados da Europa, onde haviam
realizado estudos de tendncia humanista. Entre eles, havia toda uma srie de
escritores com pontos de vista e interesses muito variados.
    O desenvolvimento econmico, a transformao do pas, a criao e fundao
de academias, de sociedades cultas, da biblioteca nacional em 1870, de universi-
dades seculares, a reforma das universidades religiosas existentes (por exemplo,
Al-Azhar) e o estabelecimento de um moderno sistema de educao "deram
origem a um pblico amante da ociosidade, da educao e disposto a formar uma
audincia. Se compararmos o resultado com a situao precedente, veremos que
se trata, na verdade, de um renascimento literrio e intelectual"27. No entanto,
a produo literria local dependia ainda, fundamentalmente, da traduo de
obras europeias, empreendida j antes da instaurao do protetorado ingls no
Egito, e desde ento em franco progresso. Com o tempo, esse processo levou a
adaptaes, imitaes e, finalmente, a obras criadoras e originais.
    O despertar cultural, relacionado com a mudana do clima poltico egpcio
no final do sculo XIX, refletiu sobre o desenvolvimento da imprensa, muito
importante. Em 1898 o Egito j contava com 169 gazetas e jornais, nmero que
passou para 282 em 191328.
    Sob a influncia do eminente reformador muulmano Al-Afghani29, a
imprensa foi amplamente aclamada como um instrumento de educao e de


26   Dentre esses emigrantes, citemos trs personalidades que muito contriburam para disseminar entre
     o pblico culto as principais correntes do pensamento liberal e cientfico ingls e francs dos sculos
     XVIII e XIX: Farah Antun (1874-1922), fundador da revista Al-Jamiah; Yagub Sarruf (1852-1927),
     diretor da revista de grande circulao Al-Muqtataf, que serviu de instrumento de difuso das teorias
     darwinianas e spencerianas da evoluo; Jurji Zaidan, autor prolfico que escrevia sobre toda espcie
     de assuntos e cuja revista, Al-Hilal, educou geraes inteiras, no s no Egito mas em todo o Oriente
     rabe. Um dos autores muulmanos, Fathi Zaghlul  o mais importante  introduziu o pensamento
     poltico e a sociologia ocidental atravs da traduo para o rabe de obras como Principles of Legislation,
     de Bentham, Le Contrat Social, de Rousseau, e a obra de Edmond Demolin, A quoi tient la supriorit des
     Anglo-Saxons. Teve sucessor  altura na pessoa de Lutfi Al-Sayyid, diretor do dirio Al-Jaridah, consi-
     derado um "apstolo do liberalismo e do utilitarismo no Egito". Para maiores detalhes, ver AHMED,
     1960, e HOURANI, 1962.
27 SAFRAN, 1961, p. 57.
28   ZWEMER, 1914, p. 129.
29   Ver KUDSI-ZADEH, 1980, p. 47-55.
646                                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



politizao, convertendo-se cada vez mais no veculo de expresso preferido
por toda uma gerao de personalidades literrias e lderes intelectuais aps a
Primeira Guerra Mundial. Dessa forma, os jornais tornaram-se, tambm, locais
de experimentao para novas formas literrias, como o romance, o drama etc.
A necessidade de exprimir e interpretar as ideias estrangeiras recentemente
adquiridas conduziu  evoluo de um "rabe neoclssico". Mas a questo
de saber se era necessrio reformar o rabe clssico ou elaborar um rabe
moderno adaptado  literatura egpcia contempornea logo provocou uma
controvrsia em que se digladiavam dois grupos: os classicistas e os moder-
nistas. O primeiro defendia um "estilo recndito, semeado de obscuridades,
ornado de aluses literrias e de eruditos jogos de esprito, tpicos da cultura
aristocrtica". O segundo cujos membros eram acima de tudo descendentes de
srios e de libaneses, formados  moda ocidental e de religio crist  pregava
"uma linguagem simples e direta, unindo o rabe falado e palavras estrangeiras
arabizadas".
    O que se prenunciava neste conflito cultural era o problema dos valores:
ideais e normas do Ocidente de um lado, noes islmicas tradicionais do outro.
Na sua fase inicial, o combate de ideias dizia respeito apenas  questo de
adquirir os conceitos ocidentais ou permanecer indiferente a eles. Os confrontos
situaram-se ao nvel das escaramuas culturais: faltavam a eles "centros coerentes
de gravidade". Contudo, na primeira metade do sculo XX, os desafios culturais
exteriores, tais como os apresentavam as novas condies de vida, comearam
a abalar sensivelmente todos os aspectos do sistema tradicional de valores. A
primeira reao a esses desafios teve importncia vital e se concentrou na questo
do poder  entre um islo reformista militante e um movimento racionalista
liberal30. At a irrupo do nasserismo, vrias interpretaes da identidade cul-
tural e nacional do Egito foram dadas por inmeras personalidades literrias:
a faranica-mediterrnea de Tawfik al-Hakim, Mahmoud Taymour e Taha
Husayn em seus diversos escritos sociais, literrios e histricos31, o arabismo de
al-Kawakibi32, assim como a tese das dimenses culturais africanas do Egito,
subscrita por numerosos escritores.



30    Ver, particularmente, as violentas controvrsias levantadas por obras polmicas escritas pelos autores de
      tendncia ocidental, como, por exemplo, Taha Husayn, Fi`l-shi`r al-Jahili, Cairo, 1926 (sobre a poesia
      pr-islmica), que questionava os prprios fundamentos da f islmica.
31    Ver, sobretudo, Taha Husayn, The Future of Culture in Egypt , Cairo, 1938 (traduo inglesa, 1954).
32    Como o expressa em sua obra Umm al-gura, Port Said, 1899.
As artes na frica durante a dominao colonial                                                 647



   A transformao da cultura egpcia durante esse perodo, sob o efeito da
dominao estrangeira, conduziu a uma maior conscincia poltica, que, poste-
riormente, veio a encontrar expresso no movimento nacionalista nascente.


     A literatura no Sudo ocidental
    Aparentemente, interesses fundamentalmente contrrios tinham assaltado
a zona sudanesa da frica ocidental durante o perodo colonial: os interesses
europeus, de um lado, e os dos muulmanos, de outro, representados pelos Jula.
As condies para que isso ocorresse foram criadas pela estrutura social da
populao do Sudo ocidental. O sistema tradicional de castas, que reconhecia
a certo nmero de grupos de artesos especializados o direito de controle sobre
os materiais e a rea geogrfica de suas respectivas artes, concedia, do mesmo
modo, ao im ou alim (instrutor islmico) o monoplio em tudo quanto se
referisse  alfabetizao, escrita e comunicao e, ainda, s relaes comerciais
que se desenvolveram com o colonialismo europeu.
    Historicamente, o alim pertencia a uma comunidade peculiar, que constitua
uma unidade cultural distinta, frequentemente dominante, espalhada por entre
as populaes no muulmanas do Sudo ocidental. Caracterizava-se por sua
religio e pela eficincia de sua organizao comercial. Eram chamados Jula
(Dyula ou Diula). A presena dos Jula no Sudo ocidental tinha como objetivo
fundamental o comrcio. Sua emigrao para cidades como Bobo-Dioulasso,
Kong, Bonduku e outras acompanhava as vias comerciais que iam das jazidas
aurferas da Costa do Ouro, do Alto Volta e das outras minas da zona tropical
at as trilhas das caravanas saarianas33. Fundadores de cidades, eles estabelece-
ram igualmente uma rede de postos avanados ligando os principais centros
s trilhas saarianas. Mas os Jula (nome que descreve sua principal ocupao, o
comrcio) tambm zelavam pela preservao e promoo de sua cultura isl-
mica, e contribuam para favorecer a penetrao dos mouros e dos rabes at
as zonas chuvosas da costa ocidental. Ainda hoje, existem registros dos textos
"sabticos" de um erudito Jula, o karamoko  ttulo superior ao comum alim ,
que visitou centros de ensino do Cairo e deixou aos tribunais sbias sentenas,
to clebres como os trabalhos de William Amo, antigo escravo de Gana, autor



33   Para maiores detalhes sobre os Jula, ver Y. PERSON, 1968-1975, vol. I, p. 95-122; Y. PERSON, in
     CROWDER (org.), 1971, p. 113-26.
648                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



de tratados filosficos apresentados, no sculo XVIII, s universidades alems
de Wittenberg e Jena34.
    Se  certo que a cultura literria islmica que penetrou na frica ocidental
era de natureza fundamentalmente conservadora, retrica e estereotipada, cuja
metodologia consistia antes em decorar do que em compreender e cujo ensino
compreendia essencialmente a exegese islmica e o direito (hadith e fikh), o
constante trnsito de letrados entre a costa ocidental, a frica do norte e o
Oriente Mdio at o sculo XX, assim como o florescente comrcio de manus-
critos preciosos praticado ao mesmo tempo que as atividades mais comuns dos
comerciantes Jula, comprovam uma abertura maior da cultura arbica entre
seus adeptos africanos. Os escritos histricos devem tanto aos estudiosos rabes
quanto a seus equivalentes das cidades europeizadas da costa ou aos produtos de
exportao da literatura ocidental. Por exemplo, uma pesquisa sobre as bibliote-
cas dos mallam da costa ocidental realizada em 1920, principalmente na regio
da Costa do Marfim, revelou a existncia de manuscritos de histria, lngua
(gramtica rabe), poesia, matemtica, lgica, jurisprudncia etc.35
    A existncia de uma cultura literria, embora abrangendo pequenssima
elite no topo da pirmide de uma massa de analfabetos, trouxe enormes con-
sequncias no s para a maioria da populao, mas tambm para a cultura
estrangeira, cujos cnones inspiraram a formao literria da dita elite. E muito
especialmente quando essa vantagem literria  posta a servio do proselitismo
da cultura alheia. Do ponto de vista da cultura dos povos autctones, portanto,
a influncia do islo distingue-se da penetrao euro-crist to somente pela
sua natureza, e no pelos seus efeitos. O confronto entre duas culturas literrias
historicamente opostas, sobre terreno "neutro", suscita sempre reaes exacer-
badas dos dois lados, mas sobretudo por parte do primeiro ocupante, que v o
campo por ele diligentemente cultivado invadido  vspera da colheita. As duas
faces, evidentemente, ou fingem ignorar ou esto prontas a negar a existncia
de valores autnticos anteriores no terreno conquistado, julgando mais cmoda
a tese do vazio cultural. A tolerncia sincrtica dos sistemas culturais africanos,
naturalmente, s veio reforar esta tese. E, por ironia do destino, dentre ambos
os adversrios, a cultura que revelava alguma tendncia ao sincretismo  a cul-
tura islmica  foi a que perdeu o grande elemento de sua prpria ortodoxia,
inclusive as "ortodoxias" de cismas posteriores, na passividade aparentemente
acomodada dos autctones.

34    Para maiores detalhes, ver ABRAHAM, 1964; LOCHNER, 1958.
35    WILKS, 1968.
As artes na frica durante a dominao colonial                               649



    J analisamos alguns dos meios a que recorriam os autctones contra os
mecanismos de negao cultural empregados pelo colonialismo europeu; a cul-
tura islmica, difundida pelo proselitismo dos Jula, haveria de enfrentar a mesma
resistncia. Em alguns casos, a comunidade jula foi inteiramente assimilada pela
comunidade local. Os casos de completa assimilao foram raros, mas I. Wilks,
em seu bem documentado estudo36, registra um exemplo, o dos Tagara de Jirapa,
no nordeste de Gana. O processo era relativamente imperceptvel. Como j se
disse a propsito dos ritos funerrios do canto de Koumina, os africanos con-
servavam a guarda das terras, tanto material como ritualmente, de forma que,
se nas cidades os contatos com as misses "civilizadoras" francesas e muulma-
nas ofereciam aos convertidos inegveis vantagens, as "migraes" sazonais do
interior para a cidade contribuam para abalar os grupos e os indivduos. Foi o
que ocorreu com os Jula.
    Devemos, ainda, ter presente que,  medida que a explorao colonial se tor-
nava mais sistemtica e as cidades se industrializavam, trabalhadores migrantes
do extremo norte muulmano (Mali, Mauritnia) vinham engrossar a massa de
mo de obra dos centros urbanos do sul. Esses imigrantes tinham necessidade
dos servios dos `ulam' ou dos karamoko, que imediatamente se instalaram nas
comunidades urbanas. De acordo com a sua estratgia de renovao ou regene-
rao da f islmica, os Jula esforaram-se para garantir uma ligao constante
entre as comunidades muulmanas, enviando os `ulam' quelas onde a f dava
mostras de arrefecer. A procura superava a oferta, em vista do nmero insufi-
ciente de guardies da verdadeira f. Ademais, havia os que no estavam dis-
postos a abandonar o conforto das cidades, onde gozavam do recente prestgio
de "chefes espirituais", visto atuarem como mediadores entre os trabalhadores
migrantes e o toubab (homem branco) e assegurarem a manuteno de uma con-
tabilidade rudimentar para os recentes intermedirios das companhias exporta-
doras. Para esses `ulama', ir exercer o seu ministrio nas comunidades rurais dos
Jula tornou-se uma imposio. Muitas vezes, nem eram os Jula que lhes faziam o
apelo. Como a alfabetizao fascinava muito os no-muulmanos, era frequente
que a comunidade rural, ou seja, um chefe ou um agricultor, pedisse aos Jula
locais que mandassem vir um professor. s vezes, o menino mais inteligente
da aldeia virava aluno itinerante, indo de um `ulama' a outro. No sculo XIX, o
prestgio da elite educada  em grande parte muulmana  suscitava nessas reas
grandes ambies. Um bom aluno podia ultrapassar diferentes graus e ascender


36   Ibid., p. 165.
650                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



ao ttulo de karamoko, detentor de sua prpria isnad ou genealogia do saber, o
que o vinculava a toda uma srie de doutores ilustres e legendrios, numa filiao
que podia eventualmente remontar ao prprio profeta. Em sua magnfica obra
Ambiguous adventure (Aventura ambgua)37, o xeque Hamidou Kane mostra
bem como um "pago" de uma localidade qualquer do Sudo ocidental podia
ser sensvel ao aspecto esttico do ensino islmico.
    Nem todos os autores africanos ocidentalizados da poca estavam dispostos a
considerar o desafio cultural muulmano como necessariamente oposto ao gnio
africano autntico, ou incompatvel com os valores cristos que se disseminavam
com muita rapidez, graas s misses estabelecidas ao longo do Nger, do Volta
e do Senegal por negros convertidos. Aos olhos de socilogos e de educadores
como o abade Boillat (ou seu valoroso compatriota, o sbio soldado Paul Holle),
era prefervel estudar a lngua rabe e a cultura islmica na Frana, em estabele-
cimentos de ensino superior, onde no corriam o risco de contaminar africanos
impressionveis. Mas o bispo nigeriano Samuel Ajayi Crowther ia mais longe,
ao mostrar-se favorvel ao estudo e ao ensino dessas matrias38, pensando que
elas permitiriam atenuar, graas s tradues rabes da Bblia e do catecismo, os
"aspectos mais grosseiros" da f e da sociedade muulmanas.
    Em contrapartida, um homem como o antilhano Edward Wilmot Blyden,
nascido em St. Thomas e que depois emigrou para a Libria, estava firmemente
convencido de que, dentre todas as grandes civilizaes do mundo, a muulmana
era a que melhor se adaptava ao temperamento e s realidades culturais da
frica. A seu ver, o islo era apenas um elemento  importante,  verdade  da
reformulao de uma cultura africana para os africanos, dotada de instituies
prprias e de estruturas de salvaguarda39. Este precursor da negritude pretendia,
nada mais nada menos, a reordenao completa de uma educao africana que
renunciasse aos preconceitos eurocntricos para seguir uma via mais adequada s
realidades africanas. A civilizao islmico-rabe, que o tinha impressionado por
sua "cultura literria e atividade intelectual", parecia-lhe destinada a desempe-
nhar papel essencial nessa reordenao. Com a descrio da histria do homem
negro desde a antiguidade, Edward Blyden publicou suas concluses afirmando
a anterioridade de uma civilizao negra no Egito e provando que Herdoto
era um comentador mais digno de f do que seus anotadores europeus, os quais,



37    KANE, 1972.
38    JULY, 1968, p. 188-9.
39    Ibid., p.46-7, 218-9.
As artes na frica durante a dominao colonial                                651



alm de no serem contemporneos dos acontecimentos escritos, tinham pros-
titudo o seu saber entregando-se a preconceitos racistas40.
    Blyden no se contentava em invocar a histria antiga na sua luta pela reo-
rientao da cultura africana. Os acontecimentos recentes da histria da frica,
os prolongamentos da cultura e do gnio africanos, mesmo num ambiente to
pouco favorvel como o do "Novo Mundo", incitaram Blyden a examinar os
livros de histria e a declarar que se devia desprezar o estudo de personalidades
europeias, como o almirante Nelson, pelo de heris negros como Toussaint
L'Ouverture. Isso era revolucionrio e mesmo perigoso, traduzindo o incio de
uma nova escola de anlise de muitos acontecimentos da histria recente da
frica. As novas propostas de Blyden foram, portanto, bem menos acolhidas do
que aquelas em que preconizava o estudo da lngua e da cultura rabes de acordo
com sistemas de ensino da frica ocidental e, principalmente, na universidade
cuja criao tambm propunha. No admira que essa universidade jamais tenha
surgido enquanto ele era vivo, mas o que sabemos de Blyden nos permite dizer
que ningum contribuiu mais do que esse "antigo exilado" da frica ocidental
 que alis no ignorava nenhuma tradio do ocidente  para fazer explodir o
bloco monoltico das misses crists da costa ocidental da frica. Com efeito,
em 2 de janeiro de 1891, pronunciou na Breadfruit Church, de Lagos, perante
uma sala repleta, um discurso onde ressaltava a incompatibilidade entre a ordem
eclesistica europeia e a sociedade e as tradies africanas. Alguns meses depois,
explodia o primeiro cisma no seio da "ortodoxa" Breadfruit Church, de Lagos,
dando origem  United Native African Church, com as consequncias j men-
cionadas para a vida cultural dos africanos,  medida que o movimento se
ampliava para o ocidente e o norte da frica ocidental41.


     A literatura em lnguas europeias
   Pode-se dizer que a cultura literria em lnguas europeias constituiu a princi-
pal fora de confronto do colonialismo na frica ocidental e central. A literatura
oral conservou o papel de vlvula satrica, como tambm a mmica, a dana e as
novas formas de espetculos mascarados, para registrar e comentar o fenmeno
colonial. Mas foram as literaturas em lnguas coloniais, no jornalismo e na



40   BLYDEN, 1887.
41   AJAYI, 1965, p. 254-5; AYANDELE, 1966, p. 201-3.
652                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



poesia, no teatro e no romance, que mobilizaram a imaginao literria contra
o colonialismo42.
    A publicao de panfletos na costa da frica ocidental, entre a Libria e
Lagos, assumiu propores comparveis s que se verificaram na Inglaterra do
sculo XVIII. O mesmo fenmeno foi observado no Qunia, mas na frica
oriental, ao que parece, essas publicaes foram principalmente obra da comuni-
dade asitica, assim como a maior parte dos jornais. Folhetos bem pequenos, de
impresso barata e distribuio fcil, eles denunciavam a dominao e a explo-
rao estrangeiras, as fraudes da administrao colonial e os ataques cada vez
mais frequentes  forma de vida e  dignidade social das populaes. Em 1891,
a fundao da primeira grfica em Luanda, na frica portuguesa, assinalou o
incio do jornalismo de luta pela defesa da causa dos africanos. Esse perodo
distingue-se por uma grande preocupao com o estilo, qualquer que fosse a
lngua colonial utilizada. As acusaes de racismo lanadas contra o colonialismo
francs por Ahmadou Dugay Cledor, no Senegal, eram redigidas em prosa
cuidada, com mpetos de indignao. As peties dirigidas ao British Colonial
Office tornaram-se uma forma de arte, um exerccio de estilo diplomtico.
    Os primeiros "representantes"  "assimilados" nomeados pela administrao
francesa, porta-vozes das massas reconhecidos pelo sistema britnico como
membros de pretensos conselhos legislativos  empregavam a lngua do sobe-
rano estrangeiro para destruir suas iluses sobre aqueles a quem consideravam
dceis executantes de sua poltica colonial. Assim, apesar de uma gratido verda-
deira e de um comportamento muitas vezes servil para com o pblico britnico
e os benfeitores em potencial, um homem como William Grant podia escrever
(ou deixar publicar) em 1882, em seu dirio West African Reporter (Reprter da
frica Ocidental), estas acusaes terrveis:
      O fato de cada vapor que atraca [...] trazer uma massa de produtos comparativa-
      mente sem valor destinados a ser trocados por produtos apreciveis e teis [...] cons-
      titui uma condenao moral permanente da atitude dos europeus na frica. Ainda
      que fossem simples penduricalhos sem valor, mas inofensivos, em troca de artigos
      valiosos, o carter moral da transao j seria repreensvel  mas que dizer quando
      esses artigos no apenas so desprovidos de valor [...] mas, muitas vezes, possuem
      carter verdadeiramente destrutivo? Tiram aos africanos o que os faz ricos, deixando
      frequentemente aquilo que os empobrece e destri.  triste dizer que, em muitos
      casos, o comrcio europeu deixou seu cliente africano to nu como o encontrou


42    Ver KANE, 1972; BETI, 1971; ARMAH, 1973; SEKYI, 1915.
As artes na frica durante a dominao colonial                                       653



     [...] Eles jamais chegaro a implantar na frica a ideia da civilizao, enquanto as
     relaes comerciais entre o pretensioso e esclarecido europeu e o `selvagem' africano
     no forem colocadas em uma base mais equitativa. Mas, enquanto os garrafes de
     rum seguirem-se um ao outro [...], nenhum missionrio enviado como reforo e
     nenhum sermo filantropo serviro para coisa alguma43.
    Propagandista ardente de uma reforma da educao orientada no sentido
dos valores africanos, profundamente influenciado por Edward Blyden, Grant
procurava criar um sistema de ensino encimado por uma universidade, mas
somente como instituio destinada a promover a pesquisa e o ensino em reas
relacionadas com a frica, em oposio  educao literria convencional, que
d nfase  cultura e aos valores europeus". Era preciso  escrevia  "educ-lo [o
africano] por si mesmo". Os anais da Aborigines Rights Protection Society da
Costa do Ouro das dcadas de 1910 e 1920, em especial as alocues de J. E.
Casely Hayford, esto repletos de obras-primas de prosa vitoriana, com pitadas
de humor de clssica ferocidade e conciso. Mais de um responsvel de distrito,
em visita aos territrios pacificados sob seu encargo, viveu a penosa experincia
de esperar ser acolhido com um "discurso leal" e partir furioso com a "hipcrita
insolncia" de excelentes oradores negros em lngua inglesa.
    Em 1911, Casely Hayford publicou Ethiopia Unbound44 (Etipia Desacor-
rentada), um dos primeiros romances africanos, na verdade um ensaio, mescla
de estilos diversos, que vai do sarcasmo  denncia apaixonada da cupidez e da
arrogncia racial que envolveram a partilha e a colonizao da frica. Durante
toda a sua vida, Casely Hayford demonstrou em seus escritos uma vigilncia
irrepreensvel no referente ao destino do continente negro, recusando-se at o
fim a aceitar o fato da colonizao ou a atribuir-lhe autoridade no seu pensa-
mento.  bastante curioso que Ethiopia Unbound no tenha inspirado imitadores
na poca, permanecendo obra nica no seu gnero. Na mesma poca, em contra-
partida, a frica produzia tambm sbios e homens pblicos cultos pertencentes
a outra escola de pensamento, como o bispo Samuel Ajayi Crowther, na Nigria,
ou Bakary Dialo, no Senegal. A exemplo do abade Boillat, essas personalidades
defendiam o colonialismo europeu, considerado experincia positiva e louvvel
para a frica. Para o telogo protestante Crowther, marcado pelo horror de
suas origens pags e da sociedade de onde provinha, o cristianismo (do qual o
colonialismo era mero agente executivo) representava, no sentido mais primitivo,


43   Citado por JULY, 1968, p. 142.
44   HAYFORD, 1911.
654                                                         frica sob dominao colonial, 1880-1935



o instrumento divino da salvao para um continente pago. Quanto a Bakary
Dialo, estava pura e simplesmente deslumbrado pela cultura francesa.
    O dilema resultante da poltica colonial de aculturao traduzia-se essen-
cialmente por essa alienao, que distorcia a personalidade criadora das elites
africanas. Mesmo nos mais intransigentes textos anticolonialistas,  comum
discernir um flagrante fascnio e preferncia pela cultura europeia, tal como a
experimentavam em seu meio e a descobriam  medida que seu horizonte inte-
lectual pessoal ampliava. O talentoso poeta malgaxe Jean-Joseph Rabarivelo
(??-1937), cujo suicdio atribui-se  impossibilidade de resolver essa contradio
interna de colonizado, constitui um trgico exemplo. Desse conflito resulta uma
qualidade ambgua aos textos de vrios africanos cultos, na poca em que o
colonialismo comeava a se afirmar. Isso facilitou a poltica de assimilao cul-
tural, sobretudo nos territrios franceses, portugueses e espanhis, e redundou
na rejeio deliberada, ou seja, na negao das fontes autnticas do gnio criador
africano pela nova elite. O "primitivismo", quer como fonte de inspirao, quer
como expresso pela imagem ou pelo verbo, tornou-se sinal de regresso, retar-
dando o ato total de renascimento que s ele permitia: a aceitao da sociedade
mgica dos funcionrios da administrao colonial europeia.
    Houve excees, particularmente notveis na situao inicial em que a pol-
tica de assimilado se tornava uma arte poltica, como os poetas Silvrio Ferreira,
Antnio Jos do Nascimento e Francisco Castelbranco, cuja obra denunciava
desde o incio do sculo a intolerncia racial dos colonos. Mas, ao mesmo tempo,
tanto em Angola como em outros territrios portugueses (e de fato em todos
os territrios coloniais), assistia-se s manifestaes de uma forma escapista de
reao diante da realidade cotidiana da humilhao. A ttulo de exemplo, cite-se
a obra de Caetano da Costa Alegre (So Tom), cuja poesia amorosa sentimental
 glria da beleza feminina negra, editada aps a sua morte45, pode ser consi-
derada precursora da escola literria de reivindicao da identidade negra que o
movimento da negritude tornou clebre.
    O bero do movimento da negritude foi a Frana, e seus principais autores
foram Aim Csaire (Martinica), Lopold Senghor (Senegal) e Lon Damas
(Guiana Francesa). A negritude produziu uma florao de obras poticas46,
nem todas poesia de "propaganda",  maneira de Costa Alegre, mas que no
obstante deviam sua existncia  conscincia reencontrada da realidade africana,
que a eloquente "tomada de conscincia" do grupo transformou em programa

45    ALEGRE, 1916.
46    KESTELOOT, 1974; IRELE, 1964, p. 9-11; BLAIR, 1976.
As artes na frica durante a dominao colonial                               655



concreto. Em suma, tratava-se pura e simplesmente de uma revolta contra a
eficiente estratgia de assimilao aplicada pelo colonialismo francs e portu-
gus, da qual os iniciadores do movimento estavam perfeitamente cnscios de
serem produto. Mas  justo atribuir a gnese do movimento a um "manifesto"
publicado no jornal Lgitime Dfense por trs estudantes da Martinica. Nesse
manifesto, eles rejeitavam as "convenes burguesas" da cultura europeia, assim
como certo nmero de modelos literrios europeus e a falsa personalidade que
impunham ao homem negro. No seu lugar, contudo  e o fato define perfeita-
mente o crculo vicioso do artista-intelectual colonizado, adotavam Marx, Freud,
Rimbaud, Breton e outros mentores europeus.
    A negritude, que encerra o perodo em estudo, foi indubitavelmente um
fator determinante na expresso da sensibilidade criadora das duas dcadas
seguintes, no s entre escritores e intelectuais das colnias de lngua francesa,
mas tambm entre os de lngua portuguesa e at inglesa. Dentre os adversrios
mais irredutveis da negritude, hoje em dia  marxistas convictos cuja viso da
histria  incompatvel com os princpios da negritude  incluem-se alguns
dirigentes africanos que prolongaram a vida do movimento na sua luta contra
as polticas de assimilao cultural de Portugal, em comeos da dcada de 1950.
 correto dizer, portanto, que a negritude foi um fenmeno histrico susci-
tado por circunstncias precisas, mas que perdeu a influncia afetiva  medida
que aquelas circunstncias deixavam de existir, que os problemas da sociedade
eram analisados de maneira mais completa, e que as solues preconizadas
tornavam-se mais radicais.
A poltica e o nacionalismo africanos, 1919-1935                         657



                                       CAPTULO 22


                    A poltica e o nacionalismo
                       africanos, 1919-1935
                                   B. Olatunji Oloruntimehin




    H que apreender claramente a natureza do nacionalismo na frica para
apreciar de modo correto os acontecimentos examinados neste captulo. Cum-
pre, inicialmente, distinguir o nacionalismo europeu do sculo XIX e aquele que
a frica colonizada experimentou entre as duas guerras mundiais. Na Europa,
o nacionalismo representou, para as comunidades que aceitavam a realidade
de identidades culturais e de um passado histrico comuns, a aspirao a uma
existncia soberana dentro de organizaes polticas (Estados) prprias. A luta
tinha como objetivo garantir a coincidncia entre a nao cultural e a organi-
zao de sua vida poltica como Estado. Conforme demonstram os exemplos
grego, italiano e alemo, o resultado definitivo dos movimentos nacionalistas foi
a criao de Estados Nacionais.
    Na frica, as aspiraes dos Estados e dos grupos que, at a ecloso da Pri-
meira Guerra Mundial, combateram contra as potncias imperialistas europeias
e se esforaram para impedir o estabelecimento do sistema colonial eram essen-
cialmente as mesmas que animavam os movimentos nacionalistas europeus.
No entanto, um dos efeitos da guerra foi consolidar as posies das potncias
imperialistas frente aos defensores da independncia e da soberania africanas.
Apesar da fermentao das ideias que contriburam para minar o sistema impe-
rialista, a dominao colonial tornou-se uma situao de fato, a ponto de certos
autores considerarem o perodo entre as duas guerras como a "idade de ouro"
do colonialismo na frica.
658                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



    A maior parte das colnias criadas abrigava grupos nacionais cultural e his-
toricamente diferentes, cuja unidade derivava principalmente do fato de estarem
igualmente submetidas a um senhor estrangeiro. A situao colonial representava
para todos um quadro novo, onde havia que forjar identidades novas que os sus-
tentassem na luta contra as atrocidades da dominao estrangeira. As fronteiras
coloniais que, no mais das vezes, englobavam diversas naes culturais sob uma
administrao imperial comum foram aceitas tais como eram. A constituio
da nova identidade consistia, de incio, em aceitar a africanidade essencial das
diversas naes culturais. Os territrios das administraes coloniais passaram
a constituir, em praticamente todos os casos, a definio territorial daquilo que
os africanos comearam a considerar como proto-Estados, em torno dos quais
procuravam desenvolver na populao um sentimento de pertena com um.
    No contexto colonial, a evoluo poltica e social foi o resultado das intera-
es entre colonizador e colonizado. Em certa medida, as orientaes das elites
dirigentes africanas foram determinadas pela forma da administrao colonial.
Onde  como nas federaes coloniais francesas  a estrutura e a poltica das
administraes eram regionais, os dirigentes tendiam a adotar uma viso regio-
nal. Os campees do nacionalismo africano entre as duas guerras (wanasiasa,
como so chamados em swahili) eram essencialmente considerados como pan-
-africanistas, e no nacionalistas no sentido europeu. Efetivamente, o movi-
mento nacionalista seguia curso inverso ao da evoluo registrada na Europa.
Ao contrrio do que se passara naquele continente, o Estado havia sido criado
antes que as naes culturais que lhe emprestassem significado de comunidade
poltica tivessem cimentado sua unidade.  o que se infere da observao de
James Coleman:
      [...] em muitos casos, o nacionalismo africano no se deve ao sentimento de perten-
      cer a uma unidade poltico-cultural que procura defender-se ou afirmar-se; repre-
      senta, antes, o esforo desenvolvido por modernistas conscientes de uma realidade
      racial para criar novas nacionalidades polticas e culturais, a partir das heterogneas
      populaes englobadas dentro das fronteiras artificiais impostas pelo senhor europeu
      [...]1.
   Convm reconhecer que, enquanto sistema de relaes, o colonialismo apre-
senta certa base racista. Se a evoluo, em um contexto colonial, resulta das
interaes entre colonizador e colonizado, a conscincia racial  a base do desen-
volvimento do nacionalismo enquanto busca da soberania e da independncia.

1     COLEMAN, 1965. p. 177.
A poltica e o nacionalismo africanos, 1919-1935                             659



    O fato de os nacionalistas africanos serem considerados "modernistas" reflete
a necessidade que tinham de agir dentro de condies definidas do exterior,
condies que impunham um sistema estrangeiro de valores, de nomes e de
definies da evoluo poltica e social e que foram obrigados a subscrever para
terem possibilidade de xito. Que o nacionalismo africano fosse um fenmeno
dinmico e permanente, eis o que se deduz claramente da abundante literatura
consagrada a temas como a construo nacional e o irredentismo. O termo mais
exato para designar esse fenmeno  como o demonstra E. S. Atieno Odhiambo
no captulo 26 deste volume  , incontestavelmente, o vocbulo swahili siasa.
    Em geral, o colonialismo necessita de uma base social para sobreviver; base
habitualmente assegurada pela difuso da cultura do colonizador por meio da
educao. Os resultados obtidos pelo sistema educativo criado para esse efeito
determinam as normas que permitem constituir um novo grupo de elites no
interior da sociedade colonizada. A difuso da cultura importada do colonizador
, entretanto, acompanhada, quase invariavelmente, de contatos culturais har-
moniosos e de conflitos culturais que podem redundar em reaes violentas da
populao submetida. Dessa forma, h sempre um conflito de interesses entre o
colonizador e o colonizado, o primeiro desenvolvendo esforos para perpetuar a
sua dominao, o segundo lutando para se afirmar atravs do restabelecimento
da sua independncia e soberania.
    Como M. Crowder j demonstrou, no captulo 12, com a Primeira Guerra
Mundial os membros das novas elites de toda a frica esperavam identificar-
se mais com o processo de desenvolvimento de suas respectivas comunidades.
Pensavam que seriam absorvidos e aceitos como colegas pelos colonizadores,
mas a situao colonial tornou-se mais opressiva e as esperanas da elite foram
frustradas. Mesmo quando a mobilizao do pessoal europeu durante a guerra
abriu possibilidades de emprego aos africanos instrudos, as realidades do ps-
-guerra no tardaram a trazer desiluses e descontentamentos. No s os afri-
canos instrudos eram colocados em posies inferiores s do pessoal europeu
de formao e experincia equivalentes, com o qual serviam nas mesmas admi-
nistraes coloniais, como se viam socialmente relegados a segundo plano. For-
mados  margem de seu meio de origem, na esperana de que a educao lhes
permitisse elevar-se ao nvel dos europeus, acabavam em grande parte alienados,
em relao a seus irmos de raa, no referente a orientao, modo de vida, ambi-
es e aspiraes materiais e sociais2. As barreiras que o autoritarismo inerente


2    Ver o prefcio de Jean-Paul Sartre  obra de FANON, 1967.
660                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935



ao colonialismo erguia contra eles eram fonte de rancor, amargura e agitao
contra os regimes coloniais.
    Os regimes coloniais no eram exceo a essa verdade evidente de que toda
administrao utiliza estruturas intermedirias, principalmente devido a razes
de economia e eficcia. Os governos coloniais  como R. F. Betts mostrou no
captulo 13  faziam uso variado das instituies e das elites tradicionais para
mais facilmente controlar as populaes submetidas. Na busca dessas estruturas
e desse pessoal de autoridade, os funcionrios coloniais criaram muitas vezes
outras, novas, que podiam compreender e utilizar. Foi o caso dos warrant chiefs
do sudeste da Nigria, das native authorities entre os Massai de Tanganica (atual
Tanznia) e de certas partes de Uganda, fora de Buganda, e da maior parte
dos pretensos chefes chefs de paille) criados por franceses, belgas e portugueses.
Mesmo neste caso, entretanto, as elites assim recrutadas para sustentar a domi-
nao colonial dificilmente recebiam melhor tratamento do que os africanos
educados pelo sistema colonial. Tal como as novas elites educadas, os chefes
"tradicionais" estavam em posio ambgua. Aos olhos do povo, tinham per-
dido o carter tradicional de suas funes e de seu papel e, no mais das vezes,
os colonizadores os consideravam instrumentos de controle e no autnticos
parceiros. A perda de seu poder real, posio e prestgio social era, para muitos,
causa de descontentamento.
    Somente alguns administradores coloniais pareciam ter compreendido como
manejar as difceis relaes existentes entre as elites africanas "tradicionais" e as
novas, de um lado, e entre estas duas e os regimes coloniais, de outro. Entre as
excees, citam-se o general (depois marechal) Lyautey no Marrocos, sir (depois
lorde) Frederick Lugard na Nigria setentrional e sir Gordon Guggisberg na
Costa do Ouro (atual Gana). Mesmo estes empregavam geralmente a estratgia
de frear as aspiraes dos representantes das novas elites, normalmente descritos
como arrivistas ambiciosos. Era cmodo cultivar uma situao de conflito nas
relaes entre as duas elites africanas, desempenhando a potncia Imperialista
o papel protetor das autoridades e do sistema de governo tradicional. Nessa
situao, nenhuma das elites ficava satisfeita com os regimes coloniais. Em 1917,
o governador-geral Joost van Vollenhoven atentava para o carter explosivo do
problema, no tocante em particular ao futuro do colonialismo, nestas observa-
es atiladas:
      Os chefes indgenas, os de ontem que preservamos ou os de hoje que institumos,
      queixam-se de ser humilhados; os intrpretes, os mltiplos auxiliares da adminis-
      trao e do comrcio, queixam-se de ser usados como instrumentos e de no ter a
A poltica e o nacionalismo africanos, 1919-1935                                               661



    categoria de colaboradores. H em toda esta elite mal paga e bastante infeliz, to
    afastada da sociedade indgena, da qual foi expulsa, como da sociedade europeia,
    onde ela no  admitida, uma desiluso, um descontentamento, uma amargura que
    seria perigoso ignorar3.
    Van Vollenhoven fazia a seguinte recomendao, que naturalmente no podia
ser recebida favoravelmente, na poca, pelos dirigentes coloniais: " ...  necessrio
que esta elite seja reconhecida e melhor acolhida por ns. A reforma a operar
reside menos nos textos do que nos costumes"4.
    Semelhante atitude seria contrria  tica do imperialismo, e a recomendao
no foi considerada. Ao contrrio, as autoridades coloniais concentraram-se na
consolidao de seu domnio e na explorao dos recursos humanos e materiais
de suas colnias.
    Prioritariamente figurava a soluo dos problemas do ps-guerra na Europa
e a retomada da marcha da economia e dos servios. No entanto, o ambiente
internacional e o juzo colorido de liberalismo que ele fazia sobre o colonialismo
e os assuntos coloniais5 tornavam inevitvel, a longo prazo, uma mudana de
atitude.
    Mas o colonialismo no afetava apenas a elite educada e os dirigentes tradi-
cionais.  erro considerar, como se fez at agora, o nacionalismo africano como
um fenmeno elitista e puramente urbano. Trabalhos recentes mostram, cada
vez mais claramente, a importncia do descontentamento e dos sentimentos
anticolonialistas nas zonas rurais, sendo a sua causa principal as novas medidas
financeiras e econmicas, o novo sistema judicirio e, sobretudo, a depresso eco-
nmica dos anos 1930. Fatos como a migrao de descontentes do Alto Volta ou
da Costa do Marfim para a Costa do Ouro nos anos 1920, as ondas de destitui-
es de chefes  smbolos do colonialismo em inmeras regies da frica  pelos
sditos e, evidentemente, a recusa em vender cacau pelos produtores da frica
ocidental6 (estes ltimos amplamente estudados pelos pesquisadores) mostram
que a resistncia ao colonialismo no perodo entre as duas guerras no se limi-
tava s elites dos centros urbanos, mas encontrava eco tambm nas zonas rurais,
entre os camponeses e os operrios analfabetos.  verdade que as pesquisas ainda
se acham em estado embrionrio no que concerne  amplitude dos sentimentos


3    Archives du Sngal, Fonds Afrique Occidentale Franaise (ASAOF), 17G61/2, 1917, p. 10.
4    ASAOF, 17G61/2, 1917, p. 20.
5    Ver SARRAUT, 1923; LUGARD, 1929.
6    JENKINS (org.), 1975; OLORUNTIMEHIN, 1973a, p. 17-8.
662                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



e das atividades anticoloniais no meio rural e, sobretudo,  ligao  se ligao
houve  entre as atividades das elites urbanas e dos camponeses analfabetos.
Por conseguinte,  impossvel propor uma sntese neste captulo. Chamamos a
ateno dos futuros historiadores para este novo e apaixonante tema.
    Outro aspecto da poltica e do nacionalismo africanos entre as duas guerras
foi a preocupao com o renascimento cultural, reao inevitvel  realidade
brutal que era a negao, pelo colonizador, da cultura dos colonizados. O des-
pertar cultural foi um dos elementos da luta pela reafirmao e preservao da
identidade pessoal, de incio enquanto africanos e, depois, enquanto membros
de determinadas naes culturais. O pan-arabismo e o pan-africanismo so,
talvez, os exemplos mais notveis, mas os movimentos ditos "nativistas" e
os movimentos religiosos, assim como o "etiopianismo", atendiam  mesma
preocupao.
    Alm disso, o colonialismo  um fenmeno global que afeta ou representa
ameaa potencial a todos os aspectos da existncia; portanto, os movimentos
que se opuseram a ele tiveram de combat-lo sob todos os seus aspectos. Como
sistema orientado para a defesa de sua prpria segurana, o colonialismo  natu-
ralmente ameaado por quaisquer reivindicaes de equidade e de igualdade nas
relaes entre colonizador e colonizado, quer emanem de grupos de trabalha-
dores, de igrejas ou da burocracia colonial, quer se traduzam por manifestaes
destinadas a obter, por exemplo, escolas ou servios de sade. O ponto essencial
 que o colonialismo encarna a desigualdade fundada na discriminao racial,
e toda reivindicao de igualdade em qualquer domnio das relaes humanas
acaba por exigir o fim do colonialismo. Da mesma forma, as reaes africanas
sofreram o contragolpe das variaes de intensidade da influncia europeia no
que se refere a ideias e instituies. Os africanos das regies h mais tempo
submetidas  dominao europeia tinham tendncia a ser mais receptivos 
cultura poltica europeia e a esperar que seria possvel progredir por essa via
at a autodeterminao. Tendo permanecido mais expostos  educao euro-
peia, estavam mais afeitos ao modelo europeu de desenvolvimento econmico e
social. A agitao em favor da mudana nessas regies tendia, portanto, a tomar
uma forma constitucional, facilitada pela existncia das assembleias legislativas
coloniais.
    Em lugares como o Egito e o Sudo anglo-egpcio, a Arglia (principalmente
os trs departamentos, Argel, Constantine e Or), os protetorados franceses do
Marrocos e da Tunsia e as regies costeiras da frica Ocidental Francesa e da
frica britnica, a ao dos africanos era caracterizada pelo constitucionalismo
e pelo emprego de tcnicas de presso poltica correspondentes aos processos
A poltica e o nacionalismo africanos, 1919-1935                              663



polticos da Europa Ocidental: os nacionalistas africanos dirigiam-se ao mesmo
tempo s autoridades coloniais imediatas, aos grupos polticos e  opinio liberal
da metrpole.
    A base social deste enfoque constitucional no cessou de se ampliar,  medida
que aumentava o nmero de africanos educados e surgiam novos grupos eco-
nmicos e sociais, no contexto da dinmica da economia colonial e das medi-
das tomadas, particularmente quanto  educao, para preparar a mo de obra
africana necessria s atividades econmicas e sociais. Em numerosas colnias
essa nova mo de obra sindicalizou-se progressivamente, reforando a expresso
poltica anticolonialista do nacionalismo africano. Como o meio operno nas
colnias apresentava todos os sintomas da situao colonial, principalmente uma
explorao severa que repousava na discriminao racial e na injustia social, as
relaes de trabalho logo apresentaram antagonismo poltico idntico quele
que existia entre os cidados do pas colonizador e os africanos colonizados.
Os trabalhadores viriam a desempenhar papel primordial na ao poltica do
nacionalismo africano, a partir da Segunda Guerra Mundial7.
    O peso das diferentes ideologias oficiais veiculadas pelas potncias coloniais
foi igualmente determinante. Como diz John Peel, "uma ideologia, os ideais
das grandes religies, por exemplo,  um fator que modela os comportamentos
mesmo que ela seja imperfeitamente compreendida" e "o desenvolvimento no
pode ocorrer independentemente da interpretao que os homens fazem de
sua situao e de suas perspectivas"8. As diferenas de estilo e de orientao
dos nacionalistas africanos derivavam, em parte, do fato de os diversos grupos
referirem-se a ideologias diferentes para orientar a sua ao. Assim, os naciona-
listas africanos que viviam sob domnio francs na Arglia e no Senegal, onde
surgira a possibilidade de pr fim ao colonialismo mediante uma poltica de
"assimilao" que conduzia  cidadania francesa, com todos os direitos e res-
ponsabilidades correspondentes, tendiam a exercer constante presso para que
tal poltica fosse ampliada e generalizada.
    Em contrapartida, os africanos dos territrios britnicos abrigavam a espe-
rana de chegar  independncia como pases soberanos, ainda que membros
da Commonwealth, e mostravam-se claramente mais preocupados, durante o
perodo considerado, com reformas e participao que finalmente desembocas-
sem na independncia. O objetivo era o mesmo  a liberdade , o mtodo  que


7    BALANDIER e DADIE (org.), s.d., p. 202-406; DAVIES, I., 1966.
8    PEEL, 1968.
664                                                      frica sob dominao colonial, 1880-1935



era diferente. Este era ditado pelo contexto da ao, tal como o determinavam
as relaes dialticas entre as ideologias e as prticas coloniais9.
    O fator representado pelo colono est relacionado com o fator ideolgico.
Manifestou-se na relativa intensidade da colonizao enquanto processo, da
frustrao das esperanas do colonizado ou da no satisfao das reivindicaes
dos africanos. Esse fator explica as diferenas de tonalidade e de intensidade
na expresso do nacionalismo africano entre a Arglia, repleta de colonos, e os
outros territrios franceses que no sofriam esse problema. A mesma situao
verificava-se no Qunia, Rodsia e frica do Sul, dominados pelos colonos,
e os demais territrios britnicos. A declarao de preeminncia dos interes-
ses africanos (ou Declarao Devonshire) de 1923, relativa aos africanos do
Qunia, refletia uma ideologia essencialmente idntica quela que orientava
a administrao colonial britnica nas outras regies. A evoluo divergente
desses territrios resultou da determinao absoluta dos colonos, decididos a
perpetuar a sujeio da populao autctone pondo em prtica o chamado'
`ultracolonialismo"10.


      O nacionalismo africano e a evoluo internacional
    Entre as duas guerras, os nacionalistas africanos passaram praticamente
pela mesma situao: privao das liberdades polticas e sociais; explorao dos
recursos humanos e materiais em benefcio de senhores estrangeiros; negao
dos meios e servios suscetveis de contribuir para o avano poltico e social das
sociedades colonizadas ou, quando as mudanas pareciam inevitveis, manobras
destinadas a limitar e contornar o curso dos acontecimentos, no sentido favo-
rvel  manuteno do domnio colonial.
    Contra essas situaes impostas pelos colonialistas, erguiam-se as aspiraes
dos nacionalistas, que, no norte da frica, tentavam recuperar a soberania e a
independncia perdidas, embora sem pr em causa as novas estruturas territo-
riais das colnias e, no resto do continente, reivindicavam a melhoria da situa-
o social e econmica de suas comunidades, para dar sentido ao exerccio das
liberdades civis. Certos desenvolvimentos da situao internacional favoreciam
as aspiraes dos nacionalistas africanos. Por exemplo, as repercusses da Pri-
meira Guerra Mundial, j evocadas e examinadas no captulo 12 deste volume,


9     LORUNTIMEHIN, 1971, p. 33-50.
10    DUFFY, 1962; MINTER, 1972; ver, igualmente, OLORUNTIMEHIN, 1972b, p. 289-312.
A poltica e o nacionalismo africanos, 1919-1935                                665



e a posio assumida pela Sociedade das Naes, que considerava desejvel fazer
do desenvolvimento das populaes colonizadas um dos objetivos primordiais
do sistema colonial e um critrio de ao para as potncias coloniais, sobre-
tudo nos territrios sob mandato. A introduo da noo de responsabilidade,
perante a comunidade internacional, para com os territrios sob mandato foi
um estimulante para certos nacionalistas. No plano poltico, os nacionalistas
africanos foram encorajados por movimentos ideolgicos internacionais, como
a Internacional Comunista (Komintern), leninista e antiimperialista, e outros
movimentos socialistas, pela marcha para a independncia em outros continen-
tes, pelo pan-africanismo anti-imperialista inspirado por Sylvester Williarns,
Marcus Garvey e Williarn Du Bois e por outras influncias negras americanas
e caribenhas, que sero discutidas no captulo 29.
    Um congresso internacional reunido em Bruxelas em fevereiro de 1927,
sob os auspcios do Komintern, esteve na origem da formao da Liga con-
tra o Imperialismo e pela Independncia Nacional (conhecida simplesmente
como Liga contra o Imperialismo). Aproximadamente 180 delegados vindos
da Europa Ocidental, da Amrica do Norte, da Amrica Central e do Sul, do
Caribe, da sia e da frica assistiram a esse congresso, que reuniu comunistas,
grupos socialistas de esquerda, como o Independent Labour Party, representado
por seu secretrio-geral, Fenner Brockway (mais tarde, lorde Brockway), inte-
lectuais socialistas e representantes de movimentos nacionalistas dos territrios
coloniais. Entre os representantes da frica figuravam Messali Hadj e Hadjali
Abdel-Kader (Maghreb); Mohamed Hafiz Bey Ramadan e Ibrahim Youssef
(Egito); Lamine Senghor (frica Ocidental Francesa), Jorno Kenyatta (Qu-
nia), assim como J. T. Gumede de I. A. La Guma (frica do Sul). Estavam
tambm presentes membros da Inter-Colonial Union, como Max Bloncoux,
alm de Carlos Deambrosis Martins, vindo do Haiti11.
    Movimentos de defesa dos direitos do homem e do cidado e organismos
de luta contra a escravido funcionavam na Europa e em vrias colnias da
Africa. Movimentos de origem americana, como a Universal Negro Improve-
ment Association, de Marcus Garvey, fundada em 1917, exerceram influncia
em diversas colnias africanas.
    Em oposio a estas foras, que trabalhavam pela elevao das condies
sociais e polticas dos grupos colonizados ou oprimidos, propagavam-se dou-
trinas polticas autoritrias e retrgradas do ponto de vista racial, as quais foram


11   GEISS, 1974; PADMORE, 1956 .
666                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



institucionalizadas nos regimes fascista e nazista da Europa e nas autocracias
repressivas das colnias, particularmente nas italianas. Mesmo nos pases euro-
peus onde prevaleciam as doutrinas polticas liberais, como a Frana, o fascismo
e o nazismo encontraram adeptos, e os pontos de vista relativos  situao das
colnias foram afetados por isso. Em geral, os meios capitalistas da indstria e
do comrcio europeus continuaram a considerar as colnias como domnios a
preservar a todo custo.


      A expresso da poltica e do nacionalismo africanos
    Se o ambiente colonial e internacional era em grande parte uniforme, a
expresso concreta do nacionalismo e da poltica africana  fenmeno bem resu-
mido pela palavra swahili siasa  variava segundo o local, mesmo em territrios
submetidos  mesma autoridade colonial. Isso deriva principalmente do fato de
os territrios coloniais haverem sido obtidos em modalidades e pocas diferen-
tes, de modo que sua experincia do colonialismo no tinha a mesma durao,
nem a mesma natureza. A forma e a intensidade da ao dos nacionalistas
(wanasiasa) nas colnias dependiam de vrios fatores: qualidade dos dirigentes,
grau de difuso e de intensidade das influncias europeias no domnio das ideias
e das instituies, nmero e importncia dos colonos (brancos) e, finalmente,
ideologias e prticas coloniais.
    Em quase todos os casos, os movimentos nacionalistas e a poltica colonial
correspondente foram conduzidos e dominados pelas novas elites educadas,
que estavam em melhor situao para compreender a cultura poltica europeia
e, portanto, para reagir de maneira competente aos regimes coloniais, de acordo
com os termos desses mesmos regimes. Essas elites por vezes cooperaram com
membros das elites representativas da autoridade "tradicional", malgrado cer-
tas tenses. Foi o caso, na Costa do Ouro, da Aborigines Rights Protection
Seciety, bem como na Nigria meridional, no Marrocos e entre os Gikuyu do
Qunia. Em certos casos, as elites "tradicionais" conservaram a liderana, como
na Lbia e no Marrocos. Muitas vezes, entretanto, como os representantes das
autoridades tradicionais ou as pessoas recrutadas para esse fim eram promovidos
pelos regimes coloniais a instrumentos de controle, o movimento nacionalista
mostrava tendncia para acusar as elites tradicionais de cumplicidade e para
atac-las por isso.
    Os partidos polticos e as organizaes da juventude eram correias de trans-
misso para as aspiraes do nacionalismo africano. Os partidos polticos tive-
A poltica e o nacionalismo africanos, 1919-1935                              667



ram papel importante nos poucos pases onde havia assembleias legislativas
coloniais. No Egito, a outorga de um parlamento pelos britnicos, que tinham
decretado unilateralmente uma independncia de fachada em 1922, permitiu a
organizao e o funcionamento de partidos polticos. A situao constitucional
possibilitou que o Partido Wafd, de Sa'd Zaghlul, bem como o Partido Nacio-
nalista contribussem poderosamente para a luta pelo restabelecimento total
da independncia e da soberania do Egito (ver o captulo 23). Modificaes
de ordem constitucional, embora menos importantes, nas colnias britnicas
da Costa do Ouro favoreceram o aparecimento e o funcionamento efetivo de
partidos polticos. At ento, os esforos do National Congress of British West
Africa haviam sido facilmente frustrados (ver o captulo 26). Depois disso, o
National Democratic Party, da Nigria, por exemplo, conseguiu exercer influ-
ncia mais perdurvel sobre as autoridades coloniais e as populaes autctones.
Da mesma forma, os partidos polticos desempenharam papel importante no
Senegal, onde o General Council, convertido em Colonial Council depois de
1920, proporcionou a eles uma tribuna.
    As organizaes da juventude, os grupos tnicos, as associaes de ex-alunos
e outros movimentos dedicados  conquista das liberdades civis e dos direitos
do homem cumpriram papel insubstituvel em todas as colnias, independen-
temente de sua situao constitucional. Essas organizaes constituam uma
fora poltica e social incalculvel, em particular nas regies onde as atividades
polticas declaradas eram proibidas, dada a natureza repressiva da dominao
colonial.
    Entre as organizaes da juventude que serviram como catalisadores do
movimento nacionalista anticolonial, cujas atividades sero estudadas no cap-
tulo 25 deste volume, incluem-se a Gold Coast Youth Conference, fundada em
1929, a Lagos (mais tarde, Nigria) Youth Movement, a Young Egypt, a Harry
Thuku's Young Kikuyu Association, fundada no Qunia em 1921, o Sudan
Graduates' Congress, os movimentos Jeune Gabonais e Jeunes Tunisiens. Alguns
desses movimentos eram transterritoriais e outros inter-regionais, Estes ltimos
compreendiam a North African Star, dirigida por Messali Hadj; o National
Congress of British West Africa, o South Africa Congress e a West African
Students' Union, dirigida pelo nigeriano Ladipo Solanke, que recrutava seus
membros em toda a frica Ocidental Inglesa.
    As organizaes sociais que contriburam para exprimir o nacionalismo
africano e a poltica anticolonial compreendiam os diversos ramos existentes
na frica da Universal Negro Improvement Association, de Marcus Garvey,
fundada na Amrica em 1917, assim como a Nigerian Improvement Associa-
668                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



tion (1920). So de citar, igualmente, organizaes como a Lga dos Direitos
do Homem e do Cidado, no Gabo, a Liga Africana, de Luanda e Loureno
Marques (atual Maputo), em Angola e Moambique, a Socit Amicale des
Originaires de l' Afrique Equatoriale Franaise, de Andr Matswa, cujos mem-
bros eram de Libreville, Bangui e Brazzaville, a Ligue Universelle pour La
Dfense de La Race Negre (1925), dirigida por Tovalou Quenum (Daom,
atual Benin), o Comit, ento Ligue de Dfense de La Race Negre, dirigida
por Kouyat Garang (Sudo francs, atual Mali) e Lamine Senghor (Senegal)12.
Havia ainda, em mbito internacional, o Comit Mondial contre La Guerre et
le Fascisme e os vrios congressos pan-africanistas organizados por Sylvester
Williams e William Du Bois. Os sindicatos e os outros movimentos operrios
tambm se converteram em importantes agentes da luta contra o sistema colo-
nial, principalmente aps a Segunda Guerra Mundial.
    As armas forjadas entre as duas guerras para atacar o sistema colonial eram
mltiplas. As revoltas e rebelies, to frequentes durante o perodo anterior,
tornaram-se cada vez mais raras. Em lugar delas, os nacionalistas trataram de
lanar mo de jornais, livros, panfletos, peties, emigrao dos descontentes,
greves, boicotes, boletins de voto, a ctedra e a mesquita. A imprensa contribuiu
poderosamente para difundir as propostas dessas organizaes polticas e sociais.
O lento desenvolvimento de uma intelligentsia propiciava a audincia e a clien-
tela que sustentavam um nmero cada vez maior de jornais e de revistas. Alm
dos peridicos editados na frica, aprecivel nmero de publicaes estrangeiras
servia de veculo  propaganda anticolonialista e anti-imperialista dos movimen-
tos internacionais. As publicaes eram dirias, semanais, quinzenais ou mensais,
e outras apareciam quando possvel. Muitos desses veculos surgiram antes da
Primeira Guerra Mundial, como al-Liwa, dirio de lngua rabe fundado em
1900 para difundir as ideias do nacionalismo egpcio, L Dmocratie du Sngal
e The Lagos Weekly Record, fundado em 1891. A maior parte, no entanto, data
do perodo entre as duas guerras, como o Times of Nigeria (1921-1930), o Daily
Times (fundado em 1926), o Lagos Daity News (1925-1938), Le Priscope Afri-
cain (Dacar, 1929), L`Ouest Africain Franais ( Journal Rpublicain-Socialiste),
Le Courrier de l'Ouest Africain (Dacar), o African Morning Post, The Gold Coast
Times (Acra), L `Action Tunisienne (1932) e La Presse Porto-Novienne, com suttu-
los e uma parte em yoruba. De entre os jornais publicados em lnguas africanas,
alm do al-Liwa, egpcio, citamos o Akede Eko , em yoruba (Lagos, a partir de


12    GEISS, 1974; LANGLEY, 1973.
A poltica e o nacionalismo africanos, 1919-1935                               669



1932). De fora da frica vinham peridicos de inspirao comunista ou pan-
-africanista como Race Ngre, Negro World, La Voix des Ngres, Vox Populi, News
Times and Ethiopia News, Cri des Ngres, African Times and Orient Review, The
Crusader, New York Age e Coloured American. Alm de jornais, revistas, peas
de teatro, panfletos e folhetos, muitos livros escritos pelos lderes nacionalistas
criticavam rudemente ou ridicularizavam o sistema colonial.
    A imprensa divulgou as atividades nacionalistas e anticolonialistas atravs
das fronteiras. Nesse particular, ela constituiu uma fonte de constante preocu-
pao para os administradores coloniais, como o provam as leis antissedio de
meados dos anos 1930 e os esforos desenvolvidos para amordaar legalmente
certas publicaes. A difuso do rdio tornaria, depois, mais difceis e menos
eficazes as medidas repressivas tomadas pelas potncias coloniais para isolar suas
colnias das influncias externas.
    Conforme j salientamos, o constitucionalismo e o uso da imprensa e do rdio
dependiam da existncia de instituies legislativas nas colnias ou da esperana
de poder dispor delas, assim como da existncia de um nmero suficiente de
africanos educados  moda ocidental para aproveitar essas instituies e meios
de expresso. O esquema dos nacionalistas africanos educados  moda ocidental
pressupunha, ainda, a aceitao dos modelos de desenvolvimento poltico da
Europa Ocidental, os quais no podiam ser apreciados por quem no tivesse tal
experincia. A desigualdade dos nveis de educao era, portanto, uma varivel
importante para a expresso do nacionalismo e do anticolonialismo. Como as
potncias europeias queriam que as despesas da administrao e dos servios
coloniais fossem assumidas pelas prprias colnias, pouco esforo faziam para
difundir a educao ocidental e criar a infraestrutura necessria ao desenvolvi-
mento poltico e social. Em vrias regies da frica colonizada, no perodo entre
as duas guerras, as escolas primrias eram ainda poucas e o ensino secundrio,
uma raridade. Na frica Central Britnica, na frica Equatorial Francesa, no
Sudo e nas colnias portuguesas de Angola, Moambique e Guin, a educao
secundria era praticamente inacessvel antes da Segunda Guerra Mundial. L
difcilmente os nacionalistas poderiam adotar o esquema constitucional para
expressar seu anticolonialismo.
     neste contexto que se deve tentar compreender o papel dos movimentos
tradicionalistas (ou "nativistas") e scio-religiosos durante o perodo em estudo.
Particularmente importantes  como j vimos em alguns captulos anteriores
 foram os movimentos messinicos que expressavam, ao mesmo tempo, as
ideologias autctones e ideologias inspiradas no cristianismo e no islamismo.
Esses movimentos tinham carter emancipador, como acontece sempre que uma
670                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



comunidade tem de manifestar descontentamento com relao a suas condies
de vida e seus anseios de regenerao. Representavam uma ideologia antag-
nica ao colonialismo, na medida em que este constitua a negao da cultura
autctone e um rebaixamento econmico, social e psicolgico da populao
colonizada. Como diz Lanternari, "Eles refletem as ansiedades e as esperanas
dos grupos que deles participam com vistas  transformao, sbita e total, de
seu ambiente fsico, social e psicolgico"13.
    Como exemplos notveis no perodo que nos interessa, citemos (certas ati-
vidades desses movimentos foram igualmente examinadas no captulo 20 deste
volume) o etiopianismo na frica meridional e oriental e os movimentos diri-
gidos por pregadores milenaristas na frica meridional e central, sobretudo
o Kitawala (African Watch Tower), que tinha numerosos adeptos nas duas
Rodsias e se estendia aos dois Congos (atualmente, Zaire e R. D. do Congo) e
 Niassalndia (atual Malaui), o movimento kimbanguista (fundado no Congo
Belga por Simon Kimbangu, com seguidores no Congo Belga e no Congo
francs, bem como a Mission des Noirs, neokimbanguista, fundada no baixo
Congo por Simon Pierre Mpadi. Tambm conhecido como khakismo, este
ltimo movimento influenciou as populaes do Congo francs e de Oubangui-
-Chari (mais tarde Repblica Centro-Africana). Alguns desses movimentos
eram inspirados pela aceitao do cristianismo, mas estavam decepcionados com
a expresso de religio da igreja oficial das sociedades coloniais. Ansiosos por
defender a frica da opresso colonial, os nacionalistas africanos descobriram
uma igreja no mnimo indiferente. Logo se afastaram dela, num esprito muito
semelhante ao da Reforma, que caracterizou o crescimento e a propagao do
cristianismo em numerosas sociedades. A exemplo dos movimentos reforma-
dores da Europa e de outras regies, as igrejas e os movimentos fundados pelos
nacionalistas africanos tendiam a pr em prtica ideias crists, como a fraterni-
dade humana e a unidade dos crentes sem distino de raa nem de cor, a fim
de fazer cessar a discriminao e a opresso.
    O estreito lao entre o espiritual e a situao social e material ressaltava
dos mtodos adotados por esses movimentos. Se a religio continuava a ser o
meio de expresso das aspiraes africanas, a ao concreta assumia a forma de
recusa a pagar o imposto e agitao social.  imagem dos movimentos fundados
por Kimbangu e Mpadi, Ruben Spartas Mukasa criou, em Uganda, a African
Progressive Association e a Christian Army for the Salvation of Africa. Antigo


13    LANTERNARI, 1974, p. 483.
A poltica e o nacionalismo africanos, 1919-1935                              671



soldado dos King's African Rifles, Mukasa deu expresso ao objetivo unificador
de todos esses movimentos ao prometer trabalhar a todo custo pela redeno
da frica. O objetivo poltico e social era claro quando, ao fundar uma filial da
African Orthodox Church, em Uganda, declarou que essa igreja era "todos os
africanos que pensam corretamente, para os homens que querem ser livres em
sua prpria ptria e no tratados sempre como crianas". A igreja de Mukasa
estendeu-se at o Qunia. Do mesmo gnero eram a Last Church of God and
His Christ, de Jordan Msuma, na Niassalndia, bem como as diversas igrejas
africanas de Aladura, na frica ocidental.
    O islamismo representava um contrapeso para a ideologia colonial, assim
como uma tribuna para a expresso do messianismo. O Mahd , para o muul-
mano, o que o Messias  para o cristo. O mahdismo fustigou as autoridades
coloniais da frica setentrional e ocidental, no Sudo e na Somlia. Conforme
j vimos, o sansiyya, na Lbia dominada pela Itlia, talvez represente o melhor
exemplo da expresso do nacionalismo e do anticolonialismo atravs do islo. O
pan-islamismo, aspecto religioso de um pan-arabismo de vocao cultural, assim
como a ideia da Salafiya, tambm desempenhou papel predominante na poltica
nacionalista e colonial no Egito, no Maghreb e no norte do Sudo anglo-egpcio.
A influncia sanusiyya como fora anticolonialista estendia-se at certas partes
da frica ocidental. Os movimentos islmicos como o hamalliyya, o tijaniyya e o
mouridiyya constituam para as autoridades uma ameaa constante  segurana
do sistema colonial.
    Esses movimentos islmicos permitiram estabelecer uma slida ligao
entre adeptos que viviam sob diferentes regimes coloniais. A partir da Primeira
Guerra Mundial, conforme demonstrou Crowder (ver o captulo 12), a ideolo-
gia pan-islmica propagada desde a Turquia suscitou s autoridades coloniais
de numerosas partes da frica um problema preocupante, ao qual procuraram
enfrentar mediante a troca de informaes e a cooperao intercolonial.
    Fosse qual fosse o grau de exposio dos africanos colonizados s influncias
ocidentais, os diferentes movimentos culturais formavam uma base comum para
a expresso do nacionalismo africano. J falamos da capacidade de resistncia das
culturas e das instituies africanas, que mantiveram todo o seu significado para
as populaes colonizadas. At mesmo os integrantes mais ocidentalizados das
elites cultas tinham de enfrentar a realidade de sua africanidade essencial, qual-
quer que fosse seu grau de aculturao. Na sua maior parte, os j mencionados
movimentos da juventude  e que sero estudados mais adiante  compreen-
diam o quanto a cultura africana era importante para preservar sua identidade
contra as invases europeias pelo canal escolar. As diversas associaes gikuyu
672                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



so exemplos disso. O mesmo se pode dizer dos movimentos pan-africanistas
e do conceito bastante fluido de "negritude", surgido, como vimos no captulo
anterior, em comeos dos anos de 1930, e dos movimentos ditos "nativistas" e
"religiosos" j mencionados.
    Todas essas expresses de nacionalismo e anticolonialismo constituam a
anttese da relao dialtica entre europeus colonizadores e africanos coloniza-
dos. A reao dos regimes coloniais, que, regra geral, procuravam reassegurar o
seu domnio pela fora e pela lei, era compreensvel, uma vez que na Europa, por
ento, afirmavam-se as autocracias e as tendncias autoritrias. Mas os regimes
coloniais no eram ameaados apenas pela oposio dos africanos. A difuso
das ideias e das instituies europeias foi para eles um srio desafio. As tenta-
tivas feitas para limitar a qualidade e a extenso da educao estavam na razo
direta do receio de que o sistema de relaes colonial viesse a ser ameaado pela
educao e pelas ideias polticas e sociais europeias. Foi por isso que a cultura
geral em todos os nveis foi condenada, dando-se preferncia s escolas rurais e
profissionalizantes e aos estabelecimentos ps-secundrios destinados a formar
tcnicos de nvel mdio, mas no s universidades. Havia que seguir o exemplo
da ndia, onde a difuso do ensino geral contribuiu poderosamente para o desen-
volvimento do nacionalismo e do anticolonialismo. Essa era a justificativa para
a orientao e os programas de estabelecimentos como a Escola William Ponty,
na frica Ocidental Francesa, o Yaba Higher College (Nigria), o Achirnota
College (Costa do Ouro), o Gordon's College (Khartum) e o Makerere College,
na frica Oriental Britnica14.
    Mas o esforo desenvolvido para regulamentar a evoluo social nas colnias foi
outra fonte de queixas contra o colonialismo, as quais alimentaram os movimentos
nacionalistas. A crise econmica mundial agravou duplamente a situao, ao limitar
os recursos que permitiam aos regimes coloniais viver sem subvenes da metr-
pole. A tendncia geral foi reduzir as despesas de servios e de infraestruturas que
beneficiassem os colonizados, congelando as oportunidades de trabalho sem con-
sideraes pelo impacto social do desemprego. Ao mesmo tempo, as exaes que
empobreciam as colnias tornaram-se mais pesadas com o aumento dos impostos
e com o uso frequente de trabalho barato e forado, numa situao em que os
agricultores recebiam remunerao cada vez menor por suas matrias-primas e
pagavam cada vez mais caro pelas manufaturas importadas da Europa.




14    OLORUNTIMEHIN,1974, p. 337-57; ABERNETHY, 1969, p. 79-88.
A poltica e o nacionalismo africanos, 1919-1935                               673



    Convm, finalmente, indicar que a guerra talo-etope, desencadeada em
1935, com a subsequente ocupao da Etipia, foi um acontecimento interna-
cional de grande importncia, a reforar o sentimento de alienao dos colo-
nizados, sobretudo os educados, em relao aos regimes coloniais. O estilo da
invaso italiana  o do fascismo e do nazismo em geral  dava nfase  natureza
racial do colonialismo europeu na frica. Quem alimentara esperanas na Liga
das Naes sofreu tremendo desapontamento. O desejo de proteger o orgu-
lho ferido do africano explica o ressurgimento das ideias pan-africanistas e de
ideologias como a da negritude nessa poca. Igualmente importantes foram as
de organizaes internacionais em prol da independncia da Etipia, pas que
simbolizava a esperana do africano educado na independncia.
    Os jornais e revistas, tanto africanos quanto estrangeiros, serviam natural-
mente como veculos para a transmisso de um nacionalismo anticolonialista
e antieuropeu. Foi para bloquear este desenvolvimento que se tomaram vrias
medidas administrativas e legislativas de represso contra os meios de comu-
nicao de massa, inclusive do rdio, que se expandia devagar. Foram feitos
esforos para impedir ou limitar a circulao de livros, jornais, revistas e apare-
lhos de rdio, mesmo importados das metrpoles coloniais. Em quase todos os
casos, a imprensa local foi rigidamente controlada pela censura e pelas leis de
segurana. Todas essas medidas foram tomadas para facilitar as operaes da
administrao colonial, que passou a ser caracterizada pela maior intolerncia
para com as aspiraes nacionalistas e pela supresso das liberdades humanas e
dos direitos civis.
    No perodo entre as duas guerras, o colonialismo e o nacionalismo afri-
cano viveram uma relao dialtica. O nacionalismo africano e as atividades
anticoloniais no obtiveram muito xito, mas causaram alguma preocupao
aos funcionrios coloniais. Todas as medidas de represso tomadas no perodo
refletem essa preocupao. As reaes coloniais ao desafio posto pelo naciona-
lismo africano chegaram  tentativa de manter a frica afastada das correntes
gerais do desenvolvimento mundial. Isso no s era irrealista e autocontraditrio,
como tambm teve funo catalisadora, ao fazer com que o nacionalismo e o
anticolonialismo crescessem como bola de neve, rumo a formas mais profundas
e amplas que, com o impacto da Segunda Guerra Mundial, conduziram ao
movimento de derrocada do sistema colonial.
Poltica e nacionalismo no nordeste da frica, 1919-1935                 675



                                       CAPTULO 23


                 Poltica e nacionalismo no
               nordeste da frica, 1919-1935
                                     Hassan Ahmed Ibrahim




    Introduo
   No perodo entre as guerras mundiais, duas formas rivais de nacionalismo
disputaram a supremacia no nordeste da frica  o nacionalismo laico e o
patriotismo de inspirao religiosa. A herana sempre viva do Mahdi no Sudo
e de Sayyid Muhammad na Somlia operou diretamente a fuso da religio
com o sentimento patritico. No Egito, nesse mesmo perodo, o nacionalismo
conheceu um processo de secularizao. No entanto, mesmo assim o moder-
nismo islmico e o nacionalismo interagiram no cenrio poltico. No se pode
esquecer que o nacionalista Sa'd Zaghll, grande figura da vida poltica egpcia
desde a primeira dcada subsequente  Primeira Guerra Mundial, foi influen-
ciado por Djaml al-Dn al-Afghn, pan-islamista revolucionrio apaixonado,
que se dedicou a "despertar a conscincia nacional e a atiar o descontentamento
no reinado de Ism'l"1. , porm, verdade que o movimento criado por Zaghll
era essencialmente patritico e laico. As ondas de protestos que agitaram o sul
do Sudo tambm tinham carter essencialmente laico. No norte do Sudo e na
Somlia  que se torna mais difcil distinguir os papis respectivos do religioso
e do poltico no decorrer desse perodo.


1    HOURANI, 1962, p. 108-9; ver tambm KEDDIE, 1968.
676                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



     dialtica entre religio e laicismo em poltica veio juntar-se, entre as duas
guerras, uma dialtica entre nacionalismo e problemas econmicos. A econo-
mia mundial viria a passar por seus anos mais sombrios. No final da dcada de
1920, as prprias potncias coloniais sofriam o contragolpe de uma crise que
se agravaria at a grande depresso. As colnias do nordeste da frica haviam
suportado as presses econmicas dez ou vinte anos antes que o mundo indus-
trializado fosse atingido em cheio pela grande depresso.
    Esses anos foram igualmente assinalados, no nordeste da frica, por uma
intensificao do avano imperialista, ao qual correspondeu nova onda de mili-
tncia anti-imperialista. Foram os anos da ltima fronteira da Europa: novos
territrios foram anexados e consolidou-se a dominao colonial. Era o encer-
ramento das conquistas imperialistas no continente. Ao mesmo tempo, sobrevi-
nham a mar montante da militncia anticolonialista dos povos colonizados e o
incio de uma organizao poltica efetiva, na luta pela liberdade e a igualdade. Foi
especialmente no Egito que esse movimento se destacou, mas no somente l.
    A Primeira Guerra Mundial contribuiu para suscitar essas contradies.
Dentre todos os pases da regio, sem dvida o Egito  o que foi mais direta-
mente afetado pelo conflito. Quando a Turquia entrou na guerra ao lado da Ale-
manha, o Reino Unido aproveitou o pretexto no s para liquidar o que restava
da suserania do imprio otomano no vale do Nilo, mas tambm para declarar o
Egito protetorado britnico e instalar ali um novo monarca da sua preferncia.
A declarao do protetorado e a prpria natureza da nova monarquia tiveram
poderoso efeito catalisador sobre o sentimento nacionalista egpcio. A ocupao
militar de Suez, onde meio milho de soldados sob comando britnico defendia
o canal, no fez mais que reforar a nova onda de militantismo.
    Os britnicos tambm consolidaram sua posio no Sudo, o que fez surgir
novas formas de sentimento nacionalista. O imperialismo europeu dava prosse-
guimento  sua expanso territorial na frica, mas ao mesmo tempo despertava
os sentimentos patriticos das populaes autctones. No entanto, importa no
esquecer que, ento, o prprio nacionalismo egpcio no se desembaraara ainda
de suas tendncias expansionistas. Os chefes do novo movimento nacionalista do
Egito consideravam o Sudo uma colnia, e reivindicavam a soberania egpcia
sobre esse pas.
    Tais eram, portanto, as contradies contextuais bsicas no nordeste da
frica, entre as duas guerras: a dialtica entre foras econmicas e foras pol-
ticas, entre religio e nacionalismo, entre a ltima fronteira do imperialismo e
a nova fronteira do anticolonialismo, entre patriotismo local e expansionismo
local, principalmente nas relaes egpcio-sudanesas.
Poltica e nacionalismo no nordeste da frica, 1919-1935                      677



   Examinemos, agora, os acontecimentos de maneira mais profunda, pas por
pas, tendo em conta o fato de que alguns desses problemas econmicos que
abalaram a frica do nordeste durante o perodo concorreram, em grande parte,
para o estabelecimento de um clima propcio  agitao nacionalista e para as
manifestaes do ressentimento popular.


    Egito
    A revoluo de 1919
    Com o protetorado institudo pela Inglaterra em 1914, os nacionalistas egp-
cios consideraram de urgente necessidade a criao de um organismo unificado
que representasse a nao no conflito que iria op-la aos britnicos. Foi essa
a razo pela qual Sa'd Zaghll (fig. 23.1), o eminente dirigente egpcio, junta-
mente com dois colegas, fundou em novembro de 1916 o al-Wafd al-Misr, ou
Delegao Egpcia.
    O Wafd tinha uma concepo militante da mudana. Seus objetivos ltimos
eram conquistar a independncia total do Egito, garantir a soberania egpcia
sobre o Sudo e abolir as capitulaes que outorgavam privilgios especiais aos
estrangeiros residentes no pas. Os estatutos do Wafd no mencionavam aber-
tamente estes dois objetivos finais, mas tratava-se de manobra ttica para obter
primeiro a independncia e, depois, cuidar do restante2.
    Zaghll e seus companheiros representavam no somente a nova elite egp-
cia  administradores, juristas e diversos quadros laicos , mas tambm um
novo grupo de proprietrios de terras. Socialmente, "pertenciam a uma classe
de proprietrios e profissionais autctones, relativamente recente, oriunda das
provncias"3. O surgimento desta classe era sinal de que a antiga aristocracia
estrangeira  turco-egpcia e albanesa  tinha de renunciar ao papel prepon-
derante que exercera em detrimento da elite profissional, por muito tempo
alijada.
    O Wafd adotou tticas militantes para consolidar a sua autoridade. Distribua
panfletos, organizava reunies pblicas e obtinha "declaraes em boa e devida
forma, assinadas por todas as organizaes representativas do pas, atestando que
o Wafd era o representante oficial da nao egpcia e nico rgo competente


2    RAMADN, 1968, p. 431-2.
3    VATIKIOTIS, 1969, p. 252.
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figura 23.1   Nacionalismo no Egito: Zaghll Pacha (c. 1857-1927) discursa, exigindo a retirada das tropas britnicas (c. 1920). (Foto: Harlingue-Viollet.)
Poltica e nacionalismo no nordeste da frica, 1919-1935                      679



para negociar o futuro do pas4". Alm disso, ao se tornar o verdadeiro porta-voz
das queixas e reivindicaes populares, conquistou largo apoio em todo o pas.
    Assim, o Wafd rejeitou vigorosamente a inaceitvel e humilhante declarao
mediante a qual o Reino Unido instituiu unilateralmente, em dezembro de 1914,
o protetorado sobre o Egito, considerando-a medida ilegal e somente aplicvel
em tempos de guerra. Preconizava que fosse imediatamente abolida, de acordo
com a doutrina de autodeterminao do presidente Woodrow Wilson e com
a promessa feita pelos Aliados de, no fim da guerra, dar liberdade s pequenas
naes.
    A crise econmica viria a servir  causa nacionalista. Os mltiplos proble-
mas sociais e econmicos que tinham assolado a sociedade egpcia durante o
conflito mundial disseminaram um sentimento de frustrao entre as massas. O
governo britnico havia prometido assumir toda a responsabilidade da guerra,
mas um corpo expedicionrio egpcio foi encarregado de defender o canal de
Suez e entrou em ao na Sria e na Palestina. Milhares de camponeses foram
recrutados  fora para servir numa unidade aliada de sapadores e cameleiros.
As colheitas de cereais e o gado foram requisitados, sem que os proprietrios
recebessem suficiente indenizao. O custo de vida disparou, penalizando prin-
cipalmente os funcionrios e os trabalhadores no especializados, pois a alta dos
preos no foi acompanhada pelo aumento proporcional dos salrios. Os pro-
prietrios de terras no conseguiam aproveitar bem a alta do preo do algodo,
pois, para estimular o cultivo de gneros alimentcios de primeira necessidade, as
autoridades britnicas limitaram a plantao do produto, fixaram-lhe a cotao
e restringiram-lhe a exportao. O Wafd salientou repetidamente a responsabi-
lidade do Reino Unido por essa injustia, e convenceu os egpcios a juntarem-se
a ele para corrigir a situao. Essa enrgica campanha levou os egpcios de todas
as classes a afastar-se pouco a pouco dos britnicos, at que em 1919 reinava um
estado de descontentamento explosivo em todo o pas5. A privao econmica
dispunha o cenrio para uma resposta poltica das massas.
    A incapacidade do governo britnico em avaliar a fora e a amplitude da
nova onda nacionalista e sua arrogante obstinao em querer manter a situao
de protetorado constituram erros capitais. Mesmo depois, a pertincia com que
recusou que Husayn Rushdi, primeiro-ministro do tempo de guerra, e Zaghll
apresentassem o caso do Egito  Conferncia de Paz, em Paris, acrescentou
lenha  fogueira. O mais perigoso dos maus passos dos britnicos, porm, foi a

4    Ibid., p. 255.
5    ELGOOD, 1928, p. 227.
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deteno de Zaghll e dois companheiros seus, no dia 8 de maro de 1919, e sua
deportao para Malta. Estava ateada a centelha que desencadeou a revoluo
de 1919.
    A mobilizao do Wafd produziu de imediato violentas manifestaes e
greves macias dos trabalhadores em transportes, dos juzes e advogados. Os
alunos da universidade de al-Azhar e das escolas secundrias e tcnicas parti-
ciparam ativamente da luta nacionalista. As provncias aderiram rapidamente
ao movimento geral de protesto, e houve tentativas cada vez mais arrojadas de
sabotagem das redes ferroviria e telefnica. O pessoal militar britnico tambm
foi alvo de numerosos ataques; o mais grave deles foi o assassnio de oito oficiais
e soldados em Deyrt, no dia 18 de maro, no trem que ia de Assu para o
Cairo. Rapidamente o pas ficou paralisado, e a posio do Reino Unido viu-se
gravemente comprometida. O Wafd surgia, ento, como nico representante da
nao, e Zaghlul dominou a cena poltica do pas at a sua morte, em 1927.
    A revoluo de 1919  um acontecimento de considervel importncia na
histria do Egito moderno. Efetivamente, ela mobilizou pela primeira vez todas
as classes egpcias (camponeses, operrios, estudantes, proprietrios rurais, inte-
lectuais) e todos os grupos religiosos (coptas e muulmanos) contra o colonia-
lismo britnico. Os dirigentes da comunidade copta participaram, de fato, em
p de igualdade, da tentativa nacionalista para recuperar a independncia; alguns
coptas chegaram a ser escolhidos para membros do Comit Central do Wafd.
Isso significou uma demonstrao do novo esprito laico, do mesmo modo como
a participao das mulheres nas manifestaes pblicas contra o Reino Unido
constitua um fato novo.
    Em face do levante nacional, o Reino Unido foi obrigado a inaugurar uma
poltica de conciliao com os nacionalistas. Lorde Allenby, nomeado alto
comissrio especial, ps Zaghll e seus companheiros em liberdade e autorizou
que partissem para Paris. O governo britnico constituiu uma misso especial,
presidida por Lorde Milner, secretrio de Estado das Colnias, e a incumbiu de
investigar as causas da "agitao" e definir a constituio mais adequada ao Egito,
sob o regime de protetorado. Malgrado a eficcia da campanha organizada pelo
Wafd para boicotar a misso Milner, as concluses a que chegou, propondo que
o insatisfatrio protetorado fosse substitudo por um tratado de aliana nego-
ciado com os nacionalistas, foram um triunfo para o Wafd.
    O Reino Unido tambm foi obrigado a reconhecer o Wafd como porta-voz
da nao. Milner iria ainda mais longe, ao convidar Zaghll a visitar Lon-
dres Para conversaes oficiosas que desembocaram, em 1920, no memorando
Milner-Zaghll. O acordo previa uma aliana ofensiva e defensiva entre os dois
Poltica e nacionalismo no nordeste da frica, 1919-1935                      681



pases, e, desde que as potncias capitulares concordassem, os direitos dessas
potncias seriam transferidos ao Reino Unido. No entanto, o memorando nada
dizia a respeito do Sudo, j que, segundo Milner, a situao desse territrio
fora definida sem equvocos no acordo sobre o condomnio6. As negociaes
malograram, com a insistncia do Wafd em exigir a independncia e a sobera-
nia totais do Egito sobre o Sudo, embora o memorando tenha sido ponto de
partida para todas as negociaes posteriores.
    A Declarao de Independncia, em 28 de fevereiro de 1922, foi o resultado
mais importante da revoluo de 1919. Sob a presso dos nacionalistas, o Reino
Unido aboliu unilateralmente o protetorado e reconheceu a independncia do
Egito, com a condio de que o status quo fosse mantido nos seguintes assun-
tos (habitualmente denominados "pontos reservados"), at a concluso de um
acordo com o Egito: segurana das comunicaes com o imprio, defesa do
Egito, proteo das minorias e dos interesses estrangeiros, Sudo7. A indepen-
dncia do Egito foi oficialmente declarada em 15 de maro de 1922, e o sulto
Fu'd, que sucedera a Husayn Kamil em 1917, assumiu o ttulo de Fu'd I, rei do
Egito. Mas, tratava-se de um autntico exemplo de descolonizao? Ou o Reino
Unido estava mais uma vez defendendo as novas fronteiras do imprio?
    A Declarao de Independncia deu ao governo egpcio maior liberdade de
movimentos para dirigir os negcios internos e externos. Restaurou o Ministrio
das Relaes Exteriores, que havia sido suprimido em 1914, permitindo-lhe
manter representaes diplomticas e consulares. Alm disso, a Declarao
previa um regime constitucional, objetivo pelo qual os nacionalistas lutavam
desde 18838 (fig. 23.2). Sobre essas bases  que foi promulgada a Constituio
de 1923.
    Contudo, esse  um lado da histria. Em comparao com a sua ideologia
militante, a revoluo de 1919 s havia conseguido um xito limitado, tanto
no setor poltico como no domnio constitucional. A independncia outorgada
pela Declarao estava restringida pelos pontos reservados, principalmente pela
reserva que previa o prosseguimento da ocupao militar britnica no Egito.
Alm disso, os estrangeiros continuavam a gozar do privilgio de extraterritoria-
lidade, e o acordo sobre o condomnio, ditado pelos britnicos, permanecia em
vigor para providenciar um quadro constitucional  administrao do Sudo. De
forma semelhante, a Constituio de 1923 no permitia ao Egito fundamentar

6    MILNER, 1921, p. 24-34.
7    MARLOWE, 1965.
8    AL-RF, 1969, v. I, p. 39-40.
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figura 23.2 O movimento nacionalista no Egito ( 1918-1923): manifestao a favor de Fud I (c. 1920). (Foto: Harlingue-Viollet.)
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o regime constitucional sobre bases firmes e slidas, pois concedia extensos
poderes  monarquia, sobretudo o de escolher e nomear o primeiro-ministro,
demitir o gabinete e dissolver o parlamento ou adiar as sesses. Essas disposi-
es ameaavam a existncia da democracia parlamentar antes mesmo que ela
nascesse.
   A incapacidade de satisfazer o conjunto das aspiraes nacionais devia-se,
principalmente, ao progressivo rompimento da unidade nacional obtida em
1919. Rivalidades pessoais com relao  liderana do Wafd e divergncias
sobre a questo da independncia conduziram, em 1920, a uma dissenso entre
os moderados de Adl Yakan e os militantes de Zaghll na frente nacional. Os
primeiros achavam que um compromisso com o Reino Unido era inevitvel,
dado que os egpcios no haviam conseguido obter apoio internacional para a
sua causa, nem prosseguir a luta por seus prprios meios. Os militantes, por sua
vez, estavam to irritados com a obstinao do Reino Unido e to impressiona-
dos com o levante popular de 19199 que preconizavam o prosseguimento da luta
at que os britnicos aceitassem todas as reivindicaes nacionais. O resultado
da controvrsia foi a trgica diviso do Wafd, e do pas como um todo, em dois
grupos rivais: os adeptos de Zaghll e os de Adl Yakan. Consequentemente,
o Wafd tornou-se o partido que representava a maioria dos egpcios, e no um
organismo unificado que falava em nome de toda a nao.
   A poltica colonial do Reino Unido  "dividir para reinar"  explorou ao
mximo esta ciso nos quadros do Wafd. Aproveitando a manipulao e a decep-
o, os administradores coloniais incitaram os adeptos de Adl Yakan a se afas-
tarem dos de Zaghll. Allenby neutralizou os ltimos, mas acomodou-se com
os moderados e negociou com eles a Declarao de Independncia. Zaghll
considerou a declarao "um desastre nacional"10, mas, apesar da violenta cam-
panha de protesto organizada pelo Wafd, a declarao delimitava as fronteiras
provisrias do imprio.

     A era das negociaes, 19241935
    No perodo posterior ao da declarao de independncia, a luta naciona-
lista voltou-se predominantemente para a abolio dos "pontos reservados", por
meio de um acordo negociado com o Reino Unido. Houve quatro negociaes
entre 1924 e 1935: as negociaes MacDonald-Zaghll em 1924, Tharwat-


9    A Conferncia de Paz de Paris reconheceu, em maio de 1919, o protetorado britnico sobre o Egito.
10   AL-RF, 1969, v. I, p. 135.
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-Chamberlain em 1927, Mahmud-Henderson em 1929 e Nahhas-Henderson
em 193011. Todas, contudo, malograram, pois o Reino Unido se recusava a
qualquer concesso capaz de enfraquecer o regime de ocupao no Egito ou de
modificar o status quo no Sudo. Essa intransigncia estava estreitamente ligada
ao papel cada vez mais importante, de inspirao britnica, se no criado por
eles, do Palcio como centro de oposio ao Wafd.
    O Reino Unido trouxe Fu'd de volta ao poder em 1922 para amortecer
os atritos com o Wafd extremista e para concretizar as suas esperanas. Fu'd,
autcrata ambicioso, tinha apoiado o movimento de independncia dirigido pelo
Wafd em 1919, mas esperava control-lo e utiliz-lo "para seus prprios fins,
como instrumento que contribusse para aumentar seu prestgio e seu poder"12.
Mas, compreendendo logo que Zaghll seguia uma via independente, acusou-o
de procurar subverter a monarquia e declarar a repblica no Egito. Da resul-
tou profunda inimizade entre o monarca e o Wafd, que caracterizou a poltica
egpcia at 1952. O Reino Unido estimulava essa hostilidade, e a explorou em
benefcio de seus interesses imperialistas.
    Para impedir o acesso do Wafd ao poder, Fu'd suspendeu por trs vezes em
menos de sete anos  1924, 1928 e 1930  a Constituio de 1923, nomeando
sempre um primeiro-ministro de sua preferncia. Quando do golpe de Estado
constitucional de 1930, o primeiro-ministro nomeado pelo Palcio, Ism'l Sidk,
substituiu a Constituio de 1923 por outra menos democrtica. O principal
objetivo da nova legislao eleitoral consistia em manter o Wafd fora do poder13.
No decorrer da maior parte dos cinco anos seguintes, o Egito teve, de fato,
governos antiwafdistas. Essas frequentes ingerncias no sistema constitucional
impediam que o regime parlamentar e suas respectivas instituies se implan-
tassem na vida poltica do pas.
    Os diversos governos que administraram o Egito antes de 1935, particular-
mente o de Sidk, em 1930-1933, tomaram medidas de represso contra o Wafd.
Os dirigentes do movimento foram presos, seus jornais proibidos e seus corre-
ligionrios demitidos dos postos que ocupavam no governo e na administrao.
Alm de endossarem essas medidas extremas, os administradores coloniais toma-
ram, ocasionalmente, medidas diretas para humilhar o Wafd. Por exemplo, no
permitiram por duas vezes, em 1924 e 1926, que Zaghll assumisse o cargo de
primeiro-ministro, muito embora seu partido tivesse maioria no parlamento.

11    IBRHM, H. A., 1976, p. 15-6.
12    KEDOURIE (org.), 1970, p. 90-1.
13    TWEEDY, 1931, p. 198.
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    Essa campanha repressiva redundou no gradual declnio da popularidade
do Wafd e na desagregao de sua unidade. Descontente com o que qualificava
de "direo pouco esclarecida"14 de Nahhs, sucessor de Zaghll, um grupo de
dirigentes do Wafd abandonou o partido em 1932. Menos capazes e menos
desejosos de enfrentar o colonialismo, os lderes do Wafd decidiram, ento,
por maioria, por volta de 1935, ganhar mais foras contra o Palcio fazendo
um acordo com o Reino Unido15. Para atingir esse objetivo, no podiam seno
transigir sobre as reivindicaes nacionais. Essa fraqueza resultou na concluso
do tratado de 1936, que legalizava a ocupao britnica no Egito e mantinha
no Sudo a administrao dominada pelo Reino Unido.


     Sudo
   Na esteira da Primeira Guerra Mundial, a resistncia sudanesa ao regime
colonial britnico manifestou-se por meio de diversas atividades e sentimentos.
A elite intelectual, os madhistas e os nacionalistas religiosos organizaram a
oposio no norte do Sudo, enquanto no sul os movimentos de protesto eram
de natureza predominantemente local.

     Movimentos de protesto da juventude
    A emergente elite intelectual desempenhou papel notvel na evoluo da
poltica sudanesa, no decurso do perodo 1919-1925. Essa elite era fundamen-
talmente composta por estudantes e diplomados do Gordon Memorial College
e do Military College de Khartum (ver fig. 23.3). Eles constituram associaes
prprias, por intermdio das quais desenvolveram ativa campanha poltica con-
tra o colonialismo. Uma das primeiras associaes de "jovens" foi o Graduate's
Club of Omdurman (Clube dos Diplomados de Omdurman), fundado em 1918.
No entanto, nos anos imediatamente posteriores  guerra, foram criadas duas
associaes clandestinas de carter mais poltico: a League of Sudanese Union,
LSU (Liga de Unio Sudanesa), em 1919, e, mais importante ainda, a White
Flag League, WFL (Liga da Bandeira Branca), fundada em maio de 1924 por
`Al `Abd al-Latf, o mais destacado lder nacionalista da poca.



14   MARSOT, 1977, p. 139.
15   IBRHM, H. A., 1976, p. 24-5.
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figura 23.3   O University College de Khartum, em 1953. Ao fundo, distingue-se o Gordon Memorial College. (Foto: Ministrio dos Negcios Sociais do
Sudo.)
Poltica e nacionalismo no nordeste da frica, 1919-1935                      687



      Muitos autores britnicos minimizam o movimento nacionalista sudans
de comeos dos anos 1920, sustentando que no era representativo e que seus
adeptos no passavam de agentes e lacaios do Egito. No entanto, trabalhos
recentes de especialistas sudaneses estabeleceram que, embora estreitamente
ligado ao Egito no plano ttico, cultural e ideolgico, o movimento era de
origens bem locais e tinha como principal objetivo a abolio do regime colo-
nial britnico. Tanto o programa da LSU como o da WFL davam prioridade
ao trmino da "escravido imposta pelo senhor colonial". A autenticidade do
movimento  melhor avaliada  luz do telegrama que `Al `Abd al-Latf e trs de
seus companheiros enviaram ao governador-geral, a 15 de maio de 1924. Esse
importante documento fala explicitamente de uma nao sudanesa e do direito
 autodeterminao, descartando as pretenses do Reino Unido e do Egito a
quererem decidir sozinhos o futuro do Sudo16.
       O apelo  unidade com o Egito lanado pelos nacionalistas constitua,
aparentemente, mais um lema poltico do que um princpio nacionalista. Era
sobretudo expresso de uma poltica de oportunismo, calculada para obter a
simpatia e o apoio do Egito, tambm em via de travar uma luta nacional. Alm
disso, o lema da unidade imps-se aos nacionalistas pela recusa do Reino Unido
a conceder o direito  autodeterminao e pela poltica de se servir dos dirigen-
tes locais e religiosos para perpetuar a sua dominao. Desse ponto de vista, "o
conceito de unidade era para os nacionalistas o melhor meio, ou seja, o nico,
de conseguir uma certa margem de manobra e a possibilidade de adotar uma
contra-estratgia"17. Uma vez que o Reino Unido, inimigo comum, tivesse sido
expulso do Sudo, os nacionalistas esperavam persuadir o Egito a tambm deixar
o territrio sudans. O lema "o Sudo para os sudaneses", lanado pelos dirigentes
tradicionais e conservadores, era rejeitado pelos intelectuais, que o consideravam
um ardil de inspirao britnica para excluir o Egito e dominar o Sudo.
       A exemplo do Wafd, os nacionalistas sudaneses tornaram-se os tericos
e porta-vozes das reivindicaes locais, elaborando, assim, uma ideologia de
oposio  dominao estrangeira. Apoiados no em motivos religiosos, mas em
reivindicaes econmicas e polticas, no perdiam ocasio de enfatizar a capa-
cidade e o estrangeirismo do colonizador. As "Reivindicaes da Nao", que
`Abd al-Latf redigiu para al-Hadra em 1922, eram inteiramente constitudas
por crticas ao governo.


16   Para a traduo oficial desse telegrama, ver ABDIN, 1970, p. 48-9.
17   Ibid., p. 4.
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    Inicialmente, panfletos expedidos pelo correio para todos os cantos foram a
principal tcnica empregada pelos nacionalistas para a difuso de suas ideias e
propaganda. Em novembro de 1920, um "conselheiro fiel dirigiu a centenas de
pessoas de todo o pas uma famosa circular na qual denunciava a ttica do `divi-
dir para reinar' que os britnicos empregavam no Egito e no Sudo, e exortava
as duas naes a se unirem contra o colonialismo britnico"18. Esses panfletos
foram tambm afixados em lugares pblicos e distribudos nas ruas. Alm disso,
de vez em quando os nacionalistas conseguiam passar clandestinamente alguns
documentos para que fossem publicados na imprensa egpcia amiga, e organi-
zavam festivais de literatura e de teatro.
    Em 1923, porm, esses mtodos ineficazes de propaganda clandestina foram
abandonados em favor de uma ttica mais revolucionria. Os nacionalistas acre-
ditavam que um confronto aberto com o regime colonial britnico seria a melhor
maneira de ampliar a base nacionalista e o apoio popular aos seus ideais. Em
seu militantismo, pareciam querer seguir conscientemente o exemplo do Wafd
no Egito19. A exemplo do que ocorreu na ndia, tambm apelavam, ignorando
os funcionrios coloniais de Khartum, para a opinio pblica liberal do Reino
Unido, no sentido de que ela apoiasse as reivindicaes do Sudo tendo em vista
a autodeterminao.
    Essa mudana de orientao e de ttica poltica produziu violenta agitao
poltica em Khartum e em outras capitais e cidades da provncia, em 1924. A
White Flag League organizou manifestaes e levantes em Atbara, Port Sudan,
al-`Obeyd e Shend, sobretudo aps a deteno de seu presidente, `Abd al-Latf,
e de dois de seus companheiros, no ms de julho (ver fig. 23.1). Foram prin-
cipalmente as tendncias laicas do nacionalismo sudans que se expressaram
nessas manifestaes.
    Os militares sudaneses eram particularmente receptivos s ideias e  propa-
ganda da White Flag League. Os cadetes foram incentivados a fazer manifes-
taes em certas vilas do norte e do sul. Os alunos da escola militar de Khartum
desfilavam pelas ruas com armas e munies.
    Os oficiais sudaneses, muitos deles de origem Dinka, pegaram em armas
contra o colonialismo britnico. Planejaram e executaram a importante revolta
militar de novembro de 1924 em Khartum. O principal objetivo poltico da
revolta era prestar solidariedade e camaradagem aos batalhes egpcios que iam


18    ABD AL-RAHIM, 1969, p. 102-3.
19    ABDIN, 1970, p. 64.
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de partida20. Os soldados sudaneses abandonaram as casernas para se juntar s
unidades egpcias no bairro norte de Khartum, e no  impossvel que tenham
cogitado de um golpe de Estado, em combinao com as tropas egpcias.
    Mas os soldados britnicos abriram fogo contra eles en route. Da resultou
encarniado combate, que prosseguiu durante toda a tarde e a noite de 27 para
28 de novembro e custou a vida de mais de uma dezena de soldados sudaneses.
Trs soldados foram levados a conselho de guerra e executados; os demais par-
ticipantes foram condenados a severas penas de priso.
    O completo fracasso da revolta marcou o incio de uma dcada em que a
inteligentsia "se manteve tranquila, cuidando das feridas dos anos passados e repen-
sando os planos e mtodos a adotar no futuro". politicamente, esses anos foram
assinalados pelo desencanto e pela esterilidade. A hostilidade do regime colonial
e sua determinao em suprimir toda ao poltica aberta foraram os intelectuais
a se voltarem para atividades literrias, religiosas e sociais, "consideradas como
sada e meio de reagrupamento"21. Formaram pequenos grupos de estudos em
diversas cidades e fundaram vrios jornais e revistas, que tiveram vida efmera,
mas animada, que comprova ``a vitalidade e a seriedade dessa gerao"22. O folclore
do perodo, principalmente na poesia, exprime os rancores e a amargura que a
arrogncia e o autoritarismo dos funcionrios britnicos suscitavam.
    O primeiro movimento nacionalista do incio da dcada de 1920 no foi,
portanto, bem-sucedido, e a principal razo disso foi a falta de apoio das massas,
j que ele no procurou nem desejou aliar-se s foras locais e religiosas, nicas a
contar com apoio popular no pas. No obstante, foi um movimento importante,
pois surgiu mais cedo que os movimentos nacionalistas de outros territrios
dependentes da frica tropical. Alm disso, o seu contedo ideolgico sobre-
viveu a uma dcada de apatia poltica: seu principal lema poltico  Unidade
do Vale do Nilo  foi retomado na dcada de 1940 pelo Ashika e por outros
partidos unionistas.

     Resistncia mahdista ao regime colonial
   O mahdismo foi uma das primeiras armas utilizadas pelos sudaneses na luta
anticolonialista que se desenrolou nos centros provinciais das redondezas de


20   O Reino Unido usou o pretexto do assassnio de sir Lee Stack no Cairo para exigir, entre outras coisas,
     a retirada imediata das tropas egpcias do Sudo.
21   ABDIN, 1970, p. 98.
22 ABD AL-RAHIM, 1969, p. 113.
690                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



Khartum. Tanto os militantes como os neomahdistas fizeram,  sua maneira,
oposio ao regime colonial no decurso do perodo.

      Levantes mahdistas
    Durante a primeira gerao do regime de condomnio (1899-1955) raros foram
os anos em que no houve um levante mahdista contra o colonialismo. Embora
nas zonas sedentrias do Sudo essa onda de movimentos milenaristas acabasse
morrendo pouco a pouco, os mahdistas continuaram ativos na provncia de Drfr
(ver fig. 24.1). Muitos deles, investidos como profetas messinicos, declararam a
guerra santa (djihd) contra o regime britnico dos "infiis". O mais importante
deles foi o fak `Abdullh al-Sihayn, chefe da revolta de Nyla (1921).
    Como as que a tinham precedido, a revolta de Nyla visava abolir o regime
colonial dos "infiis" e restaurar o "glorioso" movimento Mahdiyya no Sudo.
Alm desse motivo fundamentalmente religioso, a imposio de uma admi-
nistrao colonial centralizada, a elevao do tributo sobre o gado e sobre o
"dzimo" (`ushr) constituram outros fatores que incitaram os habitantes de
Drfr a aderir  revolta23.
    Sob o comando de al-Sihayn, um destacamento com aproximadamente 5
mil homens atacou o forte e o mercado de Nyla em 26 de setembro de 1921.
Tomaram o forte e atearam fogo a uma construo vizinha. Al-Sihayn lanou
um segundo ataque, durante a qual ele poderia ter derrotado o inimigo, se no
tivesse sido gravemente ferido. Do embate resultaram 43 mortos e 21 feridos do
lado das foras coloniais, e no mnimo 600 mortos do lado sudans.
    Al-Sihayn foi enforcado em praa pblica no dia 4 de outubro, mas os seus
partidrios prosseguiram a luta. Reuniram efetivos de mais ou menos 5 mil
homens a uns 80 quilmetros de Nyla. Em face do aspecto perigoso que os
acontecimentos assumiam, os administradores coloniais enviaram uma impor-
tante expedio punitiva que percorreu o Drfr meridional. Esses soldados
detiveram muita gente, queimaram casas, confiscaram gado e bens. Em maio de
1922, o perodo de resistncia chegava ao fim em Dar Masalt.
    A revolta de Nyla foi com certeza a mais importante que ocorreu no Sudo
antes de 1924. Ao contrrio dos movimentos mahdistas anteriores, ela "quase
chegou a atingir o objetivo imediato que parecia visar" e "reavivou plenamente
o velho temor de uma grande revolta de inspirao religiosa"24. O levante no


23    IBRHM, 1979, p. 459-60.
24    DALY, 1977, p. 144.
Poltica e nacionalismo no nordeste da frica, 1919-1935                       691



logrou pr fim  dominao colonial, mas, no entanto, seu xito parcial foi
tomado como advertncia.

     O neomahdismo
    Desde 1914, Sayyid `Abd al-Rahmn, filho pstumo do Mahd, acreditava
que o fanatismo j no funcionava e que a cooperao com os britnicos, com
base no lema "O Sudo para os sudaneses", serviria melhor aos interesses da
nao sudanesa e da seita mahdista. Este respeito pelas vias constitucionais
no tinha verdadeiramente o tom da sinceridade, mas era, de fato, ditado pelas
realidades polticas. Efetivamente, al-Sayyid no alimentava iluses: qualquer
levante armado no podia levar seno  aniquilao total.
    De maneira semelhante, al-Sayyid era inteligente o bastante para compre-
ender que qualquer agitao poltica e religiosa exigia recursos financeiros. Tra-
tou, portanto, de desenvolver suas atividades agrcolas e comerciais, chegando
a tornar-se, em 1935, grande proprietrio rural e rico capitalista. Em vez de
encontrar na riqueza um meio de satisfazer suas ambies, porm, conforme
esperavam ingenuamente os administradores coloniais, `Abd al-Rahmn a usou
para consolidar a organizao Ansr. Graas a manobras hbeis e a um combate
sem descanso, soube contornar as proibies coloniais, consolidar sua influn-
cia nos centros mahdistas tradicionais do ocidente, encontrar novos adeptos e
ampliar sua influncia. Verificando que, no leste, o nacionalismo poltico come-
ava a suplantar a religio como principal fora motriz, al-Sayyid dedicou-se,
na dcada de 1930, a obter o apoio dos intelectuais25.
    Em 1935, o neomahdismo se convertera em uma importante fora poltica
anticolonialista. A unidade que conseguira estabelecer entre um considervel
setor da intelectualidade, de um lado, e os elementos tradicionais e religiosos, de
outro, esteve na origem da Frente da Independncia, que exerceu forte atrao
sobre os nacionalistas na dcada de 1950. Essa frente desempenhou papel de
importncia excepcional na conquista da independncia, em 1956.

     Movimentos locais de protesto no sul do Sudo
   As populaes africanas do sul do Sudo continuaram combatendo o regime
colonial britnico no decorrer deste perodo. A resistncia apresentava trs gran-
des caractersticas: nem sempre se tratava, sequer na maior parte dos casos,


25   IBRHM, 1977.
692                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



de reao a uma flagrante opresso administrativa; o objetivo consistia mais
em eliminar o colonialismo britnico nessa regio da frica; ampliava-se para
grupos cuja atitude anterior, conquanto distante e duvidosa, no havia sido sis-
tematicamente hostil  dominao colonial. O movimento ganhou, sobretudo,
considervel amplitude, pois os Dinka e os Nuer, os maiores grupos tnicos da
regio, desempenharam nele papel particularmente ativo. Calaram os costumei-
ros antagonismos locais e se concentraram na resistncia, sob a direo de chefes
surgidos em circunstncias excepcionais (alguns deles, chefes religiosos), muitas
vezes "profetas" carismticos. Essa grande onda de resistncia foi marcada por
dois levantes que merecem ateno: o de Aliab Dinka (1919-1920) e a revolta
dos Dinka (1927-1928). As tradies religiosas africanas deram colorao parti-
cular a tais revoltas. Os Aliab Dinka revoltaram-se abertamente em 1919, tanto
por se sentirem abandonados quanto por se verem oprimidos.
    A causa imediata do primeiro levante foram as malversaes do ma `mr, o
administrador colonial de que os Aliab dependiam diretamente, principalmente
o costume que ele tinha de se apropriar das mulheres e do gado. O levante parece
ter feito parte de um plano de conjunto, do qual participavam outras populaes
sudanesas do sul26. Foi com muita dificuldade que os Bor Dinka foram impedi-
dos de se revoltar em apoio aos Aliab, mas os Mandari, populao que no era
de origem Dinka, aderiram efetivamente a eles27.
    O levante dos Aliab Dinka comeou em 30 de outubro de 1919, quando um
destacamento de uns 3 mil homens atacou a esquadra de polcia de Minkam-
man, ao sul do rio Sobat. A esquadra foi tomada de assalto pelos Aliab, mas o
ma `mr conseguiu escapar. Dois dias depois, um grupo de Mandari penetrou no
entreposto (zarba) dos operrios que estavam instalando linhas telegrficas em
Mulla, matou trs pessoas e fugiu, levando-lhes os fuzis. Em 2 de novembro, os
Aliab agiram de novo, atacando um abrigo e matando dois policiais28. O assalto
dos Dinka acabou por ser repelido, mas a campanha militar revelou-se muito
cara para a administrao colonial: alguns funcionrios e inmeros policiais
morreram no campo de batalha.
    Nesta crise da histria dos Dinka, as populaes encontraram um chefe
prestigioso na figura de Bul Yol, mais conhecido pelo apelido de Ariendit. Habi-
lssimo na criao de organizaes polticas, o profeta Ariendit mobilizou, em
1921, as populaes Dinka contra o colonialismo. Seu programa era simples e

26    MAWUT, 1978, p. 80.
27    SANDERSON, 1980, p. 4-5.
28    COLLINS, 1967, p. 77.
Poltica e nacionalismo no nordeste da frica, 1919-1935                     693



revolucionrio: acabar com o colonialismo  de fato, obter a independncia dos
Dinka29. Os partidrios de Ariendit lanaram diversos ataques contra posies
coloniais, mas foram dispersos entre fevereiro e maro de 1922.
    Os povos Nuer tambm opuseram forte resistncia ao colonialismo na
regio sul. Sucederam-se expedies punitivas das tropas britnicas, mas eles
no aceitavam a derrota. A seu ver, tinham perdido algumas batalhas, mas no
a guerra. No entanto, a revolta dos Nuer (1927-1928) marcou o apogeu da sua
resistncia.
    Sob a direo do profeta Garluark, que gozava de poder e prestgio conside-
rveis, os Nuer ocidentais se recusaram a obedecer s ordens da administrao.
Quando Fergusson, comissrio do distrito de Nuerland ocidental, chegou ao
lago Jorr, em viagem de inspeo, em dezembro de 1927, uma multido de
milhares e milhares de guerreiros Nuer atacou a sua escolta. Fergusso foi morto,
juntamente com outras 18 pessoas do seu squito, enquanto o resto da misso
de inspeo, em pnico, conseguia escapar.
    No mesmo momento, os Nuer da regio de Lou, a sul do rio Sobat, rebela-
vam-se contra o colonialismo. Seu influente chefe, o profeta Gwek Ngundeng,
recusava-se a ver funcionrios coloniais, inclusive o prprio governador-geral.
Ngundeng enviou emissrios a toda a regio dos Lou e preveniu os grupos de
Nuer vizinhos para que se preparassem para a guerra contra os "turcos"30. Cons-
cientes de que Ngundeng podia atacar a qualquer momento, os funcionrios
coloniais tomaram rigorosas medidas para destruir o movimento.
    A cega e feroz violncia com que os levantes foram reprimidos acarretou
considerveis perdas humanas e materiais. No entanto, a valente resistncia dos
Dinka e dos Nuer convenceu os colonialistas britnicos de que a violncia por
si s era incua. Foram obrigados a inaugurar, no incio da dcada de 1930, uma
poltica mais conciliadora e mais "humana" para com as populaes do Sudo
meridional.


     Somlia
  O povo Somali j tinha h muito tempo, profundamente arraigado, o senti-
mento da nacionalidade somali, sentimento acentuado por uma cultura nacio-



29   SANDERSON, 1980, p. 22.
30   DIGERNES, 1978, p. 88.
694                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



nal quase uniforme e reforado por fortssima adeso ao islo31. Tal como seus
antecessores e sucessores, os nacionalistas somali apelaram, no perodo entre
as duas guerras, para esse sentimento de identidade nacional na luta contra os
imperialismos italiano, britnico e francs no conjunto do territrio da Somlia
(ver fig. 23.1).
    Alm desse fator fundamental, outras foras intervieram, estas vinculadas s
inovaes sociais que o colonialismo havia introduzido no contexto da socie-
dade somali. As potncias coloniais haviam, de fato, destrudo as instituies
sociais e polticas tradicionais dos Somali e imposto as suas. Implantaram, em
todas as regies do pas, um sistema de administrao centralizada, onde todos
os poderes efetivos eram devolvidos aos administradores coloniais, ficando os
Somali sem qualquer responsabilidade, a no ser em postos bastante subalter-
nos. Os chefes designados pela administrao colonial, conhecidos como akils
no protetorado britnico e capos na Somlia sob domnio italiano, tinham papel
meramente consultivo e serviam para transmitir as diretrizes coloniais  popu-
lao. Era um sistema bem diferente das instituies locais, tradicionalmente
autnomas, bem como do nomadismo, ao qual estavam muito ligados os Somali,
na sua esmagadora maioria. Com orgulhoso sentido de independncia e desdm
atvico por todos os elementos estrangeiros, sobretudo pelos cristos de raa
branca, os Somali no podiam deixar de opor-se a essas inovaes radicais.
    Antes da era colonial, os Somali no estavam sujeitos a qualquer imposto
governamental, alm do foro do cdi e das taxas de importao e exportao.
Mas as potncias coloniais fizeram campanha para mobilizar e explorar todos
os recursos dos Somali  recursos humanos e materiais , por intermdio dos
chefes nomeados, os quais no tinham a menor considerao pelas autoridades
tradicionais. Impostos diretos foram institudos pela primeira vez, sob a forma
de imposto anual sobre as palhotas na Somlia italiana e sobre o gado no pro-
tetorado britnico. Alm disso, a mo de obra somali era recrutada  fora para
empresas coloniais. Os franceses recrutaram 2 mil Somali como trabalhadores
braais durante a Primeira Guerra Mundial, dos quais 400 morreram e 1200
ficaram feridos32. Os administradores italianos faziam frequentes razias para
conseguir a mo de obra necessria a suas plantaes da Somlia. Os traba-
lhadores assim arregimentados eram reunidos de acordo com a origem tnica
ou tribal, e obrigados a viver em aldeamentos coloniais, nos consrcios. Todos


31    LEWIS, I. M., 1963, p. 147.
32    THOMPSON e ADLOFF, 1968, p. 10.
Poltica e nacionalismo no nordeste da frica, 1919-1935                             695



esses sofrimentos e exploraes provocaram um ressentimento geral contra o
colonialismo.
    A resistncia dos Somali  dominao colonial durante o perodo 1919-1935
foi, assim, uma resposta direta a essas mudanas sociais. Ele se expressou atravs
de dois tipos de movimento de protesto: movimentos locais e movimentos da
elite.

     Movimentos de protesto locais
    De modo geral, a resistncia somali no perodo entre as duas guerras, nas
colnias europeias e no Ogaden ocupado pelos etopes, teve carter local e nunca
mobilizou o conjunto da populao, essencialmente porque os Somali no cons-
tituam entidade poltica autnoma. Ao contrrio, estavam divididos em diversos
cls bastante vastos, muitas vezes inimigos, por sua vez "subdivididos em uma
grande variedade de grupos reunidos em torno de um rei", cada qual formado
apenas por alguns milhares de homens33.
    Os levantes locais foram muito numerosos e diversos para serem aqui exami-
nados, mas o estudo de alguns deles nos permitir captar-lhes o sentido.
    Quando os administradores coloniais deram a todos os chefes e ancios
somali a ordem de entregar suas armas de fogo e munies, Hdji Hasan, da
tribo dos Galjal Haya, recusou-se categoricamente e replicou em tom de desafio
ao comissrio regional:
     No aceito a sua ordem. No nos entenderemos consigo de forma alguma, pois vocs
     romperam o nosso pacto [...] O governo tem a sua lei e ns temos a nossa. No
     aceitamos ordens seno dos nossos. Nossa lei  a lei de Deus e a do Profeta [...] Se
     penetrarem em nosso pas para fazer a guerra, ns os combateremos por todos os
     meios [...] Deus disse: Um pequeno nmero pode vencer a multido. O mundo est
     perto do fim: faltam apenas 58 anos [...] No queremos ficar neste mundo,  melhor
     morrer seguindo a lei muulmana. Todos os muulmanos esto unidos34.
    Hdji Hasan foi capturado, mas o esprito da resistncia no foi reprimido,
pois os povos Eile, de etnia Bantu, rebelaram-se, por sua vez, perto de Bur
Acuba.
    Entretanto, o imperialismo continuava em expanso. A resistncia que os ita-
lianos enfrentaram ao tentar integrar  sua colnia as duas provncias setentrio-


33   LEWIS, I. M., 1963, p. 147.
34   Citado por HESS, 1966, p. 151.
696                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



nais de Obbia e de Midjurtayn tambm prova que os Somali estavam decididos
a preservar as tradies e a liberdade que caracterizavam a sua sociedade. Ysuf
`Al Kenadid, sulto de Obbia, estabeleceu contato com o sulto de Midjurtayn
na tentativa de compor uma frente unida contra os invasores, mas dissenses
locais impediram a coligao.
    Obbia foi anexada em 1925, e os italianos exilaram Ysuf em Mogadscio35.
Houve, porm, um audacioso levante em al-Bur, sob o comando de `Umar
Samatar, membro do cl dos Midjurtayn, designado pelos italianos como chefe
da populao local. Samatar tomou o forte de al-Bur e entrincheirou as suas for-
as no edifcio central. As foras italianas que o cercaram foram, ento, atacadas
pela populao das redondezas,  frente da qual se encontrava Herzi Gushan,
comandante militar do distrito do sulto' Al Ysuf. A 15 de novembro, as foras
coloniais retiraram-se para Bud Bud, abandonando 38 mortos, entre os quais o
prprio residente italiano. A 30 de novembro, os italianos foram mais uma vez
vencidos em uma emboscada, em Bot36. Samatar e alguns de seus partidrios
cruzaram a fronteira para entrar na Etipia, onde fizeram campanha contra a
infiltrao italiana em Ogaden e atacaram postos fronteirios.
    Os italianos tiveram de enfrentar resistncia ainda mais encarniada no sul-
tanato de Midjurtayn. O clebre sulto de Midjurtayn, `Uthman Mahmud, recu-
sou a posio subalterna que os colonialistas lhe atriburam, assim como a seu
povo. Apesar da represso colonial, seu movimento continuou a ganhar foras e
fez frente ao invasor durante aproximadamente dois anos. Foi, no entanto, preso
em fins de 1927 e tratado da mesma forma como seu parente Ysuf37, mas a luta
continuou sob o comando de seu filho e herdeiro presuntivo Herzi Bogor.
    Apoiado pelos chefes tradicionais, que preconizavam a guerra total, Herzi
atacou as bases italianas de Ras Hafun e expulsou uma guarnio italiana de
Hordio, no incio de dezembro de 1925. Seis semanas mais tarde, outro grande
ataque ameaou as instalaes italianas do cabo Guardafui. Herzi lanou outro
audacioso assalto contra Eil, na foz do Nogal 38. Os colonialistas reagiram mais
uma vez da forma previsvel: fazendo prises e deportando lderes. Herzi partiu
para a Etipia, mas voltou muitos anos depois para Mogadscio, onde morreu
de varola.



35    ISA, 1965, p. 172.
36    HESS, 1966, p. 154.
37    LEWIS, I. M., 1965, p. 99.
38    HESS, 1966, p. 155.
Poltica e nacionalismo no nordeste da frica, 1919-1935                      697



    Entretanto, a memria sempre presente da revolta de Sayyid Muhammad
consolidou o esprito de resistncia no corao de inmeros Somali do prote-
torado. Eles prosseguiram na sua ao, sempre dispostos a fustigar o regime
colonial quando o sentiam enfraquecido. Alguns partidrios de Mulla, como
Farah `Umar e Hdjdj Bashr Ysuf, continuaram a luta39. Alm disso, levantes
locais foram muitas vezes organizados contra os britnicos, principalmente
no oeste e nas fronteiras orientais. Certos dirigentes religiosos consideravam
que a inovao representada pela educao ocidental no protetorado servia aos
missionrios cristos e constitua, portanto, ameaa para o islo. As tentativas
feitas em 1920 e 1935 para desenvolver esse tipo de ensino suscitaram violenta
oposio, que, afinal, se traduziu em dois tumultos, um em Burao em 1922, outro
em Baro em 1936. Neste, o diretor britnico da educao, que acabava de ser
nomeado, foi recebido com uma saraivada de pedras40.
    Os levantes locais contra o colonialismo francs tambm foram significa-
tivos. Os Afar e os Issa, os dois principais grupos tnicos da Somlia francesa,
mostraram-se igualmente hostis  administrao colonial. Os sultanatos de
Tadjura e de Gobaad, habitados pelos Afar, eram particularmente ativos. De fato,
os franceses deportaram o sulto de Gobaad para Madagscar, sumariamente,
em 193141.
    O sulto de Awsa, que por muito tempo se ops  penetrao francesa na
regio, tinha motivos pessoais para isso no perodo entre as duas guerras. Ao
tomarem a regio situada entre a costa e a fronteira etope, os franceses o haviam
privado das rendas que ele at ento auferia das populaes locais e do comr-
cio dos caravaneiros. Assim, o sulto Yay armou uma emboscada e prendeu
Lippmann, o novo governador francs do posto de Dikhil. Albert Bernard, seu
sucessor, foi morto com 16 soldados somali em Morheito, no ano de 1935. O
sulto de Awsa foi mais longe ainda em sua ao aps a conquista da Etipia
pelos italianos, em 1935, quando Roma decidiu apoiar as reivindicaes terri-
toriais de Awsa a expensas da Frana42.
    As potncias coloniais dividiram arbitrariamente a Somlia, sem consultar os
membros dos cls, nem levar muito em conta a sua distribuio geogrfica ou
suas necessidades de pastagem. Assim, os cls dos Gadabursi e dos Issa ficaram
divididos entre o Reino Unido e a Etipia e, no caso dos Issa, tambm a Frana.


39   ISA, 1965, p. 130.
40   LEWIS, I. M., 1965, p. 103-4.
41   THOMPSON e ADLOFF, 1968, p. 11.
42   Ibid.
698                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



As fronteiras muitas vezes dividiam grupos tnicos, e terras pertencentes a
determinado grupo eram frequentemente concedidas a novos proprietrios, que
no tinham direito a elas. Resultou da uma certa agitao, com os Somali dese-
josos de recuperar suas terras ou de se juntar aos parentes de quem tinham sido
separados. Muitas vezes os Somali resistiram pela fora  delimitao colonial
das fronteiras. A comisso mista anglo-etope, encarregada em 1932 de fixar as
fronteiras do protetorado, tambm enfrentou violenta oposio dos membros
dos cls dessa regio, e o funcionrio responsvel foi morto43.
   Os levantes locais contra a dominao colonial na Somlia foram de porte
e natureza limitados. Organizados no quadro tradicional do fragmentado sis-
tema somali, era muito difcil coorden-los em escala nacional. As rivalidades
ancestrais entre os diversos cls, as lutas que travavam para ter acesso a fontes de
gua e pastagens, constituam empecilhos para a resistncia somali44. Os admi-
nistradores coloniais tiravam partido da situao para jogar um grupo tnico
Contra o outro, bem como para encontrar agentes e aliados. A brutalidade na
represso aos levantes tambm explica, at certo ponto, o carter limitado dos
movimentos. No obstante, proporcionaram um elemento de continuidade da
era anterior e lanaram os alicerces para a resistncia popular ulterior ao colo-
nialismo na Somlia.

      Movimentos de protesto da elite
   Hostis aos chefes designados pela administrao colonial, que se tornavam
cada vez mais impopulares, os membros da elite intelectual e os Somali dota-
dos de conscincia poltica, habitassem ou no a pennsula, organizaram suas
prprias associaes de "jovens" , por meio das quais os modernos nacionalistas
somali  funcionrios pblicos, comerciantes, marinheiros etc.  conduziram a
sua campanha poltica.
   Hadjdj Farah `Umar, antigo funcionrio colonial e poltico de vanguarda,
militou desde 1920 pelo nacionalismo dentro do protetorado. Denunciou os
excessos da administrao colonial e fez campanha a favor da melhora das
condies econmicas e da expanso do ensino.  significativo verificar que ele
no limitava suas atividades aos assuntos relativos apenas ao protetorado brit-
nico, interessando-se por tudo o que dizia respeito aos territrios dos Somali.
Os britnicos o exilaram em Aden, mas, graas  cooperao da comunidade


43    LEWIS, I. M., 1965, p. 106-7.
44    TURTON, 1972, p. 124.
Poltica e nacionalismo no nordeste da frica, 1919-1935                                                699



somali desta cidade, fundou a Associao lslmica dos Somali. A associao, que
realmente no era um organismo poltico, promovia os interesses somali. Hadjdj
Farah despertou a ateno da opinio britnica para as aspiraes nacionais dos
Somali mediante artigos publicados nos jornais de Aden e peties e cartas
dirigidas ao governo britnico,  imprensa inglesa e aos membros do Parlamento
de Londres.
    Entre as atividades dos movimentos de "jovens", convm citar particular-
mente as reunies clandestinas de funcionrios coloniais subalternos e os clubes
polticos criados por volta de 1935, pelos comerciantes, nas principais cidades
do protetorado. Seu objetivo no consistia em criar uma organizao de grande
envergadura, mas em recrutar adeptos de qualidade45. No obstante, desem-
penharam certo papel ao exprimir as reivindicaes populares e estimular a
tomada de conscincia poltica nas vilas e nos centros urbanos. Da mesma
forma, na Somlia francesa o Sindicato dos Martimos, fundado no ano de 1931
em Djibouti, demonstrava certo interesse pela poltica. "Na sua diversidade, as
preocupaes do sindicato iam alm dos problemas prprios dos marinheiros,
englobando questes como a representao dos Somali no governo e a parte
que lhes deveria caber na economia do territrio46."
    Foi dessas tentativas que nasceu, em 1935, a Somali National League, SNL
(Liga Nacional da Somlia), a mais importante associao de "jovens" do perodo
de entre as duas guerras. Foi, desde sua fundao, uma organizao pan-Somali
que se esforou para romper todas as resistncias tradicionais a um patriotismo
nacional47. A Liga continuou a existir sob diversas denominaes e, em 1951,
tornara-se um verdadeiro partido poltico dentro do protetorado britnico48.
    Essas associaes criadas pela elite, contudo, no desempenharam seno
papel limitado na mobilizao das massas contra o colonialismo. No se deve
esquecer que a intelligentsia, a nica capaz de organizar e sustentar um movi-
mento poltico moderno, era muito reduzida, uma vez que a educao de tipo
ocidental era, na poca, quase inexistente na Somlia. Ademais, as autoridades
agiam prontamente para castigar os ativistas entre a elite intelectual, obrigan-
do-os, por exemplo, a pedir demisso das funes ou nomeando-os para regies
longnquas. No entanto, a incipiente conscincia que criou essas associaes


45   TOUVAL, 1963, p. 65.
46   Ibid., p. 70.
47   LEWIS, I. M., 1961, p. 286.
48   LEWIS, I. M., 1963, p. 148-9. Para o programa deste partido, que ressaltava o conceito de nacionalidade
     somali, ver ibid., p. 149.
700                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



transformou-se em desenvolvida conscincia poltica nos anos que se seguiram
 Segunda Guerra Mundial.
    H que assinalar, a propsito, a inveno, por volta de 1920, de um alfabeto
autctone adaptado ao somali, o "Alfabeto Osmania", cujo nome provm de
seu autor, `Uthmn Ysuf Kenadid. Os chefes religiosos conservadores, que
preferiam o rabe para transcrever o somali (nisso de acordo com os colonialis-
tas italianos), foram contrrios  utilizao do novo alfabeto49. No entanto, ele
obteve certa aceitao e, mais tarde, os nacionalistas haveriam de torn-lo "um
smbolo do esprito de inveno somali"50.


      Concluso
    Narramos os fatos essenciais referentes  agitao poltica verificada no nor-
deste da frica entre 1919 e 1935. Mas  conveniente situar esses acontecimen-
tos fundamentais dentro dos contextos dialticos mais amplos a que j fizemos
referncia.
    Em certas regies do nordeste da frica, havia uma interao entre reli-
gio e nacionalismo. No Egito, a balana pendia indiscutivelmente para o lado
do nacionalismo laico. Em contrapartida, na Somlia e no norte do Sudo,
nenhuma dessas tendncias predominava sobre a outra, j que a religio estava
a mais politizada. No sul do Sudo, o nacionalismo ainda se encontrava no
estgio do movimento de protesto local, por vezes colorido por smbolos reli-
giosos autctones.
    Convm igualmente notar que a regio conheceu, durante este perodo, gra-
ves problemas econmicos, mesmo antes da grande depresso que se abateu
sobre o mundo industrializado. As tenses decorrentes dos transtornos econ-
micos produzidos tanto em escala regional como mundial contriburam para
tornar o clima poltico do nordeste da frica, sobretudo no Egito, mais sensvel
aos vibrantes apelos do patriotismo. Os perodos de desordem econmica apre-
sentam, por vezes, a vantagem de exacerbar o sentimento do dever e do engaja-
mento patriticos. Foi esse o caso do Egito, cujo estado de sujeio econmica
Contribuiu para despertar o sentimento nacionalista.
    Por fim, o perodo de entre as duas guerras foi assinalado por novo surto
da expanso imperialista, bem como por uma nova onda de militncia antico-


49    Al-BARW, 1973, p. 77.
50    LEWIS, I. M., 1965, p. 115.
Poltica e nacionalismo no nordeste da frica, 1919-1935                    701



lonial. Conforme j dissemos, o imperialismo europeu procurava alargar suas
fronteiras, enquanto o nacionalismo africano entrava em nova fase de articula-
o. Em 1914, o Egito tornou-se protetorado e, mesmo depois de oficialmente
declarada a sua "independncia" (1922), continuou involuntariamente vassalo
do imprio britnico. No obstante, a espantosa unidade nacional que o Egito
logrou em 1919 (embora de curta durao) obrigou o Reino Unido a impor-
tantes concesses.
    No se deve omitir, por amor  delicadeza, a atitude do Egito para com o
Sudo. O nacionalismo egpcio, do qual foram inspiradores Sa'd Zaghll e os
dirigentes que o sucederam na direo do Wafd, entretinha o sonho da soberania
egpcia sobre o Sudo, que imaginavam remontar a mil anos.
    O expansionismo egpcio, no entanto, desempenhou papel libertador. Os
sentimentos pr-egpcios dos sudaneses andavam de par com a declarada hos-
tilidade aos britnicos. A simpatia pelo Egito alimentava a solidariedade entre
nacionalistas egpcios e sudaneses, ajudando-os a criar seu prprio mito, o da
"Unidade do Vale do Nilo", para melhor combater o mito imperial da conquista
do Nilo, de que outrora fora porta-voz do lorde Salisbury.
    Na Somlia e no Sudo, a luta nacionalista ainda no tinha vigor bastante
para produzir resultados imediatos. Em contrapartida, a luta dos egpcios teve
um efeito exemplar sobre os pases vizinhos. Os germes da libertao foram
semeados no Vale do Nilo e no Chifre da frica, no perodo entre as duas
guerras.
Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935                                          703



                                       CAPTULO 24


        Poltica e nacionalismo no Maghreb
               e no Saara, 1919-1935
                                           Jacques Berque




    Avano do nacionalismo e reao colonialista
    aps a Primeira Guerra Mundial
    O historiador poltico, atento s manifestaes daquilo que chama impropria-
mente de "nacionalismo"1 de incio no identifica sinais explcitos dele seno na Tun-
sia. Na Arglia, viu crescer o mal-estar, mas fica perplexo com as suas ambiguidades.
No Marrocos, s datar o nascimento de um partido nacionalista uns dez anos aps
o fim da Primeira Guerra Mundial. E, mesmo neste caso, a oposio do passado e da
tradio continuou fortssima (ver fig. 24.1). Na Lbia, a luta travada para preservar
a soberania e a independncia do pas, em face do agressivo imperialismo da Itlia,
continuou a mobilizar energias e prosseguiu, como verificamos no captulo 5, at a
dcada de 1930.  por isso que no tratamos da Lbia neste captulo.

    Guerra aberta e resistncia passiva
  A "dissidncia" ou sib dos Berbere, quase geral no Marrocos, era evidente-
mente o prolongamento de um fenmeno pr-colonial, Mas j no era igual 


1    Nesta altura, seria mais apropriado falar de "patriotismo"; cf. LACHERAF, 1963, p. 69. E, como Anouar
     Abdel Malek sugeriu, nationalitaire ("nacionalitrio", pr-nacionalidade) seria mais correto, neste con-
     texto, do que nacionalista (pr-nao).
                                                                          704
                                                                          frica sob dominao colonial, 1880-1935
figura 24.1   Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935.
Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935                                               705



da poca de Mlay Hasan2, quando podia entrar facilmente na fico oficial que
a via como jogo absolutamente inofensivo, parecido com a sonegao fiscal. O
avano dos franceses no mdio Atlas encontrou mais dificuldades do que o dos
sultes3, embora se fizesse sempre em nome do "governo legal" ou Makhzen. O
Makhzen era, de agora em diante, o dos cristos  o Makhzen al-Nasra  e
suscitava reaes mais perigosas do que a velha agitao "tribal". A defesa da
nacionalidade assumia a forma da xenofobia e da guerra santa. Esta resistncia
abrangia o alto e o mdio Atlas. Para sul e sudoeste, apoiava-se em forte subs-
trato continental4. Ao norte do corredor de Tza, a maior parte da regio costeira
concedida  Espanha continuava insubmissa. Bem longe, a leste, do outro lado
do Saara argelino5, havia organizaes independentes na Tripolitnia e o Sanusi
conseguiu consolidar sua posio nos osis6. Considerar um fenmeno to gene-
ralizado como turbulento arcasmo , certamente, minimiz-lo. Uma tradio de
liberdade comunitria, a nosso ver,  que lhe emprestava o principal impulso.
    Paralelamente a esta beligerante continuidade, prevalecia no resto do
Maghreb exatamente o contrrio: estabelecimento do governo civil e crescente
estabilidade. Sem dvida, o comportamento de muita gente ocultava diversos
tipos de oposio: o protesto lealista ou a passividade, no mnimo. Mas "no
se pode falar da passividade autctone", escrevia um governador mais lcido
do que os outros7. Ele notara que "certas queixas, em toda parte as mesmas,
chegavam a constituir uma tal unanimidade que, nessas questes em particular,
podia-se dizer que existia uma opinio pblica". Ora, na ocasio oportuna, essa
opinio tornava-se oposicionista. A sua rpida transformao em atos polticos
alarmou os dirigentes quando da breve carreira eleitoral do emir Khalid8. Esse
antigo capito do exrcito francs, neto do grande Abd el-Kadir, gozou curto
perodo de popularidade. Em nome de sua "personalidade muulmana", exal-


2   Cf. AL-NSIR, 1907, p. 277 et seq. (trad. Eugene Fumey).
3   Ver GUILLAUME, 1946, p. 47 .
4    As regies depois conhecidas como Confins Argelino-Marroquinos  o norte da atual Mauritnia e
     a zona ocidental do Saara, chamada Rio de Oro  ainda eram palco de ataques comunais ou rezzous,
     enquanto prosseguiam as tentativas de organizao pelos sucessores do grande reformador religioso
     M'al-Aynayn.
5   Onde, at a sua morte acidental, o general Leperrine trabalhou decisivamente pela unio dos lugares, os
    quais, durante a Primeira Guerra Mundial, tinham sido sublevados pela propaganda Sanusi e por vrios
    movimentos independentes.
6   Os italianos s conseguiram reduzir a "Repblica de Misurata" em 1923, quando tiveram de retomar a
    luta na Cirenaica contra o Sans e seus partidrios.
7   VIOLETTE, 1931, p. 396.
8   KADDACHE, 1970, p. 65 et seq.
706                                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



tava a honra da Arglia e seu direito  gratido da Frana, que lhe solicitara
tantos soldados. O partido de Khlid, que sufragara os moderados no conselho
municipal de Argel, afigurou-se to perigoso s autoridades que elas anularam
as eleies. Khlid, porm, ganhou uma segunda e uma terceira eleies, mas,
finalmente, teve de abandonar a Arglia (1923). Da metrpole, prosseguiu por
algum tempo na atividade, cujas perspectivas transcendiam talvez o quadro
franco-maghrebiano9.

      Querela constitucional na Tunisia
    Na segunda metade do sculo XIX, a Tunsia havia passado por um surto
reformista que superava, em certos pontos, o do Egito e da Turquia10. O fracasso
dessas iniciativas no havia comprometido o apelo que exerciam no esprito da
burguesia esclarecida, inclinada a pedir modelos antes ao Oriente do que ao
Ocidente. A nostalgia otomana foi, ento, substituda pela esperana nos prin-
cpios enunciados por Woodrow Wilson, com o que o nacionalismo, como no
caso do Partido Wafd, do Egito, mudou de tom. Foi  opinio metropolitana,
principalmente a socialista, que o xeque Abdel-Azz al-Tha lib (Taalbi) e seus
companheiros resolveram apresentar a causa. No panfleto La Tunisie martyre (A
Tunsia mrtir) (1920) analisavam vigorosamente a deteriorao colonial. Fun-
dando o partido "constitucionalista" ou Destour (fevereiro de 1920), pretendiam
restaurar a independncia da Tunsia.
     sua argumentao no faltava lgica. O protetorado interrompera uma
nao rabe-mediterrnica em via de renovao. Mas, por estranho que parea,
contra a opinio de eminentes juristas franceses11, a nica resposta foi a invo-
cao do poder do bei, trs quartos de sculo depois que este tinha comeado
a fixar, ele prprio, limites constitucionais. Na verdade, houvera representao
autctone na Conferncia Consultiva de Tnis desde 1907. Era constituda
por membros nomeados e no tinha, como a seo francesa, seno atribuies
fiscais. A reforma no sentido de uma representao eletiva e do aumento dos
poderes foi solicitada em fins de 1920 pela maioria dos franceses e por quase a
metade dos membros autctones. No entanto, abandonando a radicalizao de
suas primeiras formulaes (junho de 1920), o Destour publicou um manifesto

9     SADALLH, 1969, p. 420 et seq.
10    Ver KAROUI, 1973.
11    JULIEN, 1972, p. 67; TORNEAU, 1962, p. 65 et seq. Estes dois livros oferecem uma exposio conse-
      quente dos acontecimentos que o presente estudo procura interpretar. As referncias aqui feitas poderiam
      ser multiplicadas.
Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935                                               707



reformista que "jogava o jogo do protetorado" (dezembro de 1921). Uma espcie
de ultimato do bei Nsir (3 de abril de 1922)12 foi entendida como intimidao.
Mas, no ano seguinte, vrios decretos do bei e despachos do residente-geral
(julho de 1922)13 instituram uma representao caidal, regional e central, por
eleio em vrios nveis14. J se instalara o ministrio da justia, entregue ao filho
do reformador Khayruddn. Os resultados eram parcos para uma campanha
que havia conseguido um xito de persuaso junto ao soberano local e  cmara
francesa. O xeque al-Tha lib passou alguns meses na priso. Sua libertao no
contribuiu para a unidade do partido, que cindiu em dois grupos de atividade
desigual. No contexto colonial, a moderao  sempre suspeita, como o demons-
tra a experincia de maitre Guellati. Mas o radicalismo do xeque e de maitre
al-Sf (Essafi),  falta de qualquer sucesso, arriscava-se a ficar isolado, mori-
bundo e perigosamente divorciado do curso dos acontecimentos. "Agora que a
primeira euforia tinha passado, o Destour tendia a mergulhar no subconsciente
onde dormita a djihd e a tomar a cor puramente terica desta ltima ..."15.

     Ao nvel das comunidades de base
    O Maghreb rural consistia num agregado de comunidades tradicionais. Era
nelas que repousava claramente a administrao do Marrocos, que instituciona-
lizou as circunscries "tribais". Entretanto, era possvel discernir, sob essa rede
oficial, instituies tradicionais menos dceis e potencialmente mais turbulentas.
 verdade que a poltica francesa fazia h muito tempo o jogo dos particula-
rismos e das lealdades locais. O senato-consulto de 1863 j havia proposto a
disperso das "tribos" argelinas em clulas territoriais, os douars ou duwr. A
aplicao da lei de 1884 at lhes havia imprimido significado comunal afim
ao Direito Pblico francs16. Em 1919, a energia da resistncia berbere, de um
lado, e, do outro, um desenvolvimento da opinio pblica que j se tornava
evidente em toda a parte produziram, por diferentes meios, uma democracia de
base, arcaica e defensiva no primeiro caso, frustrada e aparentemente reprimida
no segundo, mas cujo rgo essencial, em todos os casos, era a djem`a17. Para

12   JULIEN, 1972, p. 69.
13   A respeito do contexto destas medidas, cf . BALEK, 1922, p. 240 et seq.
14   Ao criar um "parlamento rabe" na Cirenaica (30 de abril de 1921), os italianos tomaram uma iniciativa
     destinada a ir alm do que se pedia, mas que no teve os efeitos pacificadores pretendidos.
15   BALEK, 1922, p. 286.
16   BERQUE, L., 1970, p. 137 et seq.
17   Conjunto dos chefes de famlia de uma comunidade e o "coletivo" que a administra.
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os franceses, levar em conta esta fora social ascendente, fazer dela o princ-
pio e o objetivo de uma aproximao no era absurdo e podia, a longo prazo,
levar  emancipao da Arglia rural e  sua penetrao pelo sistema poltico
metropolitano.
    Tal era, sem dvida, o alcance profundo da lei de 4 de fevereiro de 1919, cha-
mada Lei Jonnart, e de seus dois decretos de aplicao. Ela concedia aos argeli-
nos que possuam certas qualificaes (ter servido no exrcito, saber ler e escrever
em francs, ser proprietrio de um imvel rural etc.) o direito de participar da
eleio da assembleia do "douar-comuna" e de certos cargos municipais, inclusive
da escolha do prefeito18. Mais ou menos meio milho de muulmanos foram
chamados a constituir esse eleitorado primrio e, dentre eles, uns cem mil das
assembleias departamentais e centrais. Mas isto no ps fim  desigualdade. Nos
conselhos municipais, por exemplo, os muulmanos eleitos viram-se limitados 
minoria de um tero da representao. Embora o peso da massa autctone no
pudesse, assim, decidir as votaes19, a ampliao do colgio eleitoral ao nvel da
base e a participao dos argelinos eleitos na escolha do prefeito afiguraram-se
aos conservadores manobras subversivas, embora a timidez de tais medidas
iludisse a reivindicao20.

      Primeiras opes proletrias
   As grandes concentraes operrias na Tunsia, como nas minas de Metlaw,
por exemplo, no demonstraram sinais de uma conscincia reivindicativa durante
longo tempo. Como na Arglia a industrializao ainda no estava bastante
avanada e o contexto social era demasiado autoritrio, a energia das massas
proletrias s se manifestou, de incio, atravs de um reduzido grupo de van-
guarda educado no sindicalismo europeu.
   Na Tunsia, contudo, a precocidade da ao de Muhammad Al21 e a anlise
oferecida por Tahr al-Haddd22 no deixaram de produzir efeito no plano
das organizaes de classe. A vida aventurosa do primeiro o tinha posto em
contato com o socialismo alemo e o tornou amigo de Enver Pacha, talvez o


18    AGERON, 1966.
19    Ainda que, atravs da naturalizao, conseguissem eleger o prefeito. Foi o que se passou em Mekla, na
      Cablia, onde a eleio foi anulada, contra toda a boa-f, pelo Tribunal Administrativo.
20    JULIEN, 1972, p. 377, talvez tenha razo ao pensar que os efeitos desta legislao sobre a opinio argelina
      no foram desprezveis.
21    MAMET, 1964; HERMASI, 1966.
22    AL-HADDD, 1927.
Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935                                            709



homem que, na poca, tinha o senso mais agudo das conjunes possveis entre
as ideias-fora do Ocidente e o surto nacionalista dos povos do islo. Al-Haddd
suplementava a experincia internacional de Muhammad Al com o exame do
problema interno. Ele debatia a questo dos operrios e a das mulheres, ambas
apreendidas com perfeita clareza. Esse duplo impulso encontrou a sua contra-
partida de iniciativa operria entre os trabalhadores das docas de Tnis e em
seguida de Bizerta, bem como entre os operrios da indstria de cimento de
Hammam Lif, e outros.
    Uma central tunisiana foi formada entre nove sindicatos regionais, no dia
12 de outubro de 1924, em Bizerta, com o apoio do Partido Comunista Fran-
cs (PCF), mas sob severa crtica da SFIO (Seo Francesa da Internacional
Operria),  qual preocupavam as afinidades nacionalistas da nova organizao.
O Destour dissociou-se de choques que julgava comprometedores. Em com-
pensao, participou em bases reformistas de uma coalizo que, em fevereiro de
1925, reunia alm dele a seo indgena do Grande Conselho, o Partido Socia-
lista e a CGT francesa (Confederao Geral do Trabalho). A complexidade
dessas alianas e controvrsias, aproximaes e mudanas de posio, afasta o
que esses movimentos tambm poderiam ter de espontneo. Ao mesmo tempo,
rivalidades sectrias e ideolgicas prenunciavam um conflito de opes. No
congresso de Tours, as duas tendncias do socialismo metropolitano tinham-se
divorciado tanto no plano da ao partidria como no das projees sindicais.
Donde a diversidade das influncias que disputavam, ento, um proletariado
semicolonial em busca de sua prpria vocao. Nesse momento se delineiam
opes destinadas a um futuro desigual: a dos argelinos Amar Uzagn e Ben
Al Bkurt e a do tunisiano Mokhtr Ayr. Que lugar, por exemplo, seria atri-
budo nos acontecimentos futuros  identidade nacional, at agora definida por
seu sinal mais marcante, o islo? Essa identidade viria a fundir-se na aspirao
geral do proletariado?
    O quadro norte-africano no se prestava ainda a respostas concretas23. Foi
em Paris, nos meios da emigrao maghrebiana, que se fundou a toile Nor-
dAfricaine (1924). Entre os seus fundadores, havia um membro ativo do PCF,
Abd al-Kdir Hdj Al. A iniciativa inscrevia-se, ento, em uma perspectiva


23   A represso estava sempre atenta. Na Tunsia, por exemplo, a experincia da Confdration Gnrale
     des Travailleurs Tunisiens (CGTT) parece ter sucumbido  deteno de seus organizadores e ao exlio
     de seu lder, Muhammad Al. Somente alguns anos depois  que o sindicalismo tunisiano, legalmente
     reconhecido em 16 de novembro de 1932, pde retomar uma atividade independente no contexto dos
     acontecimentos do Front Populaire (1937) aps a segunda CGTT, com Belkasim al-Kanawil, antes de
     sucumbir uma segunda vez  represso poltica (1938).
710                                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



revolucionria e anticolonialista, e no estritamente operria. No incio, contou
com o patrocnio do emir Khlid.


      Sistema dominante e oposio crescente
   Os anos de 1920 foram assinalados pela expanso das comunicaes. As
cidades comearam a crescer com a chegada dos camponeses. Uma nova gerao,
que no conheceu o tempo de antes da guerra, chegava  maioridade24. Tudo
concorria para exigir mudanas. A autoridade do colonizador e a da tradio
eram colocadas mutuamente em dvida, de forma varivel. Tais evolues preo-
cupavam as autoridades coloniais, que tentavam neutraliz-las mediante arranjos
ou coero. Na maior parte das vezes, porm, era a inrcia que dominava a
prtica colonial, enquanto parte da opinio metropolitana denunciava abusos e
ineficincia, vendo a uma fonte de riscos.
    verdade que a velocidade dos acontecimentos imediatamente ps-guerra
tinha diminudo tanto na Arglia como na Tunsia. A partida simultnea (1923)
dos dois principais lderes, al-Tha'lib e Khlid, parecia ter enfraquecido a
oposio. No Marrocos, porm, o poder teve de enfrentar dificuldades de outro
tipo e que foram julgadas prioritrias.

      Antecipao dos acontecimentos futuros: a repblica do Rf
    Classificar como "revolta" e tratar como episdio a luta nacional que o lder
rifenho Muhammad ben Abd al-Khattb (Abdel Karm) (fig. 24.2) levou a
um clmax retumbante em 1925- 1926  reduzir o significado de fatos que ns
atualmente reconhecemos como precursores de desenvolvimentos muito mais
tardios25.
    O Rf jamais abandonou a luta. O talento militar de Abdel Karm infligiu 
Espanha um dos mais famosos desastres das guerras coloniais (Anwl, julho de
1921)26 (ver fig. 24.3). Os espanhis sofreram derrota igualmente mortfera em
novembro de 1924, quando tiveram de evacuar Shafshwn, Abdel Karm, filho


24    Para a Tunsia, ver F. b. Ashur, 1956. Para a Arglia, T. al-Madan, 1963, p. 92 et seq., 353 et seq. Ver,
      tambm, BERQUE, A., 1947, p. 123 et seq.
25 Ao que se saiba, as possibilidades ainda no se acham inteiramente realizadas, muito embora no plano
   militar a atividade de Abdel Karm prenunciasse incontestavelmente o que se passou depois de 1954.
26    Desastre precisamente definido como "uma batalha de Omdurman s avessas", em referncia ao combate
      de Karari (1898), no qual Kitchener esmagou o Estado mahdista. Ver YOUSSOUFI, s.d., p. 113.
Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935                                               711



de um kd (juiz) do protetorado espanhol, fez alguns estudos na universidade
religiosa de Karawiyyin, em Fez, onde provavelmente entrou pela primeira vez
em contato com o modernismo islmico27. Foi como reformador muulmano e
como chefe poltico que ele se afirmou entre os seus contemporneos.  aptido
militar acrescentava-se um esprito aberto e habilidade poltica que lhe permiti-
ram jogar no tabuleiro internacional com mais amplitude do que os chefes lbios
Sulajmn al-Brn, Ramdn Shatw e, especialmente, Umar al-Mukhtr28. A
metamorfose que Abdel Karm imprimiu a seu prprio cl, os Ben Warighl,
e s comunidades vizinhas sobreviveu a ele. Reconduziu ao direito islmico
esses grupos de vendettas de cl, proibiu os juramentos coletivos, a filiao em
confrarias e as mulheres casadas de danar. Foram demolidos os ichbrawn, essas
pequenas torres de vigia que desde tempos imemoriais eram o smbolo da agres-
sividade das relaes entre comunidades vizinhas29. Mesmo antes da vitria de
Anwal, foi na reunio de al-Kma, entre Ben Warighl, Temsamn, Ben Tzn
e Rukkya, que se produziu uma "cristalizao da estrutura do Estado Rf30. A
"Nao Republicana Rf ", proclamada a 18 de fevereiro de 1923  segundo
outros a I de fevereiro , foi portanto uma tentativa de reforma do Estado tra-
dicional, de que ela retinha aspectos positivos como, por exemplo, certas prticas
de consulta e de cooperao intergrupal.
    Este impulso reformista deve ser correlacionado com outras tentativas seme-
lhantes, ento feitas em toda a rea islmico-mediterrnica: na Tripolitnia, no
delta do Egito, na Mesopotmia, em Rakka sobre o Eufrates etc.31. Propagao
nacionalista?  o que estudos especializados devero determinar. Do ponto
de vista das potncias coloniais, tais sincronismos eram tanto mais perigosos
quanto  certo que Abdel Karim tambm havia estabelecido relaes com.
o PCF, o qual, na verdade, convocou a seu favor uma greve de apoio 32. No
decurso da greve, que ocorreu no dia 12 de outubro de 1925, muitos operrios
franceses manifestaram-se contra a guerra colonial no Marrocos. O PCF, a
Juventude Comunista, a Confederao Geral do Trabalho Unificado (CGTU),


27   Note-se, contudo, que ele se lanou depois Contra o principal introdutor desta doutrina no Marrocos, o
     xeque Bsha Ib-al-Dukkli, que foi o principal responsvel pela introduo do modernismo no Marrocos.
28   AL-MISURT, 1964, faz uma viva exposio dos acontecimentos deste perodo, do ponto de vista de
     um patriota lbio.
29   Comunicao indita de D. Hart ao Colloque du Cinquantenaire de La Rpublique du Rf, Paris,
     1973.
30   YOUSSOUFI, s.d., e comunicao  conferncia mencionada na nota 29.
31   BERQUE, J., comunicao  conferncia mencionada na nota 29.
32   GALLISSOT, comunicao  conferncia mencionada na nota 29.
712                                                           frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 24.2 Abdel Karm (1882-1963), cdi de Melilla, chefe da resistncia marroquina ao imperialismo
espanhol, durante a guerra do Rf , 1921-1926. (Foto: Harlingue-Viollet.)
Figura 24.3 Guerra do Rf: soldados espanhis exibem as cabeas decepadas de soldados de Abdel Karm.
(Foto: Longman.)
Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935                                                713



a Association Republicaine des Anciens Combattants (ARAC) etc. tambm
organizaram ampla campanha nacional visando mobilizar as massas contra a
guerra. A Terceira Repblica empregou meios exorbitantes, desde a primavera
de 1926, para dobrar Abdel Karm33. O resto do Marrocos, porm, no reagia34.
A soluo militar, que permitiu  Espanha instalar-se efetivamente na zona, no
apagou o significado da experincia de Abdel Karm.

     Balanos da poca
   Em 1901 a Arglia obteve o regime dito das Dlgations financieres (Dele-
gaes financeiras), espcie de autonomia poltica interna que foi dominada,
quase at o fim do perodo colonial, pelos representantes dos colonos brancos.
Quando este pequeno parlamento agrrio recusou ao governador-geral mise-
rveis crditos de assistncia social ou de cantinas escolares (1927), estava con-
denando a si mesmo potencialmente. Maurice Violette o pressentiu num livro
de ttulo proftico: L `Algrie vivra-t-elle? (A Arglia sobreviver?). A soluo
por ele apresentada era, bem entendido, extremamente ortodoxa, para no dizer
jacobina35. Mas o livro marcou uma etapa aprecivel. No plano da representao,
propunha ampliar a reforma de 191936. Depois, iria um pouco mais longe, ao
preconizar a extenso, a uma minoria de argelinos evoludos, do direito de eleger
deputados ao Parlamento francs, mas sem renunciar a seu estatuto pessoal.
   Mas o estatuto, refgio da identidade para os colonos franceses, proporcio-
nou aos sucessivos governos franceses uma desculpa cmoda contra a outorga
da plena cidadania francesa a argelinos. Sem dvida, a referncia ao estatuto
no passava de pretexto para ambos os lados  pretexto para um lado recusar e
para o outro rejeitar. A proclamada disponibilidade da maioria autctone, vida
de adquirir cidadania francesa assumindo  letra o assimilacionismo, se assim se
pode dizer, no  menos espantosa. No se pode tax-la, a priori, de impostura,
mas cumpre interpret-la sob vrios aspectos, dos quais o mais profundo era
sem dvida o desejo de emancipao. Essa complexidade semntica caracteriza




33   Abdel Karm rendeu-se s autoridades francesas em 26 de maio de 1926.
34   Apesar de algumas manifestaes individuais, as simpatias e esperanas populares continuaram sufocadas.
     Alguns adolescentes de Fez forjaram um panfleto presumivelmente do lder Rf agradecendo aos notveis
     do pas por sua solidariedade.
35   M. Violette tinha a preocupao de proclamar-se adversrio da extrema esquerda.
36   VIOLETTE, 1931, p. 474 et seq.
714                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935



as pginas que de 1922 a 1927 publicou Ferht Abbs, reunidas em 1931 sob o
ttulo Le Jeune Algrien (O Jovem Argelino)37.
     certo que esses artigos envelheceram. Mas no esqueamos que seus argu-
mentos, seu pattico da misria sofrida, esta generosidade da esperana, se no
constituam um ultimato poltico, forneciam a armadura moral e conceitual de
possveis objetivos polticos. A colonizao era denunciada como "uma fora sem
pensamento, uma cabea sem alma". Os direitos do islo  dignidade ressaltavam
com a fora da evidncia  evidncia ento bem obliterada. O prefcio, escrito
muito depois, em 1930, distinguia judiciosamente entre os dois aspectos do
problema: o francs e o argelino. Para os franceses, "a colonizao no constitui
seno um empreendimento militar e econmico, defendido em seguida por um
regime administrativo apropriado". Para os argelinos, ao contrrio, 
      uma verdadeira revoluo que veio subverter todo um velho mundo de ideias e
      de crenas, um gnero de existncia secular. Ela coloca um povo diante de sbita
      mudana. E eis a toda uma populao, sem o menor preparativo, obrigada a se
      adaptar ou perecer. Esta situao conduz necessariamente a um desequilbrio moral
      e material, cuja esterilidade no est longe da desintegrao total38.
    Em vo se procuraria na literatura cientfica da poca, nas obras de L. Milliot,
Augustin Bernard e R. Maunier, por exemplo, ou mesmo em E. F. Gautier, uma
definio to adequada da mudana social. Nem a forte sntese histrica de C.
A. Julien, que apareceu na poca e exerceria reconhecida influncia na tomada
de conscincia dos maghrebianos, conseguiu superar essa viso de dentro.
     tambm da que procede o Kitb al-Djaz `ir (Livro da Arglia), 1931, de
Tawfk al-Madan. A primeira pgina, ilustrada pelo miniaturista Rsim, traz a
trplice divisa dos Ulam. De resto, o livro, se descreve os males dos argelinos e
reivindica o seu direito de nao rabe, visa a objetividade e no procura a pol-
mica. Ainda hoje nos fornece indispensvel documentao da poca. O captulo
consagrado  msica argelina39 faz salientar valores essenciais, e toda essa parte
do livro traz pertinentes observaes acerca dos obstculos impostos  imprensa
rabe40 e dos indcios de um renascimento literrio41. A lista dos escritores e dos
poetas oferece til inventrio para estudos futuros, embora cumpra notar que


37    Ferht Abbs tomou esses temas retrospectivamente; ver ABBS, 1962, p. 113 et seq.
38    ABBS, 1931, p. 9.
39    AL-MADAN, p. 339 et seq.
40    Ibid., p. 343 et seq.
41    Ibid., p. 353 et seq.
Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935                                                   715



ela omite os "jovens argelinos", ansiosos por serem considerados franceses, entre
eles Ferht Abbs.

     O reformismo islmico
    O livro  repetimos  trazia na folha de guarda a divisa dos Ulam. Atu-
almente, empresta-se corretamente nfase s aspiraes nacionais que inspira-
vam a associao, no menos do que aos objetivos religiosos. O programa do
xeque Abd al-Hamd ben Bds42, embora pretendesse libertar-se de implica-
es circunstanciais, na verdade talvez fosse mais poltico do que os projetos
que ento ocupavam o proscnio, intimamente comprometidos com manobras
administrativas na base e com intrigas polticas no topo. O mais flamante, neste
domnio, estava longe de ser o mais eficaz: por exemplo, a ao do dr. Bendjelll
em Constantine ou a reivindicao igualitria dos "Elus43". Embora evitando
desafiar a soberania francesa, ao insistir numa "reforma intelectual e moral" o
xeque levantava a questo da identidade, tocava nos impulsos da maioria e fazia
eco a movimentos similares do Oriente Prximo. Apelava, assim, a um modelo
que se comparava bem ao da democracia ocidental. Acima de tudo, atentava
para os sinais claramente visveis de disperso social e de deteriorao moral.
Proclamando a Arglia como sua ptria ou watan (mas no abertamente como
um "Estado"  dawla), o islamismo como sua religio e o rabe como sua lngua,
acumulava a sutileza ttica com a prescincia do papel que a cultura poderia
desempenhar na descolonizao.
    Outro aspecto menos conhecido  de ordem geogrfica. Como os nasabs
(linhas de descenso) mostram, a direo do movimento inclua vrios nomes
provinciais: no s os da aristocracia constantinesa, como Ben Bds, mas tam-
bm Tbessa, Mla e Sd Okba44. No contente de ter estabelecido o "Crculo
do Progresso" no planalto central, especialmente Argel e outras reas urbanas, o
movimento tambm visava "o pas desconhecido". O xeque Bashr al-Ibrhm
agitou Tlemcen at o fundo. Sob a forma de sociedades de beneficncia, de
auxlio mtuo ou de pregaes, essas iniciativas se multiplicaram.


42   MURTD, 1971, p. 54 et seq., 115 et seq., 179 et seq. Ver, tambm, MERAD, 1967.
43   Palavra ento empregada para definir os membros de uma federao constituda em 11 de setembro de
     1927, por personalidades muulmanas eleitas para as diversas assembleias argelinas. Mostafa Lacheraf
     fez judiciosas distines entre a ao desses polticos e a dos Ulam, embora criticasse estes ltimos. Ver
     LACHERAF, 1965, p. 188 et seq.
44   Os xeques al-Arab al-Tebess, Mubrak ai-Ml e Tayyib al-Okb (orador de prestgio) estavam entre
     os membros mais destacados da Associao dos Ulama, fundada em 1931.
716                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



    A proliferao de centros do movimento muitas vezes s  recordada em
termos de controvrsias teolgicas que so quase incompreensveis a quem est
de fora. Mas todas essas agitaes, sob a gide dos Ulama ou de algum rival,
como o xeque Ben Alwa em Mostagnem45, ou em funo de divergncias que
no eram erradicveis, como em Mzb46, representavam o primeiro contato com
uma problemtica mundial para comunidades at ento enclausuradas, e que a
administrao no conseguira despertar, seno contra ela prpria. O xeque Ben
Bds e seus companheiros davam o exemplo, dotando o islo maghrebiano de
iniciativas doutrinais que havia sculos no se ousava tentar: seus comentrios
ao Coro, por exemplo47, foram uma realizao cultural como poucas. Ele foi
audacioso a ponto de fazer distino entre invariveis transcendentais e variveis
circunstanciais dentro da religio48. Somente estudos monogrficos podero,
estudando as relaes entre as iniciativas fundamentais e os diversos elementos
sociais que elas envolvem, precisar o papel a desempenhado por grupos, faixas
etrias, estratos econmicos, indivduos e atitudes morais. Esses estudos mos-
trariam, sem dvida, que o perodo foi um ponto decisivo na histria social da
Arglia.

      Trs desafios ao imperialismo e as reaes
    Por estranho que hoje se afigure, as comemoraes do centenrio49 do desem-
barque francs na Arglia no provocaram a reprovao declarada que ns, nesta
era de descolonizao, tendemos a atribuir retrospectivamente aos colonizados50.
Aos muitos argelinos que ento se preocupavam com a reivindicao de jus-
tia e de igualdade, as festividades, que pareciam de molde a atrair o interesse
dos elementos democrticos da Frana metropolitana, suscitaram primeiro um
alento de esperana, logo seguido de desiluso. Os dignitrios muulmanos do

45    BERQUE, A., 1936. A fermentao do islo argelino sobrepassa evidentemente a ao dos Ulam.
46    Citemos, aqui, sbios como os xeques Bayd e At fiyech. Ver DABBR, 1971.
47    Depois do xeque Abu Ras de Mascara (fim do sculo XVIII), os xeques Ben Bds e Ben Ashr so, sem
      dvida, os primeiros maghrebianos contemporneos a aplicar-se contra esta formidvel tarefa, embora
      um sbio marroquino com o renome do xeque Ibn al-Khayyt a desaconselhasse; ver, deste ltimo, um
      opsculo litografado em Fez.
48 De acordo com uma passagem extraordinria da orao fnebre, pronunciada pelo xeque Ibrhm junto
   ao tmulo do professor Mohammad Ben Sheben, Shihb, maio de 1929.
49    H toda uma literatura contempornea sobre o tema, na sua maioria em tom deploravelmente oficial,
      mas da qual se destacam, felizmente, alguns apontamentos de pesquisa cientfica.
50    Organizou-se alguma propaganda contrria em certas cidades, em colaborao com o PCF. Ver OUZE-
      GANE, 1962, p. 171 et seq. O sindicato dos professores, bem como Benhdj, militante socialista, tambm
      ousou protestar. Ver KADDACHE, 1970, p. 193.
Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935                      717



regime  membros eleitos, cads e bachagas51  competiam sem pudor uns com
os outros para adular os franceses, desacreditando dessa forma o que restava de
autoridade  aristocracia tradicional e aos reincidentes beneficirios de acordos
polticos. O hino que ressoava  glria do colono, erigido em potncia mtica,
mas provido de apetites sempre atuais, selou uma poltica da qual a Frana
raras vezes conseguiria libertar-se, por espasmos da vontade. Mais grave ainda,
o regime era omisso quanto s suas prprias fraquezas. Nem h que falar na
hiptese da soberania, j que quase ningum, em face da esmagadora relao de
foras, a contesta abertamente. Mas a prpria responsabilidade, que deveria ser
o seu corolrio, era exercida por funcionrios com pouca generosidade e ainda
menos lucidez. Estamos pintando um quadro sombrio demais? Admitamos que
ele tinha partes claras e que tudo isso fosse feito, em resumo, com o mnimo
de coero. Explorao, claro, mas explorao legalista, edulcorada de prestgio
cultural, isto , de aura republicana, economizando a violncia, e se dando at
ao luxo de invocar as liberdades da democracia burguesa. Paradoxo bastante
difcil de compreender nos nossos dias: o apogeu do imperialismo era tambm
o apogeu do liberalismo nos costumes.  por essa razo que a frica do norte
francesa apresenta aos historiadores uma situao muito menos atormentada do
que, por exemplo, a do Egito britnico no mesmo momento.
    Mas esta aparente bonomia e seu corolrio de aceitao no eram de maneira
alguma aproveitados. V-se bem isso com o triunfalismo provocador das mani-
festaes de Argel. V-se, de modo ainda mais caracterstico, no Congresso
Eucarstico de Cartago (1 a 11 de maio de 1930) que a juventude tunisiana
interpreta como uma cruzada contra o islo na frica do norte52. De qualquer
modo, essa reunio no se coadunava com as ideias que muita gente no Maghreb
ainda encarava com esperana e compreenso: os grandes princpios da Revo-
luo, a tradio de Jaures, o mito do progresso.
    No Marrocos, o zahr berbere (proclamao real) de 16 de maio de 193053,
que incorporava o direito consuetudinrio berbere ao sistema judicirio colonial
francs, forneceu  juventude burguesa a ocasio para uma tomada de conscin-
cia e o primeiro trampolim para uma ao de massa. Foi considerado como um
ataque ao islo e como uma tentativa de dividir o pas, perpetrada com menos-
prezo dos acordos de 1912. Medida localizada e localizante, teve repercusses



51   Ver alguns exemplos, bastante penosos, em KADDACHE, 1970, p. 192.
52   BERQUE, J., 1970, p. 253 et seq.
53   Ibid., p. 250 et seq.
718                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



em todo o mundo muulmano. Localmente, trouxe  tona uma oposio at
ento reduzida a grupelhos clandestinos, em duas ou trs grandes cidades.
    Nos trs meses54 que vo de 20 de junho a 30 de setembro de 1930, houve
mais de 120 incidentes. Na sua maioria ocorreram em mesquitas, cenrio dog-
mtico para o latf, o orador muulmano aflito. Os incidentes foram considerados
to ameaadores para a ordem pblica que foram enfrentados com intimaes,
prises e espancamentos. Uma delegao da cidade de Fez dirigiu-se  capital
e, no dia 31 de agosto, trs de seus membros foram presos, entre os quais Alll
al-Fs, jovem intelectual de Karwiyyn55, e Bel Hasan al-Wazzn, licenciado
pela Escola de Cincias Polticas e Sociais de Paris. Nesse binmio uniam-se
como que simbolicamente as duas foras de uma resistncia: a da autenticidade
e a da modernidade. Como deve ser, a represso cumpriu seu papel catalisador.
O nmero de detenes chegou a 150. Tal como antes, muitas lojas fecharam,
em sinal de protesto. Apesar da proibio oficial, o latf ressoou de novo fora
dos santurios. Houve choques nas ruas. O encanto do protetorado estava intei-
ramente quebrado, se o interpretarmos como aquela espcie de hipnose em
que o prestgio de Lyautey e a superioridade tcnica haviam por tanto tempo
mergulhado o pas.
    Trs anos depois, em Paris, a revista Maghreb consagrava um nmero especial
aos incidentes. Jean Longuet e outras personalidades francesas, e principalmente
vrios jovens marroquinos, expressaram uma srie de argumentos coerentes. Os
amigos franceses, ainda que vissem claramente no zahr berbere" de 1930  foi
o triste nome que recebeu da em diante  a manobra da propaganda colonial
clssica, tinham certa dificuldade, em face do seu anticlericalismo, para explicar
o aspecto aparentemente religioso de muitas reaes dos Berbere. "Ningum
pode ignorar que no Oriente e em todos os pases muulmanos a religio e a
nacionalidade se confundem", observava o editorialista francs. Com menos
complacncia, um dos redatores marroquinos do nmero escrevia: "Em nosso
pas, estamos prontos a conceder aos Berbere o que geralmente se recusa aos
bretes na Frana. Mas queremos que isso ocorra no quadro do islo, que para
ns no  apenas uma religio, mas sobretudo uma civilizao". Punha assim



54    Nmero especial, maio-junho de 1933, da revista Maghreb, editada com o patrocnio de celebridades to
      diversas como Bergery, Renaudel e o filsofo espanhol Ortega y Gasset.
55    Filho de uma antiga famlia, j renomado como poeta e ensasta, encontrou assim a revelao de um dom
      de tribuno e de organizador. De sua impressionante produo citamos aqui, entre as obras relacionadas
      diretamente com o nosso tema, al-Harakt al-Istiklliyya fi'l-Maghreb, Cairo, 1948, e Al-Nakd al-dht,
      Cairo, 1956. Sobre ele, ver GAUDIO, 1972, e EL-ALAM, 1972.
Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935                                                 719



em destaque a dimenso cultural do debate, dimenso pudicamente ignorada
por muitos amigos e adversrios.


     Rumo ao confronto
    Metade dos vinte anos que separaram as duas guerras mundiais havia, pois,
decorrido sem progresso para as relaes entre a Frana e o Maghreb. Est
claro que a situao econmica no era favorvel. A Depresso do ps-guerra
mal desaparecera quando se aproximou a grande crise mundial. O Maghreb foi
atingido por ela em 1932, com o agravamento do estado geralmente recessivo da
economia, que reaparecera em 1925 e haveria de predominar por todo um dec-
nio. Isso acirrou as relaes entre o capital e o trabalho, ou seja, entre os colonos
franceses e os argelinos. O progresso em mecanizao, planejamento, coopera-
tivas e at no sindicalismo dos funcionrios fez com que o elemento francs
consolidasse o seu domnio sobre a colnia. O regime mostrava-se incapaz de
moderar as devastaes provocadas queles que dominava. A conexo entre a
deteriorao econmica, que agrava a desigualdade, e a reivindicao poltica
era evidente, mas  bom examin-la de perto56. A mudana social e a nostalgia
da identidade coletiva parecem ter constitudo fatores mais fortes do que a
desigualdade na tomada de conscincia norte-africana. Em todo caso, vrios
motivos se conjugaram para produzir uma aspirao que transcendia de longe
os agrupamentos partidrios. Os wataniyyn ou "patriotas" marroquinos se redu-
ziam ainda, no essencial, a uma intelligentsia burguesa. A toile Nord-Africaine
mal se havia estabelecido na Arglia. O Destour continuava prisioneiro do
irrealismo. O PCF no caucionava suas teses radicais com suficiente apoio em
nvel local57. A dinmica da ao, na maior parte dos casos, restava implcita.
Mais do que os partidos polticos, eram crculos, comits, grupos sem nome ou
s a propagao de atitudes que revelavam, ento, a expresso poltica.
    Incapaz de entender esses matizes da expresso, a administrao sabia no
entanto explorar os interesses e as rivalidades pessoais. Contudo, minimizava


56   J se tentou faz-lo, sem grandes resultados; ver BERQUE, J., 1970, p. 101 et seq; ver tambm NOUS-
     CHI, 1962, p. 31 et seq. Esta anlise, de importncia fundamental principalmente pela avaliao do
     papel das classes sociais no perodo considerado, ainda no foi, pelo que sabemos, suficientemente
     aprofundada.
57   Alm das posies que assumiu quanto  guerra do Rf, o PCF geralmente restringiu-se, na prpria
     Arglia, ao anticolonialismo puro e simples, at o Front Populaire. Depois disso, parece ter prevalecido
     a ideia de "nao em formao".
720                                                            frica sob dominao colonial, 1880-1935



o protesto poltico. Ela tinha a seu favor a superioridade de meios, a continui-
dade das coisas e at um consenso aparente. O que ignorava, em contrapartida,
eram as foras que aumentavam no dia a dia. Quando essas foras explodem,
o governo culpa os "agitadores" locais, os estrangeiros ou os "vermelhos", o que
justifica ao mesmo tempo a represso e o imobilismo.

      Novas tticas e obstculos  ao
   No era o tudo ou nada  longe disso  mas uma tomada resolutamente
temporal ou mesmo secular do cenrio poltico, que ambicionavam Bour-
guiba58 (fig. 24.4) e seus companheiros Bahr Kka Tahr Safr e o dr. Matar,
entre outros. Eles defendiam o presidente conformista da Cooperativa Tuni-
siana porque dessa forma mobilizavam a opinio pblica. Foram a ponto de
apoiar uma medida decidida pela Residncia, mas que lhes parecia servir
"objetivamente" , diramos ns,  sua causa (tratava-se de uma diminuio
do oramento destinado aos funcionrios franceses)59. A Grande Mesquita
e a burguesia de Tnis, que fornecia muitos recrutas para o Destour, no
escondiam a ironia e a crtica. J era evidente que todo o movimento viria a
ser caracterizado pelo fato de homens do Shel terem se tornado militantes.
Politizar o interior60 seria um dos objetivos do Neo-Destour. No foi por
acaso que a ciso que lhe deu origem tenha ocorrido justamente depois de
um congresso saborosamente rural realizado em Kasr Hill (12 e 13 de maio
de 1933)61. Entretanto, os choques com a Residncia tornavam-se cada vez
mais duros, como em Monastr e Moknno. Decretos odiosos vieram legali-
zar a represso, e Bourguiba, que assim os havia qualificado, foi aprisionado
com seus adeptos no sul (3 de setembro de 1934)62. Mas, embora "abatido" , o
homem continuava advogando a sua causa.
   Na Arglia, a administrao procurava limitar a influncia crescente dos
Ulam, mobilizando contra eles tanto os adeptos das confrarias religiosas
como os clrigos oficiais, estes ltimos de uma aflitiva mediocridade63. Como
a multido seguia os novos pregadores, nos quais reconhecia instintivamente

58    Ver especialmente BOURGUIBA, 1954, passim.
59    Ibid., p. 10, 35 et seq.
60    Ou "recuper-lo" em relao  cidade. Guardando as devidas propores, notou-se o mesmo efeito
      morfolgico na ao dos Ulama na Arglia.
61 BERQUE, J., 1970, p. 289 et seq; redigido em parte com base em recordaes de M. Bourguiba.
62    BOURGUIBA, 1954, p. 70 et seq.
63    BERQUE, A., 1951.
Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935                       721



a modernizao necessria do islo, foi-lhes proibido pregar nas mesquitas.
A 16 de fevereiro de 1933, a "Circular Michel"  designao tirada do nome
do funcionrio da prefeitura que a redigiu  e trs decretos inauguravam um
monoplio oficial na matria64. A manifestao que se seguiu juntava sin-
dicalistas e militantes da extrema esquerda aos crentes, numa coalizo que
poderia ter sido eficaz.  certo que, nessa altura, surgiu uma espcie de "divr-
cio" entre a tendncia comunista e a nacionalista65, o qual a reunificao da
CGT e da CGTU (1935) esteve longe de remediar. Ao fim de alguns anos de
clandestinidade, a toile Nord-Africaine retomava a ao aberta na prpria
Arglia (junho de 1933)66. Mesal Hdj, seu presidente, vinha empregando
desde 1927 a expresso "independncia". E eis que, na crescente inquietude,
irrompe em Constantine (agosto de 1934) um tumulto antijudaico67: compl
ou provocao, exploso ou diverso? Em todo caso, um incidente de rua. A
violncia assustou todos os polticos. No entanto, nas eleies seguintes, em
janeiro de 1935, triunfava naquela cidade a lista de oposio do dr. Bendjelll,
demonstrando para que lado se inclinava a maioria. Embora o vencedor fosse
um assimilacionista convicto68, nem por isso deixou de acender o furor pre-
ventivo dos donos do poder.
    Nesta radicalizao difusa da vida pblica na Arglia, o que contava, como
se v, no era a frmula expressa, mas aquilo que ela evocava e provocava.
    No Marrocos, os colonos, amargurados com a crise e irritados com alguns
limites que a administrao opunha  sua preponderncia, emitiram um ulti-
mato. Essa manifestao, cheia de significado simblico, ocorreu no mesmo dia
das desordens de 6 de fevereiro de 1934 em Paris. O mesmo perodo assistiu,
no Marrocos, ao nascimento de uma imprensa nacionalista. O Comit de Ao
Marroquino, no qual Alll al-Fs comeava a se destacar como figura domi-
nante, anunciava, em 1 de dezembro de 1934, um Plano de Reformas que, se
fosse adotado, desenvolveria seu real significado e sua finalidade no decurso do
protetorado69. A oposio j se exprimia mais abertamente na zona espanhola




64   Texto completo em NOUSCHI, 1962, p. 69.
65   No entanto, foi fundado um partido comunista argelino em julho de 1938.
66   OUZEGANE, 1962, p. 84 et seq ,
67   NOUSCHI, 1962, p. 74 et seq.
68   Ver o seu prefcio a KESSOUS, 1935.
69   Anlise detalhada em TOURNEAU, 1962, p. 189 et seq.
722                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 24.4   Habib Bourguiba (nascido em 1903), lder do Partido Neo-Destour (Tunsia).
Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935                                                    723



pela voz de Torres e de Nsir70, estabelecendo contatos pelo interior71 e quase
comprometendo o futuro Mohammed V numa demonstrao no Mechuar, em
Fez, no dia 10 de maio de 1934.
    A introduo do Plano coincidiu com a liquidao da ltima mancha de
dissidncia no sul72  A histria iria tomar, da em diante, rumo diferente do
curso arcaico e quase legendrio que se havia prolongado alm de seus limites
naturais pelo lyauteyismo e pelo Ministry of Native Affairs (Ministrio dos
Negcios Indgenas). Semelhante coincidncia ultrapassa o quadro marroquino.
A cessao do bard tambm condenava potencialmente os bureaux arabes73. Na
Arglia e na Tunsia, igualmente, a mudana social, que enfraquecia as velhas
solidariedades, criou outras novas. As ruas das grandes cidades e at os largos
da feira das aldeias convertiam-se em cenrio de aes de massa que a ideologia
de classe e de partido soube mobilizar contra os enquadramentos tradicionais.
Nos trs pases maghrebianos e, particularmente, na Arglia  onde o ministro
Rgnier fez ruidosa pesquisa  o governo apenas respondeu  evoluo dos
espritos e das coisas com manipulaes eleitorais74 e exibio de seu arsenal
repressivo75.
    O aumento do perigo vindo do outro lado do Reno e o argumento que isso
deu aos conservadores na Frana no bastam para explicar a recusa da adminis-
trao em agir. A situao em que se fixaram reciprocamente as trs partes em
questo (Frana metropolitana, colonizao, movimento nacional) dava aparen-
temente s duas primeiras condies para defender um status quo que a terceira
parte ainda no tinha meios para mudar verdadeiramente. Em contrapartida
da vassalagem imitativa que proibia aos europeus da frica do norte qualquer
originalidade, a metrpole lhes assegurava apoio incondicional. Os da Arglia,
por exemplo, que se declaravam "argelinos", levaram o particularismo longe o


70   RZETTE, 1955, p. 83 et seq.
71   Aproveitando as redes de distribuio dos atacadistas de Fez. Esses contatos se estenderam  montanha
     e ao Ss, onde foram recrutados militantes to conhecidos como Mukhtr al-Ss.
72   Merebb Rebbo foi vencido por uma operao combinada das tropas francesas da Arglia e do Marrocos.
     Tindf foi definitivamente ocupado em 1934.
73   Bard significa "plvora", de onde "combate"; acabou por designar, na gria militar da frica, a resistncia
     guerreira e at desesperada que a honra impunha s tribos abrangidas pela "pacificao". Os bureaux
     arabes, criados um sculo antes por Lamoricire, constituam a forma caracterstica de administrao
     dos grupos tradicionais pelos franceses. No havia nada de equivalente nas cidades e, mesmo nas regies
     rurais do Maghreb, o mtodo envelheceu  medida que o meio evolua.
74   MENAUT, 1935.
75   Alm dos dcrets supersclrats na Tunsia, houve o decreto de 30 de maro de 1935 na Arglia e o dahir
     de 29 de junho de 1935 no Marrocos.
724                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



bastante para dele tirarem o mximo proveito, mas no o suficiente para cor-
rerem o risco de ficar sozinhos, cara a cara, com a maioria muulmana, sob a
forma de dominion ou de outro arranjo. Portanto, a Arglia era a Frana, como
eles diziam, mas sem a democracia. A situao , para todos os fins e efeitos, a
mesma na Tunsia e no Marrocos.


      Concluses provisrias
    Nem tudo est elucidado sobre o perodo que vimos tentando sintetizar.
A cada passo, a histria dos acontecimentos tropea no obstculo da histria
secreta. Pesquisas futuras lanaro mais luz sobre as figuras, circunstncias e
decises que no momento ainda so enigmticas. Mas tambm h que suspen-
der certos juzos sobre a histria social. Haver uma conexo precisa entre as
flutuaes da economia e as da tenso poltica? Mais do que as estratificaes
de classe,  o dualismo tnico, ou antes, cultural, que melhor parece explicar
as posies em questo. E como o conflito transcende de longe o Maghreb, as
vicissitudes que o marcam no Oriente repercutem nos fatos norte-africanos de
modo mais direto, sem dvida, mas mais profundo que a poltica francesa, que
ocupa o proscnio. O progresso da investigao talvez permita conjugar um dia,
com mais preciso, todas essas variveis num diagrama geral, ou pelo menos
ponderar cada uma delas em relao s outras.
    A cincia, as ideologias e as aes da poca, regra geral, faziam parte de uma
viso eurocntrica,  qual no escapavam a esquerda francesa nem a maior parte
das teorias norte-africanas do tempo. Isso apenas traz  m de cima, com maior
evidncia, aqueles movimentos que, apesar das dificuldades, souberam escapar
 deformao. Os acontecimentos subsequentes  Segunda Guerra Mundial
haveriam de lhe dar ampla razo.
    Mas  demasiadamente fcil, para o historiador, fazer as vezes do profeta do
real. Hoje em dia conhecemos o que veio depois ou, se se preferir, as consequ-
ncias das situaes descritas neste captulo. Poderiam elas ser diferentes? Em
particular, a tese reformista defendida nos trs pases da frica do norte por
vozes prestigiosas poderia ter chegado s concluses esperadas, ou seja, a instau-
rao, em forma atualizada, da solidariedade entre os trs pases maghrebianos e
a Frana? Hoje,  faclimo responder pela negativa, mas temos de recusar uma
explicao to simples.
    Evocar uma das possibilidades que a sequncia efetiva dos acontecimentos
afastou no  s condenar os responsveis pelos erros e abusos que sem dvida
Poltica e nacionalismo no Maghreb e no Saara, 1919-1935                    725



contriburam para impedir que as coisas seguissem o seu curso.  tambm
indagar de ns mesmos qual o significado de fatos e palavras do tempo. Espe-
ramos ter demonstrado que a situao no Maghreb durante o perodo que nos
tem ocupado, mais que muitas outras, deve ser interpretada em termos de uma
espcie de movimento subterrneo, onde o implcito  e mesmo o que era oculto
 importava mais do que aquilo que era explcito.
   Entre a adeso  democracia burguesa, o engajamento no socialismo inter-
nacional e a reafirmao de uma especificidade, sabemos hoje que era a terceira
opo a prevalecer. Contudo, no perodo em estudo ela no era inequvoca,
antes deixava a alternativa aberta entre dois campos rivais  islmico ou laico,
ocidentalista ou pan-rabe, moderado ou revolucionrio. Ningum podia prever,
em 1935, qual desses apelos prevaleceria, e nem mesmo se alguns deles preva-
leceriam sobre a situao colonial. A concluso a que podemos chegar  que,
provavelmente, a histria deixaria em suspenso outras possibilidades, as quais
poderiam (e talvez possam) dominar, por sua vez, outras fases do futuro.
Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935                                       727



                                        CAPTULO 25


                   Poltica e nacionalismo na
                  frica ocidental, 1919-1935*
                                         Albert Adu Boahen




    Conforme vimos nos captulos 6 e 12, o impulso da resistncia ao colonia-
lismo decaiu durante a Primeira Guerra Mundial na maior parte da frica oci-
dental. Efetivamente, como o demonstrou M. Crowder (ver o captulo 12), com
exceo de certas regies da Costa do Marfim, da Costa do Ouro (atual Gana),
do Nger e das provncias orientais da Nigria, a maioria dos africanos ocidentais
deu prova de fidelidade  potncia colonial durante essa guerra. Alguns chefes
tradicionais chegaram a fornecer voluntariamente contribuies em homens e
recursos, sob a forma de dinheiro, para o esforo de guerra imperial. Uma vez
terminado o evento, porm, os africanos retomaram a luta contra o colonialismo
com reforada energia e determinao. O perodo compreendido entre 1919 e
1935  visto como o de apogeu do colonialismo na frica ocidental, mas no
se deve esquecer que ele tambm foi o do auge da resistncia ao colonialismo e
das atividades nacionalistas (ver fig. 25.1).
    Diversos fatores determinaram a forma assumida pelo nacionalismo africano
e pelas atividades polticas na frica ocidental durante esse perodo: a influncia
da Primeira Guerra Mundial, a prpria situao colonial, o aumento numrico
dos profissionais liberais, dos membros da elite culta e da classe operria nos
grandes centros urbanos, as condies econmicas gerais das dcadas de 1920
e 1930, a evoluo socioeconmica nas zonas rurais, ligada s safras comerciais,

*    Agradeo  Oxford University Press a autorizao para reproduzir certas passagens de meu trabalho,
     Pan-africanism and Nationalism in West Africa, OUP, 1973.
                                                                        728
                                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935
figura 25.1   Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935.
Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935                           729



e, finalmente, a difuso do pan-africanismo e das atividades pan-africanas nessa
regio do continente.
     Crowder apresentou (captulo 12) de maneira detalhada as incidncias da
Primeira Guerra Mundial sobre a frica e sobre as atividades nacionalistas.
Podemos contentar-nos aqui de acentuar, em primeiro lugar, que a conscrio
forada de grande nmero de africanos provocou considervel irritao, princi-
palmente nos territrios da antiga frica francesa. Em segundo lugar, a guerra
deu aos africanos a prova de que, afinal de contas, o homem branco no era
um super-homem e que, portanto, seria possvel resistir-lhe. Finalmente, aps a
guerra, os africanos ocidentais fiis esperavam ver sua fidelidade recompensada
por concesses e por uma participao mais importante na direo de seus pr-
prios assuntos, esperana reforada ainda pelos princpios da democracia liberal
e da autodeterminao formulados por Woodrow Wilson, presidente dos Esta-
dos Unidos da Amrica, bem como por David Lloyd George, primeiro-ministro
do Reino Unido. Por todas essas razes, muitos africanos ocidentais estavam
evidentemente mais dispostos do que antes a participar dos movimentos de
resistncia anticolonialistas.
     O perodo foi tambm o da consolidao do sistema colonial, com maior
acento em seu carter autoritrio e racista. Foi nesse lapso de tempo que se
reforou a aliana entre chefes africanos tradicionais e dirigentes colonialistas.
Adotou-se uma legislao variada para dar aos primeiros maiores poderes e
praticamente excluir a nova elite educada e os membros das profisses liberais
de qualquer participao na administrao de seu prprio pas. Isso criou uma
situao tanto mais explosiva pelo fato de o perodo ter assistido ao aumento
substancial dessa elite de intelectuais e profissionais liberais, devido  dissemina-
o local da educao ocidental e  ida de um nmero cada vez maior de africa-
nos para escolas do exterior. Nas zonas rurais, tambm, a expanso da agricultura
de exportao, como a do cacau e do amendoim, favoreceu a emergncia de um
contingente sempre crescente de jovens de ambos os sexos que se tornavam mais
ricos do que os chefes tradicionais e que, portanto, se ressentiam dos poderes
no tradicionais e autoritrios conferidos a esses chefes e de sua prpria elimi-
nao dos novos conselhos criados pelas chamadas autoridades indgenas. Todas
essas transformaes sociais foram com certeza determinantes para a gnese do
nacionalismo e das atividades polticas na frica ocidental.
     As condies econmicas do perodo entre as duas guerras representavam
um fator ainda mais importante. A primeira coisa a notar, contudo, no que
concerne  poltica nacionalista na frica ocidental anglfona nesse lapso  o
modo como as crises comerciais e as modificaes sobrevindas na economia
730                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



colonial afetaram as iniciativas e as reaes da elite colonial de juristas e de
negociantes, assim como da sub-elite de professores, funcionrios e operrios.
Com efeito, a "revoluo econmica" da frica ocidental no s criou uma
economia monetria e desenvolveu o comrcio como tambm introduziu cer-
tos valores econmicos e sociais entre os empresrios e certas classes sociais
africanas, principalmente a dos juristas e comerciantes. Embora a situao
de tais classes, sobretudo a dos pequenos comerciantes, tivesse comeado a
evoluir com o desenvolvimento da economia colonial, durante os ltimos dez
anos do sculo XIX, foi na realidade a Primeira Guerra Mundial e a crise
econmica da decorrente que tiveram sobre elas efeito mais imediato e mais
importante. A estagnao das dcadas de 1880 e 1890 j havia demonstrado
que, devido  complexidade crescente das operaes comerciais,  expanso
dos mercados e  concorrncia das empresas extraterritoriais, os empresrios
africanos tinham ou de se revelar mais eficazes ou de desempenhar um papel
secundrio na economia colonial. A Primeira Guerra Mundial, com seus con-
troles econmicos, direitos discriminatrios de exportao, penria monetria
e perdas em navios, levou gradativamente os africanos educados, os homens
de negcios e os membros das profisses liberais a compreender que uma
pgina feliz acabava de ser virada e que chegara a era dos cartis industriais
capitalistas e de seus monoplios .
    Em Serra Leoa, a frustrao das classes cultas e dos comerciantes africa-
nos, e o desemprego nas grandes cidades provocaram os tumultos de 1919,
durante os quais o descontentamento suscitado pelo preo do arroz induziu
os ataques contra os comerciantes srios e libaneses, e a greve dos trabalha-
dores no mesmo ano. Embora voltados contra os levantinos (acusados de
provocar a escassez, estocando gneros essenciais, bem como de eliminar os
comerciantes do lugar), esses tumultos foram de fato um protesto violento
e espontneo contra o que se considerava injustias decorrentes da gesto
da economia colonial. As pilhagens e desordens estenderam-se de Freetown
a Moyamba, Kangahun (25-26 de julho de 1919), Mano, Boia, Makump,
Bo, Bonthe, Mange e Port Loko. A situao era to sria que foi preciso
convocar tropas da Costa do Ouro. Alm dos tumultos, houve uma greve
dos tcnicos e trabalhadores das estradas de ferro e das obras pblicas, que
reclamavam indenizao de guerra idntica  atribuda aos funcionrios dos
servios oficiais e protestavam contra os baixos salrios e a elevao dos pre-
Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935                                            731



os dos alimentos1. Tambm em Gmbia a inflao produzia efeitos sociais
e polticos, acarretando pilhagens e pequenos furtos espordicos, e greves de
martimos por melhores salrios, tudo resultando na criao de sindicatos,
principalmente a Gambia Native Defence Union.
    A crise de 1921 no fez seno acentuar a agitao dos comerciantes da frica
ocidental, alguns dos quais estavam arruinados. A emisso de papel-moeda e
a escassez de moeda de prata tambm no ajudaram a melhorar as coisas, e os
comerciantes europeus eram acusados de aambarcar as notas bancrias e de
praticar alta de preos. Segundo um jornal da Costa do Ouro, "os reis, os chefes
e todas as classes da sociedade logo estaro reduzidos  mendicncia, a menos
que os africanos ocidentais se unam para frustrar as dissimuladas manobras dos
magnatas dos cartis industriais e comerciais". Em geral, portanto, todas essas
dificuldades econmicas levaram a imprensa africana ocidental a reclamar a
formao do National Congress of British West Africa, NCBWA (Congresso
Nacional da frica Ocidental Britnica), e a abolio do sistema administrativo
das colnias da Coroa, para permitir que os africanos participassem mais da
gesto da economia e que houvesse uma representao mais importante deles
nos organismos administrativos e legislativos.
    O ltimo fator a desempenhar um papel fundamental foi o lanamento do
movimento pan-africano e dentro dele, principalmente, as atividades do dr. W.
E. B. Du Bois e de Marcus Garvey, especialmente na dcada de 1920. Estas
questes so estudadas em detalhe no captulo 29. Assinalemos aqui que os
diversos congressos pan-africanistas organizados pelo dr. Du Bois (em Paris,
em 1919; em Londres, Bruxelas e Paris, em 1921; em Londres e em Lisboa,
em 1922; em Nova York, em 1927), aos quais assistiram participantes da frica
ocidental, no s deram um carter internacional s atividades nacionalistas e 
luta contra o colonialismo na frica, em geral, e na frica ocidental, em par-
ticular, como tambm reforaram consideravelmente a tomada de conscincia
dos negros do mundo inteiro sobre sua condio de vtimas da opresso e da
tirania. Esses congressos granjearam novos adeptos para a causa. nacionalista
na frica ocidental.
    Examinemos agora, contra esse pano de fundo, as organizaes e os movi-
mentos que se constituram no perodo entre as duas guerras e se tornaram
porta-vozes das reivindicaes e das exigncias nacionalistas, de incio na frica
Ocidental Britnica e depois na frica ocidental francfona.

1    Public Record Office, Kew, CO, 267/582/45278; ver tambm Sierra Leone Weekly News, 19 de julho de
     1919, p. 8.
732                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



      Poltica e nacionalismo na frica Ocidental Britnica
      Movimentos e ligas da juventude
    Essas organizaes assumiram, na maior parte dos casos, a forma de sindi-
catos tnicos e de movimentos ou associaes de juventude. O perodo entre
as duas guerras assistiu  formao, em muitos pases da frica ocidental, em
nmero sempre crescente, de uma infinidade de associaes, clubes e socieda-
des (tnicas, de assistncia social, literrias, de antigos alunos, de beneficncia e
de juventude). Inmeros sindicatos igbo foram fundados em certas cidades da
Nigria, como Ibadan, Abeokuta e Lagos. S na colnia e territrios ashanti
da Costa do Ouro havia pelo menos cinquenta clubes e associaes desse tipo
desde 1930, em sua maioria fundados entre 1925 e 19302. A ttulo de exemplo,
citemos o Achimota Discussion Group, o Literary and Social Club e o Eureka
Club de Cape Coast, o Optimum Club, o Literary Club e o Social Club de
Sekondi, o Young People's Club, o Cosmos Club e o Rodger Club de Acra, a
Anun Improvement Society, a Ewe League, a Asante Kotoko Society de Kumasi
e a Mekwai Kotoko Union. J. B. Danquah organizou alguns desses clubes e
associaes em um movimento, o Youth Conference Movement (Movimento
da Conferncia da Juventude), que realizou as primeiras reunies em Acra, em
1929. Na Costa do Ouro e em Serra Leoa, L T. A. Wallace Johnson fundou
a Youth League (Liga da Juventude) e a West African Youth League (Liga
da Juventude Africana Ocidental). Em 1934, foi fundado o Nigerian Youth
Movement (Movimento da Juventude Nigeriana), que, conforme demonstrou
recentemente um especialista nigeriano, abrangia quase todos os jovens inte-
lectuais da poca3  H. O. Davies, Nnamdi Azikiwe, o dr. Vaughan, o dr. Kofo
Abayomi e Obafemi Awolowo.
    Tais clubes e associaes eram dirigidos quer por membros da elite intelec-
tual formada pelos missionrios, quer por jovens advogados, mdicos ou homens
de negcios. Embora o objetivo perseguido por esses dirigentes fosse arrebatar o
poder poltico dos antigos dirigentes nacionalistas conservadores do Congresso
(do que se tratar mais adiante), nenhum desses movimentos, com exceo da
West African Youth League, formulou exigncias radicais, apesar da deteriora-
o da situao econmica das dcadas de 1920 e 1930. No reclamavam seno
mais equipamentos escolares e de melhor qualidade, a criao de universidades,


2     HAGAN, 1968.
3     OLUSANYA, 1980, p. 558.
Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935                          733



aumento de vencimentos e salrios, representao equitativa nos conselhos legis-
lativos e executivos, abolio da discriminao racial, acesso aos mais altos postos
da funo pblica, mercados econmicos garantidos para os africanos e melhores
relaes entre a administrao colonial e os africanos. Foram essas, por exemplo,
as exigncias apresentadas pela Youth Conference na Costa do Ouro, quando de
sua primeira reunio em Acra, organizada por Danquah em 1929.
    Exigncias semelhantes foram formuladas pelo Nigerian Youth Movement
(NYM), que preconizava uma maioria africana no Conselho Legislativo e recla-
mava que todos os africanos estivessem a representados, de modo progressivo. A
carta do NYM tambm exigia o sufrgio universal, criticava ao mesmo tempo a
prtica do poder indireto e a representao dos interesses econmicos e comer-
ciais europeus no Conselho Legislativo e, finalmente, insistia na nigerianizao
progressiva da funo pblica. No plano econmico, a carta reclamava, como a
Gold Coast Youth Conference (Conferncia da Juventude da Costa do Ouro),
que os africanos participassem em p de igualdade ao lado da potncia colo-
nial na gesto da economia. Expunha mesmo as grandes linhas de um plano
quinquenal de desenvolvimento, em que se dava prioridade  produo de bens
de consumo, ao desenvolvimento do sistema bancrio,  indstria txtil e aos
transportes. Por outro lado, preconizava a criao de sociedades cooperativas
para ajudar os nigerianos a adquirir certas indstrias e a fundar bancos agrco-
las que contribussem para a modernizao da agricultura e para a melhora do
nvel de vida do campesinato. A carta condenava o monoplio das empresas
extraterritoriais e recomendava a adoo de programas de assistncia social aos
trabalhadores nigerianos. No plano sociocultural, reclamava a implantao de
um programa de ensino primrio e de ensino de massa financiado pelo Estado,
assim como recomendava a adoo de programas de educao ps-escolar e
de educao sanitria, sob a responsabilidade das autoridades administrativas
centrais e locais.
    O nico movimento a adotar posies extremistas foi a West African Youth
League, dirigida por I. T. A. Wallace Johnson (ver fig. 25.2), um sindicalista de
Serra Leoa que havia estudado em Moscou, de 1931 a 1932. Quando voltou
para a frica ocidental, estava decidido a criar uma nova fora poltica que
se apoiasse nos trabalhadores e nos desempregados das reas urbanas para a
derrubada do sistema colonial. Fundou a Youth League, na Costa do Ouro,
organizando os trabalhadores em sindicatos e lanando-os contra o sistema
colonial, com seus artigos de tom violento, quase sedicioso, e com a habilidade
com que sabia tirar partido das queixas das populaes que sofriam com o
desemprego, a alta dos preos dos alimentos e a frustrao causada pela baixa
734                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



constante do valor das exportaes de cacau desde 1929. Suas tentativas de
mobilizar os descontentes e radicalizar assim a poltica local fizeram com que
ele fosse considerado pela administrao colonial um perigoso extremista, pago
pelos comunistas para aliciar a juventude africana, pelo que foi expulso para
Serra Leoa. L, criou filiais da Youth League (em Freetown e em Bo) e lanou
um jornal, The Sentinel, que fez campanha contra as condies de trabalho e o
decreto sobre educao (Education Ordinance).
    Alm das campanhas de imprensa e das peties, os movimentos da juven-
tude participavam das eleies locais e tambm recorreram  greve. Estiveram
assim envolvidos nas manifestaes, tumultos e greves de Freetown, em Serra
Leoa (1926-1931), bem como em Bathurst (atual Banjul), em Gmbia (1929).
Em Acra, o Youth Movement, dirigido por Kojo Thompson, advogado de Acra,
bem como pelo jornalista nigeriano Nnamdi Azikiwe, participou das eleies
municipais locais sob a gide do Partido Mambii, contra os nacionalistas mais
velhos e mais conservadores, como o dr. F. V. Nanka-Bruce, enquanto a Youth
League tomava parte nas eleies locais de Cape Coast. O Nigerian Youth
Movement, sustentado pelo West African Pilot, de Azikiwe, tambm lanou
vigorosa campanha, alis coroada de sucesso, contra o Nigerian National Demo-
cratic Party (Partido Democrtico Nacional Nigeriano), o partido conservador
de Herbert Macaulay, que dominava o cenrio poltico de Lagos desde sua
fundao, em 1923.
    Apesar disso, os movimentos da juventude no realizaram seno parcial-
mente seus objetivos. Os xitos eleitorais da dcada de 1930 no conseguiram
desalojar os dirigentes conservadores, e os programas econmicos que deli-
nearam revelaram-se inaplicveis no quadro de um sistema semicolonial de
administrao. Se  certo que a maior parte das atividades dos movimentos
da juventude no produziu resultados polticos importantes, alm de algumas
vitrias eleitorais nas reas urbanas, o estilo poltico do movimento nacionalista
de 1945 em diante, na frica Ocidental Britnica, deve bastante  experincia
adquirida por certos dirigentes nos movimentos da juventude.

      Partidos polticos
   Alm dos movimentos da juventude, vrios partidos polticos foram criados
para fazer campanha a favor das reformas. O mais conhecido  o Nigerian
National Democratic Party, fundado por Herbert Macaulay em 1923 (ver fig.
25.3). Os objetivos desse partido eram os seguintes:
                                                                                                                                                              Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935
                                                                                                                                                              735
figura 25.2 I. T. A. Wallace Jonhson (1894-1965), jornalista de Serra Leoa, sindicalista, pan-africanista e poltico nacionalista, discursando num comcio.
(Foto: Longman.)
736                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



      Afirmar os direitos  segurana e ao bem-estar das populaes da colnia e do
      protetorado da Nigria enquanto partes integrantes do Commonwealth do imprio
      britnico e portar a bandeira do `Bem, da Verdade, da Liberdade e da Justia ao
      empreo da Democracia, at a realizao de sua ambiciosa meta de `um governo do
      povo, pelo povo, para o povo' [...] e, ao mesmo tempo, manter uma atitude de inque-
      brantvel lealdade ao trono e  pessoa de Sua Majestade o Rei e Imperador, sendo
      estritamente constitucional na adoo de seus mtodos e de seus modos de ao4.
    Em seu programa figuravam a nomeao e a eleio dos membros do Con-
selho Legislativo de Lagos, a obteno de um estatuto municipal e de um
governo local autnomo para Lagos, o desenvolvimento do ensino obrigatrio
em toda a Nigria, a africanizao da funo pblica, a liberdade e a equidade
do intercmbio comercial no pas, a igualdade de tratamento dos comerciantes
e dos produtores e, por fim, o desenvolvimento econmico dos recursos natu-
rais locais por empresas privadas sob controle. O partido recorreu aos mto-
dos habituais para a consecuo de seus objetivos, participando vitoriosamente
das eleies realizadas em Lagos em 1923, 1928 e 1933. Em 1930, organizou
grandes comcios e enviou delegaes ao governador, para "discutir questes de
ordem natural, como a crise do comrcio e a nomeao e deposio dos chefes"5.
Ele dominou o cenrio poltico de Lagos at 1938, ano em que foi batido pelo
Nigerian Youth Movement.

      Sindicatos
    O movimento sindical foi igualmente um dos meios de expresso dos senti-
mentos anticolonialistas e das reivindicaes nacionalistas. Enquanto se funda-
vam numerosos sindicatos nas fricas central e austral, a comear pelo primeiro,
a Industrial Workers and Commercial Union, criada em 1919 por Clements
Kadalie na frica do Sul, com uma filial na Rodsia do Sul, estabelecida em
1927, o governo francs aparentemente no permitia a atividade sindical na
frica ocidental antes de 1937. Quanto aos ingleses, s a toleraram oficialmente
depois de 1932, em Gmbia, em 1939, em Serra Leoa, e em 1941, na Nigria e
na Costa do Ouro6. Mas, embora as atividades sindicais no fossem autorizadas
nem estimuladas oficialmente durante esse perodo, vrios sindicatos surgiram
 luz do dia, principalmente em razo do elevado custo de vida.  o caso de

4     Apud COLEMAN, 1958, p. 198.
5     Ibid., p. 199.
6     CROWDER, 1968, p. 351-2.
                                                                                                                                                             Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935
figura 25.3 A delegao do National Congress of British West Africa que visitou Londres em 1921. Da esquerda para a direita: sentados, dr. Bankole-Bright




                                                                                                                                                             737
(Serra Leoa), T. Hutton Mills (Costa do Ouro), chefe Oluwa (Nigria), J. E. Casely Hayford (Costa do Ouro), H. Van Hein (Costa do Ouro); de p, J. Egerton
Shyngle (Nigria), H. M. Jones (Gmbia), H. Macaulay (Nigria), T. M. Oluwa (Nigria), F. W. Dove (Serra Leoa), E. F. Small (Gmbia). (Foto: Clarendon
Press, Oxford.)
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citar a Railway Workers Union, de Serra Leoa, a Nigerian Mechanics Union,
fundada em 1919, e a Gambia Native Defence Union. As armas clssicas des-
ses sindicatos eram a greve, o boicote e o bloqueio de mercadorias. A primeira
srie de greves atingiu as estradas de ferro e as minas. Os operrios das ferrovias
fizeram greve pela primeira vez em 1919, em Serra Leoa, seguida por outra em
1926. Os trabalhadores das minas de ouro ashanti fizeram greve em 1924, em
Obuasi, na Costa do Ouro; houve outra nas minas de carvo de Enugu, em
1925; no mesmo ano, foi a vez dos operrios e funcionrios da ferrovia Dacar-
Saint Louis7. Em todos esses casos, os grevistas reivindicavam melhores salrios
e condies de trabalho.

      Movimentos interterritoriais e movimentos internacionais:
      o National Congress of British West Africa
    A organizao e as perspectivas das associaes, partidos e movimentos a que
nos vimos referindo tinham carter local ou regional. O que todavia distingue os
movimentos polticos verificados entre as duas guerras daqueles que existiram
imediatamente antes e depois do perodo  o nascimento de um movimento
interterritorial na frica Ocidental Britnica e de movimentos internacionais
nas capitais dos pases colonizadores. O primeiro deles foi o National Congress
of British West Africa (NCBWA), na frica ocidental, e o segundo a West
African Students Union (Unio dos Estudantes Africanos Ocidentais), fundada
em Londres.
    O NCBWA foi, incontestavelmente, o mais interessante dos movimentos
nacionalistas jamais surgidos na frica ocidental, entre as duas guerras 8. O
movimento foi resultado dos esforos de J. E. Casely Hayford, jurista e inte-
lectual da Costa do Ouro, bem como do dr. Akiwande Savage, da Nigria; a
influncia dominante que sempre exerceu no foi a dos chefes tradicionais, mas
sim a de membros das profisses liberais, juristas, mdicos e empresrios. A
alma do movimento foi sem dvida Casely Hayford, cujo idealismo, percepo
das realidades polticas e f na unidade dos povos africanos permitiram que
o NCBWA sobrevivesse de 1920 a 1930 e introduzisse na poltica africana
ocidental um tom pan-africanista que s se reencontraria 25 anos depois nos
esforos de Kwame Nkrumah.



7     Ibid., p. 352.
8     Para maiores detalhes, ver LANGLEY, 1973.
Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935                                                       739



    Conforme j sublinhei na anlise do meio socioprofissional dos dirigentes
do NCBWA9, a classe dirigente tinha herdado o individualismo possessivo da
democracia liberal do Ocidente, principalmente a doutrina, cultivada na poca
vitoriana, do laissez-faire, da ideia de que saber  poder, da f no progresso e na
harmonia natural dos interesses e, tambm, da convico de que a "liberdade
dentro da ordem" e a propriedade privada andam de mos dadas.
    Alm disso, para a maior parte dos dirigentes, a "frica Ocidental Britnica"
representava uma entidade mais importante do que a Costa do Ouro, Serra Leoa
ou Nigria. Essa identificao da parte com o todo deveria continuar at a crise
econmica de 1929 e da dcada de 1930, poca em que se imps uma concepo
nacionalista mais estreita10. A burguesia urbana culta da frica ocidental, desde
a dispora de Serra Leoa do sculo XIX at o final da dcada de 1930, tinha
mais pontos em comum e se comunicava mais facilmente com a burguesia das
cidades do litoral africano do que com seus irmos do interior.
    No admira que a intelligentsia nacionalista, da qual se afirmava no ter
histria para se levar a srio, consciente do fato de que seu prprio grupo socio-
econmico no via perspectivas dentro do sistema colonial, chegasse a preferir
uma "nacionalidade africana ocidental" utpica a um sistema poltico em que
ela no podia fazer ouvir sua voz e o qual, de todo modo, ela considerava um
sistema de opresso, j pelo fato de ser estrangeiro. Os jornais da Costa do
Ouro denunciavam incansavelmente a dominao estrangeira. Como observava
um dos editoriais: "A introduo do sistema britnico de governo em lugar do
sistema anterior constitui uma usurpao que nenhuma nao preocupada com
sua dignidade jamais admitiria".
    Apesar de todas essas objees contra a "dominao estrangeira", nunca se
tratou de cortar os laos com a potncia colonial. A dominao estrangeira
era m, sem dvida, mas havia boas razes para aceit-la; era melhor reclamar
maiores oportunidades para um grupo social em particular e fazer reivindica-
es moderadas do que se desembaraar completamente dessa dominao; e,
afinal, a gente ainda era "livre",  sombra da Union Jack (bandeira britnica). O
prprio Herbert Macaulay, considerado pela administrao um "veneno" para



9    Ibid., captulo IV.
10   Por exemplo, o Gold Coast Leader, de 26 de setembro de 1928, afirmava: "A ideia de que as populaes
     da Costa do Ouro formam uma nao  fundamental". Por sua vez, o Sierra Leone Weekly News, de 27 de
     outubro de 1928, declarava: "Por mais que se fale, Serra Leoa  nosso pas [... ]".  interessante verificar,
     no entanto, que entre 1918 e 1939 a quase totalidade da imprensa considerava antes a frica ocidental
     como um vasto conjunto do que como uma srie de colnias. EDMUND, W. D., 1951, p. 113.
740                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



a poltica de Lagos, podia falar com sinceridade dos "numerosos benefcios da
Pax Britannica". O NCBWA declarava, por sua vez:
      Que a poltica do Congresso ser a de manter estritamente e inviolveis os laos das
      dependncias britnicas da frica ocidental com o imprio britnico, e conservar
      sem reserva todos os direitos de livre cidadania do imprio, assim como o princpio
      fundamental segundo o qual a taxao fiscal acompanha uma representao efetiva
      [...] para contribuir para o desenvolvimento das instituies polticas da Africa
      Ocidental Britnica sob a proteo da Union Jack [...] e, com o tempo, garantir
      dentro de suas fronteiras o governo do povo, pelo povo, para o povo; de assegurar
      oportunidades iguais para todos, preservar as terras do povo para o povo11
    Enfim, os dirigentes do NCBWA tambm se consideravam, em vista de sua
posio scioprofissional, a nica categoria de pessoas qualificadas para contro-
lar por meios constitucionais o que histricos racistas norte-americanos como
Lothrop Stoddard e Madison Grant classificavam como "a mar crescente das
pessoas de cor contra a supremacia branca".
     importante elucidar a atitude dos chefes desse movimento, a fim de subli-
nhar o fato de que, apesar de todos os discursos sobre a raa, eles eram essen-
cialmente colaboradores, de objetivos polticos extremamente limitados, uma
sub-elite cujos interesses coincidiam geralmente com os dos senhores estran-
geiros contra os quais faziam agitao. Embora alegassem falar em nome "do
povo", as aspiraes da pequena burguesia nacionalista no se confundiam com
as do povo. De fato, eram as contradies dentro do prprio sistema colonial
que eles procuravam harmonizar, a fim de proteger e de promover seus prprios
interesses sem subvert-lo. Da o carter constitucional de suas reivindicaes
e o fato de eles reconhecerem os benefcios da dominao colonial britnica.
Pondo de lado seu pan-africanismo, seu principal objetivo era obter instituies
representativas que protegessem suas pretenses socioeconmicas e realassem
seu papel na sociedade colonial12.
    O NCBWA reuniu-se pela primeira vez em Acra de 11 a 29 de maro
de 1920. A primeira sesso, da qual participaram delegados da Nigria, da
Costa do Ouro, de Serra Leoa e de Gmbia, despertou vivo interesse na frica,
em Londres e at nas Antilhas13. A "humilde petio" com que a conferncia


11    Constituio do National Congress of British West Africa (NCBWA). Ver tambm as resolues da
      Conference of Africans of British West Africa, Acra , 1920, p. 9.
12 Ver HOBSBAWM, 1964, p. 176-7, e o interessante artigo de KILSON, 1958.
13    Gold Coast Times, 15 de setembro de 1931, p. 11; West African Nationhood, 9 de abril de 1931.
Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935                               741



revestiu suas resolues proclama "a fidelidade e o devotamento sinceros `de
seus membros' ao trono e  pessoa de Sua Majestade o Imperador-Rei". Suas
recomendaes implicavam no a destruio, mas a modificao das estruturas
administrativas existentes. As mudanas constitucionais preconizadas compre-
endiam a reorganizao dos conselhos legislativos da frica ocidental, em que
a metade de seus membros seria nomeada pela Coroa e a outra metade seria
eleita pelo povo; alm disso, uma cmara parcialmente eleita teria poderes de
regulamentao em matria fiscal. Eles condenavam a rgida poltica colonial,
que consistia em s nomear europeus para os postos oficiais mais elevados.
Reclamavam a criao de organismos municipais e de uma universidade africana
ocidental, segundo as recomendaes formuladas em 1872 por E. W. Blyden,
com o apoio do governador de Serra Leoa, John Pope-Hennessy.
    Queixavam-se dos controles econmicos e fiscais do ps-guerra e do cres-
cente poderio das empresas estrangeiras.  interessante notar que a conferncia,
em desespero de causa e sob a influncia dos meios comerciais e da Universal
Negro Improvement Association (UNIA), de Marcus Garvey, por intermdio
do reverendo patriarcal G. Campbell, adotou a seguinte resoluo:
    A presente conferncia, estimando que a concorrncia comercial nas dependncias
    britnicas da frica ocidental deve estar livre de qualquer entrave, exprime seu vivo
    descontentamento com a adoo do decreto relativo aos direitos sobre as exportaes
    de polpa de coco [...] e que, em razo das dificuldades experimentadas at agora,
    na questo do espao no cais sob bandeira britnica, por legtimos comerciantes e
    armadores africanos, ela se declara a favor da concorrncia em matria de navegao,
    mais particularmente no que se refere  Black Star Line.
    A conferncia props reformas jurdicas e, principalmente, a criao de um
tribunal de apelao africano ocidental. Em reconhecimento da "importante
parte que a imprensa exerce no desenvolvimento nacional", foi igualmente deci-
dida a criao de uma Unio da Imprensa da frica Ocidental: um comit de
experimentados jornalistas deveria estudar a questo de uma melhor coordena-
o da imprensa de lngua inglesa da frica ocidental. Tambm foi proposta a
criao de um rgo oficial do NCBWA, dirigido por J. B. Casely Hayford e
financiado pelo Congress Inaugural Fund, cujo ttulo seria British West African
National Review.
    A questo das reformas sanitrias e mdicas tambm foi examinada detalha-
damente: o dr. H. C. Bankole-Bright (Serra Leoa) apresentou comunicaes de
alto nvel tcnico. A conferncia tambm se ocupou da segregao racial e da
742                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



situao dos mdicos africanos nos servios pblicos. A grave e eterna questo
agrria foi igualmente levantada, sendo objeto de uma declarao acerba:
      A presente conferncia estima que o princpio da tutela sobre as terras das popu-
      laes da frica Ocidental Britnica deu lugar a exageros, convindo afirmar que o
      nativo desta parte da frica , em mdia, perfeitamente capaz de se ocupar de seus
      prprios interesses com a terra.
    A conferncia condenou o direito que as potncias europeias se arrogavam
de trocar ou dividir territrios sem contemplar a vontade da populao, no a
levando em considerao, o que equivalia a uma espcie de escravatura. Denun-
ciou em particular a partilha do Togo entre os governos ingls e francs e a
entrega de Camares  Frana, sem que as populaes tivessem sido consultadas
ou que se levassem em conta seus desejos nessa matria. E demandou respei-
tosamente ao governo de Sua Majestade a garantia de no consentir em caso
algum que fosse atingida a integridade territorial das quatro colnias britnicas
da frica ocidental. Por fim, a conferncia constituiu-se em National Congress
of British West Africa (NCBWA) e decidiu enviar representantes a Londres,
onde estes exporiam suas opinies.
    Uma delegao de Gmbia, de Serra Leoa, da Costa do Ouro e da Nigria
desembarcou em Londres em 1921 para solicitar ao governo de Sua Majes-
tade que outorgasse representao eletiva s quatro colnias (fig. 25.3). Casely
Hayford, que representava a Costa do Ouro, chefiava a delegao, a qual apelou
para diversos grupos parlamentares e organizaes humanitrias. A delegao
tinha o apoio da Cmara de Comrcio de Liverpool, de Albert Cartwright, reda-
tor-chefe de West Africa, e de alguns influentes homens pblicos. No entanto,
em vista da oposio de sir Hugh Clifford (governador-geral da Nigria), de
Gordon Guggisberg (governador da Costa do Ouro), assim como de alguns
chefes da Costa do Ouro conduzidos por Nana Sir Ofori Atta, e, sobretudo,
em razo da atitude negativa do Colonial Office, durante a gesto do visconde
Milner como secretrio de Estado, a petio do NCBWA foi rejeitada, essen-
cialmente porque seus dirigentes no representavam a maioria do povo dos
quatro territrios.
    O NCBWA reuniu-se novamente em Freetown (janeiro-fevereiro de 1923),
em Bathurst (dezembro de 1925 a janeiro de 1926) e em Lagos (1930), embora a
poltica reivindicativa do movimento fosse no essencial conduzida pelos diversos
comits territoriais criados em Gmbia, Serra Leoa, Costa do Ouro e Nigria.
A sesso de Freetown,  qual a elite social da cidade deu total apoio, ratificou
a constituio do movimento e definiu precisamente as funes respectivas do
Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935                           743



presidente, do secretrio-geral, do conselho executivo, do tesoureiro e do comit
executivo central. A conferncia ainda recomendou  sesso de Freetown a cria-
o de um rgo de imprensa, que se intitularia British West African Review, para
noticiar todas as atividades das diferentes regies territoriais. O secretrio-geral,
cuja sede ficava em Sekondi (Costa do Ouro), recebia relatrios trimestrais
dos secretrios de cada comit territorial. Significativamente, a constituio do
NCBWA, ratificada em Freetown, tratava tambm da cooperao econmica
entre os pases da frica ocidental e recomendava vivamente s sucursais do
NCBWA que educassem a opinio pblica e, especialmente, os homens de
negcios e os chefes de empresas africanos quanto aos meios a empregar no
sentido do desenvolvimento econmico da frica ocidental.
    Quando da sesso de Bathurst, realizada entre 24 de dezembro de 1925 e
10 de janeiro de 1926, o NCBWA, depois de lembrar a rejeio das peties do
comit local, que reclamavam desde 1920 uma representao eletiva, conclua
que "uma constituio seria a melhor garantia da expresso efetiva e eficaz
da opinio pblica"; era hora de aplicar integralmente  colnia de Gmbia o
princpio da representao eletiva; e, por fim, as vrias sucursais do NCBWA
deveriam encarar seriamente o problema de uma federao da frica ocidental
britnica, dotada de um governador-geral, e que, em tempo til, gestes deve-
riam ser feitas junto do governo de Sua Majestade para que esse projeto fosse
examinado com ateno e simpatia.
    A sesso de Bathurst advogou tambm o estabelecimento de escolas nacio-
nais, a instruo obrigatria em todas as reas urbanas, o ensino agrcola e indus-
trial para as zonas rurais e a criao de bancos e de cooperativas agrcolas. J
havia reclamado a "independncia econmica e comercial" da frica ocidental, a
criao de um tribunal de recursos africano ocidental e a nomeao de africanos
para os postos superiores do aparelho judicirio. Convm notar que o Gambia
Women's Auxiliary Committee, da sucursal gambiana do NCBWA, participou
das deliberaes da sesso de Bathurst. Graas ao apoio do Partido Democrtico
Nacional da Nigria, de Herbert Macaulay, bem como aos enrgicos esforos de
membros da seo de Lagos, tais como J. C. Zizer, o reverendo W. B. Euba e B.
M. E. Agbebi, a quarta sesso realizou-se em Lagos no ano de 1930.
    Que logrou obter o NCBWA? Embora prosseguisse suas atividades durante
toda a dcada de 1920, sua realizao essencial foi a adoo de novas constitui-
es que admitiram o princpio da representao eletiva na Nigria, em 1923, em
Serra Leoa, em 1924, e na Costa do Ouro, em 1925. Pensava-se que semelhante
modificao fora obtida graas  iniciativa de sir Hugh Clifford, ento governa-
744                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



dor da Nigria14. Ora, o autor destas linhas pde concluir, de maneira irrefutvel,
que a concesso foi outorgada em consequncia das constantes presses exer-
cidas pelas diferentes sucursais do NCBWA sobre suas respectivas administra-
es15. A entidade conseguiu tambm inocular nos dirigentes polticos da frica
Ocidental Britnica um sentimento de unidade e de destino poltico comum.
Em contraposio, no logrou realizar a independncia econmica nem a unifi-
cao das quatro colnias britnicas, tampouco qualquer melhora ou atenuao
do sistema colonial. Pelo contrrio, na dcada de 1930, o colonialismo estava
ainda mais solidamente entrincheirado do que na dcada anterior.

      Politica rural ou nacionalismo das massas rurais entre as duas guerras
    A propsito dos movimentos da juventude, do NCBWA e dos sindicatos,
estudamos o nacionalismo e a poltica tal como se exprimiam no meio urbano,
sob a direo da elite instruda e dos membros das profisses liberais. Mas,
como revelam pesquisas recentes  e as pesquisas futuras em outros pases da
frica ocidental confirmaro, infirmaro ou modificaro estas concluses , as
atividades nacionalistas africanas no se limitaram aos centros urbanos. De fato,
elas se estenderam s zonas rurais, s diferentes entidades soberanas, aos Estados
e s comunidades e, neste caso, os principais protagonistas eram, de um lado, os
homens do povo e os agricultores, instrudos ou analfabetos, e, de outro lado, os
chefes tradicionais. Algumas vezes, estes ltimos opuseram-se ao sistema colo-
nial com a ajuda de seus sditos; outras, os sditos os acusaram de ser agentes
desse mesmo sistema. So pouqussimas as informaes disponveis sobre um
outro aspecto da questo, que  saber se havia ou no conexo entre a poltica
urbana e a poltica rural, e se ambas se influenciavam mutuamente e como.
    Pode-se ilustrar a situao buscando inspirao nos resultados das pesqui-
sas limitadas que se fizeram at agora em Gana16. O perodo entre as duas
guerras foi assinalado na Costa do Ouro, como nas outras colnias britnicas
da frica ocidental, pela instaurao e consolidao do sistema de governo
indireto nas zonas rurais por meio de certo nmero de decretos e leis: Native
Jurisdiction Amendment Ordinance (1910), Guggisberg Constitution (1925),
Native Administration Ordinance (1927) e Native Administration Revenue
Bill (1931). Todas essas medidas, que davam aos chefes tradicionais poderes que


14    Ver LANGLEY, 1973, captulo IV.
15    Ibid., p. 243-5.
16    Ver ADDO-FENING, 1975; SIMENSEN, 1975a; STONE, 1975.
Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935                        745



eles jamais haviam tido at ento, como o de recolher impostos e aplicar multas,
correspondiam, segundo Stone, a "uma tentativa de fazer dos chefes uma pea
da administrao `colonial'." Do ponto de vista econmico, essa poca assistiu
a uma alternncia de fases de prosperidade e de recesso e inflao  estas
ltimas nos anos de 1915 a 1917, 1929 e 1930, e de 1935 a 1940. Foi tambm
a poca da expanso da indstria do cacau nas zonas rurais, especialmente
nas regies de Akuapem e de Akyem Abuakwa, onde um nmero cada vez
maior de jovens agricultores e de comerciantes que transacionavam com pases
distantes enriquecem. Do ponto de vista social, foi igualmente o perodo em
que o ensino primrio foi estendido s regies rurais. Algumas pessoas que o
receberam mudaram em seguida para as cidades, mas outras permaneceram no
local e se entregaram  agricultura ou ao pequeno comrcio. Devido a tantas
alteraes ocorridas em sua situao socioeconmica, esses rurcolas comearam
a exigir uma mudana correspondente em sua condio poltica e, sobretudo,
representao nos conselhos nacionais e provinciais  exigncia que a legislao
acima citada no permitia satisfazer os objetivos essenciais das populaes rurais
eram, portanto, a representao naqueles conselhos e, acima de tudo, restries
aos crescentes poderes dos chefes tradicionais e dos comissrios; alm disso,
reclamavam a supresso ou a reduo de certas taxas e multas que os chefes e
comissrios lhes impunham.
    Como demonstram pesquisas recentes feitas em Gana, os habitantes das
zonas rurais tinham forjado dois instrumentos para a consecuo desses obje-
tivos, nomeadamente o instrumento tradicional das companhias asafo, isto ,
organizaes permanentes dos povos de lngua akan para fins militares e sociais,
fora do controle dos chefes tradicionais ou da elite poltica, assim como novas
associaes, como a Cocoa Farmers Association e a Gold Coast Federation of
Cocoa, criadas respectivamente em 1910 e em 1928. Os mtodos empregados
por tais organizaes eram as peties e os bloqueios da expedio de cacau.
A mais interessante dessas companhias asafo, nascida nas zonas rurais, foi a
Kwahu 17. Em 1915, agrupando gente comum de todas as regies do Kwahu, ela
reuniu-se em Abetifi, convocou o omanhene do Kwahu e o obrigou a assinar um
documento por ela preparado, que enunciava certo nmero de preceitos "regula-
mentando a vida poltica e econmica do Estado". Em 1917, o documento foi
oficialmente ratificado pelo Conselho de Estado de Kwahu e ficou conhecido
mais tarde como a Magna Carta.


17   SIMENSEN, 1974 e 1975b.
746                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



   Nos termos desse documento, os direitos e as multas impostos pelos chefes
tradicionais eram reduzidos e regulamentados. O Conselho de Okwahuman
tornava-se um organismo realmente representativo dos chefes e do povo e quem
no assistisse s sesses podia ser multado. Os regulamentos relativos s ativi-
dades socioeconmicas eram ainda mais interessantes e detalhados. O comrcio
de produtos alimentcios devia ser centralizado em certas cidades; estabelecia-se
uma lista detalhada dos preos do mercado e dos custos do comrcio; a exporta-
o de peixe e de gado de Kwahu era proibida e institua-se uma regulamentao
para o casamento, as responsabilidades familiares em caso de dvidas, enterros,
adultrio cometido pelos chefes etc. Como observava J. Simensen, "esta carta 
provavelmente o documento mais detalhado que possumos, desde o incio da
dominao colonial na Costa do Ouro, sobre os esforos do povo para reduzir
os poderes da elite tradicional e afirmar mais eficazmente sua prpria influncia
nos domnios jurdico e legislativo"18.
   O segundo mtodo ao qual recorreu a populao das zonas rurais foi a desti-
tuio (deposio) de seus chefes tradicionais, prtica que marcou a vida poltica
de todas as zonas rurais da Costa do Ouro (atual Gana) entre as duas guerras.
Entre 1910 e 1944, somente na regio de Akyem Abuakwa, houve pelo menos
35 destituies de chefes "divisionrios". As acusaes que lhes eram feitas varia-
vam entre abuso do poder, venda ilegal de terras, multas excessivas e execuo
de medidas decididas pela administrao colonial em matria de impostos e de
trabalho obrigatrio.
   As mais interessantes e significativas destituies foram as verificadas em
1932: nesse ano, todas as companhias asafo da regio de Akyem Abuakwa entra-
ram em acordo para depor os principais chefes e chegaram a lanar contra o
omanhene em pessoa, Nana Sir Ofori Atta, acusaes com vistas  sua destituio.
 interessante notar que essas acusaes dos asafo foram desencadeadas pela
deciso do Conselho de Estado de Akyem Abuakwa de aprovar a medida da
administrao do imposto indgena proposta pelas autoridades coloniais, confe-
rindo a esse Conselho o poder de tributar seus administrados. Como Simensen
demonstrou, a lista das acusaes feitas contra o omanhene revela "que a gente
do povo tomava cada vez mais conscincia de que muitos de seus problemas
provinham do fato de os chefes estarem sendo integrados na estrutura admi-
nistrativa do governo colonial, escapando assim ao poder do povo"19. A ao dos
asafo dirigia-se, portanto, contra a administrao colonial e, ao mesmo tempo,

18    SIMENSEN, 1975a, p. 37-8.
19    SIMENSEN, 1974.
Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935                         747



contra os chefes tradicionais.  sintomtico que s a oportuna interveno das
autoridades coloniais tenha podido salvar Ofori Atta, ainda que ele tenha cedido
a certas exigncias dos asafo ; por exemplo, admitindo trs membros da Akyem
Abuakwa Scholars Union no Conselho de Estado, em 1933.
    Outro mtodo empregado pelas populaes rurais consistia em suspender a
venda do cacau. Em 1921-1922, 1930-1931 e 1937-1938, plantadores de cacau,
sob a chefia de John Kwame Ayew e de John Tette-Ansah, ambos homens
instrudos, recusaram-se a vender seu produto enquanto no aumentassem os
preos20. Em 1937-1938, uma manifestao apoiada por alguns chefes tradicio-
nais, entre os quais o grande chefe de Akyem Abuakwa, Nana Sir Ofori Atta,
assumiu grande escala. Hopkins fala dela como "a ltima e a mais importante
manifestao do descontentamento rural antes da Segunda Guerra Mundial".
Tambm houve fatos semelhantes nas regies de Akyem Abuakwa, de Akuapem
e de Akyem Swedru.
    Das pesquisas efetuadas, fato notvel  at agora no ter havido conexo
formal entre movimentos urbanos e rurais, mas sim contatos individuais, como
aqueles entre J. B. Danquah e a gente do povo da regio de Akyem Abuakwa
e entre Kobina Sekyi, jurista e nacionalista de Cape Coast, e a populao de
Denkyira e de Abyan Anassa21.
    O caso da Costa do Ouro mostra, portanto, que as atividades polticas e o
nacionalismo do perodo entre as duas guerras se manifestavam no s nas reas
urbanas, mas tambm no interior, incluindo gente do povo e agricultores. Os
resultados de pesquisas realizadas em outros pases viro sem dvida confirmar
as concluses tiradas em Gana.

     Resultado das atividades nacionalistas na frica Ocidental Britnica
   Resta saber, ento, por que o movimento nacionalista na frica Ocidental Bri-
tnica teve uma influncia to limitada sobre o povo e os governos coloniais.
   A primeira resposta, e a mais importante,  que nunca nem o NCBWA
nem os movimentos da juventude tiveram base popular e no havia conexo
significativa entre atividades polticas urbanas e rurais. Os dirigentes polticos,
portanto, no podiam ser considerados pelas autoridades coloniais como repre-
sentativos das massas populares, estratgia seguida de fato por sir Hugh Clifford
e pelo Colonial Office. Clifford via nos dirigentes do NCBWA "um grupo de


20   HOPKINS, 1966b.
21   STONE, 1975.
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burgueses africanos escolhidos e nomeados por eles prprios, reclamando em
vo e equivocadamente constituies e regimes polticos inadequados e inapli-
cveis  frica".
    Em segundo lugar, malgrado todos os seus discursos, nem os dirigentes do
NCBWA nem os dos movimentos da juventude estavam dispostos a lanar mo
de mtodos radicais para atingir seus objetivos. Havia o costume de pensar que
um radicalismo poltico inteiramente novo se manifestara entre as duas guerras
na frica ocidental. Mas tanto os objetivos como os mtodos dos grupos e das
associaes nacionalistas mostram que, apesar das crises econmicas, a poltica
anticolonialista jamais assumiu moldes revolucionrios. Como se viu, a poltica
nacionalista do perodo entre as duas guerras deve ser considerada um fenmeno
de transio, durante o qual tanto os chefes tradicionais como as camadas cultas
tomaram parte em campanhas polticas. Esse perodo foi, ao mesmo tempo, para
certos dirigentes dos movimentos nacionalistas aps 1945, o de sua formao.
Houve tendncias mais radicais por volta de 1935,  verdade, mas, regra geral,
eram moderadas no quadro do regime colonial, em que a independncia poltica
no constava decididamente do programa.
    Em terceiro lugar, os repetidos conflitos em que se envolviam os dirigentes
desses movimentos prejudicavam sua ao. Em todas as colnias, havia conten-
ciosos dividindo conservadores e moderados, os quais por sua vez entravam em
atrito com a elite tradicional dos rgulos. A luta entre os dirigentes do NCBWA
e os da Aborigines Rights Protection Society (Sociedade de Proteo aos Direi-
tos dos Aborgines), por um lado, e entre os lderes de ambas as entidades e os
governantes tradicionais, por outro, estes encabeados por Nana Sir Ofori Atta,
na Costa do Ouro, enfraqueceu consideravelmente o movimento nacionalista
nesse pas. Da mesma forma, se a quarta sesso do NCBWA no se realizou em
Lagos antes de 1930, foi em grande parte por causa das dissenses internas, dos
conflitos de personalidades que dividiram a sucursal de Lagos, bem como da
oposio do Nigerian Pioneer, de sir Kitoyi Ajasa e dos conservadores de l.
    Em quarto lugar, parece que a limitada representao eletiva outorgada
entre 1923 e 1925 produziu o efeito de anestesiar politicamente os movimen-
tos nacionalistas.
    Finalmente,  indubitvel que a morte de Casely Hayford, em 1930, deu o
golpe de misericrdia nas atividades nacionalistas da frica Ocidental Britnica,
em geral, e da Costa do Ouro, em particular, durante os anos decorridos entre
as duas guerras.
    Por todas as razes apresentadas, a vida poltica e o nacionalismo na frica
Ocidental Britnica estavam em seu nvel mais baixo ao fim do perodo consi-
Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935                          749



derado, e seria necessrio a crise da Etipia, em 1935, assim como a Segunda Guerra
Mundial  de que se tratar no ltimo volume desta obra  para reativ-los.


     Atividades polticas na frica Ocidental Francesa
    Ainda h lacunas no conhecimento que temos das atividades polticas afri-
canas nas colnias da frica Ocidental Francesa entre as duas guerras. Parece,
contudo, ter havido, segundo as provas bastante incompletas de que dispomos
atualmente, uma falta relativa de atividade poltica, nessa parte da frica, da qual
cumpre buscar as causas na atitude mais restritiva da Frana quanto s iniciativas
e s organizaes polticas africanas, bem como na ausncia de uma imprensa
nativa vigorosa, comparvel s de Serra Leoa, Costa do Ouro e Nigria. No
entanto, as atividades polticas apresentavam, tal como no lado britnico, aspectos
locais e aspectos internacionais. De fato, como j demonstrei alhures22, o essencial
da atividade poltica dos africanos de expresso francesa desenrolou-se em Paris
entre 1924 e 1936, mas, como a maioria dessas formaes polticas africanas
tinha opinies avanadas e alinhava com as posies dos partidos polticos e
dos sindicatos franceses mais radicais, a influncia de suas campanhas antico-
lonialistas sobre as autoridades francesas permaneceu limitada. Vale citar entre
essas organizaes a Ligue Universelle pour la Dfense de la Race Noire (Liga
Universal para a Defesa da Raa Negra), fundada em Paris em 1924 por um
jurista nacionalista do Daom, o prncipe Kojo Tovalou Hounou. Esse movi-
mento fazia campanha contra as condies reinantes no Daom (atual Benin)
e nas colnias francesas em geral, mantendo estreitas relaes com a Universal
Negro Improvement Association (UNIA), movimento de Marcus Garvey nos
Estados Unidos. O Comit de la Dfense de la Race Ngre (Comit da Defesa
da Raa Negra), que sucedeu a liga de Hounou, tinha  sua frente um ministro
comunista senegals, Lamine Senghor, que exerceu suas funes at a morte,
em 1927. O comit foi ento rebatizado como Ligue de la Dfense de la Race
Ngre, encabeado por outro africano ocidental de lngua francesa, um sudans
tambm marxista, Timoho Garan-Kouyat.
    Por interessantes que fossem, esses movimentos no tiveram atividade na
frica ocidental, muito embora  como veremos adiante  algumas de suas
publicaes anticolonialistas, assim como as de seus aliados franceses de
esquerda, penetrassem em certas colnias da frica Ocidental Francesa. Da

22   Para maiores detalhes, ver LANGLEY, 1973, p. 286-325.
750                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



mesma forma, organizaes humanitrias francesas, como a Liga dos Direitos
do Homem (semelhante  Anti-Slavery Society dos ingleses), tinham sees em
algumas colnias francesas e, como no havia praticamente nenhuma atividade
poltica organizada na frica, os africanos as utilizavam como instrumentos de
protesto contra a administrao colonial.

      Poltica e nacionalismo no Senegal
   Entre as colnias da frica Ocidental Francesa em que os africanos desen-
volveram uma certa atividade poltica no perodo entre as duas guerras, o Sene-
gal e o Oaom so sem dvida as mais interessantes. No Senegal as quatro
communes j elegiam deputados  Assembleia Nacional da Frana desde o sculo
XIX. Se bem que os africanos das reas urbanas fossem considerados cidados
em virtude do decreto de 1833, eles foram representados por deputados mtis
ou crioulos at 1914, ano em que Blaise Diagne se tornou o primeiro deputado
negro do Senegal. Diagne representou o Senegal na Assembleia Nacional de
1914 a 1934, tendo sido alto-comissrio das tropas africanas durante a Pri-
meira Guerra Mundial e presidente da Comisso das Colnias na Assembleia
Nacional. Desempenhou um papel decisivo na convocao do Congresso Pan-
-Africano em Paris, no ano de 1919, mas rompeu em seguida com os dirigentes
negros americanos do movimento23.
   Diagne foi igualmente o primeiro poltico senegals a fundar uma organi-
zao poltica, o Partido Socialista Republicano, que ele criou em 1914 para
unificar os diferentes grupos tnicos que viviam em Dacar e em Saint-Louis.
Depois de ter estado ausente do Senegal por quase vinte anos, apresentou sua
candidatura em 1914, no momento em que os senegaleses comeavam a afluir
s reas urbanas e se desenvolvia a economia do amendoim. Foi igualmente
a poca em que, enquanto os chefes tradicionais cediam terreno, os marabus
(dirigentes de ordens islmicas) comearam a formar uma nova fora poltica e
social nas reas rurais. Os jovens senegaleses que viviam nas cidades, empregados
de escritrio e professores, tambm comeavam a se agitar.
   Pertenciam  organizao dos Jeunes Sngalais ( Jovens Senegaleses),
que debatiam a cultura e a poltica, reclamavam a criao de novos empregos,
aumento de salrio e a possibilidade de prosseguir na carreira acadmica. Essa


23    Para uma viso global da interao das polticas francesa e senegalesa, entre 1917 e 1940, bem como
      para maiores detalhes sobre a carreira de Blaise Diagne, ver JOHNSON, G. W., 1966; HODGKIN,
      1954; CROWDER, 1962; BOULEGUE, 1965.
                                                                                                                                                            Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935
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figura 25.4 Blaise Diagne (1872-1934), primeiro deputado africano eleito para a Assembleia Nacional da Frana, saudando seus partidrios aps as eleies
de maio de 1914, em Dacar. (Foto: Keystone Press Agency.)
752                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



organizao foi rebatizada mais tarde com o nome de Partides Jeunes Sngalais
(Partido dos Jovens Senegaleses) e publicou uma revista, La Democratie, partici-
pando das eleies de 1914, mas sem condies de apresentar um candidato.
    Blaise Diagne, em 1914, conseguiu obter o apoio dos grandes marabus das
reas urbanas, bem como o patrocnio poltico dos Jeunes Sngalais e de alguns
franceses de ideias liberais. Embora fosse de origem serer, apelou para outros
grupos tnicos de Dacar e de Saint-Louis, tais como os Lebu e os Wolof. Na
verdade, a lngua wolof foi muito usada em sua campanha eleitoral. Em vez de
apelar para a raa, falava da representao poltica dos negros do Senegal e do
despertar poltico dos africanos, preconizando uma "evoluo racional e no uma
revoluo brutal" nas colnias 24. Durante toda a campanha, insistiu na necessi-
dade de manter o direito  cidadania e o direito de voto dos africanos nas quatro
communes, enquanto seus adversrios europeus e mestios (que dominavam a
vida poltica das comunas desde 1900 e consideravam os crculos eleitorais feu-
dos pessoais ou familiares) no levavam praticamente em conta esse problema
e rejeitavam Diagne, no qual viam um candidato de pouco peso. Na realidade,
no incio at alguns africanos se opuseram a ele, especialmente os Lebu.
    No entanto, Diagne no s fez campanha pelos direitos eleitorais dos africa-
nos como tambm defendeu o reconhecimento oficial do direito e dos costumes
cornicos. Reclamava igualmente concesses comerciais mais importantes para
os africanos, a criao de um conselho colonial para administrar as finanas das
colnias francesas, a fundao de uma escola de medicina em Dacar, o direito
de organizar sindicatos e a indenizao dos Lebu pelas terras das quais tinham
sido desapossados pela conquista militar francesa. Graas essencialmente 
sua enrgica campanha, ao voto secreto e ao apoio poltico que lhe deram os
grupos muulmanos das zonas rurais, ele saiu vitorioso das eleies de 1914,
tornando-se o primeiro africano a ser eleito para a Assembleia Nacional fran-
cesa, em julho de 1914. Sua vitria eleitoral foi em si mesma uma revoluo na
participao e organizao dos africanos em matria de poltica senegalesa. Os
eleitores negros j representavam um importante fator poltico e no mais um
instrumento eleitoral dcil nas mos dos colonos e dos mulatos.
    Blaise Diagne no reivindicava a independncia para o Senegal, mas a igual-
dade e a dignidade do homem africano e a direo da administrao e das
instituies municipais pelos africanos senegaleses. At sua morte, em 1934,
permaneceu fiel a seu programa de evoluo (diagnisme). N'Galandou Diouf,


24    Apud JOHNSON, G. W., 1966, p. 246.
Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935                         753



que lhe sucedeu, tambm aderiu a essa linha poltica, malgrado a atitude dos
intelectuais de esquerda mencionados antes, que julgavam o Blaise Diagne das
dcadas de 1920 e 1930 um conservador e at um antiafricano. Seja como for,
ao provocar o despertar poltico do Senegal, ele preparou o terreno para a ao
poltica e o nacionalismo das dcadas de 1940 e 1950.

     Poltica e nacionalismo no Daom
    No Daom, pondo de lado os protestos normais dos africanos por meio da
seo local da Liga dos Direitos do Homem, que talvez fosse a nica forma
permitida de atividade "poltica", a "poltica" reduzia-se no essencial a conflitos
dentro dos grupos religiosos e  interao destes com as lutas pelo poder e as
disputas sucessrias no seio das tribos. Em parte, esses conflitos esto na origem
dos problemas que explodiram em Porto Novo no ano de 1923. No entanto, em
face de sua educao e de sua socializao, os membros da intelligentsia africana
no se imiscuram necessariamente em tais lutas pelo poder e no se determina-
vam necessariamente em funo de critrios tnicos. Louis Hunkanrin 25 foi o
mais importante militante daomiano deste perodo. Participou das lutas polticas
pela direo dos cls (apoiou a faco Sognigbe da comunidade muulmana de
Porto Novo contra o grupo de muulmanos Yoruba chefiado por Jos Paraso),
enquanto tomava parte nas campanhas anticolonialistas. Hunkanrin fez seus
estudos no Senegal, trabalhou algum tempo no Daom e voltou para o Senegal
em 1913. Publicou em jornais franceses e senegaleses artigos criticando a m
administrao colonial no Daom e ajudou Blaise Diagne na campanha eleitoral
de 1914. Graas a este, arranjou emprego em Paris, mas foi reconduzido para o
Daom em 1921 devido s suas ligaes com os grupos polticos de esquerda da
capital francesa. Durante a permanncia em Paris, lanou um jornal, Le Messa-
ger Dahomen, onde condenava os abusos do colonialismo no Daom. O jornal,
depois, tornou-se o rgo da Union Intercoloniale (Unio Intercolonial), cuja
revista pr-comunista Le Paris foi por algum tempo dirigida pelo revolucionrio
vietnamita Ho Chi Minh. Foi por intermdio desses grupos de esquerda que
La Ligue de Paris, de Touvalou Hounou, e o Negro World, de Marcus Garvey,
comearam a penetrar no Daom.
    De volta ao Daom, Hunkanrin reanimou a seo local da Liga dos Direi-
tos do Homem e uma seo do Comit Franco-Muulmano. Graas a colegas
filiados em sees locais, os jornais de esquerda e comunistas da Frana e dos


25   CROWDER e JOHNSON, 1974, p. 511, 565-7.
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Estados Unidos penetraram nos meios intelectuais daomianos, e peties e
queixas contra a administrao local foram remetidas a Paris. No Gabo, havia
um grupo semelhante desde 1919. Laurent Antchouey, jovem gabons que
havia estudado no Senegal, reativou uma seo da Liga em Libreville, no ano
de 1925, ao voltar da Frana, onde tinha dirigido duas revistas, L`cho Gabonais
e La Voix Africaine.
    Em fevereiro-maro de 1923, devido em parte ao aumento dos impostos,
 queda do preo da polpa de coco, aps as crises econmicas de 1919 e de
1920-1921,  inflao e  escassez de moeda metlica, os trabalhadores das
empresas privadas entraram em greve, sendo realizados comcios pelos amigos
de Hunkanrin, membros do Comit Franco-Muulmano e da Liga26. Foi pre-
ciso convocar o exrcito para dispersar as manifestaes, e os africanos reagi-
ram organizando um movimento de resistncia passiva que durou desde 13 de
fevereiro at os primeiros dias de maro. Estalaram greves tambm em Ouidah.
Alguns chefes tradicionais at exigiram a seus confrades que se opusessem aos
novos impostos. A administrao colonial reagiu mandando prender os orga-
nizadores da resistncia, chamando unidades do Togo e da Costa do Marfim, e
decretando o estado de emergncia, que foi mantido at junho de 1923. A priso
e expulso de quase todos os dirigentes do movimento de contestao, entre os
quais Hunkanrin, ps fim  agitao nacionalista no Daom, aps o que o pas
conheceu, como os outros territrios da frica Ocidental Francesa, um perodo
de tranquilidade poltica.
    Durante esse perodo, a principal diferena entre nacionalistas conservadores
e nacionalistas de esquerda da frica Ocidental Francesa (sendo os primeiros
majoritrios, sem dvida) residia no fato de que os conservadores, sob a orien-
tao de Blaise Diagne, se contentavam com a "representao simblica" e com
a evoluo progressiva dos sditos coloniais da Frana, com "evoludos" sele-
cionados representando a populao africana, ao passo que Kouyat, Senghor,
Hounou e os raros intelectuais africanos de esquerda, que esperavam mudanas
mais importantes nas colnias aps a Primeira Guerra Mundial, reclamavam
uma representao africana significativamente maior por intermdio de grupos
polticos de esquerda capazes de se fazerem ouvir e de exercerem sua atividade
tanto na Frana como nas colnias. Estes ltimos tambm reclamavam o direito
de criao de sindicatos nas colnias e certo grau de autonomia no quadro do
imprio colonial francs. Somente quando as esperanas da esquerda se viram


26    BALLARD, 1965; BUELL, 1928, v. II, p. 16-7.
Poltica e nacionalismo na frica ocidental, 1919-1935                        755



definitivamente sepultadas por Blaise Diagne e pelas autoridades francesas 
que eles vieram a assumir a autonomia e a independncia poltica como obje-
tivos. No foi este o trao dominante da evoluo poltica geral dos territrios
da frica Ocidental Francesa, e no surpreende que essa atividade da esquerda
tivesse vida curta e que a poltica colonial nessa parte da frica tenha adotado o
estilo e as concepes de Blaise Diagne e de N'Galandou Diouf at as reformas
constitucionais do perodo que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial.
    Pondo de lado as manifestaes e os tumultos de Porto Novo, em 1923,
provocados pela rivalidade entre muulmanos e faces apoiadas pelo governo
entre os agrupamentos tradicionais, pela imposio de taxas e pela deteriorao
do comrcio da polpa de coco, que foram explorados por um grupo de intelec-
tuais nacionalistas, os movimentos nacionalistas organizados segundo o modelo
do NCBWA ou do Partido Democrtico Nacional da Nigria, de Herbert
Macaulay, tiveram um papel pouco relevante na frica Ocidental Francesa no
decorrer do perodo.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                    757



                                        CAPTULO 26


                   Poltica e o nacionalismo na
                   frica oriental, 1919-1935
                               Elisha Stephen Atieno-Odhiambo




    A palavra kiswahili siasa abrange as noes contidas nos dois vocbulos
principais do ttulo deste captulo. Siasa significa ao mesmo tempo oposio,
reivindicao, agitao e ao militante. Compreende aes desenvolvidas por
grupos organizados assim como iniciativas espontneas de indivduos cora-
josos. Os agentes da siasa so os Wanasiasa (singular: mwanasiasa). Mas, para
as autoridades coloniais britnicas, siasa era sinnimo de "agitao" e Wanasiasa,
de "agitadores". Essa aparente simplicidade da interpretao britnica dissimula,
contudo, nveis de organizao e preocupaes bem diferentes. Estudos recentes1
chamaram utilmente a ateno para os diversos nveis de preocupao e, portanto,
para os diversos tipos de atividade dos Wanasiasa. Essa classificao representa um
progresso em relao  definio histrica anterior de John Lonsdale2, para quem
a poltica na frica oriental entre as duas guerras se caracterizava principalmente
por uma ao de natureza local (ver fig. 26.1).
    Com efeito, tendo por assente que o terreno da atividade poltica era o das
reivindicaes locais das massas e de certos indivduos sados de suas fileiras, os
espaos de articulao dessas reivindicaes variavam: desde a baraza dos chefes,
nas reservas, at os servios do ministrio das colnias, em Londres; e tambm


1    D. A. LOW e J. M. LONSDALE, in D. A. SMITH (org.), 1976, p. 40-48.
2    LONSDALE, 1968a.
758                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 26.1   Poltica e nacionalismo na frica oriental, 1919-1935.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                       759



desde a manifestao poltica autorizada at os comcios provocadores sobre as
colinas e os treinamentos blicos nas florestas. Assim, um problema local podia
ser apresentado simultaneamente em dois nveis ou mais, sendo escolhido para
interveno aquele que parecesse aos articuladores, no momento considerado, o
mais sensvel s presses. A siasa representa, portanto, uma conscincia coletiva
dos malefcios do sistema colonial em dado lugar e momento. O termo abrange
ao mesmo tempo a conscincia de cls, de nacionalidades e de classes sociais.
As atividades polticas a que se dedica este captulo embasavam-se, portanto,
numa conscincia de grupo concreta. Eram atividades de massa. Cada movi-
mento exigia um chefe, mas eram as massas que o formavam, sendo os dirigentes
apenas a vanguarda. Na sequncia deste captulo ter-se- em mente que cada
movimento e cada dirigente tinha as massas atrs de si3. E, de acordo com o
nvel e o terreno de interveno escolhidos, algumas dessas atividades foram
mais tarde classificadas como manifestaes de nacionalismo.


    Movimentos de protesto religioso
    A religio  uma das armas que os africanos orientais empregaram desde
o incio na luta contra o colonialismo. A resistncia supunha uma mobilizao
e, em numerosas regies, foram os chefes religiosos que assumiram esse papel.
A era da primeira resistncia foi tambm a dos profetas. Os africanos perdiam
guerras nos campos de batalha, mas o esprito de resistncia permanecia entra-
nhado no corao das multides. Os partidrios do Orkoiyot, no pas Nandi,
permaneceram ativos e vigilantes, e os Nandi foram muitas vezes mobiliza-
dos por esses chefes profticos para resistirem incansavelmente aos abusos do
colonialismo4. Da mesma forma, os arquivos coloniais do Qunia esto cheios
de referncias a curandeiros e laibons criadores de problemas em Marakwet,
Samburu e na regio de Kericho. No oeste de Uganda, os adeptos do culto
nyabingi, da regio de Kigezi, eram constantemente vigiados. Esses movimentos
tradicionais de resistncia religiosa asseguravam a continuidade com a poca
precedente. Mas no incio da segunda dcada assistiu-se  consolidao do colo-
nialismo. Para muita gente, pareceu que o pior dos males se havia abatido sobre
a terra. As foras coloniais se firmaram no pas, reestruturaram ou destruram
suas instituies sociais e polticas para impor suas prprias estruturas a esses


3    Ibid.
4    ARAP MAGUT, 1969.
760                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



povos. Os africanos colonizados precisavam se revigorar espiritualmente para
se lanar contra o colonialismo sob todas as suas formas. Foi a essa necessidade
espiritual que acorreram em resposta o aparecimento de uma nova gerao de
profetas africanos e a criao de igrejas africanas independentes, paralelas s
igrejas crists europeias, destinadas a proporcionar um local "prprio" de culto
para os numerosos africanos que se haviam convertido ao cristianismo, mas
achavam intolervel a tutela dos missionrios5.
    De certa forma negligenciados pelos historiadores, os profetas africanos
desempenharam todavia um papel aprecivel em aliviar seus adeptos das ten-
ses que o colonialismo havia introduzido no tecido colonial. Essas inovaes
religiosas eram movimentos de protesto. Iniciada na segunda dcada do sculo
XX, a atividade dos profetas iria prosseguir ao longo das duas dcadas seguin-
tes, para ampliar-se mais aps a Segunda Guerra Mundial. Dois estudos, um
sobre os Kamba e o outro sobre os Abagusii, do ideia do que representou esse
movimento.
    Os Kamba tinham entrado em contato com os colonizadores desde o comeo
do sculo XIX, por intermdio de seus comerciantes, que se deslocavam at a
costa6. Os missionrios, na esteira dos colonizadores, chegaram depois de 1840,
intensificando os esforos de evangelizao entre o final do sculo XIX e o incio
do XX. Mas tanto o cristianismo como o islamismo pouco marcaram a massa
dos Kamba. O que os afetou profundamente foi o colonialismo enquanto fora
poltica e econmica. Durante os 20 primeiros anos do sculo XX, a situao
colonial gerou um sentimento geral de espoliao e de frustrao entre as mas-
sas dos Kamba: as autoridades coloniais haviam de fato tratado de se apropriar
de seus recursos financeiros mediante impostos, de suas terras e de sua mo de
obra, por meio de chefes por elas nomeados, os quais pouco se interessavam pela
autoridade tradicional.
    As instituies sociais pr-capitalistas, encarregadas de solucionar os confli-
tos, j no estavam em condies de conter esses chefes e sua polcia. Cada vez
mais decepcionadas, as massas voltaram-se para as seitas religiosas, para que as
ajudassem e protestassem em seu nome. Essas seitas, que se fundamentavam
nos profetas, floresceram entre 1910 e 1922. Um culto muito disseminado,
Kathambi ou Ngai, surgira no distrito de Machakos entre 1910 e 1911, predi-
zendo o iminente advento de um milnio. Durante algum tempo, os dirigentes
religiosos inquietaram as autoridades britnicas, que reagiram com reformas

5     WELBOURN e OGOT, 1966.
6     MUNRO, 1975 .
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                       761



do sistema poltico. Mas estas foram consideradas insuficientes e, embora a
grande onda milenarista viesse a perder o flego, permaneceram na sociedade
kamba os elementos hostis  dominao colonial. A incorporao obrigatria
dos Kamba durante a Primeira Guerra Mundial e o fato de a administrao
colonial demonstrar geralmente ser incapaz de solucionar os numerosos proble-
mas sociais e econmicos colocados s massas aps a guerra fizeram aumentar
as fileiras dos que estavam prontos a responder ao apelo dos milenaristas para
pr fim s tenses sociais.
    O apelo veio de Ndonye wa Kauti, que comeou a pregar uma mensagem
proftica  populao de Kilungu, no distrito de Machakos, no incio do ano
de 1922. Seu movimento ganhou amplitude devido s repercusses locais da
crise econmica mundial de 1920-1921, com a dificuldade cada vez maior dos
Kamba para arranjar o dinheiro dos impostos. Alm disso, enquanto baixava o
preo de seus excedentes de produo, os encargos fiscais passavam de trs para
oito rpias por habitante, em 1920. As reformas monetrias de 1921-1922, que
impuseram sucessivamente o florim de papel e depois a moeda de um xelim
como unidade monetria, fizeram com que perdessem dinheiro nas vendas 
vista. Em corolrio, as colheitas foram dizimadas pela seca e a oferta de emprego
no era suficiente para absorver o excedente de mo de obra masculina. Foi
nessa situao de escassez que Ndonye wa Kauti anunciou um milnio e uma
soluo messinica para a penria monetria. Dizia-se profeta, afirmava que
podia prever a chuva, convidava as mulheres  sua casa para danar o kilumi
(dana ritual). Tambm declarava que Deus, Ngai, lhe aparecera em sonhos e
lhe havia anunciado que ele, Ndonye, fora escolhido para preparar o povo para
o advento prximo de uma nova era. Na aurora dessa nova era, os europeus
seriam expulsos, a terra se tornaria to boa como era antes do colonialismo, a
gua cairia em abundncia e no haveria mais impostos. Quando tivesse edi-
ficado o santurio que Deus lhe recomendara, ele lhe enviaria livros, roupas,
fuzis e uma linha telegrfica. Esta ltima, profetizava Ndonye, seria um meio
de comunicao entre os Kamba. Quando tivesse recebido todos esses dons de
Deus, tomaria conta por completo do conjunto do pas. No teve tempo para
isso, pois o comissrio do distrito mandou prend-lo antes de terminado o
santurio e deportou-o para Siyu, ilha da costa queniana. Ndonye nunca mais
voltou: como muitos outros militantes que o antecederam e sucederam, morreu
no exlio. A seita no sobreviveu  sua partida: tanto neste movimento como
nos outros, o papel mobilizador do animador era essencial.
    O mumbosmo, contemporneo do profetismo de Ndonye wa Kauti, muito
mais duradouro, foi menos fcil de eliminar. Nasceu do ressentimento comum
762                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



que os Luo e os Abagusii nutriam em relao  autoridade colonial desde as
guerras de ocupao travadas pelos britnicos contra os Abagusii em 1904 e
1908 e contra os Luos de Alego em 1908-19107. O ressentimento acentuou-se
depois que os britnicos obrigaram essas populaes a fornecer-lhes mo de obra
para a construo de estradas e para as lavouras dos colonos. A isso juntou-se o
odioso imposto sobre as habitaes, que pesava fortemente sobre os polgamos,
bem como o paternalismo dos missionrios, que alimentava mais o desconten-
tamento. Como no Ukambani, os Abagusii comearam a apelar para novas cate-
gorias de pensamento, capazes de oferecer a perspectiva de um futuro melhor.
Foi o que lhes trouxe o mumbosmo luo, culto tradicional do esprito do lago,
que havia atingido o apogeu no sculo XIX e ganhou seu segundo alento ao
se tornar um movimento poltico de resistncia ao homem branco, na segunda
dcada do sculo XX. Em 1913, o deus Mumbo apareceu a um certo Onyango
Dunde, do cl Seje do pas Alego, e lhe disse:
      Eu te escolhi para seres meu porta-voz. Vai dizer a todos os africanos  e espe-
      cialmente aos Alego  que de agora em diante serei o Deus deles. Aqueles a quem
      escolhi pessoalmente e que me reconhecem vivero para sempre na abundncia. Suas
      culturas crescero sozinhas e eles no tero mais necessidade de trabalhar. Para quem
      cr em mim, farei surgir do lago manadas de vacas, carneiros e cabras, mas todos
      os infiis tero suas famlias e seu gado mortos. A religio crist, que obriga seus
      adeptos a vestir roupas, no passa de podrido. Meus fiis devem deixar crescer o
      cabelo e jamais banhar-se. Todos os europeus so vossos inimigos, mas est prxima
      a hora de sua partida.
    Como no caso de Ukambani, o profeta condenava os europeus e rejeitava
seu modo de vida. A brevidade da mensagem e, sobretudo, a mescla feliz de
adeso renovada  religio tradicional e de sensibilidade  atualidade poltica
explicam que o movimento se tenha propagado muito rapidamente desde o
pas dos Alego, no distrito de Siaya, at o sul da provncia de Nianza, e fosse
manifestar-se entre os Kisii em 1914, por intermdio de outro profeta luo, Mosi
wuod Auma, que prometia a "cura de todos os males" e previa que "todos os
homens brancos deixaro em breve o pas kisii, depois do que os africanos viriam
a possuir suas terras em paz".
    O anncio da partida prxima dos brancos tomou uma ressonncia impre-
vista em 1914, quando os alemes atacaram o forte ingls de Kisii. Os africanos
viram nisso uma realizao da profecia e aderiram  pilhagem dos centros colo-

7     LONSOALE, 1977.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                         763



niais e missionrios do distrito. A represso, que no poderia faltar, foi brutal, e
cerca de 150 Abagusii foram mortos quando os britnicos trataram de sufocar
a revolta. No entanto, os adeptos do culto no desanimaram e continuaram
com suas atividades no perodo entre guerras, apesar das frequentes prises e
da possvel deportao de seus chefes. E, em se implantando mais profunda-
mente, o culto de Mumbo se confundiu entre os Abagusii com o culto local de
Sakawa. Este ltimo era um profeta Abagusii do sculo XIX, cujo retorno fora
previsto pelos adivinhos desse povo para meados do ano de 1921. Uma profetisa,
Bonairiri, tratou de organizar os Abagusii a fim de os preparar para esse retorno.
A administrao colonial reagiu, promulgando a Abuse of Opiate Ordinance
(Lei sobre o Abuso de Narcticos), no intuito de abafar o movimento. Apesar
de tudo, os fiis de Bonairiri continuaram a pregar tanto o sakawasmo como o
mumbosmo em 1921-1922. Combatidos pela administrao colonial, os dois
movimentos persistiram entre os Abagusii durante todo o perodo. Perseguidos,
deportados, proibidos no distrito, os mumbostas continuaram a pregar sua f e
a cantar este refro subversivo:
                                              Sabaye Laesi, Sabaye
                                           Wuriande you are going
                                            George you are going
                                            Sabaye Laesi, Sabaye8
   Como sabemos, porm, "George" (o homem branco) no partiu, e o reinado
de Mumbo jamais aconteceu. No entanto, o esprito de resistncia nunca foi
esmagado. Secretamente mantido, haveria de reaparecer na dcada de 1950 para
atormentar uma vez mais a administrao britnica na regio dos Abagusii.
   O outro aspecto igualmente importante da reao religiosa foi a criao de
igrejas crists independentes. Conforme vimos nos captulos 12 e 20, algumas
delas desempenharam o papel de movimentos de protesto contra o paternalismo
europeu das igrejas missionrias, mas todas queriam super-las, para oferecer
solues que julgavam adaptadas s necessidades dos fiis. Apesar dessa comu-
nidade de propsitos, elas apresentaram durante esse perodo, na frica oriental,
formas muito diversas que cumpre distinguir.
   Havia igrejas "etopes", no sentido de emprestar nfase  como j observava K.
Asare Opoku   situao dos prprios africanos e aos direitos polticos. Outras
pertenciam  escola "sionista", com acento na posse pelo Esprito Santo, na cura
das doenas e nas profecias. Alm disso, havia entre as igrejas independentes

8    OGOT e OCHIENG, 1972, p. 173.
764                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



diferenas de doutrina, de rito, de organizao e de aspiraes. Essas diferenas
surgiram no decorrer dos acontecimentos que desembocaram na independncia.
    A primeira igreja africana independente da regio, a Nomiya Luo Church9,
fundada em 1910 por John Owalo, antigo aluno da Church Missionary Society,
convertido primeiro ao islamismo e depois ao catolicismo romano, j foi estu-
dada no captulo 7 deste volume. Lembremo-nos de que ele teve uma viso na
qual fora transportado aos Cus. Eis o que ele conta a respeito:
       um lugar magnfico, onde todos os povos da terra queriam entrar, mas os anjos
      fecharam a porta. Quando todos os homens foram reunidos, os anjos fizeram entrar
      primeiro os judeus e depois os rabes. Deixaram ento entrar juntos John Owala, o
      arcanjo Gabriel e o arcanjo Rafael. Os homens brancos tentaram segui-las, mas os
      anjos fecharam a porta no nariz deles e os expulsaram a pontaps.
   A viso celeste de Owalo, alm de nitidamente dirigida contra os brancos,
representava em parte a sntese de suas diversas experincias religiosas e de seus
variados antecedentes. Essa sntese foi integrada ao ritual de sua nova igreja,
que prescrevia a seus fiis, cada vez mais numerosos, a prtica da circunciso e a
observao dos Dez Mandamentos, proibindo-lhes fumar, beber cerveja e danar.
Na realidade, como dizia Ogot10, Owalo no rejeitava as religies estrangeiras 
queria simplesmente que os africanos as adequassem  sua maneira de ser.
   A mensagem da Watch Tower Church (Igreja da Torre de Vigia), difun-
dida entre os africanos da frica central e do sul de Tanganica (atual Tanznia)
durante e aps a Primeira Guerra Mundial, era igualmente sedutora: o mundo
atual estava vivendo sua ltima hora; os grandes imprios e os pases europeus
eram instrumentos de Satans, tal qual as igrejas tradicionais. Tudo isso tinha
de ser destrudo em um ltimo e grande combate. A terra pertenceria ento aos
verdadeiros crentes. Essa igreja no teve dificuldade em penetrar na Rodsia do
Norte (atual Zmbia), onde Hanoc Sindano pregava, desde 1917, contra a autori-
dade dos chefes nomeados pela potncia colonial, dos administradores coloniais e
dos missionrios. Em 1919, o movimento tinha ganho Tanganica e se implantara
notavelmente nas regies de Kasanga, de Mambwe, de Ufipa e de Mbozi. A crise
veio em 1923, quando os britnicos acusaram seus dirigentes de difamar as igrejas
missionrias, detendo e encarcerando 17 homens. No obstante, a Watch Tower
Church conservou seus fiis e continuou a expandir-se durante todo o perodo
colonial. Era uma religio de massas, como o mumbosmo.

9     Ver o captulo 7 deste volume e, ainda, ODINGA, 1967, p. 68-9; OGOT, 1974b, p. 262-3.
10    OGOT, 1974b, p. 262-3.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                                    765




figura 26.2 O reverendo Alfayo Odongo Mango Ka Konya, fundador da Joroho Church entre os Luo em
1932. (Foto: East African Publishing House Ltd., Nairbi.)
766                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



    O movimento tinha em vista solucionar os problemas das populaes rurais
colonizadas. Rejeitava a autoridade dos chefes, dos missionrios e dos funcio-
nrios britnicos e criava novas aldeias para seus adeptos, com a finalidade de
integr-los em sociedades onde se sentissem  vontade. Tal como a Nomiya
Church, a Watch Tower Church procurava criar sociedades completas e ss,
para substituir as que o colonialismo destrura.
    Outras igrejas tinham uma viso mais restrita, cada qual perseguindo um obje-
tivo nico. Assim, a African National Church, que se desenvolveu no distrito de
Rungwe, em Tanganica, de 1930 em diante, era uma igreja crist especialmente des-
tinada aos crentes que, por causa da sua poligamia, tinham sido excludos das igrejas
missionrias ou tiveram seu acesso a elas recusado11. Da mesma forma, a Dini ya
Roho (Igreja do Esprito Santo) foi fundada em 1927 entre os Abaluyia, no Qunia,
por dissidentes da Friends African Mission 12. Seus adeptos insistiam no fato de
que, para ser verdadeiramente cristo, era preciso aceitar o "batismo pelo Esprito
Santo", o dom das lnguas e a livre confisso dos pecados. A importncia atribuda
ao batismo pelo Esprito Santo tambm caracterizava a Joroho Church (Igreja do
Esprito Santo), fundada por Alfayo Odongo Mango13 (ver fig. 26.2) entre os Luo,
em 1932. Ainda que fundada originariamente para assimilar uma queixa precisa,
cada uma dessas religies viria depois a elaborar a sua doutrina, ritos e organizao,
sob a inspirao das circunstncias e de sua prpria experincia histrica.
    Embora frequentemente considerados pelas autoridades coloniais simples "rea-
es impulsivas de negao"14, esses movimentos religiosos de protesto atestavam o
vigor e a vitalidade do esprito africano e lanaram as bases para futuros movimentos
de massa nacionalistas. No  muito comum dar-lhes lugar nos anais do naciona-
lismo, mas nem por isso eles deixam de constituir, por assim dizer, os "tios legtimos"
do nacionalismo africano. E a base do apoio deles era o povo, as massas rurais.


      As associaes de "jovens"
  s elites educadas, asomi ou josomo, atribuem os trabalhos histricos recentes
um lugar de primeiro plano na evoluo poltica africana desse perodo15. Esse


11    RANGER, s.d., p. 16-20.
12    ODINGA, 1967, p. 69.
13    OGOT, 1971.
14    COLEMAN, apud LONSDALE, 1968b, p. 12.
15    KARANI, 1974; KIPKORIR, 1969; McGREGOR, 1967; KIMAMBO e TEMU, 1969, captulo VI.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                       767



grupo novo, que no contava praticamente com nenhuma mulher, compreendia
alguns ex-alunos das escolas missionrias, como as de Maseno, Budo, Thogoto
e Zanzibar, que se haviam tornado professores, catequistas, empregados e arte-
sos. Opondo-se aos chefes nomeados pelos colonizadores e  administrao
local, organizaram associaes contestatrias de "jovens" para levar adiante suas
campanhas polticas. As associaes eram, portanto, movimentos de massa. A
primeira foi a Young Baganda Association, que lutou com muita eficcia con-
tra os chefes e o kabaka de Buganda. A Young Kavironde Association tambm
desempenhou um papel ativo junto dos camponeses da provncia de Nianza.
Da mesma forma, a Kikuyu Central Association deu prova de notvel perse-
verana e esprito de organizao durante esses anos. Vejamos agora qual foi a
sorte delas.
    Tomemos o exemplo da Young Baganda Association, que surgiu em conse-
quncia das tenses que abalavam ento as bases da sociedade ganda. De modo
geral, a competio poltica era muito intensa em Buganda, nas trs primeiras
dcadas do sculo atual, o que se explica por vrios fatores. O primeiro foi um
instrumento jurdico, obra dos colonizadores britnicos e dos chefes baganda
protestantes, o Buganda Agreement, de 1900. Esse acordo, cujos aspectos econ-
micos j foram examinados no captulo 7, regia principalmente as relaes entre
os britnicos e a classe dirigente baganda. Dava a Buganda maior autonomia
do que s outras regies da frica oriental e garantia-lhe a segurana externa.
Assim, a atividade poltica voltou-se para o interior, e os problemas levanta-
dos eram os que tinham interesse e consequncias diretas para a sociedade
ganda. Os chefes constituam o elemento motor dessa atividade. Beneficirios
do acordo e tendo recebido terras importantes a ttulo pessoal e oficial, esses
suseranos iriam ser o alvo principal das crticas formuladas pelos chefes de cl
(os bataka tradicionais), pelos camponeses (bakopi) e pelos "jovens". De todos
os beneficirios do acordo, o kabaka de Buganda era o mais favorecido, motivo
por que os "jovens" no lhe poupavam crticas, contestando-o verbalmente e por
escrito. Efetivamente havia matria para dissenso no reino, pois o acordo e suas
consequncias, a criao de novas classes sociais, descontentaram numerosos
grupos  os muulmanos, os catlicos, os bataka e os bakopi. O comportamento
dos novos chefes deixava muito a desejar. Depois de 1918, tornaram-se cada
vez mais impopulares. Funcionrios coloniais, e no chefes tradicionais, eles
facilmente se dispunham a ignorar as relaes protetor-protegido existentes no
Buganda feudal, para favorecer seus novos senhores. Alm disso, como agentes
do imperialismo, eram encarados como intermedirios de mudanas indesejveis
e de interferncias no modo de vida ancestral. Foi desse modo que receberam
768                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



o encargo de colocar em vigor regulamentos de sade e de higiene impopulares
entre os camponeses. Os membros da elite educada  ocidental, que no haviam
sido corrompidos pelo aparato, exploravam essas queixas ao mximo.
   A revolta foi conduzida pelos "jovens"16, entre os quais se destacou Z. K. Sen-
tongo, hbil panfletrio, que organizou a comunidade dos imigrantes baganda
em Nairobi. Em 1919 fundou a Young Baganda Association, cujos objetivos
eram os seguintes:
      a) fazer Uganda progredir por todos os meios;
      b) ajudar todo Muganda merecedor que se encontrasse em dificuldades;
      c) encontrar a melhor forma de permitir que os Baganda recebessem
         instruo.
    Em seus muitos testemunhos e escritos, os contestadores se levantavam con-
tra os chefes de Buganda, a quem acusavam de prender pessoas sem julgamento
num tribunal. Tambm alimentavam queixas contra a ordem econmica: recla-
mavam a eliminao das numerosas restries impostas ao comrcio do algodo
pela potncia protetora. Sua ltima reivindicao comprovava sua qualidade de
homens novos: exigiam a melhora dos meios educacionais existentes, a criao
de escolas pblicas, o desenvolvimento do ensino das meninas e a criao de
uma escola superior em Buganda.
    Trs anos depois desse modesto comeo, a Young Baganda Association viria
a se mostrar mais intransigente. Em 1921 tornou-se racista e antiasitica. O
asitico era um bode expiatrio cmodo para os que tinham reivindicaes eco-
nmicas a fazer. No Uganda Herald, Sentongo acusava os asiticos de serem os
primeiros exploradores dos africanos. "Quem nos explora, seno os indianos?",
perguntava, para concluir: "Os indianos no querem seno cegar os indgenas".
Em 1922, a Young Baganda Associaton tambm se tornara antimonarquista,
atacando os chefes e o kabaka e propondo a instaurao da repblica. Yowasi
Paito, Joswa Naluma e Yusufu Mukasa, trs auxiliares mdicos do Hospital de
Namirembe, antigos alunos da escola secundria de Budo, acusavam numa carta
o kabaka Daudi Chwa de ter um comportamento imoral, de ser incapaz de
administrar apropriadamente o lubiri (palcio) e de apoiar os chefes. "O kabaka
 indigno", diziam. Em concluso, exigiam uma constituio para Buganda. Era
evidente que nem os chefes nem o kabaka iriam deix-los  vontade. Foi mon-
tada uma campanha para desacreditar esses elementos. Para comear, o lukiko
adotou uma lei punindo os ultrajes ao kabaka, com o argumento de que eles con-

16    LOW, 1971, p. 53-5.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                      769



trariavam os costumes. Os culpados eram passveis de penas de priso. Os trs
autores da carta foram enquadrados nessa lei e encarcerados em julho de 1922.
Por outro lado, o prprio kabaka Daudi Chwa escreveu panfletos com a inteno
de conquistar o apoio do povo, atacando os jovens intelectuais, acusando-os de
copiar o estrangeiro17. Essa dupla ofensiva, juntamente com a recuperao de
certos elementos da Young Baganda Association, aos quais foram oferecidos
postos de chefes subalternos, solapou o esprito de solidariedade na organizao,
que se desintegrou pouco a pouco.
    A Kavirondo Taxpayers Welfare Association18  um exemplo clssico do
impacto dos missionrios. A organizao  qual estava filiada, e que os missio-
nrios acabaram por desnaturar, era a Young Kavirondo Association, criada no
segundo semestre de 1921 pelos alunos da escola de Maseno, na provncia de
Nianza. O que estava em jogo era o novo estatuto do territrio colonial: antigo
protetorado britnico da frica oriental, convertera-se em 1920 em uma colnia
da Coroa  a colnia e o protetorado do Qunia. Os dirigentes da associao
viram nessa evoluo o sintoma inicial da deteriorao da situao dos africanos
e de uma colonizao das terras do Qunia ocidental pelos europeus. Essas pre-
ocupaes, combinadas com as reivindicaes locais, precipitaram uma greve na
escola de Maseno. Jonathan Okwiri, Jeremiah Awori, Reuben Omulo e Simeon
Nyende dela participaram como professores. Logo se soube que seria organizada
uma assembleia pblica em Lundha para se discutirem as reivindicaes dos
Luo e dos Abaluyia.
    A assembleia realizou-se em 23 de dezembro de 1921 e teve por resultado a
criao da Young Kavirondo Association (YKA), com Jonathan Okwiri, Benja-
min Qwor Gumba e Simeon Nyende como, respectivamente, presidente, secre-
trio e tesoureiro. Consequncia mais importante foi a aprovao de resolues
exigindo, entre outras coisas, um corpo legislativo separado para a provncia de
Nianza, autonomia administrativa com um presidente africano eleito, eleio de
chefes supremos nas regies central e meridional, eliminao da odiosa kipande
(cdula de identidade), reduo do imposto sobre habitao e do imposto indivi-
dual, com iseno para as mulheres, aumento dos salrios, revogao do estatuto
de colnia da Coroa e retorno ao protetorado, outorga de ttulos de propriedade
individuais, abolio do trabalho forado e supresso dos campos de trabalho de
Yala, Rabuor, Nyahera e Pap Onditi, assim como a construo de uma escola
pblica na regio central da provncia de Nianza.

17   Ibid., p. 104-8.
18   OKARO-KOJWANG, 1969.
770                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    As resolues foram apresentadas ao comissrio regional por uma delega-
o. Depois, esta solicitou uma audincia com o governador para lhe entre-
gar pessoalmente esses textos. O comissrio recusou uma primeira vez, depois
uma segunda, mas as tenses aumentaram e o governador aceitou finalmente a
entrevista com os representantes dos peticionrios em 8 de julho de 1922, em
Nyahera. Nenhuma reivindicao deles foi imediatamente atendida, mas a lio
a extrair do confronto foi a de que a elite nascente havia dado provas de uma
aptido impressionante para mobilizar as massas. A razo disso estava em que
ela formulava as reivindicaes locais. As autoridades optaram por uma ao
paternalista de tipo colonial, encarregando para esse fim um missionrio con-
descendente, o arquidicono Owen. Em 1923, os dirigentes da Young Kavirondo
Association imaginaram que Owen seria um bom intermedirio, e este via a a
ocasio de proteger os jovens e de fazer deles cidados respeitosos da lei.
    Em julho de 1923, a presidncia da associao, mais conhecida pelo nome
de YKA ou de Piny Owacho, foi ento confiada ao arquidicono Owen. Ele
no se apoiava nas massas, mas nas elites. Tratou imediatamente de tornar
a organizao "respeitvel", desnaturando-a. A agitao poltica deu lugar a
reivindicaes relativas a habitao, alimentao, vesturio, educao e higiene.
Os membros da associao tinham muitas vezes de prometer que: no sujariam
a gua das fontes; matariam um nmero X de ratos por semana; plantariam
duzentas rvores por ano; no voltariam a preparar a especialidade tradicional
obtida da mistura de urina de vaca com leite; construiriam latrinas; fariam uma
cama em cada palhoa da aldeia; no se embriagariam mais e no estimulariam o
casamento das meninas com menos de dezesseis anos. Por outras palavras, Owen
arrancou o ardor poltico de massa dessa associao, a qual passou a ter desde
ento o inofensivo nome de Kavirondo Taxpayers Welfare Association, KTWA
(Associao de Defesa dos Contribuintes Kavirondo). Ele encorajava os lderes
assim neutralizados a apresentar todas as reivindicaes polticas em memoran-
dos endereados s autoridades. Muitos dos memorandos assim redigidos davam
exatamente conta da realidade e embaraavam a administrao colonial, mas
seu carter excessivamente elitista e formalista tornava-os ineficazes. A frmula
assumiu tanta importncia na luta que os dirigentes da associao ganharam
apelidos de "Jo-Mernorandum"19.
    Uma nova forma de fragilizao da associao ocorreu em 1931 com a ciso
entre os Luo e os Abaluyia. A frao Luo permaneceu vegetando at 1944, sob


19    ODINGA, 1967, p. 61-94.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                      771



a direo de Owen, depois de ter sido desarmada por ele e da neutralizao dos
elementos extremistas, aos quais foram outorgados postos de notveis: Jonathan
Okwiri e Odinho viraram chefes, Simeon Nyende foi nomeado para o Local
Native Council e Apendi foi encarregado de representar a provncia de Nianza
no Joint Select Committee into the Closer Union in East Africa. Houve recal-
citrantes, como Aduwo Nyandoje e John Paul Olola. Este ltimo, que vinha
da reserva dos Alego, foi particularmente ativo a partir de 1927 na Cmara
de Comrcio de Kisumu, mas seus esforos visavam satisfazer reivindicaes
econmicas pequeno-burguesas e estavam muito longe dos grandes programas
polticos populares de comeos da dcada de 1920.
    A KTWA, a despeito de tudo, serviu de inspirao a uma rea vizinha, a
Uganda oriental, onde Erisa Masaba fundou a Bugishu Welfare Association
nos primeiros anos da dcada de 1920. O objetivo da associao era eliminar
os agentes Baganda e instituir uma direo local, e empenhava-se tambm em
"favorecer o desenvolvimento dos Bagishu" e em vigiar estreitamente os colonos
do Qunia, no caso de estes invadirem suas terras, na regio do monte Elgon.
Na mesma ocasio foi criada a Young Bagwere Association, cujos objetivos eram
quase idnticos. Visava impedir que os Baganda adquirissem as terras situadas
em volta do Mbale e instruir seus membros "a bem ensinar e a bem plantar".
    Contempornea dessas duas organizaes, a Kikuyu Central Association (KCA),
que desde 1924 passou a defender os interesses dos camponeses gikuyu, mostrava
-se mais intransigente. Sua sede ficava em Kahuhia, na regio de Muranga, criada
por Joseph Kang'ethe e James Beauttah. Segundo Beauttah: "A primeira meta da
KCA era a restituio das terras que os europeus nos haviam tomado20''.
    Quem eram seus membros? A KCA representava os Gikuyu que no acei-
tavam plenamente nem os princpios nem o fato da dominao europeia. Ela
ostentava em relao s mudanas uma postura mais militante do que a dos
chefes nomeados e dos alunos das misses. Em resumo, alinhava na oposio.
A que se opunha?  difcil diz-lo em poucas palavras, j que seus dirigentes
jamais foram capazes de formular suas ideias com preciso. Mas, de modo geral,
insurgia-se contra os excessos da situao colonial, na medida em que estes se
manifestavam na sociedade gikuyu. Com efeito, os Gikuyu denunciavam cons-
tantemente as humilhaes raciais advindas da arrogncia cultural dos dirigentes
brancos, bem como as mltiplas medidas e atos da administrao colonial que
lhes suscitavam ressentimento.


20   SPENCER, 1971, p. 94.
772                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    A lista dos agravos que os responsveis pela KCA apresentaram ao gover-
nador, quando ele visitou a regio de Muranga, em 1925, d uma idia de sua
posio. Eram hostis  Crown Lands Ordinance de 1915, que havia tornado os
africanos locatrios de acordo com a vontade da Coroa. Tambm reclamavam a
libertao de Harry Thuku, assim como a nomeao de um chefe supremo com
poderes judiciais em relao a eles, boa formao e eleito pela maioria do povo.
A petio tratava igualmente dos problemas locais criados pela administrao
colonial, como a reconstruo obrigatria das palhoas insalubres, na tentativa
de acabar com a peste, e a proibio aos nativos de plantar algodo e caf.
Finalmente, solicitavam melhoramentos, pedindo que a administrao colonial
abrisse as possibilidades de formao de enfermeiros, construsse uma escola
secundria e outra para meninas. As reivindicaes pouco interesse despertaram
s autoridades coloniais.
    O desdm oficial, porm, no desanimou os dirigentes da associao. Em
1927, houve uma espcie de aproximao com os polticos da regio de Kiambu,
quando a associao ofereceu a Jomo Kenyatta (ver a fig. 26.4) o posto de
secretrio-geral, que ele ocupou de 1928 em diante.
    A situao da KCA melhorou nos dois anos seguintes, por razes de ordem
local e internacional. A ao empreendida por Kenyatta como secretrio levou
a uma renovao cultural. Para garantir uma base slida  associao, Kenyatta
apelava para seu povo no Mwigwithania, jornal de lngua gikuyu fundado por
ele, exortando-o a se orgulhar de seu patrimnio cultural. As pginas desse men-
srio vinham cheias de enigmas, de provrbios e de histrias que desenvolviam
nos leitores um sentimento de pertena  etnia gikuyu. Tambm noticiava com
detalhes as atividades dirias da KCA, atraindo assim a ateno do pblico para
ela. Esse despertar cultural iria beneficiar fortemente a sria disputa que, no ano
seguinte, dividiu as igrejas do pas Gikuyu em relao  clitoridectomia  assunto
j tratado no captulo 20.
    Foi tambm a dcada em que Jomo Kenyatta viveu em Londres. Depois que
a Kikuyu Central Association apresentou uma petio  Hilton Young Com-
mission e deps perante ela, em 1928, a alienao das terras passou ao primeiro
plano das preocupaes dos Gikuyu. Kenyatta fazia parte da delegao da KCA
que deps perante a comisso. O ponto principal de suas queixas estava contido
na seguinte verificao: "Procuramos durante muito tempo obter do governo
ttulos de propriedade de nossa terra, mas sem xito, e no sabemos se ela
                                                                                                                                                              Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935
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figura 26.3   Jomo Kenyatta (1890-1978), nacionalista queniano e primeiro presidente do Qunia independente, 1963-1978. (Foto: Royal Commonwealth Society.)
774                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 26.4 Harry Thuku (1895-1970), um dos fundadores e dirigente da East African Association.
(Foto: East African Publishing House Ltd., Nairbi.)




pertence a ns ou  Coroa"21. O problema da segurana fundiria nas "reservas"
africanas foi de novo levantado por Kenyatta, quando a KCA o encarregou, em
1929, de formular suas reivindicaes em Londres (ver a fig. 26.4). Kenyatta
resumiu da seguinte forma os objetivos da associao: inalienabilidade de suas
terras; desenvolvimento dos meios prticos de ensino; abolio do imposto
sobre habitao para as mulheres e representao eleita no Conselho Legislativo.
As mesmas posies iriam ser defendidas com vigor particular dois anos mais
tarde, quando os africanos foram convidados a depor perante a Kenya Land
Commission  organismo criado depois de o Parlamento ter adotado, em 1931,


21    ROSBERG e NOTTINGHAM, 1966, p. 94.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                         775



uma recomendao preconizando uma pesquisa sobre os problemas agrrios
africanos. A KCA ajudou ativamente as famlias gikuyu (mbari) a preparar sua
documentao. Quando o relatrio da comisso foi divulgado, mobilizou todos
os grupos polticos gikuyu para redigir um memorando unnime de protesto e
de rejeio. Como os protestos no foram ouvidos, a questo agrria assumiu
enorme importncia na poltica gikuyu e constituiu o fundamento da guerra dos
Mau Mau, que viria a explodir 20 anos depois.
    Essas associaes de "jovens" no atingiram seus objetivos, mas seria injusto
dizer que malograram por completo. Embora o sistema tenha sabotado constan-
temente sua eficcia, cooptando ou prendendo, segundo o caso, seus dirigentes,
elas tiveram efeito duradouro, na medida em que formularam as reivindicaes
dos africanos em relao ao sistema colonial, utilizando mtodos como a redao
de panfletos e explorando capacidades como o conhecimento do ingls e do
kiswahili para expor os principais malefcios do colonialismo.


    Associaes de setores limitados da populao
    As associaes criadas especialmente para solucionar os problemas de fron-
teiras so demasiado numerosas e variadas para serem relacionadas. De fato, os
regimes coloniais haviam fixado os limites territoriais do Qunia, de Uganda,
de Tanganica, de Zanzibar e da Somlia antes de 1933. Mas, para atender s
necessidades da administrao interna desses territrios, as autoridades coloniais
instituram uma diviso em provncias, distritos, reservas e comarcas, assim
como subdivises no interior das reservas e das comarcas que atravessavam
vrios grupos tnicos, cls e linhagens. Muitas vezes, as terras pertencentes
a um grupo eram atribudas a novos proprietrios, que no tinham nenhum
direito tradicional sobre elas. A situao provocava vivas reaes dos dois lados:
as pessoas lesadas procuravam, aqui, recuperar suas terras, ali, juntar-se a seu cl
em outra sub-reserva, acol, obter um novo traado mediante a criao de uma
sub-reserva correspondente a um cl ou subcl determinados. As contestaes
davam-se localizadamente, mas a agitao provocada por elas era to intensa
e to insistente que a administrao colonial no podia ignor-la. Por outro
lado, muitos "homens novos" tiveram a possibilidade de desempenhar um papel
nessas disputas devastadoras: preparao de documentos, processos, remessa de
memorandos ao comissrio do distrito, ao governador ou mesmo ao ministro
das colnias. Havia sempre riscos considerveis de violncia localizada nesses
conflitos, que, por vezes, terminavam de forma trgica.
776                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



     A ao empreendida pela Ugenya Kager Luo Clan (Margem Sul do Rio
Nzoia) Association22, criada pelos membros de lngua luo do cl Kager em 1932,
visando recuperar de seus vizinhos Wanga o territrio que tinham perdido, 
um modelo reduzido desse tipo de conflito. O Mubende Banyoro Committee
23
   , mais conhecido, reivindicava constantemente a restituio pelos Baganda ao
reino de Bunyoro, em Uganda, das "comarcas perdidas" de Huyaga, Bugangaizi,
Buwekula, Buruli e Rugonjo. Mas, no cmputo geral, no era possvel aos colo-
nizadores satisfazer as reivindicaes feitas por associaes segmentares, o que
provocaria exatamente a politizao da vida local. A insistncia das associaes
levou os britnicos a rejeitar o conjunto de sua atividade, tachada de fitina
(obstinao tacanha). Afinal de contas, as faces formam a prpria substncia
da poltica local.


      Associaes reformadoras e sindicatos
    As inmeras associaes comerciais formadas pelos agricultores e empre-
srios africanos durante esse perodo tiveram um papel secundrio no plano
poltico. Normalmente eram formadas com determinado objetivo, mas, em vista
dos problemas cotidianos inerentes  situao colonial, logo se viam obrigadas
a denunciar todos os abusos do sistema em sua regio. Por essa razo, os diri-
gentes se tornavam alvo da hostilidade dos representantes locais da adminis-
trao colonial. Um bom exemplo a respeito  a Kilimandjaro Native Planters
[Coffee] Association (KNPA), fundada em 1925 "para defender e promover os
interesses dos plantadores de caf indgenas do Kilimandjaro"24. Seja porque os
colonos europeus receavam os grupos de presso organizados dos africanos, seja
por ter havido conflitos pessoais entre seu chefe, Joseph Marinyo, e os diversos
administradores britnicos ou os chefes africanos, a organizao acabou natural-
mente por se ocupar de outras questes, como o cadastramento, a alienao e a
explorao das terras, o reforo da unio com o Qunia, os direitos polticos e a
representao dos africanos no Conselho Legislativo Central e na Moshi Dis-
trict Water Board. No nvel local, a poltica da associao parecia muitas vezes
dirigida contra os chefes. Realmente era esse o caso, e nisso se assemelhava aos
numerosos movimentos de protesto locais nascidos na frica oriental por volta


22    OGOT, 1971.
23    KYEYUNE, 1970.
24    ROGERS, 1972 e 1974.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                      777



de 1925. A existncia de tais formaes demonstrava que uma nova elite havia
surgido paralelamente aos chefes oficiais impostos pelas autoridades coloniais,
quinze ou vinte anos antes. Os recm-chegados manifestavam-se no s entre
os Chagga e Gikuyu, mas tambm entre os Lengi25, Kamba 2626 e Haya27. Isso
significava que a gerao no poder tinha de ceder lugar aos jovens na esfera
local.
    Os jovens pensavam sobretudo que os chefes coloniais no se deveriam con-
siderar os nicos instrumentos do progresso social e que eles prprios deviam
participar dele. Assim, quando a Bukoba Bahaya Union foi criada, em 1924,
parte de sua ambio era aconselhar o povo, "civiliz-lo". Segundo os funcion-
rios e os comerciantes locais da regio de Bukoba que foram seus fundadores
 Clemens Kiiza, Suedi Kangasheki, Ludovic Kaitaba e Herbert Rigizibwa, a
organizao visava "a criao de uma instituio encarregada de desenvolver o
pas e a pesquisa de uma via simples para a civilizao, que fosse de vantagem
recproca para os interessados". Dois meios permitiriam o acesso  "civilizao":
a instruo e a cultura do caf. Atravs das dcadas de 1920 e 1930, a Bukoba
Bahaya Union defendeu essa causa e, dessa forma, enfrentou com regularidade
os administradores e os chefes que, em sua opinio, constituam obstculos
ao progresso. Retrospectivamente, a Union no passava de outra associao
comercial africana como a Kisumu Native Chamber of Commerce, criada pelos
africanos para tentar arrancar alguns privilgios de que se beneficiavam as asso-
ciaes asiticas da poca.
    Os historiadores da frica oriental falam delas como associaes
"reformadoras"28, dirigidas por homens "modernos"29, entre os quais figura-
vam Hugh Martin Kayamba, Francis Lwamigira e Harry Thuku, no final da
dcada de 1930. As opinies divergem quanto ao papel desempenhado por esses
homens no despertar da conscincia poltica africana. Alguns veem neles pre-
cursores a servio das populaes africanas30, e h quem pense que eram antes
de tudo individualistas, no lhes reconhecendo nenhuma parte do "radicalismo"
poltico africano31. Em conjunto, os "reformadores" comearam principalmente


25   TOSH, 1973 e 1978.
26   MUNRO, 1975, captulos 7 e 8.
27   HYDEN, 1969, captulos 4 e 5.
28   ILIFFE, 1969, p. 123-61; 1979, p. 405-35.
29   Ibid., 1973.
30   Ibid., 1973; JANMOHAMED, 1974.
31   Ver em ATIENO-ODHIAMBO, 1973, uma crtica de ILIFFE, 1973.
778                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



por se defenderem e por defender seus interesses de classe: portanto,  difcil
atribuir-lhes um papel preponderante na poltica de "ao de massa"32. S depois
da Segunda Guerra Mundial  que as elites desposaram a causa do povo. A
histria do sindicalismo mostra bem que no havia nenhuma ligao entre os
modernistas e as massas.
    A resistncia dos trabalhadores empregados, em contraste com a oposio
 ao sindical propriamente dita, cedo se manifestou na frica oriental. Um
dos primeiros problemas que as autoridades coloniais tiveram de resolver foi
o de obrigar os africanos ao trabalho nas exploraes dos colonos, nos novos
setores das ferrovias (Qunia-Uganda Railways, Central Line de Tanganica)
e nas obras pblicas. A administrao colonial resolveu o caso adotando tex-
tos que instituam um "contrato de servio" cuja inobservncia podia acarretar
sanes penais e constitua uma infrao passvel de multa ou de priso. Alm
disso, principalmente no Qunia, todo indgena apto do sexo masculino tinha
de ser registrado, de acordo com a Native Registration Ordinance, lei celerada
que impunha aos africanos a kipande  ou cdula de identidade , por todos
odiada. No entanto, essas medidas no impediram que os trabalhadores fizessem
greve33. No Qunia, a primeira greve africana ocorreu em Mombaa no ano de
1902, na qual cinquenta agentes da polcia se recusaram a intervir, seguida em
1908 por uma de ferrovirios africanos em Mazeras. No mesmo ano, houve
uma greve de condutores de riquix em Nairbi. Quatro anos depois, foi a vez
dos martimos de Mombaa pararem de trabalhar, seguidos pelos ferrovirios de
Nairbi. E assim por diante. Essas greves isoladas no acarretaram a formao
de sindicatos, o que, de qualquer forma, teria sido considerado ilegal na poca,
mas demonstraram a possibilidade de uma ao de apoio s reivindicaes dos
trabalhadores e contriburam para a tomada de conscincia que caracterizou os
anos anteriores a 1919.
    Esse despertar desembocaria em uma verdadeira conscincia poltica depois
da guerra. As dificuldades econmicas e as provaes suportadas pelos africanos
entre 1919 e 1922 fizeram-lhes compreender que os problemas do trabalho
estavam ligados ao contexto poltico e econmico ao qual se achavam subme-
tidos. Os "jovens", que iriam desde ento assumir a chefia do movimento pol-
tico, eram, regra geral, citadinos que conheciam a penosa situao das massas
laboriosas. As queixas dos trabalhadores costumavam, pois, fazer parte de seus
memorandos e discursos. Assim, quando da fundao da Young Gikuyu Asso-

32    ATIENO-ODHIAMBO, 1975, p. 218-22.
33    SINGH, 1969, p. 45.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                             779



ciation, a 11 de junho de 1921, os problemas do trabalho surgiram em primeiro
plano. O relatrio que Harry Thuku fez dessa jornada o comprova. Mandou 
imprensa o seguinte comunicado:
     A Young Gikuyu Association reuniu numerosos adeptos na aldeia de Pangani para
     discutir a diminuio dos salrios dos indgenas. Foi proposto e decidido que para
     dar a conhecer ao governo as reivindicaes dos indgenas em relao  reduo dos
     salrios [a Associao seria] autorizada a escrever ao Hon. Chief Native Commis-
     sioner para solicitar-lhe que apresente a questo a S. Ex. o governador34.
    O memorando foi devidamente expedido ao Chief Native Commissioner. Seus
autores solicitavam principalmente que a administrao colonial no reduzisse os
salrios e obrigasse os colonos a fazer a mesma coisa, denunciavam o trabalho
obrigatrio, manifestavam-se contrrios ao sistema de registro e deploravam a
elevada taxa do imposto sobre habitao. Pode-se dizer que essa organizao
(como aquela que lhe sucedeu, a East African Association) era ao mesmo tempo
"uma associao poltica e um sindicato de trabalhadores". Esta definio podia
igualmente ser aplicada  Young Kavirondo Association, que na mesma poca
tambm se opunha ao trabalho forado, e resume bem as atividades de todas as
formaes que ento participavam da luta dos trabalhadores africanos. Regular-
mente, no decorrer da dcada de 1920, a ao poltica dos africanos no Qunia
voltaria  questo do trabalho, exigindo a abolio do trabalho forado, o aumento
dos salrios e a supresso dos impostos para as mulheres. Essas reivindicaes,
por exemplo, figuravam no memorando apresentado pelos africanos  Comisso
Ormsby-Gore em 1924. Voltamos a encontr-las no memorando dirigido pela
Kikuyu Central Association  Hilton Young Commission em 1928.
    Mas havia organizaes sindicais autnticas? A administrao colonial tole-
rava mais as associaes de empregados do que os sindicatos propriamente ditos,
com a condio de que elas tivessem uma fachada social e no se misturassem
com atividades diretamente sindicais. Ela esperava que os novos trabalhadores
africanos qualificados formassem clubes prprios, fechados e reservados a uma
elite. Foi nesse sentido que os britnicos autorizaram a fundao da Tanganyika
Civil Servants Union (TCSU), em 1922, bem como da Kenya African Civil
Service Association, um pouco antes de 1933. A TCSU35 foi criada por Martin
Kayamba, com o objetivo de "promover o progresso social e o desenvolvimento
da educao entre seus membros" e de "melhorar seu bem-estar nas diferentes

34   Apud ibid., p. 11.
35   ILIFFE, 1973, p. 73.
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administraes". Era ao mesmo tempo um sindicato e um clube, cujos membros
podiam praticar esportes e frequentar aulas noturnas. A organizao tinha fama
de ser abertamente elitista e, em larga medida, defendia os privilgios da elite.
Kayamba esperava que se estendesse a todo o pas, mas parece ter desaparecido
no final da dcada de 1920, enquanto o servil Kayamba atraa para si, cada vez
mais, as boas graas de seus amos e subia na hierarquia da administrao colo-
nial. Portanto, a associao pouco realizou, mesmo em sua breve existncia.
    As origens exatas da Kenya African Civil Service Association so obscuras,
mas ela apresentou um memorando interessante  comisso de inqurito sobre a
administrao da justia criminal no Qunia, em Uganda e em Tanganica, criada
em 193336. Os autores desse memorando eram um certo Newland Gibson,
secretrio-geral da associao, Ishmael Ithongo, H. G. Shadrack e Albert Awino.
O texto tratava de assuntos importantes relativos ao sistema judicial. Reclamava
a traduo de todas as leis para o kiswahili, a instituio de um jri para todos
os casos criminais e a eliminao da kipande. Tambm criticava as disposies da
lei sobre a vadiagem e a lei sobre os castigos coletivos, e recomendava vivamente
a supresso do imposto para as vivas, os desempregados e as pessoas com mais
de cinquenta anos; Fora esse memorando, no h outras informaes sobre as
atividades da associao. Tampouco se conhece muita coisa sobre a Kenya Afri-
can Teachers Union, criada em 1934 por Eluid Mathu e James Gichuru.
    De modo geral, porm, pode-se dizer que essas associaes elitistas foram um
plido reflexo da realidade global da situao no trabalho, j que todo o perodo
que nos interessa foi marcado por greves nas usinas, nos portos, nas oficinas e
at nas fazendas dos colonos. Dada a hostilidade do governo ao sindicalismo e a
carncia de uma rede de comunicao entre o vasto contingente de trabalhadores
no-qualificados, essas greves isoladas, feitas nos locais de trabalho, eram um
meio de expresso lgica. Se estamos mal informados, sobretudo no que concerne
a Uganda e Tanganica, isso talvez se deva menos ao tema do que ao fato de os
historiadores terem pesquisado pouco a respeito. Seja como for, no seria demais
insistir no constante sentimento de frustrao dos trabalhadores africanos.


      Ao poltica em escala territorial
   Tratamos at agora da ao poltica local desenvolvida em diferentes nveis.
As tentativas feitas em escala territorial redundaram em malogro ou em consta-

36    SINGH, 1969, p. 24-45.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                        781



tao de impotncia. Isso, alis, no lhes tira o valor, pois o sentimento nacional
estava muito pouco disseminado em Tanganica ou no Qunia, entre as duas
guerras. No havia suficiente maturidade poltica para apreender o Estado colo-
nial em sua totalidade. Claro que havia excees: homens como Jomo Kenyatta,
Akiiki Nyabongo e Mbiyu Koinange haviam tido a possibilidade  coisa rara
 de viajar para a Europa e para os Estados Unidos da Amrica e de encontrar
personalidades que encaravam a situao colonial pela perspectiva do imprio.
    Por ocasio das visitas que fez ao Reino Unido a partir de 1930,  certo que
Kenyatta ampliou suficientemente seus horizontes para desposar no s a causa
da frica, mas tambm a condio do homem negro em geral. Quanto a Mbiyu
Koinange, a passagem pelas universidades americanas e, mais ainda, suas relaes
com Ralph Bunche, deram-lhe uma viso mais ampla das coisas. Em 1933, ele
remetia  administrao colonial relatrios que denunciavam as injustias a que
estavam sujeitos seu pai, o chefe Koinange, e os africanos de modo geral.
    Mas esses homens no passavam de um punhado e, pior, estavam longe da
ptria, no tendo portanto possibilidade de organizar as massas locais.
    A partir dessa perspectiva, a East African Association, de Harry Thuku,
era a nica de seu gnero no incio da dcada de 1920, na medida em que, ao
menos no papel, se interessava pelo conjunto do territrio queniano e visava ir
ainda mais longe. Fora fundada em 1921, em Nairbi, por Harry Thuku (ver fig.
26.3), Jesse Kariuki, Job Muchuchu e Abdullah Tarrara 37. Africanos vindos de
outros territrios tambm se destacaram nela, em particular o indomvel Z. K.
Sentongo, da Young Baganda Association, e um desconhecido da Niassalndia
(atual Malavi). A associao colocava-se incontestavelmente acima das etnias e,
como indicava seu nome, sua ao abrangia todo o Qunia. Mas a maior parte
de seus membros eram Gikuyu. Quem lhe dava vida e direo era Harry Thuku,
um funcionrio do Tesouro.
    Thuku pertencia ao grupo de jovens gikuyu de Nairbi que sentiam a neces-
sidade de se organizar para fazer frente  Kikuyu Association, dominada pelos
chefes. Mencionou-se que o modelo deles era a Young Baganda Association. A
mais importante  que Thuku e seus amigos de Nairbi pensavam ser preciso
criar uma organizao africana em escala queniana e que, como ele dizia no East
African Standard, em 1921, "se os jovens deste pas no formarem uma associao,
os indgenas do Qunia ficaro sempre mudos". Essa nsia de solidariedade levou
Thuku a confraternizar com os jovens akamba, luo e ganda que viviam ento


37   KING, K. J., 1971b.
782                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



em Nairbi. Foi assim que no dia I de julho de 1921 foi fundada oficialmente a
East African Association. A organizao adotou resolues relativas  kipande,
ao trabalho obrigatrio,  excessiva tributao dos africanos e  educao. Thuku
telegrafou diretamente o texto dessas resolues ao Colonial Office, em Londres.
Os polticos indianos A. M. Jevanjee e B. M. Desai colaboraram na redao das
notas destinadas ao governo britnico e na impresso dos boletins da associao.
Na poca, a aliana com os asiticos suscitou o furor dos colonos. Trabalhos
recentes mostraram de forma concludente que Thuku no era um peo nas mos
dos indianos, mas a questo no  essa. Mais importantes, de nosso ponto de
vista, foram os esforos envidados por Thuku para incluir no Gikuyu na asso-
ciao. Suas relaes em Nairbi levaram-no naturalmente a procurar a adeso
dos Akamba. Mas, se os Akamba de Nairbi demonstraram entusiasmo, o mesmo
no sucedeu com os do interior. Depois do encontro pblico havido entre Thuku
e o chefe Mathendu, em Iveti, na regio de Machakos, os ancios rejeitaram as
ofertas que lhes foram feitas, recusaram assinar os documentos apresentados e o
aconselharam a voltar para os Gikuyu, "com os quais os Akamba tinham pouco
em comum"38. A situao foi diferente na provncia de Nianza, onde a associao
de Thuku encontrou a simpatia da Young Kavirondo Association. Em dezembro
de 1921, os dirigentes desta ltima entraram em contato com Thuku, dando-lhe
a garantia de que "lutavam" a seu lado pelo pas e uma contribuio financeira.
As relaes entre os dois grupos eram de tipo igualitrio, e a Young Kavirondo
Association no estava de forma alguma subordinada  East African Association39.
Importa igualmente sublinhar que entre elas havia contatos, mas no uma relao
estreita, nada provando de forma decisiva que uma influenciasse a outra. a agente
de ligao era James Beauttah, que por ento era membro da associao de Thuku
e trabalhava em Maseno. Segundo suas palavras:
      Havia em Maseno uma grande escola onde lecionavam cultos professores africanos,
      que na maioria se interessavam pela poltica e desejavam ter mais informaes sobre
      a EAA. Era o nico grupo fora de Nairbi que eu conhecia a ter ideias naciona-
      listas. Coloquei esses futuros policos luo em contato com os partidrios da EAA.
      Demonstraram muito entusiasmo e reuniram uma contribuio de noventa rpias
      para sustentar o movimento de Nairbi. Manifestaram a inteno de se unir aos




38    MUNRO, 1975, p. 126.
39    OKARO-KOJWANG, 1969, p. 120.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                           783



     Kikuyu e aos povos do litoral, e penso que minha interveno os fez decidir pela
     ao40.
    A proximidade de Nairbi e as dificuldades tidas com os britnicos a pro-
psito de suas terras, nas duas primeiras dcadas, fizeram das elites Masai,
educadas  ocidental, as aliadas naturais de todos os movimentos de protesto
registrados na cidade em comeos da dcada de 1920. Esses Masai tinham se
formado ou em Thogoto ou nas escolas da African Ireland Mission, de Kijabe
e de Siyiapai. Passaram a defender as teses de Harry Thuku junto de seu povo41.
Mencionemos, em particular, os casos de Maitei Ole Mootian e de Molonket
Ole Sempele. No parece que tenham organizado um movimento poltico no
pas dos Masai, j que a maioria deles trabalhava nas cidades. Foi depois de
1923 que sua influncia se fez sentir na populao rural, quando obtiveram
postos em seus distritos, a partir dos quais haveriam de apoiar a Kikuyu Central
Association.
    Foi a ao pessoal de Thuku que levou a East African Association a unir-se
aos Baganda. Ele interessava-se particularmente pela Young Baganda Associa-
tion, cuja sede ficava em Kampala e cujo secretrio, Joseph Kamulegeya, defendia
um ponto de vista idntico ao seu relativamente a vrios pontos. Kamulegeya
ps Thuku em contato com os negros americanos, e este escreveu a W. E. B.
Du Bois, a Marcus Garvey e ao Instituto Tuskegee para solicitar que envias-
sem misses de assistncia  frica oriental. Nenhuma ligao duradoura se
estabeleceu, embora Thuku recebesse o Negro World de Garvey42. Tudo isso era
bom em teoria, mas a administrao colonial alarmou-se com as declaraes
populistas de Thuku. No dia 14 de maro de 1922, deteve-o com a inteno de
deport-lo, mas seus partidrios e a populao africana de Nairbi  que, alis,
parece que estava em greve  juntaram-se em volta da delegacia de polcia onde
ele se encontrava. Ocorreu o inevitvel nesse tipo de confronto colonial: ao fim
de certo tempo, as foras policiais perderam o sangue-frio e atiraram sobre a
multido, matando 21 africanos. Foi no dia 16 de maro de 1922.
    Depois do incidente, Thuku foi deportado para Kismayu, e a East Afri-
can Association desagregou-se. Desde ento, a poltica no pas dos Gikuyu
revestiu-se de um carter mais tnico. Seu papel foi preenchido pela Kikuyu
Central Association. As balas britnicas puseram fim a todas as veleidades de


40   Apud SPENCER, 1971, p. 10 (grifo nosso).
41   KING, K. J., 1971a.
42   KING, K. J., 1971b.
784                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



organizao poltica multitnica dos africanos de Nairbi no perodo entre as
duas guerras.
    Em Tanganica, as perspectivas no eram nada melhores, como prova o exem-
plo da Tanganyika African Association (T AA), criada em Dar es Salaam em
1929. Sob a direo de Cecil Matola, Kleist Sykes, Mzee Bin Sudi e Ramadhan
Ali, assim definia ela seu objetivo: "Defender os interesses dos africanos no
s neste territrio, mas em toda a frica"43. Na realidade, sua influncia no
foi alm de Dar es Salaam nos seis anos que se seguiram, a no ser quando
alguns de seus membros iam trabalhar para o norte, como Mack Makeja, que,
em 1933, foi transferido para Dodoma e fundou l uma sucursal. Mesmo em
Dar es Salaam suas realizaes limitaram-se  construo de um clube. A TAA
tambm dirigiu ao governo uma petio, sem xito, reclamando a nomeao
de um magistrado africano para essa cidade. Brigas internas fizeram com que
ela perdesse adeptos em 1931 e 1932, e teve de esperar at 1934 para, graas
 filial de Zanzibar, recobrar nimo. Alm da realidade da represso colonial,
a concluso que podemos extrair  a seguinte: entre as duas guerras ainda no
havia, politicamente, quenianos, ugandenses ou tanganiquenses.


      Concluso
   Procuramos estabelecer neste captulo a extenso, a natureza e os limites
da poltica e do nacionalismo africanos na frica oriental, de 1919 a 1935,
examinando as diferentes formas de ao militante. Os protagonistas eram as
massas, e quem organizava a vida poltica, a siasa, durante esse perodo, eram os
"jovens", que haviam tirado proveito do ensino dos missionrios durante os vinte
primeiros anos do sculo e eram capazes de apresentar as queixas dos africanos
s autoridades coloniais. Interessavam-se principalmente pelas reivindicaes
locais, fazendo agitao contra os males que o colonialismo havia acarretado.
Agiam em diferentes nveis, desde a baraza, ou assembleia pblica das reservas,
at os governadores ou o secretrio das Colnias, em Londres, a quem dirigiam
peties. Suas tentativas de organizao poltica foram muitas vezes contraria-
das pela potncia colonial, e nenhuma das associaes fundadas logrou atingir
todos os seus objetivos. Mas, enquanto duraram, tais associaes relembraram s
autoridades que a "voz da frica" podia fazer-se ouvir por outros canais alm da
administrao colonial. No entanto, em muitos casos, as reivindicaes africanas

43    HAJIVAYANIS, MTOWA e ILIFFE, 1973, p. 235.
Poltica e o nacionalismo na frica oriental, 1919-1935                        785



nunca deram lugar a organizaes devidamente constitudas: nenhum sindicato
foi criado durante esse perodo, j que poucos dirigentes havia para tentar uma
ao em tal sentido. Este captulo, portanto, verifica os limites da ao envidada
pelos africanos durante o perodo considerado: centrada essencialmente nas
questes locais, essa ao no redundou na criao de movimentos polticos
eficazes em escala territorial.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                          787



                                        CAPTULO 27


                  Poltica e nacionalismo nas
                  fricas central e meridional,
                           1919-1935
                A. Basil Davidson, Allen F. Isaacman e Ren Plissier




    Desde sempre, profundas diferenas assinalaram a vida poltica africana
de pases to dessemelhantes como Angola, Bechuanalndia (atual Botsuana),
Congo Belga (atual Zaire), Rodsia do Norte (atual Zmbia), Basutolndia
(atual Lesotho), Niassalndia (atual Malavi), Moambique, Suazilndia, Rodsia
do Sul (atual Zimbbue), Sudoeste Africano (atual Nambia) e Unio Sul-Afri-
cana (atual Repblica da frica do Sul). Essas diferenas, ainda hoje bem vis-
veis, eram considerveis entre 1919 e 1935. Deviam-se principalmente ao fato
de os pases acima mencionados fazerem parte de diferentes imprios coloniais:
o britnico, o portugus e o belga. Por outro lado, esses territrios no tinham o
mesmo estatuto poltico: alguns eram colnias, outros, protetorados, e um deles,
domnio. Finalmente, aspecto no menos importante, havia largas distncias no
plano socioeconmico. No obstante, o aparecimento de novos movimentos
anticolonialistas nas fricas central e meridional revela traos especficos dis-
tintos, por comparao com as fricas oriental e ocidental.
    Este captulo examinar a natureza mutvel da oposio popular nas fricas
meridional e central, e dar ateno particular  frica do Sul, ao Congo Belga
e s antigas colnias portuguesas1.

1    A. B. Davidson ocupou-se principalmente do exame do quadro econmico e poltico na frica meri-
     dional e no Congo Belga, bem como da parte do texto consagrada  resistncia popular na frica do
     Sul e nos territrios vizinhos. Allen Isaacman redigiu as partes sobre Moambique e o Congo Belga,
     assim como o panorama da situao econmica e poltica em Angola e Moarnbique, em colaborao
     com Ren Plissier, que tambm  autor da parte sobre Angola.
788                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



      Panorama da situao poltica e econmica
      na frica meridional e no Congo Belga
    Os traos especficos da frica meridional resultam ao mesmo tempo da
estratificao tnica da sociedade, mais complexa do que no resto da frica, e
do carter da penetrao colonial e capitalista. Como se viu nos captulos 15 e
16, em nenhuma outra parte o "setor europeu" se desenvolveu to rapidamente,
em detrimento da economia africana "tradicional". Essa estrutura econmica e a
complexidade da estratificao tnica so atribuveis  maneira como se realizou
a colonizao, ela prpria determinada pelas condies naturais e pelas amplas
riquezas desta parte da frica.
    Por volta de 1919, a economia tradicional da maior parte da frica meri-
dional tinha sido mais profundamente transtornada do que as de outras regies
do continente. Milhes de indivduos haviam sido arrastados para a rbita da
explorao capitalista. L por meados da dcada de 1920, mais de 200 mil
trabalhadores migrantes, recrutados em regies to afastadas como a Rodsia
e a Niassalndia, estavam empregados nas minas da frica do Sul2. Mais de
60 mil homens trabalhavam nas minas de cobre, estanho, diamantes e ouro do
Congo3.
    O desenvolvimento da agricultura europeia e a expropriao em grande
escala das terras dos camponeses em certos pases da frica do Sul impediram
que os africanos participassem da produo agrcola para a exportao e o
comrcio, salvo no caso de certas culturas foradas, como o algodo no Congo4.
Da mesma forma, essa situao obstou a formao de uma larga camada de
agricultores e de negociantes africanos, fato que caracteriza numerosos outros
territrios coloniais onde se estabeleceram muito menos colonos brancos.
    A perda das terras, a espoliao dos camponeses, a proletarizao e a urba-
nizao foram, pois, mais rpidas e mais marcantes na maior parte dos pases
da frica meridional do que em outras partes do continente5.
    Um proletariado permanente e numericamente importante, de origem afri-
cana e no-europeia, formou-se mais depressa em certos pases dessa regio,
conforme foi visto no captulo 16. Seus contingentes mais avanados eram cons-


2     Para estatsticas sobre a composio da mo de obra mineira sul-africana, ver CENTRO DE ESTUDOS
      DOS AFRICANOS, 1977, 24c.
3     PERRINGS, 1979, p. 56, 84, 176.
4     JEWSIEWICKI, 1980.
5     BUNDY, 1979; ARRIGHI, 1970; PHIMISTER e VAN ONSELEN, 1978.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                                      789



titudos pela mo de obra das grandes cidades industriais e dos portos, sobretudo
pelos porturios, industririos e servidores pblicos. A maior parte da mo de
obra africana das minas e das grandes cidades era sazonal. No entanto, um
nmero crescente de indivduos acabou por se tornar dependente do trabalho
sazonal para sua sobrevivncia. O processo de formao de um proletariado
urbano africano estava mais avanado nessas regies do que na maior parte das
fricas ocidental e oriental. At se contavam mais trabalhadores sazonais empre-
gados nas exploraes agrcolas europeias, pois as expropriaes de terras fizeram
crescer rapidamente o efetivo do proletariado agrcola. A incluso dos africanos
na vida industrial contribuiu para o nascimento de uma conscincia nacional.
    A intelligentsia em vias de formao fez muito para definir o sentimento de
uma identidade nacional e poltica. Seu desenvolvimento foi determinado pelo
carter especfico da colonizao europeia e pelo acesso relativo  educao. O
"teto social" que o africano podia alcanar no sul do continente era muito mais
baixo do que na frica ocidental, onde, na ausncia de uma populao permanente
de colonos brancos, era fcil para os africanos obterem um emprego de escritrio
ou um cargo pblico. Na frica meridional, os brancos tinham monopolizado
todos os empregos que poderiam ser acessveis aos africanos instrudos, seja na
administrao, no setor econmico, na Igreja ou em outros setores de atividade.
    Por isso mesmo, a intelectualidade da frica meridional viu-se desde o incio mais
perto do povo. A explicao est em que, nessas regies, os intelectuais provinham da
populao indgena, em vez de serem recrutados, como sucedia em vrios pases da
frica ocidental, entre os escravos libertos e repatriados ou seus descendentes.
    O cruel regime de discriminao racial, do qual todos os indgenas da frica
meridional eram vtimas sem exceo, levava inevitavelmente  aproximao
entre a intelectualidade e o povo. Nessas regies, os intelectuais africanos encon-
travam mais dificuldade para desempenhar o papel de intermedirios.
    A luta anticolonialista na frica meridional apresenta uma outra caracte-
rstica essencial: a oposio  ordem colonial manifestava-se no s entre os
africanos, mas tambm nas fileiras das minorias de origem no-africana, cujo
nmero no era desprezvel  as "pessoas de cor", como se chamam os mestios
na frica meridional, os indianos e at certos brancos. Em consequncia, os
africanos constituam a principal fora anticolonialista, mas no a nica, plura-
lismo que marcou o carter geral da luta6.


6    Mesmo nesse meio abertamente racista, o regime colonial tinha de se apoiar nos chefes legalistas e na
     polcia africana, que se tomou parte do aparelho de Estado. Essa aliana pe em dvida qualquer anlise
     da resistncia que veja os acontecimentos exclusivamente pelo prisma da raa, sem referncia aos fatores
     tnicos e de classe.
790                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Outra circunstncia contribuiu para delinear os traos gerais dos movimentos
anticolonialistas na frica meridional: seus laos internacionais. Na frica do
Sul, o movimento sindical e os primeiros grupos nacionalistas receberam impor-
tante ajuda do exterior, enquanto os socialistas e os comunistas belgas criticavam
vigorosamente a poltica colonial repressiva no Congo Belga.
    Finalmente, devido ao fato de os pases da frica meridional estarem liga-
dos de maneira mais estreita  economia capitalista mundial, os contatos com
o exterior eram mais frequentes e, por consequncia, as mudanas ocorridas no
mundo foram sentidas l com mais nfase. Essas mudanas foram muitas entre
1919 e 1935. Citemos o impacto da revoluo de outubro de 1917 na Rssia e
o da agitao revolucionria que se seguiu  Primeira Guerra Mundial at 1923,
o incio da crise do sistema colonialista, a grande depresso de 1929-1933 e, por
fim, no trmino do perodo estudado neste volume, os ecos da guerra talo-etope,
que comeou em 1935.

      Oposio popular, nacionalismo e poltica na
      frica do Sul e nos territrios vizinhos
    A oposio  dominao colonial e  explorao capitalista na frica do
Sul assumiu quatro formas principais. A primeira foi a resistncia camponesa.
Muitas vezes espordicas, isoladas e quase invisveis, as diversas expresses da
resistncia camponesa foram no obstante generalizadas durante este perodo.
Alm disso, os numerosos habitantes dos campos e das cidades organizaram a
oposio ao sistema racista e  sua arrogncia cultural por intermdio das igre-
jas independentes, que se multiplicavam pela frica do Sul Outros aderiram
ao African National Congress, ANC (Congresso Nacional Africano), a mais
antiga organizao nacionalista do continente. L pelo final da dcada de 1920,
o movimento da classe operria africana comeava a ter uma existncia embrio-
nria, simbolizada pelo fulminante crescimento da Industrial and Commercial
Workers' Union (ICU), dirigida por Clements Kadalie.
    Reagindo contra a crescente pauperizao e contra a incerteza econmica
que acompanhava a transformao de muitas zonas rurais da frica do Sul, as
quais passaram de uma economia agrria para a condio de reserva de mo de
obra, os camponeses entregaram-se a uma srie de aes destinadas a reduzir
ou a eliminar as cada vez maiores presses polticas e econmicas. As formas de
resistncia, em sua maior parte, visavam proteger as terras e o gado, bem como
protestar contra o aumento dos impostos e das requisies de mo de obra.
Tratava-se muitas vezes de aes individuais, como a fuga, o no pagamento dos
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                                     791



impostos, a violao das leis sobre o registro e ataques contra os chefes legalis-
tas e a polcia7. s vezes, representavam formas de oposio mais coerentes e
organizadas, como a campanha contra os parasitas.
    Os esforos do Estado para impor uma regulamentao mais estrita de desin-
feco dos bovinos e dos ovinos, aumentando as respectivas tarifas, provoca-
ram uma ampla oposio camponesa no Transkei, entre 1913 e 1917. Embora
reconhecessem a necessidade de proteger seu gado da febre da costa oriental,
muitos camponeses criticavam a tributao excessiva, assim como as rigorosas
presses exercidas sobre a economia rural. A oposio  desinfeco assumiu
diversas formas. Na regio dos Fingo, foram organizados boicotes e impediu-se
a participao no programa de desinfeco. Na regio dos Pondo, os camponeses
recusaram-se de incio a pagar o imposto. As aes mais militantes ocorreram
no Griqua oriental, onde foram dinamitados e destrudos caminhes-cisternas, e
oposicionistas atacaram a polcia, que tentava reprimir sua campanha. Do ponto
de vista da organizao poltica camponesa, o mais significativo  a amplitude
da oposio manifestada e a incapacidade dos chefes legalistas de controlar as
atividades dos camponeses militantes8.
    Quatro anos mais tarde, os camponeses do Transkei organizaram uma srie
de boicotes aos comerciantes europeus, para protestar contra a manipulao dos
preos e a recusa  abertura de crdito. Em 1922, o movimento deles atingiu a
provncia de nordeste e a Griqua oriental, onde os funcionrios e os comercian-
tes queixavam-se das "agitadoras feministas". As contestadoras formaram pique-
tes diante das lojas no interior e, apesar das ameaas das autoridades, impediram
pela fora que os clientes entrassem nelas. A interveno governamental e as
ameaas dos chefes legalistas acabaram por fim com os boicotes9.
    Periodicamente havia levantes camponeses no sudoeste da frica, onde o
governo sul-africano mal comeava a consolidar seu poder aps a Primeira
Guerra Mundial, o governo de Jan Smuts reprimiu cruelmente o Bondelswart,
um dos grupos nama de criadores de gado que vivia no sul. O levante fora
provocado por um aumento dos impostos. Em maio de 1922 foi enviada uma
expedio punitiva contra os rebeldes. Faziam parte dela quatrocentos soldados


7    BEINART e BUNDY, 1980; NZULA, POTEKHIN e ZUSMANOVICH, 1979, p. 104-6; ROUX,
     1964, p. 88-120; DAVIDSON, A. B., 1972. Aqui e em outros lugares, os dados so extrados da obra
     coletiva intitulada Histria da luta de libertao nacional africana [Perodo Contemporneo] (Istoriya
     Natziionalnoosvoboditelno Borby Navodor Afriku V novelschee Vremia), publicada em russo na edio Nauka
     de Moscou.
8    BEINART e BUNDY, 1980, p. 280-4.
9    Apud ibid, p. 286-7.
792                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



armados de metralhadoras e apoiados pela aviao. Talvez pela primeira vez na
Histria, aldeias africanas serviram de alvo para ataques areos. Perto de cem
africanos foram mortos e cento e cinquenta rebeldes presos10.
    Trs anos mais tarde, foi infligida uma represso igualmente cruel  "comu-
nidade de cor" que vivia s margens do rio Rehoboth, no centro do territrio.
Protestando contra a violao de um acordo concludo com a administrao
colonial alem, essa comunidade recusou-se a ceder s novas exigncias das
autoridades. O conselho da comunidade apresentou  Sociedade das Naes
uma queixa por "tratamento ilegal" da parte da administrao. Em abril de 1925
a aldeia foi cercada pelo exrcito e sobrevoada por avies. Os aldeos foram
convidados a "render-se" e uns 640 foram feitos prisioneiros11.
    O caso dos Bondelswart e dos Rehobothers foi discutido na Sociedade das
Naes, j que o Sudoeste Africano era um territrio sob mandato. No entanto,
no se adotou nenhuma providncia para impedir a repetio de tais brutalida-
des. Pelo contrrio, em 1932, quando os Ukuabi da Ovambolndia (no norte do
territrio) se revoltaram, empregaram-se contra eles avies e carros blindados.
    Em sua maior parte, as revoltas camponesas eram espontneas e no tinham
envergadura. Em contrapartida, entre os primeiros movimentos de massa orga-
nizados, alguns deviam muito s igrejas e s seitas afro-crists, Os camponeses
constituam a base social desses movimentos, embora vrios citadinos tenham
tido a parte ativa.
    As igrejas afro-crists, ou "igrejas indgenas independentes", como eram
conhecidas, representavam um curioso fenmeno. Pode parecer estranho,  pri-
meira vista, que o povo pudesse extrair inspirao ideolgica para a luta contra
os conquistadores europeus da prpria religio que esses conquistadores lhe
impuseram. No entanto, foi esse precisamente o caso. O processo deve -se a
vrias razes, em primeiro lugar ao carter das antigas religies africanas. Nas
fricas tropical e meridional, "as religies tradicionais locais  quer dizer, os
cultos dos antigos Estados  tinham carter local e constituam um fator mais
de diviso do que de unidade", dizia o dr. B. L Sharevskaya, especialista mos-
covita das religies africanas12. O cristianismo, ao propagar a ideia de que todos
os homens so filhos de Deus, permitiu que os novos convertidos se identifi-
cassem Com uma comunidade mais ampla do que um grupo tnico. A unidade
sobre uma nova base no podia se realizar seno em um meio que se afastasse

10    ROUX, 1964, p. 143-4.
11    FIRST, 1963, p. 101-5.
12    SHAREVSKAYA, 1968, p. 215-6.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935             793



das velhas formas de unidade e no visse nenhum modo de retornar a elas. Os
novos convertidos constituam justamente esse meio. Eram em geral pessoas que
tinham rompido totalmente com a tradio e o costume predominantes. No
surpreende, portanto, que a oposio delas ao colonialismo fosse acompanhada
por um sentimento de desiluso relativamente queles que lhes haviam transmi-
tido a nova religio. Estavam decepcionadas por ver que os brancos no agiam
como autnticos cristos. Tambm alimentavam o desejo de auto-afirmao e
de afirmao de seus valores nessa f, e de rejeio de tudo quanto se ligasse ao
homem branco, que, a seus olhos, surgia como opressor, embusteiro e encarnao
do mal sob todas as suas formas.
    A ideologia dessas igrejas oferecia numerosos pontos em comum. Em pri-
meiro lugar, a ideia de que, segundo o verdadeiro ensinamento de Cristo, os
negros so iguais em tudo e os missionrios europeus deformavam a Bblia. O
messianismo constitua outro trao das igrejas afro-crists com a crena em uma
segunda vinda do Salvador (que, desta vez, seria negro). Os fiis dessas igrejas
e seitas acreditavam que essa nova redeno deveria assinalar o advento de um
milnio, durante o qual reinariam o bem e a justia, e os colonialistas seriam
expulsos da frica13.
    As igrejas independentes, do tipo "sionista" e do tipo etope, estavam bastante
disseminadas na frica do Sul (ver fig. 27.1) e representavam uma forma impor-
tante de oposio. Seu nmero cresceu rapidamente. Em 1918, havia 76 e, em
1932, j eram 320. Dez anos depois, contavam-se mais oitocentas14. Do ponto
de vista dos movimentos sociais, as igrejas separatistas etopes, com seus fun-
cionrios eleitos, suas bandeiras, cartas e organizaes militares, representavam
na esfera eclesistica a expresso da vontade de um autogoverno africano. Da
mesma forma, as igrejas sionistas eram muitas vezes dirigidas por profetas caris-
mticos antieuropeus que desenvolviam vises apocalpticas e alimentavam a
esperana de uma nova sociedade, livre da opresso e da dominao branca15.
    Apesar da estrita vigilncia do Estado, as igrejas independentes lanavam-se
periodicamente em atividades abertamente insurrecionais. Desde 1884, Nehe-
miah Tile, pregador metodista, instigava seus aderentes da Tembulndia a deso-
bedecer aos funcionrios do Estado16. Em 1921, uma seita etope conhecida pelo
nome de "lsraelita", dirigida por Enoch Mgijima, ocupou terras devolutas perto


13   HODGKIN, 1956, p. 93-112.
14   SUNDKLER, 1961, p. 76.
15   Ibid.; HODGKIN, 1956, p. 99-100.
16   ROUX, 1964, p. 78.
794                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



de Queenstown e se recusou a sair da. Os "israelitas" afirmavam que o Novo
Testamento, criao do homem branco, devia ser rejeitado e que, se se voltasse
s antigas formas hebraicas, Jeov acabaria por libert-los do jugo da opresso.
Mesmo depois da chegada de poderosas foras militares e policiais, os "israeli-
tas", armados apenas de espadas e de lanas, continuaram a resistir. "Jeov nos
ensina a no permitir que vocs queimem nossos barraces ou expulsem nosso
povo de Ntabelanga ou prendam os homens que querem prender"17. Os soldados,
armados de metralhadoras, mataram 163 africanos e feriram 129.
    Outras igrejas independentes e militantes mesclavam uma viso apocalptica
com uma forma abreviada de garveysmo. A mais importante foi o movimento
Wellington, assim chamado de acordo com o nome de seu fundador, Wellington
Butelezi, movimento que se desenvolveu desde o incio dos anos 1920 at mea-
dos da dcada seguinte. Butelezi assegurava a seus partidrios do Transkei que
os negros norte-americanos viriam de avio para ajud-los e contribuir para a
sua libertao. Depois disso  proclamava ele  seriam abolidos os impostos e as
taxas sobre a desinfeco, e seriam distribudas roupas a todo o mundo. Quando
as autoridades tomaram cincia do carter extremista de sua viso e de sua ret-
rica militante, deportaram-no e detiveram vrios de seus lugares-tenentes. No
obstante, ele conservou sua influncia e se criou toda uma srie de escolas e de
igrejas separatistas para propagar sua palavra. Em comeos da dcada de 1930,
alguns adeptos de seu movimento recusaram pagar as taxas sobre a desinfeco
e at chegaram a atacar funcionrios18.
    No decurso da segunda metade da dcada 1930-1940, os movimentos afro-
cristos tinham perdido seu vigor enquanto instrumentos da luta anticolonialista.
Na maior parte dos pases da frica meridional, esse papel foi passando progres-
sivamente a outras organizaes e movimentos dotados de melhor estrutura.
    De 1919 a 1935, alm das velhas revoltas camponesas e dos movimentos das
igrejas afro-crists, apareceram na frica meridional e um pouco por todo o
continente novas organizaes polticas africanas que j no se fundamentavam
na comunidade tnica. Eram organizaes elitistas e proletrias.
    A primeira dessas organizaes, e de longe a mais importante, foi o African
National Congress (ANC), fundado na frica meridional em 191219. Tratava-se
de uma vasta organizao destinada a unir todos os africanos politicamente


17    Apud ibid., p. 136-7. Para um estudo detalhado sobre os "Israelitas", ver EDGAR, R., (?).
18    BEINART e BUNDY, 1980, p. 280-4.
19    Para as origens do African National Congress, ver ROUX, 1964, p. 74-6; SIMONS e SIMONS, 1969,
      p. 132-6; GERHART, 1978, p. 21-39.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                                   795




figura 27.1 Isaiah Shembe (1870-1931), fundador dos nazaritas da frica do Sul (Igreja Sionista Africana).
(Foto: International African Institute.)
796                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



ativos. Na origem, o ANC almejava constituir uma organizao africana que
reagrupasse todos os pases da frica meridional pertencentes ao imprio bri-
tnico. Sua assembleia constituinte reuniu representantes da Rodsia, Basu-
tolndia, Bechuanalndia e Suazilndia (ver fig. 27.1). Mais tarde, surgiram
organizaes nacionais em cada um desses pases, regra geral sob a influncia
do ANC. Muitas delas, criadas nas fricas austral, central e mesmo na orien-
tal, no s tomaram o nome emprestado do ANC mas tambm sua estrutura,
programa, regulamento e mtodos, em graus e momentos diversos  bem como
sua fora e suas fraquezas.  fundao do ANC seguiu-se, vinte, trinta ou qua-
renta anos mais tarde, a do Congresso Nacional Africano da Rodsia do Sul e
de outras organizaes semelhantes na Niassalndia, em Tanganica, no Qunia,
em Uganda e na Basutolndia.
    Se os princpios e o exemplo do ANC foram assim fielmente seguidos,
isso se deve ao fato de o Congresso ter sido formado numa poca em que, na
maior parte dos pases da frica, no existia por assim dizer intelligentsia nem
classe operria e muito menos organizaes polticas africanas. Com o grada-
tivo aparecimento da intelligentsia e da classe operria, aqueles que procuravam
reagrupar os africanos em seu pas voltaram-se fatalmente para as organizaes
que j existiam na Unio Sul-Africana.
    Um fator que contribuiu para ampliar essa influncia foi a migrao de tra-
balhadores para a Unio Sul-Africana, fenmeno que foi ganhando progressiva-
mente os pases das fricas austral e central, como Moambique, Niassalndia,
Rodsia do Sul, Basutolndia, Bechuanalndia e Suazilndia. Quando voltavam
para suas aldeias, esses trabalhadores levavam consigo no s a doena profis-
sional dos mineiros, mas tambm o conhecimento do mundo exterior, de outros
lugares, de outras gentes; disseminaram, enfim, novas formas de unidade na luta
que travavam pelo respeito a seus direitos.
    No incio do perodo entre as duas guerras, o ANC j tinha uma experincia
de sete anos de atividades de agitao. Mas sua maturao se alongou at 1952,
data em que assumiu, em sua conferncia anual, o nome de African National
Congresso At ento, usava o ttulo de South African Native National Con-
gresso No mesmo ano, o Congresso adotou um hino e uma bandeira. O hino
chamava-se Nkozi Sikelel'i Africa ("Que Deus abenoe a frica"). Quanto 
bandeira tricolor  preto, verde e ouro , simbolizava o povo (preto), o verde
dos campos (o veld) e a grande riqueza do pas (o ouro)20. Entre 1919 e 1935, o


20    BENSON, 1966, p. 46.
                                                                                             Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935
                                                                                             797
figura 27.2   Poltica e nacionalismo na frica do Sul, 1919-1935. (Fonte: Gerhart, 1978.)
798                                                          frica sob dominao colonial, 1880-1935



ANC passou evidentemente por perodos de intensa atividade e por momentos
de relativa inao. Em 1926 lanou uma campanha de massa contra uma nova
srie de leis racistas que o primeiro-ministro da Unio Sul-Africana, J. Hertzog,
tentava implantar. Em fevereiro de 1926, convocou uma assembleia nacional
em Bloemfontein, na qual os participantes condenaram radicalmente toda dis-
criminao racial, exigiram a igualdade de todos os cidados garantida pela
Constituio, qualquer que fosse sua cor, e decidiram boicotar as "conferncias
indgenas" fantoches organizadas pelo governo.
    No final do mesmo ano, contando com a colaborao de vrias outras organi-
zaes africanas, assim como com a da African Political Organization, principal
movimento poltico dos mestios, e do South African lndian Congress, criado
logo aps a Primeira Guerra Mundial, amlgama das organizaes preexistentes
de Natal e do Transvaal, o ANC convocou o primeiro congresso no-europeu
em Kimberley. Os participantes do encontro rejeitaram "toda poltica de dife-
renciao fundada na cor ou na raa". Condenaram as prticas racistas em uso
no pas e opuseram-se vigorosamente  nova legislao Hertzog, preconizando
"uma cooperao mais estreita entre os elementos no europeus da frica do
Sul". Foi uma abertura, um primeiro passo no sentido da formao de uma
frente antirracista unificada na frica meridional21.
    O ANC desenvolveu atividades tambm no estrangeiro. Contribuiu para a
participao duradoura dos sul-africanos no movimento pan-africanista. Sol T.
Plaatje, um de seus fundadores e dirigentes, esteve presente ao Congresso Pan-
Africano de 1919 em Paris e, em fevereiro de 1927, J. J. Gamede, o presidente
do ANC, visitava a Unio Sovitica.
    O final da dcada de 1920 e os primeiros anos da dcada de 1930 foram, no
entanto, marcados pelo declnio das atividades do ANC. A direo do movi-
mento tinha passado para as mos dos moderados, que receavam a influncia
dos comunistas. No foi seno pelos meados da dcada de 1930 que houve uma
retomada das atividades, quando dos preparativos da All-African Convention,
em sinal de protesto contra a legislao Hertzog. A conveno, realizada em
Bloemfontein em dezembro de 1935, lanou uma campanha de massa contra a
legislao fundiria e eleitoral. Uma delegao apresentou a Hertzog as queixas
dos africanos22. Mas a conveno no chegou a um acordo sobre um programa
e um plano de ao nicos.


21    LEMUMO (pseudnimo de Michel Marmel), 1971, p. 60-1.
22    Ibid., p. 74-5.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935           799



    Nos outros pases da frica meridional, as organizaes polticas africanas
seguiam praticamente o mesmo processo, sem ir to longe, porm, como na
frica do Sul. Regra geral, tratava-se inicialmente de "associaes indgenas",
de "congressos indgenas" e de "sociedades de ajuda mtua", que comearam
ocupando-se de problemas locais e depois ampliaram gradativamente suas
reas de atividade at se tornarem porta-vozes das necessidades dirias de suas
comunidades. Recolhiam e apresentavam s autoridades coloniais as queixas,
reclamaes e agravos. Pouco a pouco, conseguiram mobilizar a participao
popular para a ao poltica e se transformaram em organizaes polticas ou
contribuiram para a criao destas.
    Na Niassalndia, as primeiras "associaes indgenas" surgiram na vspera da
Primeira Guerra Mundial e, no final da dcada de 1920, j tinham proliferado
por todo o pas. Somente no ano de 1933 foram fundadas quinze associaes nas
principais cidades: Zomba, Blantyre, Limo, Lilongwe, Fort Johnston, Karonga e
Chiradzulu. Na Rodsia do Norte, a primeira "sociedade de ajuda mtua" data
de 1923, tendo sido diretamente modelada a partir das organizaes similares
existentes na Niassalndia. Entre seus fundadores destaca-se o nome de David
Kaunda, pai de Kenneth Kaunda23. Em 1930, formou-se uma associao do
mesmo gnero em Livingstone, capital administrativa do protetorado. Seus fun-
dadores eram funcionrios da administrao: Isaac Nyirenda e Edward Tembo
(ambos originrios da Niassalndia). Tinha 350 scios e contava com o apoio
dos chefes tonga. Depois, surgiram associaes aqui e ali, por todo o pas, sobre-
tudo nas cidades do Copper Belt ("Cinturo do Cobre") e ao longo da linha da
ferrovia: em Lusaka, Broken Hill, Ndola, Choma, Luanshya, Chinsali, Abercorn,
Kasama, Fort Jameson, assim como em outras cidades e aldeias (ver fig. 27.3)24.
    Na Rodsia do Sul, tambm apareceram organizaes polticas de novo
gnero nos anos subsequentes  Primeira Guerra Mundial. Criada em janeiro
de 1923, a Rhodesian Bantu Voters Association cuidou de aperfeioar o direito
de voto para os africanos e de obter a restituio das terras espoliadas. Seu
campo de atividades limitava-se  regio de Bulawayo e a vrios distritos da
Matabelelndia. Em Gwelo funcionava uma sociedade de ajuda mtua e, na
Mashonalndia, uma organizao dos indgenas rodesianos25.
    Nos protetorados britnicos da Basutolndia, da Bechuanalndia e da Sua-
zilndia, estreitamente ligados  Unio Sul-Africana, os movimentos anticolo-

23   MEEBELO, 1971, p. 235-43.
24   ROTBERG, 1966, p. 115-34.
25   RANGER, 1970, p. 95-109.
                                                                                                                                                          800
                                                                                                                                                          frica sob dominao colonial, 1880-1935
figura 27.3   Poltica e nacionalismo na frica central, 1919-1935. (Fonte: Cartographic Laboratory, Department of Geography, University of Minnesota.)
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935           801



nialistas tinham slidas ligaes com o ANC. Entre os fundadores do ANC
figuravam um Sotho, Maama Seiso, e um Tsuana, Joshua Molema. Quanto aos
presidentes de honra do ANC eleitos pela assembleia constituinte, estes com-
preendiam o chefe Supremo da Basutolndia, Letsie II, assim como os chefes
dos principais grupos tsuana. Por outro lado, o jornal do movimento, Abantu
Batho, era em grande parte financiado com fundos cedidos pelo chefe supremo
da Suazilndia. A mais ativa das organizaes da Basutolndia era a Lekhotla Ia
Bafo (Liga dos Pobres), que desempenhou importante papel nessa regio entre
as duas guerras. A base social da Lekhotla la Bafo era formada de camponeses,
muitos deles trabalhando sazonalmente como mineiros no Transvaal. A orga-
nizao era dirigida por dois irmos, Maphutseng e Josiel Lefela, que haviam
estabelecido laos com o ANC26.
    Os adeptos da Liga achavam que os britnicos tinham violado o acordo de
protetorado feito com Moshoeshoe e que, portanto, a Inglaterra j no detinha
qualquer direito sobre a Basutolndia. A Liga assustou os dirigentes do ANC,
pelo fato de exibir uma posio radical e de, a partir de 1928, se aproximar do
Partido Comunista sul-africano. As autoridades britnicas ordenaram ento
aos chefes locais que proibissem todas as reunies da Liga. Mas, em agosto de
1928, ela organizou em Maseru uma manifestao de protesto contra a proi-
bio. Foi a primeira manifestao de massa da histria da Basutolndia, na
qual tomaram parte milhares e milhares de africanos. Quando o presidente do
ANC, Gumede, voltou de sua viagem  Unio Sovitica, a Liga o convidou a
discursar num comcio na Basutolndia. Em consequncia, ela foi acusada por
muitos anos de ser um "instrumento de Moscou" e alvo de perseguies, mas
deu prosseguimento a suas atividades27.
    Estas primeiras organizaes polticas da frica meridional no tinham
uma base social muito ampla. Os adeptos eram recrutados em regra no meio da
elite educada que tinha ascendido s profisses liberais. Esses grupos e associa-
es no apresentavam um programa de ao muito preciso: contavam poucos
adeptos e eram efmeros. No entanto, foram eles que abriram caminho a outras
organizaes, mais numerosas, mais slidas e mais eficazes.
    Os movimentos operrios que se formaram nas regies industriais consti-
turam uma nova forma de luta anticolonial. As pessoas que participaram das
primeiras greves e militaram nos sindicatos operrios surgidos praticamente
na mesma poca no podem ser classificadas como "operrios", a no ser com

26   ROUX, 1964, p. 212.
27   Ibid., p. 212-3.
802                                                          frica sob dominao colonial, 1880-1935



certas reservas. Em sua maioria, esses trabalhadores continuavam fortemente
presos s origens rurais, ao menos pela mentalidade e amide pelas condies
econmicas. No tinham o menor sentimento de pertencer ao proletariado. O
movimento proletrio africano nem por isso deixa de remontar suas origens a
essas aes iniciais. As primeiras manifestaes de massa deram-se entre 1918
e 1920 na Unio Sul-Africana. Estouraram greves nas minas do Transvaal, mas
os grevistas eram operrios sazonais, provindos de vrios pases das fricas
central e meridional28. Foi no incio de 1918 que comearam os movimentos de
massa, com o boicote s lojas da empresa, nas quais a direo das minas vendia
aos operrios alimentos e bens manufaturados. O boicote foi organizado pelos
mineiros que trabalhavam na parte oriental do Witwatersrand, zona mineira do
Transvaal (ver fig. 27.2).
    A greve seguinte, ocorrida em Johannesburgo, foi desencadeada pelos afri-
canos empregados do Servio de Esgotos e da Coleta de Lixo. Os grevistas
eram menos numerosos, mas estavam mais bem organizados. Membros da
organizao Industrial Workers of Africa (Trabalhadores Industriais da frica),
criada em 1917 entre os empregados dos servios municipais de Johannesburgo,
provavelmente participaram da greve, que foi esmagada e os grevistas levados aos
tribunais: 152 africanos foram condenados a dois meses de trabalhos forados.
No entanto, a "greve das caambas" tinha demonstrado que o trabalho de toda e
qualquer categoria de trabalhadores africanos era indispensvel ao bom funcio-
namento do maior centro industrial do continente. As ruas da cidade estavam
juncadas de sujeira e de esgoto, e havia o risco de epidemias.
    A greve desencadeou um grande movimento. Durante as reunies de pro-
testo contra as prises e as sentenas injustas, germinou a ideia de lanar junto
dos trabalhadores africanos uma ordem de greve geral para o dia I de julho de
1918. A greve visava tambm apoiar a reivindicao de aumentar em um xelim
o salrio dirio do operrio africano. O ANC aceitou a ideia, embora com reti-
cncias. Diante da presso, as autoridades tiveram de anular as sentenas que
condenavam os operrios, recebendo o primeiro-ministro, Louis Botha, uma
delegao de africanos encabeada pelo Zulu Saul Msane, dirigente da seo
ANC do Transvaal, cujas queixas ouviu. A greve foi desmobilizada. No entanto,
a 1 de julho, 15 mil mineiros que trabalhavam em trs minas diferentes cessa-
ram suas atividades. A polcia levou  fora os grevistas para a mina, ao cabo
de violentos confrontos em que os mineiros combateram a golpes de machado,

28    Houve manifestaes menores de oposio dos mineiros que datam de comeos do sculo XX. Ver
      WARWICK, 1978; MORONEY, 1978.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                   803



picareta e canos de ferro. Na represso que se seguiu, africanos e europeus se
viram lado a lado no banco dos rus sob a acusao de incitao  greve. Eram
eles D. S. Letanka, vice-presidente do ANC do Transvaal, L. T. Mwabaza,
diretor do jornal Abantu Batho, N. D. Ngojo, H. Kraai e A. Cetyiwe, membros
da Industrial Workers of frica, e trs dirigentes socialistas brancos da South
African International Socialist League, formada em 1915: S. P. Bunting, H. C.
Hanscombe e T. P. Tinker. Durante o julgamento, o promotor, com base nos
relatrios de vrios agentes da polcia que se tinham infiltrado na Industrial
Workers of frica, acusou Bunting, Hanscombe e Tinker de terem sido os
instigadores das greves de Johannesburgo e das minas.
    Em fevereiro de 1920, nova greve estourou em 22 minas do Transvaal, a
qual foi respeitada por 71 mil africanos. Os grevistas apresentaram uma srie
de reivindicaes: considervel aumento de salrios (em vez de 2 xelins por dia,
reclamavam de 5 a 10 xelins), a possibilidade de acesso a postos de responsa-
bilidade e a empregos mais bem pagos, reforma radical da gesto das lojas da
empresa e, por fim, a atenuao da discriminao racial. Os grevistas deram
provas de notvel coeso. No h seno que admirar o modo como essa gente,
de nacionalidade diversa e separada pela barreira de mltiplas lnguas, conseguiu
obter semelhante unidade de pontos de vista. O exrcito e a polcia empregaram
a fora para dissolver a greve29. Mas ela foi a mais importante da histria da
frica at 1946, data em que se desencadeou um movimento de maior ampli-
tude, tambm no Transvaal.
    Na Rodsia, o primeiro movimento operrio de massa, que remonta a maio
de 1935, desenrolou-se nas minas do Copper Belt, na Rodsia do Norte. Os
mineiros exigiam aumento dos salrios e reduo dos impostos, enquanto pro-
testavam contra as ms condies de trabalho e as diversas formas de discrimina-
o racial. A ao no foi inteiramente espontnea, e a maneira como os grevistas
se comportaram revela a presena de um grupo que procurava tomar a direo
do movimento. Foram distribudos panfletos de incitao  greve, redigidos em
chibemba, lngua materna da maior parte dos mineiros. A greve foi declarada
na mina de Mufulira, em 22 de maio, mas o exrcito a dissolveu no dia seguinte.
No entanto, no dia 26, o movimento estendeu-se  mina de Nkana e, no dia 28,
 de Luaanshya. Vinte e oito grevistas foram mortos ou feridos nos confrontos
com as tropas, que procederam  priso de mineiros. A greve teve repercusses



29   Para um exame dessas greves, ver BONNER, 1979; ROUX, 1964, p. 132-4; SIMONS e SIMONS,
     1969, p. 230-43.
804                                                           frica sob dominao colonial, 1880-1935



que transbordaram de muito a regio do Copper Belt, pois ela atraa mineiros do
vizinho Katanga e muitos trabalhadores sazonais de outras regies da frica30.
     medida que o movimento operrio africano se ampliava, o proletariado
industrial branco ia perdendo o ardor militante. A revolta armada dos mineiros
brancos do Transvaal de comeos de 1922 foi a ltima grande manifestao de
trabalhadores brancos da frica do Sul. Paralelamente ao aumento do proleta-
riado africano, houve a ascenso de um nmero crescente de brancos a postos
de chefia, constituindo, afinal de contas, uma aristocracia do trabalho. Levada
pela vaga de reivindicaes na indstria, que varreu a frica meridional logo
em seguida  Primeira Guerra Mundial, formou-se a maior organizao prole-
tria africana. A dcada de 1920 assistiu a seu apogeu e, depois, a seu declnio.
A Industrial and Commercial Workers' Union of Africa (ICU) foi criada em
janeiro de 1919 na Cidade do Cabo, por ocasio de uma greve dos estivadores
africanos e mestios. A primeira assembleia constituinte reuniu menos de trinta
participantes. Mas, cinco anos depois, em 1924, a ICU contava 30 mil mem-
bros. Em 1927, o nmero de aderentes atingia 100 mil (seu dirigente antecipou
mesmo a cifra de 250 mil). Suas ramificaes iam muito alm das fronteiras da
Unio Sul-Africana, estendendo-se  Rodsia do Sul e a outros pases. A ICU
procurava unir os trabalhadores dos mais diversos setores de atividade: funcio-
nrios dos servios municipais, operrios da construo, ferrovirios, mineiros,
martimos, trabalhadores rurais, operrios de fbricas, estivadores, empregados
de transportes, comrcio e servios. Ele contava entre seus adeptos tanto afri-
canos como mestios31.
    O prembulo da ata de constituio da ICU inspirava-se na ideologia
socialista:
      Considerando que os interesses dos trabalhadores e os dos patres so contraditrios,
      os primeiros vivendo da venda de seu trabalho e no recebendo seno uma parte
      da riqueza que produzem, os segundos vivendo da explorao do trabalho dos assa-
      lariados e privando os trabalhadores de uma parte do produto do seu trabalho, da
      qual tiram o lucro, a paz no poder reinar entre as duas classes e uma luta dever
      constantemente ser travada para assegurar a diviso do trabalho humano, at o dia
      em que os trabalhadores, atravs de suas organizaes sindicais, retirem da classe
      capitalista os meios de produo, para que eles mesmos os possuam e administrem



30    ROTBERG, 1966, p. 161-8. As greves menores remontam ao incio do sculo XX.
31    Para uma anlise da ICU, ver BONNER, 1978; KADALIE, 1970; JOHNS, 1970; LUCKHARDT e
      WAIL, 1980, p. 39-46.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935             805



     pelo bem de todos e no mais em proveito de uma minoria. Dentro de tal sistema,
     quem no trabalhar no comer. A remunerao repousar no princpio `a cada um
     segundo suas necessidades' e no mais `a cada um segundo sua capacidade'.
    A ICU assumiu numerosas e variadas tarefas. Prometeu aos adeptos lutar
pela conquista de salrios mais elevados, por melhores condies de trabalho,
pela aposentadoria, pelo seguro-sade, auxlio-desemprego e pela proteo dos
direitos do trabalhador. Proclamou que sua competncia se estendia ao conjunto
do continente africano.
    Seu fundador e chefe, Clements Kadalie (c. 1896-1951), era um trabalhador
sazonal que tinha emigrado da Niassalndia para a Unio Sul-Africana, onde se
tornou professor depois de cursar uma escola missionria. O sindicato alcanou
o mximo de sua influncia por meados da dcada de 1920, mas sofreu forte
declnio na virada da dcada de 1920 para a de 1930, devido  sua diviso em
trs fraes32.
    A influncia socialista tambm se fez sentir em uma organizao operria
africana mais antiga, a Industrial Workers of Africa, da qual j falamos. Com
efeito, a International Socialist League desempenhou um papel de certa impor-
tncia na formao e nas atividades desse movimento. A Liga, constituda por
socialistas e militantes operrios brancos da Unio Sul-Africana, compreendeu
pouco a pouco a necessidade de uma solidariedade proletria, sem considerao
pela cor da pele. O reconhecimento dessa necessidade se imps muito particular-
mente no apelo que ela lanou em 1918-1920 aos operrios, tanto negros como
brancos. Durante a greve dos mineiros africanos do Transvaal, em fevereiro de
1920, os socialistas distriburam aos mineiros brancos panfletos redigidos por
um dos responsveis pela Liga, S. P. Bunting (1873-1936), e intitulados "No
nos atraioem!". Eis um trecho: "Trabalhadores brancos! Esto escutando o
novo exrcito do trabalho em marcha? Os operrios indgenas comeam a des-
pertar. [...] Trabalhadores brancos, no os repudiem! [...] Fiquem do lado dos
trabalhadores, mesmo indgenas, contra os capitalistas, nossos patres comuns"33.
    Num panfleto anterior, destinado aos operrios africanos e intitulado "Apelo
aos trabalhadores bantu", os socialistas declaravam: "Que importa a cor da sua
pele! Vocs pertencem s massas laboriosas do mundo inteiro. Daqui por diante,
todos os assalariados fazem parte da grande confraria dos trabalhadores"34.


32   KADALIE, 1970, p. 52-3, 61-2.
33   ROUX, 1944, p. 46-8.
34   Ver UNIO DA FRICA DO SUL, 1922, p. 288-9.
806                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Outro panfleto, publicado em 1918-1919 em vrias lnguas, principalmente
ingls, zulu e sotho, e dirigido aos "Trabalhadores da frica do Sul, negros e
brancos!", lanava o seguinte apelo: "Para nos prepararmos, h que fazer reunies
nas oficinas. Unam-se como trabalhadores, sem distines de cor. Lembrem-se
de que ter preconceito contra um de ns, seja negro ou branco,  ter preconceito
contra todos os trabalhadores"35.
    Na poca, dificilmente se esperava que tais apelos despertassem grande eco.
Negros ou brancos, os operrios ainda eram numericamente muito fracos e
muito pouco amadurecidos. No entanto,  importante saber que, desde essa
poca, semelhantes ideias eram proclamadas em solo africano. A International
Socialist League e vrias outras organizaes socialistas sul-africanas fundi-
ram-se e, reunidas em congresso na Cidade do Cabo, em 1921, criaram o Partido
Comunista da frica do Sul, primeiro no gnero a ser organizado no continente
africano. O partido definiu seus objetivos em um manifesto que foi adotado por
ocasio do primeiro congresso. Tratava-se de associar a ideia de transformao
social radical ao internacionalismo autntico, que inspirava seus elementos mais
progressistas para apressar o momento
      em que a luta de classes ser para sempre abolida, em que a humanidade no curvar
      mais a espinha sob o ltego do opressor, em que as necessidades e amenidades da vida
       conforto e cultura, honra e poder  estaro  disposio daqueles que trabalham
      e no de quem explora os outros, o momento em que no haja mais `senhor nem
      escravo', mas em que seremos todos camaradas trabalhando em comum36.
     certo que os comunistas sul-africanos no conseguiram definir de ime-
diato um programa global correspondente a todos os problemas especficos e
complexos que a frica austral experimentava e, de incio, talvez se tenham
inspirado demasiadamente na experincia europeia. Isso  compreensvel, dado o
contexto local, e se explica pela prpria composio do Partido Comunista, que,
inicialmente, era formado exclusivamente de brancos, assim como pela profunda
influncia exercida pelos movimentos operrios da Europa Ocidental (principal-
mente no Reino Unido) e pela incontestvel complexidade da situao reinante
na frica do Sul. No entanto, em comeos da dcada de 1930, eram os africanos
que constituam a maioria dos membros do partido, cujo secretrio-geral era um
Zulu, Albert Nzula (1905-1934). Desde ento a libertao nacional tornou-se
o objetivo essencial da ao do partido.

35    Ver The International, Johannesburgo, 25 de abril de 1919.
36    LEMUMO, 1971, p. 117-20.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                                          807



     A oposio popular  dominao colonial no Congo Belga
    O controle crescente do Estado, a trama fechada dos regulamentos racistas,
uma poltica de nomeao para cargos pblicos muito elaborada e uma onda de
doenas epidmicas enfraqueceram os protestos de tipo social que se manifes-
tavam no Congo Belga37. A oposio popular prosseguiu, contudo, se bem que
em menor escala, assumindo formas diferentes das do perodo anterior.
    A oposio camponesa no Congo, muitas vezes espordica e pouco visvel,
revestiu-se de vrias formas, todas destinadas a evitar ou a minimizar o impacto
destrutivo do sistema capitalista e colonial sobre os modos de vida existentes.
A recusa ao pagamento de impostos continuou com grande frequncia nos
anos que se seguiram imediatamente  Primeira Guerra Mundial. Milhares de
camponeses fugiam atravs das fronteiras abertas para as regies vizinhas de
Angola e do Congo francs, enquanto outros desapareciam na mata antes da
chegada dos cobradores de impostos. A fronteira angolana era particularmente
atraente, porque a presena colonial portuguesa era mnima e em razo dos laos
histricos que uniam os Bakongo de um lado e de outro da fronteira. Muitos
membros da populao rural empregavam uma estratgia semelhante para evitar
o trabalho nos projetos do Estado, nas minas ou nas plantaes europeias. Con-
forme recordava um velho que havia sido requisitado para trabalhar nas linhas
da estrada de ferro de Katanga: "Ns fugimos da aldeia ... Ningum sabia para
onde tnhamos ido, nem os brancos do boma. Abandonamos a aldeia  noite e
rumamos para o Luapula. Chegando ao rio, uns pescadores bondosos ajudaram
a gente a atravessar"38. Outros camponeses recusavam-se a cultivar o algodo
ou o arroz de obrigao ou plantavam menos do que as quantidades fixadas39.
     medida que o aparelho estatal se estendia s regies mais recuadas e que
se implantava uma rede de chefes legalistas, as possibilidades de ficar fora do
sistema capitalista e colonial diminuam cada vez mais. A crescente hegemonia
do Estado refletia-se no aumento de 400% dos impostos recebidos entre 1917


37   Para um apanhado do perodo colonial, ver JEWSIEWICKI, (?); STENGERS, 1974, p. 391-440.  dif-
     cil estudar as atividades rebeldes, j que a maior parte dos historiadores, at alguns anos atrs, declarava
     que se tratava de um perodo tranquilo, concentrando-se portanto na era posterior  Segunda Guerra
     Mundial. H igualmente, de modo geral, uma tendncia economicista na literatura sobre a matria, a
     qual costuma reduzir os camponeses a simples produtores de mais-valia, a cuja histria falta qualquer
     importncia e significao no contexto capitalista e colonial. Semelhante interpretao rouba-lhes a
     dignidade de agentes histricos que desempenharam um papel moldando seus prprios destinos, fazendo
     deles vtimas impotentes ou passivas.
38 Apud PERRINGS, 1979, p. 153.
39   JEWSIEWICKI, 1980, p. 62-4.
808                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



e 1929 e pela dramtica elevao do nmero de camponeses obrigados a plantar
algodo40. Em 1935, estima-se que 900 mil deles praticavam essa cultura. Em
vista dessa modificao do equilbrio de foras, no surpreende que as confron-
taes diretas, to frequentes no perodo anterior  Primeira Guerra Mundial,
tenham quase desaparecido. s vezes, camponeses muito oprimidos atacavam
os smbolos da opresso  os chefes legalistas, a polcia africana e os coletores de
impostos. Bem mais perigosas foram as revoltas camponesas que se produziram
no Baixo Congo, entre 1920 e 1922, na regio de Cuango, dez anos mais tarde
41
   , e entre os camponeses e operrios pende de Kwilu, em 1931 (ver fig. 27.3).
O aumento brutal dos impostos, a reduo de 500% dos preos que os agricul-
tores recebiam por seus produtos e a deciso da Unilever de baixar os salrios
em suas plantaes, tudo isso alimentou o descontentamento popular e levou ao
grande levante de 1931. Os insurretos atraram outros partidrios, quando um
"profeta", Matemu-a-Kenenia, revelou que os antepassados haviam ordenado
que os africanos matassem ou destrussem todos os animais e objetos brancos
do pas, preldio de uma interveno divina e do fim da dominao branca. O
movimento ganhou amplo apoio, mas foi imediatamente reprimido. Mais de
quatrocentos Pende e um europeu perderam a vida no embate42.
      Outros movimentos religiosos e polticos exerceram influncia ainda maior
sobre os camponeses, tanto mais que as autoridades coloniais tinham proibido estri-
tamente todas as organizaes puramente polticas. Seu poder de atrao tambm
refletia o crescente sentimento de ansiedade e de frustrao produzido pelas incer-
tezas econmicas da crise de 1921 e da grande depresso, dez anos mais tarde.
      O mais importante desses movimentos foi o kimbanguismo, que deve seu
nome a Simon Kimbangu, campons Bakongo. Catequista, proclamava que
Deus lhe tinha dado o poder de curar os doentes, de combater a feitiaria e de
fazer reviver os mortos. Em 1921, declarou a seus partidrios, orgulhosos de
terem um messias negro, que era um enviado, profeta e filho de Deus. A natu-
reza divina de Kimbangu estava simbolizada por seu nome bakongo, Gunza,
que significa "Todos Juntos"43.
      Ele declarava, tambm, de maneira ao mesmo tempo vaga e genrica, que iria
libertar os africanos do jugo da dominao colonial. Sua retrica anticolonialista,
sua popularidade crescente e a ao de alguns de seus partidrios convenceram


40    FETTER, 1976, p. 83; JEWSIEWICKI, 1980.
41    NZULA, POTEKHIN e ZUSMANOVICH, 1979, p. 108-11.
42    Ibid.; BUSTIN, 1975, p. 119-20.
43    BALANDIER, 1965, p. 443-60.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                           809



a administrao belga de que deveria ser eliminado. No dia 14 de setembro de
1921 foi preso e condenado  morte. Em seguida, foi deportado para Katanga,
onde morreu trinta anos depois como um mrtir44.
    Se bem que Kimbangu no fosse revolucionrio, seus partidrios fizeram de
seu movimento uma cruzada mais antieuropeia do que religiosa. Sob o lema "O
Congo para os congoleses", o movimento oferecia uma sada  oposio espon-
tnea do povo  dominao colonial. Os kimbanguistas exortavam o povo a no
trabalhar para os europeus, a no plantar os produtos de exportao impostos
pela administrao colonial, a no pagar taxas e tributos, a no mandar os filhos
para as escolas dos missionrios e, de modo geral, a desobedecer aos belgas45.
Seus hinos esto cheios de referncias aos atos hericos de Kimbangu e, segundo
as autoridades belgas, alimentavam a esperana de que o chefe e seus discpulos
"voltassem para pr fim  dominao branca"46.
    Por mais de vinte anos houve ressurreies peridicas do kimbanguismo,
geralmente em perodos de grande tenso e de angstia econmica. Nas cidades
e nas aldeias, os adeptos participavam ativamente na luta contra o colonialismo
e seus esforos de propaganda chegaram a influir nas greves do pessoal das
ferrovias, dos escritrios e das refinarias de petrleo do Baixo Zaire, de 1921
a 1925. Apesar da cruel represso que os atingiu, os kimbanguistas no foram
esmagados. Em 1921, no incio do movimento, 37 mil pessoas foram expulsas
do Baixo Congo, prosseguindo entretanto em suas atividades, recrutando novos
adeptos em seus locais de exlio. Diversas ramificaes do kimbanguismo, mui-
tas vezes pouco ligadas entre si, surgiram pelo Congo, onde os kimbanguistas
estabeleceram laos com as igrejas afro-crists da Nigria e de Uganda e ainda
com os adversrios do colonialismo francs no Congo francs.
    Outro grande movimento religioso independente apareceu na mesma poca
em que Kimbangu deu incio s suas atividades: a "Torre de Vigia" africana,
geralmente mais conhecida no Congo como Kitawala. Sua base inicial parece
ter sido a Rodsia do Norte, a Niassalndia e o Tanganica. Em 1923, pregadores
da regio leste da Rodsia do Norte e da regio oeste de Tanganica comearam
a atrair muita gente para Katanga, principalmente para as zonas prximas dos
centros de recrutamento da Union Miniere47. Sob a gide dinmica de Tomo


44   Ibid., p. 450.
45   A history of Africa, Moscou, 1968, p. 391-2.
46   BALANDIER, 1965, p. 450.
47   A anlise mais importante do movimento Kitawala no Congo deve-se a HIGGINSON, J., (?). Grande
     parte de nosso estudo sobre o Kitawala tem base nesse artigo.
810                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



Nyirenda, tambm conhecido como Mwana Lesa (filho de Deus), o movimento
Kitawala, cujo nome significa, em swahili, "um meio de dominar", adotou uma
posio abertamente anticolonialista. Lanando slogans militantes como "A
frica para os africanos" e "Igualdade das raas", Nyirenda e seus principais
lugares-tenentes exortavam seus partidrios a assassinar os europeus e seus
aliados africanos, especialmente os chefes legalistas.
    Em 1926, o movimento Kitawala estava solidamente instalado no sul de
Katanga, que tinha sofrido inmeras epidemias e onde os efeitos deletrios
do recrutamento de mo de obra mais se faziam sentir. Estendeu-se, tambm,
s regies mineiras de Kasai e Kivu; os mineiros, ao voltar para casa depois
de expirados seus contratos, propagavam suas ideias nas regies orientais e
equatoriais. Temendo a crescente influncia de Nyirenda e os laos cada vez
mais estreitos que este mantinha com vrios chefes dissidentes, as autoridades
coloniais enviaram em 1926 um destacamento militar para captur-lo. Nyirenda
fugiu para a Rodsia do Norte, onde os britnicos o prenderam e finalmente o
executaram48.
    Como no caso do kimbanguismo, a eliminao do profeta no diminuiu o
apoio popular ao Kitawala. Nas zonas rurais, sacerdotes do movimento orga-
nizaram protestos contra os impostos e atiaram a hostilidade contra os chefes
nomeados pelas autoridades. Um ramo do Kitawala, dirigido por Mumba Napo-
lon Jacob, comeou a infiltrar-se no meio dos trabalhadores de Elisabethville
(Lumumbashi), dos empregados da estrada de ferro e dos mineiros da Union
Miniere. Os adeptos ajudaram, em 1931, a organizar o boicote de Elisabethville;
cinco anos depois, tiveram um papel importante nas agitaes da usina da Union
Miniere em Jadotville. Durante a greve de Jadotville, um membro confesso do
Kitawala utilizou as Santas Escrituras para atacar as injustias da discriminao
racial.
      Este livro mostra claramente [afirmava ele de Bblia na mo] que todos os homens
      so iguais. Deus no criou o homem branco para que domine os negros. No  justo
      o homem negro, que faz o trabalho, ficar na pobreza e na misria e os salrios dos
      brancos serem muito maiores do que os dos negros.49




48    Ibid.
49    Apud PERRINGS, 1977, p. 50.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                               811



   Aps a greve de Jadotville, o Estado tentou sem xito esmagar mais uma
vez o Kitawala, que depois teve parte importante na greve de Elisabethville, em
194150.
   O fato de as greves s terem comeado na dcada de 1930 mostra que a for-
mao de uma classe operria africana e de um movimento proletrio incipiente
se deu em ritmo bem mais lento no Congo Belga do que na frica do Sul. A
descoberta de cobre, estanho e urnio, em Katanga, de diamantes, em Kasai, e
de ouro, em Kilo Moto, precipitou o desenvolvimento de uma classe operria
industrial. Por volta da dcada de 1920, estavam empregados na extrao de
minerais para cima de 60 mil trabalhadores.
   Como em outras partes do continente, a reao inicial dos africanos aos
baixos salrios e s durssimas condies de trabalho foi a desero. Inme-
ros camponeses fugiram das provncias de Katanga e de Kasai para escapar
dos agentes da Bourse du Travail de Katanga (BTK), agncia de mo de obra
industrial que recrutava e distribua os operrios em Katanga. Outros escaparam
pouco depois de terem chegado s minas. A desero j se havia tornado um
problema to grande em 1914 que a BTK introduziu um sistema de passes e um
centro de impresses digitais para poder seguir o rastro dos fugitivos51. Apesar
das medidas coercitivas, ela continuou a prevalecer. Em 1918, por exemplo, nas
minas de cobre Staret Liksai, a taxa de deseres era respectivamente de 74%
e de 66,5%. Embora diminusse ligeiramente na dcada de 1920, continuou a
manter-se entre 20% e 35% at a grande depresso, quando a falta de outras
fontes de renda tornou essa estratgia contraproducente52.
   Enquanto milhares de indivduos fugiam das minas, outros, em Katanga,
comeavam a se organizar, mesmo da forma mais precria e espordica, para
melhorar suas condies de trabalho. Em 1921, muitos mineiros de Luishi, por
exemplo, cessaram o trabalho e foram para Elisabethville, a fim de se queixar
aos funcionrios do governo dos maus-tratos e da falta de alimentao. Dois
anos mais tarde, uma paralisao semelhante ocorreu nas minas de Kakontwe53.

50   HIGGINSON, (?). O kimbanguismo e o kitawala no eram os nicos movimentos religiosos e pol-
     ticos do Congo. As seitas Muvungu, Lukusu, Mpewe e outras estavam igualmente ativas na provncia
     de Bandundu e pregavam aos africanos que no trabalhassem para os belgas, mas que se preparassem
     para o tempo em que estes seriam expulsos do pas. Esses eram os sentimentos defendidos na dcada
     de 1930 pela "Serpente que Fala" (ou "Homem-Serpente"), seita operando nas provncias de Bandundu
     e do Kasai ocidental. A "Misso Negra", os Tunzi do Baixo Zaire e o "Povo do Leopardo" opunham-se
     ao plantio forado de culturas de exportao no Alto Zaire.
51   PERRINGS, 1979, p. 153.
52   Ibid., p. 171; FETTER, 1974, p. 208.
53   PERRINGS, 1979, p. 213-35.
812                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    A grande depresso provocou novas incertezas econmicas. Os empregos desa-
pareceram, os salrios diminuram, as condies de trabalho se deterioraram, na
medida em que os grupos mineiros procuravam reduzir custos. Apesar das amea-
as de demisso, irromperam paralisaes do trabalho e "agitaes" nas minas da
Union Miniere em Kipushi, Ruashi e Mswenu Ditu, no ano de 1931, interrom-
pendo temporariamente as operaes54. No mesmo ano, os trabalhadores orga-
nizaram um boicote em Elisabethville, para protestar contra os elevados preos
cobrados por produtos bsicos pelas lojas da Union Miniere e pelos comerciantes
europeus independentes. Antes de terminar, ele estendeu-se s regies vizinhas e
obteve o apoio dos trabalhadores da construo, dos carpinteiros e dos pedreiros,
o que indica uma crescente tomada de conscincia da mo de obra operria55. O
comissrio do distrito de Alto Katanga deplorava esse novo esprito de militncia.
"Os negros, animados de uma arrogncia sem limites [notava ele com desprezo],
tornam-se cada vez mais refratrios, j no obedecem passivamente, mas discutem
as ordens que lhes so dadas e replicam, s vezes de modo insolente"56.
    O novo esprito de militncia tambm se refletiu em algumas greves, entre 1935
e 1937, tanto em meio aos mineiros como em outros setores da classe operria de
Katanga. Os empregados, em protesto contra os baixos salrios e a discriminao
racial, paralisaram a usina da Union Miniere, em Jadotville, e as minas de estanho
de Manon e Mwanza. Os operrios que trabalhavam em Niemba e Kabala para a
Estrada de Ferro do Grande Lago tambm se declararam em greve, tal como os
da tecelagem governamental de algodo de Niemba57. Apesar da priso dos chefes
e da represso s greves, o sentimento de revolta e as redes clandestinas e, com
eles, o sentimento de autoconfiana coletiva ganharam fora. Tudo isso preparou o
terreno para a grande greve de 1941, na qual milhares e milhares de trabalhadores
africanos cessaram toda atividade nas minas de cobre e de estanho da provncia de
Katanga. Seu objetivo ia alm das reivindicaes puramente econmicas. "Eles no
procuravam esconder seu objetivo", notava um observador europeu. "Tratava-se de
expulsar os brancos do pas e de substituir a bandeira azul da Blgica pela bandeira
negra do Kitawala, para assinalar uma mudana no regime"58
    Tal como no caso do movimento operrio, as associaes polticas e os parti-
dos nacionalistas desenvolveram-se muito mais lentamente no Congo Belga do


54    HIGGINSON, (?), p. 8-10.
55    Ibid., p. 9-10.
56    Apud FETTER, 1974, p. 217.
57    HIGGINSON, (?), p. 10-3.
58    Apud ibid., p. 60.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                                  813



que na frica do Sul. De fato, organizaes explicitamente nacionalistas, como
a Associao de Bakongo (ABAKO), no surgiram antes do final da dcada de
195059, Durante esse perodo, no entanto, proliferaram associaes fechadas, sob o
nome de Mbeni. Foram levadas para a colnia belga pelos conscritos africanos que
tinham servido na frica Oriental Alem durante a Primeira Guerra Mundial. Os
Mbeni eram essencialmente clubes de dana, mas tambm proporcionavam uma
rede de ajuda mtua para seus membros. Seus chefes, muitas vezes, tinham ttulos
militares copiados dos europeus, o que dava a impresso de que eles possuam, em
certa medida, o poder dos brancos. Embora os Mbeni no fossem originariamente
anticolonialistas, seus cantos e suas danas ridicularizavam muitas vezes as autori-
dades europeias e exprimiam um ressentimento popular profundamente arraigado
em relao ao domnio colonial. Alm disso, os africanos considerados aliados
dos europeus no tinham o direito de entrar nesses clubes, e aqueles que estavam
estreitamente ligados aos europeus no podiam ocupar postos de chefia neles60.
    A crtica explcita do colonialismo e os ataques contra os negros legalistas
inquietavam as autoridades belgas, que se esforavam para destruir todas as
formas de protesto social. Em 1923, uma subcomisso governamental concluiu
que os Mbeni se radicalizavam e se abriam s infiltraes comunistas. Trs anos
depois, todas as associaes urbanas africanas  inclusive os Mbeni  foram
colocadas sob o controle direto do regime colonial. O governo tambm enco-
rajou os missionrios heneditinos a organizar associaes rivais, cujos membros
declararam uma guerra de gangues contra as sociedades Mbeni. As perseguies
das autoridades, a guerra das gangues, as rivalidades internas e externas das
sociedades urbanas, assim como o deslocamento das estruturas urbanas provo-
cado pela grande depresso  tudo isso contribuiu para reduzir a influncia e a
importncia de tais associaes por volta dos meados da dcada de 193061.


     Angola e Moambique: viso de conjunto
     do quadro poltico e econmico
   Apesar da distncia que as separava e da diversidade de seus povos e de suas
economias, as sociedades coloniais de Angola e de Moambique tinham mais


59   Ver, por exemplo, WEISS, 1967; YOUNG, 1965.
60   FETTER, 1974, p. 210-5.
61   Ibid. Para um estudo geral do desenvolvimento e da expanso das sociedades Mbeni nas fricas central
     e oriental, ver RANGER, 1975.
814                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



coisas em comum do que com seus vizinhos imediatos. O carter especfico do
colonialismo portugus e, em certa medida, a oposio popular que ele provocava
podem ser deduzidos de quatro fatores: a fraqueza inicial do Estado colonial,
a natureza progressivamente autoritria do regime colonial, a falta de capitais
portugueses e, correlativamente, o recurso ao trabalho forado e a uma poltica
de assimilao.
    Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, importantes zonas de Angola e
de Moambique escapavam ao controle efetivo de Lisboa. Enquanto a adminis-
trao colonial estava bem instalada em pontos urbanos da costa, como Luanda,
Benguela, Beira, Loureno Marques e adjacncias, em regies inteiras do inte-
rior a presena colonial continuava a ser puramente nominal e dependia muitas
vezes de uma aliana com os chefes locais e a polcia africana, cuja lealdade era
duvidosa.
    Vejamos primeiro a situao em Angola. At 1914, o Ovambo, no sul, era
efetivamente independente, enquanto havia revoltas em estado latente na regio
vizinha de Ganguela at 1917. As terras dos Quioco, no distrito de Lunda, s
foram ocupadas em 1920. Ao norte, na regio do Congo, a oposio perdurou
at 1919, enquanto os Dembo rebelados desafiaram a administrao colonial
at 191862.
    A posio de Portugal em Moambique era pouco melhor. Vrios sultanatos
setentrionais e rgulos yao haviam efetivamente desafiado o regime colonial at
1914, e os planaltos onde viviam os Maconde escaparam  dominao at 1921.
Por outro lado, durante a Primeira Guerra Mundial, quando as foras alems do
Tanganica vizinho invadiram o norte de Moambique, foram recebidas como
libertador as por alguns rgulos dos Macua, que vinham sofrendo a durssima
dominao da Companhia do Niassa. Mesmo na metade sul da Colnia, onde a
administrao colonial estava mais solidamente instalada, as autoridades temiam
um levante macio (ver fig. 27.3)63.
    Depois da guerra, Lisboa intensificou a natureza autocrtica de sua domi-
nao. A poltica "esclarecida" do incio do governo republicano (1910-1926)
deu lugar a programas mais repressivos, ainda que no necessariamente mais
eficazes. Incompetente e corrupto, o governo republicano foi finalmente derru-
bado por uma aliana conservadora, constituda por banqueiros, industriais, a
hierarquia catlica e os militares, em 1926. Essa aliana preparou o advento do


62    Para um exame detalhado dessas revoltas, ver PLISSIER, 1977.
63    Para um exame da resistncia africana durante esse perodo, ver ISAACMAN, 1976; NEWITT, 1981,
      p. 57-64.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                 815



governo fascista de Antnio de Oliveira Salazar. Para garantir a harmonia social
e a dominao colonial perptua que a ideologia corporativista e ultranaciona-
lista de Salazar contemplava, os regimes coloniais, exatamente como o governo
da metrpole, empregaram vasta gama de instrumentos de opresso. Censura,
delao, polcia secreta e fora militar serviram para reprimir toda oposio que
se manifestasse, negra ou branca.
    O terceiro fator foi o carter particular da explorao econmica em Angola
e em Moambique, determinado pelo empobrecimento da me-ptria. Durante
o perodo em estudo, a capacidade portuguesa de extrair recursos de suas col-
nias africanas dependia da mobilizao e do controle de uma fora de trabalho
subjugada, j que a economia portuguesa, arcaica e  beira da bancarrota, no
podia evidentemente exportar os capitais fixos necessrios ao desenvolvimento.
Em 1893, uma comisso oficial encarregada de analisar as perspectivas do desen-
volvimento nas duas colnias foi inequvoca quanto a esse ponto:
         Ns precisamos da fora de trabalho indgena. Precisamos dela para melhorar as
     condies de vida desses trabalhadores, precisamos dela para a economia da Europa
     e para o progresso da frica. Nossa frica tropical no se desenvolver sem os
     africanos. O capital necessrio para explor-la, e ela precisa tanto ser explorada,
     reside na procura de mo de obra abundante, barata, vigorosa (...) e isso, dadas as
     circunstncias, nunca ser fornecido por imigrantes europeus64.
   O Estado tambm introduziu uma srie de leis tributrias, destinadas a for-
ar inmeros camponeses africanos a deixar suas terras e a criar um comeo de
semiproletariado. Mas, se as leis tributrias forneceram  administrao colonial
uma nova fonte de renda, no chegaram porm a propiciar mo de obra barata
na escala esperada pelo regime colonial. Muitos camponeses conseguiam evitar
a convocao semeando produtos novos ou suplementares para venda, o que lhes
permitia pagar os impostos. Outros, em Moambique, preferiam ir trabalhar nas
minas e nas plantaes da frica do Sul e da Rodsia, por salrios 200 a 300%
superiores aos oferecidos pelas empresas subcapitalistas e pelos plantadores
portugueses.
   Dado que os setores capitalistas nascentes de Angola e de Moambique eram
incapazes de atrair os trabalhadores, seja com o "estimulante" dos impostos, seja
com salrios competitivos, a administrao colonial  isso ficou amplamente
demonstrado no captulo 15 deste volume  teve de recorrer  coero aberta,
desde que o primeiro cdigo do trabalho indgena foi promulgado. A base legal

64   Apud CUNHA, 1949, p. 144.
816                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



do trabalho forado, que perduraria sob vrias formas at 1961, estava definida
no artigo I do cdigo:
      "Todos os habitantes indgenas do ultramar portugus esto sujeitos  obrigao
      moral e jurdica de procurar adquirir, pelo trabalho, as coisas que lhes faltam para sua
      subsistncia e melhora de suas condies sociais. Eles tm plena liberdade para esco-
      lher os meios pelos quais possam cumprir essa obrigao, mas, se no a cumprem de
      uma forma ou de outra, as autoridades pblicas podem obrig-los a cumpri-la"65.
    E elas os obrigaram. Os administradores locais tinham plena liberdade para
determinar quem era "preguioso", e virtualmente todos os chefes de posto
completavam seus modestos vencimentos com os presentes e brindes dos planta-
dores, comerciantes, proprietrios de usinas e agricultores europeus em troca de
mo de obra africana. Em consequncia, as regies rurais transformaram-se em
vastos reservatrios de trabalhadores braais. Quando estes faltavam para roar
as terras dos colonos, abrir estradas, ampliar os portos de Luanda, de Loureno
Marques e da Beira, construir linhas ferrovirias, servir em diversas frentes
de trabalho privadas ou pblicas, os administradores locais no hesitavam em
usar de sua posio e poder para atender s demandas. As mulheres  ainda
que legalmente isentas do trabalho forado  conheceram uma sorte parecida.
Certo socilogo norte-americano, que visitou Angola e Moambique em 1924,
observou que
      (...) as mulheres, mesmo grvidas ou com um beb, so requisitadas pelos sipaios para
      o trabalho nas estradas. Nos lugares remotos, o governo construiu pequenas barracas
      para elas. No paga a alimentao. Segundo a circunscrio, o prazo da requisio
      varia de uma a cinco semanas, mas a mulher pode ser reconvocada no mesmo ano.
      Outras mulheres da aldeia levam-lhe a comida, chegando o trajeto a tomar uma
      jornada diria. As moas de quinze anos so requisitadas e por vezes submetidas
      a abusos sexuais pelos funcionrios. Trabalham sob a direo de um contramestre
      negro, armado de porrete. Comeam s seis horas, param por uma hora ao meio-dia
      e continuam at o pr-do-sol. O trabalho pesado chega a provocar abortos66.
   De 1926 em diante, os camponeses, sobretudo em Moambique, tambm
foram obrigados a plantar algodo e a vend-lo a baixo preo s companhias




65    Ibid., p. 151.
66    E. A. ROSS, 1925, p. 40.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                                     817



concessionrias europeias. Fugir a essa obrigao equivalia a um delito e era
tratado como tal67.
    O derradeiro trao de distino do regime colonial portugus foi sua poltica
de assimilao, com a qual ele tentava conquistar a nascente burguesia africana,
fornecendo-lhe um verniz de cultura portuguesa e isentando-a dos abusos colo-
niais mais flagrantes. Oficializada pelo "regime do indigenato", essa poltica
garantia que a esmagadora maioria dos angolanos e dos moambicanos estava
reduzida a constituir uma raa, uma cultura e uma classe inferiores. De acordo
com essa legislao, os africanos eram divididos em dois grupos. Os membros
da pequena minoria capaz de ler e escrever o portugus, que haviam rejeitado os
"costumes tribais" e estavam vantajosamente empregados nos setores capitalistas,
podiam ser classificados como "assimilados" ou "no indgenas". Em princpio,
gozavam de todos os direitos e responsabilidades dos cidados portugueses.
Embora teoricamente fosse possvel a todos os africanos mudar seu estatuto
legal, as coeres impostas pelo sistema colonialista e capitalista  as quais
incluam a falta de escolas, a limitada possibilidade de obter um emprego pago
e a arrogante preponderncia cultural dos funcionrios pblicos  tornavam, na
realidade, a coisa impossvel, negando a 99% da populao africana os direitos
mais elementares do cidado68.

     A oposio popular  dominao colonial em Angola
   Considerados no-seres pelos europeus, submetidos a castigos corporais e
por vezes a tratamento arbitrrio e venal de parte das autoridades coloniais,
expostos s exigncias dos recrutadores de mo de obra e vtimas do conluio
entre os funcionrios da administrao e os residentes portugueses, os africanos
estavam transformados em prias em seu prprio pas. Tinham, contudo, muitos
meios de escapar das presses exercidas contra eles.
   A primeira forma de resistncia consistia em pegar em armas, mas logo foi
abandonada no final da Primeira Guerra Mundial, pois era um recurso sem
esperanas e condenado ao fracasso. Os lderes rareavam cada vez mais, as armas
haviam sido confiscadas, em sua maior parte, e a plvora, com raras excees, j
no era encontrada no mercado.



67   ISAACMAN, STEPHEN et al., 1980.
68   A iluso da assimilao e a ideologia correspondente do lusotropicalismo so vigorosamente apresentadas
     em BENDER, 1978.
818                                                          frica sob dominao colonial, 1880-1935



    A segunda forma era a retirada. Quando a situao se tornava intolervel,
aldeias inteiras abandonavam os campos e partiam para zonas situadas fora do
alcance das autoridades coloniais. A fuga de camponeses era mais frequente nas
regies setentrionais e orientais, que Lisboa efetivamente no controlava. Podia
durar anos sem ser descoberta.
    A terceira soluo era ainda mais radical, por ser definitiva sob todos os
pontos de vista. Por toda Angola verificava-se macia emigrao clandestina
para o Congo Belga, para a Rodsia do Norte e at para o Sudoeste Africano.
Muitas vezes, membros da populao rural percorriam grandes distncias, atra-
vs de regies hostis, com crianas s costas, para escapar  tirania da dominao
colonial portuguesa. Se fossem detidos pelas autoridades ou pela polcia africana
local, os homens eram espancados e as mulheres, violadas.
    O quarto tipo de resistncia  dominao colonial residia nos cultos religiosos
ou messinicos fundados pelos africanos em reao contra a religio europeia.
Essa revolta metafsica dos angolanos aparentemente tinha poucas razes locais;
a maior parte das igrejas independentes vinha, em primeiro lugar, do Congo
Belga, disseminando-se na regio Bakongo do norte de Angola.
    Ao contrrio do que ocorria no Congo Belga, tais igrejas tiveram poucos
seguidores e duraram pouco tempo. A revolta dos Mafulu, em 1918, costuma ser
citada como o primeiro movimento messinico angolano a redundar em revolta
armada69. Os partidrios de Simon Kimbangu obtiveram um certo nmero
de adeses em meio aos Bakongo que viviam do lado da fronteira angolana.
A administrao colonial, receando seu impacto popular e o renascimento do
nacionalismo Bakongo, envidou tremendos esforos para eliminar o kimban-
guismo, em 1921 e 1922. Apesar disso, uma rede clandestina continuou em
atividade e, tal como no Congo Belga, Kimbangu adquiriu a imagem de mrtir
depois de sua priso70.
    Tambm se manifestaram outras seitas mais obscuras, em 1930, como a
Maiaigni, no enclave de Cabinda, e, entre 1924 e 1930, o breve movimento
Cassongola, entre os Mbundu. O Kitawala tambm se propagou  regio leste
de Angola por volta de 1932, a partir do Congo Belga e da Rodsia do Norte.
Dois anos passados, uma profetisa congolesa, ligada ao kimbanguismo, encon-
trou adeptos na regio do Pombo, e, em 1936, a seita Mayangi ou Nlenvo,
que operava perto da fronteira congolesa, proibiu a todos os seus membros a
confraternizao com os brancos. Embora nossas informaes sejam muito frag-

69    Ver PLISSIER, 1977; CLARENCE-SMITH, 1979, p. 88-9.
70    MARGARIDA, 1972, p. 37-9; PLISSIER, 1978, p. 165-7.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935           819



mentrias, essas expresses religiosas de oposio parecem ter tido um impacto
mnimo. Somente na dcada de 1950, com o irromper do tokosmo,  que uma
igreja independente atraiu grandes massas de maneira permanente. O tokosmo
manifestava tendncias contraditrias, pintando os colonialistas brancos como
demnios e no entanto pregando a passividade71.
    Enquanto a maior parte dessas formas de oposio tinha base rural, os inte-
lectuais e jornalistas assimilados de Luanda e de Lisboa denunciavam os abusos
do colonialismo e reafirmavam sua identidade angolana. De fato, desde meados
do sculo XIX existia uma tradio de oposio literria muito rica. Os mais
conhecidos entre esses pr-nacionalistas eram o cnego Antnio Jos do Nasci-
mento (1838-1902), o advogado e jornalista Jos de Fontes Pereira (1838-1891),
o escritor Joaquim Dias Cordeiro da Matta (1857-1894) e, possivelmente, os
membros de uma associao formada na esteira de uma obra virulentamente
anticolonialista, intitulada Voz d'Angola clamando no deserto, editada em Lis-
boa em 190172. A queda da monarquia (outubro de 1910) e a implantao da
repblica foram bem acolhidas pelos assimilados, a quem incutiram uma grande
esperana: eles estavam perfeitamente cnscios de que sua prpria situao se
havia deteriorado e que a escravido clandestina continuava a existir em seu pas.
Mas, ainda durante essa onda de liberalismo, os sentimentos nacionalistas dos
africanos mais cultos podiam ser expressos de maneira mais aberta em Portugal
do que em Angola.
    A Liga Ultramarina foi organizada em Lisboa em 1910, e a ela se seguiu
pouco depois a Liga Colonial. Dois anos mais tarde, os africanos que viviam
em Lisboa provenientes de todas as colnias portuguesas fundaram a Junta de
Defesa dos Direitos de frica. Mesmo em Angola, a Liga Angolana, pequena
associao de funcionrios angolanos, foi reconhecida oficialmente pelo
governador-geral Norton de Matos em 1913. Quase de imediato, uma ciso na
Liga Angolana redundou na criao do Grmio Africano. Mas, no obstante
a proliferao de todas essas organizaes, elas tinham poucos adeptos e uma
influncia extremamente limitada.
    Bem mais importante, potencialmente, do que a formao dessas associaes
foi a "conspirao" do Cuanza Norte, em 1916-1917, vinculando momentane-
amente alguns intelectuais oprimidos a camponeses Mbundu, habitantes do
serto de Luanda. Quem a chefiou foi Antnio de Assis Jnior (1887-1960),


71   MARGARIDO, 1972.
72   Para um exame dessa tradio de protesto literrio, ver WHEELER, 1972.
820                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



advogado, romancista e jornalista73, que condenava vigorosamente a opresso
colonial e o tratamento de preferncia dado  comunidade dos colonos, a qual,
dizia ele, estava "ainda composta essencialmente de homens que no sabem de
onde vm nem para onde vo, homens movidos apenas pelo desejo de obter
tudo o que possam, de adquirir e de tomar74. Temendo o reforo da aliana
dos assimilados com os camponeses, e preocupado com a ecloso de levantes, o
Estado colonial agiu prontamente. Antnio de Assis Jnior foi preso e escapou
por pouco  deportao.
    Em Lisboa, a Junta de Defesa dos Direitos de frica, dirigida essencialmente
por mulatos de So Tom, tinha pouca fora. Um ramo dissidente da Junta
fundou, em 1919, a Liga Africana,  qual a Liga Africana de Luanda estava
filiada. A Junta de Defesa foi reorganizada como Partido Nacional Africano em
1921, representando esses dois grupos metropolitanos as duas tendncias pan-
africanistas que prevaleciam ento em Portugal. A Liga Africana optava pelo
reformismo do dr. Du Bois e o Partido Nacional Africano manifestava maior
simpatia pela filosofia de Marcus Garvey75.
    A volta do alto-comissrio Norton de Matos, adversrio inflexvel da Liga
Angolana e do Grmio Africano, em 1921, tornou as duas organizaes muito
vulnerveis. Em 1922 ele as suspendeu oficialmente, ordenando a deteno
de Antnio de Assis Jnior e deportando vrios membros influentes da Liga
Angolana, cuja dissoluo acabou por decretar. Tambm proibiu jornais "nati-
vistas" e limitou as possibilidades de promoo para os funcionrios assimilados.
Depois de um golpe to duro, o nacionalismo organizado angolano passou 
clandestinidade. Em seguida, houve manifestaes espordicas de oposio ao
trabalho obrigatrio no corredor Luanda-Malange entre 1922 e 1925. O Estado
aproveitou a oportunidade oferecida por tais protestos para esmagar os ltimos
vestgios de dissidncia intelectual76.
    As condies se tornaram to difceis em Angola que as associaes africa-
nas adotaram uma poltica de cooperao com o governo. O Partido Nacional
Africano foi at o ponto de defender Portugal na Sociedade das Naes da
acusao de trabalho forado. Em 1926, quando se instalou em Lisboa, seguida
pelo regime de Salazar, a ditadura militar percebeu que a vontade de resistncia


73    ASSIS JNIOR, 1917.
74    Apud WHEELER, 1972.
75 Para uma discusso dos acontecimentos que acompanharam essa ciso, ver FRIEDLAND, 1979,
   p. 119 -20.
76    PLISSIER, 1978, p. 233.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935           821



dos intelectuais angolanos j estava quebrada. "Expurgada" dos elementos duros,
a Liga Angolana foi autorizada a reaparecer sob o nome de Liga Nacional Afri-
cana. O Grmio Africano, que sucumbira  torrente de restries da dcada de
1920, tambm reapareceu sob o nome de Associao dos Naturais de Angola
(ANANGOLA). Privadas de fora vital e reduzidas  impotncia poltica, as
duas organizaes foram convidadas a no perseguir seno objetivos sociais.
Sua decadncia coincidiu com o declnio, em Portugal, dos dois "partidos" que
pretendiam ser pan-africanistas. Em 1931, elas fundiram-se e passaram a ser
o Movimento Nacionalista Africano (nacionalista no sentido da nao portu-
guesa); finalmente, desapareceram, estranguladas pelo implacvel garrote do
dr. Oliveira Salazar. Vigiados pela polcia, ameaados de perder o emprego,
os chefes locais da Liga Nacional Africana e da ANANGOLA suspenderam
suas atividades durante mais de 20 anos (de 1925 e 1945, aproximadamente).
Inevitavelmente, o declnio do papel poltico dos assimilados significava que
tambm do ponto de vista social a posio deles se tinha degradado, sobretudo
com a chegada de um nmero crescente de colonos brancos.
    Eles tentaram por vrias vezes revoltar-se contra a dominao da metrpole
(especialmente em 1924-1925) e contra o regime ditatorial (principalmente em
1930), mas essas tentativas s afetaram indiretamente a populao africana opri-
mida77. Os africanos tinham se tornado estrangeiros em seu prprio pas e sua
nica funo aparente, aos olhos dos europeus, era sua capacidade produtiva. Em
tais circunstncias, as poucas greves em que eles participaram nos portos (1928)
ou nas estradas de ferro (1933) no passaram de fogos de palha que deram em
nada, j que no havia mais unidade duradoura entre os trabalhadores brancos
e a mo de obra negra sem qualificao. Por outro lado, os operrios negros
no contavam com o apoio dos soldados negros alistados no exrcito colonial
e no podiam cogitar de uma aliana com os assimilados, os quais haviam sido
reduzidos ao silncio pelas autoridades.

     A oposio popular  dominao colonial em Moambique
   O tipo de oposio popular que se manifestou em Moambique era seme-
lhante ao de Angola, embora variasse um tanto em escala e em intensidade.
Houve menos insurreies armadas, e a tradio literria e as conexes com o
movimento pan-africano no eram to grandes. O nmero de exemplos docu-
mentados de oposio operria e camponesa, por outro lado,  notavelmente


77   Uma interpretao diferente  proposta por SIK, 1964, v. II, p. 314-5.
822                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



maior em Moambique do que em Angola; as igrejas independentes tambm
eram l mais numerosas e politicamente importantes.
    A oposio rural constitua um desafio peridico para o sistema colonial
e capitalista. Claro que nem todos os camponeses resistiam. Nem mesmo a
maioria. Separados uns dos outros pela distncia, pelas etnias, religio, relaes
primordiais de parentesco, tirania de seu tipo de trabalho e uma srie de outros
fatores, os camponeses, em nvel individual, eram relativamente incapazes de
desencadear um vasto movimento de oposio que levasse a uma anlise his-
trica detalhada. Suas aes tendiam a ser isoladas, difusas e espordicas, os
objetivos limitados e a importncia global difcil de medir e fcil de ignorar.
Todavia, agindo no quadro das duras coeres impostas pelo sistema capitalista
colonial, eles conseguiram de certa forma atenuar os efeitos destruidores da
dominao portuguesa. Para eles, a principal arena de combate era a luta contra
a apropriao de seu trabalho e respectivos produtos.
    Como nos primeiros anos da dominao colonial, o no pagamento dos
impostos foi comum em todas as regies rurais de Moambique. Os campone-
ses elaboraram uma srie de estratgias para reduzir ou evitar os pagamentos
anuais. Muitas vezes indicavam falsamente a idade e o estado civil, diminuindo
assim os encargos financeiros que lhes pesavam nos ombros. Muitos adultos
jovens fingiam ser menores, morando temporariamente nas barracas reservadas
aos jovens impberes quando chegavam os coletores de impostos. Os maridos
costumavam esconder as mulheres mais novas ou diziam ser elas cunhadas ou
mulheres de amigos que estavam trabalhando muito longe. No sul de Moam-
bique, onde o imposto de habitao era a forma de taxao mais generalizada,
famlias muito numerosas se juntavam na mesma palhoa, alegando ser aquele
seu nico domiclio78. Mesmo depois de tributados, muitos camponeses persis-
tiam nessa duplicidade, no esforo de retardar ou de evitar o pagamento dos
impostos. Ainda em 1928 um funcionrio portugus da regio central da colnia
observava, decepcionado e frustrado:
      Os chefes de aldeia e os camponeses pertencentes s populaes de Mambos Cus-
      sarara, Chuau e Capanga esto envolvidos numa incrvel campanha de resistncia
      passiva. Quando lhes dizemos que venham pagar os impostos, chegam sem dinheiro
      e negociam demorados adiamentos de prazo, que normalmente no cumprem, obri-
      gando o uso dos sipaios para levar para os fumos s quem trouxer uma pequena




78    NUNES, 1928, p. 116.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                               823



     porcentagem dos impostos de sua respectiva aldeia; por isso, leva meses e amide
     um perodo indefinido para que o todo seja liquidado79.
    Outros camponeses escondiam-se no interior. Os relatrios oficiais indi-
cam ter sido frequente as mulheres afirmarem que os maridos estavam mortos,
quando na verdade "eles tinham fugido temporariamente, regressando  aldeia
pouco depois da partida dos coletores ou dos funcionrios encarregados do
recenseamento80. Os africanos que viviam perto das fronteiras internacionais
no cessavam de atravess-las para fugir a qualquer tributao.
    Milhares de camponeses moambicanos obrigados a plantar algodo ou a
trabalhar nas terras dos colonos e nas plantations, ou a participar na execuo de
obras pblicas estatais, contestavam o tempo de trabalho que deviam ceder ao
sistema capitalista colonial. No caso mais extremo, esquivavam-se ao trabalho
forado, fugindo para as colnias vizinhas, fuga que era ao mesmo tempo difcil
e perigosa. Apesar disso, em 1919 estimava-se que mais de 100 mil pessoas do
norte de Moambique se haviam instalado na Niassalndia81. Mesmo no sul,
onde o Estado exercia maior controle, os funcionrios coloniais reconheciam
que "os africanos que fogem da provncia de Sul de Save por causa da cultura
do algodo constituem um fenmeno que no  novo [...]. J foi comunicado
em relatrio que inmeros indgenas abandonaram suas terras depois de atear
fogo s suas palhoas"82.
    Outros desertores, no desejando cortar todos os laos com a famlia e a
ptria tradicional, fugiam para regies pouco habitadas. Em alguns casos, pelo
menos, criaram comunidades permanentes de refugiados, primeiro em zonas
montanhosas e escarpadas, onde a topografia difcil servia de barreira natural 
penetrao portuguesa. Vrias dessas comunidades de refugiados conseguiram
manter a independncia por alguns anos, sobrevivendo simultaneamente s
duras condies do meio e s intervenes coloniais armadas83.
    Guardar s escondidas uma parte de seu trabalho representava sem dvida a
forma de oposio mais generalizada dos camponeses e dos trabalhadores rurais
que produziam algodo. Essa estratgia era ao mesmo tempo menos arriscada


79   Arquivo de Tete, Documentos Diversos, Circunscrio Civil de Maravia, "Relatrio da Administrao
     Referente ao Ano de 1928"; Documento n. 8, Manoel Arnaldo Ribeiro ao administrador Manoel Alves
     Viana, s.d.
80   NUNES, 1928, p. 116.
81   VAIL, 1976, p. 402.
82   Apud ISAACMAN, STEPHEN et al., 1980, p. 586.
83   Ibid., p. 597-9.
824                                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



do que a desero e  ao menos para os camponeses  lhes dava mais oportu-
nidades de cultivar seu jardim. Segundo relatrios oficiais, os camponeses, por
exemplo, raramente plantavam o algodo no momento indicado, plantavam a
rea mnima, faziam a limpa o nmero requerido de vezes ou queimavam seus
campos depois da colheita84. Os plantadores europeus do sul de Moambique
queixavam-se amargamente da "docilidade" de seus trabalhadores agrcolas mal
pagos, rejeitando a proposta de um de seus membros segundo a qual se devia
"contratar a mo de obra a uma libra por ms", para conseguir "homens exce-
lentes85. O governador de Inhambane fazia eco a seus sentimentos e deplorava a
recusa dos Nguni em cumprir tarefas agrcolas, que eles consideravam "trabalho
para mulheres"86.
    Considerando-se os fatores que tendiam a dividir o campesinato e os traba-
lhadores migrantes, bem como a priv-los de todo sentimento de solidariedade
de classe, no admira que a resistncia rural raras vezes tenha assumido forma
coletiva. No entanto, a insatisfao rural expressava-se ocasionalmente de modo
mais radical. De 1917 a 1921, os camponeses do vale do Zambeze, exasperados
com o trabalho forado, o aumento dos impostos, a obrigao de plantar algodo,
os abusos sexuais e a conscrio militar, conjugaram-se numa rebelio dirigida
pelos descendentes da famlia real Baru e os mdiuns Shona. O objetivo deles
 que chegaram momentaneamente a concretizar  era libertar seus territrios
e desmantelar o opressivo sistema colonial87. Nos 20 anos subsequentes, houve
igualmente uma srie de levantes rurais localizados em Erati, Moguincal e
Angoche, no norte de Moambique, levantes provocados pelos impostos e pelo
trabalho forado (ver fig. 27.3)88. Onde o medo e a coero impedissem a opo-
sio aberta, os camponeses e trabalhadores rurais costumavam manifestar sua
hostilidade por meio de smbolos culturais que os funcionrios coloniais no
compreendiam. Por exemplo, os Chope, que viviam no sul de Moambique,
criaram todo um repertrio de cantos denunciando o regime colonial em geral
e os to detestados coletores em particular:
         Ainda estamos furiosos;  sempre a mesma histria:
         A filha mais velha tem de pagar o imposto;



84    Ibid.
85    ROSS, E. A., 1925, p. 50.
86    Distrito de Inhambane, Relatrio do Governador 1913-1915, Loureno Marques, 1916, p. 41.
87    A. ISAACMAN, 1976, p. 156-185.
88    BRANQUINHO, 1966, p. 81-3, 108, 114, 193.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                  825



         Natanele diz ao homem branco que o deixe em paz,
         Natanele diz ao homem branco que me deixe estar;
         Vocs, os ancios, devem discutir os nossos assuntos,
         Pois o homem que os brancos nomearam  filho de um z-ningum;
         Os Chope perderam o direito  sua prpria terra.
         Deixem que lhes conte [...] 89.
    As canes de trabalho dos lavradores empregados nas plantations de
cana-de-acar eram ainda mais abertamente hostis, muitas vezes pintando os
contramestres europeus em termos sexuais pouqussimo lisonjeiros90. No norte,
os artistas Macua e Maconde ridicularizavam os funcionrios do Estado  afri-
canos e europeus  em esculturas muito estilizadas, que lhes deformavam os
traos e retiravam toda humanidade91.
    Os trabalhadores urbanos, assim como os rurais, lanaram inicialmente ope-
raes individuais e espordicas para escapar  nova ordem econmica capitalista
ou para lhe atenuar o impulso. Eles fugiam antes que os recrutadores chegassem
s suas aldeias, desertavam em grupos inteiros, no faziam nada e, s vezes, sabo-
tavam as mquinas ou as matrias-primas. Embora esses atos continuassem a
ser uma das formas dominantes de protesto dos chibalo (trabalhadores forados),
na segunda dcada do sculo XX os operrios assalariados das cidades tinham
comeado a mudar de ttica e a organizar-se no novo sistema para melhorar
suas condies de emprego.
    Vrios fatores militavam contra os esforos de organizao dos operrios
moambicanos durante o perodo. Em primeiro lugar, estes formavam um con-
tingente muito reduzido. Os setores capitalistas retardatrios de Moambique
empregavam relativamente poucos trabalhadores permanentes. Alm disso, o
Estado proibia de modo claro a formao de sindicatos africanos, e o movi-
mento sindical branco, salvo algumas excees notveis, continuava hostil aos
negros, cultivando os preconceitos raciais e culturais que faziam parte da ideo-
logia oficial do Estado92. Assim, os trabalhadores africanos, pouco numerosos,
isolados dos movimentos trabalhistas internacionais, confrontados com uma
aliana hostil do Estado e do capital, viam-se em uma posio evidentemente
pouco invejvel.


89   MONDLANE, 1969, p. 103.
90   Ver VAIL e WHITE, 1980, p. 339-58.
91   A melhor coleo dessas esculturas encontra-se no Museu da cidade de Nampula.
92   Para um importante exame do movimento operrio branco, ver CAPELA.
826                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



    No obstante, j em 1911 um pequeno grupo dirigido por Francisco Domin-
gos Campos, Alfredo de Oliveira Guimares e Agostinho Jos Mathias tentara
organizar a Unio Africana, para nela incluir todos os trabalhadores africanos de
Loureno Marques. Para eles, o problema era evidente: os trabalhadores negros
tinham de se organizar, se quisessem sobreviver. Advertiam com clareza os tra-
balhadores contra as tendncias de diviso das etnias e consideravam perigoso o
fato de os operrios ocupados em empregos mais bem pagos no se unirem aos
diaristas comuns. "Em nossa associao no h distines", afirmavam orgulho-
samente seus panfletos. Do ponto de vista da luta e da solidariedade da classe
operria, eles eram igualmente inequvocos. Mas, apesar de sua eloquncia e
da fora de suas crticas, a enrgica ao do Estado colonial e capitalista, do
movimento sindical branco, assim como, aparentemente, a falta de unidade dos
trabalhadores africanos, arruinaram a Unio Africana antes que ela pudesse
entrar em ao93.
    Apesar desse revs inicial, houve algumas tentativas espordicas de organizar
os operrios africanos de Loureno Marques. Greves e paralisaes do trabalho
ocorreram entre os empregados da Associao Comercial, em 1913, os operado-
res de vagonetas, em 1917, os tcnicos das ferrovias, em 1918, e os empregados
de uma empresa de engenharia, em 191994.
    Como em muitas outras partes da frica, os estivadores constituam o setor
da classe operria mais militante e relativamente mais bem organizado. Nas duas
primeiras dcadas do sculo XX, Loureno Marques tornou-se um importan-
tssimo centro do comrcio internacional, ligando o Transvaal, a Suazilndia e o
sul de Moambique  economia mundial. Apesar do valor econmico estratgico
e dos esforos do Estado para impedir qualquer embarao ao trfego, houve
sete grandes greves entre 1918 e 1921, provocadas pela recusa das companhias
martimas e de despachos a aumentar os salrios dos africanos, de forma a
compensar a perda do poder aquisitivo causada pela espiral inflacionria. Entre
1918 e 1920, por exemplo, os preos dos gneros essenciais, como arroz, feijo,
batata e sabo, duplicaram; no ano seguinte (1921), um quilo de arroz custava
trs centavos, quer dizer, o equivalente ao ordenado dirio mdio da maior parte
dos estivadores95.
    As greves porturias obedeciam a um esquema geral. Os trabalhadores des-
contentes, organizados graas a redes clandestinas locais, recusavam-se a tra-

93    Os Simples, 24 de junho de 1911.
94    PENVENNE, s.d.
95    Outros gneros que no eram essenciais aumentaram em ritmo ainda mais elevado.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935            827



balhar se os salrios no fossem reajustados. Reuniam-se em frente da entrada
principal do porto, exigindo melhores salrios e melhores condies de traba-
lho. O governador enviava tropas para reprimir as manifestaes e prender os
chefes. Ao mesmo tempo, os trabalhadores chibalo eram aproveitados como
fura-greves, mantendo o porto em funcionamento. Esses movimentos eram,
pois, rapidamente desbaratados. Mesmo quando os patres concordavam em
conceder aumentos, logo se desdiziam, como foi o caso da greve de 1919. A
despeito dos malogros e da ascenso ao poder de um governo fascista, porm, as
greves prosseguiram depois de 1926, embora com menos frequncia96.
    Talvez a greve de Quinhenta (1933) marque o conflito porturio mais duro.
Os funcionrios do porto e as companhias de carga e descarga, afetadas pela
crise mundial, decidiram reduzir os salrios dos estivadores  j miserveis  em
10 a 30%. A reduo representava cinco vezes o aumento que eles tinham obtido
com a greve de 1921. Quando anunciada, os estivadores pararam, recusando
voltar ao trabalho depois do almoo. O porto ficou paralisado. Os dirigentes
da greve juraram no voltar ao trabalho at que as redues fossem revogadas.
Diante da situao de total paralisao, os patres aceitaram as exigncias dos
grevistas. Os estivadores voltaram e logo se viram encerrados dentro do porto
e cercados pela polcia, que os obrigou a descarregar todos os navios. Depois
disso foram comunicados de que as redues no seriam anuladas. Um jornal de
Loureno Marques expressou bem, na ocasio, a clera e a frustrao dos esti-
vadores: "Os trabalhadores, de barriga vazia, viram-se face a face com o patro,
o qual, de barriga cheia, lhes respondeu com promessas vazias"97.
    Como em outras partes das fricas meridional e central, as igrejas indepen-
dentes ofereciam outro quadro institucional aos operrios e camponeses para a
expresso de sua hostilidade  nova ordem social e  hipocrisia das igrejas crists
oficiais. Um relatrio secreto do governo notava que a popularidade das igrejas
separatistas se devia "ao mesmo tempo  discriminao racial existente na socie-
dade e  insensibilidade dos missionrios europeus em relao aos indgenas"98.
J em 1918 havia 76 igrejas separatistas agindo em Moambique. Vinte anos
depois, havia mais de 38099, contando desde um punhado de adeptos at mais
de 10 mil membros, caso da Misso Christ Ethiopia, cujos ramos se estendiam
por quatro provncias.


96   Ver, por exemplo, PENVENNE, (?).
97   Apud PENVENNE, p. 20.
98   BRANQUINHO, 1966, p. 77.
99   Ibid., p. 73-80.
828                                                      frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Quase todas as igrejas tinham origem nos movimentos "sionistas" e etopes
da frica do Sul e da Rodsia. Os trabalhadores imigrantes de Moambique,
descontentes e oprimidos (principalmente os das minas), iam buscar refgio
nessas igrejas. Quando voltavam para casa, organizavam sucursais desses movi-
mentos ou formavam seitas autnomas que imitavam o modelo sul-africano ou
rodesiano. Samuel Belize, o principal animador da poderosa African Methodist
Episcopal Church, fora ligado anteriormente a um ramo negro da Wesleyan
Mission na frica do Sul; Sebastio Piedade de Sousa formou a Misso Christ
Ethiopia, segundo o modelo da Igreja Etope,  qual tinha pertencido em Dur-
ban100. Em outros casos, a reputao de um chefe apostlico particular constitua
motivo suficiente para que os moambicanos aderissem a uma igreja. Como a
maior parte dos trabalhadores migrantes provinha da parte sul da Colnia, as
independentes gozavam de maior prestgio nos distritos de Loureno Marques,
Gaza, Inhambane e Sofala.
    Do ponto de vista dos movimentos sociais, as igrejas etopes de Moambique
so particularmente interessantes, j que elas agiam muitas vezes como organi-
zaes relativamente autnomas, nas quais os moambicanos podiam eleger seus
prprios representantes, ter seus prprios oramentos, constituio, bandeiras e
mesmo grupos paramilitares. Em resumo, elas representavam um "espao livre"
no interior de um sistema autoritrio fechado, um lugar onde os operrios e os
camponeses oprimidos podiam usufruir um mnimo de auto governo e dig-
nidade racial e cultural. As igrejas "sionistas", por sua vez, extraam boa parte
do seu poder de atrao da viso apocalptica de uma interveno divina e da
destruio da ordem colonial.
    No domnio da ao abertamente anticolonial, as igrejas independentes de
Moambique iam do radicalismo total ao quietismo mais completo. De acordo
com alguns relatrios confidenciais do governo, a Igreja Episcopal Metodista,
instalada inicialmente nos distritos de Gaza e Manica, era um centro de ativi-
dades subversivas. Agentes infiltrados pelo governo informaram que essa igreja
cultivava sentimentos antibrancos e atacava abertamente o opressivo regime
colonial em seus servios religiosos e em reunies clandestinas. Alm disso, o
clero ali mantinha ligaes com o African National Congress (ANC)101. Outros
inquritos governamentais obtiveram provas de que essa igreja pregava a revolta
e que seus membros haviam atacado as autoridades coloniais e os chefes legalis-
tas em diversas ocasies. A seita foi posteriormente acusada de contribuir para

100 Ibid.; MOREIRA, 1936, p. 28-9; FREITAS, 1956-1957.
101 FREITAS, 1956-1957, v. II, p. 32-5.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935           829



a organizao de um vasto levante campons em Mambone, em 1952. Essas
atividades subversivas, contudo, aparentemente constituram exceo. A maior
parte das igrejas independentes no adotava um programa explicitamente anti-
colonialista, preferindo limitar a oposio a crticas verbais e, s vezes, a uma
viso apocalptica102.
    Tambm houve tentativas abortadas de movimentos revisionistas islmicos
no norte de Moambique, onde a populao muulmana se opusera antigamente
 dominao colonial. Na dcada de 1920, os religiosos islmicos protestavam
contra os abusos do trabalho forado, os baixos salrios e a espoliao das terras
na regio de Quelimane. Alguns chefes muulmanos tambm se envolveram,
com seus adeptos, em levantes no incio da dcada de 1930. Mas a causa exata
de tais revoltas ainda  ignorada103.
    A oposio intelectual nas cidades, embora menos profundamente enraizada
do que em Angola, tornou-se contudo um frum importante para os discursos
reformistas. O primeiro apelo  mudana, algo hesitante, veio em 1908 com a
publicao do jornal O Africano, de Loureno Marques, rgo oficial do Gr-
mio Africano, grupo social e civil fundado pelas "grandes famlias" de cor dois
anos antes. Apesar de sua posio relativamente privilegiada e da conscincia
de sua importncia, as famlias dirigentes do Grmio consideravam seu dever e
sua responsabilidade falar pelos africanos oprimidos. De fato, o editorial de O
Africano afirmava orgulhosamente que o jornal "se dedicava  defesa da popu-
lao indgena de Moambique". O sucessor deste, O Brado Africano, tinha um
objetivo semelhante, ao definir-se como o guardio dos camponeses e operrios
africanos. Por ocasio de seu stimo aniversrio, este ltimo proclamou com
orgulho que "os africanos tm no Brado Africano seu melhor defensor e, na
realidade, sua nica arma contra a injustia que os atinge"104.
    Em seu noticirio e em seus comentrios, os dois jornais denunciavam prin-
cipalmente quatro abusos crnicos: o chibalo (trabalho forado), as ms condies
de trabalho dos africanos livres, o tratamento preferencial dado aos imigrantes
brancos e a falta de possibilidades de educao. Tais abusos simbolizavam, para
os redatores, a prpria essncia da opresso colonial. Durante todo esse perodo,
saram editoriais denunciando com vigor e revelando com preciso os abusos
inerentes ao sistema do chibalo. Protestavam contra os brutais mtodos emprega-
dos pelos sipaios africanos para recrutar mo de obra forada, os baixos salrios

102 Ibid., p. 134.
103 BRANQUINHO, 1966, p. 56, 81, 108.
104 O Brado Africano, 24 de dezembro de 1926.
830                                                           frica sob dominao colonial, 1880-1935



e as ms condies de trabalho no chibalo, os atos arbitrrios e caprichosos dos
capatazes europeus. Os redatores estavam em particular indignados com a pr-
tica usual de capturar "mulheres africanas para reparar e construir estradas, no
lhes dando alimentao nem salrio", enquanto "as foravam durante a estao
das chuvas a dormir em palhoas de terra,  beira da estrada, como escravas"105.
    Os jornais tambm lanaram uma vasta srie de ataques contra as condies
de emprego dos trabalhadores livres africanos. Lamentavam que os camponeses
e operrios nominalmente "livres" fossem obrigados a trabalhar nas propriedades
de europeus "do nascer ao pr-do-sol ganhando apenas um xelim por ms"; que
os moambicanos trabalhadores nas minas sul-africanas "no tivessem o direito
de escolher os seus empregadores [...] e morressem nas minas como moscas";
que operrios africanos fossem presos e espancados se no tivessem cdulas de
identidade e que o Estado empregasse chibalo para furar greves e baixar o salrio
dos trabalhadores livres106. As barreiras informais de cor, que imobilizavam os
africanos nos empregos mais mal pagos e reservavam os mais interessantes aos
europeus, serviram igualmente de alvo a muitos editoriais.
    O protesto contra as barreiras de cor fazia parte de um ataque mais vasto 
poltica oficial que favorecia os imigrantes brancos enquanto ignorava as neces-
sidades da populao indgena. Num comentrio acerbo, O Africano punha em
questo a lgica do regime colonial, sublinhando o custoso rebotalho branco,
que no contribua com nada para a Colnia:
      O portugus comum, conhecido pelo nome de mumadji [imigrante portugus
      comum] entre a populao africana, deixa sempre Portugal com a inteno fixa de
      fazer uma breve estadia em terra de pretos para juntar bastantes economias, voltar
      para Portugal, instalar-se e gozar da riqueza que logrou acumular, ao preo sabe Deus
      de quantos sacrifcios, em dois, trs ou quatro anos.
   Tem-se conscincia [em Portugal] das privaes a que estes homens se sub-
metem para poupar 300 mil ou 400 mil ris?  todo um poema de sofrimento
e de misria. Verdadeira loucura que alguns experimentam no esforo de encher
as maletas com essas miserveis peas de metal. A febre do ouro!
   Vivem em pocilgas sem luz, sem ar, quatro ou cinco pessoas juntas para
reduzir os custos. Costumam comer trs do mesmo prato, porque  mais barato.
Um miservel jantar de sopa ou de refogado, que na verdade no passa de uma



105 Ibid., 28 de fevereiro de 1925
106 Ibid., O Brado Africano, 13 de dezembro de 1924; 30 de julho de 1927; PENVENNE, 1978, p. 10.
Poltica e nacionalismo nas fricas central e meridional, 1919-1935                                   831



barrela de gua quente onde cinco feijes nadam desesperadamente em busca
de companhia [...]''107.
   Se bem que o tom das matrias dos dois jornais fosse prudente e reformista,
apelando para a boa vontade e o senso de justia do governo colonial, o acmulo
das frustraes produzia exploses de clera e at de ameaas implcitas ao sis-
tema. Esse tom algo mais hostil apareceu com maior regularidade no perodo
que se seguiu imediatamente  instaurao do regime de Salazar (1928-1968),
o qual imps uma dominao autoritria, eliminando assim toda iluso de
reforma. Isso provocou um sentimento de desespero, mesmo entre os membros
mais privilegiados da comunidade africana e mulata. Um editorial vibrante de
O Brado Africano, intitulado "Basta",  a expresso mais clara do furor deles:
    Estamos cheios at a cabea!
    Cheios de vos apoiar, de sofrer as terrveis consequncias de vossas loucuras, de
    vossas exigncias, do abusivo desperdcio de vossa autoridade.
    No aguentamos mais os perniciosos efeitos de vossas decises polticas e adminis-
    trativas. No estamos mais dispostos a fazer cada vez mais esforos inteis [...].
    Basta108.
    Mas, apesar de todas as crticas aos abusos coloniais e no obstante o papel
que se arrogavam de defensoras dos africanos oprimidos, as "grandes famlias"
viviam em um meio social e cultural totalmente separado do dos operrios e
camponeses que regressavam s suas cidades, casebres e aldeias aps uma dura
jornada de trabalho. Por outro lado, enquanto membros da burguesia colonial
nascente, elas tinham interesses de classe muito diferentes. Interesses que muitas
vezes as colocavam em oposio a seus compatriotas menos privilegiados e as
impediam de proceder a uma crtica mais radical do capitalismo e do colonia-
lismo. As intensas rivalidades entre mulatos e africanos, no prprio seio da elite
colonial, foram reduzindo pouco a pouco a influncia do Grmio Africano e
contriburam para precipitar seu fim109.
    No incio da dcada de 1930, essas animosidades tinham piorado cada vez
mais, o que deu ao regime colonial a oportunidade de aniquilar os ltimos res-
tos de unidade. Contando com o descontentamento dos membros africanos do
Grmio, as autoridades persuadiram muitos deles a sair, para fundar o Instituto
Negrophilo, em 1932. Para ser ainda mais convincente, a administrao colonial


107 Apud PENVENNE, 1979, p. 10.
108 O Brado Africano, 27 de fevereiro de 1931. A traduo em ingls foi extrada de DUFFY, 1959, p. 305.
109 Entrevista com Lus Bernardo Honwana, 3 e 4 de outubro de 1981; HAMILTON, 1975, p. 164-7.
832                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



forneceu ao novo grupo instalaes, mveis, livros e capitais generosos, enquanto
um destacado empresrio portugus, Paulo Gil dos Santos, empregava vrios
chefes da nova organizao como recrutadores de mo de obra. Quatro anos
depois, o regime de Salazar imps uma censura extremamente severa, reduzindo
O Brado Africano ao silncio.
   Durante esse perodo, um pequeno nmero de intelectuais moambicanos
que vivia em Portugal ajudou a formar organizaes que estavam ligadas ao
movimento pan-africano em geral. As mais importantes foram a Liga Afri-
cana e o Partido Nacional Africano. A primeira mantinha estreitos laos com o
PanAfrican Congress, de W. E. B. Du Bois, enquanto o segundo pendia mais
para o garveysmo, Nenhum, porm, conquistou verdadeiramente adeptos na
Colnia, e suas atividades permaneceram largamente simblicas110.


      Concluso
    Em resumo, os africanos dos pases das fricas meridional e central resis-
tiram ao colonialismo e deram uma importante quota-parte para a preparao
do movimento de libertao do continente desencadeado a partir de 1935.
As formas mais avanadas de oposio ao colonialismo durante este perodo
registraram-se na Unio Sul-Africana, onde o desenvolvimento da indstria e,
correlativamente, o processo de urbanizao tinham integrado os africanos na
economia capitalista mais cedo do que nos demais pases africanos. As organi-
zaes nacionalistas e polticas l criadas serviram de modelo em muitos pases
das fricas meridional, central e oriental.




110 FRIEDLAND, 1979, p. 119-21.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   833



                                        CAPTULO 28


        A Etipia e a Libria, 1914-1935:
       dois Estados africanos independentes
                  na era colonial
                 Monday B. Akpan, com base em contribuies de
                        A. B. Jones e Richard Pankhurst




    O governo de Sua Majestade juntar-se- ao dos Estados Unidos da Amrica para
    fazer representaes ao liberiano, nos termos mais enrgicos, a fim de lev-lo a solici-
    tar, quando da prxima reunio do Conselho da Sociedade das Naes, a designao
    de uma comisso administrativa [para a Libria] [...]. O governo de Sua Majestade
    exercer igualmente fortes presses sobre o liberiano para persuadi-lo a pedir um
    emprstimo sob os auspcios da SDN1 (British Foreign Office, Londres, ao embai-
    xador do Reino Unido em Washington, DC, janeiro de 1931).

    No quero acordos que no me cedam tudo, inclusive a cabea do imperador [Hail
    Selassi] [...]. Mas, ainda que obtenha tudo, prefiro vingar Adowa. Estou decidido2
    (Benito Mussolini, chefe fascista italiano, agosto de 1935).

     primeira vista, dir-se-ia que as questes em disputa entre a Etipia e a Itlia no
    apresentam seno um interesse superficial para a Libria. Mas o exame mais atento
    das implicaes decorrentes das circunstncias da disputa convenceria o esprito mais
    obtuso de que a situao  da maior importncia para um Estado como a Libria.
    Caso a Sociedade das Naes seja incapaz de fazer valer sua influncia moral na
    manuteno da decncia, do decoro e da segurana internacionais, ento os Estados


1    ANDERSON, 1952, p. 110-11.
2    ROBERTSON, 1977, p. 160-2.
834                                                           frica sob dominao colonial, 1880-1935



      menores se tornaro, como de fato sempre foram, presa de aventureiros imperialistas3
      (Edwin J. Barclay, presidente da Libria).
   Estas citaes j bastam para expressar a fora do imperialismo europeu que
a Libria e a Etipia sofreram durante muitos anos entre as duas guerras, assim
como a solidez dos laos que uniram permanentemente os liberianos e os etopes
enquanto africanos vtimas da agresso europeia. O presente captulo  uma
anlise comparativa dessa agresso, da resistncia que lhe opuseram a Libria e
a Etipia, bem como da evoluo poltica, econmica e social que os dois pases
experimentaram no perodo 1915-1935.


      Libria e Etipia: evoluo sociocultural de 1915 a 1935
    Durante este perodo, a Libria e a Etipia enfrentaram graves problemas de
integrao e sobrevivncia nacionais, resultantes em parte da importncia de sua
expanso do decorrer do sculo anterior e da maior disparidade de suas popu-
laes e de suas culturas. Quais foram as mudanas culturais e sociais ocorridas
em ambos os pases neste perodo?
    Entre a populao da Libria, os amrico-liberianos mantiveram-se poltica
e economicamente dominantes enquanto grupo. Segundo se diz, sua importn-
cia numrica declinara desde o final do sculo XIX, com a maior proporo da
mortalidade em relao  natalidade e ao trmino virtual da imigrao negra
proveniente dos Estados Unidos da Amrica. A situao provocou o aumento
de casamentos mistos e de ligaes, principalmente entre amrico-liberianos e
africanas autctones (muitas das quais tinham frequentado as escolas liberianas),
aumentando consequentemente o nmero de pessoas com parentesco misto
amrico-liberiano/africano autctone. Os jovens liberianos e africanos autc-
tones colocados entre as famlias amrico-liberianas ou adotados por elas foram
invariavelmente assimilados pelo meio sociocultural que os acolheu4.
    O declnio demogrfico levou sem dvida os amrico-liberianos  prtica
cada vez mais frequente dos casamentos endgenos, intensificando por con-
sequncia o sistema da famlia ampliada desenvolvido entre eles desde o final
do sculo XIX. Foi assim que, durante o perodo que nos interessa, famlias
estabelecidas como os Sherman, Barclay, Coleman, Cooper, Dennis, Grimes e


3     BARCLAY, 1935, p. 15.
4     SIMPSON, 1963, p. 84, 88; JONES, H. A., 1962, p. 153.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial            835



Morris, os Green, Grigsby, Ross, Witherspoon e Worrell, os Brewer, Dossen,
Gibson e Tubman, mencionadas no captulo 11 deste volume, continuaram a
proporcionar a maior parte dos protagonistas do cenrio econmico e poltico da
Libria5. Efetivamente, desde a dcada de 1920, tornou-se norma dessas fam-
lias, mediante algum acordo mtuo, distribuir entre si cadeiras parlamentares,
postos ministeriais e outras altas funes e encargos pblicos muitos meses antes
das eleies legislativas formais6.
    Quanto aos liberianos autctones, o progressivo desenvolvimento do ensino
escolar e a ao dos missionrios cristos por todo o pas contriburam para
educ-los, emancip-los e permitir-lhes assimilar certos aspectos da cultura
amrico-liberiana, condies que Ihes davam o grau de "civilizados" (ou "semi-
civilizados"). Um nmero relativamente reduzido deles atingiu p de igualdade
com os amrico-liberianos quanto aos direitos civis e polticos. Um punhado
desses privilegiados ascendeu a funes pblicas e polticas de primeiro plano,
como o dr. Benjamin W. Payne, um Bassa formado em medicina nos Estados
Unidos que ocupou o ministrio da Instruo Pblica durante a maior parte das
dcadas de 1910 e 1920; Henry Too Wesley, um Grebo que foi vice-presidente
da Libria em comeos da dcada de 1920; Didwo Twe, um Kru que foi sena-
dor (ver fig. 28.1), e Momolu Massaquoi, um Vai que assumiu por vrias vezes,
na dcada de 1920, as funes de ministro interino do interior e de cnsul da
Libria na Alemanha7.
    No obstante, at os africanos privilegiados e instrudos  para no falar
da massa dos autctones sem direito de voto e em grande parte oprimidos 
estavam mais ou menos descontentes com a "dominao amrico-liberiana",
que era como classificavam, com razo, o governo liberiano. Regra geral, pro-
curavam reformar o sistema sociopoltico do pas para melhorar a sorte dos
autctones. Em raras ocasies, como em 1930, quando da crise de mo de obra
local, alguns liberianos cultos de destaque militaram pela derrubada do governo
amrico-liberiano8.
    A aculturao no era, porm, um fenmeno de sentido nico. Os prprios
amrico-liberianos acabaram por adotar certos aspectos da cultura autctone


5    United States National Archives (USNA), Records of the Department of State relating to the Inter-
     nal Affairs of Liberia (RDSL), 1909-1929, 4/88, US State Department Memorandum, 16 de junho de
     1924.
6    USNA, 1909-1929, 4, Clarke ao secretrio de Estado dos EUA, Monrvia.
7    BUELL, 1947, p. 751.
8    Ver mais adiante.
836                                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



que antes haviam rejeitado, por consider-los superstio e barbarismo, como a
crena na eficcia da magia, da feitiaria e da "medicina tradicional", a iniciao
no poro e a prtica de dar pessoas como penhor de uma dvida ou obrigao
semelhante9. Em 1935, trmino do perodo abrangido por este estudo, esse pro-
cesso de africanizao, todavia, ainda no era bastante profundo para mascarar
o que separava os autctones do grupo amrico-liberiano nos planos social,
econmico, poltico e cultural.
    Tal como na Libria, a vasta expanso territorial verificada na Etipia, no
reinado de Menelik, teve por consequncia maior o aumento da diversidade
tnica da populao. Entre os povos que em 1914 se encontravam incorporados
na Etipia, contam-se em primeiro lugar os Oromo, quase to numerosos como
os amrico-tigrinos e dispersos por quase a metade do territrio da Etipia, alm
dos Gurage, dos Sidamo e dos Beni Shangul10.
    Como fez a oligarquia amrico-liberiana na Libria, os amrico-tigrinos con-
servaram sua dominao econmica, poltica e militar sobre o resto da Etipia
durante o perodo considerado. Mas, ao contrrio da minoria amrico-liberiana,
calcula-se que eles representassem de 33% a 40% da populao etope11. Embora
constitussem um grupo privilegiado, a realidade do poder econmico e poltico
escapava-lhes em proveito de pequeno nmero de famlias da nobreza etope,
entre as quais se recrutava a maior parte dos altos dignitrios, como  por ordem
de precedncia  os negus, betwoded, ras, dajazmach e fitawrari. Foi sobretudo ao
apoio desses nobres (e dos exrcitos por eles comandados) que Menelik ficou
devendo as conquistas que lhe permitiram expandir as fronteiras da Etipia,
anexando territrios posteriormente ocupados mediante um sistema dito de
"guarnies", em muitos pontos comparvel ao utilizado pelos colonialistas
europeus em outras regies da frica12. No surpreende, portanto, que muitos
desses nobres e seus descendentes, assim como os descendentes dos militares
de servio nessas guarnies, funcionrios "e mesmo membros do clero cristo
dessem muitas vezes provas do pior esprito colonial" ou da pior atitude racial
em relao aos etopes pertencentes a "grupos tnicos ligeiramente diferentes"13.


9     Liberian National Archives, Grand Bassa County File (no catalogado), Smith a King, Lower Buchanan,
      14 de novembro de 1924; ibid., Russel a King, Lower Buchanan, 5 de maio de 1928; ibid., Harris (por
      Banks) a King, North Harlandville, 6 de agosto de 1928.
10    ULLENDORFF, 1960, p. 30-44; GREENFIElD, 1965, p. 98-108; HUNTINGFORD, 1969, p.
      35-7.
11    ULLENDORFF, 1960, p. 31; HUNTINGFORD, 1969, p. 23.
12    GREENFIELD, 1965, p. 48-9, 119, 136, 460-2.
13    lbid., p. 105-6.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial            837




figura 28.1 Didwo Twe, senador Kru da Libria, um dos raros autctones a ascender a uma funo pblica
de primeiro plano. (Foto: Harlingue-Viollet.)
838                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



Eles se orgulhavam, por exemplo, de ser os construtores do imprio da Etipia
 "aqueles que, por seu saber, serviram ao pas e ao imperador e asseguraram a
posteridade da Etipia"14.
   Era quase o mesmo "esprito colonial" que animava os amrico-liberianos,
que se consideravam os artfices da nao liberiana. Como declararia o presi-
dente William V. S. Tubman, em maio de 1951, os repatriados africanos, criados
na escola do sofrimento e do chicote dos negreiros do Novo Mundo,
      trouxeram para c a civilizao, a educao e a religio que deviam ser transmitidas
      aos indgenas, e esperava-se que com este formassem os dois elementos da popula-
      o a construrem uma grande nao, unida e forte. [...] Por pouco experimentados
      que eles fossem, tudo fizeram com suas mos: edifcios pblicos, estabelecimentos
      de ensino superior, escolas, igrejas e crescimento econmico, indstrias, embaixadas,
      legaes, consulados, estradas, pontes etc.15
    Essa concepo toda pessoal de construtores da nao ou do imprio  com-
parvel  do "White Man's Burden" (Fardo do Homem Branco), que postula,
erroneamente, que o progresso realizado na frica, nos domnios econmico,
tecnolgico, poltico e cultural  ou em matria de "civilizao" em seu sentido
amplo , deve-se por completo  colonizao europeia16.
    Na primeira metade do sculo atual, a evoluo sociocultural das etnias no
amrico-tigrinas (quer dizer, dos Oromo, Sidamo, Gurage etc.) foi marcada por
uma crescente "amaricizao", a despeito da resistncia pelos muulmanos, tradi-
cionais e outros. O fenmeno deveu-se, em boa medida,  cristianizao forada
que se seguiu s conquistas de Menelik e  imposio da administrao federal,
ao ensino cristo nas escolas etopes, ao prestgio de que gozava o amrico como
lngua nacional, assim como s atividades dos comerciantes e dos sacerdotes
coptas de Amhara e de Tigre, e  crescente urbanizao, que atraa mo de
obra de outras partes do pas para a rbita da cultura amrica17. A amaricizao
manifestava-se em diversos graus, no perodo considerado, pela adoo da ln-
gua, do vesturio e do calendrio amricos; pela evoluo das crenas religiosas;
pela modificao das instituies e das estruturas polticas e pela reforma do
sistema fundirio18. No entanto, tal como na Libria, a aculturao no agiu em


14    Ibid., p. 107.
15    TUBMAN, maio de 1951, in TOWNSEND, 1959, p. 98-9.
16    GANN e DUIGNAN, 1967, captulos 15 e 22.
17    SHACK, 1969, p. 8, 48, 138-9,
18    HUNTINGFORD, 1969, p. 27-9, 55-8, 68; SHACK, 1969, p. 202.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   839



um nico sentido. Certos colonos amrico-tigrinos das regies mais isoladas,
onde havia guarnies, acabavam sendo assimilados pela populao local19.
   Alm disso, a sociedade etope fragmentou-se em vrias classes e grupos,
entre os quais havia os escravos, os camponeses20, a intelectualidade nascente e
a burguesia mercantil, que apoiava o regente, Tafari Makonnen (futuro impe-
rador Hail Selassi), e reclamava reformas e uma administrao central forte21,
bem como uma frao conservadora, que compreendia a maior parte da grande
nobreza e do alto clero da Igreja Copta da Etipia. Partidrio da imperatriz
Zauditu e defensor da autonomia regional, esse grupo era o baluarte do regime
sociocultural etope22.
   V-se portanto que, durante o perodo considerado, o pluralismo tnico e
cultural, da mesma forma que a desigualdade social na Libria e na Etipia,
fazia com que pairasse uma grave ameaa sobre a estabilidade e a harmonia da
sociedade, ou provocava verdadeiros conflitos, dos quais alguns so estudados
neste captulo.


     Evoluo poltica
     Libria
    Tanto na Libria como na Etipia, o regime e a vida poltica estavam sujei-
tos a tenses que se manifestavam em trs domnios principais: no centro, na
periferia e entre o centro e a periferia.
    Quanto  Libria, em toda a dcada de 1910, o True Whig Party manteve
solidamente as rdeas do poder, sofrendo uma oposio puramente formal. Essa
situao evoluiu um pouco na dcada de 1920, quando o People's Party, criado
em 1922 sob a direo do ex-presidente Daniel B. Howard, desafiou seriamente
o True Whig Party no poder. No entanto, dada a profunda corrupo do apa-
relho poltico e a esmagadora presso exercida pelo partido governamental, o
People's Party era incapaz, incontestavelmente, de vencer o True Whig Party
apenas mediante o recurso constitucional do voto.
    Com efeito, desde a dcada de 1890, a oposio institucional debilitara-se
muito, manifestando-se quando muito esporadicamente e quase sempre oca-

19   SHACK, 1969, p. 25.
20   VIVO, 1978, p. 38-9.
21   VIVO, 1978, p. 37; GREENFIELD, 1965, p. 147.
22   GREENFIELD, 1965, p. 151-2; VIVO, 1978, p. 36-8.
840                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



sionalmente, constituindo-se como partido somente quando havia eleies
nacionais. Essa falta de continuidade traduzia-se na variedade de nomes de tais
partidos: Union Party, nas eleies de maio de 1897 e 1899; People's Party, em
maio de 1901; National Union True Whig Party, em maio de 1911; People's
Party, em maio de 1921, 1927 e 1931; e Unit True Whig Party, em maio de 1935.
Alm do mais, a oposio somente disputava um pequeno nmero de cadeiras
parlamentares. Nas eleies de 1897, 1903 e 1905, no apresentou candidatos 
presidncia e  vice-presidncia, mas s  Cmara dos Deputados e ao Senado.
Nas de 1907 e 1919, o True Whig Party concorreu sozinho. Ao contrrio dos
candidatos do partido de oposio, os da situao ganhavam sempre com larga
maioria23.
    Assim, com exceo da dcada de 1920 e do comeo da de 1930, perodo em
que o People's Party enfrentou com algum sucesso o True Whig Party, verifi-
ca-se que a Libria  singularmente na frica  se transformou gradativamente
durante o sculo XX num Estado praticamente unipartidrio.
    Diversos fatores contriburam para tal situao. O declnio, desde o final do
sculo XIX, da agricultura e do comrcio, que haviam sido meios de vida de
tantos liberianos, fez do governo o principal empregador e a principal fonte de
renda e de prestgio social24. Os candidatos a cargos pblicos ou polticos e os
titulares desses postos tinham, portanto, cada vez mais interesse em apoiar o
governo, o que de fato redundava em apoiar o True Whig Party no poder. Em
segundo lugar, no perodo 1915-1935, a administrao e os costumes polticos
da Libria conheceram talvez uma corrupo e uma prevaricao ainda mais
graves do que antes. A encarniada rivalidade entre situao e oposio durante
a dcada de 1920 e o comeo da de 1930 agravou as fraudes eleitorais, obra
principalmente da primeira. Por exemplo, nas eleies de maio de 1927, foram
anunciados 235 mil votos a favor do presidente King (ver fig. 28.2) e 9 mil votos
a favor de T. J. Faulkner, seu adversrio pelo People's Party, quando no havia
mais de 10 mil pessoas habilitadas a votar em todo o pas naquele ano25.
    Em terceiro lugar, tal como no sculo XIX, a situao e a oposio estavam
divididas mais por rivalidades pessoais ou por desacordos sobre a partilha dos


23    USNA, DUSM, 14/88, Lyon a Hay; Monrvia, 13 de janeiro de 1905; ibid., Lyon a Adee, Monrvia, 8
      de maio de 1905; USNA, DUSM (NF), 405/112, Lyon ao secretrio de Estado, Monrvia, 20 de maio
      de 1907; T. J. R. Faulkner, 1927; "Janus", "The Defeat of the ex-President C. D. B. King, at National
      Election on May 7, 1935  And Why", documentao no catalogada.
24    American Colonization Society Ms. (ACS), Liberian Letters, 28, Stevens a Wilson, Monrvia, 1 de maio
      de 1901.
25    FAULKNER, 1927.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial            841




figura 28.2    Charles Dunbar B. King, presidente da Libria. (Fonte: Johnston, Libria, 1906.)
842                                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



benefcios sociais do que por marcantes divergncias de ordem ideolgica ou
poltica. Em 1911, por exemplo, o People's Party foi criado por um grupo dissi-
dente do True Whig Party, depois que o partido designou como candidato  pre-
sidncia seu presidente nacional, Daniel B. Howard, em vez do vice-presidente
da Libria, Jerome J. Dossen, de Maryland. Da mesma forma, em 1927, muitos
True Whig passaram-se para o People's Party no porque advogassem seu pro-
grama, mas por se oporem  candidatura do presidente King a um terceiro man-
dato 26. Na ausncia de grandes diferenas ideolgicas ou programticas entre
os liberianos, a poltica tornou-se em larga medida uma questo de colaborao
ou de rivalidade entre as famlias influentes, sobretudo as amrico-liberianas,
que dominavam o partido no poder e o da oposio, na inteno de controlar
os benefcios sociais.
    Finalmente, se a base poltica da Libria tivesse sido ampliada para acolher os
indgenas liberianos, as coisas teriam sido diferentes. Mas,  parte Too Wesley e
alguns outros j mencionados, nada disso se verificou. O sistema poltico do pas
permaneceu, assim, fundamentalmente conservador, servindo principalmente
aos interesses da elite amrico-liberiana, perpetuando sua ascendncia poltica.

      Etipia
    A situao poltica na Etipia, no decurso do perodo aqui estudado, contras-
tava com a da Libria em certos pontos importantes, como a natureza e o alcance
das instituies polticas, o funcionamento e a importncia da distribuio dos
poderes e dos privilgios polticos. Entretanto, no tocante aos problemas essen-
ciais colocados pela organizao do sistema, pelo grau de evoluo poltica, pela
estrutura e interesses de classe e pela interveno do imperialismo estrangeiro,
a Etipia tinha muitos pontos em comum com a Libria.
    Os ltimos anos de Menelik constituram um perodo difcil para a Etipia.
No decorrer de sua prolongada doena, o imperador nomeou o neto Lij Yasu
 garoto de doze anos  para seu sucessor, em meados de 190827. Por volta do
final desse ano, quando ficou paraltico e perdeu a fala, Menelik nomeou como
regente o ras Tasamma, seu antigo general. Tasamma morreu em 1911, motivo
pelo qual o Conselho de Estado declarou ento que Yasu j tinha idade bastante
para agir por conta prpria. At a morte de Menelik, em dezembro de 1913, o
vazio de poder criado por sua doena exacerbou as intrigas polticas s quais se


26    Anon., Confidential diary of Liberian events 1926-1929 (manuscrito guardado na Manso do Executivo).
27    PANKHURST, 1976.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial       843



entregavam faces da nobreza etope e incitou as potncias coloniais europeias
a se intrometerem nos assuntos do pas28.
    Lij Yasu, filho do ras Mikael, que governava a provncia de Wallo, era de
natureza impetuosa. Tinha muito pouco da sutileza poltica do av, no contava
com nenhum apoio alm de Wallo e, por outro lado, desagradava aos velhos
cortesos de Menelik, os quais, na maioria, eram originrios de Choa. Pouco
a pouco, a oposio foi se cristalizando contra alguns aspectos de sua pol-
tica interna, especialmente sua amizade com a populao muulmana, e contra
sua poltica externa, a qual tinha como eixo o apoio que ele deu  Alemanha,
ustria-Hungria e Turquia ao irromper a Primeira Guerra Mundial, em 1914.
No surpreende, portanto, que tenha havido coligao entre os nobres, os dig-
nitrios eclesisticos e, possivelmente, tambm entre as delegaes aliadas em
Adis Abeba, para dep-lo em setembro de 1916 e mant-lo prisioneiro de 1921
at sua morte, em 193529. A filha de Menelik, Zauditu, foi ento proclamada
imperatriz, e Tafari, filho do ras Makonnen, primo do imperador defunto, foi
declarado regente e herdeiro do trono. A coroao da imperatriz Zauditu, no
dia 11 de fevereiro de 1917, marcou o incio do dualismo de poder, dividido
este entre a imperatriz e o regente, cada qual com seu palcio, seus partidrios
e polticas muitas vezes conflitantes.
    A ascenso de Tafari Makonnen  regncia foi um acontecimento importante,
j que ele era um chefe resoluto, desejoso de retomar a poltica de moderniza-
o de Menelik e de prosseguir nos esforos envidados por este para preservar
a independncia do pas. A predisposio do regente para governar com um
estilo todo pessoal permitiu-lhe em parte estender seu poder a vrios setores
nevrlgicos da vida pblica, como seus representantes na corte, nas provncias,
no Exrcito, na Igreja e junto da imperatriz. A 7 de outubro de 1928, Tafari
foi coroado negus e tomou inteiramente em mos a direo do pas. A coroao
trouxe-lhe maior ressentimento e a oposio de Zauditu e seus fiis. Em maro
de 1930, revoltou-se o ras Gugsa Wolie, marido da imperatriz, mas ele foi ven-
cido com a ajuda da minscula fora area do negus. No dia seguinte, Zauditu
morreu, e Tafari assumiu o ttulo de imperador Hail Selassi L Foi coroado
em 2 de novembro de 193030 (ver fig. 28.3).



28   GREENFIELD, 1965, p. 131-2.
29   GREENFIELD, op. cit., 136-46.
30   WAUGH, 1934; MOSLEY, 1964, p. 151-63. Para a enumerao cronolgica de alguns dos principais
     acontecimentos do reino, ver PETRIDES, 1964, p. 157-9.
844                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Tendo assim reforado sua posio poltica, Hail Selassi deu mais um passo
no sentido da modernizao do sistema poltico da Etipia, promulgando uma
constituio escrita em 1931 e aumentando a autoridade do governo central a
expensas da nobreza31. A Constituio institua o bicameralismo parlamentar,
com um senado cujos membros eram nomeados e uma cmara de deputados
igualmente nomeados, "at que o povo esteja em condies de os eleger".
    J que Hail Selassi considerava a Constituio de 1931 um marco na
histria poltica da Etipia, podemos indagar em que medida ela modificou o
sistema poltico do pas e  questo ainda mais importante  qual foi a evoluo
poltica da Etipia no decurso desse perodo. Como no caso da Libria, houve
efetivamente algumas mudanas polticas, que, contudo, no foram fundamen-
tais nem estruturais. Elas se traduziram no reforo progressivo do poder do
regente e depois do imperador, a expensas da antiga nobreza e da Igreja  por
outras palavras, no aumento da centralizao; na aplicao mais estrita de cri-
trios reconhecidos em matria de nomeaes para cargos pblicos quando da
eliminao dos membros mais conservadores da nobreza etope; no reconhe-
cimento explcito da necessidade de uma modernizao por certos dirigentes
etopes, inclusive o prprio Hail Selassi, bem como na promulgao oficial
de uma constituio.
    No decorrer do perodo, quase no houve progresso envolvendo mudanas
de ordem normativa, institucional e estrutural na vida poltica da Etipia. Pelo
contrrio, a despeito da maior centralizao poltica, o separatismo social, o
regionalismo cultural e o chauvinismo tnico  por exemplo, entre os Oromo,
Sidamo, Tigrina e Gurage  se mantiveram como as caractersticas dominantes
do imprio etope, prejudicando seriamente a integrao nacional32.
    Em segundo lugar, a Constituio de 1931 estava longe de ser uma inova-
o radical e teve pouca influncia imediata sobre a vida poltica do pas. No
tocava no poder absoluto do imperador e mantinha em grande parte a situao
privilegiada da nobreza. Hail Selassi designava membros do senado indivduos
desta classe e, por sua vez, os nobres e os shuma (chefes) locais designavam os
membros da cmara dos deputados33. Como o parlamento no tinha quase
nenhuma iniciativa em matria legislativa e quase nenhum poder de deciso, j
que era convocado e dissolvido  vontade pelo imperador, no passava de uma



31    GREENFIELD, 1965, p. 168.
32    ROBERTSON, 1977, p. 31-3.
33    Ibid., p. 169.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial          845




figura 28.3    Hail Selassi I, imperador da Etipia (1930-1974). (Foto: Harlingue-Viollet.)
846                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



cmara de registro dos assuntos que ele lhe submetia34. No momento da invaso
italiana, o parlamento era uma instituio quase defunta35. Da mesma forma,
os ministros praticamente no tinham a possibilidade de tomar iniciativas ou
independncia de ao. No dependiam do parlamento e eram diretamente
responsveis perante o imperador36.
    Em todos esses pontos, a Etipia diferia muito da Libria.  certo que a
Constituio liberiana atribua ao presidente largos poderes constitucionais, os
quais estavam, porm, longe de ser absolutos. O parlamento liberiano tinha ati-
vidade poltica; o etope era dcil e submisso. O contraste mais chocante talvez
se relacionasse com a falta de partidos polticos na Etipia, atribuda a fatores
tais como o papel historicamente preponderante do imperador nos assuntos do
pas e  falta de desenvolvimento econmico ou de uma elite ocidentalizada,
suscetvel de modificar substancialmente o conservadorismo da Etipia37.
    Assim, no perodo em estudo, a Libria e a Etipia apresentavam mais ana-
logias do que divergncias no que concerne aos fatores determinantes de sua
vida poltica. Citem-se como exemplos o conservadorismo das normas sociais
no igualitrias e caducas, a falta de integrao nacional, de desenvolvimento
econmico ou de firme vontade de mudana radical da sociedade e, sobretudo,
a frgil independncia poltica em meio  hostilidade e  cobia das potncias
imperialistas da Europa.


      Evoluo econmica e social, 19151935
      Libria
    Os anos que vo de 1915 a 1935 foram, em muitos sentidos, um perodo de
crise econmica para a maior parte dos liberianos e para seu governo. O declnio
do comrcio e da agricultura, principais riquezas do pas, desde o fim do sculo
XIX, trouxe consigo uma queda brutal das receitas pblicas (que provinham
sobretudo dos direitos alfandegrios) e privou muitos liberianos de seu grande
meio de subsistncia.
    Em parte para reembolsar dvidas cada vez mais pesadas, incluindo o emprs-
timo ingls de 1870, e em parte para facilitar o desenvolvimento econmico do

34    Apud ibid., extrado de BAUM, 1928.
35    Ibid.
36    Ibid.
37    HESS e LOEWENBERG, 1968, p. 199-201.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial             847



pas, o governo contraiu em 1905 um emprstimo de 500 mil dlares a juros
de 6% de alguns banqueiros ingleses. No entanto, o novo emprstimo pouco
melhorou as coisas e foi cancelado em 1912, quando alguns bancos europeus
concederam outro, de 1700 mil dlares,  taxa de 5%, para resgatar o primeiro.
A Libria dividiu ento suas receitas em duas categorias: as "receitas reservadas",
constitudas essencialmente pelos direitos alfandegrios e destinadas exclusi-
vamente ao pagamento dos juros e ao fundo de amortizao do emprstimo
de 1912; as receitas internas, constitudas por diversos foros, multas e taxas
internas impostos pelo governo (incluindo o imposto de habitao, cobrado dos
autctones) e alocadas aos servios pblicos essenciais, sobretudo ao pagamento
dos vencimentos dos funcionrios. A cobrana e a administrao das "receitas
reservadas" foram confiadas a uma "Recebedoria Internacional", constituda por
um norte-americano, com as funes de "recebedor geral das alfndegas", com
a assistncia de recebedores franceses, alemes e britnicos.
    De fato, as "receitas reservadas" diminuram com o incio da Primeira Guerra
Mundial, principalmente devido  retrao do intercmbio comercial resul-
tante da retirada dos alemes, que at ento dominavam quase trs quartos do
comrcio38. Alm disso, como a cotao do caf, principal exportao do pas,
bem como a de outros produtos de exportao  marfim, cacau, leo de palma,
palmito, piaava etc. , registrava uma queda brutal nos mercados mundiais39,
os plantadores liberianos reduziram a produo de forma radical, de modo que
as exportaes e, portanto, as receitas aduaneiras caram na mesma proporo.
Assim, de 1916 em diante, o Estado no teve mais condies de honrar pontual
e integralmente40 as parcelas dos juros anuais nem do fundo de amortizao do
emprstimo de 1912. Os atrasados foram se acumulando, atingindo 178657
dlares em 30 de setembro de 1918. Ao mesmo tempo, as "receitas internas"
mal chegavam  principalmente por causa da corrupo dos funcionrios libe-
rianos  para financiar os servios essenciais do governo, como o pagamento do
funcionalismo, cujo montante j havia sido fortemente reduzido.
    Assim, ameaado de falncia, o governo liberiano a princpio tomou emprs-
timos frequentes e importantes do Bank of British West Africa entre 1917 e



38   SHARPE, 1920, p. 302; USNA, RDSL 1909-1929, 4, Young ao Departamento de Guerra dos EUA,
     Monrvia, 7 de outubro de 1915.
39   USNA, RDSL 1909-1929, 5, Bundy, "Quarterly Diplomatic Report", Monrvia, 2 de agosto de 1919;
     ibid., 4, C. Young, "Memo of Major Charles Young on Conditions in Liberia", Monrvia, 7 de Outubro
     de 1915.
40   HOWARD, 1916; USNA, RDSL 1909-1929, 4, "Memo of Major Charles Young..." , cit. na nota 39.
848                                                           frica sob dominao colonial, 1880-1935



191841. Depois, do final de 1918 at 1921, tentou obter um emprstimo de
5 milhes de dlares do governo dos Estados Unidos da Amrica42. No o
conseguindo, viu-se obrigado a implantar diversas medidas destinadas a incen-
tivar o comrcio e a aumentar as receitas que da extraa. Entre essas medidas
vale destacar a elevao das tarifas aduaneiras, a reabertura do interior do pas
(interditado aos estrangeiros desde o comeo da Primeira Guerra Mundial)
aos negociantes de outros pases e o aumento dos direitos porturios 43. Ao
mesmo tempo, o governo deu acolhimento favorvel aos planos da Universal
Negro Improvement Association, movimento nacionalista composto de negros
do Novo Mundo, estabelecido na Amrica e dirigido pelo jamaicano Marcus
Garvey, cujo objetivo consistia em facilitar a entrada de capitais e de imigrantes
negros na Libria para desenvolver os recursos do pas. Esses projetos, contudo,
nunca se materializaram44.
    Felizmente, para os liberianos, a economia do pas foi se restabelecendo
progressivamente desde o final de 1923. Vendendo bens alemes confiscados
durante a Primeira Guerra Mundial, o governo obteve 154 mil dlares45. Por
outro lado, as medidas fiscais introduzidas em dezembro de 1922, principal-
mente as novas tarifas aduaneiras, comeavam a ficar rentveis46. A retomada do
comrcio externo, principalmente depois que os alemes voltaram a participar
dele, em 1922, bem como a reabertura do interior aos negociantes estrangeiros,
trouxeram consigo o aumento das exportaes, de modo que a balana comercial
da Libria comeou a obter saldos favorveis. Por exemplo, nos nove primei-
ros meses de 1923, o valor das exportaes superou em 169 mil dlares47 o do
mesmo perodo do ano anterior.
    E, no momento em que as finanas pblicas comeavam a se recuperar,
perspectivas ainda mais brilhantes se anunciavam para a economia liberiana,
quando o norte-americano Harvey S. Firestone obteve do governo, em 1926,
uma concesso de cerca de 400 mil hectares por 99 anos, para plantio de serin-
gais e exportao de borracha; por outro lado, a Finance Corporation of America


41    BANNERMANN, 1920; BUELL, 1947, p. 26.
42    BANNERMANN, 1920; STARR, 1925, p. 113; KING, C. D. B., 1924, p. 2-3.
43    BUELL, 1928, v. II, p. 769-70; USNA, RDSL 1909-1929, 8.882/032/43, Bur ao Ministro Residente
      Americano, Monrvia, 10 de fevereiro de 1923.
44 AKPAN, 1973a.
45    BUELL, 1928, v. II, p. 767.
46    KING, C. D. B., 1924, p. 9.
47    Ibid., p. 7.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   849



concedeu  Libria um emprstimo de 5 milhes de dlares para o desenvol-
vimento das infraestruturas do pas, principalmente estradas, hospitais, escolas,
e para a amortizao da dvida48. O emprstimo, que recebeu a aprovao do
governo de Washington, reforou consideravelmente a influncia de Firestone
e dos Estados Unidos na Libria.
    Os investimentos de Firestone em duas grandes plantaes de seringueiras
tiveram, a curto prazo, uma influncia modesta mas no insignificante sobre a
economia liberiana, sobretudo na rea do emprego. Em primeiro lugar, Firestone
tornou-se o principal empregador da Libria (ver fig. 28.4)49. No entanto, os
empregados liberianos, em sua maioria, no tinham qualificao ou eram semi-
qualificados, limpando matas e plantando mudas ou trabalhando como artesos
e mecnicos. Em segundo lugar, Firestone construiu diversos dispensrios e
escolas para seus empregados liberianos (e norte-americanos) e distribuiu mudas
de seringueira a quem quisesse plantar50. No entanto, a produo de borracha
de Firestone permaneceu por dezenas de anos uma atividade relativamente cir-
cunscrita. Teve pouco efeito de propagao sobre, ou ligaes com, a economia
agrcola liberiana, bastante subdesenvolvida, voltada principalmente  produo
de arroz,  qual se dedicavam mais de 80% dos autctones. Somente em 1935,
quando as vendas comearam a ganhar impulso, a borracha se tornou o principal
produto de exportao da Libria (e assim foi at 1961, quando foi suplantada
pelo minrio de ferro)51.
    O ano de 1935 foi importante por duas outras razes. As prospeces con-
firmaram a presena de minrio de ferro em Bomi Hill, mas a explorao e a
produo efetivas s se verificaram muito depois, em 195152. Por outro lado,
1935 assinalou o fim do predomnio do Reino Unido e de outros pases euro-
peus como principais parceiros comerciais da Libria, os quais foram substi-
tudos pelos Estados Unidos de 1936 em diante  graas  intensificao das
exportaes de borracha sobretudo para esse pas53. Convm notar, no entanto,
que a baixa das cotaes dos principais produtos liberianos nos mercados inter-
nacionais, com o incio da grande depresso (leo de palma, palmito, piaava,
caf, cacau, noz-de-cola), foi acompanhada pelo declnio em volume e em valor


48   JONES, A. G., s.d.
49   KING, C. D. B., 1928, p. 8.
50   WILSON, C. M., 1971, p. 137-8.
51   Liberia Trading and Development Bank Ltd., 1968, p. 76-7.
52   CLOWER et al, 1966, p. 197-201.
53   REPUBLIC OF LIBERIA, 1941, p. 36-40.
                                                                                                                                     850
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figura 28.4   A Libria e a borracha. Trabalhadores de uma grande plantao prontos para a colheita. (Fonte: Wilson, C. M., 1971.)
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   851



do intercmbio comercial do pas. Durante toda a dcada de 1930, a balana
comercial apresentou saldos negativos54. O negcio de importao-exportao
na Libria era dominado, desde o final do sculo XIX, por empresas europeias. A
partir da dcada de 1920, juntou-se a elas um nmero crescente de negociantes
libaneses, os quais, no final do perodo em estudo, em 1935, tambm dominavam
a maior parte do comrcio varejista da Libria55.
    Nas circunstncias mais ou menos penosas que reinavam nesse perodo (1915-
-1935), o governo liberiano vivia constantemente com problemas de caixa, em
face dos pagamentos contnuos da dvida, no podendo tratar de forma bem ativa
do desenvolvimento social e econmico do pas. O programa de construo de
estradas, lanado pelo presidente Arthur Barclay, foi intensificado mas empre-
gando sobretudo mo de obra indgena recrutada  fora, sem pagamento (ver
fig. 28.5). Os trabalhadores tinham de trazer enxada, faco e outros utenslios
para o servio56. No decorrer da dcada de 1920, pela primeira vez na histria
da Libria, o governo criou vrias escolas elementares nas regies do serto57.
No final de 1930, fundou a Booker T. Washington Agricultural and Industrial
Institution, destinada  formao de pessoal tcnico e agrcola de nvel primrio
e mdio58. Em 1934 comeou a construo da Escola Normal de Monrvia59,
de grande necessidade. Os estabelecimentos j existentes, como o Liberia Col-
lege e o College of West Africa, tinham boa reputao60. Em agosto de 1927, o
governo central de Monrvia instalou sistemas de radiocomunicao com toda
a costa liberiana e com os Estados Unidos, construindo vrias estaes de rdio,
as quais trouxeram importante complemento aos servios telefnicos existentes,
mas ineficazes, no litoral61. Em 1924, o governo construiu um hospital em Mon-
rvia. Em 1927, procedeu  aquisio e  montagem, igualmente em Monrvia,
de uma central encarregada de suprir a cidade de fora e luz62.
    Os organismos missionrios americanos, como o faziam desde a fundao
da Libria, participaram desses esforos construindo escolas, hospitais e igrejas,


54   Ibid., 1940, p. 8, 11.
55   ROBERTS, Z. B. H., 1934, p. 6-7.
56   LIGA DAS NAES, 1930, p. 147-70.
57   KING, C. D. B., 1922, p. 23-4; 1924, p. 5-6.
58   WILSON, C. M., 1971, p. 154; STARR, 1925, p. 128-9.
59   BARCLAY, 1934, p. 2-4.
60   Ibid.
61   KING, C. D. B., 1927, p. 33-6.
62   HENRIES, 1963, p. 90-1.
                                                                     852
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figura 28.5   Distribuio da malha rodoviria na Libria em 1925.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial      853



que entregavam a seus adeptos, como George W. Harley, mdico e etngrafo, e
a senhora Harley, da misso metodista de Ganta63.
    No entanto, todo progresso srio do ensino era entravado tanto pela insufi-
cincia das receitas pblicas como pela tradicional prudncia do governo, que
hesitava em abrir o serto aos missionrios, aos negociantes e aos estrangeiros,
receando a influncia que alguns pudessem exercer sobre as estruturas admi-
nistrativas autctones64.
    Pior, a penria do governo liberiano e a incapacidade de pagar vencimentos
totais ou parciais aos funcionrios incentivavam estes a praticar a corrupo e a
explorao. Citemos, por exemplo, os desvios de fundos pblicos e as extorses
sobre a populao autctone. O abuso mais notrio  o embarque forado, orga-
nizado por certos amrico-liberianos de destaque, de indgenas liberianos para
Fernando P, onde estes eram obrigados a trabalhar para plantadores espanhis
 tornou-se um caso de alcance internacional, com graves repercusses para a
soberania da Libria65.

     Etipia
    A coleta de impostos feudais e a explorao cada vez maior de camponeses
e escravos nas provncias remotas, conquistadas por Menelik, fizeram afluir
recursos aos cofres do governo etope. No entanto, a Etipia, tal como a Lib-
ria, no estava passando por nenhum desenvolvimento econmico significativo.
As reformas econmicas e sociais que se verificaram no decorrer do perodo
estudado foram de nmero muito limitado para modificar de forma sensvel a
economia essencialmente feudal da Etipia e o conservadorismo de sua textura
socioeconmica.
    O principal instigador da evoluo social e econmica foi o regente Tafari
Makonnen. Uma de suas primeiras reformas foi a ampliao dos servios minis-
teriais, com a criao, em 1922, do ministrio do comrcio e de um departa-
mento de obras pblicas. Em 1923, instalou uma casa impressora adquirida na
Alemanha chamada Berhanena Saiam, ou seja, "Luz e Paz", cuja direo foi
confiada a Gabra Krestos Takla Haymanot, pessoa formada na Eritreia por mis-
sionrios suecos. A impressora editou um jornal com o mesmo nome a partir de



63   WILSON, C. M., 1971, p. 154.
64   USNA, RDSL 1909-1929, 882/00/705, Critchlow a Garvey, Monrvia, 24 de junho de 1921.
65   Ver, mais adiante, o exame da crise acarretada  Libria pelo trabalho forado.
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1925, bem como livros religiosos e didticos, contribuindo de forma significativa
para a evoluo da literatura em lngua amrica66.
    A eventual abolio da escravatura na Etipia afetaria a estabilidade interna
do pas e suas relaes com as potncias estrangeiras, donde seu carter pro-
blemtico. Tafari, a quem as relaes internacionais preocupavam muito, logo
sentiu as vantagens que a Sociedade das Naes e seu dispositivo de segurana
coletiva pareciam oferecer. Apresentou a candidatura da Etipia a membro da
organizao, quando esta foi fundada, em 1919; mas, se a Frana lhe deu apoio,
o Reino Unido argumentou que o pas no estava em condies de cumprir
suas obrigaes de Estado-membro, especialmente as referentes  abolio da
escravatura. cidos ataques  escravatura reinante na Etipia apareceram na
Westminster Gazette e em outros jornais britnicos, nos quais se sugeria a inter-
veno das potncias europeias ou da Sociedade das Naes.
    Tafari estava evidentemente mais preocupado com o aspecto diplomtico
do que com o lado humanitrio da questo da escravatura. Em julho de 1922,
promulgou um dito reiterando a velha proibio da venda de escravos e pre-
vendo penas severas para os traficantes, e fez saber ao governo britnico que
estava disposto a proteger e a instruir todos os escravos que fossem libertados
em alto-mar. Em 15 de setembro de 1923, lanou uma proclamao, de acordo
com a qual o rapto de escravos era punido com a pena de morte67. Essa atitude
mais determinada do regente para com a escravatura facilitou a entrada da Eti-
pia na Sociedade das Naes, com a perseverante oposio do Reino Unido e o
apoio da Itlia e da Frana, as quais esperavam assim ganhar influncia em Adis
Abeba. Assim o pas tornou-se membro da Sociedade das Naes no dia 23 de
setembro de 1923, quando o regente assinou uma declarao segundo a qual
aderia s principais convenes internacionais para a supresso da escravatura.
    Quase imediatamente aps a promulgao do decreto antiescravagista, o
regente, acompanhado de dois dos principais dignitrios do pas, oras Haylu
Takla Haymanot, de Gojam, e ras Seyoum Mangasha, de Tigre, partiu para uma
viagem  Palestina, Egito, Frana, Blgica, Holanda, Sucia, Itlia, Reino Unido,
Sua e Grcia. Avistou-se com o presidente Raymond Poincar, na Frana, com
o ditador italiano Benito Mussolini e o primeiro-ministro britnico Ramsay
MacDonald, instando com eles para que cedessem um porto  Etipia em uma
de suas colnias vizinhas. Mas essa ao diplomtica, contrria aos interesses das
trs potncias coloniais, que eram os de manter a Etipia em seu isolamento, foi

66    C. F. REY, 1927, p. 28-29.
67    SANDFORD, 1946, p. 58.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   855



infrutfera. Tafari obteve apenas vagas promessas e a coroa do imperador Teo-
doro, restituda pelos britnicos, que haviam se apossado dela 66 anos antes.
    No entanto, no que diz respeito aos negcios internos da Etipia, a viagem
foi comparada  de Pedro, o Grande  Europa ocidental68, j que teve o mrito de
tornar a sociedade etope atenta  existncia do mundo exterior,  necessidade de
adotar as invenes estrangeiras e de desenvolver seus recursos humanos. Como
o regente e ras Haylu tinham comprado vrios automveis, lanando a moda
entre a nobreza etope, o nmero de veculos que circulavam em Adis Abeba
logo atingiu vrias centenas69. Jovens foram enviados em nmero crescente ao
estrangeiro, principalmente para o Lbano, Egito, Frana, Reino Unido e Esta-
dos Unidos, para estudar.
    Um novo hospital, o Bet Sayda, foi fundado pelo regente em 1924 e colocado
sob a direo de um sueco, o dr. Kurt Hanner70. Cerca de dois anos depois, no
obstante a oposio dos tradicionalistas, Tafari abriu o segundo estabelecimento
de ensino moderno do pas, a Escola Tafari Makonnen, cujo diretor era um fran-
cs. Em seu programa entravam o francs, o ingls, o amrico, o rabe, matrias
cientficas e outras disciplinas. No discurso de inaugurao, Tafari evocou a
"necessidade gritante" de instruo, sublinhando que, sem instruo, o pas no
poderia manter a independncia e exortando seus compatriotas a fundar escolas,
j que estava finda a poca do patriotismo puramente verbal71. Entre as outras
inovaes do perodo, h que notar: em 1925, o recrutamento de oficiais belgas
para treinar a guarda do regente; em 1927, a concesso de licena a dois gregos
para a construo de uma estrada entre Gor e Gambela, na fronteira ocidental;
em 1929, a aquisio na Frana e na Alemanha dos primeiros avies, cuja intro-
duo havia sido impedida at a pelo conservadorismo de parte da nobreza.
    Aps sua coroao, Hail Selassi deu prosseguimento ao esforo de moder-
nizao, com a ajuda de trs conselheiros de fora: um sueco, o general Virgin,
para poltica externa; um americano, E. A. Colson, para as questes financeiras;
e um suo, M. Auberson, para as questes jurdicas72. Todavia, o desenvolvi-
mento do pas foi seriamente dificultado pela depresso econmica mundial, que
trouxe consigo a queda das exportaes e das possibilidades de investimento de
capitais estrangeiros. No obstante, promulgou-se uma lei em 1930 com vistas


68   GREENFIELD, 1965, p. 157.
69   PANKHURST, 1968, p. 290-1.
70   FARAGO, 1935, p. 132-3.
71   PANKHURST, 1962b, p. 266-7.
72   STEER, 1936, p. 28-9.
856                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



a organizar um servio de cadastro e recenseamento das terras e fundou-se, no
mesmo ano, o ministrio da Educao. O ano de 1931 registrou trs novos e
importantes fatos: o primeiro foi a promulgao de uma Constituio escrita, da
qual j nos ocupamos; o segundo foi a substituio do velho Banco da Abissnia,
empresa privada sob controle estrangeiro, por um banco nacional, o Banco da
Etipia; o terceiro foi a publicao de nova lei relativa  supresso gradual da
escravatura, estipulando que todos os escravos estariam livres com a morte de
seu senhor e contemplando o dia "em que a escravatura teria desaparecido por
completo"73.
    Tambm se envidaram esforos para a melhoria das comunicaes. Criou-se
um ministrio de obras pblicas, em 1932, e foi retomada a construo de estra-
das. Uma estao radiofnica provisria foi inaugurada em 1933, sendo substi-
tuda em 1935 por um emissor mais poderoso, construdo por uma companhia
italiana. Foram criadas vrias escolas, as melhores na dependncia do governo,
embora os missionrios continuassem a exercer certa atividade em matria de
ensino, sobretudo nas provncias. Em 1935, Adis Abeba contava catorze escolas
pblicas, com trinta professores estrangeiros e cerca de 4 mil alunos. Na provn-
cia, o progresso do ensino comeou igualmente com a abertura de escolas pbli-
cas em Dessie, Gondar, Jijiga, Lakamti, Dire Dawa, Harar, Asba Tafari, Ambo,
Jimma, Dabra Marqoa, Makalle e Salale. Em 1934, foi criado um colgio militar
em Holeta, perto de Adis Abeba, sob a direo de oficiais suecos74. O nmero
de jovens que estudavam no exterior elevava-se a vrias centenas. Na rea da
medicina, os missionrios se mostravam mais ativos, sobretudo os da United
Presbyterian Church of North America, da Seventh Day Adventist Mission
e da Misso Catlica Italiana, que tinham hospitais em Adis Abeba, havendo,
ainda, um leprosrio da Sudan Interior Mission funcionando em Akaki75. Entre
as outras inovaes, convm assinalar a criao de uma pequena administrao
pblica, formada por estudantes regressados do estrangeiro, cujos membros
recebiam vencimentos e no rendas de feudos, assim como uma tendncia cres-
cente para substituir os tributos em espcie por taxas em dinheiro. Em 1934
foi promulgado um decreto para regulamentar e limitar as prestaes de servio
exigidas dos camponeses, enquanto o imposto sobre terras era reformado por




73    GARDINER, 1933, p. 202.
74    VIRGIN, 1936, p. 117-24; ZERVOS, 1936, p. 223-32.
75    ZERVOS, 1936, p. 255-7.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   857



uma lei de 1935. Entretanto, a iminente ameaa da invaso fascista italiana j
pairava sobre esses esforos de modernizao76.
   Assim, a Libria e a Etipia conheceram, no decorrer do perodo 1915-1935,
uma evoluo econmica e social mais extensa e mais profunda do que antes,
evoluo que, porm, no iria muito longe, de modo que os dois pases permane-
ceram economicamente atrasados e socialmente subdesenvolvidos. Finalmente,
os investimentos efetuados pelas sociedades e pelos cidados estrangeiros nas
empresas comerciais, agrcolas e mineiras foram maiores na Libria do que na
Etipia. No h dvida de que contriburam para o processo de modernizao,
mas tambm redundaram num controle maior dos estrangeiros sobre a econo-
mia liberiana do que sobre a etope.


     A interveno estrangeira na Libria e na Etipia
     Libria
    As intervenes estrangeiras na Libria e na Etipia, j estudadas no captulo
11, prosseguiram no decurso do perodo 1915-1935. Como ocorrera na era da
corrida e da partilha da frica, seus motivos foram fornecidos tanto pela situ-
ao e pelos acontecimentos internos da Libria e da Etipia como pelos da
Europa e dos Estados Unidos.
    Em primeiro lugar, a penria e o eterno endividamento do governo liberiano
acarretaram em parte o aumento do controle estrangeiro sobre a administrao
financeira do pas mediante o empenho da Recebedoria Internacional, do Bank
of British West Africa e dos interesses de Firestone, apoiados pelo governo dos
Estados Unidos. A economia liberiana estava igualmente dominada por com-
panhias europeias, americanas e libanesas.
    Em segundo lugar, a m situao da Libria nos planos econmico, social e
administrativo tornou-se um tema importante de controvrsia na encarniada
rivalidade poltica que opunha o True Whig Party e o People's Party, atraindo a
ateno da rea internacional. Dentro da Libria, Faulkner, o chefe da oposio,
procurava agradar aos autctones denunciando o recurso ao trabalho forado
para as obras pblicas e a exportao forada de mo de obra, bem como a m
administrao do interior e as fraudes eleitorais77. Depois de sua segunda derrota


76   PANKHURST, 1968, p. 177-9.
77   FAULKNER, 1926.
858                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



eleitoral, em 1927, fez uma viagem pela Europa e pelos Estados Unidos, a fim
de conquistar o apoio internacional para sua causa e desacreditar o governo True
Whig do presidente King78.
    Foi em janeiro de 1930, durante a visita de Faulkner aos Estados Unidos,
que o influente The New York Times publicou um artigo sobre a m gesto dos
negcios pblicos na Libria. Ao mesmo tempo, citava Faulkner favoravelmente,
apresentando-o como um "cidado de opinies progressistas"79. Um pouco antes,
j em 1929, a imprensa britnica havia consagrado ao governo da Libria vrios
editoriais bem desfavorveis. Mais grave ainda: os artigos tanto da imprensa
britnica como da norte-americana, bem como relatos de missionrios e de visi-
tantes estrangeiros, acusavam o governo liberiano e alguns amrico-liberianos
influentes de praticar a escravatura, o trabalho forado e contratos de trabalho
de longo prazo irrescindveis, a exportao e a venda de trabalhadores migrantes
s colnias europeias, especialmente  colnia espanhola da ilha de Fernando
P80.
    O Reino Unido esteve na vanguarda dos ataques, condenando a exportao
de mo de obra e exigindo, conforme fizera entre 1907 e 1909, que o governo
liberiano fosse colocado sob controle europeu81, a fim de melhorar a deplorvel
situao do pas. Da mesma forma, os Estados Unidos tambm atacaram a Lib-
ria a propsito da "pseudoexportao de mo de obra da Libria para Fernando
P [...] que no parecia nada diferente do trfico organizado de escravos [...]",
dando a entender que as instncias mundiais poderiam vir a considerar "certas
medidas efetivas e concretas"82 para pr fim  situao!
    De maneira talvez imprudente, o presidente King no s desmentiu as acu-
saes como apelou  Sociedade das Naes para que ela investigasse. Em con-
sequncia, esta enviou  Libria uma comisso composta por um dentista ingls,
o dr. Cuthbert Christy, que a presidia, pelo dr. Charles S. Johnson, professor
de sociologia afro-americana, e pelo ex-presidente Arthur Barclay. A comisso
dedicou ao exame dos fatos um perodo de apenas quatro meses, no visitando
Fernando P nem apresentando queixa contra a Espanha. Entregou, finalmente,
seu relatrio no dia 8 de setembro de 1930, no qual declarava no ter notado
nenhuma forma de trfico organizado de escravos, mas que o recrutamento de


78    JONES, A. G., s.d.
79    ANDERSON, 1952, p. 98.
80    JONES, A. G., s.d.
81    Ibid.
82    REPBLICA DA LIBRIA, 1930, p. 1.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   859



mo de obra para os canteiros de obras pblicas, as exploraes privadas e a
exportao se faziam em condies de misria e de coao, e que essas prticas
contavam com a colaborao da Fora de Fronteira e de altos funcionrios do
governo da Libria83. O relatrio tambm investigou as relaes entre amri-
co-liberianos e autctones, e a administrao em geral do governo da Libria,
no considerando satisfatrios nem aquelas nem este84. Por isso recomendava
que a Sociedade das Naes colocasse a Libria sob controle "de administradores
brancos, competentes e generosos"85.
    Tendo em vista a situao interna extremamente deplorvel da Libria, as
concluses e recomendaes da comisso, em sua maioria, eram equitativas e
razoveis em muitos sentidos. No entanto, se ela tivesse se dedicado ao estudo
objetivo da poltica colonial contempornea das potncias europeias, teria con-
denado menos severamente os erros  por omisso ou sob instrues  do
governo liberiano e talvez se mostrasse menos tendente a preconizar uma "admi-
nistrao de brancos" na Libria, pois os regimes coloniais europeus eram to
brutais ou piores do que o da Libria, no que concerne a algumas disposies
relativas aos sditos coloniais, especialmente o recurso ao trabalho forado para
as obras pblicas86.
    Em reao ao Relatrio Christy, a Sociedade das Naes instou com a Lib-
ria para que abolisse a escravatura e a exportao de mo de obra para Fernando
P, reorganizasse o governo e institusse reformas de base que garantissem
oportunidades iguais a todos os liberianos. Por sua vez, o governo dos Estados
Unidos declarou-se "profundamente indignado" com a "revoltante opresso" de
que eram vtimas os autctones, conforme revelava o relatrio. Insistiu com o
governo liberiano para que "abolisse rapidamente o duplo flagelo da escravatura
e do trabalho forado" e aplicasse um "sistema global de reformas [...]"87 para
no comprometer as tradicionais relaes entre ambos os pases. Essa declarao
levou o parlamento liberiano a pedir o impeachment do vice-presidente Allen
Yancy (um dos agentes de recrutamento de mo de obra) e do presidente King,
os quais pediram demisso em comeos de dezembro de 1930, antes da votao
da proposta de lei de impeachment88.


83   LIEBENOW, 1969, p. 64-70; LIGA DAS NAOES, 1930, p. 168-70.
84   YANCY, 1934, p. 201-20.
85   LIEBENOW, 1969, p. 64-70.
86   JONES, A. G., s.d.
87   REPBLICA DA LIBRIA, 1931a, p. 2-3.
88   JONES, A. G., s.d.
860                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Sob o efeito dessas presses, o novo governo de Edwin J. Barclay, que sucedeu
ao presidente King, decidiu executar as recomendaes da Sociedade das Naes.
O Parlamento liberiano promulgou, portanto, entre dezembro de 1930 e maio
de 1931, vrias leis que previam a abolio da exportao de mo de obra, dos
contratos de longo prazo irrescindveis e da escravatura, e, ainda, a substitui-
o do trabalho forado por um trabalho comunitrio e voluntrio para obras
pblicas; a reabertura aos homens de negcios estrangeiros de todo o interior
e a reorganizao de sua administrao, dividindo-o em trs provncias, cada
uma delas colocada sob a autoridade de um comissrio de distrito e respectivo
adjunto, e de chefes de alto nvel89.
    Apesar dessas reformas  que o governo liberiano no podia nem queria
realizar em sua totalidade , o Reino Unido e os Estados Unidos recusaram-se
a reconhecer o governo de Barclay e conduziram seus assuntos no pas por meio
de seus respectivos encarregados de negcios. O Reino Unido, em particular,
voltou ao ataque tomando a iniciativa de certas medidas destinadas a pr fim 
independncia do pas. Menos de dois meses aps a posse de Barclay, o Reino
Unido solicitou aos Estados Unidos a realizao de representaes comuns para
urgir com o governo liberiano nos termos mais firmes", no sentido de pedir 
Sociedade das Naes que designasse uma comisso administrativa, conforme
as recomendaes do Relatrio Christy90.
    Os enviados do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Alemanha (que tinha
sido persuadida pelo Reino Unido a juntar-se ao movimento) fizeram, no dia 21
de janeiro de 1931, representaes comuns ao presidente Barclay, convidando "o
governo da Libria a confiar durante algum tempo a direo dos negcios a uma
comisso internacional de administrao" encarregada de efetuar as reformas
necessrias. Barclay e seu Gabinete rejeitaram prontamente (e legitimamente)
a exigncia, considerando que "a aceitao no somente violaria a Constituio
da Repblica, mas equivaleria igualmente a renunciar  soberania e  autonomia
do pas"91.
    Barclay e seu Gabinete, no entanto, declararam-se dispostos a solicitar e a
aceitar o auxlio da Sociedade das Naes, particularmente pelo envio de tcni-
cos especializados em setores como a economia, a organizao jurdica, a sade
pblica e a administrao indgena92.


89    REPBLICA DA LIBRIA, 1931a, p. 11-2; 1931b; BARCLAY, 1934.
90    ANDERSON, 1952, p. 110-1; JONES, A. G., s.d.
91    BARCLAY, 1931, p. 37.
92    Ibid., p. 38.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   861



    Consequentemente, a Sociedade das Naes confiou a uma nova comisso de
inqurito, onde se achavam desta vez representadas oito naes  Reino Unido,
Frana, Alemanha, Itlia, Espanha, Venezuela, Polnia e Libria , o exame das
possibilidades de abolio da escravatura e do trabalho forado, bem como da
concesso de assistncia tcnica  Libria. Os Estados Unidos, pas que no era
membro da Sociedade das Naes, foram solicitados a enviar um representante.
Foi ainda um britnico, lorde Robert Cecil, que veio a ser nomeado presidente
da nova comisso. No entanto, um comit restrito de trs membros, presidido
por um jurista francs, Henri Brunot, foi designado para aconselhar a comisso
sobre as reformas financeiras e administrativas necessrias  Libria para tornar
eficaz a assistncia da Sociedade das Naes. A comisso visitou a Libria em
junho e em julho de 1931, para investigar a situao do pas, recolher dados e
redigir um relatrio.
    Tal como a anterior, esta segunda comisso estabeleceu planos complexos
visando melhorar a administrao interna, as finanas e a sade pblica da Lib-
ria. Em janeiro de 1932, o Comit Brunot apresentou tambm o seu relatrio.
Suas recomendaes, de modo geral, eram anlogas s da Comisso Christy,
mas em muitos casos menos desfavorveis  Libria: o trabalho comunitrio,
tradicional na frica, devia substituir o trabalho forado nas obras pblicas;
cumpria dar aos liberianos autctones direitos incontestveis de propriedade
sobre suas terras; o governo liberiano devia apoiar a autoridade e a dignidade
dos chefes africanos; era preciso melhorar a educao dos indgenas liberianos,
assim como os meios de comunicao com o interior do pas; o hinterland
deveria ser dividido em trs provncias, cada uma delas confiada  autoridade de
um comissrio provincial e de um comissrio adjunto, ambos de nacionalidade
estrangeira e sob as ordens dos quais haveria liberianos para exercer as funes
de superintendentes de comarca e de comissrios de distrito. A comisso tam-
bm sugeriu que Firestone modificasse os termos do acordo do emprstimo de
1926 93 a fim de sanear um pouco as finanas liberianas.
    A interveno da Sociedade das Naes nos negcios internos do pas
aumentou sensivelmente a oposio de muitos liberianos indgenas ao governo
 particularmente os Kru, os Grebo e os Vai. Muitos deles acreditavam que os
"homens brancos" logo iriam tirar os amrico-liberianos do governo. Por con-
sequncia, deixaram de pagar impostos e de cumprir trabalhos obrigatrios para
os projetos de obras pblicas, como a construo de estradas. Simultaneamente,


93   AZIKIWE, 1934, p. 165.
862                                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935



alguns deles reacenderam conflitos intratnicos sobre fronteiras, terras de cultivo
e chefias em disputa.
    Para manter a paz e a ordem no pas, o presidente Barclay enviou um des
tacamento da Fora de Fronteira s zonas Kru e Grebo em maio de 1931, com
instrues especficas: o comandante amrico-liberiano, o coronel T. Elwood
Davis, foi avisado de que seu destacamento deveria fazer "uma demonstrao
de fora e no uma expedio punitiva"94.
    Mas, no decurso da operao, houve combates entre o destacamento e os
Kru de Sasstown, dirigidos por seu rgulo, Juah Nimley, combates estes que
forneceram novas razes para a interveno externa nos assuntos liberianos.
Alguns relatrios parciais enviados  Sociedade das Naes, como o de Rydings,
encarregado de negcios do Reino Unido em Monrvia95, descreveram a opera-
o como uma expedio punitiva e acusaram o governo liberiano de se lanar
contra as vidas e os bens do povo Kru.
    Como seria de esperar, os governos britnico e americano reagiram a tais rela-
trios, exigindo que o governo liberiano cessasse com essas pseudo-represlias
militares contra os Kru, "aguardando a concluso de um acordo entre a Socie-
dade das Naes, os Estados Unidos e a Libria sobre a futura administrao
do pas"96. O governo de Monrvia respondeu imediatamente, protestando junto
da Sociedade das Naes por essa nova ameaa dos Estados Unidos e do Reino
Unido de interveno na soberania liberiana97. Alm disso, o presidente Barclay
enviou uma comisso de inqurito composta de trs pessoas e dirigida por Win-
throp A. Travell, funcionrio norte-americano dos servios fiscais liberianos,
para examinar a situao no litoral dos Kru.
    As concluses dessa comisso refutaram em grande parte as acusaes de
destruio premeditada formuladas contra o destacamento das Foras de Fron-
teira98. E, para felicidade da Libria, a Sociedade das Naes reagiu positi-
vamente: em vez de lhe impor uma administrao estrangeira, como tinham
proposto os Estados Unidos e o Reino Unido, enviou um representante, o
mdico ingls dr. Melville D. Mackenzie, para auxiliar o governo liberiano na
pacificao dos Kru.

94    BARCLAY, 1931, p. 8.
95    RYDINGS, 1932.
96    BARCLAY, 1932, p. 2-4.
97    Ibid., p. 7-8.
98    Ibid., p. 9-14. Os outros membros da Misso Travell eram dois liberianos, o dr. F. A. K. Russell, de Sinoe,
      e o dr. J. F. B. Coleman, de Montserrado. Finalmente, a comisso fez um relatrio principal (Russell e
      Coleman) e um relatrio anexo (Travell), que foi, parece, o que o governo liberiano aceitou.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   863



    Ao tomar conhecimento do Relatrio Brunot, o comit da Sociedade das
Naes encarregado dos negcios liberianos elaborou os "Princpios Gerais do
Plano de Assistncia"  Libria. O comit adotou-os em 27 de setembro de
1932, e o governo aceitou-os com a condio de que as negociaes previstas
com Firestone fossem coroadas de xito. As negociaes financeiras tiveram
lugar em Londres, em junho de 1933, resultando na redao de um relat-
rio apresentado pelo sr. Lighthart, perito financeiro da Sociedade das Naes,
que havia participado delas. Com base nos "Princpios Gerais" e no Relatrio
Lighthart, o comit da Sociedade das Naes encarregado dos assuntos libe-
rianos estabeleceu um "Protocolo" no qual figuravam o plano de assistncia e
as reformas propostas. Entre estas h que assinalar o emprego de "especialistas"
estrangeiros como comissrios de provncia e comissrios adjuntos, sob cuja
autoridade ficariam os comissrios de distrito liberianos, um "conselheiro-chefe"
junto ao governo local, designado pelo Conselho da Sociedade das Naes, em
acordo com o presidente da Libria, cuja misso consistiria em fazer a ligao
entre o governo de Monrvia e a Sociedade das Naes, alm de dois mdicos
encarregados dos servios hospitalares e da sade pblica do pas.
    Se tivessem sido aplicadas, as recomendaes do comit da Sociedade das
Naes poderiam ter efetuado as reformas radicais temidas, regra geral, pelos
dirigentes amrico-liberianos. Sua execuo tambm significaria o risco de uma
grave interferncia na soberania da Libria e de uma considervel drenagem das
finanas do pas, levando em conta os amplos poderes do "conselheiro-chefe" e
os altos vencimentos dos especialistas estrangeiros. No admira, portanto, que
o presidente Barclay, embora aceitando o plano de assistncia que figurava no
"Protocolo" do comit da Sociedade das Naes encarregado dos assuntos libe-
rianos, tenha formulado certas reservas sobre os poderes do "conselheiro-chefe"
e sobre as despesas que acarretaria a execuo do plano. No entanto, o comit
da Sociedade das Naes recusou-se a rever o plano e at retirou-o quando a
Libria, apesar das renovadas ameaas de interveno estrangeira por parte dos
governos britnico e norte-americano, recusou aceit-lo na sua totalidade99.
    O governo liberiano estabeleceu ento um "Plano Trienal de Desenvolvi-
mento" que previa reformas internas, sobretudo modificaes do Acordo do
Emprstimo de 1926, j reclamadas por ele100. O plano teve a concordncia
do governo de Washington, dirigido pelo presidente Franklin D. Roosevelt, e
formou a base das negociaes entre Firestone, os Estados Unidos e o governo

99   BARCLAY, 1934, p. 2-4; REPBLICA DA LIBRIA, 1934.
100 Ibid.; REPBLICA DA LIBRIA, 1934; BUELL, 1947, p. 41-4.
864                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



liberiano em 1935, ano em que foram feitas as necessrias modificaes das
condies do emprstimo. A inovao mais importante foi o princpio segundo
o qual "as despesas pblicas devem ser a primeira deduo das receitas do pas,
e no, como tem sido at agora, deduzidas do resduo remanescente aps a sub-
trao dos custos relativos  administrao fiscal, das taxas da dvida e do fundo
de amortizao"101. As "despesas pblicas" de base foram fixadas em 450 mil
dlares, que foram devidamente reservados todos os anos das receitas do Estado,
para assegurar, em primeiro lugar, os servios nacionais indispensveis antes do
reembolso da dvida. A taxa de juros tambm foi reduzida de 7% para 5%102.
    No surpreende, portanto, que tenham melhorado as relaes da Libria
com Firestone e, consequentemente, com os Estados Unidos, que vieram a
reconhecer o governo Barclay em 11 de junho de 1935 103. O Reino Unido fez
o mesmo a 16 de dezembro de 1936104, fato que marcaria o fim oficial da crise
de independncia liberiana!
    Convm notar que, no obstante as fortes presses exercidas pelas potncias
da Sociedade das Naes, no faltaram  Libria defensores e simpatizantes que
fizessem ouvir sua voz. Em sua maior parte eram africanos e negros americanos
ou organizaes religiosas, comerciais ou intelectuais dirigidas por negros, que
argumentavam, corretamente, que a situao interna das colnias europeias da
frica era em muitos casos to m como a da Libria. Por isso, estavam fir-
memente convencidos de que no era necessrio sacrificar a independncia da
Libria aos interesses econmicos dos brancos encarnados por Firestone e que
no havia que aplicar a norma dos "dois pesos e duas medidas", condenando a
Libria e fechando os olhos  opresso dos brancos nas colnias. Destaquemos,
entre essas personalidades e organizaes, o professor W. E. B. Du Bois, Mor-
decai Johnson, presidente da Howard University, Nnamdi Azikiwe, jornalista
nigeriano, a Lott Carey Baptist Foreign Mission Society, a A. M. E. Church,
a National Association for the Advancement of Coloured People (NAACP)
e uma parte da imprensa dos negros, como, por exemplo, o Afro-American, de
Baltimore. Seus esforos a favor da causa liberiana talvez tenham influenciado,
mas no afetaram radicalmente a poltica do governo dos Estados Unidos em
relao  Libria quanto  crise do trabalho forado105.


101 BARCLAY, 29 de maio de 1935, p. 3.
102 Ibid., p. 3.
103 BARCLAY, 19 de dezembro de 1935, p. 14.
104 Ibid., 29 de outubro de 1937.
105 JONES, A. G., s.d.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   865



    Etipia
    A interveno estrangeira nos assuntos internos da Etipia no decorrer do
perodo estudado teve consequncias ainda mais duradouras e mais graves. A
Conveno Tripartite de 1906, que dividia a Etipia em esferas de influncia
britnica, francesa e italiana, deixava prever que as potncias imperialistas euro-
peias interviriam de novo no pas, mais cedo ou mais tarde. A morte de Mene-
lik, em 1913, a ascenso de Lij Yasu e os acontecimentos da Primeira Guerra
Mundial incitaram em particular a Itlia a reviver desde 1913 suas ambies
imperialistas em relao  Etipia. Assim, entre 1913 e 1919, o ministrio das
Colnias da Itlia apoiou vigorosamente o lanamento de um plano "mnimo"
ou de um plano "mximo" de colonizao italiana na frica. Cada um desses
planos visava essencialmente dar  Itlia o controle do Mar Vermelho e fazer
da Etipia "esfera de influncia exclusiva da Itlia"106. No entanto, as ambies
imperialistas do Reino Unido e da Frana conflitavam com o programa italiano
no nordeste da frica e, no final, o Tratado de Paz de Versalhes no permitiu
que ele fosse inteiramente realizado107.
    Apesar dessas pretenses da Itlia na Etipia e da dolorosa memria de Adowa,
que alimentava nos italianos o desejo de vingana, as relaes entre ambos os pa-
ses permaneceram estranhamente cordiais durante a regncia de Tafari Makon-
nen. A Itlia apoiara a entrada da Etipia na Sociedade das Naes, em 1923, e
fora um dos pases que Tafari visitara durante sua histrica viagem ao estrangeiro,
naquele mesmo ano108. A despeito dos atritos verificados em 1925-1926, devido s
constantes pretenses italianas a uma zona de influncia na Etipia, os dois pases
assinaram, em 2 de agosto de 1928, um tratado de amizade e de arbitragem por 20
anos, completado por uma conveno que atribua  Itlia o direito de construir
uma estrada de Dessie a Assab e concedia aos etopes uma zona franca nesse porto.
Todavia, essas disposies no foram aplicadas, pois a poltica italiana comeou a
evoluir da penetrao pacfica para a interveno militar.
    A mudana na poltica fascista deu-se em 1930, quando o ministro italiano
das colnias, o marechal Emilio De Bono, instou com o Conselho de Ministros
para que aumentassem seu oramento, com vistas a uma "expanso para alm das
fronteiras da me-ptria" 109. Em 1932, ele visitou a Eritreia e, em 1933, manteve


106 HESS, 1963, p. 105-8.
107 LOUIS, 1963a, p. 413-33.
108 PANKHURST, s.d.
109 St. Anthony College, Oxford University, documentos italianos capturados 112809.
866                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



encontros secretos com Mussolini, a quem sugeriu a invaso da Etipia. Musso-
lini concordou inteiramente e disse-lhe que "seguisse em frente imediatamente"
e que "se preparasse o mais rpido possvel". Tratou-se ento de melhorar as
comunicaes terrestres, martimas e areas das colnias italianas da Eritreia e da
Somlia, enquanto agentes fascistas comeavam a fomentar a subverso poltica
na Etipia 110. O segredo em torno das intenes da Itlia foi abandonado em
18 de maro de 1934, quando Mussolini, dirigindo-se ao partido fascista, exigiu
que as naes "satisfeitas" e possuidoras de colnias se abstivessem de bloquear
"a expanso cultural, poltica e econmica da Itlia fascista" .
    O incidente de Walwal, em 1934, proporcionou a Mussolini o pretexto para
a invaso. Uma comisso anglo-etope, encarregada da delimitao da fron-
teira entre a Etipia e a Somlia britnica, chegou no dia 23 de novembro aos
poos de Walwal, situados em territrio etope, a cerca de 160 quilmetros da
fronteira no delimitada com a Somlia italiana, encontrando-os ocupados por
um destacamento italiano. O chefe britnico da comisso, o coronel Clifford,
levou seu protesto aos italianos, fazendo ver que a presena deles impedia seus
homens de se deslocarem  vontade no territrio etope, mas decidiu retirar-se,
para evitar um "incidente internacional". Os etopes, por sua vez, mantiveram-se
em suas posies, e os dois grupos armados ficaram frente a frente at o dia
5 de dezembro, quando um disparo de origem indeterminada provocou um
choque, aps o qual os primeiros, insuficientemente armados, se retiraram. A
Etipia invocou o tratado de amizade e de arbitragem de 1928, enquanto a Itlia,
recusando toda e qualquer arbitragem, exigiu desculpas, o reconhecimento pela
primeira de sua soberania sobre Walwal e uma indenizao de 200 mil tleres
de Maria Teresa111. O Reino Unido e a Frana, no desejo de evitar o desenca-
deamento de hostilidades, pressionaram a Etipia para que cedesse, mas Hail
Selassi, receando estimular a Itlia a se expandir mais, no concordou e levou
o caso ante a Sociedade das Naes, no dia 14 de dezembro. Verificando que a
Etipia no se dispunha a capitular, Mussolini ordenou secretamente, no dia 30
de dezembro, a concretizao da invaso, o que exigia preparativos considerveis,
em vista da superfcie e do terreno montanhoso do pas.
    A Sociedade das Naes encarregou uma comisso de estudar o litgio, mas
Mussolini, que estava quase prestes a passar ao ataque, pouco se interessou por
seus trabalhos. A comisso apresentou propostas de acordo que, no esforo de
satisfazer a Itlia, sugeriam a colocao da Etipia sob controle internacional,

110 DE BONO, 1937, p. 12-3, 15.
111 CIMMARUTA, 1936; PRADELE, 1936, p. 149-60; BAER, 1967, p. 45-61.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial                  867



para impedir que ela constitusse um perigo para as colnias italianas limtrofes,
conforme dizia Mussolini. O duce, no entanto, j no queria acordos. No dia 2 de
outubro de 1935, decretou a mobilizao, e, no dia seguinte, o exrcito italiano,
comandado por De Bono, atravessou a fronteira entre a Eritreia e a Etipia, sem
declarao de guerra, enquanto a aviao italiana bombardeava Adowa. Tropas
vindas da Somlia italiana tambm passaram ao ataque no sul (ver fig. 28.6).
    Embora tivesse sido longamente preparada, a invaso deixou consternado o
mundo inteiro. A assembleia da Sociedade das Naes reuniu-se no dia 9 de
outubro e decidiu, por cinquenta votos contra um  o da Itlia  e trs abstenes
 Albnia, ustria e Hungria , que a Itlia era a agressora e que tinha violado
o Pacto da Sociedade das Naes112.
    Apesar da condenao quase unnime, a Sociedade das Naes, dominada
pela Frana e pelo Reino Unido, potncias coloniais, no pensava em ofender
Mussolini recorrendo a sanes imediatas e totais, conforme exigia a Unio Sovi-
tica. Preferiu criar um comit de coordenao, que no props seno sanes
econmicas limitadas, sob a forma de quatro embargos separados, que incluam
apenas os Estados-membros, abrangendo: a) a exportao de armas e munies
para a Itlia; b) emprstimos e crditos  Itlia; c) importao de todas as mer-
cadorias provenientes da Itlia; d) venda  Itlia de certas matrias-primas, como
borracha, bauxita, alumnio, minrio de ferro e ferro-velho. A primeira sano
foi aplicada no dia 11 de outubro e as outras no dia 18 de novembro113. As
interdies, que, segundo lorde Keynes, eram "sanes econmicas relativamente
leves114, revelaram-se totalmente inoperantes. De fato, como observava Winston
Churchill, no se tratava de "sanes reais, destinadas a paralisar o agressor, mas
apenas sanes mitigadas que este podia tolerar"115.
    Medidas to ineficazes no podiam deter o exrcito italiano, e os repeti-
dos telegramas do duce, ansioso por uma vitria rpida, antes que a Sociedade
das Naes tomasse conscincia da necessidade de uma ao mais resoluta,
estimularam-no ainda mais: ocupou Adowa, no dia 6 de outubro, e Magale, no
dia 8 de novembro. A resistncia dos etopes obrigou, no entanto, os invasores
a parar. Nesse nterim, De Bono foi chamado e substitudo em 16 de novembro
por um militar de carreira, o marechal Pietro Badoglio, o qual, diante de uma
forte contra-ofensiva dos etopes, tambm se viu impedido de avanar durante

112 HEALD, 1937, p. 192-3; Royal Institute of International Affairs, 1937, v. 2, p. 182.
113 Royal Institute of International Affairs, v. 2, p. 193-4 e 203-7; ver tambm VILLARI, 1943, p. 151-219.
114 New Statesman and Nation, 28 de novembro de 1935.
115 CHURCHILL, 1948, p. 172-3.
868                                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 28.6   Invaso da Etipia pela Itlia fascista. (Fonte: adaptado de Greenfield, R., 1975.)
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   869



vrias semanas. Na esperana de quebrar o moral dos etopes, Mussolini ento
insistiu para que suas tropas usassem gases txicos116.
    O malogro das sanes limitadas da Sociedade das Naes incitou alguns esp-
ritos a exigir que elas fossem ampliadas, sobretudo relativamente ao petrleo, de
importncia fundamental, como Mussolini haveria de reconhecer ulteriormente, ao
confidenciar a Hitler que, se o embargo inclusse o produto, "ele teria de abando-
nar a Abissnia dentro de uma semana"117. No entanto, o Reino Unido e a Frana
opuseram-se com resoluo a semelhante medida, imaginando que Mussolini
poderia consider-la um ato de guerra. Os ministros do Exterior do Reino Unido
e da Frana, respectivamente Samuel Hoare e Pierre Laval, conferenciaram mais
uma vez em Paris, no dia 7 de dezembro, para delinear um novo acordo. Baseava-se
em dois grandes princpios: primeiro, uma "troca de territrios", pela qual a Etipia
cederia Ogaden e parte importante de Tigre  Itlia, em troca de um porto situado
no Mar Vermelho ou no golfo de Aden; segundo,  Itlia seria atribuda uma "zona
de expanso econmica e de colonizao" na maior parte da Etipia ao sul de Adis
Abeba; essa regio deveria continuar a fazer parte da Etipia, mas a Itlia teria a
prerrogativas econmicas exclusivas. No entanto, a imprensa francesa divulgou
o plano, que era uma capitulao criminosa frente ao agressor j condenado, ao
mesmo tempo que um abandono total da Sociedade das Naes. Isso provocou
uma tempestade de indignao em vrios pases, principalmente no Reino Unido,
onde Hoare foi obrigado a pedir demisso no dia 18 de dezembro118.
    Em fins do ano de 1935, a Etipia estava ento no primeiro plano da atuali-
dade mundial, convertida no centro da excitao e da indignao internacionais119.
Um ministro do exterior britnico cara por aquilo que se poderia considerar
traio, ao passo que um poderoso exrcito fascista, dotado do material blico
mais moderno e at de gases txicos, era temporariamente detido nas montanhas
escarpadas da Etipia pelo herosmo de seus defensores, que se achavam relativa-
mente mal armados120. Era a reedio da histria de Davi lutando contra Golias
na maior das guerras coloniais travada em solo africano. O exrcito etope haveria
de ser vencido pouco depois, mas os italianos teriam ainda duros combates antes
de ocupar Adis Abeba, em 6 de maio de 1936. Essa data marcou o incio de cinco

116 BOCA, 1969.
117 ALOISI, 1957, p. 324.
118 HEALD, 1937, p. 316-413.
119 Para uma exposio recente da crise talo-etope, ver HARDIE, 1974.
120 Sobre a guerra, ver SELASSI, H., 1936; STEER, 1936; DE BONO, 1937; BADOGLIO, 1937;
    GRAZIANI, 1938; GREENFIELD, 1965, p. 196-266; BARKER, 1968; BOCA, 1969; ROCHET,
    1971; BANDINI, 1971.
870                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



longos anos de usurpao pelos fascistas italianos e, durante quatro desses anos, os
patriotas etopes tiveram de continuar combatendo sozinhos121.
    A invaso da Etipia suscitou assim uma reao instantnea, tanto no inte-
rior como no exterior da frica122. Em agosto de 1935, um grupo de africanos e
descendentes de africanos fundara em Londres a International African Friends
of Abyssinia, cuja direo compreendia C. L. R. James, das Carabas, o dr. P.
McD. Millard, da Guiana Inglesa, Arny Ashwood Garvey, esposa de Marcus
Garvey, Mohammed Said, da Somlia, e o dr. J. B. Danquah, da Costa do Ouro.
O objetivo da associao, conforme o definiu Jomo Kenyatta, seu secretrio, era
"ajudar, por todos os meios ao seu alcance, a manter a integridade territorial e a
independncia poltica da Abissnia"123.
    A posterior irrupo das hostilidades, que colocou a Etipia na primeira
pgina de todos os jornais, marcou profundamente os africanos. Kwame Nkru-
mah, ento um estudante de passagem pela Inglaterra, lembra que ficou estu-
pefato frente aos cartazes que anunciavam "Mussolini invadiu a Etipia" e
acrescentou:
      Nesse momento, foi quase como se toda a cidade de Londres tivesse de sbito
      declarado a guerra a mim, pessoalmente. Nos poucos minutos que se seguiram, nada
      mais consegui fazer seno fixar cada uma daquelas faces impassveis, indagando a
      mim mesmo se aquelas pessoas eram capazes de compreender verdadeiramente a
      abominao do colonialismo e rezando para que chegasse o dia em que eu pudesse
      contribuir para a queda desse sistema. Meu nacionalismo irrompeu  superfcie;
      estava pronto a atravessar o prprio inferno, se necessrio fosse, para alcanar meu
      objetivo124.
   Sentimentos anlogos se manifestaram em toda a frica. O intelectual nige-
riano Nnamdi Azikiwe dedicou grande espao em seus jornais West African Pilot
e Comet  luta da Etipia. E, mais tarde, em Renascent Africa, obra que exerceu
grande influncia e que foi mesmo qualificada de "Bblia dos Africanos", ele
recorda a emoo provocada numa escola tpica da Costa do Ouro, quando os
alunos souberam que "soldados negros, ajudados pela mo invisvel de Deus,
repeliam e frustravam os planos de seus inimigos".


121 PANKHURST, 1970.
122 SCOTT, 1966 e 1972, p. 132-8; ROSS, 1972.
123 New Times and Ethiopia News, 30 de janeiro de 1954; MAKONNEN, 1973, p. 112-20. Ver tambm
    ASANTE, 1977.
124 NKRUMAH, 1957, p. 22.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   871



   A Etipia, primeira vtima estrangeira do fascismo italiano e ponto de juno
dos adeptos da segurana coletiva, era, assim, no final de 1935, o smbolo ardente
da frica que saa do sono em que a havia mergulhado a dominao colonial.


    Consequncias da interveno imperialista
    europeia para a Libria e a Etipia
      No final de 1936, a Libria sobrevivera  interveno estrangeira e preser-
vara sua soberania, mas a Etipia sucumbira em ambos os sentidos, ainda que
provisoriamente. A que se deveu a diferena?
      A situao interna na Libria e na Etipia at o momento da invaso italiana,
no dia 3 de outubro de 1935, embora seja de grande importncia histrica, no teve
grande papel na determinao do resultado final da interveno estrangeira. Na
verdade, nos dois pases a situao no se diferenciava em nenhum ponto essencial.
Tanto em um como no outro, o governo central enfrentou adversrios internos que
procuraram explorar para seus prprios fins a interveno das potncias estrangei-
ras, aliando-se a elas  o que foi principalmente o caso do People's Party, partido de
oposio na Libria , bem como a certos membros da nobreza feudal da Etipia,
tais como o leul-ras Hailu e o dajaz-match Hail Selassi Gugsa125.
      O poderio militar dos dois pases, aos quais no faltavam patriotas ardentes,
prontos a verter o sangue pela ptria, era muito fraco em relao ao de seus
agressores estrangeiros, virtuais ou reais. A milcia da Libria, composta de todos
os homens declarados aptos para o servio, em sua maioria amrico-liberianos,
era de modo geral mal treinada e desprovida de armas. O mesmo se diria da
Fora de Fronteira, exrcito permanente da Libria, cujos elementos, alm de
mal treinados e pouco armados, ganhavam magros soldos. Por exemplo, em
setembro de 1920, os soldos atrasados aos soldados e oficiais dessa fora mon-
tavam a 90689,52 dlares, o que lhes afetava desastrosamente o moral126. A
Fora de Fronteira tinha fama de ser to indisciplinada e to mal treinada que
era "extremamente difcil faz-la executar uma ordem em sua letra ou esprito"
127
    . Contava ao todo 821 homens, em novembro de 1917, 767, em dezembro de
1920, e 744, em dezembro de 1925. Em 1935, um autor liberiano salientava que



125 GREENFIELD, 1965, p. 192-4.
126 REPBLICA DA LIBRIA, 1920, p. 9.
127 STATEN, 1925.
872                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



a Libria estava "justamente nos primeiros passos" no tocante  defesa nacional,
j que no tinha marinha de guerra nem fora area128.
    Quanto  Etipia, suas foras armadas se compunham de recrutas feudais dos
governadores e shuma, tropas do governo central, bem como do exrcito perma-
nente do prprio Hail Selassi129. Somente este estava treinado e equipado em
moldes modernos. Os outros comportavam "homens sem nenhum treinamento
alm daquele que tinham obtido graas  sua aptido natural para o combate e
s suas tradies"130.
    Evidentemente, nem a Libria nem a Etipia estavam em condies de enfren-
tar as foras de invaso europeias. A sobrevivncia da primeira e o colapso da
segunda parecem antes de tudo ser explicados por uma diferena essencial: houve
efetivamente uma interveno europeia em um desses pases, mas no no outro.
    Isto posto, seria o caso de perguntar por que a interveno se deu em um dos
pases e no no outro. Para responder  questo, cabe lembrar que, at fins de
1935, nem a Libria nem a Etipia gozavam da simpatia, apoio ou proteo sem
reservas das potncias estrangeiras, membros ou no da Sociedade das Naes,
ou desta propriamente dita. Apesar de sua indiscutvel e tradicional amizade
com a Libria, os Estados Unidos da Amrica demonstraram diversas vezes,
durante toda a crise relativa ao trabalho forado, que alinhavam com as potncias
coloniais europeias com pretenses sobre a soberania da Libria, sobretudo no
que concerne ao apoio dado por elas  instituio de uma comisso internacional
de administrao na Libria.
    Cumpre igualmente sublinhar a grande habilidade diplomtica do governo
liberiano e, sobretudo, de seu presidente, Edwin J. Barckay, homem notavelmente
brilhante e inteligente, bem como do secretrio de Estado, Louis A. Grimes, que
chefiou as negociaes em Genebra. Ao reduzir ao silncio a oposio interna,
pela fora ou pela persuaso, bem como ao ater-se obstinadamente aos princpios
da autodeterminao da Libria, os dirigentes liberianos promoveram a causa
da soberania nacional. No entanto, dado que os dirigentes etopes, inclusive
Hail Selassi, eram igualmente hbeis diplomatas e ardentes defensores da
soberania de seu pas, a sobrevivncia da Libria parece explicar-se, em ltima
anlise, pelo fato de a Etipia ter por vizinha uma potncia imperialista demente
e sanguinria, decidida a expandir seus territrios e sobretudo a vingar Adowa
e, portanto, a lanar efetivamente um ataque contra o pas. Por outro lado, o

128 YANCY, 1934, p. 93-9.
129 GREENFIELD, 1965, p. 194-5, 199-201.
130 VIRGIN, apud ibid., p. 194.
A Etipia e a Libria, 1914-1935: dois Estados africanos independentes na era colonial   873



Reino Unido e a Frana j possuam vastos territrios coloniais na frica e
no tinham uma batalha de Adowa para vingar. Afinal de contas, no tinham
motivos preponderantes para atacar e conquistar a Libria, da forma como a
Itlia atacou e conquistou a Etipia.
A frica e o Novo Mundo                                                  875



                             CAPTULO 29


                  A frica e o Novo Mundo
          Richard David Ralston com a contribuio do professor
                  Fernando Augusto de Albuquerque Mouro
         para as sees consagradas  Amrica Latina e s Antilhas




    Diversas regies do mundo, como a Grcia e a Roma clssicas, Portugal
(desde o sculo XV), as Antilhas, os Estados Unidos (desde o sculo XVII), a
Gr-Bretanha (desde o sculo XVIII), o Canad (sobretudo depois da Guerra
da Independncia dos Estados Unidos), o Brasil (particularmente desde o
sculo XVIII), a Arbia Saudita, a ndia e, ocasionalmente, a Turquia, acolhe-
ram importantes comunidades de africanos expatriados ou se viram expostas
a influncias africanas bem ntidas. Ao mesmo tempo, a amplido da dispora
africana variou em funo das idas e vindas de comerciantes, marinheiros, intr-
pretes e educadores africanos, da presena de estudantes africanos na Amrica
e da reinstalao de negros americanos, de afro-brasileiros e de afro-cubanos
na frica. Os laos entre os continentes que se tornaram os dois principais
domnios de implantao da populao negra  a frica e as Amricas  foram
mantidos ao longo dos anos, mediante um intercmbio de pessoas, de objetos
culturais e de ideologias polticas. O presente captulo procura definir as inte-
raes entre os africanos e as populaes de ascendncia africana das Amricas
durante o perodo colonial da histria africana.
    De 1880 a 1935, os laos entre africanos e negros americanos foram essen-
cialmente de cinco tipos: a) movimentos de retorno dos negros  frica ou
emigrao dos negros  principalmente da Amrica do Norte, mas tambm das
Antilhas e do Brasil  para diversas regies da frica (sobretudo para a frica
876                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



ocidental, mas igualmente para a frica do Sul e o Chifre); b) evangelismo
americano, com a ida de missionrios afro-americanos para a frica a fim de
propagar o Evangelho; c) repetio da rota do meio (frica-ndias Orientais),
sob a forma de uma corrente de estudantes africanos que se matriculavam em
escolas e universidades americanas para negros; d) pan-africanismo, revestido
de diversas formas (conferncias, criao de organismos, atividades educativas,
literrias e comerciais), que puseram africanos em contato com o mundo negro
das Amricas e contriburam para influir na evoluo da frica colonial: e)
persistncia e transformao dos valores culturais africanos na Amrica Latina e
nas Antilhas. Estes cinco pontos sero analisados um por um nas cinco divises
do presente captulo.


      Movimentos de retorno  frica
    Embora a corrente favorvel  emigrao dos negros da Amrica do Norte
para a Libria, que fora forte na primeira metade do sculo XIX, tenha se
enfraquecido sensivelmente, os afro-americanos continuaram a manifestar certo
interesse em emigrar para a frica no final do sculo XIX e comeos do XX.
Na verdade, esse xodo do qual negros como Daniel Coker, Lott Cary, John B.
Russwurm, Paul Cuffee, Henry H. Garnet e Martin R. Delany foram os pri-
meiros defensores prosseguiu e aumentou no ltimo quartel do sculo XIX. Por
exemplo, em 1878, a South Carolina-Liberian Exodus Joint Stock Steamship
Company transportou 206 imigrantes negros para a Libria. Em 1881, Henry
H. Garnet foi nomeado ministro residente e cnsul-geral na Libria, cumprindo
assim ele prprio a travessia do Atlntico que havia pregado. Em 1889, Edward
W. Blyden, pan-africanista antilhano nascido em Saint-Thomas, efetuou uma
viagem da Libria aos Estados Unidos em nome da American Colonization
Society (ACS), para contribuir para a gerao de apoio dos negros  emigrao.
Por outro lado, de 1880 a 1900, o bispo Henry McNeal Turner procurou combi-
nar as duas tradies longamente dominantes na histria moderna da interao
entre africanos e afro-americanos: a emigrao africana e o evangelismo cristo.
Ademais, o retorno de milhares de negros brasileiros para a frica ocidental,
pelo menos at a abolio oficial da escravatura no Brasil (1888), tambm sus-
citou importantes interaes. A competncia tcnica e comercial, bem como as
aspiraes polticas dos afro-brasileiros que se reinstalaram em suas terras de
origem ou prximas, na Nigria, Daom (atual Benin), Togo e Costa do Ouro
(atual Gana), tiveram aparentemente grandes repercusses sobre a situao
A frica e o Novo Mundo                                                             877



social, econmica e poltica desses pases. Talvez por no terem formado nessas
regies uma comunidade distinta de colonos  como se passou na Libria , os
afro-brasileiros perseguiram objetivos sociais e polticos que pouco se diferen-
ciavam dos almejados pelos autctones.
    Embora tenha sido fundada por brancos americanos da American Colonia-
tion Society (ACS) muito antes do perodo de luta pela conquista da frica
(Scramble), a Libria ocupa um lugar especial em todo estudo das migraes
entre as diferentes regies do mundo negro. Um projeto de lei de auxlio aos
emigrantes negros foi discutido pelo senado dos Estados Unidos da Amrica em
1889, em parte graas aos esforos desenvolvidos por Blyden para obter apoio
aos programas da ACS. O nmero de inscries de negros na ACS, a fim de ir
para a Libria, aumentou rapidamente e, em 1892, vrias centenas de agriculto-
res negros do Arkansas e de Oklahoma chegaram a Nova York na esperana de
serem transportados para a frica. Em 1893, ao visitar a Libria, o bispo Turner
escrevia entusiasmado que "o homem negro encontra aqui [na Libria] [....] a
dignidade e a liberdade mais completas; tem a impresso de que  um senhor e
seu modo de andar reflete tal sentimento"1. Em 1896, ele voltava a afirmar:
    Penso que dois ou trs milhes dos nossos deveriam retomar  terra dos antepassa-
    dos, nela estabelecer nossas prprias naes, civilizaes, leis, costumes, modos de
    produo [...] e parar de resmungar, de estar sempre recriminando e de ameaar o
    pas que o homem branco reivindica e que necessariamente dominar2.
    Graas aos esforos do bispo Turner, mais de trezentos afro-americanos emi-
graram para a Libria em maro de 1896. At mesmo o jovem W. E. B. Du Bois
 que mais tarde viria a rejeitar a emigrao como soluo para os problemas
dos negros americanos  pensava que a emigrao proposta por Turner oferecia
uma louvvel sada para a "humilhao de ter de mendigar para ser reconhecido
e tratado com justia nos Estados Unidos"3.
    Enquanto estava na Libria, o bispo Turner dizia aos que ele chamava de
"capitalistas negros" dos EUA que "se quisessem dar incio ao comrcio com
a Libria, ganhariam milhes em alguns anos". A porcentagem de resposta
foi pouco elevada. No entanto, em 1899, um grupo criou a African Develop-
ment Society, cujo principal objetivo era estimular os afro-americanos a com-
prar terras e fixar-se na frica centro-oriental. A Sociedade venderia aes ou


1   Davis, 1974, p. 3.
2   Ibid., p. 5.
3   Ibid.
878                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



ttulos de propriedade oferecidos por africanos, mas somente a compradores
afro-americanos ou africanos4. O bispo Turner tambm serviu mais tarde como
consultor da International Migration Society (IMS), do Alabama, que enviou
cerca de quinhentos emigrantes para a frica, antes de desaparecer, em 1900.
Alguns deles ficaram na Libria e outros retornaram aos Estados Unidos da
Amrica. Os que ficaram se arranjaram razoavelmente e muitos prosperaram.
Os que regressaram, por sua vez, contaram histrias horrveis de terras pobres,
de m alimentao e de condies de vida medocres. Esses relatos reduziram as
possibilidades de formao de um amplo movimento de emigrao afro-ameri-
cana, embora as perspectivas dos negros, nos Estados Unidos, tenham piorado
de 1895 a 1900. No obstante,  evidente que muitos continuaram a pensar
seriamente em emigrar para a frica, enquanto outros negros norte-americanos
e caribenhos simplesmente se mudavam para regies vizinhas, para fugir da
discriminao aberta.
    Depois de 1900, a bandeira do retorno  frica foi retomada por outros. Por
exemplo, certo capito Dean, em comeos do sculo XX, alimentou a esperana
de incitar os negros norte-americanos a ir para a frica do Sul, a fim de l criar
um poderoso Estado negro. No entanto, quando ele foi  frica do Sul com
vistas a preparar a instalao, as autoridades brancas o expulsaram sumariamente
da Cidade do Cabo, sob a acusao de "atividades provocadoras". Em 1914,
o rgulo Alfred C. Sam, africano da Costa do Ouro, chegou a Oklahoma e,
tendo convencido uns sessenta lavradores negros de que a frica lhes oferecia
melhores perspectivas, levou-os para Saltpond (Costa do Ouro). Verificando
que as afirmaes do rgulo Sam eram exageradamente otimistas e sofrendo as
restries impostas pelos funcionrios da Costa do Ouro  entrada de imigran-
tes americanos, esses negros acabaram, em sua maioria, retomando aos Estados
Unidos da Amrica. Mas foi Marcus Garvey, nascido na Jamaica em 1887 (ver
fig. 29.1), o advogado mais eloquente da emigrao junto dos negros africanos
e americanos.
    Apelando para o orgulho negro, Garvey soube interessar milhes de negros
americanos pela frica depois da Primeira Guerra Mundial. Du Bois observa-
ria mais tarde que "em alguns anos, o movimento, as promessas e os planos [de
Garvey] se tornaram bastante clebres para serem conhecidos na Europa e na
sia e atingirem toda a frica"5. Suas viagens s Antilhas,  Amrica Central e
 Amrica do Sul, bem como uma permanncia de dois anos no Reino Unido,

4     HILL, A. C. e KILSON (orgs.), 1971, p. 192-4.
5     DU BOIS, 1968, p. 277.
A frica e o Novo Mundo                                                       879



persuadiram Garvey de que a triste sorte reservada aos negros em todo lugar
exigia uma ao militante de sua parte. Dois acontecimentos em sua vida pessoal
enquanto estava em Londres influenciaram-lhe o pensamento. O primeiro foi a
leitura de Up From Slavery (1899), de Booker T. Washington, que o levou a dizer
mais tarde que ele estava "destinado" a se tornar um dirigente para seus irmos
de raa6. O segundo foi o reencontro com o intelectual sudans-egpcio Duse
Mohammed Ali, que em In the Land of Pharaohs (1911) criticava violentamente
as polticas do Reino Unido e dos Estados Unidos em relao  frica. Antes
de se estabelecer em Londres, o prprio Duse viajara e trabalhara por algum
tempo como ator e militante poltico.
    Em 1914, de regresso  Jamaica, Garvey criou um organismo destinado
principalmente a promover a emigrao para a frica, a Universal Negro Impro-
vement and Conservation Association and African Communities League (mais
tarde conhecida simplesmente por UNIA). Aos 28 anos de idade, ele visitou
os Estados Unidos, atrado pela obra de Washington e pelo exemplo de Duse,
com um programa de redeno para os negros: o estabelecimento, para eles, de
escolas de ensirio industrial e agrcola na Jamaica, a criao de uma frota de
navios mercantes (a "Black Star") para o comrcio entre os negros da frica e
das Amricas e, acima de tudo, a constituio de uma "nao central para a raa".
Este ltimo projeto tinha como eixo principal a Libria, que havia muito tempo
constitua um dos polos do movimento de emigrao afro-americano.
    Garvey mandou um emissrio  Libria em maio de 1920, o qual explanou
os objetivos da Associao: transferncia da sede para l, ajuda financeira para
a construo de escolas e de hospitais, liquidao das dvidas do pas, instalao
de negros norte-americanos, que contribuiriam para o desenvolvimento da agri-
cultura e para a mobilizao dos recursos naturais7. O governo liberiano aceitou
com entusiasmo a solicitao inicial da UNIA, referente  concesso de terras
fora de Monrvia, e Garvey, por sua vez, enviou um grupo de tcnicos para
estudo do local e construo de moradias para as 20 mil a 30 mil famlias que
esperava estabelecer l em dois anos, a partir de 1924. Mas quando chegaram
ao Maryland County, em maio de 1924, os tcnicos foram detidos, presos e
depois expulsos, em julho desse mesmo ano. Pouco depois, o governo liberiano
proscreveu de uma vez a UNIA, condenando assim ao malogro o plano de
colonizao de Garvey na Libria.


6   GARVEY, 1923-1925, v. I, p. 126.
7   Ver AKPAN, 1973a; CHALK, 1967, p. 135-42.
880                                                           frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 29.1 Marcus Garvey (1887-1940), fundador e chefe da Universal Negro Improvement Association.
(Foto: Roval Commonwealth)
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    No final da dcada de 1920, ele enviou uma pequena equipe de tcnicos qua-
lificados  Etipia para estudar a possibilidade de emigrao de negros norte-
americanos naquele pas, do outro lado do continente africano. Essa equipe,
todavia, foi acolhida com menos entusiasmo do que se esperava. Durante os
anos de 1930, era minscula a comunidade afro-americana existente na Etipia.
Alguns de seus membros estavam l em consequncia dos apelos de Garvey,
mas muitos outros haviam sido atrados por diversas circunstncias. Pesquisas
antigas e recentes trouxeram a lume certo nmero de fatos relativos s relaes
entre afro-americanos e etopes8, mas o tema das conexes entre a frica e a
Amrica ainda no foi devidamente estudado.
    Um rabino negro de Barbados, Arnold Ford, emigrou para a Etipia em 1930,
depois de ter passado algum tempo em Nova York, fundando l o Tambourine
Club, onde organizava recitais de negro spirituals. Mas o estabelecimento foi
"fechado pelo governo por usar de discriminao contra clientes etopes locais"9.
Enquanto se encontrava no Harlem, Ford sentiu-se atrado pela mensagem de
Garvey. Parece, portanto, que, se as delegaes enviadas pela UNIA fracassaram
na tentativa de estabelecer, como no caso da Libria, laos institucionais com o
Chifre da frica, elas conseguiram no entanto orientar para essa regio alguns
candidatos negros  emigrao.  possvel que tenham emigrado individual-
mente mais garveyistas para a Etipia do que para a Libria. Com efeito, embora
a Etipia fosse mais inacessvel, sua antiga e esplndida civilizao talvez tenha
"exercido uma atrao mais forte do que a poltica burguesa e [no esprito de
Garvey] antiafricana da elite amrico-liberiana no poder"10. Quando Garvey
rompeu abertamente com o governo liberiano,  evidente que muitos de seus
adeptos encararam com otimismo esse novo horizonte.
    No entanto, se alguns negros norte-americanos que emigraram para a Eti-
pia durante e depois dos anos de 1920 foram em grande parte motivados por
Garvey, a deciso final pode ter sido tomada aps um encontro fortuito com
estudantes etopes ou um contato com uma das delegaes especiais da Etipia
que estiveram em Nova York no final da dcada de 1920 "para solicitar a negros
qualificados que se fixassem na frica"11. Alm disso, assim como o bispo Turner,
Ford pensava que os negros norte-americanos tinham um papel redentor espe-
cial a desempenhar em relao  frica, em vista dos longos anos de sofrimento


8    Ver, por exemplo, COON, 1936; KING, K. J., 1972, p. 81-7; SCOTT, 1971.
9    COON, 1936, p. 137.
10   KING, K. J., 1972, p. 82.
11   Ibid.
882                                                             frica sob dominao colonial, 1880-1935



e de exlio que haviam experimentado. Ele prprio, respondendo ao apelo de
uma delegao de falashas (judeus negros da Etipia), partiu em 1930 para este
pas, onde evidentemente permaneceu at a morte, ocorrida na poca da guerra
talo-etope (1935-1936)12. A maioria dos imigrantes americanos que Ford
encontrou ao chegar na Etipia era jamaicana e mais alguns negros das Antilhas.
Segundo um trabalho recente, "os antilhanos pareciam estar mais preparados
para se adaptar  vida na Etipia do que certos negros dos Estados Unidos",
se bem que ambos os grupos sofressem discriminao de tempos em tempos13.
    Evidentemente, mesmo antes de Garvey, outros negros americanos tinham
emigrado para a Etipia, mas como colonos individuais. Nos ltimos anos do
sculo XIX, por exemplo, um haitiano, Benito Sylvain, apresentou-se na corte
de Menelik II com um plano para uma organizao "pan-negra". Fica claro,
porm, que as vagas mais importantes de imigrantes afro-americanos chegaram
 Etipia por volta de 1930, quer dizer, depois de Garvey ter rompido com a
Libria, e at uma data posterior  ascenso do imperador, na maior parte dos
casos em consequncia de encontros com viajantes etopes. Um pequeno con-
tingente de afro-americanos (talvez uns vinte) foi para a Etipia imediatamente
aps a restaurao de Hail Selassi no trono, mas esse perodo no  coberto
pelo presente captulo.  suficiente saber aqui que a poca em que a emigrao
de negros americanos para a Etipia foi mais considervel coincidiu com a das
atividades associadas aos nomes de Garvey, Ford e Hail Selassi14.

      Os afrobrasileiros
    Os contatos entre o Brasil e a costa ocidental da frica foram facilitados pelo
estabelecimento de linhas regulares de cargueiros mistos, que dessa forma subs-
tituram os navios negreiros. A British African Company e a African SteamShip
Company, entre outras, garantiam viagens regulares entre os portos da Baa de
Todos os Santos e de Lagos. Segundo o Weekly Times de 11 de outubro de 1890,
o vapor Biaffra, ao voltar a Lagos no fim de sua viagem inaugural, transpor-
tava 110 passageiros e 400 toneladas de mercadorias. Nessa poca, o comrcio
entre as duas costas j era bem importante. De acordo com Pierre Verger15, as
exportaes do Brasil "consistiam principalmente de charutos, tabaco e cachaa";


12    Ver, no entanto, uma cronologia algo diferente em BROTZ, 1970, p. 12; SCOTT, 1971.
13    KING, K. J., 1972, p. 82.
14    Ver SCOTT, 1971.
15    VERGER, 1968, p. 623.
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as importaes se compunham de "planos de fabricao nacional, tecidos de
algodo europeu, noz-de-cola e leo de palma". Nos cinco anos entre 1881 e
1885, o valor anual mdio das importaes e exportaes foi, respectivamente,
de 19084 e de 11259 libras esterlinas.
    O comrcio entre as duas costas, independentemente de sua importncia,
permitiu o desenvolvimento de uma burguesia africana constituda por antigos
escravos que haviam trabalhado no Brasil e em Cuba. Essa migrao come-
ou em fins do sculo XVIII16, para se tornar mais acentuada aps a revolta
dos Mals (escravos muulmanos), em 1835. Esses contingentes de emigrantes
fixaram-se principalmente nas cidades litorneas da Nigria, do Daom (atual
Benin) e, em escala bem menor, no Toga e na Costa do Ouro (ver fig. 29.2).
Nessas zonas costeiras, os imigrantes estabeleceram-se em comunidades, evi-
tando portanto as entradas pelo interior, com exceo dos que integravam os
grupos Yoruba e Haussa, que se instalaram no s em Lagos, mas tambm em
cidades do interior, como Abeokuta17. Muitos imigrantes tinham sido "negros de
ganho" no Brasil, ou seja, escravos que viviam nas cidades, exercendo livremente
uma profisso (pedreiro, marceneiro, calafate etc.) e dividindo o ganho com os
senhores. Dispondo de tecnologia prpria, alguns excelentes construtores edifi-
caram bairros residenciais em Porto Novo, Quidah e principalmente em Lagos,
onde foi construdo o Bairro Brasileiro18, em que se encontram ainda sobrados
de estilo baiano, na atual praa Tinubu. O mesmo vale para a praa Campos ou
para grandes edifcios como a catedral catlica de Lagos ou a mesquita erigida
no centro da cidade. O estilo desses sobrados caracteriza algumas construes
do interior, nas zonas onde vivem as populaes Yoruba. Em Quidah, bem como
em Porto Novo, desenvolveu-se um tipo de construo que, independentemente
de sua opulncia ou de sua simplicidade, seguia muito de perto o traado da
"casa-grande", tipo de construo caracterstica dos engenhos de acar ou das
plantations do Brasil colonial.
    No Daom (atual Benin), as crianas que frequentavam as escolas de mis-
sionrios ingleses e franceses foram em parte aproveitadas como auxiliares da
administrao colonial, devido a seu nvel de instruo. A religio, o tipo de
habitao, o vesturio, o exerccio do comrcio atlntico e o fato de ser funcio-
nrio da administrao pblica colonial davam um status especial a esse grupo.



16   NEWBURY, 1961, p. 36-7.
17   TURNER, L. D., 1942, p. 65.
18   ARAEDON, 1976, p. 40-1.
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figura 29.2   Os afro-brasileiros na frica ocidental, nos sculos XVIII e XIX.
A frica e o Novo Mundo                                                                             885



No entanto, ele no gozava da aceitao total da sociedade europeia19 e nem
sempre mantinha boas relaes com as populaes autctones, em face de seus
hbitos e estilo de vida.
    Pouco a pouco, esses grupos foram perdendo a especificidade afro-brasileira,
j que, embora importassem livros do Brasil, como o Compndio de doutrina crist
e O fabulista da mocidade20, o ensino nas escolas foi seguindo exclusivamente a
lngua do colonizador francs ou ingls. Por outro lado, os descendentes dos
Yoruba, para se integrarem mais na sociedade local, comearam a empregar de
novo os nomes yoruba, e alguns adquiriram o hbito de participar do culto das
igrejas africanas derivado do protestantismo.
    No caso de Lagos, a comunidade conservou sua identidade, por exem-
plo, saindo para as ruas em dias de festa para apresentar danas folclricas,
seguindo nisto o exemplo da Aurora Relief Society, que, em 190021, conti-
nuava a identificar-se com um ncleo burgus. No entanto, com o tempo, o
grupo perdeu os traos distintivos. O portugus, outrora considerado uma ln-
gua comercial, foi suplantado pelo ingls na Nigria e pelo francs no Daom
(Benin)22. Algumas formas de resistncia foram registradas, como, por exemplo,
o lanamento em 1920 do jornal Le Guide du Dahomey, em Porto Novo23, o qual,
at 1922, publicava crticas  administrao colonial francesa. Outro jornal, La
Voix du Dahomey24, editado mais tarde pelos descendentes dos afro-brasileiros,
continha crticas s dificuldades para negociar com o exterior, como era costume
nos perodos anteriores ao estabelecimento da administrao francesa.
    Na Costa do Ouro, os afro-brasileiros, embora estabelecidos como um ncleo
separado, em vista de seus hbitos mais ou menos ocidentalizados e, por isso,
conhecidos como os Tabon, abandonaram pouco a pouco as tradies tipica-
mente brasileiras, retendo, porm, outros traos culturais, como tocar tambores
por ocasio de festividades, como a procisso anual que percorre as velhas ruas de
Acra durante dois dias25. Os Tabon, ao se instalarem no pas, tiveram de assinar
um pacto de vassalagem com um chefe Ga de Acra. Cedo abandonaram o uso


19   TURNER, J. M., 1975, captulo V; 1978, p. 24.
20   Bouche a Planque, Porto Novo, 25 de janeiro de 1869, Arquivos da Societ delle Missione Africane
     (SMA), Roma, verbete n. 21.150, rubrica n. 12/80200 (11/082) [Carta do padre Bouche a seu superior,
     o padre Planque].
21   Lagos Standard, 8 de janeiro de 1896 e 2 de maio de 1900.
22   CUNHA, 1976, p. 33.
23   BALLARD, 1965, p, 16.
24   TARDITS, 1968, p. 39.
25   TURNER, J. M., 1978, p. 23.
886                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



da lngua portuguesa, embora suas canes misturem o ga, o ingls e o portu-
gus. A rpida integrao dos Tabon da Costa do Ouro contrasta com a bastante
demorada dos afro-brasileiros de Lagos, Abeokuta, Porto Novo, Quidah e outras
cidades menos importantes da costa da Nigria, do Daom e de Togo.
   Em Lagos, ao lado da comunidade brasileira tambm se constituiu uma
comunidade afro-cubana, formada de elementos repatriados de Cuba, mas em
menor nmero.


      Ao de evangelizao pelos negros americanos na frica
    Um dos meios pelos quais se alimentou o intercmbio entre negros da frica
e da Amrica na poca colonial,  falta de migraes em massa, foi a chegada
de missionrios negros para "elevar" o continente negro mediante a evangeli-
zao crist. Em geral, a evangelizao foi obra de missionrios negros norte-
americanos, de incio pertencentes a igrejas onde os brancos preponderavam.
A Igreja Presbiteriana, por exemplo, enviou missionrios negros a Camares
desde 1896. O reverendo William H. Sheppard, negro diplomado pelo Instituto
Hampton, da Virgnia, incitou a Southern Presbyterian Church a empreender
atividades missionrias no Congo nos ltimos anos do sculo XIX. Represen-
tando l sua igreja, logo verificou que as converses somavam "centenas" e que
sua misso se desenvolvia "at se tornar um dos estabelecimentos cristos mais
importantes26". Por volta de 1900, os Adventistas do Stimo Dia enviaram trs
missionrios negros  Niassalndia (atual Malavi), e, como resultado de cinco
anos de estadia, mandaram trs jovens adeptos africanos, entre os quais Daniel
Sharpe Malekebu, para as escolas negras americanas, a fim de serem educados.
(No s havia alguns evangelistas negros nessa "igreja branca", como tambm
alguns missionrios brancos foram colocados em escolas afro-americanas, a fim
de se prepararem para servir na frica.) No entanto, as igrejas negras logo se
tornaram, por sua prpria vontade e por seu prprio direito, as animadoras de
uma ao missionria na frica que foi talvez a mais eficaz de todas.
    Desde o sculo XIX, os afro-americanos foram exortados a assumir respon-
sabilidades particulares na "redeno" das sociedades africanas. O bispo Turner,
principalmente, no hesitava em propor que "Deus levou o negro para a Amrica
e o cristianizou para que ele regressasse a seu continente e o resgatasse27. Outros


26    CLENDENEN, COLLINS e DUIGNAN, 1966, p. 63.
27    PONTON, 1917, p. 77.
A frica e o Novo Mundo                                                       887



evocavam o grande destino poltico da frica e a vontade divina como exorta-
es aos negros do Novo Mundo  ao. Diziam, por exemplo, num discurso
pronunciado em 1902, que "se os negros americanos se dignassem tomar cons-
cincia de suas responsabilidades, estar  altura da tarefa, que lhes cabe cumprir
e empreender, de evangelizar a frica em nome do Senhor, milhes de filhos da
frica que ainda esto por nascer vero um continente transformado"28.
    Anteriormente, em 1884, a African Methodist Episcopal Church (AME)
organizara um importante colquio sobre o tema: "Qual deveria ser a poltica
dos americanos de cor em relao  frica?". Em agosto de 1893, africanos e
outros participantes dos Estados Unidos da Amrica e da Europa assistiram
a um congresso mundial sobre a frica, organizado pela American Missio-
nary Association, por ocasio da exposio internacional realizada em Chicago
naquele ano. O congresso, que durou uma semana, visava promover a ao
missionria afro-americana na frica e o reconhecimento dos direitos dos "afri-
canos da Amrica".
    O bispo Turner reiterou nesse congresso seu apelo em favor da emigrao
negra para a Libria. De fato, pelo menos um liberiano (Momolu Massaquoi)
compareceu e participou dos debates. Outro delegado africano (Etna Holder-
ness, da Libria) esteve presente numa conferncia posterior, em dezembro
de 1895, sobre "A frica e o negro americano", que teve lugar no Gammon
Theological Seminary, de Atlanta. Para os negros americanos, a obrigao de
contribuir para a cristianizao da totalidade da frica foi de novo sublinhada
nessa reunio: "Deveria e deve haver uma linha ininterrupta de missionrios
cristos desde o Cabo da Boa Esperana at o Egito [...] e desde a a Serra Leoa
e  Libria e [...] at o Sudo e o Estado do Congo [...]"29.
    Os negros americanos responderam por diversas formas a este gnero de
apelo. Por exemplo, em 1930, um bispo da AME adquiriu, num acesso de
entusiasmo, uma fazenda de mais de mil hectares na frica do Sul, na inteno
de instalar nela uma colnia de membros de sua igreja. Por outro lado, igrejas
negras dos Estados Unidos ficaram apreensivas quando, em janeiro de 1926, a
imprensa negra publicou artigos sobre a expulso de todos os missionrios da
Libria. Fato mais importante, contudo, a AME e a African Methodist Epis-
copal Zion (AME Zion), bem como a National Baptist Convention (NBC),
enviaram missionrios negros para a frica durante todo o perodo colonial. Os
primeiros estabelecimentos da NBC foram fundados na Libria em 1883, dando

28   PENN e BOWEN, 1902, p. 310.
29   BOWEN, 1896, p. 205.
888                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



prosseguimento  ao desenvolvida bem antes por Lott Carey. A AME Zion
tambm comeou a implantar-se na Libria, em 1878, e na Costa do Ouro, em
1896. O bispo John Bryan Small, das Antilhas, organizou ulteriormente duas
conferncias anuais da AME Zion na Costa do Ouro, atraindo assim J. E. K.
Aggrey e Franck Osam-Pinanko para igrejas afro-americanas e, finalmente,
para a AME Zion. Em 1930, missionrios desta igreja foram  Nigria, onde
igrejas africanas desejavam filiar-se  Zion. Durante o mesmo perodo, a AME
financiou misses em diversas partes da frica, notadamente em Serra Leoa,
em 1886 (explorando a anterior ao evanglica de Daniel Coker), na Libria,
nos ltimos anos do sculo XIX (graas a uma visita pessoal de Henry Turner),
e na frica do Sul, em 1896. Tendo em conta sua durao, devemos atentar mais
para a ao missionria da AME na frica e dizer uma palavra em particular
sobre a rea onde sua repercusso foi mais forte, ou seja, a frica austral.
    Muitos negros americanos que atenderam ao apelo de sua igreja, no final
do sculo XIX, partiram para a frica austral como missionrios, exercendo a
profunda influncia. Uma verdadeira aliana entre a Igreja Africana, indepen-
dente e cismtica (ou Igreja Etope) e a AME, concluda em 1896, abriu uma
dcada marcante na histria dos negros sul-africanos e americanos. Embora a
aliana tenha perdurado por pouco tempo, ela ajudou a AME a implantar-se
na frica do Sul com tal fora que se manteve forte pelos cinquenta anos que
se seguiram.
    Constituda por elementos dissidentes da Igreja Wesleyana e por outros "des-
contentes", a Igreja Etope separatista negra passou seus primeiros anos de vida
lutando pela sobrevivncia. E ela s se salvou graas  interveno fortuita de
Charlotte Manye, que fazia parte de um grupo de estudantes sul-africanos que
ingressaram nas universidades Wilberforce e Lincoln em 1895, como membros
de um chamado "Coro Zulu". Ela escreveu uma carta a sua irm, na frica do
Sul, usando papel timbrado da AME. A carta incitou os dirigentes da Igreja
Etope a procurar mais informaes sobre a AME, e eles pediram e receberam
cpias de documentos sobre disciplina, livros de hinos e liturgia da AME. Como
se interessavam particularmente pela possibilidade de os africanos cursarem
estudos superiores nos Estados Unidos, enviaram para esse pas, em 1896, uma
delegao dirigida pelo reverendo James Mata Dwane. Da resultou a absoro
oficial da Igreja Etope pela AME e o formal ingresso desta na ao missionria
no estrangeiro.
    Mais precisamente, Dwane insistiu junto dos afro-americanos para que eles
fossem para a frica do Sul e propagassem a vigorosamente a misso educa-
dora da AME, salientando que aquele pas oferecia "o campo de ao onde os
A frica e o Novo Mundo                                                       889



negros americanos educados e consagrados seriam mais teis"30. Na primeira
fase, todavia, era preciso que a Igreja-Me auxiliasse, formando jovens africanos
em estabelecimentos de ensino americanos.
    O bispo Turner respondeu inserindo em seu jornal The Voice of Missions um
aviso crtico: Take Notice, Wilberforce. South Africa coming ("Ateno, Wilber-
force. Est chegando a frica do Sul").
    No obstante, Dwane e os dirigentes africanos consideravam que o resultado
lgico da conexo afro-americana seria o desenvolvimento de escolas locais,
anlogas quelas que os estudantes africanos frequentavam nos Estados Uni-
dos. Para ele, era conveniente pr fim  dependncia total em relao a escolas
estrangeiras para a formao de missionrios e de professores, procedendo de
tal forma que os estabelecimentos criados produzissem quadros suficientes para
atender s necessidades da populao africana. Turner visitou a frica do Sul em
1898, consagrou Dwane como bispo auxiliar da AME e proclamou a inteno
da Igreja de construir uma escola que no ficaria devendo nada "a tudo quanto
tenha sido feito antes em matria de ensino por missionrios". Dwane, por sua
vez, falava em criar a Escola Normal Turner de Queenstown ou a Wilberforce
do Continente Negro.
    Turner dedicou toda a edio de maro de 1899 de The Voice of Missions 
campanha em favor do South African College. Um artigo em que a redeno
da frica era descrita como "o fardo do negro americano" dava as caractersti-
cas desse colgio: tratar-se-ia de um estabelecimento para africanos, dotado de
um corpo docente africano, que seria fundado e mantido pelo departamento
missionrio da AME. Os primeiros professores seriam estudantes que estavam
frequentando a Universidade Wilberforce, o Morris Brown College, a Universi-
dade Howard e o Departamento Mdico do Central State College, de Nashville
(Tennessee).
    Mas Dwane no concordava em que o movimento fosse dirigido e dominado
por no africanos. Em 1899 retirou-se da unio AME-Etope, provocando
assim um cisma na hierarquia da Igreja negra da frica do Sul. Procurando
recriar uma base para seus missionrios no pas, a conferncia geral da AME de
1900 nomeou Levi Coppin o primeiro bispo residente. A Igreja foi auxiliada em
seu trabalho por Charlotte Manye, a estudante sotho que estivera na origem da
fuso da AME com a Igreja Etope. Ela voltara dos Estados Unidos e retomara
por iniciativa prpria a ideia de um estabelecimento de ensino sul-africano,


30   DWANE, 1897.
890                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



fundando uma escola missionria da AME entre os Pedi da regio oriental da
provncia do Cabo. Em 1908, Charlotte Manye Maxeke e seu marido haviam
obtido dinheiro suficiente do Departamento Missionrio para comprar um
terreno no Transvaal, construir um pavilho (ao qual deram o nome do bispo
Coppin) e fundar a escola (que foi desbatizada e recebeu o nome de Wilberforce
Institution) em sua localizao permanente em Evaton.
    Entrementes, em 1905, John Chilembwe, jovem yao convertido pela NBC,
escrevia timidamente da Niassalndia  Igreja-me que "as atividades mission-
rias dependem essencialmente de vossa ajuda". Com um toque de desespero, ele
j indicava, dez anos antes de assumir o comando de uma rebelio malfadada
contra os britnicos na Niassalndia: [...] a situao aqui no  a mesma, na
frica central britnica, da frica do Sul, onde o povo pode fazer alguma coisa
pelas misses. [...] Ignoro qual ser o futuro desta obra"31. Chilembwe tinha via-
jado para os Estados Unidos em 1897, a fim de cursar o Seminrio de Teologia
da Virgnia, instituio reservada aos negros. L se formou ministro do culto,
voltando para a Niassalndia por volta de 1900 sob os auspcios da National
Baptist Convention. Tentou criar uma misso, a propsito da qual exprimiu os
sentimentos que acabamos de ler, seguindo as linhas que ele observara entre os
negros norte-americanos. Seria, portanto, um "estabelecimento orientado para o
trabalho manual, onde os africanos seriam formados em diversas artes e ofcios,
ao mesmo tempo que se iniciariam nos princpios do cristianismo"32.
    O bispo Coppin fez o inventrio dos esforos da Igreja Americana negra no
continente africano em um discurso feito em 1916 perante a conferncia geral
da AME.
      Nossa Igreja [constatava ele] construiu e ajudou a construir igrejas e escolas na
      frica ocidental e austral. Numerosos estudantes se formaram a em nossas escolas,
      largamente ou inteiramente por conta das igrejas [...] [j que] no ficamos surdos
      aos apelos de nossos irmos de alm-mar; no abdicamos de nossos deveres para
      com os pases estrangeiros em geral e a frica em particular [...] trabalhamos pela
      redeno da frica, onde milhes de indivduos ainda vivem nas trevas: e soubemos
      dar a mo  mo estendida da Etipia [...]33.
   A despeito da resistncia das autoridades polticas e eclesisticas brancas da
frica do Sul, as iniciativas de Turner, a ao de Dwane e a criao de slidas


31    CHILEMBWE, 1905.
32    SHEPPERSON e PRICE, 1958, p. 113.
33    Citado no Episcopal Handbook da AME, 1963.
A frica e o Novo Mundo                                                      891



bases institucionais pelos Coppin e os Maxeke tiveram como resultado a matr-
cula de inmeros estudantes africanos em escolas norte-americanas. Da mesma
forma, igrejas negras dos Estados Unidos incentivaram estudantes da frica
central britnica e da frica ocidental a frequentarem suas escolas, concedendo-
-lhes muitas vezes ajuda financeira. A permanncia desses estudantes no outro
lado do Atlntico abriu caminho a uma nova e importante fase da interao
entre africanos e afro-americanos durante o perodo colonial, que teve profundas
consequncias para os movimentos nacionalistas negros de meados do sculo
XX. Na verdade, o perodo de contatos gerados pelos missionrios no, qual os
lderes da Igreja Americana negra tiveram o papel de mentores, foi gradativa-
mente transformado em um tempo em que o nvel, a interao e a natureza dos
interesses americanos na Amrica negra foram crescentemente determinados
pelas iniciativas africanas.

     Interaes religiosas entre o Brasil e a costa africana
    Do ponto de vista religioso  e mais especificamente da evangelizao no
podemos comparar a ao dos afro-americanos com a dos afro-brasileiros.
Enquanto os primeiros participaram de forma direta ou indireta na misso
evanglica, os segundos no se envolveram em nenhum tipo de proselitismo.
Muitos deles, uma vez chegados a Lagos, conseguiram voltar para seu pas de
origem. Alguns documentos histricos do f da passagem por essa cidade de
afro-brasileiros muulmanos a caminho do pas Haussa. Verger34 faz referncia 
atividade do cnsul ingls Benjamin Campbell em Lagos, que em 1858 entregou
passaportes a afro-brasileiros desejosos de voltar para sua regio de origem. Em
Lagos, nos confins do Bairro Brasileiro, h uma mesquita central construda por
artesos vindos do Brasil. Por outro lado, os catlicos35 construram na cidade
sua primeira igreja, a Holy Cross Church, iniciada em 1879, e mandaram os
filhos estudar nas escolas dos missionrios franceses e ingleses, que comeavam
a ministrar o ensino em francs e ingls.
    Graas  influncia religiosa exercida de modo intermitente por sacerdotes
de lngua portuguesa vindos da ilha de So Tom, a comunidade foi orientada
e assistida durante os primeiros tempos por um liberto conhecido como padre
Antnio36. Os filhos dos afro-brasileiros que moravam no Bairro Brasileiro e que


34   VERGER, 1968, p. 617-8.
35   AJAYI, 1965, p. 199-200 e 202.
36   VERGER, 1968, p. 618.
892                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



tinham frequentado as escolas de missionrios comearam a exercer a funo de
professores e de catequistas nas escolas e misses que os padres da African Mis-
sion Society instalaram na regio, bem assim outras atividades, como o trabalho
na administrao colonial37. A ao desses catequistas se desenvolvia em nome
dessas misses de origem europeia; no se tratava de uma atividade missionria
partida do Brasil ou resultante da iniciativa da comunidade afro-brasileira de
Lagos. De fato, o ensino era dado em ingls e, s vezes, em francs.
    Os afro-brasileiros utilizavam o "catolicismo" como sinal de distino, que
lhes assegurava uma posio social especfica e fez deles, em Lagos, o primeiro
ncleo de uma burguesia africana.
    Bom nmero de afro-brasileiros repatriados, embora catlicos declarados,
nunca tinha abandonado as crenas religiosas africanas tradicionais. Assim, de
volta  terra natal, emprestaram maior vigor s suas prticas sob forma mais ou
menos sincrtica, resultante dos costumes religiosos brasileiros; aproveitaram
os aspectos formais do catolicismo e misturaram os santos catlicos com as
divindades africanas do panteo Yoruba, cujo culto continuaram a praticar. "O
que espantou os missionrios catlicos ao chegarem  costa da frica foi o
respeito igual que os africanos abrasileirados tinham pela religio adquirida na
Amrica do Sul e por aquela recebida de seus antepassados [...]." O padre Lafite
acrescentava que os "brasileiros s eram cristos porque tinham sido batizados,
o que no os impedia de invocar as divindades negras [...]". Os brasileiros e os
outros convertidos estavam mais interessados nas vantagens sociais decorrentes
da situao de cristos do que em uma adeso sincera e profunda aos dogmas
da Igreja38.
    Em contraste com o que se verificava nos Estados Unidos, onde as conver-
ses eram mais profundas  certos afro-americanos transformaram-se em pro-
pagadores da f crist  os afro-brasileiros conservaram suas crenas religiosas
africanas.
    Assim, os afro-brasileiros do Bairro Brasileiro, que formavam um ncleo
burgus cuja coeso  especificidade social derivavam da religio catlica, prati-
cavam o culto dos orixs (deuses), locais e consultavam os babalas (adivinhos)39.
Mais ainda: houve um movimento religioso da frica em direo ao Brasil.
Nina Rodrigues40 assinala que, no incio do sculo XX, veleiros provenientes de


37    CUNHA, 1976, p. 32.
38    VERGER, 1968, p. 601.
39    CUNHA, 1976, p. 33.
40    RODRIGUES, N., 1976, p. 105.
A frica e o Novo Mundo                                                            893



Lagos transportavam comerciantes nag que falavam yoruba e ingls, traziam
noz-de-cola, cauris, objetos de culto yoruba jeje (juju), sabo, "sarongues da
costa" etc. Em 1888, de 8237 libras esterlinas de mercadorias exportadas para o
Brasil, o leo de palma representava apenas 2600 libras. O resto abrangia essen-
cialmente artigos religiosos e de culto e, sobretudo, "sarongues da costa" (3367
libras), objeto de grande consumo no Brasil, nozes-de-cola de duas qualidades
(1525 libras), "palha da costa", sabo preto, cauris, "oris", cabaas, "contas de ros-
rio" etc. A entrada no Brasil de produtos africanos destinados ao culto e s pr-
ticas religiosas afro-brasileiras nunca cessou, e esses produtos foram tendo uma
procura cada vez maior. Por consequncia, adquiriram grande valor, na medida
em que aumentava o nmero de adeptos do sincretismo afro-brasileiro.


    Contribuio da Amrica para a educao dos africanos
    Vivendo nos Estados Unidos durante o perodo colonial, os estudantes afri-
canos criaram condies para uma nova relao entre sua gente e afro-ameri-
canos e entre eles prprios, que vinham de todas as partes do continente. Ao
retornarem  ptria, incitaram milhares de compatriotas a cursarem escolas
norte-americanas, desde 1880 at a Segunda Guerra Mundial. Aumentou assim
o nmero de estudantes africanos nos Estados Unidos e prolongou-se o tempo
de contato entre grupos negros de um e de outro lado do mundo. Entre os
numerosos africanos que, na poca colonial, cursaram escolas norte-americanas,
contam-se recentes chefes de Estado (tais como Nnamdi Azikiwe, Kwame
Nkrumah e Kamuzu Banda), assim como dirigentes nacionalistas ou tnicos
de um perodo anterior (como A. B. Xuma, John Dube, Marshall e Charlotte
Maxeke, J. E. K. Aggrey, Pixley Ka Izaka Seme, D. S. Malekebu, Franck Osam-
-Pinanko, Peter Koinange, Ndabaningi Sithole, Eduardo Mondlane e John
Chilembwe). Com o tempo, o fluxo sempre crescente de africanos para os
Estados Unidos ultrapassou substancialmente o movimento inverso dos mis-
sionrios negros para a frica. Por outras palavras, o que havia comeado como
uma campanha de evangelizao, com vistas  redeno espiritual da frica,
contribuiu finalmente para criar um trampolim para uma revoluo na ordem
da educao, da tcnica e da poltica.
    Sem dvida,  possvel determinar a influncia da instruo recebida nos
Estados Unidos sobre os africanos colonizados e os movimentos anticolonia-
listas, examinando breves biografias de certos estudantes. J. E. K. Aggrey (ver
fig. 29.3), por exemplo, deixou a Costa do Ouro em 1898 para seguir para os
894                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



Estados Unidos, sob a influncia direta de um bispo da AME Zion, originrio
de Barbados, que tambm estudara l. Aggrey foi mandado para o Livings-
tone College, principal estabelecimento de ensino da AME Zion Salisbury
(Carolina do Norte), ficando entendido, pelo que parece, que regressaria logo
em seguida  frica para se colocar ao servio dessa Igreja. Mas, depois de
licenciado e formado em teologia, Aggrey aceitou emprego na casa editora da
AME Zion em Charlotte, tornou-se correspondente de um ou dois jornais
negros, deu aulas gratuitas a professores negros das vizinhanas, foi ordenado
membro do Conselho da Igreja e recebeu a oferta de uma parquia de duas
igrejas negras. Segundo seu bigrafo, o trabalho pastoral foi "um dos episdios
mais importantes da permanncia de Aggrey nos Estados Unidos", j que
"o retirou do meio universitrio e o lanou no quadro em que vivia o negro
norte-americano"41. Ademais, seus laos com a Amrica do Norte negra j se
haviam reforado quando se casou, em 1904, com uma jovem afro-americana,
possivelmente descendente de Frederick Douglass. Depois de passar 22 anos
no meio dos negros norte-americanos, Aggrey retornou  frica por duas
vezes, na qualidade de membro da Comisso Phelps-Stokes, mas faleceu em
1927, pouco depois de ter aceitado o cargo de vice-diretor adjunto do Col-
gio de Achimota, criado havia pouco em Gana. Entre as dezenas de jovens
africanos que ele influenciou figuram Nnamdi Azikiwe, Kwame Nkrumah
e Kamuzu Banda, que mais tarde se matricularam, todos eles, em escolas
norte-americanas para negros.
    Enquanto estava nos Estados Unidos, John Chilembwe, da Niassalndia,
pde verificar a expanso do racismo. Estudava na Virgnia por ocasio das
agitaes raciais de Wilmington (Carolina do Norte), em 1898. Parece ainda
que ele embarcou de volta para a frica em companhia do reverendo Charles
S. Morris, batista afro-americano que se interessava pela Etipia e que pre-
senciara as desordens de Wilmington. George Shepperson e Thomas Price,
num estudo admirvel, apuraram as lies que Chilembwe pudera extrair de
sua permanncia nos Estados Unidos racistas, observando que a forma como
os negros se adaptaram  discriminao aps a reconstruo "ofereceu-lhe um
modelo de estratgia e de ttica de que ele se valeria para sua prpria reao
contra a discriminao, menos evidente mas bem real, de que os africanos
eram vtimas em sua ptria". Os autores no defendem que Chilembwe tenha
derivado a ideia das escolas africanas, "independentes do Estado e das misses


41    SMITH, E., 1929, p. 85.
A frica e o Novo Mundo                                                                    895




figura 29.3   J. E. K. Aggrey (1875-1921), educador da Costa do Ouro. (Foto: Royal Commonwealth
Society.)
896                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



europeias", das instituies afro-americanas, mas acham no ser implausvel
supor que sua concepo tenha sido influenciada por aquilo que ele viu nos
Estados Unidos42.
    Embora nada indique quais foram suas leituras durante sua permanncia
nos Estados Unidos, Chilembwe estava l no momento em que as palavras e as
obras do bispo Turner e de Booker T. Washington j eram profusamente cita-
das e comentadas na imprensa e em que as de Du Bois e de jornalistas negros
militantes como T. Thomas Fortune comeavam a chamar a ateno. Ademais,
a comisso constituda para pesquisar o levante de 1915 na Niassalndia afir-
mou que muitos escritos incendirios redigidos por negros norte-americanos
contriburam para incitar os partidrios de Chilembwe  revolta.
    O reverendo D. S. Malekebu, tambm originrio da Niassalndia, retornou
em 1926 para a frica central britnica, depois de completar seus estudos nos
Estados Unidos. Sua ausncia nem de longe foi to prolongada como a de
Aggrey, e seu regresso no foi to catastrfico como o de Chilembwe, mas sua
ascenso ao papel de dirigente durante o perodo colonial tambm merece ser
assinalada. Ele estudou na National Training School, de Durham (Carolina
do Norte), e no Moody Bible Institute, de Chicago, para depois obter o ttulo
de doutor em medicina na Meharry Medical School, em 1917. Ao regressar 
Niassalndia, em companhia da esposa, Flora Ethelwyn, congolesa diplomada
pelo Spelman College, reabriu a Providence Industrial Mission, de Chilembwe,
que o governo do protetorado da Niassalndia demolira em consequncia da
rebelio abortada de 1915. Alm disso, Malekebu fundou a Chiradzulu Native
Association e foi nomeado membro do conselho local. Em resumo, a construo
de uma igreja e de um hospital, a reconstruo da misso de Chilembwe e a vasta
ao que ele empreendeu em favor da populao, tudo lhe valeu a conquista de
ardorosos admiradores.
    Nnamdi Azikiwe (ver fig. 29.4), que, a exemplo de Kamuzu Banda, foi incen-
tivado a viajar para os Estados Unidos pelo onipresente James Aggrey e pelo
clima que l se tinha criado graas  influncia de Marcus Garvey, comeou por
se matricular em 1925 em uma escola preparatria para negros em Virgnia do
Oeste. Alguns anos mais tarde, ao ingressar na Universidade Howard, colaborou
estreitamente com especialistas negros como Ralph Bunche e, em particular,
com Alain Locke e William Leo Hansberry, em estudos e pesquisas histricas
sobre os afro-americanos e sobre a frica pr-colonial.


42    SHEPPERSON e PRICE, 1958, p. 97-8.
A frica e o Novo Mundo                                                       897



    O professor Locke tornou-se o orientador pessoal dos estudos de Azikiwe,
que, por sua vez, ocupou a funo de secretrio particular de Locke. Publicada
em 1925, a obra deste, The New Negro, exerceu com certeza enorme influncia
no estudioso Azikiwe, j que era um modelo de estudo comparado das socie-
dades e das culturas negras que lembrava outros devidos a todo um elenco de
escritores e eruditos do Renascimento de Harlem: Jean Toomer, Countee Cul-
len, James Weldon Johnson, o jamaicano Claude McKay, Langston Hughes,
o imigrante porto-riquenho Arthur A. Schomburg, E. Franklin Frazier e W.
E. B. Du Bois. Por outro lado, seus contatos com um estudante antilhano
de direito, George Padmore, tiveram incontestvel influncia em Azikiwe,
quando ele frequentava a Howard. Padmore usou da palavra em uma reunio
de estudantes sobre as opes polticas colocadas por ocasio das eleies de
1928 nos Estados Unidos. Posteriormente, colaborou com anlises polticas na
revista African Morning Post, que editou na Costa do Ouro durante a dcada
de 1930.
    Em discurso pronunciado em 1954 perante o conselho de administrao da
Universidade Howard, pouco antes de se tornar primeiro-ministro da Nig-
ria oriental, Azikiwe falou da poca em que era estudante na Howard: "Aqui
aprendi os rudimentos das letras, a anatomia das cincias sociais e a gramtica da
poltica43. O professor Hansberry, que estava ao lado dele quando foi chamado
para ocupar o cargo de governador-geral da Nigria, em 1960, prestou-lhe ento
homenagem saudando nele "o mais ilustre de meus antigos alunos [...] aquele
que apreendeu com mais clareza a grandeza do passado da frica e demonstrou
as imensas possibilidades contidas em seu presente"44. Implcito nesse elogio a
Azikiwe estava certamente um pouco do desapontamento de Hansberry com a
indiferena e mesmo com a frequente hostilidade a seus prprios trabalhos sobre
a histria da frica demonstradas pelos professores e alunos afro-americanos
da Howard.
    Em 1930, ao entrar para a Universidade Lincoln, Azikiwe continuou a
interessar-se pela histria dos negros e pelas relaes raciais. Estava decidido a
proceder de forma a que os negros ascendessem aos postos de professor, todos
ocupados por brancos, e criticava "as ambies tradicionais de seus condiscpu-
los e os objetivos visivelmente burgueses do estabelecimento [...]"45. Conside-
rava "uma enormidade que uma universidade para negros funcionasse durante

43   AZIKIWE, 1961, p.13.
44   JONES-QUARTEY, 1965, p. 76.
45   "Horace Mann Bond Papers", Lincoln University (Pensilvnia).
898                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935




figura 29.4 Nnamdi Azikiwe (nascido em 1904), jornalista nigeriano, pan-africanista e poltico.
(Foto: Royal Commonwealth Society.)
A frica e o Novo Mundo                                                     899



oitenta e seis anos antes de que um negro fosse l nomeado professor"46. As
autoridades universitrias foram ficando desencantadas com a atividade contes-
tadora de Azikiwe (da qual se falava no s no campus, mas tambm em jornais
afro-americanos da Pensilvnia, como o Philadelphia Tribune, ou os de Balti-
more). Consequentemente, a escola recusou-se a recomendar Azikiwe para a
renovao de seu visto de estudante, o que o obrigou a deixar os Estados Unidos.
Partiu para a frica em 1934. No momento em que Nkrumah se matriculava na
Lincoln, no final do perodo aqui estudado (1935), vrias reformas reclamadas
por Azikiwe j tinham sido adotadas.
   Por ocasio das viagens que fez pelas fricas ocidental e austral, com a
Comisso Phelps-Stokes, bem como dos cursos que ministrou na Costa do
Ouro, em harmonia com suas funes no Colgio de Achimota, Aggrey, como
muitos outros o fizeram em situaes semelhantes, manteve contato com nume-
rosas comunidades africanas e incentivou dezenas de jovens africanos a irem
estudar nos Estados Unidos e no na Gr-Bretanha. Azikiwe, Banda e Nkrumah
so os mais conhecidos de quantos receberam sua influncia. A experincia
deles tambm ilustra os aspectos pan-africanos ou pan-negros de sua perma-
nncia naquele pas. Mas esses aspectos da interao entre africanos e negros da
dispora no explicam inteiramente a ao desenvolvida pelos africanos que l
estudaram ao retomarem  ptria. Pelo que se conhece do assunto at hoje, tal
ao no encontrou de resto explicao satisfatria. O que parece ter ocorrido,
principalmente entre os africanos das colnias britnicas, foi uma alterao da
perspectiva daqueles que foram instrudos nos Estados Unidos ao colidirem com
uma recepo colonial inamistosa (tanto mais pelo fato de eles terem escapado
por completo do meio colonial durante seus estudos)47.
   No entanto, no havia nas colnias africanas oposio ou desdm geral ou
categrico em relao aos estudos nos Estados Unidos. Aparentemente, a for-
mao profissional era bem vista pelos empresrios coloniais, pois lhes permitia
encontrar operrios qualificados para "conduzir seus caminhes, construir suas
casas e dirigir suas oficinas mecnicas ou eltricas". Os administradores e os
missionrios brancos incentivavam esse tipo de formao por diversas razes:
os primeiros porque viam nisso um estmulo ao desenvolvimento comercial e
econmico do territrio; os segundos porque guardavam esperanas de que
as concepes e as ideias de Booker T. Washington sobre a "educao prtica"


46   BOND, 1958, p. 257.
47   Ver RALSTON (?).
900                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



fossem boas para a formao dos caracteres e contribussem assim para elevar o
nvel moral de toda a vida africana.
    Os dois exemplos que se seguem mostram como o componente da experi-
ncia desses africanos educados nos Estados Unidos contribuiu para dar s suas
atividades um carter prprio. O reverendo John Dube, que mais tarde seria o
primeiro presidente geral do African National Congress (1912-1917), chamado
de "o Booker T. Washington da frica do Sul", afirmou explicitamente, em con-
ferncia dada em Nova York, o valor que para ele tivera o modelo do Tuskegee
de Washington. Alis, ele fundou um "Tuskegee domstico" na Zululndia para
formar o esprito, as mos e o corao dos jovens zulu  maneira de seu inspi-
rador. Teve de enfrentar enormes obstculos, sobretudo para reunir os fundos
necessrios, j que os sul-africanos receavam que as atividades "etopes" dos
bispos Turner, Dwane e Coppin exercessem uma "influncia perturbadora".
    Em 1934, depois de permanecer nove anos nos Estados Unidos, Azikiwe no
voltou para a Nigria, onde nascera, mas foi para a Costa do Ouro, instalando -se
ali provisoriamente, depois de lhe terem recusado posies em seu pas (uma
cadeira de professor no King's College de Lagos) e no servio diplomtico da
Libria. O presidente Barclay da Libria rejeitou sua candidatura, lembrando
secamente o fato de ele no ser liberiano e de seu conhecimento da repblica
ser, portanto, insuficiente para desempenhar as funes que pretendia. Mas, com
o ardor que o caracterizava, Azikiwe procurou se tornar uma tal autoridade no
que dizia respeito  Libria que at os amrico-liberianos o invejavam. No final
de 1931, j adquirira conhecimentos suficientes para ler uma comunicao sobre
a Libria na conferncia anual da Association for the Study of Negro Life and
History. Nessa comunicao, defendia aquele pas e condenava seus detratores
ocidentais. Em 1934, publicou um livro intitulado Liberia in World Politics.


      O panafricanismo: aspectos polticos e culturais
   Alm do intercmbio no plano da educao, uma srie de organizaes e
conferncias pan-africanistas, e de atividades comerciais, literrias e culturais
colocou os africanos em contato com negros norte-americanos e contribuiu
para influenciar a evoluo da frica colonizada. Quatro personalidades desem-
penharam, por sua atividade, um papel preponderante no desenvolvimento de
um pan-africanismo oficial e organizado durante o perodo colonial: Booker
T. Washington, fundador e diretor do Instituto Tuskegee, estabelecimento de
ensino que serviu de modelo para numerosas comunidades da frica e das
A frica e o Novo Mundo                                                       901



Antilhas; o dr. W. E. B. Du Bois, que, na qualidade de redator-chefe da revista
The Crisis, e "pai" do movimento continental African Congress, fez da frica
um campo de ao subsidirio da National Association for the Advancement
of Colored People (NAACP); Marcus Garvey, que utilizou sua UNIA no
s para suscitar um movimento de emigrao, mas tambm para promover a
solidariedade, no plano institucional ou poltico, entre todos os povos de ascen-
dncia africana; Aim Csaire, que (de acordo com outros negros das Antilhas,
como Lon Damas, de Caiena, Jean Price-Mars, do Haiti, e o poeta e poltico
senegals Lopold Senghor) lanou, principalmente no mundo negro franc-
fono, o conceito de negritude, variante cultural do pan-africanismo enquanto
conscincia coletiva dos negros.
    Por mais importantes que tivessem sido o pan-africanismo de Washington e
de seus colaboradores do Tuskegee, o interesse que eles despertaram na frica e
o impacto que tiveram sobre ela e sobre os africanos matriculados ou candidatos
 matrcula em universidades norte-americanas, esses aspectos de sua ativi-
dade so pouco conhecidos. Todavia, ex-alunos africanos e norte-americanos do
Tuskegee e, frequentemente, muitos africanos que, embora nunca tivessem se
matriculado no instituto, visitaram-no ou se corresponderam com Washington,
deram a conhecer  frica esse estabelecimento e seus recursos. Muitos africa-
nos foram assim tocados pelo "esprito do Tuskegee" ou apelaram ao instituto e
a outras possibilidades oferecidas pelos Estados Unidos negros em decorrncia
de numerosas conferncias, visitas e misses tcnicas internacionais.
    Proferindo o discurso de abertura da Conferncia Internacional sobre o
Negro, evento pan-africanista verificado no Tuskegee na primavera de 1912,
Washington acentuou a importncia do intercmbio de tcnicas e de recursos
entre os negros africanos e americanos. "Esta conferncia", declarou, "foi orga-
nizada para permitir estudar os mtodos empregados para auxiliar os negros
dos Estados Unidos, com vistas a determinar em que medida os mtodos do
Tuskegee e de Hampton so aplicveis -situao [...] na frica48." Entre os par-
ticipantes do evento figuravam delegados de Gana ( J. E. Casely Hayford, autor
da influente obra Ethiopia Unbound, publicada no ano anterior, representante da
Aborigines Rights Protection Society), da frica Oriental Britnica, da Libria
(F. E. T. Johnson), da Nigria, de Ruanda, da frica Oriental Portuguesa (atual
Moambique) e da frica do Sul (reverendo Isaiah Sishuba, da Igreja Etope
de Queenstown).


48   The Tuskegee Student, 1912.
902                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Embora o interesse da frica por Tuskegee tenha sido consideravelmente
avivado pela conferncia de 1922, ele j tinha sido despertado pelos estudantes
africanos do instituto que haviam regressado  ptria e por informaes ante-
riores de sua atividade. Por exemplo, em 1901 chegou uma misso do Tuskegee
ao Toga, a convite da administrao colonial alem, para melhorar os mtodos
africanos de cultura do algodo. Seu xito acarretou convites para outras misses
em Tanganica (atual Tanznia), Zanzibar e Sudo, enquanto o prprio Washing-
ton era convidado a ir para a frica do Sul.
    Entre as outras atividades pan-africanistas do gnero de que participaram
Tuskegee e Washington, convm citar reunies organizadas em 1908 pela Negro
Business League, nas quais Booker T. Washington mostrou que apreciava a
noo de pan-africanismo no intercmbio entre africanos e afro-americanos.
Ao apresentar cinco enviados da Libria que solicitavam ajuda financeira
norte-americana, Washington enfatizou que "eles esto aqui nos Estados Unidos
em visita oficial no s como enviados de seu pas, mas tambm como represen-
tantes de toda a raa negra [...]"49. Embora o crescimento real do comrcio entre
africanos e afro-americanos disso resultante tivesse sido fraco, uma companhia
de navegao, a African Union Company, foi fundada em 1913 por um auxiliar
de Washington, Emmett Scott, para promover a venda de produtos africanos
no mercado mundial. A ideia de uma companhia de navegao entre os Estados
Unidos e a frica atraiu Garvey com muita fora para Washington.
    Os encontros entre negros africanos e americanos no Tuskegee e durante
outras iniciativas do instituto fizeram com que o "esprito do Tuskegee" se pro-
pagasse numa progresso quase geomtrica. A atividade desenvolvida na Nigria
por um diplomado pela Phelps Hall Bible Training School, do Tuskegee, nos d
um exemplo disso entre muitos. "Propus a meus compatriotas", escreveu ele a
seus antigos professores, "a criao de uma escola semelhante ao Tuskegee. Eles
concordaram com satisfao. Um deles doou um terreno de vinte hectares e mil
dlares para comear imediatamente." E prosseguiu: "Logo que tiver construdo
duas ou trs casas, comearei a pregar para difundir o esprito do Tuskegee"50.
    John Dube e D. D. T. Jabavu figuram na extensa lista de notveis africanos
que transmitiram o aprendido no Tuskegee. Durante os anos que passou nos
Estados Unidos, estudando em Oberlin e em Nova York, Dube ligou-se ao edu-
cador John Hope, de Atlanta, e a Booker T. Washington. Mais tarde, em 1913,
Jabavu, que era aluno da Universidade de Londres, passou umas seis semanas

49    Liberian Bulletin , 1908, p. 64-5.
50    Southern Letter, 1917.
A frica e o Novo Mundo                                                         903



no Tuskegee, onde observou as tcnicas de agricultura, para visitar depois outras
instituies negras do sul.
    Alm disso, uma srie de provas anuais de graduao, chamadas de "exerc-
cios de eloquncia africana", foi organizada em Tuskegee, em funo de certos
objetivos pontuais de ajuda  frica, tais como a coleta de fundos para uma
capela Tuskegee na Libria. Regra geral, alunos africanos e afro-americanos
do instituto participavam dos exerccios, que consistiam em discursos e cantos.
Os temas dos discursos pronunciados em 1916 iam do "Desenvolvimento da
indstria do cacau na Costa do Ouro" e das "Possibilidades de desenvolvimento
da agricultura na frica do Sul", por A. B. Xuma51, at a "Religio e vida social
em Madagscar".
    O pan-africanismo, enquanto movimento poltico organizado, tambm
desempenhou um papel importante, proporcionando a oportunidade para o
estabelecimento de laos entre africanos colonizados e negros norte-americanos.
Em 1900, Henry Sylvester Williams, jurista de Trinidad, organizou em Londres
a primeira de uma srie de conferncias pan-africanistas, das quais participaram
delegados dos Estados Unidos, das Antilhas, da Amrica do Sul e da frica.
Ademais, Williams, admitido como "advogado do Supremo Tribunal da colnia
do Cabo da Boa Esperana", participou de diversas atividades polticas contes-
tatrias na frica. Tambm se sabe que Williams esteve associado, em 1907,
s comemoraes do sexagsimo aniversrio da independncia liberiana e que
defendeu, conforme solicitara o presidente Barclay, a causa da emigrao dos
negros do Novo Mundo para a Libria.
     incontestvel, no entanto, que foram os trs congressos pan-africanistas
convocados para diversas capitais da Europa (Paris, 1919; Londres, Bruxelas
e Paris, 1921; Londres e Lisboa, 1923) por W. E. B. Du Bois, aps a confe-
rncia organizada por Williams, que dominaram o movimento. O prprio Du
Bois desempenhou um papel preponderante nos trs congressos. Convocou o
primeiro em 1919 quando se encontrava na Frana, a fim de: a) cobrir a Con-
ferncia da Paz para The Crisis; b) reunir informaes para a proposta de uma
"Histria do negro norte-americano na Grande Guerra"; c) fazer presso pr-
reconhecimento dos direitos polticos das "raas de cor que vivem nos Estados
Unidos e no resto do mundo"52. Uma das resolues adotadas no Congresso de
Paris reclamava a autodeterminao dos africanos.


51   O autor deste captulo trabalha atualmente numa biografia de A. B. Xuma.
52   The Crisis, 1921, p. 119-20.
904                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Du Bois participou do II Congresso Pan-Africano, realizado em 1921, em
companhia de Walter White, do artista afro-americano Henry O. Tanner, de
Jessie R. Fauset, redator negro do The Crisis e o mais prolfico dos romancistas
do Renascimento do Harlem, do cantor afro-americano Roland Hayes e do
senegals Blaise Diagne. O congresso de 1923 reuniu afro-americanos, repre-
sentantes das Antilhas e africanos. Participaram dele, alm de Du Bois, Rayford
Logan e o bispo Vernon, da AME dos Estados Unidos, o chefe Amoah III, da
Costa do Ouro, e Komba Simango, da frica oriental portuguesa, contribuindo
para a elaborao de vrias resolues de fundo e um apelo geral ao "desenvol-
vimento da frica em benefcio dos africanos"53. O congresso reivindicou tam-
bm uma representao na Comisso de Mandatos da Sociedade das Naes, a
criao de um Instituto de Estudos do Problema Negro, o restabelecimento ou
o melhor reconhecimento dos direitos dos negros, no conjunto do mundo negro,
e a libertao da Abissnia, do Haiti e da Libria "das garras dos monoplios e
das prticas usurrias dos financistas que dominam o mundo"54. Du Bois foi em
pessoa a Genebra comunicar essas resolues  Sociedade das Naes.
    Talvez em razo das preocupaes que traduziam em relao  Libria, o
presidente Coolidge pediu a Du Bois que representasse os Estados Unidos
nas cerimnias de posse do presidente daquele pas, em 1923. Durante sua
permanncia l, Du Bois (efetuando assim sua primeira viagem  frica) pro-
vavelmente se declarou contrrio  ao em favor da emigrao desenvolvida
por Garvey em nome do pan-africanismo, pois os liberianos rejeitaram pouco
depois o plano da UNIA.
    Apesar das crticas sectrias das quais ele mesmo e a UNIA eram alvo,
Garvey se tornou, de 1916 at cerca de 1935, a figura central de boa parte do
movimento pan-africanista nos Estados Unidos, nas Antilhas e nas fricas
ocidental, oriental, central e, sobretudo, austral. Por volta do fim da Primeira
Guerra Mundial, seu jornal militante, The Negro World, cujo chefe de redao
era Hubert Harrison, um jornalista antilhano que vivia em Nova York, tocou na
ferida das massas negras de Nova York, de toda a Amrica do Norte e da frica.
A mensagem que ele a todos dirigia era a seguinte: "Organizai-vos, comprai
dos negros, dai apoio  Black Star Steamship Line [que podia levar emigrantes
negros para a frica e trazer matrias-primas] e ajudai a expulsar os brancos
da frica". Garvey acentuava:


53    Ibid., 1924, p. 120.
54    Ibid., 1924, p. 121.
A frica e o Novo Mundo                                                            905



     Somos os descendentes de um povo sofrido. Somos os descendentes de um povo
     decidido a no mais sofrer. [...] No queremos o que pertenceu aos outros, embora
     os outros sempre tenham procurado privar-nos daquilo que nos pertencia. [...] As
     outras raas tm seus prprios pases e  tempo de que os 400 milhes de negros
     [do mundo] reivindiquem a frica para si prprios55.
    Se a influncia pan-africanista de Du Bois era mais forte e mais difundida
entre os intelectuais negros que viviam nos Estados Unidos, e a de Washington
entre os agricultores e os artesos, todas as camadas da populao negra, na
frica e alhures, foram igualmente tocadas por Garvey. Este ltimo recebeu boa
parte de sua inspirao pan-africanista do intelectual egpcio Duse Moham-
med Ali, que conheceu em 1912 na Inglaterra, bem como da autobiografia de
Washington, Up From Slavery, que tambm leu em Londres.
    A UNIA de Garvey, criada inicialmente com a ideia de fundar uma escola
de tipo Tuskegee da Jamaica, converteu-se num lao institucional para grande
nmero de africanos e de negros norte-americanos. O peridico que editava,
The Negro World, foi proveitoso para a expanso do pan-africanismo na frica.
De 1920 a 1938 foram realizadas oito convenes da UNIA. As cinco primeiras,
cujo responsvel foi Garvey, foram organizadas em Nova York, em agosto de
cada ano, de 1920 a 1924. As duas seguintes ocorreram na Jamaica, depois de
Garvey ter sido expulso dos Estados Unidos, em 1929 e 1934. A oitava e ltima
decorreu no Canad, em 1938.
    Desde a primeira conveno, Garvey preconizou a criao de escolas espe-
ciais para ministrar ensino tcnico aos negros da frica e das Amricas, o
desenvolvimento "da agricultura, da indstria e do comrcio" para promover o
intercmbio entre negros, o lanamento de navios da companhia Black Star para
facilitar o comrcio e a criao de um jornal dirio "em vrias das grandes cida-
des do mundo", particularmente em Londres, Paris, Berlim, Cidade do Cabo,
Nova York e Washington, bem como na Costa do Ouro e nas Antilhas, "para
criar um movimento de opinio a favor de toda a raa negra". De acordo com
ele, a realizao desse programa permitiria unificar "os povos negros dispersos
pelo mundo, unindo-os no quadro de um nico organismo"56. Para os contem-
porneos, sua mensagem "teve imenso eco na frica" e "de seu pequeno posto
estratgico do Harlem, [Garvey] tornou-se uma figura mundial"57.


55   Apud CRONON, 1962, p. 65.
56   HILL e KILSON, 1971, p. 241.
57   CLARKE, 1964, p. 15.
906                                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



   Em 1917, o intelectual J. E. Casely Hayford, da Costa do Ouro, aproveitou
o mpeto geral imprimido pelo garveysmo para fundar o National Congress of
British West Africa, cuja sesso inaugural se verificou em Acra em maro de
1920. Jamo Kenyatta, por sua vez, recordou que em 1921
      nacionalistas do Qunia, que eram analfabetos, reuniam-se em torno de qualquer
      um que lhes lesse e relesse duas ou trs vezes um artigo de The Negro World [...]
depois corriam para a floresta a repetir meticulosamente tudo quanto tinham
ouvido para africanos vidos de dispor de doutrina prpria que os libertasse da
mentalidade servil a que a frica estava reduzida"58.
    O prprio Garvey escrevia editoriais e longos artigos para The Negro World,
cuja tiragem era de aproximadamente 200 mil exemplares, mas que atingia na
realidade um pblico bem maior.
    Na Niassalndia, a criao de filiais da UNIA encontrou a oposio das
autoridades coloniais e de alguns dirigentes africanos, como Clements Kada-
lie, fundador da Industrial Commercial Workers' Union59. Apesar da oposio
declarada do socialista Kadalie  doutrina de "A frica para os africanos" pre-
gada pela UNIA, Garvey parece ter entrado em contato direto com estudantes
africanos, inclusive com aqueles vindos da Niassalndia, que se encontravam
nos Estados Unidos. Em consequncia, a administrao colonial britnica fez
extenso inqurito sobre a atividade dos estudantes da Niassalndia, como o
futuro dr. D. S. Malekebu, que, na dcada de 1920, cursou medicina no Meharry
Medical College, reservado aos alunos negros. De regresso  frica, Malekebu
foi proibido at de entrar na Niassalndia e teve de passar algum tempo na
Libria. O temor do recrudescimento do esprito revolucionrio que animara
John Chilembwe foi uma das razes que levaram as autoridades coloniais brit-
nicas a proibir "uma viagem  Niassalndia e a outras regies da frica oriental
projetada por Garvey e alguns colaboradores dele nos anos de 1920". Para evitar
que a influncia deste ltimo se exercesse por outras vias como, por exemplo, seu
jornal to prestigiado, ou pelos trabalhadores migrantes regressados da Africa do
Sul60, as autoridades interditaram The Negro World em 1922. Talvez se sentissem
particularmente desafiadas por certos artigos do jornal, como aquele, publi-
cado mais tarde, em que Kamuzu Banda, que acabava de terminar seu curso na



58    JAMES, 1963, p. 396.
59    JOHNS, 1970.
60    Para indicaes sobre as filiais sul-africanas da UNIA, ver The Negro World, 1927.
A frica e o Novo Mundo                                                             907



Universidade de Chicago, era apresentado como "[...] o herdeiro presuntivo da
funo de chefe de 25 mil africanos da Niassalndia [...]61.
   A viva de Garvey, Amy Jacques Garvey, explicou, entretanto, como a influ-
ncia dele se propagara efetivamente pela frica, por caminhos misteriosos:
     Marinheiros e estudantes de outras regies da frica [alm da Libria] conver-
     teram-se  doutrina de Garvey na Inglaterra, na Frana e nos Estados Unidos da
     Amrica. Ao regressarem  ptria, pregaram em segredo o evangelho da unidade
     e da liberdade; alguns se tornaram dirigentes, outros reuniram fiis em torno de si
     pela virtude de seu ensino e de sua f inspirada62.
    A influncia de Garvey tornou-se evidente nas escolas de misso que Azi-
kiwe frequentou. Kwame Nkrumah confessou mais tarde que nenhuma obra
tivera sobre ele uma influncia mais forte, quando estudava nos Estados Unidos,
do que Philosophy and Opinions, de Garvey (1923).
    Enquanto Garvey e Du Bois agitavam politicamente o mundo negro, nas
trs primeiras dcadas do sculo XX, formava-se uma corrente cultural orien-
tada para a frica, que teve larga influncia. O valor da cultura negra foi par-
ticularmente reafirmado com dinamismo na Europa, nas Antilhas e na frica
ocidental, sob o impulso de africanos e de antilhanos francfonos que haviam
sido atrados, enquanto estudantes em Paris, pelos congressos pan-africanistas,
pelos programas da UNIA e pelo entusiasmo geral provocado pelo Renasci-
mento do Harlem.
    Em resumo, a interao de negros francfonos das Antilhas (como o mar-
tiniqus Aim Csaire, cujo clebre poema Cahier d'un retour au pays natal
foi publicado em 1939) e de intelectuais da frica ocidental (como o poeta e
poltico senegals Lopold Sdar Senghor) forjou o movimento da negritude.
Convencidos de que todos os africanos e todos os povos de ascendncia africana
tinham um patrimnio cultural comum, os escritores ligados a esse movimento
esforaram-se para restabelecer laos entre os diversos componentes do mundo
negro.
    A experincia dos negros de ultramar, assim como os textos e o dinamismo
intelectual do Renascimento do Harlem, exerceram forte influncia na noo de
negritude. Por seu lado, o movimento do Harlem nutria-se da crescente identi-
ficao cultural com a frica. Countee Cullen perguntava em um poema:



61   The Negro World, 1932, p. 8.
62   GARVEY, 1969, p. 258.
908                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    "Que  a frica para mim?". Langston Hughes, no poema intitulado "O
negro fala dos rios", evoca como ele construiu sua cabana s margens do Congo e
ali adormeceu63. Um e outro influenciaram profundamente Senghor e os demais
cantores da negritude.
    Foi outro jamaicano  Claude McKay , porm, quem contribuiu com sua
poesia para unificar o pan-africanismo cultural e poltico, insistindo em sua
obra no fato de que os negros deviam tomar conscincia de seus sofrimentos
comuns, protestar contra eles e afirmar sua dignidade. Um de seus poemas  "Se
temos de morrer" , de tom provocante e cuja eloquncia tem grande eficcia,
haveria de ser empregado, sem citao do autor, por Winston Churchill durante
a batalha da Inglaterra. McKay, como Garvey e milhares de estudantes africanos,
fora atrado para os Estados Unidos pela reputao do Instituto Tuskegee, mas
logo foi se juntar aos milhes de negros que viviam em Nova York na dcada
de 1920.
    As relaes entre africanos colonizados e negros norte-americanos encon-
traram, por vezes, expresso simblica na literatura e no pensamento populares.
Vrias comunidades africanas atribuam um papel essencial aos negros norte-
americanos em seus sonhos messinicos de libertao do jugo colonial. Em mea-
dos do sculo XIX, por exemplo, num dos momentos mais sombrios da histria
africana, o do desastroso sacrifcio do rebanho dos Xhosa, muitos africanos
acreditavam que suas terras e seus bens tradicionais, assim como os membros
desaparecidos de suas famlias, lhes seriam devolvidos por negros vindos do
lado de l dos mares. Em 1910, na data da formao da Unio Sul-Africana,
os jornais publicaram artigos sobre um bispo africano chamado Msiqinya, que
pretendia ser um messias negro norte-americano. O tema reapareceu em 1921,
quando Enoch Mjigima, adepto de Garvey e dirigente de um grupo cujos mem-
bros se intitulavam Israelitas Negros, entrou em contato com a Afro-Arnerican
Church of God and Saints of Christ, durante a rebelio de Bulhoek, bem como
na profecia de Wellington, (ver o captulo 27). Mjigima j se correspondia com
Garvey e queria estabelecer uma filial da UNIA na frica do Sul.
    O romance intitulado Prester John (1910) d uma imagem comovente dessa
expectativa de um messias afro-americano. Escrito por um branco, relata uma
formidvel revolta contra os brancos dirigida por um eclesistico africano que
havia estudado no exterior. Ele causou imediata sensao na frica austral. Para
alguns, prefigurava a revolta de Chilembwe, que se deu cinco anos depois na


63    Apud ROLLINS, 1970, p. 19.
A frica e o Novo Mundo                                                              909



Niassalndia. Outro romance, intitulado Bayete!, lanado em 1923, dava uma
imagem dramtica daquilo que seria a influncia afro-americana na frica
austral, fazendo do medo que ela inspirava aos sul-africanos brancos um dos
motores da histria.
   Os temores provocados pelos dois movimentos profticos (Msiqinya e Mji-
gima/Wellington) e pelos dois romances messinicos (Prester John e Bayete!)
foram avivados por dois acontecimentos que pareciam confirm-los: a emer-
gncia do movimento de Garvey e a viagem de James Aggrey  frica austral
com a Comisso Phelps-Stokes. Embora fosse um Fante da Costa do Ouro,
Aggrey foi amplamente entendido como o representante da vanguarda da inva-
so negra anunciada com tanto vigor pelas tradies orais dos africanos, dos
mestios da frica do Sul e dos brancos. Uma narrativa da poca traduzia as
crenas populares:
     Para compreender a entusistica acolhida dispensada a Aggrey no Transkei e o efeito
     de seus discursos sobre tantas mentalidades,  preciso lembrar que l, como de resto
     em todo o continente africano, muitos habitantes esperam que os salvadores venham
     dos Estados Unidos. Imaginaram, portanto, que Aggrey era o arauto de uma tropa
     de invasores negros  pensavam que todos os americanos so negros  que lanariam
     os brancos da frica do Sul ao mar64.
    A vinda de Aggrey parecia concordar com a pretenso de Garvey de reinsta-
lar milhes de negros norte-americanos na frica e de vencer a o colonialismo,
o que despertava antigas esperanas e temores.
    No perodo que vimos estudando, h que registrar no Brasil65 os esforos de
alguns negros brasileiros na luta pela emancipao dos escravos (1888): Lus da
Gama (1830-1885), Andr Rebouas (1838-1898) e Jos do Patrocnio (1853-
-1905). Quanto aos estudos relativos  contribuio africana no Brasil, cumpre
destacar a obra de Manuel Raimundo Querino (1851-1923), que vivia em So
Salvador da Bahia e publicou inmeros trabalhos, entre outros O africano como
colonizador e costumes africanos no Brasil. Solano Trindade (1908-1973)66 incor-
porou as ideias do pan-africanismo e da negritude na poesia brasileira. Vale
ainda salientar a imprensa afro-brasileira, com o lanamento em 1915 do jornal
O Menelick, em So Paulo, e de vrios outros, como o Getulino (1923-1926), de
Campinas, o Clarim da Alvorada (1924-1932), de So Paulo, fundado por Jos


64   SMITH, E., 1929, p. 181.
65   PORTER, 1978; COUCEIRO, 1974; ALVES, 1976.
66   ANDRADE, M., 1959, p. 77-9.
910                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



Correia Leite e Jayme de Aguiar, e, mais tarde, A Voz da Raa (1933-1937), rgo
da Frente Negro-Brasileira, movimento de carter poltico.


      Persistncia e mudanas dos valores culturais
      africanos na Amrica Latina e nas Antilhas
    A presena africana nos pases americanos e no Caribe j foi salientada por
vrios autores67, em funo da porcentagem de descendentes de africanos na
composio total da populao de cada um deles. De acordo com esse critrio,
trs grupos principais se destacam.
    No primeiro grupo, podemos incluir os pases onde a populao negra consti-
tui a maioria.  o caso do Haiti, da Jamaica, de Trinidad e Tobago, de Barbados
etc. No segundo grupo, temos os pases onde a populao de origem africana
 demograficamente insignificante, como  o caso da Argentina, do Chile, do
Uruguai, do Paraguai, da Bolvia etc. E, finalmente, h o terceiro grupo, que
compreende o Brasil e Cuba, onde o negro desempenhou papel muito impor-
tante na economia68, exerceu grande influncia cultural e contribuiu de maneira
decisiva, pela mestiagem, para a formao tnica. Por ltimo, cumpre mencio-
nar pases como a Colmbia, o Panam e a Nicargua, que possuem ncleos
populacionais de origem africana.
    Do ponto de vista demogrfico, convm verificar meticulosamente a com-
posio populacional de cada pas, considerando os trs principais grupos: o
de origem africana, o de origem europeia e, finalmente, o de origem local  os
"amerndios" , bem como a persistncia demogrfica da cada um deles como
resultado dos cruzamentos de raas entre vrios grupos, segundo os casos.
    A distribuio de cada grupo segundo a escala da estrutura social, indepen-
dentemente de indicadores como a escolarizao, completa o quadro de base e
permite analisar a evoluo da situao da populao de origem africana. Este
esquema foi utilizado por Octavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso69 no
estudo do processo de integrao do antigo escravo no mercado de mo de obra
livre e, mais tarde, de sua incorporao  economia urbana.
    Este tipo de anlise permite avaliar o grau de integrao da populao de
origem africana nas economias e nas sociedades sul-americanas. Mas a anlise,

67    ROUT, 1976.
68    RODRIGUES, J. H., 1964, vol 1, p. 51.
69    IANNI, 1962; CARDOSO, 1962.
A frica e o Novo Mundo                                                        911



em si mesma, deixa de lado o prestgio permanente dos valores culturais afri-
canos no Novo Mundo, a menos que se parta do princpio segundo o qual essa
persistncia s poderia ser medida mediante um critrio racial ou se considere
que essa varivel no  importante.
    Duas escolas de pensamento se contradizem sobre a questo. A posio de
M. J. Herskovits70 sobre a "reinterpretao" da cultura africana atravs da per-
sistncia de certos segmentos culturais provocou a reao do socilogo negro
norte-americano E. Franklin Frazier71, que chamou a ateno para o problema
da integrao na sociedade global. Segundo este autor, a teoria de Herskovits
poderia induzir  concluso de que a persistncia dos valores culturais africa-
nos vem reforar a tese das correntes racistas, de acordo com a qual o negro 
inassimilvel. No caso dos Estados Unidos, em razo de diversos fatores  entre
outros a ao das igrejas protestantes , o antigo escravo perdeu a maior parte
dos valores culturais tradicionais de origem africana e se integrou na cultura
anglo-saxnica.
    Por fim, h que mencionar dois outros grupos de pases. O primeiro  cons-
titudo de naes como a Colmbia, o Panam, a Nicargua etc., que contm
pequenos ncleos de populao de origem africana. O segundo grupo  for-
mado por pases com ncleos de origem africana que no se acham integrados
no Novo Mundo, como o Suriname, onde encontramos os Boni, os Djuta, os
Saramaca e os Akwa, bem como a Jamaica, a Repblica Dominicana e mesmo
o Haiti e Cuba, ptria dos negros quilombolas. Vivendo na floresta, os grupos
do Suriname e da Guiana Francesa conservaram mais ou menos integralmente
seus valores culturais e uma certa organizao social. Os quilombolas constitu-
am outrora comunidades de escravos fugidos, que se refugiaram nas montanhas
desses pases, cortando todo contato com os colonizadores. Boa parte dessas
comunidades conseguiu manter-se isolada. Mais tarde, no Suriname, na Guiana
Francesa e, em certa medida, na Jamaica, continuaram a viver separadas da que
se poderia chamar de "comunidade nacional".
    O paralelo proposto entre a Amrica do Norte, a Amrica do Sul e as Anti-
lhas, a propsito da presena africana e, especialmente, dos valores culturais
africanos, no  conclusivo. Trata-se de realidades bem diferentes, visto que a
"integrao" dos antigos escravos se fez de maneira diferente nas diversas regies
e apresenta variaes de pas para pas.


70   HERSKOVITS, M. J., 1941, 1948, 1966a, 1966b, 1966c.
71   FRAZIER, 1949.
912                                                      frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Do ponto de vista cultural, enquanto nos Estados Unidos a converso 
religio protestante levou ao abandono das tradies culturais e  criao de
um novo universo mental, na Amrica Latina e nas Antilhas, os valores cultu-
rais africanos perduraram, em grau varivel, ou passaram por um processo de
mudana.
    Metodologicamente, convm distinguir duas formas de presena: a presena
cultural da frica e a presena negra no sentido fsico. De acordo com a situao
e o tipo de processo colonial adotado, teremos de tratar de uma ou de outra, ou
das duas simultaneamente.
    O problema das diferenas de cor coloca-se de outra forma. Segundo Roger
Bastide,
      que a linha das cores esteja institucionalizada como nos Estados Unidos ou no, o
      resultado  o mesmo. Os negros vivem ou tendem a viver num mundo separado.
      Sentem-se `diferentes' dos outros e so forados  ou preferem (o que pouco importa,
      do ponto de vista das consequncias)  `ser o que so'72.
    A anlise histrica permite observar que, ao longo dos anos, a dicotomia
entre "cultura africana" e "cultura negra", resultante de uma srie de transfor-
maes sociais, no se acentuou. Houve, antes, mudanas culturais em diversos
graus, de acordo com cada situao concreta. No Haiti, onde a populao negra
constitui a maioria, a religio de tipo africano foi influenciada pela estrutura
da sociedade haitiana e pelo papel dos mestios, passando por uma srie de
mudanas provocadas por "deuses" novos ou adaptados  nova situao. Nas
ilhas vizinhas, devido  ao missionria do protestantismo, manifestou-se uma
"cultura negra" atravs de diversos movimentos, como o do ras Tafari (corrente
messinica de reao contra o dominador branco, que recorria quase direta-
mente s imagens religiosas africanas e da qual o messias era Hail Selassi).
Por outro lado, na Jamaica, com o culto de Sasabonsam, de origem Ashanti,
certos elementos da "cultura africana" persistiram durante esse perodo histrico,
para mais tarde desaparecerem, dando lugar a cultos espiritistas, baseados em
boa parte na magia, como foi o caso, em 1894, da Jamaica Free Church, seita
fundada por Bedward.
    Nas regies do continente americano onde predominava o catolicismo, sur-
giu uma forma de sincretismo fundado na coexistncia de valores culturais
europeus e africanos. Num tal contexto, ser catlico no implicava mudanas
radicais, como ocorria nos casos em que predominava o protestantismo.

72    BASTIDE, 1967, p. 199.
A frica e o Novo Mundo                                                                   913




figura 29.5   Influncia religiosa dos Yoruba na Bahia, Brasil. (Fotos: Pierre Verger.)
914                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Esse sincretismo caracteriza-se pela utilizao das datas das festas e dos
santos catlicos, juntamente com o recurso aos orixs e ao vodu. Assim, as festas
das divindades correspondem s datas dos santos catlicos. Roger Bastide afirma
que o sincretismo no passa de mscara branca aposta sobre os deuses negros. Os
valores das duas religies se interpenetram em graus diferentes. No Brasil, por
exemplo (ver figs. 29.5), alguns sacramentos do catolicismo, como o batismo, so
retomados no s no sentido do ritual, mas tambm para reforar ou fortalecer o
indivduo. Essa aculturao dos valores de origem europeia marca at as formas
mais prximas das origens africanas, como o candombl, a macumba e outras
designaes; algumas delas se aproximam da magia ou se caracterizam por ela.
No caso da macumba, h que levar em conta a presena de valores amerndios,
e a aculturao se reveste no caso de uma tripla dimenso.
     possvel encontrar exemplos de sincretismo com a cultura amerndia nas
ndias Ocidentais, principalmente em Honduras, onde surgiu um povo mestio
de cruzamentos de mulheres amerndias com africanos, conhecido como Carabas
negros73. Esses africanos descendiam dos Igbo, dos Efik e, mais tarde, dos Fante,
Ashanti, Fon e Congo.
    As "sociedades africanas" foram se transformando pouco a pouco em "socie-
dades negras", cujos laos com a frica variam de caso para caso. Esto mais
ou menos integradas socialmente, no sentido da conquista de uma cidadania
plena.
    Do ponto de vista social, a integrao se d em funo das seguintes vari-
veis: o tipo da sociedade dos colonizadores brancos; a forma de explorao da
terra; a religio do colonizador, protestante ou catlica; a porcentagem mais ou
menos importante da populao amerndia; e o grau de integrao no processo
econmico imposto pelo regime do colonizador, quer durante o perodo colo-
nial propriamente dito, quer depois de obtida a independncia pelos pases do
continente americano.
    As formas de resistncia j verificadas durante o perodo colonial, quando
se formaram ncleos de escravos fugidos que tentavam viver  margem do
sistema imposto pelo colonizador, manifestaram-se no final do sculo XVIII e
incluam mulatos. Esses grupos tendiam a manter e defender os valores tpicos
das sociedades africanas. O isolamento ou a integrao desses "isolados", em
relao  sociedade nacional, variou no sculo XIX em funo do grau de desen-
volvimento do pas a que pertenciam e da evoluo do sistema socioeconmico;


73    COELHO, R., 1964.
A frica e o Novo Mundo                                                        915



passou-se de um mundo caracterizado pelos valores rurais de uma economia de
plantations, fazendas e engenhos de acar para formas mais prximas do tipo
de economia existente no final do sculo XIX e comeo do atual.
     A integrao do negro na sociedade rural variou em funo das necessidades
da agricultura, da falta ou da disponibilidade de mo de obra, da importncia dos
contingentes migratrios provenientes da Europa  alguns desses contingentes
vieram especificamente com o objetivo de se integrar no sistema de trabalho.
Foi o que se passou no Brasil com a cultura do caf. Essa integrao se revela de
vrias maneiras, englobando os cantos dos grupos religiosos de Cuba e do Bra-
sil, o ritmo dos instrumentos74 que foram efetivamente incorporados  cultura
musical, a arte culinria, o emprego de certas tcnicas, como, por exemplo, no
Haiti, o uso de utenslios agrcolas como a enxada etc., a transmisso de valores
de natureza religiosa e de filosofia de vida. Malgrado a ruptura provocada pela
escravido, a cultura africana resistiu e at criou uma nova cultura.


     Concluso
   Quais foram os efeitos dos contatos entre africanos colonizados e negros
norte-americanos? De incio, somente a populao africana de certas regies
entrou em interao com negros dos Estados Unidos e das Antilhas. Nos pri-
mrdios do perodo em estudo, tais regies eram as que se tornaram lugares
privilegiados de imigrao ou de esforos de evangelizao dos negros norte-
americanos, quer dizer, principalmente a frica ocidental, a frica do Sul e o
Chifre. Os povos das outras regies tambm entraram pouco a pouco em con-
tato, devido  progressiva penetrao dos projetos pan-africanistas, dos escritos
e do folclore dos negros norte-americanos etc., ou  o que teve um papel ainda
mais importante  de iniciativas de jovens africanos de todo o continente que,
em nmero crescente, iam cursar escolas superiores nos Estados Unidos da
Amrica.
   A interao direta e profunda que os africanos tiveram em determinado meio
negro e as influncias que nele receberam (ver fig. 29.6) sem dvida modificaram
suas perspectivas e as dos afro-arnericanos, embora seja difcil avaliar a extenso
disso. Mas os contatos que os africanos colonizados tiveram com os negros
norte-americanos parecem, no entanto, ter marcado fortemente suas futuras ati-
vidades sociais e polticas. Segundo algumas opinies, as ideologias e as estrat-

74   ORTIZ, 1950.
916                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



gias que os nacionalistas africanos elaboraram durante o perodo colonial foram
claramente inspiradas em elementos extrados dos negros norte-americanos.
Segundo outras, de alguns estudiosos africanos por exemplo, os contatos com
os meios negros norte-americanos foram decepcionantes e estreis, como se v
por este custico testemunho:
      Uma das questes que me decidira a elucidar durante minha permanncia nos Esta-
      dos Unidos era a condio dos descendentes de antigos escravos levados da frica
      para l. [...] Creio poder afirmar sem receio de contradita que os negros dos Estados
      Unidos, em mdia, avanaram mais depressa do que os da frica ocidental no plano
      do progresso econmico e material, mas esto muito atrs deles no que se refere 
      integridade e s qualidades que fazem o verdadeiro homem75.
    Outras opinies, ainda, so de que muitos missionrios afro-americanos que
consideravam os africanos "pobres selvagens pagos" so em parte responsveis
pela persistncia entre os negros dos Estados Unidos de uma imagem deformada
e negativa da frica e dos africanos. Por outras palavras, as Igrejas missionrias,
lanando-se com ardor ao recrutamento de negros norte-americanos para suas
misses estrangeiras, no h dvida de que por vezes sucumbiram  tentao
de pintar uma frica extica, ertica e socialmente inferior, cuja salvao exigia
grandes sacrifcios, trabalho duro e ajuda estrangeira.
    De um ponto de vista pan-africanista mais geral, parece certo, no entanto,
que os contatos entre africanos colonizados e negros norte-americanos amplia-
ram os horizontes polticos e ideolgicos dos africanos e aumentaram sua com-
petncia tcnica. Os planos de emigrao negra anunciados com estardalhao
por Garvey, cujas publicaes penetraram at o corao da frica, foram apenas
um leitmotiv graas ao qual os povos africanos tomaram conscincia da existn-
cia dos negros dos Estados Unidos. O tema da redeno da frica foi agitado
com idntica energia por missionrios negros norte-americanos.
    Mas foram os prprios africanos, depois disso, que tomaram a iniciativa
de entrar em contato com os negros norte-americanos, matriculando-se em
estabelecimentos de ensino que acolhiam sobretudo afro-americanos, partici-
pando de conferncias pan-africanas etc. Em consequncia, muitos africanos
descobriram concepes tcnicas, pedaggicas e polticas diferentes das que
lhes proporcionava seu mundo colonizado. Ao regressarem  terra natal, muitos
deles  inspirados nas novas ideias que lhes tinham sido reveladas  acharam
que tinham o dever de procurar soluo para os problemas de ideologia, de

75    ANI-OKOKON, 1927, p. 10.
A frica e o Novo Mundo                                                                          917




figura 29.6 Mesquita central de Lagos, um exemplo da influncia brasileira na arquitetura da Nigria.
(Foto: Alan Hutchinson Library, Londres.)



identidade cultural, de valores pedaggicos, de poder poltico e de unidade ou
de conscincia pan-africana.
    Nesse contexto histrico, as numerosas conferncias pan-africanistas, os pro-
jetos de ensino geral e tcnico do Instituto Tuskegee, o movimento da negritude
e o lugar central dado por vezes aos negros do ultramar nos sonhos milenaristas
dos africanos provam a constncia do tema pan-africano entre os negros dos
Estados Unidos e das Antilhas, mostrando, ao mesmo tempo, que as respostas
africanas s aberturas do Novo Mundo foram variadas e que os prprios africa-
nos acabaram por definir tais aberturas, de forma a adapt-las s suas exigncias
particulares.
918                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Em resumo, duas concepes inspiraram as populaes da dispora africana
e as numerosas interaes entre habitantes dos dois mundos negros. A primeira
visava a unio das foras religiosas das populaes negras da frica e dos Esta-
dos Unidos, ou a reconstruo da frica, levando para ela, por iniciativa dos
negros norte-americanos, tcnicos negros dos Estados Unidos e das Antilhas.
A segunda, que refletia a evoluo dos africanos do estado de predicados para
o de sujeitos, durante o perodo colonial, visava a redeno espiritual, a recons-
truo social e a reforma poltica das coletividades africanas, graas ao repa-
triamento dos africanos e  mobilizao dos recursos africanos. Sob a influncia
desta concepo, africanos foram estudar em escolas norte-americanas ou foram
enviados aos Estados Unidos para participar em atividades tcnicas e comerciais,
enquanto outros foram afetados pelas publicaes dos negros norte-americanos
ou pelas aes anticolonialistas organizadas pelos da dispora. Esta segunda
concepo no parece rejeitar o idealismo que a primeira implica, mas antes o
justifica e o reorienta dentro de uma perspectiva africana.
O colonialismo na frica: impacto e significao                          919



                                        CAPTULO 30


                      O colonialismo na frica:
                       impacto e significao
                                         Albert Adu Boahen




    Em 1935, conforme vimos nos primeiros captulos deste volume, o colonia-
lismo sufocava a frica com seu torniquete. Parecia ter vindo para ficar para
sempre. No entanto, revelou-se to efmero como todos os empreendimentos
baseados na fora. No espao de cerca de quarenta e cinco anos, a partir daquele
ano, mais de 90% do territrio africano havia se libertado do colonialismo, que se
mantinha somente ao sul do Limpopo. Na verdade, o colonialismo perdurou em
toda a frica pouco menos de cem anos: desde a dcada de 1880 at a de 1960.
Na histria de um povo e de um continente, esse perodo  mais do que breve.
Como e por que foi possvel erradicar o colonialismo, o que representa uma ver-
dadeira faanha? Ou  citando Margery Perham  por que "uma emancipao to
espantosamente rpida de 1950 em diante"1? A resposta a tais questes constitui
dois dos principais temas do ltimo volume desta Histria Geral da frica.
    Neste captulo, que encerra o presente volume, seria o caso de levantar duas
questes essenciais. Em primeiro lugar, que herana o colonialismo legou 
frica, ou, ainda, qual foi seu impacto sobre ela? Em segundo lugar, qual ,
em vista de tal impacto ou balano geral, a significao do colonialismo para
a frica? Constitui um episdio revolucionrio ou essencial da histria desse
continente? Trata-se de uma ruptura total com seu passado ou, finalmente, de


1    PERHAM, 1961, p. 24.
920                                                        frica sob dominao colonial, 1880-1935



um acontecimento simplesmente transitrio? Ou, ainda, para retomar os termos
da questo colocada por L. H. Gann e Peter Duignan, "que lugar ocupa a era
colonial dentro do vasto contexto da histria africana?"2


      O impacto do colonialismo
   Talvez no haja tema to controverso como o da influncia do colonialismo
sobre a frica. Para alguns africanistas como L. H. Gann, Peter Duignan, Mar-
gery Perham e P. C. Lloyd, de modo geral sua influncia foi benfica e, na pior
das hipteses, no prejudicial para a frica.
   Lloyd, por exemplo, no hesita em afirmar o carter positivo da influncia
colonial:
       fcil questionar hoje a lentido do desenvolvimento econmico durante os cin-
      quenta anos de dominao colonial. No obstante, a diferena entre a condio da
      sociedade africana do final do sculo XIX e a do final da Segunda Guerra Mundial
       espantosa. As potncias coloniais proporcionaram toda a infraestrutura da qual
      dependeu o progresso na poca da independncia: aparelho administrativo, alis
      eficiente, que alcanava as aldeias mais remotas, uma rede de estradas, de ferrovias
      e de servios bsicos em matria de sade e de educao. As exportaes de mat-
      rias-primas trouxeram considervel riqueza aos povos da frica ocidental3.
      Em suas conferncias de Reith, Margery Perham tambm afirmou que
      os crticos do colonialismo esto principalmente interessados no presente e no futuro
      imediatos, mas h que lembrar que nosso imprio em vias de extino deixou atrs
      de si uma vasta herana histrica, carregada de legados positivos, negativos e neutros.
      Nem ns nem eles deveramos omitir esta verdade4.
    interessante notar que D. K. Fieldhouse, outro historiador ingls, chegou
 mesma concluso ,em uma obra recentssima (1981):
      Parece ento que o colonialismo no merece os elogios nem as maldies que comu-
      mente lhe lanam, pois que, se fez relativamente pouco para superar as causas da




2     "Epilogue", in GANN e DUIGNAN, 1970, p. 526.
3     LLOYD, 1972, p. 80-1.
4     PERHAM, 1961, p. 24.
O colonialismo na frica: impacto e significao                                 921



    pobreza nas colnias, no foi ele quem criou essa pobreza. O imprio teve impor-
    tantssimos efeitos econmicos, alguns bons, outros maus [...]5.
    Finalmente, Gann e Duignan, que praticamente se consagraram  defesa do
colonialismo na frica, concluam em 1968 que "o sistema imperial  um dos
mais poderosos agentes de difuso cultural da histria da frica; o crdito, aqui,
sobrepassa muito a conta do dbito6". E, em sua introduo ao primeiro dos
cinco volumes recentemente completados da obra que publicaram em comum,
Colonialism in Africa, concluem mais uma vez: "No partilhamos a to genera-
lizada opinio que assemelha o colonialismo  explorao. Consequentemente,
interpretamos o imperialismo europeu na frica quer como um agente de trans-
formao cultural quer como instrumento de dominao poltica"7.
    Outros autores  essencialmente especialistas africanos, negros e marxistas
e, sobretudo, os tericos do desenvolvimento e do subdesenvolvimento  ale-
gam que o efeito positivo do colonialismo na frica foi praticamente nulo. O
historiador guians negro Walter Rodney adotou uma posio particularmente
extremada. Diz ele:
     costume dizer que de um lado havia explorao e opresso, mas que, de outro
    lado, os governos coloniais fizeram muito pelos africanos e contriburam para o
    desenvolvimento da frica. Para ns, isso  completamente falso. O colonialismo
    s tem um aspecto, um brao:  um bandido maneta8.
   Tais so os dois principais argumentos contraditrios sobre o colonialismo na
frica. Mas os fatos nos indicam a necessidade de uma proposta mais equilibrada,
o que tentaremos fazer. Como se ver, o impacto do colonialismo tanto  positivo
como negativo. No entanto, h que salientar desde o incio que a maior parte
dos efeitos positivos no  de origem intencional: trata-se antes de consequncias
acidentais ou de medidas destinadas a defender os interesses dos colonizadores,
como M. H. Y. Kaniki e A. E. Afigbo salientaram nos captulos 16 e 19, ou
resultantes de mudanas inerentes ao sistema colonial em si, ou ainda  para reto-
mar a expresso de Ali Mazrui  os efeitos positivos do colonialismo so efeitos
"por erro, pela lei de ferro das consequncias indesejadas"9. Do lado negativo, h
ainda que assinalar ter havido razes, boas, ms ou indiferentes, pelas quais certas

5    FIELDHOUSE, 1981, p. 105.
6    GANN e DUIGNAN, 1967, p. 382.
7    "Introduction" in GANN e DUIGNAN, 1969, p. 22-3.
8    RODNEY, 1972, p. 223.
9    MAZRUI, 1980, p. 41.
922                                                           frica sob dominao colonial, 1880-1935



coisas no se realizaram; pelas quais, por exemplo  como Fieldhouse procurou
demonstrar , se recorreu ao trabalho forado, no se desenvolveu a indstria,
no se diversificou a agricultura nem se criaram servios mdicos adequados10.
Comearemos assim examinando qual  a herana poltica do colonialismo, pri-
meiro em sua dimenso positiva e, depois, em seus aspectos negativos.

      Impacto no plano poltico
    O primeiro impacto poltico positivo foi a instaurao de um grau maior
de paz e de estabilidade na frica. Como vimos, o sculo XIX foi o sculo
do Mfecane, das atividades dos mercadores swahili-rabes e nyamwezi, como
Tippu Tip e Msiri nas fricas central e meridional, das djihds, da ascenso
dos imprios Tukulor e Mandinga no Sudo ocidental, da desintegrao dos
imprios Oyo e Ashanti na frica ocidental, todos poderosos fatores de insta-
bilidade e de insegurana. Ora, nessa poca, a situao na Europa no era muito
melhor. Foi a poca das guerras napolenicas, das revolues "intelectuais", das
guerras de unificao alem e italiana, dos levantes da Polnia e da Hungria e
das rivalidades imperiais que desembocaram na Primeira Guerra Mundial. Na
frica, as duas ou trs primeiras dcadas da era colonial (1880-1910, mais ou
menos) aumentaram esse estado de instabilidade, de violncia e de desordem e,
conforme demonstrou J. C. Caldwell, provocaram vastas e imperdoveis destrui-
es, bem como sensvel queda da populao: o nmero de habitantes do Congo
Belga reduziu-se  metade nos primeiros quarenta anos da dominao colonial,
o dos Herero diminuiu quatro quintos, o dos Namo 50% e o da Lbia caiu cerca
de 750 mil11. Mas nem as escolas marxistas e anticolonialistas ousariam negar o
fato de que, aps a ocupao colonial e a implantao dos vrios aparatos admi-
nistrativos, as guerras de expanso e de libertao acabaram e a maior parte das
regies da frica, sobretudo aps a Primeira Guerra Mundial, pde gozar de paz
e de segurana. As condies eram inteiramente positivas, j que facilitavam as
atividades econmicas normais, bem como a mobilidade social e fsica em cada
colnia. E isso, por sua vez, acelerou enormemente o ritmo da modernizao,
graas  difuso de ideias, de tcnicas, de modas e de gostos novos.
    O segundo impacto positivo do colonialismo foi a prpria criao (no nvel
geopoltico) dos modernos Estados independentes da frica. A partilha e a
conquista coloniais, como A. E. Afigbo mostrou no captulo 19, reformularam


10    FIELDHOUSE, 1981, p. 67-8, 71-4, 88-92.
11    DAVIDSON, B., 1964b, p. 37; 1978b, p. 150; WRIGHT, 1982, p. 42.
O colonialismo na frica: impacto e significao                                923



de modo revolucionrio a face poltica da frica. Em vez das centenas de cls, de
grupos de linhagem, de cidades-Estado, de reinos e de imprios, sem fronteiras
nitidamente delimitadas, temos hoje cerca de cinquenta novos Estados de tra-
os geralmente fixos;  bastante significativo que as fronteiras dos Estados, tais
como foram estabelecidas durante o perodo colonial, no se tenham modificado
depois da independncia.
    Em terceiro lugar, o sistema colonial tambm introduziu em quase todas
as partes da frica duas novas instituies que a independncia no eliminou:
um novo sistema judicirio e uma nova burocracia (ou administrao). No h
a menor dvida de que, em quase todos os Estados independentes da Africa
(exceto os muulmanos), as altas cortes de justia introduzidas pelas autoridades
coloniais foram mantidas e, nas antigas colnias britnicas, no s na forma
(conservaram at as perucas e as togas, apesar do clima) como tambm no
contedo e na tica.
    As estruturas estabelecidas pouco a pouco (ainda que em muitos casos tar-
diamente) pela administrao das colnias provocaram o aparecimento de uma
classe de funcionrios cujo nmero e influncia s fizeram aumentar com os
anos. A importncia dessa herana varia de um sistema colonial para outro. 
certo que os britnicos legaram s suas colnias uma burocracia mais bem for-
mada, mais numerosa e mais experimentada do que os franceses; os belgas e os
portugueses foram os piores nesse aspecto.
    O ltimo impacto positivo do colonialismo foi o nascimento no s de
um novo tipo de nacionalismo africano, mas tambm do pan-africanismo. O
primeiro, como vimos, representou o desenvolvimento de certo grau de iden-
tidade e de conscincia entre as classes ou grupos tnicos que habitavam cada
um dos novos Estados ou, tal como nas colnias da frica Ocidental Francesa,
conjuntos de Estados; o segundo nos remete ao sentimento de identidade dos
negros como tais. Os agentes da constituio do nacionalismo foram, conforme
demonstrou B. O. Oloruntimehin no captulo 22, diversos movimentos, partidos
polticos, ligas e associaes de juventude, seitas religiosas e jornais; os agentes
do pan-africanismo foram os diversos congressos pan-africanistas que R. D.
Ralston estudou no captulo anterior. Mas, por importante que seja esse legado,
trata-se mais de um exemplo tpico de consequncia acidental do que de uma
criao deliberada. Nenhuma autoridade colonial sonhou jamais em criar ou
cultivar o nacionalismo africano.
    Mas, se os efeitos positivos do colonialismo so inegveis, seus aspectos
negativos so ainda mais marcantes. Em primeiro lugar, o desenvolvimento
do nacionalismo, no obstante toda a sua importncia, no foi somente uma
924                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



consequncia acidental da colonizao: antes de ser resultado de um sentimento
positivo de identidade, de compromisso ou de lealdade para com o novo Estado
Nacional, ele se animou por um sentimento de clera, de frustrao e de humi-
lhao suscitado por certas medidas de opresso, de discriminao e de explo-
rao introduzidas pelas autoridades coloniais. Com a reverso do colonialismo,
tal sentimento perdeu efetivamente sua fora e os novos dirigentes dos Estados
africanos independentes se viram diante de um problema: como transformar
essa reao negativa em nacionalismo positivo e duradouro?
    Em segundo lugar, mesmo admitindo que a estrutura geopoltica criada
tenha sido um xito (mais uma vez acidental), h de se convir que ela mais
levanta do que resolve problemas. Certamente, como o demonstraram G. N.
Uzoigwe e A. E. Afigbo (captulos 2 e 19), as fronteiras dos novos Estados no
so to arbitrrias como geralmente se acredita. No haja porm dvidas de que
muitos desses Estados foram criaes artificiais e de que essa artificialidade colo-
cou alguns problemas para pesarem fortemente sobre o desenvolvimento futuro
do continente. O primeiro  o seguinte: certas fronteiras dividem grupos tnicos
j existentes e retalham Estados e reinos, o que provoca perturbaes sociais e
deslocamentos. Por exemplo, os Bakongo esto divididos pelas fronteiras de
Angola, Congo Belga (atual Zaire), Congo francs (atual Repblica Popular do
Congo) e Gabo. Hoje em dia, parte dos Ewe vive em Gana, outra no Togo e
outra, ainda, no Daom (atual Benin); os Somali esto espalhados pela Etipia,
Qunia, Somlia e Djibouti; os Senufo encontram-se no Mali, na Costa do
Marfim e no Alto Volta. Estes exemplos poderiam ser multiplicados. Uma das
consequncias importantes desta situao so as crnicas questes fronteirias
a prejudicar as relaes de alguns Estados africanos independentes (Sudo/
Uganda, Somlia/Etipia, Qunia/Somlia, Gana/Togo, Nigria/Camares).
Em segundo lugar, dada a natureza arbitrria dessas fronteiras, cada Estado
Nacional  constitudo por uma miscelnea de povos de cultura, tradies e
lngua diferentes. Os problemas que essa mescla levanta para a edificao de
uma nao no se tm mostrado fceis de solucionar.
    O carter artificial e arbitrrio das divises coloniais teve ainda outra conse-
quncia: os Estados que surgiram tm superfcies diferentes, recursos naturais
e possibilidades econmicas desiguais. Enquanto algumas naes resultantes
da partilha so gigantes, como o Sudo, a Nigria e a Arglia, outras so ans,
como Gmbia, Lesotho, Togo e Burundi. Enquanto o Sudo e o Zaire tm
superfcies de, respectivamente, 2,5 e 2,35 milhes de quilmetros quadrados,
as da Zmbia, Lesotho e Burundi so de 10350, 29200 e 27800 quilmetros
quadrados. Infelizmente,  maior o nmero de pequenos e de mdios do que
O colonialismo na frica: impacto e significao                              925



de grandes Estados12. Por outro lado  o que  ainda mais grave , alguns tm
imensas faixas litorneas, mas outros, como o Mali, Alto Volta, Nger, Chade,
Zmbia, Uganda, Malavi, no possuem acesso direto ao mar. Finalmente, alguns
Estados so muito ricos em recursos naturais, como Gana, Zmbia,Zaire, Costa
do Marfim e Nigria, mas outros foram modestamente aquinhoados, como o
Chade, Nger e Alto Volta. E se alguns s tm uma fronteira para vigiar, como
Gmbia, outros tm quatro e at mais, como o Zaire, que tem dez. Isso cria
graves problemas de segurana nacional e de controle do contrabando. So fceis
de imaginar os problemas de desenvolvimento que suscitam a falta ou a limi-
tao de recursos naturais, de terras frteis ou de acesso ao mar para os pases
africanos que receberam essa malfadada herana.
    Cumpre mencionar outro aspecto importante, mas negativo, do choque do
colonialismo: o enfraquecimento dos sistemas de governo indgenas. Em pri-
meiro lugar, conforme S. Abubakar salientou recentemente, e como foi demons-
trado pela maior parte dos captulos do presente volume, quase todos os Estados
africanos foram criados em seguida a conquistas e aps a deposio ou o exlio
dos dirigentes indgenas, o que "certamente lanou em descrdito os sobados
em geral, sobretudo no perodo que antecedeu a Primeira Guerra Mundial"13.
Certas potncias coloniais, como a Frana, como j vimos, tambm aboliram
vrias monarquias tradicionais, depuseram certas famlias reinantes e nomea-
ram para sobas pessoas que no tinham o menor direito  funo, para delas
fazer funcionrios a servio das autoridades coloniais. Quanto aos britnicos
e aos belgas, conservaram os dirigentes tradicionais e suas instituies e at,
como demonstrou R. F. Betts no captulo 13, criaram algumas onde elas no
existiam e procuraram administrar as colnias por seu intermdio. No entanto,
os funcionrios coloniais instalados localmente assumiam junto desses chefes
tradicionais o papel de ditadores e no de conselheiros, utilizando-os ainda para
aplicar algumas medidas consideradas odiosas pelos sditos, como o trabalho
forado, os impostos diretos e o recrutamento obrigatrio de homens para os
exrcitos coloniais.
    Os anais coloniais, conforme revelam pesquisas recentes sobre a poltica rural
nos anos entre guerras em Gana14, esto repletos de menes a revoltas e rebelies
de jovens contra seus chefes e at de destituio destes. Alm disso, o sistema
colonial de administrao da justia, em que os sditos podiam apelar para os

12   MAZRUI, 1980, p. 90.
13   ABUBAKAR, 1980, p. 451.
14   JENKINS, 1975.
926                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



tribunais coloniais, enfraquecia no s as autoridades como tambm os recursos
financeiros dos dirigentes tradicionais15. Finalmente, a difuso do cristianismo
acabou por minar os fundamentos espirituais da autoridade dos rgulos. Em todo
caso, o sistema colonial, na defesa de seus interesses, tanto enfraquecia ou esma-
gava os chefes coloniais como se aliava a eles e os utilizava. Nas duas hipteses,
contudo, o sistema colonial diminua, afinal de contas, a autoridade deles.
    Outro impacto negativo do colonialismo, do ponto de vista poltico, foi a
mentalidade que criou entre os africanos, segundo a qual a propriedade pblica
no pertencia ao povo, mas s autoridades coloniais brancas, podendo e devendo
estas assim tirar proveito dela em todas as oportunidades. Essa mentalidade est
perfeitamente expressa nestes ditados de Gana: Oburoni ade see a, egu po mu, ou
aban wotwuu no adze wonnsua, o que quer dizer, mais ou menos:
    "Se os bens do homem branco forem danificados, o mais simples  atir-los
ao mar" e "O governo deve ser lanado na lama e no elevado". Os dois ditados
implicam que ningum deve se importar com o que acontece com a propriedade
pblica. Essa mentalidade era o produto direto da natureza distante e secreta
da administrao colonial e da eliminao da esmagadora maioria dos africanos
"cultos" ou no dos processos de tomada de deciso.  importante observar que
tal mentalidade ainda subsiste entre a maior parte dos africanos, aps dcadas
de independncia, explicando em parte a indiferena com que a propriedade
pblica  tratada em muitos pases africanos independentes.
    Puro produto do colonialismo, ignorado pela maior parte dos historiadores,
mas que se revelou de uma importncia decisiva e crucial,   como o demons-
trou muito bem o estudo de R. F. Betts (captulo 13)  a existncia de um
exrcito permanente em expediente completo. J ficou amplamente comprovado
que a maior parte dos Estados africanos ao sul do Saara no tinha exrcito
permanente. Em toda a frica ocidental, s o Daom (atual Benin) o possua,
com um "regimento feminino", as clebres Amazonas. Na maior parte dos casos,
no havia dicotomia entre civis e militares. Pelo contrrio: todos os adultos do
sexo masculino, inclusive os membros da aristocracia dominante, eram soldados
em tempo de guerra e civis em tempo de paz. Portanto, uma das instituies
mais inovadoras que o colonialismo introduziu em cada regio foi o exrcito
profissional. Na origem, os exrcitos foram criados essencialmente nas dcadas
de 1880 e 1890, para a conquista e a ocupao da frica, e, depois, serviram
para manter a dominao colonial, para dar andamento a guerras mais vastas e


15    ADOO-FENING, 1980, p. 509-15.
O colonialismo na frica: impacto e significao                              927



para esmagar os movimentos de independncia africanos. Aps a derrocada do
sistema colonial, eles no foram dispersos, mas recuperados pelos novos chefes
africanos independentes, para afinal se revelarem o mais problemtico legado do
colonialismo. Como o reconheceu W. Gutteridge, as foras armadas "tm agido
a longo prazo contra a estabilidade das ex-colnias"16. Na verdade  como se ver
no volume VIII desta obra , por suas repetidas e muitas vezes injustificveis
e suprfluas intervenes na poltica dos Estados africanos independentes, os
exrcitos se tornaram um verdadeiro grilho que os governos e os povos afri-
canos tm de suportar.
    O ltimo impacto negativo do colonialismo, provavelmente o mais impor-
tante, foi a perda da soberania e da independncia e, com ela, do direito dos
africanos a dirigir seu prprio destino ou a tratar diretamente com o mundo
exterior. Desde os sculos XVI e XVII, Estados como o Daom (atual Benin)
e Congo enviavam embaixadas e misses s cortes dos reis europeus. At a
dcada de 1890, como j vimos, alguns Estados africanos tratavam de igual para
igual com seus parceiros europeus. O Asantehene, o rei da Matabelelndia, e
a rainha de Madagscar enviaram misses diplomticas  rainha da Inglaterra,
nessa poca. O colonialismo ps fim a tudo isso e privou assim os Estados da
frica da possibilidade de adquirir experincia no domnio da diplomacia e das
relaes internacionais.
    No entanto, a perda da independncia e da soberania teve para os africanos
uma significao bem mais profunda. Antes de mais nada, representou a perda
do direito de se incumbir de seu destino, de planejar seu prprio desenvolvi-
mento, de gerir sua economia, de determinar suas prprias estratgias e priori-
dades, de obter livremente l fora as tcnicas mais modernas e adaptveis e, de
maneira geral, de administrar  bem ou mal  seus prprios assuntos, buscando
inspirao e alegria em seu prprio xito e extraindo a lio de seus fracassos.
Em resumo, o colonialismo privou os africanos de um dos direitos mais funda-
mentais e inalienveis dos povos: o direito  liberdade.
    Rodney j mostrou que os setenta anos de colonialismo na frica foram um
perodo de evoluo decisiva, fundamental, para os pases capitalistas e socia-
listas. Foi uma poca em que a Europa, por exemplo, entrou na era da energia
nuclear, do avio e do automvel. Se a frica tivesse podido dominar seu pr-
prio destino, poderia ter tirado vantagem dessas espantosas mudanas ou at
mesmo ter participado delas. No entanto, o colonialismo isolou-a por completo,


16   GUTTERIDGE, 1975.
928                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



mantendo-a em estado de sujeio. Evidentemente,  a perda de independncia
e de soberania, a privao do direito fundamental  liberdade e o isolamento
poltico impostos  frica pelo colonialismo que constituem um dos efeitos
mais perniciosos do colonialismo no plano poltico.

      O impacto no terreno econmico
    O impacto no terreno poltico foi, portanto, importante, mesmo que sua
positividade esteja longe de ser total. De igual importncia, e at maior, foi a
herana econmica. O primeiro efeito positivo do colonialismo  o mais evi-
dente e o mais profundo  foi, como vimos em muitos captulos anteriores, a
constituio de uma infraestrutura de estradas e vias frreas, a instalao do tel-
grafo, do telefone e, s vezes, de aeroportos. Nada disso existia evidentemente na
frica pr-colonial, onde, como disse J. C. Caldwell, "quase todos os transportes
terrestres  at a era colonial  se faziam s costas dos homens" (ver captulo
18). Essa infraestrutura de base foi terminada na frica por volta da dcada
de 1930 e, depois disso, poucos quilmetros de ferrovias foram acrescentados.
Sua importncia ia alm do interesse puramente econmico, j que facilitava o
movimento no s de mercadorias, de culturas de exportao e de tropas, mas
tambm de pessoas  o que contribuiu para reduzir o "esprito paroquiano", o
regionalismo e o etnocentrismo.
    O impacto do colonialismo sobre o setor primrio da economia foi igualmente
significativo e importante. Como ficou bem claro mais acima, o colonialismo
tratou por todas as formas de desenvolver e de explorar alguns dos ricos recursos
naturais do continente  e, nesse plano, obteve xitos importantes. Foi durante o
perodo colonial que todo o potencial mineral da frica foi descoberto, a inds-
tria mineira teve enorme expanso e as safras de exportao  cacau, caf, tabaco,
amendoim, sisal, borracha etc.  se disseminaram. Foi durante esse perodo que
a Costa do Ouro se tornou o primeiro produtor mundial de cacau, enquanto em
1950 as culturas de exportao representavam 50% do produto interno bruto
da frica Ocidental Francesa. H que salientar, como M. H. Y. Kaniki o fez
antes (captulo 16), que na frica ocidental essas culturas foram desenvolvidas
pelos prprios africanos, o que mostra claramente seu desejo e capacidade de
adaptao e resposta favorveis aos estmulos positivos. Conforme demonstrou
J. Forbes Munro, a maior parte dessas mudanas econmicas fundamentais
manifestou-se durante vinte anos, de meados dos anos 1890 a 1914, poca em
que "as infraestruturas da maior parte das economias nacionais contemporneas
O colonialismo na frica: impacto e significao                              929



foram criadas pelas autoridades coloniais" e em que "o comrcio entre a frica
e o resto do mundo se desenvolveu a um ritmo sem precedente histrico"17.
    Essa revoluo econmica teve consequncias de grande alcance. A primeira
foi a comercializao da terra, o que a transformou em valor real. Antes da era
colonial,  incontestvel que enormes extenses de terra, em muitas partes da
frica, estavam subpovoadas e sub-exploradas. A introduo e a difuso das cultu-
ras de exportao, bem como o desenvolvimento das indstrias mineiras, puseram
termo a tal situao. De fato, o ritmo de desmatamento das florestas virgens foi
tal que as autoridades coloniais se viram obrigadas a constituir reservas um pouco
por toda a parte da frica para deter sua explorao. Em segundo lugar, a revo-
luo econmica provocou o aumento do poder aquisitivo de alguns africanos e,
portanto, da procura de bens de consumo. Em terceiro lugar, o fato de os prprios
africanos cultivarem safras exportveis permitiu que as pessoas enriquecessem,
fosse qual fosse sua posio social, principalmente nas regies rurais.
    Outro efeito revolucionrio do colonialismo, em quase todas as regies do
continente, foi a introduo da economia monetria. Conforme Walter Rodney
salientou no captulo 14, todas as comunidades africanas, inclusive os grupos
pastoris, caracterizados pelo conservadorismo, tinham sido arrastadas para esse
tipo de economia por volta da dcada de 1920. Os efeitos dessa mudana foram
mais uma vez significativos. Em primeiro lugar, desde a dcada de 1930, fora
introduzido um novo padro de riqueza, o qual j no se baseava na quantidade
de carneiros, de vacas ou de inhame que o indivduo possua, mas no dinheiro.
Em segundo lugar, as pessoas passaram a desenvolver atividades no mais cen-
tradas na necessidade da subsistncia, mas no dinheiro, o que, em contrapartida,
levaria como veremos  irrupo de uma nova classe de trabalhadores jornaleiros
e assalariados. Em terceiro lugar, a introduo da economia monetria assinala
o incio das atividades bancrias na frica, que se tornaram uma outra caracte-
rstica importante da economia dos Estados africanos independentes.
    A introduo da moeda e das atividades bancrias levou, com a vasta expan-
so do volume de comrcio entre a frica colonizada e a Europa, quilo que A.
G. Hopkins descreveu como o trmino da "integrao da frica ocidental na
economia do mundo industrializado", graas  "criao de condies que davam
ao mesmo tempo a europeus e africanos os meios e os motivos de desenvolver
e diversificar um comrcio regular"18. A situao no era diferente nas outras
partes da frica e, em 1935, a economia africana se tornara inextricavelmente

17   MUNRO, 1976, p. 86.
18   HOPKINS, A. G., 1973, p. 235.
930                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



ligada  do mundo em geral e  das potncias coloniais capitalistas em particu-
lar. Os anos posteriores no fizeram mais do que firmar esse lao, que a prpria
independncia no alterou no fundamental.
    O impacto colonial foi ento benfico para o continente no plano econ-
mico? De maneira nenhuma, e a maior parte dos atuais problemas de desenvol-
vimento com que a frica se depara provm desse legado.
    Primeiro, como M. H. Y. Kaniki sublinhou no captulo 16, a infraestrutura
proporcionada pelo colonialismo no era to til nem to adaptada como pode-
ria ser. As estradas e as ferrovias, em sua maioria, no haviam sido construdas
para abrir o pas, mas apenas para ligar com o mar as zonas dotadas de jazidas
minerais e de potencial para a produo de safras comerciais ou, citando Fiel-
dhouse, "para ligar reas de produo interna ao mercado mundial de mercado-
rias primrias"19. Praticamente no havia ramais rodovirios nem ferrovirios.
    A rede no se destinava a facilitar as comunicaes interafricanas. A infra-
estrutura fora de fato concebida para facilitar a explorao dos recursos das
colnias e conect-los s metrpoles, no para promover o desenvolvimento
econmico global da frica ou os contatos entre africanos.
    Segundo, o crescimento econmico das colnias baseava-se nos recursos
materiais das regies, de modo que as zonas desprovidas de tais recursos haviam
sido negligenciadas por completo. Da as gritantes desigualdades econmicas
dentro de uma mesma colnia, que acentuavam e exacerbavam, por sua vez,
as diferenas e os sentimentos regionais, o que representou grande obstculo
 constituio das naes na frica independente. Como disse um eminente
economista, "as diferenas tribais poderiam desaparecer facilmente no mundo
moderno, se todas as tribos vivessem em igualdade econmica. Quando o nvel
destas  muito desigual, apela-se para as diferenas tribais para proteger os
interesses econmicos"20.
    Terceiro, uma das caractersticas da economia colonial consistia em negligen-
ciar ou em desencorajar deliberadamente a industrializao e a transformao
das matrias-primas e dos produtos agrcolas na maioria das colnias. Conforme
destacou Fieldhouse, " provvel que nenhum governo colonial possusse um
ministrio da indstria antes de 1945"21. Produtos to simples e to essenciais
como fsforos, velas, cigarros, leo comestvel e at suco de laranja e de limo,
que poderiam ser todos fabricados com facilidade na frica, eram importados.

19    FIELDHOUSE, 1981, p. 67.
20    LEWIS, W. A., 1965, p. 24-5.
21    FIELDHOUSE, 1981, p. 68.
O colonialismo na frica: impacto e significao                              931



De acordo com o sistema da economia colonial capitalista, todos os Estados
africanos se haviam transformado em mercados de consumo dos produtos
manufaturados das metrpoles e em produtores de matrias-primas destinadas
 exportao. O fato de as potncias coloniais, as empresas comerciais e mineiras
haverem negligenciado totalmente a industrializao pode ser levantado como
uma das acusaes mais graves contra o colonialismo. Alis, ele tambm pro-
porciona a melhor justificativa para o ponto de vista de que o perodo colonial
foi antes um perodo de explorao econmica do que de desenvolvimento para
a frica. Uma das consequncias importantes da no industrializao foi que,
bem mais do que no domnio poltico, o nmero de africanos preparados para
assumir o papel dos europeus permanece muito reduzido.
    Quarto, no s a industrializao foi negligenciada como as indstrias e as
atividades artesanais existentes na poca pr-colonial foram destrudas. Note-se
que nessa poca as indstrias africanas produziam tudo de que o pas neces-
sitava, sobretudo materiais de construo, sabo, miangas, utenslios de ferro,
cermica e, principalmente, roupas. Se essa indstria local tivesse sido incenti-
vada e desenvolvida com a modernizao de suas tcnicas de produo (como
se fez na ndia, entre 1920 e 1945)22, a frica teria conseguido aumentar sua
produo e melhorar, pouco a pouco, sua tecnologia. Mas tais indstrias e ati-
vidades artesanais foram praticamente aniquiladas em face da importao de
gneros baratos, produzidos em srie. O desenvolvimento tecnolgico africano
foi assim paralisado e s tomou novo impulso aps a independncia.
    Quinto, embora a agricultura intensiva acabasse por se tornar a principal
fonte de renda da maior parte dos Estados africanos, nenhuma tentativa fora
feita para diversificar a economia rural das colnias. Muito pelo contrrio, como
se viu em alguns captulos anteriores, a produo de uma ou de duas culturas de
exportao tornara-se a regra em 1935: cacau, na Costa do Ouro; amendoim,
no Senegal e em Gmbia; algodo, no Sudo; caf e algodo, em Uganda; caf
e sisal, em Tanganica etc. O perodo que se seguiu  Segunda Guerra Mundial
no conheceu melhora alguma nesse domnio e os Estados africanos, em sua
maioria, descobriram, no momento da independncia, que suas economias se
baseavam na monocultura, sendo, portanto, muito sensveis s flutuaes do
comrcio internacional. O colonialismo, no h dvida, integrou as economias
africanas na ordem econmica mundial, mas de forma bastante desvantajosa e
exploradora, e as coisas praticamente no mudaram depois disso.


22   Ibid., p. 92-5.
932                                               frica sob dominao colonial, 1880-1935



    O fato de depender to fortemente de culturas exportveis teve outro efeito
desastroso: negligenciar o setor interno da economia africana. Esta sempre
estivera dividida, como M. H. Y. Kaniki demonstrou no captulo 16, em dois
setores principais: o setor interno, que produzia ao mesmo tempo para a sub-
sistncia dos produtores e para o mercado interno, e o setor de exportao, que
trabalhava para o mercado externo e para os comerciantes de caravana. Na
poca pr-colonial, os dois setores eram considerados igualmente importantes
e, em consequncia, no se precisava importar nenhum produto para alimentar
a populao. Mas a concentrao nas culturas exportveis verificada na poca
colonial fez com que o setor interno ficasse praticamente esquecido, sendo os
africanos compelidos a abandonar a produo de alimentos destinados a seu
prprio consumo, em benefcio da produo de culturas de exportao, mesmo
quando fosse antieconmico faz-lo, conforme observa Fieldhouse23. Portanto,
foi obrigatrio importar alimentos, e o povo tinha de os adquirir a preos geral-
mente elevados. Assim ocorreu, por exemplo, em Gmbia: os habitantes foram
levados a substituir a cultura do arroz pela de amendoim, passando o arroz a ser
importado da em diante24. Na Guin, os africanos de Futa Jallon foram obri-
gados a produzir borracha, provocando em 1911 a falta de arroz, o qual passou
a ser importado e pago com o dinheiro proveniente da borracha. O Egito, que
durante sculos havia exportado cereais e outros alimentos, teve de importar
milho e trigo desde o comeo do sculo XX, devido  excessiva concentrao
na cultura do algodo para o mercado externo. O mesmo se deu na Costa do
Ouro, onde a produo de cacau foi to intensificada que houve necessidade
de importar alimentos.  o que demonstram claramente as advertncias de A.
W. Cardinall, funcionrio colonial compreensivo, que assinalava com pesar, na
dcada de 1930, que o pas poderia ter produzido por si mesmo "a metade do
peixe fresco, arroz, milho e outros cereais, feijo, carne salgada e fresca, leo
comestvel, especiarias e legumes frescos (importados) ou, em outros termos,
poderia ter economizado 200 mil libras"25.
    O trabalho forado e o abandono da produo de alimentos provocaram
bastante desnutrio, fomes e epidemias severas em algumas regies da frica,
nos primrdios do colonialismo, sobretudo na frica francesa, conforme C.
Coquery-Vidrovitch salientou no captulo 15. Assim, no sistema colonial, os
africanos estavam na maior parte dos casos destinados a produzir aquilo que

23    Ibid., p. 88.
24    RODNEY, 1972, p. 257-8.
25    Apud CROWDER, 1968, p. 348.
O colonialismo na frica: impacto e significao                               933



no consumiam e a consumir aquilo que no produziam, o que mostra muito
bem o carter explorador, claudicante, da economia colonial.
    Nas regies em que a populao africana no estava autorizada a se dedicar
s culturas de exportao, como no Qunia e na Rodsia do Sul (atual Zim-
bbue), Colin Leys demonstrou que os africanos, "no espao de uma gerao,
tinham efetivamente passado da condio de camponeses independentes, que
produziam culturas comerciais para os novos mercados, para a de camponeses
dependentes de trabalho agrcola assalariado"26.
    Sexto, a comercializao da terra, a que j nos referimos, levou  venda ilegal
das terras comunais, praticada por chefes de famlia sem escrpulos, ou ento a
crescentes litgios, os quais generalizaram a pobreza, sobretudo entre as fam-
lias dirigentes. Nas fricas oriental, central e meridional, como o demonstra-
ram numerosos captulos anteriores, essa comercializao tambm levou a uma
apropriao de terras em grande escala pelos europeus. Na frica do Sul, 89%
do territrio foi reservado aos brancos, que constituam 21% da populao; na
Rodsia do Sul, 37% das terras para 5,2% de populao branca; 7% no Qunia
para menos de 10% da populao; 3% na Rodsia do Norte (atual Zmbia) para
somente 2,5% da populao. Ressalte-se que essas eram as terras mais frteis
de cada pas27. Tal apropriao no podia deixar de produzir rancor, clera e
frustrao, e foi a causa fundamental da grave exploso "Mau Mau" verificada
no Qunia.
    A colonizao levou, tambm, como ficou salientado mais acima, ao apare-
cimento no cenrio africano de um nmero crescente de companhias bancrias,
comerciais e martimas estrangeiras, as quais, de 1910 em diante, se fundiram e
se consolidaram sob a forma de oligoplios. Na medida em que essas compa-
nhias comerciais controlavam tanto as importaes como as exportaes, fixando
os preos em ambos os casos, os enormes lucros gerados por essas atividades
iam para as companhias e no para os africanos. Alm disso, no havia impostos
sobre os lucros, nenhuma regulamentao que obrigasse essas companhias a
investir parte deles localmente ou a pagar rendas mais elevadas por suas con-
cesses. Nem as administraes coloniais locais nem os proprietrios africanos,
contudo, tiravam proveito direto de tais atividades.
    A outra consequncia desse processo, evidentemente, foi a eliminao dos
africanos dos setores mais importantes e lucrativos da economia. Os prncipes
mercadores africanos da segunda metade do sculo XIX desapareceram pra-

26   LEYS, 1975, p. 31.
27   SAMPSON, 1960, p. 46-7.
934                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



ticamente de cena, enquanto seus descendentes se tornavam empregados das
empresas estrangeiras para sobreviver. Tambm aqui, como no domnio indus-
trial, impediu-se a formao de uma classe de africanos dotada de experincia
comercial e de tcnicas de direo.
    Como Rodney observou no captulo 14, o colonialismo ps virtualmente fim
ao comrcio interafricano. Antes da poca colonial, grande parte do comrcio
decorria entre os Estados africanos; de fato, as atividades mercantis de longa dis-
tncia e as caravanas constituam um trao muito comum da economia africana
tradicional. Mas, com o surgimento do colonialismo, o comrcio interafricano de
pequena e de longa distncia foi desestimulado, seno completamente proibido,
j que, para citar Rodney, "as fronteiras polticas arbitrrias (de cada colnia)
eram geralmente traadas para indicar o limite das economias" e que o fluxo
do comrcio de cada colnia era reorientado para a metrpole. A eliminao
de boa parte dessas antigas relaes mercantis interafricanas impediu assim
o estreitamento dos velhos laos e o desenvolvimento de outros novos, que
pudessem vir a ser de benefcio para os africanos. Pela mesma razo, a frica
no pde desenvolver laos comerciais diretos com outras regies do mundo,
como a ndia ou a China.
    Finalmente, todo o progresso econmico realizado durante o perodo colonial
custou elevado e injustificvel preo para os africanos: o trabalho forado, o traba-
lho migratrio (o qual, segundo Davidson, "provavelmente fez mais para desman-
telar as culturas e as economias pr-coloniais do que a maioria dos outros aspectos
da experincia colonial em conjunto")28, a cultura obrigatria de certas espcies, a
tomada compulsria de terras, a mobilizao forada de populaes (com o con-
sequente deslocamento da vida familiar), o sistema de "passes", a elevada taxa de
mortalidade nas minas e nas plantations, a brutalidade com que os movimentos
de resistncia e de protesto provocados por essas medidas foram reprimidos etc.
E, sobretudo, as polticas monetrias seguidas pelos poderes coloniais em relao
s suas colnias  atrelando suas moedas s da metrpole, introduzindo tarifas
e mantendo todos os lucros do cmbio nas capitais metropolitanas , enquanto
asseguravam moedas estveis e plenamente conversveis, levaram ao congelamento
dos ativos coloniais nas capitais metropolitanas, que no eram assim tornados
lquidos e investidos nas colnias. A repatriao de economias e depsitos de
africanos pelos bancos, e a discriminao praticada contra estes na abertura de
crditos contriburam ainda mais para impedir o desenvolvimento da frica.


28    DAVIDSON, B., 1978b, p. 113.
O colonialismo na frica: impacto e significao                             935



   A partir da, pode-se concluir sem risco que, malgrado os protestos de Gann
e Duignan, o perodo colonial foi antes de impiedosa explorao econmica do
que de desenvolvimento para a frica, e que o impacto do colonialismo sobre
o continente foi, no plano econmico, de longe, o mais negativo de todos

    Efeitos no plano social
    Finalmente, qual  o legado do colonialismo no plano social? O primeiro
efeito benfico importante foi o aumento geral da populao africana, no decurso
do perodo. J. C. CaldweIl j demonstrou (captulo 18) que ele atingiu 37,5%,
aps as primeiras duas ou trs dcadas de dominao europeia. A expanso,
segundo esse autor, deveu-se ao estabelecimento de slidas bases econmicas
e ao desenvolvimento de malhas rodovirias e ferrovirias, que permitiu trans-
portar mantimentos para as regies onde reinava a fome, bem como lanar
campanhas contra doenas como a peste bubnica, a febre amarela e a doena
do sono.
    O segundo impacto social do colonialismo est estreitamente ligado ao pri-
meiro: foi a urbanizao. Como A. E. Afigbo salientou no captulo 19, ela no
era desconhecida na frica pr-colonial. Os reinos e imprios africanos possu-
am capitais e centros polticos, como Kumbi Saleh, Benin, Ile-Ife, Kumasi, Gao
e Zimbbue, alm de centros comerciais como Kano, Jenne, Sofala e Melinde.
Havia ainda centros educacionais como Tombuctu, Cairo e Fez. No h dvida,
porm, que o colonialismo acelerou enormemente o ritmo da urbanizao. Sur-
giram cidades inteiramente novas: Abidjan, na Costa do Marfim; Takoradi,
na Costa do Ouro; Port Harcourt e Enugu, na Nigria; Nairbi, no Qunia;
Salisbury (atual Harare), na Rodsia do Sul; Lusaka, na Rodsia do Norte (atual
Zmbia); Luluabourg, na provncia de Kasai, do Congo Belga (atual Zaire).
    Alm disso, como Caldwell demonstrou mais acima (captulo 18), as popu-
laes das cidades j existentes e as das cidades novas aumentaram a largos
passos durante a era colonial. Nairbi, fundada em 1896, no passava ento de
mero entreposto de trnsito para a construo da estrada de ferro de Uganda.
Sua populao atingia 13 145 habitantes, em 1927, e mais de 25 mil, em 1940.
A populao de Casablanca passou de 2026, em 1910, para 250 mil, em 1936; a
de Acra, na Costa do Ouro, passou de 17892, em 1901, para 135926, em 1948;
a de Lagos atingia 74 mil, em 1914, e chegou a 230 mil, em 1950; a de Dacar
passou de 19800, em 1916, para 92 mil, em 1936, e para 132 mil, em 1945; por
fim, a de Abidjan, que era de 800 habitantes, em 1910, atingia 10 mil, em 1914,
e 127 mil, em 1955.
936                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Estes nmeros mostram claramente que o rpido crescimento da populao
urbana na frica ocorreu depois da Primeira Guerra Mundial e, particular-
mente, no perodo 1913-1945, do qual se diz que foi o do apogeu do colonia-
lismo na frica. De resto, essas cidades cresceram rapidamente nesse perodo
por serem as novas capitais ou os centros administrativos dos regimes coloniais
(caso de Abidjan, Niamey, Nairbi, Salisbury e Lusaka) ou, ento, novos portos,
estaes ferrovirias ou entroncamentos rodovirios (Takoradi, Port Harcourt,
Bamako, Bulawayo) ou, ainda, novos centros mineiros ou comerciais (Obuasi,
Jos, Luluabourg, Kimberley, Johannesburgo).
    Sem dvida, houve uma melhora na qualidade de vida, sobretudo para quem
vivia nos centros urbanos. Caldwell mostrou, no captulo 18, que para tanto
contriburam os hospitais, os dispensrios, a gua corrente, os sistemas sanitrios,
as habitaes melhores, bem como a abolio de prticas como a escravido
domstica e o aumento das possibilidades de trabalho.
    A difuso do cristianismo, do islamismo e da educao ocidental representou
outro importante impacto do colonialismo. Est fora de dvida que os mission-
rios cristos e os religiosos muulmanos, aproveitando a paz e a ordem reinantes,
assim como o patrocnio e, em certas regies, o encorajamento do colonialismo,
expandiram suas atividades sempre e cada vez mais longe pelo interior do con-
tinente. Segundo a lio de K. Asare Opoku, no captulo 20, o cristianismo e o
islamismo ganharam mais terreno durante o perodo colonial do que nos trs
ou quatro sculos anteriores. Foi nele, com efeito, que o cristianismo assentou
solidamente os ps nas fricas oriental e central, quer precedendo os exrcitos
e os mercadores, quer seguindo-lhes os rastros. O islamismo tambm se propa-
gou rapidamente pelas fricas ocidental e oriental graas  melhora geral das
comunicaes e ao patrocnio das autoridades coloniais francesas e britnicas.
Cumpre realar, como Opoku, que essa expanso no se fez  custa da religio
tradicional. O colonialismo, nesse caso, reforou e perpetuou o pluralismo reli-
gioso dos africanos e, por conseguinte, enriqueceu-lhes a vida religiosa.
    A propagao da educao ocidental est estreitamente ligada  do cristia-
nismo. Conforme ficou demonstrado em vrios captulos anteriores, as misses
crists foram em grande parte responsveis por esse processo. No se deve
entretanto esquecer que elas trabalhavam essencialmente subvencionadas pelas
administraes. Certamente, no final da era colonial, restavam relativamente
poucas zonas que no contassem, pelo menos, com escolas primrias. A difuso
da educao ocidental teve efeitos sociais de grande alcance, entre os quais o
nmero crescente dos membros da elite africana educados  europeia  elite
O colonialismo na frica: impacto e significao                                937



que hoje em dia constitui a oligarquia reinante e o essencial da administrao
dos Estados africanos.
    Outro impacto colonial importante, cuja vantagem, como veremos,  discut-
vel: a instituio de uma lngua franca em cada colnia ou conjunto de colnias.
Por toda a parte, a lngua materna da potncia colonial, em sua forma pura ou
na de um pidgin, tornou-se a lngua oficial, a dos negcios e, comumente, o prin-
cipal meio de comunicao entre os inmeros grupos lingusticos que formam
a populao de cada colnia.  significativo que, excetuando a frica do norte,
a Repblica Unida da Tanznia, o Qunia e Madagscar, essas sejam at hoje
as lnguas oficiais dos pases africanos.
    O derradeiro benefcio social trazido pelo colonialismo foi a nova estrutura
social que ele introduziu, ou cujo desenvolvimento acelerou, em certas partes
do continente. Segundo diz A. E. Afigbo no captulo 19, embora a estrutura
social tradicional permitisse a mobilidade social, sua composio de classe pare-
cia dar peso excessivo ao nascimento. Por sua vez, a nova ordem colonial dava
mais nfase ao mrito individual e s realizaes do que ao nascimento. Essa
mudana  ligada  abolio da escravatura,  introduo da educao ocidental,
do cristianismo e do islamismo,  expanso da agricultura de exportao (que
facilitou o enriquecimento pessoal em certas zonas) e aos muitos outros modos
de progresso propostos pelo colonialismo  modificou radicalmente a estrutura
social tradicional. Assim, nos anos de 1930, as classes sociais pr-coloniais,
a aristocracia reinante, a gente do povo, os escravos domsticos e uma elite
educada, mas relativamente restrita, tinham sido substitudos por uma nova
sociedade, ainda mais dividida do que antes entre elementos rurais e urbanos,
diversamente estratificados.
    Os urbanos dividiam-se em trs subgrupos principais: a elite ou, como alguns
dizem, a burguesia administrativa, clerical e profissional; a no elite ou, como
prefere Lloyd, a sub-elite; por ltimo, o proletariado urbano. A elite subdividia-se
em trs grupos: a burocrtica, dos funcionrios; a profissional liberal, dos mdi-
cos, juristas, arquitetos, engenheiros, professores etc.; a comercial, dos gerentes
de empresas estrangeiras, dos comerciantes e homens de negcios. A sub-elite
era constituda por agentes de cmbio, corretores, funcionrios, professores pri-
mrios, enfermeiras e funcionrios subalternos, enquanto o proletariado urbano
era formado pelos trabalhadores assalariados, ajudantes de armazm, motoristas,
mecnicos, mensageiros, alfaiates, pedreiros etc.
    Nas regies rurais, constatou-se o surgimento, um pouco por toda a parte,
pela primeira vez, de classes constitudas por um proletariado rural de africanos
sem terras e por camponeses. O primeiro era formado por aqueles que, sobretudo
938                                                       frica sob dominao colonial, 1880-1935



nas fricas oriental e meridional, tinham sido despojados de suas terras pelos
europeus e no tinham autorizao para residir nos centros urbanos e industriais,
sendo portanto obrigados a passar a vida indo e vindo entre as regies urbanas e
rurais, principalmente como trabalhadores migrantes. Quanto aos camponeses,
John Iliffe descreve-os como pessoas que "vivem em pequenas comunidades,
cultivam a terra que possuem ou administram, subsistem essencialmente graas
 mo de obra familiar e garantem a prpria subsistncia, suprindo ao mesmo
tempo sistemas econmicos mais vastos que compreendem no camponeses29.
Alguns ficaram muito ricos com a produo de culturas de exportao, dando
origem ao chamado capitalismo rural. Iliffe fala dessa "ruralizao" como de
"uma transformao irreversvel cujo impacto  comparvel ao da industriali-
zao". Cabe ressaltar que, na medida em que a mobilidade dentro dessa nova
estrutura se baseava mais no esforo e na realizao individuais do que na atri-
buio, houve um aperfeioamento considervel em relao  estrutura social
tradicional.
    Mas, se o colonialismo teve alguns efeitos sociais positivos, teve tambm os
negativos, alguns seriamente negativos. Em primeiro lugar, deve-se mencionar
o hiato crescente que se desenvolveu durante a poca colonial entre os centros
urbanos e as zonas rurais. O j mencionado enorme crescimento da populao
urbana no se deu em consequncia do aumento natural da populao, sendo
antes o resultado daquilo que se chamou de "foras de atrao e de repul-
so30: o contnuo xodo de jovens de ambos os sexos para os centros urbanos,
pela necessidade de frequentar escolas e encontrar trabalho, repelidos do meio
rural  como C. Coquery-Vidrovitch mostrou no captulo 15  pelas fomes,
pela pobreza endmica e pelos impostos. Alm do mais, dado que os europeus
tinham tendncia a viver nos centros urbanos, somente a se encontravam as
comodidades acima relacionadas e que melhoravam a qualidade da vida. As
regies rurais estavam praticamente entregues  sua prpria sorte, o que acen-
tuava o fenmeno da desero. Ainda hoje h um fosso enorme entre as zonas
urbanas e as zonas rurais do continente africano, no havendo dvida de que
foi o sistema colonial que o criou e ampliou.
    Esses migrantes no encontravam nos centros urbanos o rico e seguro para-
so que esperavam. Em cidade alguma os africanos eram considerados iguais,
nunca sendo completamente integrados. Alm disso, para a maioria, era impos-
svel encontrar emprego ou moradia decentes. Acabavam por se amontoar nos

29    ILIFFE, 1979, p. 273-4.
30    WILSON, F., in WILSON, M. e THOMPSON, 1971, v. II, p. 132.
O colonialismo na frica: impacto e significao                               939



subrbios e favelas em que o desemprego, a delinquncia juvenil, o alcoolismo,
a prostituio, o crime e a corrupo eram a regra. O colonialismo fez no s
empobrecer a vida rural como tambm corromper a vida urbana. No surpre-
ende, pois, que os membros deste grupo social se transformassem, depois da
Segunda Guerra Mundial, nas tropas de assalto dos movimentos nacionalistas.
    O segundo problema social grave foi o dos colonos europeus e asiticos.
Embora houvesse europeus instalados nos Estados da frica do norte e na
frica do Sul antes da era colonial, o certo  que depois dela o nmero de
colonos aumentou, instalando-se ainda imigrantes europeus e asiticos nas
fricas oriental e central e em algumas regies da frica ocidental. Conforme
demonstrou M. H. Y. Kaniki, no captulo 16, o nmero de europeus no Qunia
passou de 596, em 1903, para 954, em 1905, 5438, em 1914, e 16663, em 1929;
os da Rodsia do Sul passaram de 11 mil, em 1901, para mais de 35 mil, em
1926; enquanto os da Arglia aumentaram de 344 mil, em 1876, para 946 mil,
em 1936.
    Em muitas regies das fricas oriental, central e setentrional, porm, a
presena dos europeus provocava a hostilidade dos africanos, j que eles ocu-
pavam a maior parte das terras frteis, enquanto os asiticos monopolizavam o
comrcio varejista e atacadista. Na frica ocidental, tambm, os asiticos (srios,
libaneses e indianos), cujo nmero passou de apenas 28, em 1897, para 276, em
1900, depois para 1910, em 1909,3 mil, em 1929, e 6 mil, em 1935, expulsaram
os concorrentes africanos. A partir desta data, o problema europeu e asitico
assumiu graves propores para a frica e ainda hoje no se acha inteiramente
solucionado.
    Alm disso, ainda que o colonialismo tenha introduzido certos servios
sociais, cumpre salientar que eles no s eram em geral inadaptados e desigual-
mente distribudos em cada colnia, mas tambm se destinavam em primeiro
lugar  minoria dos imigrantes e administradores brancos: da sua concentrao
nas cidades. Rodney demonstrou que na Nigria, na dcada de 1930, havia 12
hospitais modernos para 4 mil europeus e 52 para mais de 40 milhes de afri-
canos31. No caso do Tanganica dos anos de 192'0, a proporo de leitos para a
populao era de um para 10 no hospital europeu e de um para 400 a 500 no
hospital africano de Dar-es-Salaam32.
    No plano da educao, a oferecida na poca colonial revelou-se globalmente
inadequada, desigualmente distribuda e mal orientada, de modo que seus resul-

31   RODNEY, 1972, p. 223.
32   FERGUSON, 1980, p. 326.
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tados no foram, portanto, to positivos para a frica como poderiam ser. Houve
durante esse perodo cinco tipos diferentes de instituies educacionais: escolas
primrias, secundrias, escolas normais, escolas tcnicas e universidades. Mas,
se muitas escolas primrias surgiram na frica ocidental britnica em 1860, s
em 1876 as primeiras escolas secundrias  a Mfantsipim e a Methodist High
School  foram fundadas na Costa do Ouro e na Nigria, respectivamente, pela
Wesleyan Missionary Society, enquanto a administrao colonial britnica s veio
a estabelecer sua primeira escola secundria (o Achimota College) na Costa do
Ouro em 1927. Na colnia italiana da Lbia, como j se viu, s havia trs escolas
secundrias em 1940 abertas ao povo, duas em Trpoli e uma em Benghazi. S
depois da Segunda Guerra Mundial apareceram algumas escolas tcnicas e col-
gios universitrios por toda a frica. E  significativo que se tenha criado uma
universidade em cada pas: em 1947, na Costa do Ouro; em 1948, na Nigria; em
1950, em Uganda, Madagscar, Lopoldville e Senegal; em 1953, em Salisbury;
em 1957, em Elisabethville. Por outras palavras, a educao tcnica e universitria
no foi introduzida na frica seno no fim do perodo colonial.
    Por outro lado, em parte alguma e em nenhum grau o sistema escolar satisfa-
zia a demanda, como tampouco estava distribudo equitativamente. Como o pr-
prio Lloyd admite, ainda em meados da dcada de 1930, "as despesas do governo
com educao eram reduzidas em toda parte, atingindo em 1935 somente 4% da
receita da Nigria e dos territrios franceses e 7% da receita de Gana"33. Essas
escolas e institutos no estavam adequadamente distribudos em cada colnia. A
maior parte das instituies de ensino ps-primrio estava concentrada nos gran-
des centros e, em certos pases, em uma nica cidade. Por exemplo, na Costa do
Ouro, cerca de 80% das escolas secundrias ficavam em Cape Coast. Em Uganda,
por volta de 1920, havia 328 escolas primrias em Buganda e apenas 39 e 24 nas
provncias ocidentais e orientais, no havendo praticamente nenhuma na pro-
vncia do norte34. As instalaes escolares eram inadequadas e mal distribudas,
porque as potncias coloniais no visavam o desenvolvimento da educao em
si ou para os africanos, mas, antes, segundo um especialista africano, "produzir
africanos que fossem mais produtivos para o sistema [colonial]"35.
    Independentemente da insuficincia numrica e da distribuio desigual, a
educao colonial tinha outro defeito: os currculos oferecidos por todas as ins-
tituies eram determinados pelas autoridades e estreitamente imitados  seno

33    LOYD, 1972, p. 79.
34    KABWEGYERE, 1974, p. 179.
35    Ibid., p. 110.
O colonialismo na frica: impacto e significao                                     941



copiados  dos programas metropolitanos. Por isso no estavam adaptados s
necessidades do continente. O prprio sir Gordon Guggisberg, que foi gover-
nador da Costa do Ouro de 1919 a 1927, testemunhava em 1920:
     Um dos maiores erros da educao no passado consistiu em ensinar os africanos a
     se tornarem europeus, em vez de a continuarem africanos.  um erro completo, e o
     governo assim o reconhece. No futuro, a educao tender a permitir que os africanos
     permaneam africanos e se interessem por sua prpria terra36.
    Mas, ainda que Guggisberg tenha fundado o Anchimota College para con-
cretizar essa promessa, pouco foi conseguido, pois a educao continuou a ser
dirigida no pas pelas misses crists. Ora, o objetivo primordial destas era fazer
discpulos capazes de ler a Bblia em ingls ou na lngua verncula, assim como
formar professores e pastores.
    O impacto desse sistema educacional inadequado, coxo e mal orientado sobre
as sociedades africanas foi profundo e quase permanente. Em primeiro lugar,
legou  frica um enorme problema de analfabetismo, cuja soluo demandar
muito tempo. Em segundo lugar, a elite culta que ele criou era uma elite alienada,
que reverenciava a cultura e a civilizao europeias e menosprezava a cultura
africana. Seus gostos em matria de alimentao, bebida, vesturio, msica, dan-
as e at de jogos eram novos. O intelectual nacionalista ganense Kobina Sekyi
fez a propsito uma stira brilhante em sua pea The Blinkards. Outro fosso
se cavou, portanto, entre essa elite e as massas, o qual ainda no foi colmatado.
Por outro lado, ainda que o nmero dos membros da elite tenha aumentado nas
dcadas de 1940 e 1950, com o desenvolvimento das possibilidades de educao
e a criao de universidades, ele continuou, no entanto, extremamente reduzido
durante todo o perodo colonial. Mas, como veio a incluir as pessoas mais ricas
e a ocupar os postos mais elevados, durante e depois da poca colonial, essa elite
passou a dispor de um poder e de uma influncia desproporcionais a seu nmero.
Por esse motivo, suas relaes com a elite tradicional so tensas desde a poca
colonial e at agora no melhoraram de verdade.
    Alm disso, a explicao de fenmenos como a morte, a chuva e a doena em
termos cientficos e naturalistas atacava as prprias razes das crenas religiosas,
dos castigos e dos tabus africanos, abalando os alicerces das sociedades, provo-
cando um sentimento de incerteza, de frustrao e de insegurana, atmosfera
que Chinua Achabe soube captar brilhantemente em seu romance Things Fall
Apart. O sentimento de insegurana e de frustrao, muitas vezes agravado pelas

36   Apud ADDO-FENING, 1980.
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crises econmicas que se verificaram nas dcadas de 1920 e 1930, bem como
aps a Segunda Guerra Mundial, provocou elevadas taxas de criminalidade,
divrcio, delinquncia e violncia, sobretudo nas cidades. Essa mesma situao
explica em parte, no plano religioso, o surgimento das igrejas milenaristas eto-
pes ou sincrticas, j estudadas anteriormente.
    O fato de o ensino tcnico e industrial ter sido negligenciado, em benefcio das
letras e da preparao para os empregos burocrticos, suscitou entre os africanos
uma propenso a seguir esse rumo, criando igualmente no meio da gente culta um
certo menosprezo pelo trabalho manual e agrcola, que ainda perdura. Alm disso,
a injusta distribuio de instalaes escolares impediu um processo uniforme de
modernizao de cada colnia, o que acentuou ainda mais as diferenas e as tenses
entre grupos tnicos e regies  tenses que permanecem em muitas zonas e expli-
cam algumas guerras civis e rivalidades verificadas em alguns Estados africanos
independentes. O fato de haver negligenciado a educao superior e tcnica tam-
bm levou alguns africanos de posses a enviar seus filhos para as metrpoles ou para
os Estados Unidos. Foram estes que, em parte devido s suas diversas experincias
com a discriminao racial e  o que  ainda mais importante   aprofundada
reflexo sobre a natureza negativa do sistema colonial, se tornaram por sua vez os
crticos mais severos do sistema e os dirigentes dos movimentos anticolonialistas e
nacionalistas, como ser demonstrado no volume VIII desta obra.
    Por benfica que tenha sido a lngua franca promovida pelo sistema escolar,
ela teve a lamentvel consequncia de impedir a transformao de certas lnguas
indgenas em lnguas nacionais ou de veiculao. O tu, o haussa e o swahili
poderiam facilmente ter-se tornado as lnguas nacionais da Costa do Ouro, da
Nigria e das trs colnias britnicas da frica oriental, respectivamente. De
fato, como Kabwegyere demonstrou, os administradores coloniais da frica
oriental britnica tentaram fazer do swahili uma lngua franca nas dcadas de
1930 e 1940, mas a tentativa foi contrariada pelo Colonial Office. A razo dada
para tanto merece ser citada:
      [...] O desenvolvimento de uma lngua franca tem pouca relao com a utilidade
      imediata, j que diz essencialmente respeito a valores duradouros e, portanto, a
      uma penetrao que, embora gradual, se tornar pouco a pouco coextensiva ao pas.
      Segundo esse critrio, nem o swahili, nem o ganda, nem qualquer outra lngua ver-
      ncula tem pretenses admissveis37




37    Apud KABWEGYERE, 1974, p. 218.
O colonialismo na frica: impacto e significao                               943



    E a advertncia prosseguia acrescentando que somente o ingls deveria ser
reconhecido como "a inevitvel lngua franca do futuro, fato que a poltica edu-
cacional e geral deveriam admitir sem demora".  duvidoso que qualquer outra
das potncias coloniais tenha considerado algum dia uma tal possibilidade.
Com a partida das autoridades que poderiam ter dado uma certa objetividade
ao empreendimento e que estavam igualmente imbudas do poder de implantar
semelhante poltica lingustica, com o lamentvel surgimento e endurecimento
dos sentimentos tnicos e regionalistas aps a independncia em vrios pases
africanos, a questo de uma lngua franca tornou-se muito sensvel. No sur-
preende que pouqussimos governos africanos tenham abordado tal problema.
    Outro impacto altamente lamentvel do colonialismo foi a deteriorao da
situao da mulher africana.  um tema novo, a exigir outras pesquisas, mas parece
no haver dvidas de que ela foi excluda da maioria das atividades introduzidas
ou intensificadas pelo colonialismo, como a educao e a agricultura exportvel
em algumas partes da frica, vrias profisses, como o direito, a medicina, a mine-
rao etc. Em consequncia dessa excluso, mal lhe foi concedido um lugar na
nova estrutura poltica colonial. Mesmo nas sociedades matrilineares, devido em
parte  difuso do islamismo e tambm  nova nfase dada  realizao individual,
algumas famlias comearam a adotar o sistema patrilinear38. O mundo colonial,
como salientou Iliffe, era de fato um mundo de homens, onde as mulheres no
eram estimuladas a desempenhar um papel importante.
    Alm do mais, por causa do colonialismo, os africanos eram menospreza-
dos, humilhados e submetidos a uma discriminao aberta ou dissimulada. De
fato, segundo o que diz A. E. Afigbo no captulo 19, um dos efeitos sociais do
colonialismo foi "o rebaixamento generalizado da situao dos africanos". Ali
Mazrui tambm sublinhou essa herana de humilhaes impostas ao africano
pelo triplo pecado do trfico negreiro, do apartheid e do colonialismo, em suas
recentes conferncias de Reith. "Os africanos", diz, "no so necessariamente o
mais brutalizado dos povos, mas com certeza so o mais humilhado da histria
moderna39", Dessa forma, embora a elite culta  conforme vimos antes  admi-
rasse a cultura europeia e tivesse participado das guerras das metrpoles para
se identificar com o Ocidente, ela jamais foi aceita como igual pelos europeus,
sendo excluda da sociedade destes ltimos, sem o direito de viver nos bairros




38   ILIFFE, 1979, p. 300.
39   MAZRUI, 1980, p. 23-45.
944                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



europeus das cidades, que Sembene Ousmane chama de "o Vaticano", em seu
romance God's Bits of Wood40.
    Em vez de diminuir com o progresso da dominao colonial, a discrimina-
o, apoiada por teorias racistas equivocadas e pelo darwinismo social da poca,
intensificou-se, at culminar na filosofia desumana e falaciosa do apartheid na
frica do Sul. A elite culta tornou-se descontente e amarga, no surpreendendo
que fosse ela a primeira a desenvolver uma aguda conscincia das desigualdades
e da natureza opressiva e discriminatria do sistema colonial. Passou a questio-
nar cada vez mais a base moral e jurdica da existncia de tal sistema. Foi essa
classe, criada pelos missionrios e pelos colonos, que encabeou a campanha
destinada a aniquil-lo. Alguns historiadores, como M. H. Y. Kaniki, concluem
que "o colonialismo gerou seus prprios coveiros", enquanto Robin Maugham
pensa que "sobre a lpide do imprio britnico [no qual a discriminao racial
foi a mais aberta] poder-se-ia escrever: `Derrotado pelo esnobismo"41.
    As duas concluses so irretocveis. A discriminao racial tambm gerou
entre alguns africanos um profundo sentimento de inferioridade, que A. E.
Afigbo definiu, no captulo 19, de maneira bem sucinta, como "uma tendncia a
perder a confiana em si e em seu futuro  resumindo, um estado de esprito que,
em certos momentos, os levava a imitar cegamente [seria o caso de acrescentar
subservientemente] as potncias europeias". Esse sentimento de inferioridade
no desapareceu por completo, 20 anos depois da independncia.
    Pior ainda foi o impacto do colonialismo no plano cultural. Realmente,
como declarou o II Congresso de Escritores e Artistas Negros, realizado em
Roma em maro-abril de 1959, "entre os pecados do colonialismo, um dos mais
perniciosos, por ter sido por muito tempo aceito no Ocidente sem discusso,
foi o ter difundido a noo de povos sem cultura"42, o que alis no deveria
surpreender. Como P. Curtin e outros salientaram, "a entrada da Europa no
continente africano coincidiu com o apogeu, nos sculos XIX e XX, do racismo e
do chauvinismo cultural na prpria Europa43. Os europeus que iam para a frica
nesse perodo, especialmente entre 1900 e 1945  missionrios, comerciantes,
administradores, colonos, engenheiros e mineiros , estavam geralmente imbu-
dos desse esprito e condenavam, portanto, tudo quanto fosse autctone, desde
a msica, a arte, a dana, os nomes, a religio, o casamento, o regime sucessrio


40    OUSMANE, 1962, p. 162.
41    KANIKI, 1980a, p. 10; MAUGHAM, 1961, p. 84.
42    Ann., em 1955, p. 3.
43    CURTIN et al, 1978, p. 484.
O colonialismo na frica: impacto e significao                                       945



etc. Para ser admitido em uma igreja, um africano tinha no s de ser batizado
como tambm de mudar de nome e renunciar a muitos costumes e tradies.
At o uso das vestes africanas foi proibido ou desencorajado em algumas regies,
e as pessoas educadas  europeia que insistiam em vestir roupas africanas eram
acusadas de "imitar os indgenas". Portanto, no perodo colonial, a arte, a msica,
a dana e a prpria histria da frica no s foram ignoradas, mas at negadas
ou menosprezadas abertamente. Era a poca em que o professor A. P. Newton
podia escrever: "A frica no tinha praticamente histria antes da chegada
dos europeus [pois] a histria no comea seno quando os homens adotam a
escrita44 e sir Reginald Coupland lhe fazia eco cinco anos depois ao declarar:
     At o sculo XIX, a maior parte dos africanos, os povos negros que viviam em suas
     terras tropicais entre o Saara e o Limpopo, jamais haviam tido [...] histria. Durante
     sculos e sculos, permaneceram mergulhados na barbrie. Tal parecia ser o decreto
     da natureza [...]. Assim estagnavam, sem progredir nem regredir. Em nenhuma
     parte do mundo, salvo talvez em algum pntano miasmtico da Amrica do Sul ou
     em qualquer ilha perdida do Pacfico, o gnero humano vivera to estagnante. O
     corao da frica mal batia45.
    Semelhantes pontos de vista no correspondiam a um "decreto da natureza",
mas antes  frtil imaginao desses historiadores europeus chauvinistas. O
corao da frica batia, mas os europeus tinham ficado surdos devido a seus
preconceitos, ideias preconcebidas, arrogncia e chauvinismo.
    Deve ficar claro, a partir desta anlise, que os especialistas para os quais o
colonialismo foi um desastre total para a frica, no tendo gerado seno subde-
senvolvimento e atraso, exageraram muito. Exagerados tambm, no entanto, foram
os apologistas, como Gann, Duignan e Lloyd, que consideram o colonialismo
um bem absoluto para a frica, ou como Perham e Fieldhouse, para os quais o
balano  equilibrado. No seria exato dizer, a respeito da opinio destes autores,
que o colonialismo nada fez de positivo pela frica. Fez sim, senhor. No entanto,
isso no impede que os europeus tenham ganho enormes lucros na frica, graas
s companhias de minerao, s empresas comerciais, aos bancos, s companhias
de navegao, s exploraes agrcolas e s sociedades concessionrias. Por outro
lado, as potncias coloniais dispunham nas metrpoles de substanciais reservas
financeiras provenientes das colnias, reservas que teriam podido fornecer parte
do capital necessrio para o desenvolvimento dessas metrpoles. Finalmente, as

44   NEWTON, 1923, p. 267.
45   COUPLAND, 1928, p. 3.
946                                                frica sob dominao colonial, 1880-1935



indstrias metropolitanas beneficiaram-se com as matrias-primas de baixo preo
das colnias e dos lucros obtidos com a exportao dos produtos manufaturados.
Se compararmos tudo isso com o que os proprietrios de terras, os camponeses
e os mineiros africanos obtinham, levando ainda em conta que todas as infraes-
truturas e facilidades sociais fornecidas tinham de ser financiadas pelas prprias
colnias, no poderemos deixar de nos espantar com a ferocidade do contrato
leonino que o colonizador imps aos africanos.
    Alm disso, o que quer que o colonialismo tenha feito pelos africanos, tendo
em vista as possibilidades, recursos, poder e influncia que tinha na frica da
poca, ele poderia e deveria ter feito muito mais. O prprio Lloyd o admite:
"Poder-se-ia ter feito muito mais, se o desenvolvimento dos territrios atrasados
tivesse sido considerado pelas naes industriais uma prioridade urgente"46 Mas
foi justamente porque as autoridades coloniais no consideravam o desenvol-
vimento da frica uma prioridade urgente, nem uma prioridade em geral, que
elas devem ser condenadas.  por essas duas razes que a era colonial africana
permanecer na histria como um perodo de crescimento sem desenvolvimento,
de impiedosa explorao dos recursos do continente e, de modo geral, de humi-
lhao e pauperizao para os povos locais.


      Significado do colonialismo para a frica
    Isto nos leva  segunda questo levantada no incio deste captulo: qual foi a
verdadeira importncia do colonialismo para a frica? Ele constitui uma ruptura
com o passado do continente ou no mais do que um episdio de sua histria, de
alcance limitado, que no afetou o curso de seu desenvolvimento? Esta questo
tambm recebeu respostas contraditrias. Alguns historiadores, para no dizer
muitos, entre os quais os marxistas e os tericos do desenvolvimento e do anti-
desenvolvimento, argumentaram, com razes muito diferentes, que, embora o
colonialismo no passasse de um breve episdio, apesar disso havia tido enorme
influncia na frica, a qual ficou indelevelmente marcada. Conforme dizem R.
Oliver e N. Atmore: "Medido  escala da histria, o perodo colonial no passou
de um interldio relativamente breve. Mas esse interldio mudou radicalmente
a orientao e o ritmo da histria africana"47. Gann e Duignan tambm con-



46    LLOYD, 1972, p. 80.
47    OLIVER e ATMORE, 1972, p. 275.
O colonialismo na frica: impacto e significao                                947



sideram a poca colonial como "totalmente decisiva para o futuro da frica"48.
A reao dos marxistas e dos tericos do subdesenvolvimento est claramente
resumida no ttulo do livro How Europe Underdeveloped Africa, de Rodney.
    De resto, outros autores consideram que os efeitos do colonialismo foram
apenas superficiais e que ele no provocou a ruptura com o passado. Numa srie
de publicaes, J. F. A. Ajayi49 afirma, de maneira coerente, que o impacto do
colonialismo na frica tem sido exagerado; o colonialismo "representa apenas
um episdio em uma longa e rica histria" e no provocou ruptura histrica; os
africanos conservaram certo poder de controle sobre seu prprio destino e, por
fim, "na medida em que eles conservaram a iniciativa, os europeus no conse-
guiram imprimir orientao inteiramente nova  histria da frica". Hopkins
afirma igualmente que "a poca colonial deixou de ser considerada como a
nica matria da histria da frica" e acha "razovel pensar que a administrao
colonial teve efeitos econmicos menos importantes e menos generalizados do
que se supunha50", Ele insiste no fato de que o colonialismo no "transformou
um pas atrasado em um pas moderno, desfazendo um equilbrio tradicional
modesto" e que "a principal funo dos novos senhores era dar impulso a um
processo de desenvolvimento j em curso".
    Segundo esse autor, no existe resposta positiva ou negativa para a questo,
pois o impacto do colonialismo variou de regio para regio e de atividade para
atividade. No h a menor dvida de que, no plano econmico, este foi decisivo,
essencial, tendo marcado ao mesmo tempo a cidade e o campo. Em quase todas as
partes da frica, a economia monetria se tornou antes a regra do que a exceo ao
fim do perodo colonial. A posio das pessoas, mesmo nas zonas rurais, j no se
media pelo nascimento, pela quantidade de esposas e de filhos, mas tambm pelo
dinheiro e pelo volume de culturas exportveis produzidas em cada safra. Alm
disso, com a introduo da agricultura de exportao, a terra adquiriu um valor que
jamais tivera na poca pr-colonial, enquanto o esforo e as realizaes individuais
eram tidos mais em conta do que o esprito comunitrio da ordem tradicional. A
economia africana tambm se integrou mais profundamente na economia mun-
dial, em geral, e na capitalista, em particular, com consequncias possivelmente
permanentes. Infelizmente, a integrao foi feita de maneira muito desvantajosa
para uma frica explorada. Os 20 anos de independncia no alteraram funda-
mentalmente a situao, hoje conhecida pelo nome de neocolonialismo.

48   "lntroduction", in GANN e DUIGNAN, 1969, p. 23.
49   AJAYI, 1969; CROWDER e AJAYI, 1974; AJAYI, 1968.
50   HOPKINS, 1973, p. 167, 206, 235.
948                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



    Posto tudo isto, contudo, ser possvel concordar com Margery Perham em
que o principal impacto do colonialismo residiu em confrontar a frica com
a Europa do sculo XX51? Ou devemos defender aqui a opinio de Hopkins?
Tudo indica que este ltimo, est com a razo. Cumpre ressaltar que, indepen-
dentemente das mudanas de infraestrutura (estradas, ferrovias, telefone, tel-
grafo) trazidas pelo colonialismo, todas as demais transformaes econmicas
(a introduo da agricultura de exportao e da economia monetria, o desman-
telamento constante e paulatino das formas de vida comunitria, a integrao
da economia africana na economia mundial, a urbanizao) tinham comeado
antes da era colonial. Afigbo (no captulo 19) e Caldwell (no captulo 18) afir-
maram justamente, como Hopkins, que o colonialismo no fez seno acelerar
vertiginosamente o ritmo dessas transformaes e que, portanto, ele precipitou e
reforou, em vez de iniciar, a confrontao entre a frica e a Europa. No entanto,
fez isso de um modo que privou os africanos  os mais intimamente afetados
por elas  de qualquer papel essencial ou benfico. Ademais  e nisso entro em
desacordo com Hopkins  a alterao foi to rpida e to profunda que seu
impacto sobre os africanos no s foi traumtico como precipitou a economia
em uma direo mals e alienada, da qual ela no conseguiu ainda desviar-se. 
dentro deste quadro e no no da confrontao com a Europa do sculo XX que
se deve avaliar todo o impacto do colonialismo no nvel econmico.
    Os efeitos no nvel poltico foram igualmente fundamentais, duradouros e
ressentidos por todos os membros da sociedade africana. Como vimos, a prpria
estrutura geogrfica dos Estados africanos independentes  uma criao do colo-
nialismo. Com a adoo do princpio da inviolabilidade das fronteiras nacionais
pela Organizao da Unidade Africana (OUA), essa estrutura no est aberta a
mudanas. Em segundo lugar, mesmo depois da independncia,  certo ter havido
uma alterao essencial e permanente na fonte da autoridade e do poder poltico.
Na poca pr-colonial, o poder era exercido pela elite tradicional dos reis, rainhas,
chefes de famlia e de cl, bem como pelas autoridades religiosas. Mas as autori-
dades coloniais viram-se constrangidas a conceder a independncia e a soberania
 como veremos no volume VIII desta obra  no  elite dirigente tradicional,
mas  nova elite, aos membros das classes mdias superiores ou inferiores, quer
dizer, a uma classe criada pelo prprio sistema colonial. Essa situao jamais se
modificou. Em todo caso, a possibilidade de as tradicionais instituies reais serem




51    PERHAM, 1961.
O colonialismo na frica: impacto e significao                                   949



completamente abolidas, como o foram na Guin, por exemplo,  muito maior do
que a de serem mantidas e muito menor que a de serem reabilitadas.
    Em terceiro lugar, foi o colonialismo que deu origem ao nacionalismo afri-
cano, produto da clera, do ressentimento, da amargura, da frustrao e da
alienao que o sistema colonial engendrou.
    Em quarto lugar, o exrcito  uma das heranas do colonialismo, que j teve
papel decisivo na poltica da frica ps-colonial. A instituio no se acha em
vias de extino e, conforme veremos no volume VIII desta obra, j alterou o
curso da histria de numerosos pases africanos. E parece que ainda no encer-
rou sua carreira poltica. "O homem a cavalo", para citar a expresso de Finer,52
vai ficar por muito tempo entre ns e servir para nos lembrar constantemente,
como se necessrio fosse, o episdio colonial.
    Por fim, parece que as instituies judicirias e polticas  tribunais, parla-
mentos, comissrios de regio, de distrito etc.  vo ser conservadas, mesmo com
algumas alteraes e adaptaes que j foram e devem ser feitas. Talvez mais
do que no plano econmico, o impacto do colonialismo no plano poltico foi
realmente fundamental e, em muitos aspectos, mostra que veio para ficar.
    Por outro lado, no terreno cultural e social, o impacto do colonialismo no
foi relativamente profundo nem permanente. As mudanas introduzidas no
domnio cultural, a discriminao racial e a condenao da cultura africana tal
como era proclamada durante a dominao colonial limitavam-se no essencial
s zonas costeiras e aos centros urbanos, ao passo que a vida nas zonas rurais
seguia em grande parte seu prprio curso. A dana, a arte, a msica e os sistemas
religiosos tradicionais mantm-se: os emprstimos e as adaptaes feitos pelas
populaes no foram apenas seletivos, mas, como diz M. J. Herskovits, so
"adies e no obrigatoriamente substituies"53. Assim, nas zonas rurais e at,
em certa medida, nas cidades, novos cultos, crenas, deuses, utenslios, objetos e
produtos vieram juntar-se aos antigos.
    Certamente que, nessas zonas, muitos cristos continuam a acreditar em seus
deuses tradicionais. Aqui, na verdade, a religio europeia  que foi africanizada,
como demonstram o ritual, os hinos, a msica e mesmo as doutrinas de algumas
igrejas sincrticas e milenaristas  e no o contrrio. Mais importante ainda: as bases
culturais perdidas, mesmo nos centros urbanos, foram praticamente reencontradas.
Hoje em dia, a arte, a msica e a dana na frica no so apenas ensinadas em
todos os tipos de estabelecimentos escolares: esto em plena expanso e comeam a

52   FINER, 1962.
53   HERSKOVITS, M. J., 1962, p. 379.
950                                                  frica sob dominao colonial, 1880-1935



ser reconhecidas na Europa. Portanto, no piano cultural, o colonialismo no passou
verdadeiramente de um episdio. Seu impacto foi superficial e muito efmero.
    Finalmente, no nvel social, o significado do colonialismo  manifestamente
mltiplo e complexo. Por um lado, as linguae francae sero mantidas por muito
tempo, seno para sempre. Por outro, as novas classes criadas pelo colonialismo,
"fundadas nos critrios ocidentais da escola e da civilizao, e no nos critrios
africanos da riqueza e do prestgio"54, esto destinadas a ficar e a tornar-se mais e
mais complexas. A primeira  a elite poltica, constituda pelos dirigentes dos par-
tidos polticos que proliferaram na frica e so primeiros-ministros, presidentes,
ministros, embaixadores etc. O outro grupo  a elite militar, formada pelos oficiais
e ex-oficiais das foras armadas de cada Estado independente. Os membros desses
grupos so muito diferentes dos habitantes das zonas rurais pelo vesturio, estilo de
vida, gostos e posio. Claro que se as elites constitussem uma porcentagem apreci-
vel da populao africana, seria de aceitar sua formao como outra transformao
fundamental introduzida pelo colonialismo. J vimos, porm, que os grupos urba-
nos ou as elites constituam, no fim da era colonial, pequena frao da populao
(20% no mximo). O restante era formado por camponeses, que permaneceram
geralmente analfabetos e conservaram suas crenas, valores e modelos tradicionais.
De fato, a civilizao ou a socializao introduzidas pelo colonialismo representa-
ram essencialmente um fenmeno urbano, que realmente no tocou as populaes
rurais. Na medida em que estas formavam a esmagadora maioria dos habitantes
dos Estados africanos, podemos concluir razoavelmente e sem risco de erro que,
aqui, o impacto colonial, apesar de seu interesse, foi extremamente limitado.
    Em concluso, se bem que o colonialismo tenha sido indubitavelmente um
simples captulo de uma longa histria, um episdio ou interldio nas mltiplas
e diversas experincias dos povos da frica, que em parte alguma do continente
durou mais de 80 anos, representou no entanto uma fase de extrema importn-
cia do ponto de vista poltico, econmico e mesmo social. Assinala uma ntida
ruptura na histria do continente: o desenvolvimento posterior deste e, portanto,
de sua histria foi e continuar a ser muito influenciado pelo impacto do colo-
nialismo. Seguir um curso diferente daquele que teria seguido se o interldio
no tivesse existido. Hoje, a melhor maneira de agir, para os dirigentes africanos,
no consiste em apagar o colonialismo, mas sim em conhecer perfeitamente seu
impacto, a fim de tentar corrigir-lhe os defeitos e os insucessos.




54    MOORE e DUNBAR, 1969, p. 125.
                                                                          951




          Membros do Comit Cientfico
          Internacional para a Redao de
           uma Histria Geral da frica




Prof. J. F. A. Ajayi (Nigria) - 1971     S. Ex. a Sr. Mohammed El Fasi
Coordenador do volume VI                  (Marrocos) - 1971
Prof. Fernando A. Albuquerque             Coordenador do volume III
Mouro (Brasil) - 1975                    Prof. J. L. Franco (Cuba) - 1971
Prof. A. A. Boahen (Gana) - 1971          Sr. M. H. I. Galaal (Somlia) - 1971-
Coordenador do volume VII                 1981 (falecido em 1981)
S. Ex. a Sr. Boubou Hama (Nger)          Prof. V. L. Grottanelli (Itlia) - 1971
- 1971-1978 (demitiu-se em 1978;          Prof. E. Haberland (Repblica
falecido em 1982)                         Federal da Alemanha) - 1971
S. Ex. a Sr. Mutumba Bull (Zmbia)        Dr. Aklilu Habte (Etipia) - 1971
- 1971
                                          S. Ex. M. A. Hampat Ba (Mali) -
Prof. D. Chanaiwa (Zimbbue) - 1975       1971-1978 (demitiu-se)
Prof. P. D. Curtin (EUA) - 1975           Dr. Idris S. El-Hareir (Lbia) -
Prof. J. Devisse (Frana) - 1971          1978
Prof. M. Difuila (Angola) - 1978          Dr. I. Hrbek (Tchecoslovquia) -
Prof. H. Djait (Tunsia) - 1975           1971 Codiretor do volume III
Prof. Cheikh Anta Diop (Senegal) - 1971   Dra. A. Jones (Libria) - 1971
Prof. J. D. Fage (Reino Unido) -          Pe. Alexis Kagame (Ruanda) - 1971-
1971-1981 (demitiu-se)                    1981 (falecido em 1981)
952                                              frica sob dominao colonial, 1880-1935



Prof. I. N. Kimambo (Tanznia) - 1971    Prof. Y. A. Talib (Cingapura) - 1975
Prof. J. Ki-Zerbo (Burkina) - 1971       Prof. A. Teixeira da Mota (Portugal) -
Coordenador do volume I                  1978-1982 (falecido em 1982)
Sr. Diould Laya (Nger) - 1979          Mons. Th. Tshibangu (Zaire) - 1971
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Coordenador do volume II                 (Trinidad e Tobago) - 1976-1978
Prof. P. Mutibwa (Uganda) - 1975         (demitiu-se em 1978; falecido em
                                         1980)
Prof. D. T. Niane (Senegal) - 1971
Coordenador do volume IV                 Prof. A. A. Mazrui (Qunia)
                                         Coordenador do volume VIII (No 
Prof. L. D. Ngcongco (Botsuana) - 1971
                                         membro do Comit.)
Prof. T. Obenga (Repblica Popular
                                         Prof. C. Wondji (Costa do Marfim)
do Congo) - 1975
                                         Codiretor do volume VIII (No 
Prof. B. A. Ogot (Qunia) - 1971         membro do Comit.)
Coordenador do volume V
Prof. C. Ravoajanahary (Madagscar)      Secretaria do Comit Cientfico
- 1971                                   Internacional para a Redao de uma
Prof. W. Rodney (Guiana) - 1979-         Histria Geral da frica:
1980 (falecido em 1980)                  Sr. Maurice Gll, Diviso de
Prof. M. Shibeika (Sudo) - 1971-        Estudos e de Difuso de Culturas,
1980 (falecido em 1980)                  Unesco, 1, rue Mollis, 75015, Paris.
Dados biogrficos dos autores do volume VII                                          953




                         Dados biogrficos dos
                         autores do volume VII




  Capitulo 1         A. Adu Boahen (Gana). Especialista em histria colonial da frica
                     ocidental; autor de numerosas publicaes e artigos sobre a histria
                     da frica; professor e chefe do Departamento de Histria da Univer-
                     sidade de Legon Acra, Gana.
  Capitulo 2         G. N. Uzoigwe (Nigria). Especialista em histria da frica oriental
                     e, mais particularmente, no antigo reino Bunyoro de Uganda; autor de
                     vrias obras e artigos sobre a histria da frica; professor de Histria
                     da Universidade de Michigan, em Ann Arbor.
  Captulo 3         T. O. Ranger (Reino Unido). Especialista dos movimentos nacionalis-
                     tas e de resistncia na frica; autor e diretor de publicao de numero-
                     sas obras e artigos nessa rea; ex-professor de Histria da Universidade
                     de Dar es Salaam e da UCLA, Califrnia; atualmente leciona Histria
                     na Universidade de Manchester.
  Captulo 4         H. A. Ibrahim (Sudo). Especialista em histria do Egito e do Sudo
                     nos sculos XIX e XX; autor de numerosos estudos; mestre de confern-
                     cias na Universidade de Khartum (Departamento de Histria). Abbas
                     I. Ali (Sudo). Especialista em histria do Sudo e da frica oriental
                     no sculo XIX; autor de obras e de artigos nessas reas; ex-chefe do
                     Departamento de Histria da Universidade de Khartum.
  Captulo 5         A. Laroui (Marrocos). Especialista em histria do Maghreb; autor de obras
                     e de artigos sobre a histria da frica do norte no sculo XIX; professor
                     de Histria Moderna e Contempornea da Universidade de Rabat.
954                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



  Captulo 6    M. Gueye (Senegal). Especialista em histria da frica ocidental nos
                sculos XIX e XX; autor de numerosas obras sobre o trfico de escravos
                e a colonizao francesa; assistente da Faculdade de Letras da Univer-
                sidade de Dacar. A. Adu Boahen (Gana).
  Captulo 7    H. A. Mwanzi (Qunia). Especialista em histria da frica oriental;
                autor de numerosas obras e artigos tratando mais particularmente dos
                Kipsigi do Qunia; senior lecturer de Histria da Universidade de
                Nairbi.
  Captulo 8    A. Isaacman (Estados Unidos). Especialista em histria da frica;
                autor de numerosas obras e artigos; professor de Histria da Univer-
                sidade de Minnesota.
                J. Vansina (Blgica). Especialista em histria da frica; autor de nume-
                rosas obras e artigos sobre a histria da frica pr-colonial; professor
                de Histria da Universidade de Wisconsin, Madison.
  Captulo 9    D. Chanaiwa (Zimbbue). Especialista em histria da frica meridio-
                nal nos sculos XVIII e XIX; autor de numerosas obras e artigos sobre
                o assunto; ex-professor de Histria na California State University,
                Northridge; atualmente, professor de Histria da Universidade de
                Harare (Zimbbue).
  Captulo 10   M. Esoavelomandroso (Madagscar). Especialista em histria malgaxe
                nos sculos XVIII e XIX; professor de Histria na Faculdade de Letras
                da Universidade de Antananarivo.
  Captulo 11   M. B. Akpan (Nigria). Especialista em histria econmica da frica
                ocidental; autor de numerosas obras e artigos sobre a histria da frica
                ocidental; senior lecturer da Universidade de Calabar, Nigria.
                A. B. Jones (Libria). Especialista em histria da frica ocidental no
                sculo XIX; ex-embaixador e delegado permanente da Lbria junto
                das Naes Unidas.
                R. Pankhurst (Reino Unido). Especialista em histria da Etipia; autor
                de numerosas obras e artigos sobre o tema; ex-diretor do Instituto de
                Estudos Etopes da Universidade da Etipia.
  Captulo 12   M. Crowder (Reino Unido). Especialista em histria da frica oci-
                dental; autor de numerosas obras e artigos sobre o tema; lecionou
                em diversas universidades da Nigria; diretor da publicao History
                Today; atualmente, convidado pela Universidade de Botsuana.
  Captulo 13   R. F. Betts (Estados Unidos). Especialista em colonialismo euro-
                peu na frica nos sculos XIX e XX; autor de vrias obras e artigos
                sobre a histria da frica; professor de Histria da Universidade de
                Kentucky.
Dados biogrficos dos autores do volume VII                                                955



                    A. I. Asiwaju (Nigria). Especialista em histria da frica ocidental;
                    autor de diferentes obras e artigos sobre essa regio; professor de His-
                    tria da Universidade de Lagos.
 Captulo 14        W. Rodney (Guiana). Especialista em histria econmica da frica
                    ocidental; autor de vrias obras e artigos sobre o trfico de escravos na
                    frica ocidental; ex-professor de Histria da Universidade de Dar es
                    Salaam; lecionou igualmente nas Antilhas.
 Captulo 15        C. Coquery-Vidrovitch (Frana). Especialista em histria socioecon-
                    mica da frica; autora de vrias obras e artigos sobre o tema; atual-
                    mente, professora de Histria na Universidade de Paris VII.
 Captulo 16        M. H. Y. Kaniki (Tanznia). Especialista em histria econmica da
                    frica ocidental; publicou diversas obras e artigos sobre o tema; ex-
                    assistente na Universidade de Dar es Salaam; professor de Histria da
                    Universidade de Lusaka, Zmbia.
 Captulo 17        A. Kassab (Tunsia). Especialista em geografia econmica; autor de
                    vrios estudos sobre o tema; redator chefe da La Revue Tunisienne de
                    Gographie.
                    A. A. Abdussalam (Lbia). Especialista em histria econmica da Lbia;
                    autor de vrias obras sobre o tema; professor assistente de Economia
                    da Universidade Garyounis, Benghazi (Lbia).
                    F. S. Abusedra (Egito). Especialista em histria econmica; profes-
                    sor-assistente de Economia da Universidade Garyounis, Benghazi
                    (Lbia).
 Captulo 18        J. C. Caldwell (Austrlia). Especialista em demografia; autor de vrias
                    obras sobre a populao da frica tropical; professor de Demografia e
                    chefe do Departamento de Demografia da Research School of Social
                    Sciences da Universidade Nacional da Austrlia.
 Captulo 19        A. E. Afigbo (Nigria). Especialista em histria da frica ocidental;
                    autor de numerosas obras e artigos cientficos sobre a histria da Nig-
                    ria; ex-diretor do Instituto de Estudos Africanos da Universidade de
                    Nsukka (Nigria).
 Captulo 20        K. Asare Opoku (Gana). Especialista em religies africanas; autor
                    de numerosas obras e artigos sobre os diversos aspectos das religies
                    africanas; dirige um grupo de estudos sobre religio e tica no Instituto
                    de Estudos Africanos da Universidade de Gana.
 Captulo 21        W. Soyinka (Nigria). Especialista em filosofia, literatura e teatro afri-
                    canos; autor de numerosas obras nessa rea; ex-professor da Universi-
                    dade de Legon (Gana); professor de Arte Dramtica da Universidade
                    de Ife (Nigria).
956                                                   frica sob dominao colonial, 1880-1935



  Captulo 22   B. O. Oloruntimehin (Nigria). Especialista sobre a antiga frica
                Ocidental Francesa desde o sculo XIX; publicou numerosas obras e
                artigos sobre o tema; professor de Histria da Universidade de Ife.
  Captulo 23   H. A. Ibrahim (Sudo).
  Captulo 24   J. Berque (Frana). Especialista em histria social contempornea do
                islamismo; autor de numerosas obras sobre a histria do Egito e do
                Maghreb; antigo professor do College de France.
  Captulo 25   A. Adu Boahen (Gana).
  Captulo 26   E. S. Atieno-Odhiambo (Qunia). Especialista em histria poltica da
                frica oriental; autor de numerosas obras e artigos sobre a ascenso do
                nacionalismo nas fricas oriental e central; senior lecturer de Histria
                da Universidade de Nairbi.
  Captulo 27   A. B. Davidson (URSS). Especialista em histria da frica; publicou
                algumas obras sobre a frica; professor do Instituto de Histria Geral
                da Academia das Cincias da URSS, Moscou.
                R. Plissier (Frana). Especialista em movimentos de resistncia na
                frica dos sculos XIX e XX; autor de numerosas obras e artigos;
                pesquisador.
                A. F. Isaacman (Estados Unidos).
  Captulo 28   M. B. Akpan (Nigria). A. B. Jones (Libria).
                R. Pankhurst (Reino Unido).
  Captulo 29   R. D. Ralston (Estados Unidos). Especialista em histria da frica nos
                sculos XIX e XX; autor de numerosos artigos sobre as relaes entre
                a frica e o Novo Mundo; professor assistente de Histria do Depar-
                tamento de Estudos Afro-Americanos da Universidade de Wisconsin,
                Madison.
                Fernando A. Albuquerque Mouro (Brasil). Especialista em histria
                da frica; autor de numerosas obras e artigos sobre a histria afro-
                brasileira; professor de Histria e diretor do Centro de Estudos Afri-
                canos da Universidade de So Paulo.
  Captulo 30   A. Adu Boahen (Gana).
                Y. Kwarteng (Gana). Especialista em jornalismo e comunicao. Sua
                tese de doutoramento trata do "Desenvolvimento do jornalismo na
                frica ocidental depois de 1957"; assistente de redao do coordena-
                dor do volume.
Abreviaes e lista de peridicos                                            957




                                   Abreviaes e
                                lista de peridicos




AA -- African Affairs, Londres, Royal African Society
AEH -- African Economic History, Madison, Wisconsin
AESC -- Annales: conomies, socits, civilisations, Paris
Africa -- Africa, International African Institute, Londres
African Arts -- African Arts, University of California, Los Angeles, African Studies
   Center
African Literature Today -- African Literature Today, Londres, Heinemann
AHR -- American Historical Review, Washington DC, American Historical Association
AM -- Archives Marocaines Annuaire Mdical et Pharmaceutique Colonial, Paris
AQ -- African Quarterly, Nova Delhi

BIFAN -- Bulletin de l'Institut Fondamental d'Afrique Noire, Dacar
BSGL -- Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, Lisboa
BUP -- Boston University Press
BUPAH -- Boston University Papers in African History, Boston University, African
   Studies Center Bulletin des juridictions indignes et du droit coutumier congolais
BWHO -- Bulletin of the World Health Organization, Genebra

CEA -- Cahiers d'tudes Africaines, Paris, Mouton
CHJ -- Calabar Historical Journal, University of Calabar
CJAS -- Canadian Journal of African Studies, Canadian Association of African Studies,
  Department of Geography, Carleton University, Ottawa
958                                                    frica sob dominao colonial, 1880-1935



CSSH -- Comparative Studies in Society and History, Cambridge, CUP
CUP -- Cambridge University Press Cultura Cultura, Braslia

EAJ -- East Africa Journal, East African Institute of Social & Cultural Affairs, Nairbi
EALB -- East African Literature Bureau, Nairbi
EAPH -- East African Publishing House, Nairbi
EDCC -- Economic Development and Cultural Change, Nova York
EHA -- tudes d'Histoire Africaine, Kinshasa
EHR -- Economic History Review, Cambridge, Economic History Society Encounter
   Encounter, Londres
EC -- tudes Congolaises
EO -- Ethiopia Observer, Adis Abeba
ES -- Economy and Society, Londres, Routledge & Kegan Paul

Geneve-Afrique, Genebra
GJ -- Geographical Journal, Londres, Royal Geographical Society
GR -- Geographical Review, Nova York, American Geographical Society

HA -- Horn of Africa
Hadith -- Hadith, Nairbi
HJ -- Historical Journal, Cambridge, CUP
HMSO -- Her/His Majesty's Stationery Office, Londres
HUP -- Harvard University Press

IAI -- International African Institute, Londres
IFAN -- Institut Fondamental de l'Afrique Noire
IJAHS -- International Journal of African Historical Studies, Boston, Boston University,
   African Studies Center
IL -- International Law
IRCBM -- Institut Royal Colonial Belge, Mmoires, Bruxelas
IUP -- Ibadan University Press

JAH -- Journal of African History, Cambridge, CUP
JAS -- Journal of African Studies, University of California, Los Angeles, African Studies
   Center
JAf. S -- Journal of the African Society (mais tarde, African Affairs)
JCAHA -- Journal of the Central African Historical Association
JDS -- Journal of Development Studies, Institute of Development Studies, University
   of Sussex
JES -- Journal of Ethiopian Studies, Adis Abeba
Abreviaes e lista de peridicos                                            959



JHMAS -- Journal of the History of Medicine and Allied Sciences, Nova York
JHSN -- Journal of the Historical Society of Nigeria, Ibadan
JMAS -- Journal of Modern African Studies, Cambridge, CUP
JNH -- Journal of Negro History, Washington DC
Journal Officiel de l'AEF, Brazzaville
JP -- Journal of Politics, Gainesville, Flrida
JSAS -- Journal of Southern African Studies, Londres, OUP

KHR -- Kenya Historical Review, Nairbi
Kongo-Oversee -- Kongo Oversee

The Lancet -- The Lancet, Londres
Le Matriel Colonial, Paris
LSJ -- Liberian Studies Journal, Newark, Delaware, University of Delaware
Marchs Coloniaux, Paris

MARSOM -- Mmoires de l'Academie Royale des Sciences d'Outre-Mer, Bruxelas
MBAB -- Mitteilungen der Basler Afrika Bibliographien, Basel
MMFQ -- Millbank Memorial Fund Quarterly , Londres
MIT -- Massachusetts Institute of Technology
MUP -- Michigan University Press
The Muslim World -- The Muslim World, Hartford, Connecticut

Nigeria Magazine -- Nigeria Magazine, Lagos
NJESS -- Nigerian Journal of Economic and Social Studies, Ibadan
NUP -- Northwestern University Press

Odu -- Odu, Ife, University of Ife Press
Omaly sy Anio -- Omaly sy Anio, Antananarivo
Optima -- Optima, Johannesburgo
OUP -- Oxford University Press

PA -- Prsence Africaine, Paris
PAPS -- Proceedings of the American Philosophical Society, Filadlfia
Practical Anthropology -- Practical Anthropology
PP -- Past & Present, Oxford
PS -- Population Studies, Londres
PUF -- Presses Universitaires Franaises
PUP -- Princeton University Press
960                                                 frica sob dominao colonial, 1880-1935



RA -- Revue Africaine, Journal des Travaux de la Socit Historique Algrienne, Argel
Research Review -- Research Review, University of Ghana, Legon, Institute of African
   Studies
RFHOM -- Revue Franaise d'Histoire d'Outre-Mer, Paris
RUA -- Royal Institute of International Affairs, Londres
RLJ -- Rhodes-Livingstone Journal (agora African Social Research), Lusaka
RM -- Revue Marocaine
R Med. -- Revue de la Mediterrane, Argel
ROMM -- Revue de l'Occident Musulman et la Mditerrane, Aix-en-Provence
RPC -- Rechercher Pdagogique et Culture
RSEHA -- Revue Smitique d'pigraphie et d'Histoire Ancienne, Paris
RSSJ -- Royal Statistical Society Journal, Londres

SNR -- Sudan Notes & Records, Khartum
SOAS -- School of Oriental and African Studies, University of London
SR -- Sociological Review, Manchester
SUP -- Stanford University Press

Tarikh -- Tarikh, Ibadan, Longman
THSG -- Transactions of the Historical Society of Ghana, Legon
TJH -- Transafrican Journal of History, Nairbi
TRSTMH -- Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene, Londres
Transition -- Transition, Kampala (depois, Acra)

Ufahamu -- Ufahamu, Journal of the African Activist Association, Los Angeles
UJ -- Uganda Journal, Uganda Society, Kampala
UP -- University Press

West Africa -- West Africa, Londres
WUP -- Witwatersrand University Press

Yale Review -- Yale Review, New Haven
YUP -- Yale University Press
Referncias bibliogrficas                                                 961




                        Referncias bibliogrficas




   Todas as referncias foram verificadas com o mximo cuidado, mas dada a
complexidade e o carter internacional das obras  possvel que alguns erros tenham
persistido.

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                             ndice remissivo




frica central, 19, 33,39, 42,   frica do norte (e Saara),        neiro e comrcio, 498-
   192-219, 325, 343, 380,          29, 41-43, 102, 123,           522; sistema financeiro
   383, 389, 390, 394, 418,         342-5; agricultura e           e fiscal, 494, 498-528;
   441, 450, 466, 468, 535,         terra, 485-528; comu-          urbanizao, 508-9.
   537, 549, 552, 556, 565          nicaes e portos,          frica do Sul, 53, 220-250,
   560; economia, 343, 380,         496-528; depresso             438-484, 529-31; alie-
   383, 389, 390, 394, 418,         econmica, 499-528;            nao da terra, 356-7,
   441, 450, 466, 468; era de       economia colonial,             363, 382, 787; ANC,
   confrontao e aliana,          485-528; Estados do            793-802; colonos
   192-219; insurreies            Maghreb e europeus,            brancos, 220-50, 347,
   coloniais, 192-219;              100-13; indstrias arte-       388, 395, 439-42, 453,
   poltica e nacionalismo,         sanais, 498-527; infra-        580, 713, 787; consti-
   786-831; povo e poltica         estrutura, 497,512-528;        tuio da (1909), 242;
   (mapa), 194; resistn-           islo, 525, 593-624;           crescimento populacio-
   cia, 187-209; frica de          mapa das principais            nal, 529-31; criao da
   lngua francesa, 354-            regies do Maghreb e           Unio (1910), 476, 481-
   5, 368-385; atividades           do Saara, 101; minera-         98; economia, 402-437,
   polticas na frica oci-         o, 495-512; poltica de      438-484; emigrao de
   dental, 728-755. frica          campesinato, 507-509;          negros americanos para
   do nordeste: poltica e          poltica e nacionalismo,       a, 786-831; evange-
   nacionalismo, 675-701;           676-701; resistncia,          lismo negro americano,
   resistncia, 73-98.              73-98; sistema adua-           793, 850-875; guerras
1010                                                     frica sob dominao colonial, 1880-1935



   anglo-beres, 39, 220-          nacionalismo rural de           41, 131-3, 139-43, 146,
   250; igreja etope, 282,        massa, 728-755; Pri-            156-7, 162-4, 334-400;
   615, 624, 763; influ-           meira Guerra Mundial,           Daom, 131-3, 144-6;
   ncia Tuskegee, 783;            325, 329; religio afri-        e a elite africana, 568-
   manufatura, 466-9,              cana tradicional, 592-3,        9, 572-3; e escritores
   481; poltica e nacio-          595-7, 600; resistncia         africanos, 626-655; e
   nalismo, 317-8, 580-1,          econmica, 57, 68;              o islo, 704-725; Eti-
   639, 679, 681-95; pol-         sindicatos, 731.                pia, 282-319, 832-
   ticas racistas, 357, 363,    frica oriental, 1, 7, 25,         872; governo da Frente
   375-378, 413-453, 786-          325-352, 355, 358-9,            Popular, 437; imprio
   831; Primeira Guerra            368, 370-380, 542, 544,         Ahmadu e Tukulor,
   Mundial, 325-8, 336,            575; associaes, 667-          135-9; Libria, 282-
   339-352; protesto cam-          71, 685; colonos bran-          319, 832-872; Mada-
   pons, 681-3; protestos         cos e alienao da terra,       gscar, 25, 32, 252-280;
   da classe trabalhadora,         183, 184; economia              Marrocos, 43, 100-
   801-5; rebelio de              colonial, 441-7, 460,           26, 485-528; poltica
   Bambata, 224, 244;              466, 468-70; islo, 595,        assimilacionista, 258,
   rebelio dos afrikaners,        598, 600; mapa de povos         643; Primeira Guerra
   325, 328, 339; Sudo-            e poltica, 170; movi-          Mundial, 320-352;
   este Africano, 239, 248,        mentos anticoloniais,           realizao de tratados
   249, 324-31, 481; urba-         186-9; movimentos de            e esferas de influncia,
   nizao, 478-81, 508;           protesto religioso, 608;        43, 106; rebelio de
   Zulu, 220-250.                  mudanas ecolgicas,            Lamine contra a, 137-
frica ocidental, 30, 32, 33,      171; partilha, 21-50;           42; Samori Tour, 137,
   39-41, 57, 68, 130-167;         poltica e nacionalismo,        139-47; Senegmbia,
   administrao colonial,         758-785; religio tra-          41, 133-5; Somlia,
   326-7, 328, 332-3, 336;         dicional africana, 592-         93-7, 671-5, 693-701;
   artes, 559-64, 566-73;          624; resistncia, 69, 95,       Tunsia, 32, 100, 106,
   Conferncia de Berlim,          168-90; sob domnio             255, 381, 485-528.
   32-4; conquista militar,        colonial, 175, 183-90.
   41-5; conquista e rea-       frica setentrional, 1, 3,
   o, 130-167; econo-            100-128, 497, 671,
   mia colonial, 402-437;          938; Arglia, 1, 3, 106,
   ligas e movimentos da           118-9, 124, 334-5, 354,
   juventude, 728-785;             369-75, 387, 485-528,
   NCBWA, 731, 738-                662-4, 703; coloni-
   55; partidos polticos,         zao agrcola, 354,
   734-755; partilha, 57-8,        487-528; conquista
   130; poltica e naciona-        militar, 106, 119, 124-
   lismo e poltica rural ou       6; Costa do Marfim,
                                  Organizao
                           das Naes Unidas
                              para a Educao,
                          a Cincia e a Cultura




UNESCO HISTRIA GERAL DA FRICA VOLUMES I-VIII

Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda         melhor permitissem acompanhar a evoluo dos
espcie ocultaram ao mundo a verdadeira histria da       diferentes povos africanos em seus contextos
frica. As sociedades africanas eram vistas como          socioculturais especficos.
sociedades que no podiam ter histria. Apesar dos        Esta Coleo traz  luz tanto a unidade histrica da
importantes trabalhos realizados desde as primeiras       frica quanto suas relaes com os outros continentes,
dcadas do sculo XX por pioneiros como Leo Frobenius,    sobretudo as Amricas e o Caribe. Durante muito
Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande            tempo, as manifestaes de criatividade dos descendentes
nmero de estudiosos no africanos, presos a certos       de africanos nas Amricas foram isoladas por certos
postulados, afirmava que essas sociedades no podiam      historiadores num agregado heterclito de africanismos.
ser objeto de um estudo cientfico, devido, sobretudo,
                                                          Desnecessrio dizer que tal no  a atitude dos autores
 ausncia de fontes e de documentos escritos.
                                                          desta obra. Aqui, a resistncia dos escravos deportados
De fato, havia uma recusa a considerar o povo africano    para as Amricas, a "clandestinidade" poltica e cultural,
como criador de culturas originais que floresceram e se   a participao constante e macia dos descendentes de
perpetuaram ao longo dos sculos por caminhos             africanos nas primeiras lutas pela independncia, assim
prprios, as quais os historiadores, a menos que          como nos movimentos de libertao nacional, so
abandonem certos preconceitos e renovem seus              entendidas em sua real significao: foram vigorosas
mtodos de abordagem, no podem apreender.                afirmaes de identidade que contriburam para forjar o
A situao evoluiu muito a partir do fim da Segunda       conceito universal de Humanidade.
Guerra Mundial e, em particular, desde que os pases      Outro aspecto ressaltado nesta obra so as relaes da
africanos, tendo conquistado sua independncia,           frica com o sul da sia atravs do oceano ndico,
comearam a participar ativamente da vida da              assim como as contribuies africanas a outras
comunidade internacional e dos intercmbios que ela
                                                          civilizaes por um processo de trocas mtuas.
implica. Um nmero crescente de historiadores tem se
empenhado em abordar o estudo da frica com maior         Avaliando o atual estgio de nossos conhecimentos sobre
rigor, objetividade e imparcialidade, utilizando com      a frica, propondo diferentes pontos de vista sobre as
as devidas precaues fontes africanas originais.         culturas africanas e oferecendo uma nova leitura da histria,
No exerccio de seu direito  iniciativa histrica,       a Histria Geral da frica tem a indiscutvel vantagem
os prprios africanos sentiram profundamente a            de mostrar tanto a luz quanto a sombra, sem dissimular as
necessidade de restabelecer em bases slidas a            divergncias de opinio que existem entre os estudiosos.
historicidade de suas sociedades.                         Nesse contexto,  de suma importncia a publicao
Os especialistas de vrios pases que trabalharam nesta   dos oito volumes da Histria Geral da frica que ora se
obra tiveram o cuidado de questionar as simplificaes    apresenta em sua atual verso em portugus como fruto
excessivas provenientes de uma concepo linear e         da parceria entre a Representao da UNESCO no Brasil,
restritiva da histria universal e de restabelecer a      a Secretaria de Educao Continuada, Alfabetizao e
verdade dos fatos sempre que necessrio e possvel.       Diversidade do Ministrio da Educao do Brasil (Secad/
Esforaram-se por resgatar os dados histricos que        MEC) e a Universidade Federal de So Carlos (UFSCar).
